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Perspectivas em Ciência da Informação

Print version ISSN 1413-9936

Perspect. ciênc. inf. vol.14 no.spe Belo Horizonte  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-99362009000400002 

Transmitir, difundir : formas de institucionalização de uma disciplina

 

Transmettre, diffuser : formes d'institutionnalisation d'une discipline

 

 

Viviane Couzinet

Professeur des universités en sciences de l'information et de la communication Université de Toulouse Paul Sabatier, IUT, Laboratoire d'études et de recherches appliquées en sciences sociales (LERASS), EA 827, équipe Médiations en information et communication spécialisées (MICS)115b, route de Narbonne, 31077 Toulouse cedex 4, France

 

 


RESUMO

Depois da institucionalização administrativa de uma disciplina (fase 1) um conjunto de instrumentos proveniente da prática profissional em informação-documentação foram vistos como meios de construção de um alicerce (fase 2). Com efeito, parece-nos  possível aproveitar as competências adquiridas na produção de instrumentos documentais para traçar os contornos de um  campo científico. Estendendo uma pesquisa realizada anteriormente, trata-se aqui de compreender como as linguagens documentais utilizadas nas bibliotecas e na imprensa, no momento da emergência , na França, da disciplina ciências da informação e da comunicação, puderam contribuir para que fosse dada uma imagem desta disciplina a um público mais amplo do que o das universidades que a abriga. A entrada na esfera pública, observada a partir dos instrumentos documentais é encarada aqui como fase de sua consolidação (fase3).

Palavras-chave: Classificação documenta;, thesaurus; institucionalizaçã;, ciência da informação-documentação; biblioteca;, Le Monde.


RÉSUMÉ

Après l'institutionnalisation administrative d'une discipline (phase1) un ensemble d'outils provenant de la pratique professionnelle en information-documentation ont été envisagés comme moyens de construction d'une assise (phase 2). Il semble, en effet, possible de mettre à profit les compétences acquises dans la production d'outils documentaires pour tracer les contours d'un champ scientifique. Prolongeant une recherche conduite précédemment il s'agit ici de comprendre comment les langages documentaires utilisés dans les bibliothèques et dans la presse, au moment de l'émergence, en France, des sciences de l'information et de la communication, ont pu contribuer à donner une représentation de cette discipline à un public plus large que celui des universitaires concernés. L'entrée dans la sphère publique, observée à partir des outils documentaires est envisagée ici comme phase de consolidation (phase3)

Mots clés: Classification documentair; thésaurus; institutionnalisation; science de l'information-documentation;  bibliothèques; Le Monde.


 

 

Introdução

Interrogar-se sobre a institucionalização duma disciplina é tentar retraçar o caminho utilizado por seus fundadores para torná-la reconhecida pela estrutura administrativa encarregada do desenvolvimento do ensino e da pesquisa, no mais alto nível do Estado. Na França, depois de muitas reuniões de trocas de ponto de vista científico, da realização do primeiro congresso organizado em 1978, na constituição de grupos de pesquisa e de projetos de formação, a institucionalização da disciplina « ciências da informação e da comunicação» (CIC)1 é realizada por sua inscrição administrativa no Conselho superior das universidades (Couzinet, 2004).

No entanto, tanto no Brasil como na França, este primeiro estado de institucionalização tendo sido alcançado, torna-se necessário buscar outros meios visando assegurar a permanência do

número de pesquisadores. No entanto, zonas de fragilidade aparecem, como a insuficiência de formações de doutores que venham assegurar a renovação do corpo docente e de pesquisadores, e a fraca presença nos postos do governo ou em níveis mais elevados de tomada de decisão –conselhos, presidência das universidades, gabinetes ministeriais- ou ainda estado de « disciplina instituída ». Com efeito, é bastante corrente que em função das decisões políticas, como a de instaurar prioridades para setores de excelência ou a vontade de reagrupar disciplinas por razões econômicas, ela seja deixada  de lado, ou até mesmo chegue a desaparecer. Podemos mesmo afirmar que o trabalho de institucionalização deve ser sempre colocado em discussão e nunca ser considerado como terminado.

Além disso, o desenvolvimento das pesquisas que constrói ao mesmo tempo a disciplina e o seu lugar entre as outras, é um canteiro de obra permanente que cresce potencialmente com o pelo fechamento em  formações  de visão exclusivamente profissional, em detrimento da construção de conhecimentos. É preciso então estabelecer meios visando a assegurar uma sustentação, no sentido que este termo tem na construção civil, quer dizer utilizar instrumentos que assegurem o alicerce de um edifício em construção, particularmente na progressão de andar a andar e na colocação de esquadrias de diversas aberturas. O savoir-faire dos profissionais da informação pode ser aproveitado para assegurar esse alicerce.

Foi assim que nós estabelecemos a primeira etapa de uma pesquisa empírica visando compreender as diferentes fases do processo de institucionalização de uma disciplina. A primeira fase que consiste em reunir as forças disponíveis para trabalhar na emergência de um programa comum de pesquisa para se definir progressivamente as maneiras de abordagem, as problemáticas  e os métodos é muitas vezes trabalhada e exposta pelos precurssores da disciplina em primeiro lugar, depois pelos membros da comunidade em construção. Ela permite obter, depois de muitos esforços, o reconhecimento administrativo (fase1 ou fase administrativa). A segunda fase orientada pelas  formas de representação e de transmissão de conhecimentos desenvolvidos no núcleo da disciplina, utiliza meios muito diversificados. Foi assim, que nós  examinamos, durante o primeiro colóquio da rede MUSSI, sob o título:  Representar, criar um repertório, transmitir: formas e institucionalização de uma disciplina (Couzinet, 2008) como as ferramentas utilizadas pelos profissionais da informação podiam dar conta do avanço de uma disciplina e contribuir para a sua institucionalização (fase 2 ou fase de construção). Lembraremos as conclusões deste primeiro trabalho na primeira parte deste texto.

Aqui, uma terceira fase nos parece útil de ser examinada. Como estender, para além da comunidade científica envolvida, o reconhecimento de uma disciplina? Como introduzi-la na esfera pública? Trata-se  de analisar os instrumentos documentais não somente como meios para definir os domínios de competência disciplinares mas como meios de destacar o valor dos seus contornos essenciais a fim de dar visibilidade à produção científica e assim a fazer entrar na fase de consolidação ( fase 3). Para isso nos referimos às ferramentas em vigor nos « centros de cultura » indo da universidade à vida cotidiana. O papel das bibliotecas como instrumentos essenciais de formação do trabalho intelectual, de diversificação e de aprofundamento dos conhecimentos e da imprensa cotidiana nacional como meio de inclusão em uma sociedade em movimento, servirão de terreno à nossa reflexão.

 

1 Representar, criar repertórios, transmitir.

Nós estudamos formas de institucionalização a partir da capacidade dos instrumentos de representar, criar repertórios e transmitir os saberes construídos na disciplina ciências da informação e da comunicação ( CIC) colocando essa disciplina em relação à posição que lhe é atribuída pelas outras.

1.1 Representar 

A análise apóia-se sobre o exemplo da bibliologia, como parte das CIC. Ancorada na história intelectual das civilizações antigas, ela foi renovada, na França, no período de 1980 a 1999. Pode-se, com efeito, considerar que o Thesaurus de la bibliologie elaborado por Joumana Boustany e Robert Estivals (1999) é a obra manifesta de maior projeção e conclusão das pesquisas neste domínio.

A linguagem documentária é uma ferramenta que serve para  ordenar, quer dizer, colocar objetos documentais, uns em relação aos outros em um conjunto, considerando uma característica que lhes é particular. O objetivo é ao mesmo tempo, o de relacionar e o de diferenciar em núcleos de subconjuntos distintos. Esta operação é uma operação de classificação, de distribuição lógica de obras dentro de um espaço para facilitar a sua recuperação. Ao classificá-las, o sistema utilizado desenha os subconjuntos de uma área do conhecimento. Assim, de um sistema de organização de conhecimentos, terminologia geralmente utilizada para o designar após a criação  da sociedade científica International Society for Knowledge Organization (ISKO) e da sua revista Knowledge organization, passa-se a um sistema  de representação do saber.

Mostramos que o trabalho de elaboração de classificação de uma disciplina tem um interesse científico pois ao colocar as articulações, as fronteiras e os métodos, ele torna visível as condições de aberturas possíveis para outras disciplinas, assegura as esquadrias , para retomar a metáfora arquitetural. Ele é igualmente o complemento da institucionalização administrativa (fase 1), e o apoio ao desenvolvimento mas ele não permite distinguir os elos que se estabelecem no interior das articulações. Este limite da esquematização arborescente foi compensado pela observação das possibilidades ofertadas pela relação de associações, presente de maneira mais forte nos thesaurus que nas classificações.

Estas duas ferramentas, classificação e  thesaurus, obrigam a um trabalho de  delimitação, e de comparação com as disciplinas próximas. Elas obrigam igualmente a refletir sobre a forma de expressão nos conceitos,  nos métodos, nos objetos, nas aproximações e nas associações que as ligam. A elaboração de tais ferramentas conduz a uma disposição, que constrói uma representação de saberes e de domínios da competência de uma disciplina. Daí concluímos que elas são portanto igualmente uma representação do lugar que a disciplina ocupa ou deseja ocupar.

1.2 Criar repertórios

Por outro lado, ao nos referirmos aos trabalhos de Pierre Frieden (1934) nós nos interessamos, a princípio, pelo lugar ocupado pela bibliografia como ferramenta documental que permite tornar conhecida a produção científica de um determinado domínio de pesquisa. Em seguida, centramo-nos no lugar ocupado pelos bancos de dados, que a sucederam e, sobretudo, o que foi desenvolvido pelo l'Institut de l'information scientifique et technique (INIST) que é, na França, o centro de documentação do Centre national de la recherche scientifique (CNRS). A análise das revistas indexadas ou das revistas reunidas em repertórios e dos descritores das bases de dados permite afirmar que a indexação pode  ser considerada como uma atribuição de valor já que ela é o resultado da escolha de fazer, ou não, um trabalho aprofundado sobre documentos selecionados.

Para uma disciplina a presença nos bancos de dados é ao mesmo tempo uma forma de reconhecimento do seu interesse e da utilidade dos seus trabalhos, uma vitrine e uma atribuição de valor a sua produção. Uma vez que o banco de dados é o de um Instituto esta presença é certamente uma forma de institucionalização.

Entretanto, os bancos de dados podem também exercer um papel de enfraquecimento. A base Sciences de l'information do l'INIST, por exemplo, está separada das ciências da comunicação, o que não corresponde à organização disciplinar francesa e, por outro lado, as ciências da comunicação não dispõem, até hoje, de base própria (Couzinet, Senié-Demeurisse, 2009). Enfim, a inclusão, até ao fim dos anos 1990, no conjunto intitulado Pascal, dedicado às ciências, às tecnologias e à medicina, contribuiu para construir uma representação de ciência exclusivamente aplicativa, o que representa um risco considerável em um contexto onde a pesquisa  fundamental e teórica constituem o alicerce de disciplinas reconhecidas.

Foi também examinada a importância da constituição de uma memória, não somente para elaboração de um repertório como em um banco de dados, mas também pelo enumeração e pela reedição de textos antigos, muitas vezes dispersos. Com efeito, esses últimos testemunham a existência e a necessidade, de conduzir trabalhos e uma reflexão sobre a disciplina em questão e de seguir os trilhas que ela deixou tanto quanto as  aberturas possíveis para compreender as situações atuais. Este conjunto de conhecimentos acumulados, desenvolvidos, retomados, reorientados, criticados são constitutivos dos saberes.

1.3 Transmitir

A questão do compartilhamento dos saberes, central em informação-documentação foi enfim abordada a partir da « sociedade da informação ». O que nós chamamos em outro momento de « primeiro choque de informação » contemporâneo –a descoberta pelos Estados-Unidos que a informação científica e técnica circulava mal no mundo da pesquisa e da indústria ocidental- depois « segundo choque de informação  » -a iminência anunciada da difusão da informação em todos os domínios por redes  técnicas – recebeu, dos poderes públicos, uma resposta majoritariamente, ou até exclusivamente técnica (Kerr Pinheiro, Thiesen, Couzinet, 2009). Da mesma maneira, a formação dada atualmente nos liceus e colégios pelos professores documentalistas2 centra-se na  utilização de máquinas o que distancia de uma aprendizagem de domínio dos conteúdos informacionais.

Aqui ainda, se a entrada no ensino secundário é uma maneira forte de assentar uma disciplina, de a institucionalizar, ela não pode ser considerada como tal sem que lhe ser atribuído seu verdadeiro espaço. Para isto ela precisa ter um estatuto equivalente às outras  disciplinas. Ela deve transmitir saberes nocionais e de savoir-faire, apoiar-se em uma formação universitária, ser transmitida por professores especializados. Ora, por exemplo, o ensino da documentação, nas classes pós ano final do ensino médio3, é assegurado por professores oriundos da área das ciências da gestão e não por professores documentalistas.

Parece então que, se a entrada na escola é um dos meios da institucionalização de uma disciplina, ela tem de ser fundada no compartilhamento de um saber teórico e de um saber prático. No caso das ciências da informação-documentação este limite é muito importante pelas peculiaridades da função dos professores do ensino secundário.

Estes diversos elementos favorizando a institucionalização de uma disciplina sendo colocados com seus limites, como poderão torná-la conhecida por um público mais amplo , que sirva eventualmente de intermediário e que venha contribuir para a sua difusão e a sua consolidação?

 

2 Transmitir e difundir

É consenso que as missões das bibliotecas, de conservação da produção intelectual  e da sua colocação à disposição do público, fazem delas lugares de difusão dos conhecimentos úteis para os estudos e para a cultura em geral. Elas permitem a « presença » de autores antigos ou contemporâneos. A imprensa coloca-se na atualidade do momento econômico, social, político e universitário, especialmente pelos  jornais de alcance nacional e reconhecimento internacional. O alargamento do reconhecimento das ciências da informação e da comunicação pode ser analisado, aqui ainda, a partir das linguagens documentais, mas no contexto particular das bibliotecas universitárias e das bibliotecas públicas, e do jornal de referência francês: le Monde.

2.1 Cultivar-se

Na França, a classificação decimal de Melvil Dewey é utilizada nas bibliotecas públicas. Todos os bibliotecários, em sua formação são iniciados no uso desse sistema. Considerada como uma ferramenta essencial na organização de acervos, sua elaboração é eminentemente técnica. No panorama atual das pesquisas não parece ainda existir um projeto alternativo que possa ser  destinado à gestão de estoques de livros (Hjørland, 2008).

A versão abreviada da classificação Dewey, em vigor no período analisado, aparece relativamente detalhada por uma parte consagrada às generalidades. Tratando-se aqui de uma ferramenta de « organização» regularmente atualizada, podemos considerar que ela acompanha a atualização da produção editorial com a defazagem de vários meses necessários à criação dos índices, sua aprovação, a preparação de uma nova edição, a impressão e a adoção pelos bibliotecários. Se  retomarmos o exemplo da bibliologia usado anteriormente (Couzinet, 2008) podemos nos admirar por sua ausência no período. Esta parte das ciências da informação conhece, com efeito, um desenvolvimento sequencial de trabalhos que irão se afirmar com um grupo de pesquisa, elaboração de uma classificação, edição de uma revista, organização de colóquios e constituição duma rede internacional que amplamente faz eco aos avanços, reedição do Tratado de documentação de Paul Otlet e publicação de obras que põem as questões ligadas ao livro como disciplina (Estivals, 1978 )

00 Generalidades
        001 o saber e sua extensão
                001.2 Erudição e conhecimento
                001.3 Humanidades
                001.4 Metodologia e pesquisa[…]
                001.5 Informação e comunicação
                001.53 Cibernética
                               001.539 Teoria da informação
                                       001.54-001.56 Comunicação
                                       001.54 Comunicação em linguagem articulada […]
                                       001.55 Comunicação por documentos (impressos e manuscritos, documentos audiovisuais, visuais e sonoros)
                                       001.56 Comunicação em linguagem não articulada (pantomima, linguagem por signos)
                001.6 Tratamento de dados
                               001.64 Tratamento eletrônico de dados( informática)
                001.9 Controvérsia e falsidades (curiosidades, enigmas, mistificações superstições)

1.Extrato de La classification décimale de Dewey : présentation suivie d'un abrégé de la première version intégrale française por  Béthery Annie. Paris : ed. Cercle de la librairie, 1980, p. 43.

A contrario pode-se constatar que o lugar dado às « bibliografias e catálogos » depois à  « biblioteconomia e técnicas de documentação» é bastante desenvolvido (48 índices disponíveis na subdivisão 020).

Servindo a constituir o catálogo topográfico necessário para realizar o inventário do acervo, a classificação não é utilizada pelos usuários a não ser por intermédio de um catálogo matéria, ele mesmo constituído com a ajuda de um léxico. A partir dos anos 1980, o léxico de referência é o estabelecido por duas bibliotecárias, Martine Blanc-Montmayeur e Françoise Danset. O usuário tendo efetuado sua pesquisa a partir duma entrada de indexação extraída do léxico deve  retirar os cabeçalhos de assunto estabelecidos com a classificação Dewey para encontrar o livro nas estantes. Nota-se que neste léxico a entrada de indexação « bibliologia » está presente e reenvia para várias entradas de indexação « edição» desenvolvidas.

Edição
Edição ver também Bibliologia
Edição, contrato
Edição economia
Edição indústria
Edição legislação
Edição, profissões
Edição nome de lugar, datas
Edição por conta do autor
Edição oficial
Edição original

2.Extrato de Choix des vedettes matières à l'intention des bibliothèques /Blanc Montmayeur Martine, Danset Françoise . Paris : ed.  Cercle de la Librairie, 1984, p.

No entanto a comparação da entrada « edição » com a que a segue « educação » permite constatar que é possível para esta última de localizar, a partir de numerosos pontos de vista, 22 contra 10 para « edição », por associação de subentradas das quais « política », « psicopedagogia », « sociologia », « teoria » e tornar preciso o « factor psicopedagógico e social ». Estas sub entradas sugerem que a educação abre espaço a uma produção de saberes de dimensão científica. Com a classificação Dewey e o léxico de entradas de assunto que o acompanha tudo se passa como se a abordagem científica não existisse. O que confirma, pelo menos parcialmente, o objetivo gestor da classificação.

A precisão da classificação Dewey e do léxico  parece insuficente para representar de forma significativa a pesquisa em ciências da informação e da comunicação mesmo se no período observado, os anos 1980, a produção científica começasse a se intensificar. No entanto, não se pode negar, que estas duas ferramentass permitem fazer reconhecer a existência de trabalhos sobre objetos, mas aqui essencialmente materiais, ligados às CIC. Fica  a cargo do usuário construir ele mesmo, se puder, a relação entre objeto material e objeto scientífico, conhecer pela prática e conhecer construído pela pesquisa.

2.2 Estudar 

A Classificação décimal universal (CDU) foi utilizada nas bibliotecas universitárias francesas até ao final dos anos 19804. O acesso aos depósitos de documentos, até essa época, era bastante limitado e a passagem era obrigatória pelo responsável pelo setor para se obter a maior parte dos documentos desejados. Somente  as obras de referência e em particular numerosos dicionários e enciclopédias eram de livre acesso aos usuários.

Para retomar o exemplo da institucionalização das CIC referimo-nos à edição resumida publicada em 1986. Na versão utilizada nesse momento, o título da subdivisão 00 específica o modo de acesso. Aqui a documentação que é desenvolvida em « conjunto da produção literária 002.2 ; centros de documentação 002.6 ; serviços de documentação 002.66, é vista como fazendo parte da biblioteconomia e da leitura. A prática profissional domina.

2.3 Classe 0 Generalidades

00 Prolegómenos. Bases gerais  da ciência e da cultura.
        001 Ciências e conhecimentos em geral. Saber. Erudição
        002 Documentação
        003 Escrita. Sinais gráficos
        005 Estudo da organização. Metodologia, análise, síntese e            sistematização em geral.
        006 Normalização
        007 Ação e organização em geral. Atividade humana. Informação. Teoria do controle. Cibernética
        008 Civilização. Cultura. Progresso
        009 Ciências do espírito em geral. Ciências humanas em geral
01 Técnicas das bibliografias e dos catálogos
02 Biblioteconomia. Leitura
03 Enciclopédias gerais. Dicionários gerais. Livros de referência usuais
05 Periódicos. Revistas
06 Coletividades. Congressos. Exposições. Estabelecimentos científicos. Museus
07 Jornais. Ciência da imprensa
08 Poligrafias.
09 Manuscritos. Obras notáveis. Bibliofilia

3. Extrato de Classification décimale abrégée. FID, n°652. Liège : ed. do CLPCF, p. 49-515.

Não nos surpriendamos com esta proposição, dado que Otlet que está na origem desta classificação colocou a documentação como técnica e como ciência no seu Tratado. Sabemos igualmente que o projeto dos dois criadores da CDU era o de compartilhar  todos os conhecimentos científicos para se assegurar a paz no mundo ( Courbières, Couzinet, 2006). É  portanto pouco surpreendente que a dupla abordagem  seja colocada sob valor. Podemos constatar também que as subdivisões da classificação representam os tão numerosos objetos de pesquisa desenvolvidos em CIC : « Difusão da ciência. Vulgarização » ou « Escrita, sinais gráficos » ou ainda « Leitura, revistas », « Jornais. Ciência da imprensa », « Exposições. Estabelecimentos científicos. Museus». Estamos diante  de uma representação do campo de pesquisa das CIC mesmo que certos aspectos estejam ainda pouco desenvolvidos no período estudado. Deste modo, é transmitida uma certa idéia do que recobre este campo e ao mesmo tempo do seu valor pragmático. Aqui, ferramentas de organização e primeiro traço de contornos de uma disciplina se confundem para formarem uma ferramenta híbrida contribuindo para a visibilidade e para o compartilhamento dos saberes construídos por uma disciplina recente. Podemos então lamentar, pelo menos para as CIC, que a CDU tenha sido abandonada pelas bibliotecas das universidades. A partir dos anos 1990, com efeito, o acesso direto aos acervos documentais torna-se possível em todas as bibliotecas, de agora em diante ordenadas em função da classificação décimal de Melvil Dewey. Esta mudança de classificação ocorre simultaneamente com a informatização da gestão.

2.4 Seguir a atualidade

Para ampliar mais o público, circunscrevendo a grupos sociais que tenham a curiosidade intelectual e os conhecimentos  necessários para frequentar «espaços» interessando-se pelas disciplinas, nós estendemos nossa observação a partir do jornal nacional Le Monde. Jornal de referência na França e no exterior por seus artigos sobre a atualidade francesa e estrangeira, ele difunde, em apresentação austera, artigos elaborados, análises, posições tomadas por universidades e experts. Criado em 1944, seu diretor Hubert Beuve-Mery colocou-o, no momento de sua criação, como um jornal independente do poder político e econômico. Ele é lido principalmente por quadros superiores e por estudantes.

Nos anos 1988, o Thesaurus Monde, destinado a facilitar a pesquisa de informações no banco de dados do jornal, é editado pela Européenne de données (servidor G.CAM, Le Monde). Composto de 6000 descritores ele compõe-se de três partes: uma lista alfabética, uma lista temática, apresentada sob forma hierárquica, e listas adicionais. A análise foi efetuada a partir dos descritores « informação», « comunicação », « documentação », a fim de cobrir a terminologia genérica da disciplina tal como ela existe atualmente na França6.

O conceito « informação » faz parte do campo da comunicação e a sua aplicação é assim ressaltada « para um tipo de informação precisa, empregar esta palavra com os termos genéricos tais como  cultura, ciência, economia, finança, religião… », uma orientação é dada rumo a « património cultural ». « Comunicação » orienta rumo a « CNCL7 » , « Conservatório cultural », « Marketing », « Publicidade », « Relações públicas » e é seguido na lista alfabética de « Comunicação pública » pertencendo ao campo comunicação/informação mas  é demandado, em nota explicativa, para se utilizar um termo mais preciso. Quanto à « documentação » só é esclarecido que o termo pertence ao campo « questões culturais/patrimônio ».

A classificação hierárquica dos descritores permite apreender melhor o que recobre « comunicação ». Três ramos: « audiovisual », « informação », « mídias » estão centrados na indústria de produção audiovisual, o material e o som para a primeira, a audiência, as formas de comunicação pública, os jornalistas e a liberdade da informação para a segunda, grupo multimídia, as novas mídias, as agências e os tipos de imprensa, a radiodifusão e a televisão para a terceira.

Questões culturais
Animação sócio cultural […]
Cultura
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        -Depósito legal
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                        -Coleção de edição
                        - Obras
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Literatura […]
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- Museu
- Fonoteca
- Fototeca
- Videoteca
        - Folclore
        - Monumento histórico
                        -Castelo
- Sítios
Ciências humanas […]

4. Extrato do Thésaurus Monde, 1988. Européenne de données (servidor G.CAM, Le Monde), 2ª  parte: lista temática, p. temas diversos 13-14.

O campo das questões culturais é bem desenvolvido. Ele cobre por edição, os aspectos jurídicos, classificatórios e comerciais e sob a expressão  « conservatório cultural » os diversos lugares, do ponto de vista da sua missão, estudados em informação-documentação. Aqui, os aspectos técnicos são deixados de lado, contrariamente aos descritores incluídos na « comunicação » e na « informação». Neste conjunto, o ramo ciências humanas é relativamente sucinto. Ele compreende o ocultismo, a filosofia, a psicanálise e a psicologia e não permite perceber, de maneira clara, que as CIC  fazem parte dessas ciências.  O título « novas humanidades » ainda pouco utilizado no final dos anos 1980, está ausente.

Neste thesaurus, os elementos ligados ao exercício da profissão de jornalista, são postos em evidência. No entanto, a abordagem cultural constitui uma abertura mais ampla que aquela que nós destacamos na classificação Dewey. Esta abertura dá uma representação da informação-documentação não limitada apenas às preocupações profissionais. Por outro lado a relação de orientação que indica da « comunicação » para « património cultural », descritor incluindo os « conservatórios culturais » permite a ligação de vizinhança entre a comunicação e seus componentes e os conservatórios, apesar disso esse elo é um pouco perturbado pela presença nesta hierarquia da arqueologia.

Poderíamos, para alinhar um pouco mais estas diferentes observações,  considerar a formação dos jornalistas no período estudado. Esta profissão é, com efeito, dividida entre a prática profissional e a formação universitária. O thesaurus parece assegurar, para efeito deste artigo, um elo tênue entre  a formação e a prática e evidenciar a representação cultural da informação-documentação.

 

Conclusão

O cruzamento destas diversas ferramentas constrói uma disciplina de facetas múltiplas exigindo métodos do trabalho intelectual para a CDU e a classificação Dewey mas próxima da ciência (CDU) e como saber orientado para a prática (Dewey, thesaurus Monde). Ela está também fortemente ancorada na cultura (thesaurus Monde). Este conjunto, que lembramos ser destinado a um público não especializado, oferece uma representação mais próxima do que compreende o campo das CIC.

Partir das ferramentas e do savoir faire dos profissionais das ciências da informação-documentação permite levar em consideração, formas de institucionalização de uma disciplina que se inscreve em complemento àquelas utilizadas habitualmente (diplomas, aberturas de formações e de concursos universitários, presença nas instâncias nacionais do ensino superior e da pesquisa).

 O recorte em fases que propusemos: fase administrativa, fase de construção, fase de consolidação é conveniente para se analisar o fenômeno. No entanto existem sobreposições sobretudo para as duas últimas fases. A proposição deste artigo inscreve-se na idéia de que assegurar a perenidade de uma disciplina é um trabalho incessante e sempre presente na busca pela ocupação de espaços. Ela quer evidenciar que a informação-documentação dispõe de meios que ela sabe produzir, controlar e fazer evoluir para acompanhar os processos além de estar presente nos lugares específicos, bibliotecas, jornais, coleções de livros… destinados à partilha dos saberes. Cabe-lhe então aproveitá-los, sem esquecer seus limites, e assim assegurar sua visibilidade e a do conjunto ao qual ela pertence.

 

Referências

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COURBIERES Caroline, COUZINET Viviane, 2006. Du bleu horizon à l'horizon documentaire : représentation des connaissances à l'aube de la construction européenne, in Timini Ismaïl et Kovacs Susan, dir., Indice, index, indexation, actes du colloque international organisé par les laboratoires CERSATES et GERICO de l'Université Lille-3, Lille, 3 et 4 novembre 2005. Paris : ADBS Editions, 2006, p. 81-92        [ Links ]

COUZINET Viviane, 2004. Olhar crítico sobre as Ciências da Informação na França. Ciência da Informação: Políticas e Estratégias de Pesquisa e Ensino na Pós-Graduação. Niterói, Rio de Janeiro (Brésil), Universidade Federal Fluminense, 11 e 12 de novembro, 2004, p. 21-37        [ Links ]

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1 Na França as ciências da informação e ciências da comunicação estão agrupadas.
2 Na França, existe o cargo de professor documentalista. Este professor exerce uma dupla função: gerenciar um centro de documentação do liceu ou colégio e formar os alunos do ensino secundário  nos conhecimentos da documentação.  
3 Trata-se de formações para o Certificado de habilitações técnicas superiores de inserção nas universidades.
4 Exceto nas  bibliotecas de saúde onde o que está em vigor é a Classificação da Nacional Library of Medicine.
5 Percebemos que nesta edição o conteúdo da subdivisão 004 não é esclarecido . Na 7a  edição resumida de 2001 a classe 004 abrange « Informática. Ciência e tecnologia da informática »
6 Informação é a terminologia utilizada nos estudos da imprensa, de bibliotecas e de documentação. No entanto para a primeira, comunicação é igualmente utilizada; para as outras a diferença é às vezes marcada pela expressão « ciência da informação-documentação ».
7 Comissão nacional da informática e das liberdades