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Ambiente & Sociedade

Print version ISSN 1414-753XOn-line version ISSN 1809-4422

Ambient. soc. vol.8 no.1 Campinas Jan./June. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-753X2005000100009 

ARTIGOS

 

Frederico Carlos Hoehne: a atualidade de um pioneiro no campo da proteção á natureza do Brasil*

 

Frederico Carlos Hoehne: the contemporaneity of a Brazilian pioneer in nature protection

 

 

José Luiz de Andrade FrancoI; José Augusto DrummondII

IDoutor em História pela Universidade de Brasília. Técnico da Diretoria de Áreas Protegidas, da Secretaria de Biodiversidade e Florestas, do Ministério do Meio Ambiente. e-mail: jlafranco@aol.com
IIPh.D. em Recursos Naturais e Desenvolvimento. Professor Adjunto do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. e-mail: jaldrummond@uol.com.br

 

 


RESUMO

O texto examina o pensamento do botânico Frederico Carlos Hoehne (1882-1959) sobre a proteção da natureza. Argumenta-se que Hoehne foi um pioneiro no tema entre os cientistas brasileiros do século XX. Contribuiu para a emergência de uma consciência ambientalista no Brasil, atuando como cientista, escritor e dirigente de instituições científicas. A sua abordagem combinava a ciência com argumentos estéticos e de identidade nacional. Aponta-se ainda que o seu pensamento, em grande parte esquecido, merece ser recuperado e examinado com mais atenção.

Palavras-chave: conservação da natureza / botânica / Instituto de Botânica (SP) / Museu Nacional do Rio de Janeiro / flora / ciência ambiental


ABSTRACT

The text examines the writings of the Brazilian botanist Frederico Carlos Hoehne (1882-1959) about the protection of nature. It argues that Hoehne was a pioneer on the topic among Brazilian scientists. In his work as a scientist, writer and director of research institutes, he contributed to the emergence of an environmental consciousness in Brazil. His approach mixed scientific arguments with esthetics and with appeals related to national identity. It sustains that his mostly forgotten ideas are worth retrieving and examining with attention.

Key words: nature conservation / Botanical Science / Instituto de Botânica (SP) / Museu Nacional do Rio de Janeiro / flora / Environmental Science


 

 

1 – INTRODUÇÃO – OBJETIVOS E ESCOPO

O objetivo deste artigo é contribuir para a "redescoberta" do pensamento e do trabalho de Frederico Carlos Hoehne (1882-1959), um dos primeiros e ainda um dos maiores botânicos brasileiros. No momento em que se busca estabelecer a genealogia da preocupação ambiental e recompor a história das ciências naturais e biológicas no Brasil (NOGUEIRA, 200' KURY e SÁ, 2001), são altamente relevantes a trajetória, o trabalho e os achados científicos de Hoehne, registrados na sua vasta produção científica, grande parte da qual de acesso muito difícil hoje em dia.

O texto apresenta primeiro alguns dados biográficos de Hoehne e, em seguida, explora algumas dimensões de seu trabalho como cientista, escritor e como administrador de instituições científicas. É dada atenção especial às suas preocupações e propostas concernentes à conservação da natureza, tema no qual foi um dos pioneiros, não apenas pelos seus escritos e pelas suas próprias ações de construção institucional, mas também pela enorme contribuição propriamente científica que deu ao melhor conhecimento da flora brasileira. Hoehne deixou um legado que ajudou e ainda ajuda na formação de novas gerações de cientistas naturais brasileiros, muitos dos quais, de diversas formas, engajaram-se, ou engajam-se, nos esforços de conhecer e preservar a natureza do país.

 

2 - DADOS BIOGRÁFICOS RELEVANTES

Frederico Carlos Hoehne foi um dos primeiros cientistas brasileiros a empreender estudos sistemáticos, abrangentes e de longa duração sobre a nossa flora nativa e sobre assuntos associados, como biogeografia e ecologia. Apesar de ser um herdeiro indireto dos numerosos "viajantes naturalistas" que percorreram vastas porções do território brasileiro ao longo do século XIX, Hoehne distingue-se deles de forma marcante. Primeiro, por ser brasileiro (ainda que de primeira geração) e ter passado toda a sua vida no Brasil. Segundo, passou décadas estudando continuamente a flora brasileira, alternando as suas viagens de campo com extensos períodos de trabalho de laboratório, herbário e pesquisa, em instituições brasileiras. Terceiro, por formar coleções que permaneciam no país e serviam de base para os estudos de outros cientistas. Quarto, por ter trabalhado em/ou dirigido instituições científicas brasileiras, numa fase de escassos investimentos na ciência. Em poucas palavras, Hoehne combinou uma extensa experiência de campo com a formação de coleções de plantas, sobre as quais produziu publicações numerosas e influentes, tendo ainda administrado institutos de pesquisa no país e participado de organizações da comunidade científica (os dados biográficos foram retirados de FERRI, 1994; DEAN, 1996; HOEHNE, 1937; HOEHNE, 1951).1

Nascido em Juiz de Fora (MG), em 1/2/1882, Hoehne faleceu em 16/3/1959, tendo residido no Brasil por toda a sua vida. Era um dos oito filhos de dois imigrantes alemães que chegaram em 1858 ao Brasil, ainda crianças. Os seus pais cresceram e se conheceram já no Brasil, casaram-se em 1870 e nunca retornaram ao seu país. O seu pai se dedicou à agricultura, à marcenaria e à montagem de máquinas industriais, nas imediações de Juiz de Fora, onde tinha um pequeno sítio. Hoehne casou-se em 1907, com Carla Augusta Frieda Kuhlmann, também de ascendência alemã com quem teve quatro filhos, que lhe deram pelo menos 11 netos. Tal como Hoehne, seus filhos e netos aparentemente fixaram residência no país, caracterizando uma migração bem sucedida, no sentido de criar raízes e aproveitar perspectivas novas no país de destino.

Hoehne foi criado em localidade rural próxima à cidade industrial de Juiz de Fora, em área de domínio da Mata Atlântica. As formações florestais locais eram provavelmente muito modificadas por estradas, ferrovias e fazendas de café. Ele diz, no entanto, que ali teve "oportunidades sem conta de observar os fenômenos da natureza". Ao menos no sítio paterno em que foi criado, as matas, embora alteradas, eram em parte bem preservadas, fornecendo lenha, taquaras, frutas e outras utilidades. Ainda criança, Hoehne teve contato com a primeira coleção de plantas de sua vida, ajudando a manter um "rústico orquidário" criado pelo seu pai no pomar da propriedade. A coleção atraía interessados e visitantes. Parte das orquídeas era vendida e a receita ajudava no sustento da remediada família. Aos oito anos, Hoehne começou a organizar o seu próprio orquidário, num outro recanto do sítio paterno. Segundo ele, nasceu ali "o alicerce para o [meu] interesse para a botânica".

Concluído o ensino médio em 1899, e sem acesso a um curso superior do seu interesse, Hoehne, com 17 anos, buscou o caminho do autodidatismo para prosseguir com as suas observações sobre plantas, sustentando-se em parte com vendas de orquídeas. Mandava comprar livros especializados no Rio de Janeiro e ampliou a sua coleção de plantas, inclusive através de permutas com outros colecionadores, esforçando-se para identificá-las e classificá-las, já com a ambição de descobrir novas espécies. A sua coleção de plantas suplantou a do pai e ganhou fama local. O jovem Hoehne se tornou um perito consultado por amantes e estudiosos de plantas.

Em 1907, quando tinha 25 anos, deu o grande salto que lançou a sua carreira de pesquisador e cientista. Com a ajuda do presidente da Câmara de Vereadores de Juiz de Fora, amigo de sua família, este jovem interiorano sem formação científica conseguiu ser nomeado, um tanto surpreendentemente, para o cargo de Jardineiro-Chefe do Museu Nacional do Rio de Janeiro, a maior instituição científica do país. Poucos meses depois de assumir o cargo, foi convidado a integrar uma expedição de naturalistas do MN que acompanharia Cândido Mariano da Silva Rondon numa viagem ao Mato Grosso. Em meados de 1908, logo no início da carreira, portanto, partiu para essa que seria a primeira de suas numerosas viagens de pesquisa a muitos pontos do Brasil. Em fins de 1909, voltou de Mato Grosso trazendo 2.000 plantas colhidas em vários locais do então remoto e gigantesco estado, as quais foram incorporadas ao herbário do MN. Enviou alguns exemplares florísticos à Alemanha, para identificação. Desenhos seus (de plantas) foram impressos também na Alemanha e depois anexados ao relatório oficial da expedição de Rondon. Em 1910 Hoehne estava de volta a Mato Grosso, na companhia dos botânicos Hermano e Geraldo Kuhlmann, em nova expedição de estudos da flora. Em 1912, foi, outra vez, botânico de uma expedição de Rondon (Mato Grosso e Amazonas) e em 1913 desempenhou a mesma função na chamada Expedição Científica Roosevelt-Rondon. Em pouco mais de cinco anos, portanto, fez quatro longas viagens de exploração científica.

Foi na cidade de São Paulo (para onde se transferiu em 1917), no entanto, que Hoehne se fixou profissionalmente e desenvolveu uma atuação sistemática e de longa duração, no que diz respeito ao estudo e à proteção da natureza. A sua carreira esteve intimamente vinculada ao surgimento do Instituto de Botânica do Estado de São Paulo. De início, foi convidado pelo diretor do Serviço Sanitário, em 1917, para organizar um horto de cultura e aclimatação de plantas medicinais. No entanto, dedicou-se a um projeto mais amplo, montando uma Seção de Botânica no Instituto Butantã. Mais tarde, em 1923, transferiu-se a Seção de Botânica para o Museu Paulista. Em 1928, mais uma mudança, agora para o Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal, passando a denominar-se Seção de Botânica e Agronomia. A seção ganhou mais autonomia em 1938, quando se transformou em Departamento de Botânica, subordinado diretamente à Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio. Finalmente, em 1942, o Departamento passou a ser o atual Instituto de Botânica. Hoehne esteve sempre à frente dessas instituições, trabalhando até 1952, quando, ao atingir a idade de 70 anos, recebeu aposentadoria compulsória.

Entre 1908 e 1948, participou de 15 expedições científicas pelo Brasil e alguns países limítrofes, consolidando-se como cientista de campo. Usava as expedições para coletar exemplares de plantas e ampliar as coleções sob a sua responsabilidade, sobre as quais publicava sistematicamente artigos, inventários e notas, além de realizar trabalho de identificação, classificação conservação, reprodução e intercâmbio. As viagens o levaram, entre outros lugares, a Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e ao litoral sul brasileiro, gerando extensos relatos de viagem e numerosos artigos sobre as paisagens, coletas e descobertas.

Nessas expedições, ele e os seus colaboradores coletaram pelo menos 10.000 espécimes vegetais, correspondendo a pelo menos 4.000 espécies distintas, das quais cerca de 200 eram novas para a ciência. Assim, Hoehne realizou plenamente o seu sonho juvenil de descobrir plantas novas para a ciência. Foi ainda mais longe: dezenas de outras plantas da flora nativa brasileira, também novas para a ciência, foram batizadas com o seu nome, a título de homenagem de colegas, assistentes e admiradores.

Escreveu mais de 600 artigos científicos e de divulgação, principalmente sobre as plantas coletadas nas suas viagens, mas também sobre outros assuntos, como arborização de estradas, desmatamento, reflorestamento, introdução de plantas exóticas, uso e cultivo de plantas medicinais, agricultura, recuperação ambiental e econômica de regiões desmatadas, criação de plantas e de coleções, unidades de conservação, estações de pesquisa etc. Contribuiu com muitas outras produções, como palestras, conferências, livretos para crianças e textos diversos de circulação restrita. Esta obra, muito vasta, obteve amplo reconhecimento, inclusive, internacional. Hoehne foi homenageado por inúmeras instituições, destacando-se o convite para participar como membro honorário da American Orchid Society, distinção conferida a poucos cientistas no mundo inteiro, e o recebimento do título de doutor honoris causa pela Universidade de Göttingen na Alemanha, em 1929.

O legado de Hoehne está sub-aproveitado, no entanto. Sem exagero, pode-se dizer que é um cientista brasileiro de renome internacional que, se não esquecido, é ao menos insuficientemente estudado e cultuado. Os seus principais livros se tornaram raridades bibliográficas, apesar de terem tido grande aceitação dentro e fora dos meios científicos. Os seus numerosos artigos, espalhados por muitas publicações seriadas, algumas interrompidas, também são de difícil acesso. Na falta de uma biografia mais extensa e de apreciações analíticas mais profundas sobre o conjunto da sua obra, hoje em dia é difícil ao leitor comum ou mesmo ao especialista se informar sobre Hoehne, embora ele tenha morrido há apenas 45 anos. Em contraste, dezenas de viajantes naturalistas estrangeiros - como Saint Hillaire, Spix e Martius, Burmeister -, apesar de terem vivido antes de Hoehne, apesar de terem passado poucos anos no Brasil e apesar de terem feito as suas carreiras no exterior, têm pelo menos os seus principais livros de relatos de viagem publicados e disponíveis em português.

Consultas à Internet geram informações tipicamente fragmentadas ou repetitivas sobre Hoehne. Por exemplo, no site http://www.geocities.com/Athens/Crete/6030/historia.htm, aprende-se que a carreira, as publicações e a vida de Hoehne são homenageadas pela Sociedade de Orquidófilos de Juiz de Fora (MG), a sua terra natal, desde a criação da entidade, em 1946. Por ter sido fundador do Instituto de Botânica e do Jardim Botânico de São Paulo, acham-se informações precisas ma relativamente sumárias sobre Hoehne no site do Instituto (http://www.ibot.sp.gov.br/Destaque/140104.htm ), inclusive sobre recente exposição de plantas organizada em sua homenagem, evento ligado à comemoração dos 450 anos da cidade de São Paulo (ver ainda ROCHA & CAVALHEIRO, 2001). Outros tipos de informação fragmentada sobre Hoehne, recuperáveis na Internet, vêm em duas modalidades. A primeira são imagens e/ou fichas técnicas das muitas plantas (geralmente orquídeas) batizadas com o nome de Hoehne, as quais fazem parte de acervos disponibilizados por associações de criadores de orquídeas ou por institutos botânicos de várias partes do mundo. A outra, são anúncios sobre livros raros de autoria de Hoehne (geralmente os ilustrados), constantes em sites de venda de sebos ou lojas de livros raros do Brasil e do exterior (que pedem preços bem elevados por eles).

Portanto, justificam-se esforços para recuperar a memória sobre o trabalho e a trajetória de Hoehne. Não se trata apenas de uma merecida homenagem a um pioneiro, pois em muitos casos, os seus livros e artigos, as suas coleções e as suas propostas, contêm materiais relevantes ao estado da arte da ciência botânica brasileira e, principalmente, da reflexão sobre a conservação da natureza.

 

3 – IDÉIAS E AÇÕES

O Museu Nacional desempenhou um papel importante na formação de Hoehne, no início de sua carreira como botânico. Desta época, além da amizade e das oportunidades oferecidas pelo diretor da instituição, João Batista de Lacerda, e pelo secretário, o zoólogo Alípio de Miranda Ribeiro, Hoehne recordava, com agrado:

... a orientação que na citada repartição do Rio de Janeiro, nos deu o Dr. Alberto José de Sampaio, primeiramente como assistente e depois como chefe da Seção de Botânica. Não olvidamos também a atenção que sempre nos foi proporcionada na biblioteca do Museu Nacional e somos agradecidos aos funcionários da mesma dos anos de 1908-1916 (HOEHNE, 1949: 7).

Hoehne reconhecia a sua dívida intelectual com Alberto José Sampaio. A convivência e o interesse comum pela proteção à natureza fizeram com que compartilhassem ideais e realizassem trabalhos semelhantes.

A preocupação de Hoehne com a preservação de espécies e com a diversidade biológica fez com que, desde cedo, defendesse a necessidade da criação de reservas genéticas da flora e fauna nativas. Em uma edição comemorativa da Seção de Botânica e Agronomia do Instituto Biológico de São Paulo (HOEHNE, 1937), ele listou os trabalhos que havia produzido sobre o assunto, desde 1917. Encontram-se, entre outros, artigos sobre: a) reservas florestais e estações biológicas, especialmente a Estação Biológica do Alto da Serra, criada por Ihering e que, em 1918, passou à jurisdição da Seção de Botânica; b) ornamentação de ruas, parques urbanos e estradas de rodagem, com a defesa da plantação de espécies nativas; c) reflorestamento, que demandava conhecimento específico do manejo e utilidade das essências nativas; d) proteção de florestas, com destaque para a necessidade de uma legislação de proteção à natureza; e) o combate aos hábitos da derrubada e queimada; f) a defesa das florestas em geral, como fatores determinantes do clima, da agricultura e da estética; g) a defesa de florestas no Estado de São Paulo, especialmente as do Jabaquara e do morro do Jaraguá, em prol das quais organizou campanhas de preservação entre 1924 e 1926.

Esses temas foram constantes na obra de Hoehne. Os seus pontos de vista repetem-se em seus trabalhos, sem alterações de fundo. Por isso, para desenvolver este artigo optamos pela análise de textos selecionados de Hoehne que, se não abrangem a totalidade de seus escritos, representam o fundamental no que diz respeito à sua concepção de proteção à natureza. A sua percepção do mundo natural era intimamente ligada a uma moral que articulava utilidade e estética. Desse modo, para ele era fundamental que os humanos agissem de modo harmônico com a natureza que os circunda, procurando conhecê-la e admirá-la. Era uma perspectiva organicista, na qual o uso e a transformação do meio natural deviam obedecer às leis naturais. Decorre daí o seu nacionalismo, que se exacerbava na medida em que percebia a natureza pátria como particularmente pródiga. Em 1930, publicou o volume I de As Plantas Ornamentaes da Flora Brasílica (HOEHNE, 1930). O seu desejo era o de:

... apresentar algo que sirva para despertar, na mente e no coração dos patrícios, o interesse e amor pelo mais belo e empolgante que a natureza da nossa terra produz e oferece. A intenção é nobre e patriótica, porque é pura, despida de vaidade e orgulho. Ensinando a conhecer as belezas da flora indígena, pretendemos fazê-la querida e admirada e, conseguindo isso, teremos logrado implantar um patriotismo que pulsa e freme por tudo que o seio pátrio cria e produz (HOEHNE, 1930: 3).

Segundo Hoehne, havia, naquele momento, um interesse maior pelas "coisas da nossa gente" e por "seus costumes", embora ainda fosse necessário "começar a querer bem às nossas plantas, animais e todas as produções da natureza do nosso país, para delas nos utilizarmos e com elas criar o ambiente que nos possa tornar felizes e alegres" (HOEHNE, 1930. p. 3-4).

Essa valorização adquiria um caráter de urgência, pois:

Olvidados, qual herdeiro que não sabe o que herdou, vínhamos destruindo as florestas na ânsia de despir o solo, sem percebermos que elas nos prepararam este terreno tão produtivo que exploramos sem maiores esforços, sem repararmos que elas encerram mil outras preciosidades além da madeira e lenha, que oferecem muitas outras vantagens e proporcionam outros benefícios indiretos (HOEHNE, 1930: 4).

Não só as florestas, mas também, as outras formas de vegetação características da fitogeografia brasileira eram dignas de reconhecimento. Referindo-se aos cerrados, Hoehne reclamava que "os campos agrestes … nunca mereceram a nossa atenção. As chamas os devoraram, sem que pela nossa mente passasse a idéia de que são admiráveis, ricos e dadivosos" (HOEHNE, 1930: 4).

Os animais silvestres também deviam ser objeto de maiores cuidados, pois "com as selvas e campinas exterminávamos os insetos, as aves e milhares de outros seres animados, que são os nossos auxiliares, nossos amigos. E, dessa forma, cavávamos a nossa própria ruína" (HOEHNE, 1930: 4).

Hoehne preocupava-se com a destruição de um patrimônio natural muito variado, pouco conhecido e explorado equivocadamente, sem que houvesse consciência sobre as múltiplas possibilidades que se revelavam e viriam ainda a se revelar, caso se fizessem estudos mais acurados:

Não são apenas madeira e lenha as riquezas dignas de atenção das nossas matas. Dos campos não merecem atenção apenas as forragens e plantas medicinais. Milhares de plantas úteis de outro modo vegetam nas selvas e centenares de ervas e arbustos preciosos crescem nos últimos. Da nossa flora indígena poderíamos escrever muitos livros. Ela é riquíssima de espécies e formas, farta de coisas interessantes e bonitas. As madeiras, as plantas oficinais, corantes, gomíferas, resinosas, oleíferas, forrageiras, têxteis, taníferas, frutíferas e outras, poderíamos estudá-las separadamente porque nos dariam assuntos para belas monografias. De todas elas temos dito alguma coisa, sem jamais esgotar tudo o que se conhece a seu respeito (HOEHNE, 1930: 4).

Neste As Plantas Ornamentaes da Flora Brasílica, Hoehne tinha dois objetivos. Em primeiro lugar, pretendia "mostrar um pouco do muito e interessante que a nossa flora indígena oferece, para a decoração das ruas e praças públicas, para os jardins e parques, para as estufas, para as salas e para as artes e a poesia"(HOEHNE, 1930. p. 6).Defendia, com esse propósito, que "principalmente na arborização das nossas ruas e praças públicas, as árvores das nossas selvas e campos deverão ter sempre a primazia. Elas devem ser preferidas às exóticas, porque temos muitas para substituí-las com vantagens reais em todos os misteres" (HOEHNE, 1930: 10).

O outro objetivo, explicava Hoehne, "é mostrar a vantagem das matas naturais, sobre as artificiais, para o desenvolvimento das artes. Com isso queremos despertar defensores para elas, para que, por muitos séculos ainda, os filhos da nossa terra possam inspirar-se nelas e encontrar os elementos para compreenderem as grandes maravilhas que o Criador espalhou pelo nosso torrão natal" (HOEHNE, 1930: 12). Programaticamente, esclarecia que "precisamos de defensores da natureza da nossa terra. Agora que se fala tanto na fundação de sociedades de amigos das cidades, das escolas, das artes e das letras, não seria inoportuno pensarmos também na criação de uma associação de amigos da natureza, que seria a melhor e mais patriótica de todas" (HOEHNE, 1930: 12).

Como mencionado, havia no início dos anos 1930 um clima de apelo à reconstrução nacional. A questão da proteção à natureza inseria-se neste contexto, e devia desempenhar, na opinião de Hoehne, um papel central na elaboração de um projeto de nação. O seu pragmatismo, no entanto, fez com que direcionasse a sua ação para objetivos mais pontuais. Acreditava, no que se relacionava à fundação de grupos cívicos, que:

As associações dessa natureza contribuem muito para garantir as belezas naturais de um país. Geralmente, são elas que promovem e incentivam a criação de parques nacionais, estações biológicas e museus e jardins botânicos e zoológicos, instituições todas, de que há tanta carência em nosso meio. Além disso, uma associação de amigos da natureza, em nosso país, poderia realizar muitas obras realmente altruísticas, divulgando ensinamentos por meio de revistas e publicações dedicadas, única e exclusivamente, a essa causa tão patriótica quanto filantrópica, ou realizando conferências ou palestras sobre esses mesmos assuntos. Não temos dúvida alguma em que seria bem aceita se fosse bem lançada e assim poderia chegar a fazer coisas realmente grandiosas. Todavia, enquanto ela não existe, faça cada um de nós a sua parte na defesa do belo quinhão que a Providência nos deparou na natureza do nosso país, para que ela também possa ser ainda admirada e cantada pelos nossos filhos e netos. Para bem ampará-la, aprendamos a conhecê-la, porque somente então ela se tornará digna de toda a nossa atenção e carinho (HOEHNE, 1930: 13-14).

De fato, em 1939, sob a inspiração de Hoehne, foi fundada em São Paulo, a Sociedade de Amigos da Flora Brasílica que, junto com o Instituto de Botânica, promovia publicações, organizava palestras e procurava influenciar a opinião pública em favor das reservas biológicas e do reflorestamento. Em Limeira, a Sociedade tinha mesmo um Parque Biológico, cujos objetivos eram a pesquisa e conservação da flora e fauna nativas (HOEHNE, 1951).

O conhecimento era certamente um ponto fundamental nesta apreciação da natureza. A Seção, e depois o Instituto de Botânica, se dedicaram principalmente ao mapeamento e à pesquisa da flora brasileira. Hoehne tinha como a sua maior ambição editar uma obra de peso, nos moldes da ambiciosa Flora Brasiliensis, de Martius, que fosse a sua atualização. Publicou vários volumes desse trabalho, que intitulou Flora Brasílica. No entanto, não bastava a produção pura e simples do conhecimento - era preciso divulgá-lo. Essa foi uma preocupação constante de Hoehne, pois ele via a devastação da natureza no Brasil como resultante da ignorância, ou da má fé e egoísmo dos que só tinham olhos para o lucro imediato. Era necessário, portanto, disponibilizar as informações sobre a conservação da natureza e dos seus recursos para um público, o mais amplo possível, e garantir a elaboração de leis que submetessem o interesse privado ao bem público.

Hoehne exerceu certa influência nos círculos governamentais, por intermédio de Fernando Costa, que foi Secretário de Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo, no governo de Júlio Prestes, e Ministro da Agricultura e Interventor do Estado de São Paulo, durante a era Vargas. A causa da proteção à natureza aproximou os dois homens, que se tornaram amigos. Na esfera federal, as idéias de Hoehne contribuíram para a criação dos primeiros parques nacionais brasileiros. No âmbito estadual, Costa foi um grande incentivador dos projetos do amigo, além de ter tido participação direta na criação do Jardim Botânico de São Paulo (HOEHNE, 1937; HOEHNE et alli, 1941; HOEHNE, 1947). Em 1928, mandou chamar Hoehne ao seu gabinete para lhe falar da necessidade de se cultivarem as plantas ornamentais das "nossas matas e campos, para salvaguardá-las do extermínio e para aproveitamento delas nos parques e jardins. Eu quero que me ajude nisto. Veja como poderíamos criar um jardim próprio para realizar esta minha idéia" (HOEHNE, 1947, p. 115).

Na manhã seguinte, estiveram os dois na reserva florestal das cabeceiras do rio Ipiranga, que mais tarde passou a se chamar Parque do Estado, abrigando o Jardim Botânico e o Zoológico, além do Simba Safári. No mesmo dia, contava Hoehne, que:

Para demonstrar-lhe quanto estávamos interessados no assunto que constituía a base do seu plano, convidamo-lo a ver o nosso jardim e orquidário particular, …, para dar-lhe uma boa idéia daquilo que se poderia realizar para o Estado. Ao contemplar o nosso orquidário...teve o Dr. Fernando Costa a seguinte expressão aflorada aos seus lábios: "Que maravilha, Hoehne! ... Se você pôde realizar isto particularmente, porque não o poderá fazer o Estado, que tem muito mais meios?". E nós lhe replicamos, sem detença: "Sim. O Estado o pode e o deve fazer para instrução da nossa gente, para elevação da mentalidade com referência ao que é peculiar e próprio do nosso país. O Estado pode e deve fazer coisa muito maior e nós estamos à disposição de Vossa Excelência, para trabalhar neste sentido" (HOEHNE, 1947: 115).

Desta conversa resultou a criação do Jardim Botânico, com o seu orquidário, abertos à visitação em 1928, sob a administração da Seção de Botânica, dirigida por Hoehne. As instalações eram precárias, pouco podendo ser realizado até 1938, quando novas dotações orçamentárias permitiram a construção de um projeto arquitetônico que previa uma sede definitiva para o então Departamento de Botânica, Museu Botânico, Biblioteca e Fitoteca, além de estufas mais adequadas para o orquidário e o herbário. Em 1944, o Instituto de Botânica mudou-se definitivamente para a sede do Jardim Botânico (HOEHNE et alli, 1941; HOEHNE, 1937; HOEHNE, 1943-1951.) Sobre a adequação do local, Hoehne explicava que:

O lugar tem para sua auréola histórica o fato que é a cabeceira do ribeiro Ipiranga, em cujas margens, dois ou três quilômetros mais abaixo, o brasileiro, em 7 de setembro de 1822, ouviu o 'brado retumbante' que definiu a atitude de D. Pedro I, em relação ao domínio português, de que adveio a nossa emancipação política. Ele tem ainda os documentos topográficos e a flora que Martim Afonso de Souza, no começo do século XVI, percorreu ao chegar do litoral de S. Vicente, depois de haver atravessado o contraforte da Serra do Mar, para conhecer a aldeia de Piratininga.... Como o Morro do Jaraguá, o atual Parque do Estado, onde fica o nosso Jardim Botânico, é um marco histórico que precisa ser conservado e que de fato será mantido em suas condições naturais, mesmo servindo para o fim a que se destina... Para Jardim Botânico regional possui S. Paulo o essencial nesse próprio do Estado e há lugar, campos e terrenos desnudados também, para se plantar aquilo que falta para que o conjunto se torne cada vez mais interessante para o leigo e sempre mais útil para os estudantes e os cientistas que desejam estudar botânica (HOEHNE et alli, 1941: 13-14).

Em 1937, na Resenha Histórica para a Comemoração do Vigésimo Aniversário da Seção de Botânica e Agronomia,Hoehne explicava que a seção vinha cumprindo o seu papel como centro de pesquisas e agência de divulgação de conhecimentos de fitologia, por meio da manutenção do herbário e de publicações. A seção pretendia ainda realizar um programa com o propósito de preservar, conservar e refazer a documentação sobre a flora nativa, por meio de "testemunhas vivas". Contava, para tanto, com a Estação Biológica do Alto da Serra e com o Jardim Botânico.

Hoehne não foi um preservacionista strictu sensu. Defendia o uso, desde que previdente, dos recursos naturais, bem como a fruição estética e a pesquisa científica, que deveriam ser garantidos pelo artifício humano em consórcio com a natureza. Ele estava, portanto, longe de uma posição estritamente "preservacionista", "anti-humana", como infelizmente ele e a sua geração de cientistas vêm sendo apresentados por uma parte da literatura atual. Ele era a favor da produção, numa modalidade que hoje chamaríamos de sustentável. Cidades arborizadas e floridas, entrecortadas de parques e jardins, estradas entremeadas de reservas florestais, constavam de seus projetos. Havia, também, a constatação de que:

O que herdamos e, especialmente, aquilo que nos legou a natureza, para nosso recreio, edificação e instrução, representa um patrimônio da humanidade, do qual cada geração e cada indivíduo têm o direito de tirar o essencial para o seu uso, sem depredar e sem inutilizar, porque isto é um bem público, um patrimônio da coletividade humana... Reconstruir a história natural tem sido e há de continuar a ser preocupação útil e instrutiva dos homens. Para realizar isto, tudo que a biologia produz torna-se interessante e precioso. Cada vez mais difícil torna-se, porém, conservar os dados e os elementos para se descobrirem as cadeias e séries que formam o reino vegetal e o animal. Desaparecem as selvas e transformam-se os campos, por necessidade ou por vandalismo e, com isto, reduzem-se as espécies e abrem-se cada vez mais hiantes as lacunas entre os elos que ligam os gêneros, que compõem a escala natural...A natureza virgem, em que possam ainda ser encontradas todas as espécies vegetais e animais primitivas da era atual, representa, por isto, hoje, uma relíquia de valor inestimável. Raras são as localidades, mesmo no Brasil, onde o bípede humano já não tenha exercido a sua influência modificadora. Onde vicejavam florestas maravilhosas, há menos de dois séculos, elevam-se hoje chaminés de fábricas, ou estendem-se campos de agricultura aqui e acolá já reduzidos a taperas. Do primitivo, pouco nos resta na flora e pouquíssimo sobrevive na fauna (HOEHNE, 1937: 75).

Embora a perspectiva de Hoehne não fosse das mais otimistas no tocante à preservação de áreas dotadas de flora nativa, a sua disposição para o trabalho nunca esmoreceu. Em suas viagens pelo território brasileiro, costumava identificar os espaços que pensava serem destinados à produção, separando-os daqueles onde deviam ser criadas reservas naturais. Nas estradas e nas cidades, sempre se preocupava com o aspecto estético: paisagens, arborização, parques e jardins. Insatisfeito com o ritmo do progresso, sempre procurou sugerir meios de torná-lo mais harmonioso.

 

4 - VIAGENS E ORQUÍDEAS

As viagens realizadas por Hoehne pelo Brasil, bem como o seu conhecimento e as suas preocupações com a flora e fauna nativas, foram sintetizadas em Iconografia das Orchidáceas do Brasil (HOEHNE, 1949b), no capítulo "Excursão mental pelo País". Trata-se, basicamente, de elucidar quais são, onde e como vivem as orquidáceas brasileiras. No entanto, à medida que acompanhamos o autor na viagem proposta, são discutidas outras questões mais gerais, relacionadas à fitogeografia ou à proteção e uso racional da natureza. Em princípio, ficava acertado que:

A excursão será mental, estribada em fatos e observações feitas durante as nossas excursões e viagens levadas a efeito desde 1895 até 1946, espaçadas e intercaladas sempre de trabalhos longos de laboratório. Para melhor compreensão e comparação do que existia e do que agora existe, mencionaremos, onde for aconselhável, a época em que registramos as impressões. Fá-lo-emos, entretanto, sem nos atermos à sua ordem cronológica, mas seguindo rumos geográficos para também darmos uma idéia da imensidão do nosso território. Partiremos, portanto, de São Paulo e tornaremos a ele sem sairmos do conforto do lar com o nosso físico, viajando com o nosso espírito (HOEHNE, 1949b: 52-53).

Logo de início, Hoehne constatava que o papel econômico que as orquidáceas podiam desempenhar não tinha sido compreendido até então, sendo a sua exploração completamente irracional:

Essas plantas têm sido daqui tiradas, ... , por estrangeiros e nacionais, sem que o fisco e mesmo os possuidores das terras tivessem tomado nota ou intervindo para o obstar. Todavia, é incontestável que o seu valor é maior do que o das madeiras em muitas regiões. É enorme o seu apreço comercial e precioso, portanto, o papel que deveriam desempenhar na economia nacional. É comum encontrarem-se árvores que ostentam espécimes bastantes para fazerem subir o valor de uma floresta ao décuplo daquilo que ela poderá valer pelo seu conteúdo de madeira ou lenha. Todavia, essas plantas são retiradas, levadas e vendidas sem que daí advenha, ao proprietário ou ainda ao governo do país, qualquer vantagem (HOEHNE, 1949b: 50-51).

As orquidáceas podiam e deviam ser coletadas, cultivadas e mesmo melhoradas, embora exigissem cuidado e conhecimento profundos, para que fossem manejadas com sucesso. Era preciso tomar cuidado para que a exploração descontrolada não comprometesse a reprodução da variada flora orquidófila do país, em prejuízo da coletividade, e principalmente das gerações vindouras. Hoehne alertava:

No que concerne à distribuição geográfica de algumas espécies mais preciosas, constata-se que muitas já estão completamente exterminadas em localidades onde, ainda há um século atrás, podiam ser colhidas em enormes quantidades. Não fosse a grande dispersão de muitas delas, sem dúvida já teríamos de lamentar o desaparecimento de todas as que são mais cobiçadas pelos colecionadores nacionais e estrangeiros (HOEHNE, 1949b: 51).

Além de suas atualíssimas preocupações com as questões pragmáticas do valor econômico e da possibilidade de extinção dessas flores e de outros integrantes de nossa flora, Hoehne destacava o aspecto estético envolvido na apreciação das orquídeas, em particular, e da natureza, em geral. Ele era, ao mesmo tempo, um homem de ciência e um romântico, um apaixonado pelos coloridos e pelas harmonias do mundo natural. As orquídeas desempenhavam:

... com seu perianto, exibição não muito diferente daquela que a donzela faz quando chega a idade em que deve escolher o seu namorado. Essa exibição, da parte das orquidáceas, como de outras plantas, destina-se também, como ali, ao embelezamento do ambiente, ao proporcionamento da alegria da natureza. E é justamente por isso que deparamos com tantas formas, com tão variados aprestos. Tudo se esforça na natureza para ser diferente, para concorrer para a diversidade dos formatos e dos coloridos... (HOEHNE, 1949b: 52).

O mundo se revelava como um ser vivo e dotado de finalidade. A perfeição se realizava por meio da expressão da beleza:

Permitam-nos mais um devaneio. Se literato ou poeta fossemos, diríamos que todas estas belezas, esta harmonia que observamos na natureza, é resultado, efeito da luz, exteriorização da vida, em tudo manifesta, em todos uma só. Essa vida, - harmonia e beleza -, surge em todos os recantos, nos ensolarados e sombrios, e traduz, em cada ambiente, uma finalidade que, - aparentemente egoísta, por natureza exercida com requintado e insofismável desejo de alijar e excluir rivais e comparsas, - resulta no maravilhoso entrosamento de interesses, que, em realidade, é a energia universal mantenedora de todas as coisas e de todas as espécies, causa do equilíbrio, que ao observador arguto não escapa (HOEHNE, 1949b: 52).

Para além da desordem e da competição, prevalecia a cooperação. A natureza expressava-se como um todo harmônico. A metáfora judaico-cristã da criação e do homem como o seu centro era retomada por Hoehne, porém, na sua hermenêutica, a humanidade aparecia como parte integrante e integrada ao todo. Não havia a possibilidade de um conhecimento produzido de fora, à parte do mundo:

O homem, rei deste planeta por ordenação divina, é também elemento integrante desse mundo, todavia acredita, ingenuamente, que o pode compreender e julga-se apto para tudo interpretar. De fato, tudo estuda e esquadrinha, sonda e contempla detalhes e minúcias, mas, do mistério conhece ainda muito pouco. Se parte é do todo, como poderia compreendê-lo, como conseguiria abrangê-lo, excluindo-se?! Todavia, o homem é criatura divina, é também um criador. Com utilização do existente, cria novas espécies, formas e variedades, e o faz com relativa perfeição, quando aplica a sua inteligência ao trabalho. Dentro das leis eternas preexistentes, sujeito a elas o realiza para seu maior proveito, nem sempre, porém, para o aperfeiçoamento do todo e felicidade geral (HOEHNE, 1949b: 52).

Antes de comentarmos a motivação da excursão mental proposta por Hoehne, é importante compreendermos o papel desempenhado pela estética em suas reflexões sobre o mundo natural. Em outra obra sua, As plantas Ornamentais da Flora Brasílica (HOEHNE, 1930), ele procurou definir de modo mais completo a estética e a sua relação com a natureza. Platão, Aristóteles, Kant e Schelling eram citados para demonstrar que a apreciação estética era um sentimento elevado, capaz de impulsionar os humanos no caminho da transcendência:

O senso estético não é, porém, peculiar, isto é, desenvolvido em todos os homens. Ele é natural e próprio dos seres elevados, peculiar e bem desenvolvido nos espíritos cultos e aprimorados, que cogitam das coisas transcendentes e sublimes... Educar o espírito e aperfeiçoar o moral dos nossos semelhantes é convertê-los em apóstolos do bem, transformá-los em seres capacitados para compreender e amar a estética. O estético alimenta o espírito, eleva a alma, não só de uma pessoa e em prejuízo de outras, mas de todas, em proveito da coletividade, porque, o belo e o bom o são, simultaneamente, para todos, sem prejuízo de quem quer que seja (HOEHNE, 1930: 23).

Este sentimento de unidade e harmonia era proporcionado, sobretudo, pelo convívio com a natureza que, como modelo maior de perfeição, devia guiar e conduzir a humanidade no prazer e na alegria:

Se detidamente analisarmos e observarmos as leis que regem o cosmo, se examinarmos os detalhes dos componentes da flora e da fauna e pesquisarmos a simbiose e a mútua dependência e reciprocidade de interesse que existem entre espécies, verificamos que, efetivamente, a natureza é perfeita, obra digna do maior artífice, energia vital e criadora, que respeitamos e acatamos como Deus Supremo. Adaptar-se à natureza, gozá-la, auscultando-a e pesquisando seus segredos, é tornar-se feliz. Os seus aspectos são vários, várias as suas condições e, de acordo com eles, devem ser o nosso vestuário, alimentação e vivendas; conforme estes a nossa arte decorativa (HOEHNE, 1930: 26).

Desse modo, o sentido de harmonia estética devia estar presente em todas as realizações humanas, dando-lhes um padrão de equilíbrio com as produções da natureza:

Entre o estilo das nossas casas, jardins e parques e a natureza local, deve existir perfeita harmonia, tanto no aspecto, como na feitura e no colorido geral. A natureza de uma região é constituída pela topografia do terreno, sua cobertura vegetal de bosques, florestas ou campos naturais, mares, rios, lagos, correntes atmosféricas, desencadeamento dos hidrometeoros, brilho do sol, animais e espécies vegetais, por tudo, enfim, que nela aparece. E, como esses elementos se entrelaçam e combinam, também nós precisamos adaptar-nose harmonizar-nos com o todo, para vencermos na luta pela vida e para gozá-lacomo merece ser gozada (HOEHNE, 1930: 27-28).

O espírito romântico de Hoehne fazia dele um bom observador da diversidade e das especificidades locais. No caso do Brasil, não devia ser sofrível a adaptação a um meio pródigo, embora fosse fundamental levar em conta o fato de vivermos em terra de fisionomias múltiplas:

Se em nosso país a natureza sorri e brilha em cores berrantes e vistosas, é porque todos os demais fatores com ela colaboraram para isso. Conformando-nos com ela e vivendo de acordo com as suas leis, também nos harmonizaremos com ela em vida e saúde... A fitofisionomia da nossa terra não é a mesma em todas as zonas, nem em todas as altitudes. Como em outras partes do mundo, ela varia de conformidade com as influências telúricas e atmosféricas. E, de acordo com o aspecto, a densidade e altura da vegetação, variam as espécies componentes da flora e as espécies que representam a fauna. Idênticas não podem também ser as casas e as cidades em todo o nosso território, se querem harmonizar-se com a natureza adjacente. Elas têm de variar de conformidade com a natureza, porque a desarmonia de um conjunto se tornará feio, ridículo e se presta pouco para proporcionar bem estar (HOEHNE, 1930: 28).

Hoehne, antecipando-se às afirmações contemporâneas sobre a "mega-biodiversidade" brasileira, considerava que a natureza devia ser a mestra e inspiradora de todas as criações, sobretudo no Brasil, pois:

Nenhum outro país do mundo tem maior variedade de motivos do que o nosso. As nossas florestas e campos naturais ostentam trepadeiras e ervas com flores mais bonitas e mais belas do que as do Acanto da Grécia e abrigam orquidáceas com flores mais lindas e artísticas do que todas as rosas da Bulgária e Itália. Porque deixarmos que os artistas em terras estranhas nos tirem o privilégio de introduzi-las na arte decorativa, de baixos relevos, barras, gregas e chapeados, como em papéis pintados e enfeites de estuque? É urgente e muito conveniente que volvamos as nossas vistas para todas essas maravilhas da natureza indígena para utilizá-las nas artes, nos jardins, nos parques e nos salões. Assim fazendo, praticaremos obra patriótica, porque concorreremos para que a gente da nossa terra aprenda a apreciá-la, a amá-la, não só pelo que ela produz do lado intelectual, mas também pelo que nasce e brota espontaneamente do seu ubérrimo solo (HOEHNE, 1930: 33-34).

Se Hoehne teve uma preocupação com a exploração dos recursos naturais, marcando a sua obra com um tom de objetividade e pragmatismo, o fundamento era uma percepção estética do mundo natural, na qual os humanos eram parte da totalidade, e cada uma das outras partes, todas inter-relacionadas, valia por si própria e por ser parte do todo, uma posição que hoje em dia se denomina de deep ecology (ecologia profunda).

1Voltemos, portanto, à excursão imaginária sugerida por Hoehne, tendo agora em vista os motivos que o conduziram em suas apreciações estéticas, prenhes de lirismo, e em suas propostas mais concretas e objetivas. Ele procurava justificar os motivos que o levavam a tornar públicos os segredos das orquídeas em sua viagem imaginária:

Ninguém nos censure, portanto, por havermos revelado o 'habitat' de muitas Orquidáceas. Ninguém pode defender aquilo que não conhece. Aos proprietários das florestas, e governadores dos municípios e dos Estados, indicamos o patrimônio que lhes está confiado. Envidem, portanto, todos os meios, empreguem todas as forças e artigos de leis, a fim de conseguir estabelecer reservas florestais e estações biológicas, onde forem viáveis e recomendáveis, para que protegidas sejam e constituam testemunhas vivas daquilo que acabamos de referir. Não olvidemos jamais que o Brasil é nosso e a mais ninguém assiste o dever de defendê-lo das garras, não só dos estrangeiros mas dos filhos desnaturados e impatriotas, que não trepidam em dilapidá-lo nem em explorá-lo no interesse pessoal (HOEHNE, 1930: 124)

A flora brasileira era extremamente diversificada, e:

Do mesmo modo como acabamos de realizar esta excursão mental pelo nosso grande e belo país para conhecermos a sua riqueza orquidológica, poderíamos levar a efeito outras para estudarmos as suas Filicíneas ou "Samambaias", ou ainda para conhecermos as suas Bromeliáceas, Gramíneas, Begônias, Bignoniáceas, Apocináceas, Gencianáceas, etc. Sempre teríamos ensejos para nos orgulharmos da nossa pujante e bela flora. Mas se nos dedicássemos uma vez, devotadamente, ao estudo das árvores das nossas selvas virgens, que são os suportes naturais da maioria das mais preciosas Orquidáceas do Brasil, certamente descobriríamos que também elas são dignos ornatos da nossa flora que, do mesmo modo, deveriam merecer a nossa proteção, não somente pelo lenho ou madeira que proporcionam, mas pelas suas lindas flores. Uma coleção de árvores com flores vistosas ou abundantes, poderá proporcionar ao amigo da natureza tanto deleite quanto lhe proporcionam as Orquidáceas e estas se aninhariam espontaneamente sobre muitas delas (HOEHNE, 1930: 124).

As orquídeas faziam parte de um sistema equilibrado, no qual cada parte garantia mecanismos de suporte para as outras. Hoehne alertava que:

A devastação que se alastra maus augúrios nos insufla. Tombam os gigantes das florestas com as suas cargas de plantas dendrícolas e, aqui e acolá, são formados eucaliptais que pouco recurso para as últimas proporcionam e que muito pouco fazem recordar da nossa maravilhosa terra (HOEHNE, 1930: 124).

Defendia, portanto, a necessidade de preservação da flora nativa, embora isso não significasse que ela não podia ser explorada economicamente, e de forma vantajosa:

Com sabedoria e discernimento pode o homem utilizar-se de tudo sem deixar lacunas. Assim poderá também colher e cultivar Orquidáceas das florestas e dos campos naturais, sem exterminar espécies ou gêneros nas regiões em que a natureza as distribuiu e mantém (HOEHNE, 1930: 124).

O propósito do trabalho de Hoehne sobre as orquidáceas era não só despertar o sentido estético e a curiosidade científica, mas também proporcionar conhecimentos mais pragmáticos, relacionados com o tratamento adequado destas plantas:

Viajamos convosco, mentalmente, quase todo o nosso grande e belo país. Mostramos onde e como vivem as Orquidáceas na natureza. Justo é, portanto, que transmitamos conselhos aos que, honestamente, se entregam à colheita destas plantas, para que, involuntariamente, não concorram para o abreviamento do seu total desaparecimento, mesmo onde as florestas ainda permanecem. A carência do conhecimento necessário para realizar a colheita, o tratamento preliminar e a embalagem conveniente para o transporte, têm sido, aliás, tão prejudicial à flora orquidológica do nosso torrão, quanto o machado e o facho incendiário. Já mostramos quanto isto concorreu para a perda de grandes e preciosíssimas partidas de plantas, nos primeiros decênios da história da cultura delas nos países europeus. Mas se afirmamos que em nossos dias esses mesmos crimes se repetem, é porque temos acompanhado bem de perto a maneira pela qual continuam sendo colhidas e transportadas as mudas ainda hodiernamente (HOEHNE, 1930: 125).

Hoehne defendia o direito de as gerações futuras continuarem gozando a beleza e a utilidade de um patrimônio natural comum, num argumento em tudo igual ao atual apelo "sustentabilista" pela "solidariedade intergeracional":

Assiste ao homem o direito de usufruir todas as dádivas da natureza. Este privilégio lhe foi outorgado pelo próprio Criador, no dia em que o tornou ser psicozóico, isto é, ente dotado de partícula espiritual. Não devemos olvidar, entretanto, que todo privilégio outorgado também impõe, concomitantemente, responsabilidade e dever. Assim, o Criador, facultando ao homem todo o domínio, lhe ordenou também: "Cultive e guarde". Nunca se deve esquecer que o encontrado como produto da natureza não constitui propriedade privativa, mas patrimônio da coletividade humana e que, justamente por isso, o "Código Florestal do Brasil" acentua, logo no primeiro artigo, que: "As florestas existentes no território nacional, consideradas em conjunto, constituem bem de interesse comum a todos os habitantes do país, exercendo-se os direitos de propriedade com limitação que as leis, em geral e especialmente este Código, estabelecem". Os direitos referidos devem, por isso, ser comuns à geração presente e as advindas (HOEHNE, 1930: 125).

Ao lado da concepção da natureza como uma teia de múltiplas interdependências entre os seres que a constituem, aparece a perspectiva hierárquica, na qual um Criador supremo encarregava os humanos, como criatura superior, da administração e cuidado de todos os outros seres constituintes da obra divina. Esta argumentação é muito parecida com as analisadas por uma série de estudiosos do pensamento ambientalista contemporâneo em diversos países (NASH, 1989; WORSTER, 1994; ACOT, 1990). Desse modo, as estações do ano renovavam, a cada ciclo, as atividades biológicas geradoras de energia, e estimulavam o homem a prosseguir na conquista dos "mais elevados ideais". Esta disposição era manifesta no artigo Primavera, publicado por Hoehne, a respeito da "Festa das Árvores", no jornal A Gazeta, de 21-09-1946, e reproduzido no Relatório Anual do Instituto de Botânica, de 1947. Havia, primeiro, o reconhecimento do desalento de muitos que lutaram por instituir uma legislação e medidas relacionadas com a proteção à natureza:

Realmente! Acabrunhado está o coração de muita gente boa e honesta do nosso meio, ao contemplar os tristes espetáculos que se desenrolam diante dos seus olhos, porque lhes parece, que seivas de inteligência, programas de previdência, códigos florestais, leis coibitivas das atividades dos famigerados e contumazes dendroclastas, com a boa vontade e o bom senso, ruíram por terra! Afigura-se que milhares de bons preceitos, de excelentes propósitos, de magníficos planos estudados e maturados por uma geração que chega ao seu clímax, são olvidados, estão em risco de se transformarem em objetos dignos de desprezo e de crítica acerba...
Sem dúvida, muitos indagam: "Para onde iremos assim?"... Muitos dos que trabalharam com denodo e sacrifício para garantir reservas florestais destinadas a finalidades científicas e econômicas, sentem-se preteridos e exclamam: "Até quando, Senhor, até quando Senhor, repetir-se-ão em nosso país, as tentativas para criar uma mentalidade brasílica, para fazer surgir um patriotismo sadio e ativo, capaz de erguer-se contra os desmandos, contra as potestades sinistras que ameaçam transformar o nosso torrão num deserto, numa terra de dendroclastas impenitentes, reiteradores das façanhas de insensatos?!" (HOEHNE, 1947: 106-107).

Afigurava-se a Hoehne, no entanto, a necessidade de aproveitar a primavera para renovar o ensejo pela proteção da natureza. Ele depositava as suas esperanças nas gerações mais novas:

Reunindo as forças combalidas, congregando os parcos resíduos no cérebro cansado, pedimos excusas aos que eventualmente pensam de modo diferente concernente aos problemas vitais do Brasil, e lhes solicitamos licença para falarmos aos companheiros da falange dos "Amigos da Flora Brasílica", e muito especialmente aos nobres e beneméritos educadores, mestres de escolas, aos que têm o encargo de dirigir as mentes da geração entrante. Sim, queremos recomendar-lhes que envidem esforços no sentido de criarem os nobres sentimentos nessa gente que vem vindo, nesses homens e mulheres que se vão fazendo, incutindo à juventude os deveres sagrados da defesa da natureza brasílica, com a fiel obediência aos códigos e às leis que foram criadas para esse mesmo objetivo. E tudo isso para que vejamos surgir um sintoma de verdadeira brasilidade... Agora que temos novamente a nossa Constituição, é necessário que aprendamos a viver como bons democratas, mas é urgente também que cheguemos a compreender os nossos privilégios e avaliar, devidamente, as nossas responsabilidades de cidadãos brasileiros (HOEHNE, 1947: 107).

Embora os tempos tivessem mudado com o fim do Estado Novo e a redemocratização do país, Hoehne continuava a defender a necessidade de uma identidade nacional fundada no sentimento de patriotismo e de respeito ao bem comum. Por meio da educação e da legislação, a sociedade devia ser conduzida a adotar uma atitude mais previdente em relação ao patrimônio natural. Para tanto, Hoehne reivindicava a atuação firme do Estado e o comprometimento dos cidadãos:

Saudando as escolas públicas e particulares deste grande Estado, incitamos aos seus dirigentes e aos seus professores para usarem os privilégios que lhes ficam reservados na formação de mentalidades sadias e previdentes. Incutam no coração da juventude esta grande verdade e este grande aviso: 'Constitui crime de lesa-pátria destruir aquilo que é útil e que não pode ser restaurado jamais'. Assim são as florestas virgens da nossa terra, estas matas milenárias que a natureza criou e dotou de recursos múltiplos para a ciência, arte, literatura e economia. Uma vez destruídas, não mais poderão ser restauradas com os mesmos elementos e os mesmos recursos... Providências sábias foram tomadas pelos governos passados ao criarem as belas reservas florestais próximas e distantes da nossa Capital e de outros centros mais populosos do nosso Estado. Para que possam assegurar, à geração futura, os recursos biológicos que encerram, é preciso, entretanto, que os nossos homens de agora as façam respeitar (HOEHNE, 1947: 107).

Nos anos 1930, foi decretada uma legislação relacionada com a proteção da natureza e foram criadas algumas áreas de reserva natural. Hoehne reconhecia a importância destas medidas, embora se queixasse da falta de observação das leis que as amparavam. Em sua opinião, era fundamental, no que dizia respeito à preservação da natureza, subordinar os interesses individuais aos da coletividade, que deviam ser pensados visando as gerações futuras. O patriotismo e a valorização da natureza, não só do ponto de vista econômico, mas também de uma perspectiva que envolvia o interesse científico e a sensibilidade estética, eram vistos como fundamentos necessários da identidade nacional e garantia de perpetuação do patrimônio natural herdado.

 

5 - MANUTENÇÃO DOS HABITATS E REFLORESTAMENTO

No Relatório Anual do Instituto de Botânica, publicado em junho de 1951, Hoehne discutia, em um artigo intitulado "Reflorestamento", como realizá-lo. Iniciava esclarecendo que mantinha a opinião defendida em 1917, na revista Brasílica, em artigo intitulado "A Necessidade de uma Flora Brasileira". Observava, primeiramente, que "A fitofisionomia de um país deveria, entretanto, ser perpetuada como característico peculiar e se tanto se fizesse continuariam subsistindo igualmente os aspectos faunísticos e mantida seria a biota" (HOEHNE, 1951: 38).

Hoehne sustentava os seus argumentos por meio da elaboração de um saber próprio do campo da biologia, conhecimento que, segundo ele, devia orientar a escolha de espécies adequadas ao cultivo do solo:

A flora e a fauna ajustam-se à topografia, clima e solo de uma região. As árvores e as ervas traduzem no seu aspecto e prioridades as influências exercidas sobre elas pelos fatores edafológicos e climatéricos, mas contribuem por seu turno para a manutenção dos mesmos fatores. Elas influem de modo considerável para a caracterização das diferentes zonas e regiões do globo e foi justamente por isso que os aborígines sempre apreciaram o processo de identificar cada localidade pelos seus fácies e não por aquilo que mais tarde pudesse ser criado. Os grandes botânicos: Prof. Dr. Adolfo Engler, Clements e muitos outros tiraram daí a idéia de organizarem mapas fitofisionômicos por meio dos quais se pode apreciar não apenas a diversidade do aspecto dos vegetais, mas tirar também conclusões práticas para o conhecimento do solo, seu valor em humo, teor de pH, riqueza bacteriológica e micológica. Assim, a botânica pode prestar relevantes serviços à agricultura, orientando-a na escolha das espécies úteis a serem preferencialmente cultivadas em cada zona (HOEHNE, 1951: 38).

Havia a preocupação de que, com a técnicas agrícolas usadas no Brasil, caracterizados pelo uso imoderado do machado e do fogo, e com a imprevidência na exploração de recursos como madeira e lenha, sobrasse, em data não muito longínqua, muito pouco da fitofisionomia original do país. Hoehne convocava para que:

...os Amigos da Flora Brasílica reúnam os que pugnam pelo Brasil brasílico e envidem esforços no sentido de preservar tudo que ainda existe e de reflorestar onde os terrenos desnudos existem, mas sem olvidarem que a vestimenta vegetal deve ser tecida com material aborígine, ter lavores de frondes das majestosas palmeiras, franças altaneiras dos gigantescos Jequitibás, ouro puro das flores dos fortíssimos Ipês e prata das Tabebuias paludícolas, como róseo maravilhoso das corolas das Sapucaieiras e o rubro intenso ou alaranjado das Eritrinas, para que verdadeira e não mascarada esta terra amada possa apresentar-se ao mundo... (HOEHNE, 1951: 38).

Tratava-se, portanto, de:

Antes de pensarmos no reflorestamento do Brasil,..., primeiramente cogitar da conservação daquilo que ainda resta, evitando, por todos os meios e modos, o corte das matas nativas e livrando-as de incêndios e da exploração contra producente. Isso seria a providência profilática recomendável para a solução do problema florestal e seria também iniciativa patriótica. (HOEHNE, 1951: 39).

O que se presenciava, no entanto, eram:

... Derrubadas, incêndios e explorações clandestinas em todos os recantos do nosso país. Os que querem aparecer na sociedade como cumpridores das leis altruístas, chegam ao desplante de requererem licença para derrubarem florestas do patrimônio público, para em seu lugar plantarem essências exóticas que consideram melhor indicadas para o reflorestamento do nosso solo, porque, na sua opinião egoística, o indígena não possui as qualidades indispensáveis ao aumento do patrimônio nacional. Todavia, esses grandes patriotas de algibeiras insaciáveis, não se lembrariam de demonstrar as suas asserções solicitando ao Estado os terrenos desnudos de sua vestimenta primitiva que se estendem ao lado das florestas naturais que pretendem transformar. … Aproveitadas a madeira e a lenha das matas que pretendem transformar, ficam novas taperas e os promotores das mesmas continuam tentando outras concessões, servindo-se sempre dos mesmos processos citados (HOEHNE, 1951: 39).

Hoehne, que viajara por quase todo o país, denunciava esses procedimentos que contribuíam para a devastação das matas e o mau aproveitamento do solo. No entanto, o problema não era apenas com os especuladores, pois os agricultores de subsistência também punham abaixo e incendiavam as florestas para plantar milho ou arroz, abandonando as terras poucas colheitas depois. Mesmo nos pontos mais afastados dos centros urbanos, a ameaça representada pelo machado e pelo fogo já era considerada alarmante, salvando-se somente aquelas regiões mais ao norte do país, onde o clima, o terreno e a escassez da população ainda se constituíam em empecilho. Desse modo, argumentava:

Proceda-se ao reflorestamento com o florestamento, mas não se permita que, para isso, sejam sacrificadas as poucas matas naturais que ainda testemunham da nossa flora e que ainda continuam sendo o abrigo para a fauna indígena que não se pode manter nas florestas e bosques de essências lenhosas exóticas que aqui e acolá surgiram como excelentes recursos econômicos. (HOEHNE, 1951: 39).

O problema florestal assumia, segundo Hoehne, um duplo aspecto: econômico e científico. Para uma política racional e previdente de uso das florestas, era importante que estes aspectos fossem considerados em conjunto. O que vinha acontecendo, no entanto, era que só se levavam em conta as vantagens econômicas imediatas, sem considerar o interesse da ciência. As florestas valiam para o madeireiro o número de metros cúbicos de madeira que pudessem fornecer depois de derrubadas. Conforme a localização da floresta, o lucro podia ser maior ou menor, sendo mesmo nulo onde o acesso fosse por demais difícil.

Mas assim não pensam os biologistas que estudam e apreciam as florestas como fatores da biota, que se dedicam à reconstrução da História Natural. Para eles, a madeira e a lenha das mesmas, embora sejam materiais dignos de serem estudados no que concerne à sua estrutura, resistência, peso específico e aplicações industriais correspondentes a essas características, são materiais equivalentes no seu valor biológico aos que o vulgo geralmente menospreza. Árvores, cipós, arbustos, ervas rasteiras ou eretas, terrestres ou dendrícolas, representam para o biologista objetos de estudos e pesquisas. Muitas vezes tem acontecido também que a ciência natural descobre princípios ativos numa trepadeira ou cipó, que o madeireiro considera incomodo para a sua indústria, e proporciona ao mundo o conhecimento de uma substância orgânica que remove dificuldades antes insuperáveis na agricultura. Outras vezes as pesquisas botânicas trazem para a indústria um látex que se transforma na base de um novo sistema de transportes terrestres. Mais comuns são, entretanto, as descobertas de recursos terapêuticos que se tornam imprescindíveis na medicina. Tudo isso que ficou mencionado constitui o interesse científico das florestas. Muitas vezes os estudos realizados não apresentam resultados imediatos, mas mais cedo ou mais tarde se tornam sempre úteis á humanidade, como bastas vezes têm sido demonstrado (HOEHNE, 1951: 40).

Considerar o interesse científico era, ao mesmo tempo, uma forma de garantir interesses econômicos futuros. Proteger a diversidade da natureza no Brasil era fundamental para que ela pudesse ser estudada e conhecida, inclusive com o propósito de otimizar o aproveitamento dos seus recursos. Hoehne argumentava que não era contra a introdução de essências exóticas, embora defendesse que os seus bosques, plantados com objetivos exclusivamente pecuniários, deviam ficar em áreas onde não mais existissem matas nativas. Reflorestar áreas desflorestadas, com essências lenhosas nacionais ou exóticas, era utilíssimo:

...pois produzindo lenha e madeira suficientes para atender as necessidades sempre crescentes, não se precisará recorrer aos já escassos redutos das matas naturais. Fomentar a plantação de árvores que de fato utilidade apresentam, merece elogios, não porém quando para o conseguir se condiciona a derrubada das matas naturais. Nesse caso não haverá vantagens, mas tão somente desvantagens da tarefa realizada ou apenas projetada (HOEHNE, 1951: 41).

Ainda assim, Hoehne preferia as essências nativas, com as quais podia reconstituir ambientes adequados para a fauna local. Argumentava que a silvicultura era uma atividade capaz de proporcionar não só lucros, mas também uma felicidade provinda da apreciação estética.

Rememoremos por um instante o que os bosques da Europa contribuíram para a literatura e quantos encantos e alegrias realmente aduzem aos seus proprietários. As árvores são escolhidas, plantadas e cuidadas, os seus troncos elevam-se e a ramagem se entrelaça e forma a verde abóbada. Alcatifa-se o solo de musgos e lindas ervas e logo ali aparecem os representantes da fauna ou são propositalmente soltos e cuidados pelos silvicultores. Os guardas florestais cuidam das árvores, retirando o que se torna supérfluo, mas zelam igualmente pelos animais de pêlo e penas e fiscalizam tudo para que nenhum dano possa ser aduzido ao conjunto biológico que assim se cria e conserva para renda e gozo do seu feliz proprietário... (HOEHNE, 1951: 43-44).

Essa silvicultura racional já vinha sendo praticada, segundo Hoehne, há séculos na Europa. Nos Estados Unidos, na Austrália e em algumas regiões da Ásia e da África também já havia sido introduzida com sucesso. No Brasil, porém:

Infelizmente, as espécies introduzidas, que constituem quase a totalidade das nossas florestas artificiais, são impróprias para formar ambiente para a nossa fauna, graças ao fato de que não possuem ramagem suficiente e própria para atrair e abrigar as aves e os mamíferos. Elas constituem árvores sem sombra e movimento. Proporcionam, todavia, boa renda a quem as planta e explora e ao usufruto da mesma limita-se todo o prazer que lhe poderá advir da silvicultura (HOEHNE, 1951: 44).

Bem diferentes em riqueza e diversidade faunística eram as florestas nativas do país:

...No Paraná e em Santa Catarina ainda chegamos a conhecer algumas [florestas] constituídas de Pinheiros, Imbuias e Erva Mate. Assim, contaram-nos velhos paulistas, estendiam-se na região de Itu até a Serra de Botucatu e muitas outras localidades de São Paulo. À sua sombra poderia manter-se a caça de pêlo: Queixadas, Caititus, Antas, Pacas, Cotias etc., e podiam criar-se as aves que vivem no solo, tais como o são os mutuns, jaós, macucos, jacus, etc., bem como aquelas que vivem nas ramagens frutíferas: araras, papagaios, pombos, etc. A cavalo se podia correr nessas florestas sem chegar a ver o sol de sob a abóbada verde e ridente. Tudo desapareceu, mas pode ser reconstituído se os afortunados tiverem senso estético para plantarem as árvores com arte e gosto. Escolhendo as essências lenhosas que existirem em cada região e plantando-as em promiscuidade, para que recíproca e mutuamente elas se auxiliem na disputa do ar e da luz, a natureza aduzirá o resto se o homem deixá-la agir e proteger na sua obra (HOEHNE, 1951: 44).

A possibilidade de reflorestamento com árvores nativas, reconstituindo as feições fitogeográficas originais do país, entusiasmava Hoehne. A exploração econômica destes bosques, constituídos de espécies variadas de plantas, exigia, no entanto, que se respeitasse o tempo de crescimento e maturação de cada uma, que a espaços intercalados podiam recompensar vantajosamente os proprietários. Por isso:

Para a defesa biológica das florestas artificiais, recomendamos o emprego das essências lenhosas indígenas próprias da região e desaconselhamos o emprego de apenas uma espécie, porque, plantada em grande número de exemplares, fatalmente o bosque virá a sofrer com as pragas entomológicas e criptogâmicas... A natureza é a melhor mestra. Aquilo que ela reuniu numa floresta equilibra-se mutuamente e se do mesmo se escolher o melhor para se reconstruir florestas, o citado equilíbrio continuará existindo. Para ambientar as aves e outros animais numa floresta artificial assim constituída, não devem ser esquecidas as árvores frutíferas. Muitas de entre elas fornecem excelentes madeiras e são de crescimento rápido. Citemos os diferentes "Bacuparis", "Jabuticabeiras", "Cambucazeiros", "Oitiseiros", "Sapucaieiras", "Cambucieiros", "Ingazeiros", "Jatobeiras", "Pequizeiros", "Cerejeiras agrestes", "Pitombeiras", "Araticum", "Guabirobeiras", que, sem exceções, crescem bem no território paulista... (HOEHNE, 1951: 44).

Outro ponto importante, no que diz respeito à fauna, é que a sua livre reprodução exigia áreas florestadas relativamente amplas, o que podia ser resolvido por meio do consórcio de fazendeiros vizinhos, a fim de formarem florestas contíguas, cuidando e explorando cada um a sua parte nas mesmas. Hoehne observava ainda que:

...a exploração da madeira e lenha a ser exercida nessas florestas mistas, precisa ser levada a efeito com muito maior cuidado do que geralmente se necessita ter nas florestas uniformes constituídas de apenas uma espécie. Depois de retiradas as toras, a ramagem que não pode ser aproveitada para lenha deve ser picada e espalhada de modo tal que se decomponha o mais depressa possível para não oferecer material de fácil combustão num eventual incêndio. O acesso do fogo às matas precisará ser evitado a todo o transe por meio de aceiros que também poderão funcionar como estradas ou caminhos. (HOEHNE, 1951: 44).

Embora fruto de anos de estudos e vivências junto aos campos e matas do país, essa perspectiva não agradava a muitos. Hoehne argumentava em sua defesa que:

Talvez os que se julgam mais práticos na vida, e colocam o interesse pelo dinheiro acima de quaisquer outros, consideram as nossas sugestões pueris, sonhos de visionário ou poeta. Isso não nos surpreende nem desanima, porque há muitos anos nos habituamos a receber as críticas de acordo com a sua fonte de origem, sem olvidarmos os motivos que as aduzem. Não somos também daqueles que pretendem converter todos os homens aos seus credos, obrigando-os a aceitarem as suas idéias. Somos liberais na dispensação dos parcos conhecimentos que, no transcurso de muitos anos, as viagens, a leitura e as experiências sedimentaram em nosso cérebro. Desde menino conhecemos as florestas virgens e secundárias e podemos afirmar de cátedra, que o recomendado por nós já foi sancionado pela experiência própria. Nascemos na roça e fomos criado em sítio onde a policultura constituía a principal fonte de recursos, com os proventos de pequena indústria pecuária e onde, todavia, alguns alqueires de floresta virgem ficaram reservados para a exploração racional. Todos os anos saíam dessas matas limpas e frondosas do vértice da serra quase plano toras de madeira e diariamente se extraíam alguns metros cúbicos de lenha proveniente de árvores que secavam ou caíam em conseqüência de temporais, e da ramagem daquelas que forneciam as toras para a serraria. Ali vimos como a caça de penas aprecia uma floresta desbastada, em que naturalmente as árvores obumbram o solo farto de detritos. Muitas observações biológicas que ali fizemos que mais tarde nos foram utilíssimas e que ainda hoje se encontram gravadas em nossa retentiva (HOEHNE, 1951: 44-45).

O problema do reflorestamento, portanto, se constituía em algo mais que simples atividade econômica. Era uma forma de criar laços mais fortes entre o homem e a natureza, os quais envolviam uma experiência afetiva e a possibilidade de crescimento moral e espiritual. Hoehne defendia que:

Praticando o reflorestamento ou florestando solos desnudos, aprendamos que o útil pode e deve ser sempre ligado ao agradável. Esses dois proveitos cabem num saco se o senso estético e o patriotismo não estiverem totalmente sufocados pelo interesse egoísta e pelo excesso de amor ao dinheiro. Propugnemos por um Brasil brasílico sem máscara. Um Brasil com as suas características peculiares. Uma pindorama e curitiba perpétuas, para que a brasilidade sobrepuje a xenofilia, sem transformar-se em xenofobia. Sim, reflorestemos onde possível, plantemos árvores úteis pelo seu lenho, úteis pelo seu aspecto e úteis pelos seus frutos e flores; escolhendo de entre o indígena o melhor, introduzindo do estrangeiro o que eventualmente possa ser aclimado e explorado vantajosamente sem prejuízo e nem menosprezo do que é nosso, por ser dádiva da nossa terra. Assim o reflorestamento tornar-se-á prática louvável e patriótica (HOEHNE, 1951: 45).

 

6 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nascido e criado no interior de Minas Gerais e com uma formação de autodidata, durante a sua longa carreira, Hoehne atingiu o status de cientista de renome nacional e internacional. Além de ser um pesquisador de primeira linha, ele conseguiu articular e comunicar uma percepção muito sensível em relação à natureza e à sua diversidade, usando argumentos tanto estéticos quanto pragmáticos no sentido de sua conservação. Alertava, já em 1927, que "aquilo que a natureza criou, uma vez destruído, jamais poderá ser confeccionado artificialmente e... nas florestas e campos naturais ainda possuímos milhares e milhares de plantas e animais que não conhecemos mas que um dia talvez se tornem muito importantes e úteis para nós" (HOEHNE, apud DEAN, 1996: 274).Hoehne argumentava que a preservação de faixas da floresta nativa propiciava habitats para pássaros, insetos e outros animais que protegiam as culturas agrícolas dos predadores e parasitas. Essas perspectivas, com certeza, são hoje em dia sustentadas e acatadas em qualquer congresso sobre a biodiversidade e a preservação do ambiente natural, mesmo por cientistas que nunca puderam ler Hoehne.

O nacionalismo de Hoehne era uma aposta na possibilidade de que o Brasil corrigiria os seus rumos no tocante ao trato com a sua natureza e que, por meio de um projeto próprio, reconciliasse as atividades humanas com a natureza. Como no pensamento de Alberto Torres, para Hoehne, os países de economia mais avançada perdiam o seu papel tutelar nessa dimensão, servindo-nos, quando muito, como um sinal de alerta, pois que, "tendo privado seu solo das florestas primitivas e nativas, hoje tentam restabelecer sua biota e condições ótimas por meio de florestas naturais, sem jamais o conseguir" (HOEHNE, apud DEAN, 1996: 274).

Era necessário, portanto, resguardar o patrimônio natural da nação. Em 1924, Hoehne ponderava que "ao homem assiste o direito de dispor das árvores, como de tudo que a natureza lhe oferece, como melhor entender, mas, com isto, não podemos outorgar direitos a particulares em prejuízo certo da coletividade" (HOEHNE, apud Dean, 1996: 274).

A partir da defesa pública dessas posições, Hoehne assumiu importância destacada entre os brasileiros que se preocupavam com a proteção da natureza nos anos de 1930-1940. Na sua posição de cientista prolífico e influente, e de gestor de instituições científicas, conseguiu transmitir o seu saber sobre a natureza brasileira e a sua preocupação com a sua preservação para várias gerações de cientistas brasileiros, décadas antes de a questão ambiental emergir de forma institucionalizada na consciência dos cidadãos contemporâneos. No entanto, Hoehne faz parte de uma legião ainda recente de vozes quase esquecidas que se manifestaram contra o trato irracional com a natureza brasileira. José Augusto Pádua recuperou cerca de 50 vozes similares, mais antigas, que se manifestaram entre 1786 e 1888, e que foram virtualmente esquecidas até que ele encontrasse os seus olvidados manuscritos, opúsculos e livros em arquivos e bibliotecas (PÁDUA, 2002). Falecido há menos de 50 anos, sobre o pensamento e a ação de Hoehne já caiu um manto preocupante que, se não é de esquecimento, é de desconhecimento. Em termos de memória, o desconhecimento pode ser a véspera do esquecimento.

 

Brasília, março-junho de 2004
abril de 2005

 

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Recebido em 06/2004 - Aceito em 02/2005

 

 

NOTA

1.Não localizamos uma biografia publicada de HOEHNE.

 

 

*Baseado parcialmente em FRANCO, 2002.

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