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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.3 no.1 Brasília  1982

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98931982000100001 

Radecki e a Psicologia no Brasil

 

 

Rogério Centofanti

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Federação das Faculdades Braz Cubas de Mogi das Cruzes - SP

 

 


RESUMO

O trabalho se constitui como um documento de caráter histórico da Psicologia no Brasil. Descreve e comenta o nascimento e desenvolvimento do Laboratório de Psicologia, criado em 1924 na Colônia de Psicopatas em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Reconstitui a biografia de Waclaw Radecki, organizador e diretor do Laboratório, indica as pessoas que junto a ele trabalharam e cita os trabalhos produzidos. Faz a narrativa da conversão do Laboratório em Instituto de Psicologia, em 1932, e das fases pelas quais foi passando até a constituição do atual Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


 

 

Como é sabido, a Psicologia laboratorial no Brasil tem origens anteriores à criação dos cursos de Psicologia que começaram a surgir na década de 50 e que proliferaram após 1962, ano em que é promulgada a lei que regulamenta a formação do psicólogo em nosso País.

Sabe-se, por exemplo, que em 1897, Medeiros e Albuquerque (1) criou, no Pedagogium (2), um laboratório de Psicologia Pedagógica, mas que foi combatido e acusado por essas "inovações fantásticas", das quais nada sobrou (Claparède, 1927) . Também no Rio de Janeiro, Maurício de Medeiros (3) teria instalado e dirigido um pequeno laboratório de Psicologia Experimental na Clinica Psiquiátrica do Hospício Nacional (4) (Cabral , 1950; Lourenço Filho, 1955; Pessotti, 1975). Ainda no Rio de Janeiro, na primeira década de nosso século, Manuel Bonfim teria dirigido um Laboratório de Psicologia Experimental na Escola Normal daquela cidade (5) (Cabral, 1950).

Em São Paulo, no ano de 1914, é criado um Laboratório de Psicologia, na Escola Normal e Secundária de São Paulo (6) com fins Pedagógicos, que esteve sob a orientação e direção de um italiano chamado Ugo Pizzoli(7) (Cabral, 1950; Lourenço Filho, 1955; Pessotti, 1955; Soares, 1979).

Em Belo Horizonte, em 1929, e criado um Laboratório de Psicologia destinado a estudos Pedagógicos, na Escola de Aperfeiçoamento. Sob a breve orientação de Th. Simon, o Laboratório foi, durante muitos anos, dirigido por Helena Antipoff(8) (Cabral, 1950; Lourenço Filho, 1955; Pessotti, 1975; Soares, 1979).

É provável que, algures, no que tange à produção, de laboratório, outras experiências similares tenham se desenvolvido no Brasil. Entretanto, até onde temos hoje podido saber, nenhuma foi tão marcante quanto a do Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas, em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, e seu controvertido e admirável diretor - Waclaw Radecki (Guimarães, 1928; Cabral, 1950; Lourenço Filho, 1955; Soares, 1979; Seminério, 1973).

O presente trabalho pretende apenas fornecer informações sobre o que ali se realizou, as pessoas que o animaram e os acontecimentos e rumos daquela instituição, procurando, assim, colaborar com a memória da Psicologia em nosso País(9).

 

 

I - WACLAW RADECKI(10)

Waclaw Radecki nasceu em Varsóvia, na Polônia, em 27 de outubro de 1887. Era filho de José Waclaw Radecki, estudante de medicina, e Alexandra Edwiges Siekierz, aluna do Conservatório de Varsóvia. Seu pai faleceu logo depois de seu nascimento, e sua educação, bem como seu sustento, esteve a cargo de sua mãe.

A vida do jovem Radecki, sobretudo em sua adolescência, foi profundamente convulsionada, como o era a própria vida nacional da Polônia. Sob o domínio russo, a juventude polonesa via-se constantemente vigiada pela polícia do Czar. Numa luta entre estudantes patriotas e a policia czarista, Radecki e ferido e também contrai tuberculose, sendo obrigado a viajar para a França a fim de se restabelecer. De volta a Varsóvia, é impedido de continuar seus estudos, pois havia sido expulso, acusado de conspiração.

Inscreve-se como ouvinte na Universidade de Cracóvia (também sob dominação) e foi onde começou a se interessar por Psicologia. Aos 16 anos, escreve seus primeiros trabalhos. Num deles, perguntava-se "em que critérios poderia se apoiar para tornar o psicológico independente do pensamento filosófico-religioso e fundamentá-lo na biologia" (biografia, 1953).

Em 1907, mais uma vez perseguido, foge para Florença, na Itália, onde se inscreve como ouvinte livre na Faculdade de Ciências. No final desse mesmo ano, após ter sido aprovado nos exames, se matricula como aluno regular. Ainda naquela cidade, consegue se formar violoncelista e maestro de orquestra, no Conservatório de Florença, atividades que já vinham sendo nutridas desde sua infância, por influência de sua mãe.

Em 1908, a exemplo de muitos jovens poloneses no exílio, Radecki viaja para a Suíça e se inscreve na Faculdade de Ciências Naturais de Genebra, onde vem a estudar Psicologia, sob a supervisão de Flournoy e Claparède.

Em 1910, ainda estudante dessa mesma faculdade, é nomeado assistente do Laboratório de Psicologia, dirigido pelo próprio Claparede, laboratório esse onde, naquela época, grandes nomes da Psicologia mundial desenvolviam seus trabalhos, como era o caso de Flournoy e Bavet, e onde jovens estudantes iniciaram estudos que os tornaram posteriormente famosos, como foi o caso de Jean Piaget. Paralelamente a essa atividade, Radecki executa violoncelo na célebre orquestra de Stavenhagen. Também nesse ano, em virtude de sua militância patriótica, tem a oportunidade de viajar pela Europa conhecendo, de passagem, vários Laboratórios de Psicologia, como de Kraepelin, Kulpe e Toulouse.

Em 1911, obtém seu título de doutor pela Universidade de Genebra, mediante a apresentação da tese intitulada "Os fenômenos psicoelétricos", tese essa citada mundialmente em trabalhos que se ocupam de fenômenos eletrodérmicos, como em Ruckmick (1936).

Nessa época, aos 23 anos de idade, Radecki é nomeado docente livre da Universidade de Genebra.

Em 1912, volta a Cracóvia para apresentar sua tese num Congresso de Psicologia, Psiquiatria e Neurologia e acaba por ser convidado a organizar um Laboratório de Psicologia na Universidade de Cracóvia. Radecki aceita o convite. Na condução desse laboratório, se destaca pelas suas produções, muitas das quais publicadas na Academia de Ciências,como é o caso de "Psicologia dos sentimentos e das emoções"(1912),onde se podem encontrar as primeiras linhas de um sistema psicológico que irá, mais tarde,amadurecer no Brasil. Publica também "Elementos psicobiológicos na psicanálise" nos Anais do II Congresso de Psiquiatras, Neurólogos e Psicólogos Poloneses (1912). Com relação à psicanálise, é importante lembrar que ela se desenvolveu na Suiça, antes de florescer na França e que, na primeira, Radecki é considerado um dos precursores nos estudos das obras de Freud (Hesnard e Laforgue, 1925). Ainda em 1912, publica "Psicologia da assossiação das representações" e, em 1914. "Psicologia da vontade".

Nesse interim, eclode a primeira guerra mundial e Radecki retoma suas atividades patrióticas lutando contra o exército russo de dominação e, posteriormente, contra o exército alemão. Em 1917, volta às suas tarefas científicas e o Senado Acadêmico o designa para organizar e dirigir um Laboratório de Psicologia na Universidade Livre da Polônia, laboratório esse transformado em Faculdade de Psicologia, após a libertação da Polônia, em 11 de novembro de 1918.

Em 1919, publica "Psicologia do Pensamento". Nessa ocasião, é novamente obrigado a interromper seus trabalhos para se engajar no 9º Regimento de Cavalaria a fim de combater os russos que, por mais uma vez, atacavam seu país. Com o estabelecimento da paz de Riga, reassume suas atividades e realiza uma viagem de estudos pela Europa.

Em 1923, por motivos ignorados, se translada para o Brasil, em companhia de Halina Radecka, sua segunda mulher(11). Halina tinha um irmão residindo no Paraná e, por isso, os Radecki escolheram aquele estado como residência. Nesse mesmo ano, Radecki leciona Psicologia na Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade do Paraná(12) e colabora com psiquiatras locais.

Ora, a Curitiba dos anos 20 não deveria ser um lugar muito promissor para o desenvolvimento de uma ciência nascente, principalmente para as ambições de quem trazia um currículo desse quilate. Nesse sentido, ainda em 1923, Radecki começa explorar o meio, buscando novos horizontes. Nesse ano, esteve em São Paulo e foi acolhido pela Sociedade de Educação, onde promoveu uma conferência, que foi publicada (Radecki, 1923a). Promove também conferência no círculo Oswaldo Cruz e na Sociedade de Medicina e Cirurgia, em cujo boletim publica "Métodos psicanalíticos em psicologia" (Radecki, 1923b).

Mas, por alguma razão que talvez jamais venhamos a saber, Radecki não ficou nesse estado. Em 1924, ainda visando seu desenvolvimento profissional, viaja para a cidade do Rio de Janeiro, então capital e, naturalmente, o centro cultural mais ativo do País. Ali, numa livraria, encontrou o livro "Noções de Psychologia" de Manuel Bonfim (1917). Estabeleceu um contato pessoal com o autor, que lhe forneceu informações que resultaram em sua ida para o Engenho de Dentro.

 

II - O LABORATÓRIO DE PSICOLOGIA

A Colônia de Psicopatas foi fundada em 1911 "quando Ministro da Justiça o Sr. Rivadavia Correa, conseguiu ampliar a assistência aos alienados, criando uma colônia para mulheres no Engenho de Dentro, semelhante à que existia para homens na Ilha do Governador" (Cunha-Lopes, 1939).

Mas a história do laboratório se inicia nos primeiros anos da década de 20. Sabe-se que foi idealizado por Gustavo Riedel, então diretor da Colônia. Riedel contou com apoio financeiro de Guilherme Guinle, patrono da Fundação Gaffrée-Guinle, que durante muitos anos sustentou o laboratório e alguns de seus colaboradores. Guinle "cedeu algumas salas do dispensário nº 2 para a sede do Laboratório de Psicologia e ofereceu as verbas necessárias para a aparelhagem do mesmo" (Guimarães, 1928, aparelhagem essa adquirida das firmas Boulitte, de Paris, e Zimmermann, de Leipzig (Lourenço Filho, 1955).

É provável que Riedel tenha adquirido os aparelhos como partes dos planos de uma idealização anterior, a do Serviço de Profilaxia Mental, lá mesmo na colônia, em 1922.< Nessa época, Riedel esteve viajando pelos Estados Unidos e voltou entusiasmado com o movimento de Higiene Mental que, em 1923, redundou na criação da Liga Brasileira de Higiene Mental (Olinto, 1938). Isso não quer dizer que Radecki trabalhava para a Liga, como indiretamente sugere Henrique Roxo (1938) ao dizer que "há também o serviço de psicologia experimental da Liga que esta em Engenho de Dentro...".

Mas os planos de Riedel para com os instrumentos que adquiriu, eram muito mais modestos do que a realidade, no tempo, veio a determinar. Tanto que não existia, no organograma da colônia, um Laboratório de Psicologia. Radecki foi contratado como chefe de análises clinicas. A idéia de usar o instrumental adquirido para a constituição de um Laboratório de Psicologia, propriamente dito, nasceu com a ida de Radecki para a colonia. A coisa toda foi aleatória(13) e, em 1924, "a feliz circunstancia de estar no Brasil, favoreceu a indicação do professor Waclaw Radecki para organizar e dirigir o Laboratório de Psicologia recém-fundado" (Guimarães, 1928). Na verdade, fundado por ele próprio.

O que deve realmente ter determinado novos fins para a aparelhagem e favorecido a indicação de Radecki, foi seu notável currículo. É importante lembrar que, em Genebra, diferentemente de muitos centros europeus, a Psicologia figurava entre os cursos de licenciatura em ciências naturais e não dentre os de filosofia. Isso o deixava adequadamente habilitado para desenvolver seu futuro trabalho no laboratório, dentro do espírito da Psicologia Experimental da época. Explica também a ênfase dada aos aspectos biológicos de seu sistema sem que, por isso, tivesse enveredado por uma, psicologia organicista, como era muito comum nos meios da psiguiatria no Brasil(14). Aliás, o produto dessa formação devia parecer algo confuso para a compreensão brasileira de 20, face à pobreza do modelo educacional vigente.

O instrumental do laboratório, todo ele muito estranho a nós, habituados a crer que Laboratório de Psicologia seja sinônimo de laboratório skinneriano, representava um acervo significativo dá aparelhagem clássica. Estão enumerados no relatório de Guimarães (1928) e, sem exagero, o número e variedade de aparelhos(15), faria in veja a muitos núcleos contemporâneos de pesquisa psicológica. Estesiômetros, ergógrafos, denamômetros, reflexômetros, acusiestiômetros, tonômetros, tropoestesiômetros, cromatoestesiômetros, taquistoscópios, mnemômetros, polígrafos, oscilômetros e, pelo menos, mais algumas dezenas de aparelhos. Todos eles, conforme o problema formulado pelo pesquisador, serviam para os mais diversos estudos experimentais - sensações musculares, sensações estáticas e cinestéticas, reflexos, atenção, associação, discriminação, memória, pensamento, processos afetivos, sugestão, etc.(16).

Uma vez assumidas suas funções, Radecki e Halina passaram a morar dentro da colônia, numa modesta casa que lhes foi confiada. Ê sabido que, desde sua chegada na colônia, Radecki conseguiu cercar-se de antipatias, preconceitos e inimizades. Arrogante, altivo, orgulhoso, dado a atitudes imperiais e, no falar de Jaime Grabois(17), "com fumaças de nobre".Auto-denominava-se "psicólogo profissional" e isso era muito estranho para o ambiente nacional da época, em que médicos, engenheiros e advogados gozavam os ares remanescentes de uma aristocracia profissional exclusiva.

Era uma figura estranha, Tinha o hábito de usar um longo cavanhaque assírio que lhe chegava ate a altura do peito. Vestia-se com cores escuras e portava, no dedo, um grande anel com duas letras "psi" incrustadas. Não bastasse isso, ainda deixou algumas marcas pessoais que, mesmo hoje, seriam consideradas um pouco extravagantes. Tão logo se mudou para a pequena casa e assumiu o laboratório, resolveu decorar a ambos dentro de seus padrões estéticos. Casa e laboratório tiveram paredes, tetos e soalhos pintados de verde escuro. Para arrematar, o verde recebeu listas ou salpiques de prata(18). Ora,não é difícil imaginar como isso deve ter repercutido dentro do ambiente da colônia. Ainda tocava violoncelo em quartetos de cordas, que organizava com músicos renomados do Rio de Janeiro, como Peri Machado, grande violinista da época(19).

Esses detalhes marcavam tanto que, a exemplo disso, algumas cicatrizes ainda podiam ser encontradas muitos anos depois. É o caso do discurso de Lourenço Filho, proferido por ocasião da posse de Nilton Campos na Cátedra de Psicologia, na Faculdade Nacional de Fiolosofia - "não o assustavam (a Nilton) os ademanes hieráticos do professor Waclaw Radecki (...) nem ainda, é certo, a estranha decoração, algo cabalística, de que o ilustre especialista polonês mandara revestir as paredes de algumas das salas do laboratório, em fundo verde carregaddo de arabescos e tridentes de prata..." (Lourenço Filho, 1963). Puro preconceito(20).

Se tinha lá suas excentricidades, tinha também seus méritos e, destes, o mais incontestável, era seu espírito empreendedor. Iniciadas as atividades do laboratório, em 1924, contava ele com a participação de apenas duas pessoas. O próprio Radecki, que acumulava as funções de técnico e de chefe do laboratório e de Halina Radecka, que era secretária e primeira assistente.

Desconhecemos a formação de Halina, mas ela tinha alguns conhecimentos de Psicologia, mais notadamente em Psicologia Infantil.

Entretando, desde o início, Radecki tinha grandes planos para o laboratório e estabeleceu finalidades muito ambiciosas. Ele deveria servir como:

I - Instituição auxiliar médica.

II - Auxiliar das necessidades sociais e práticas.

III - Núcleo científico.

IV - Centro didático para formar os técnicos brasileiros.

É fácil perceber que a extensão das atividades que o laboratório se propunha, não era empreita a ser realizada por apenas duas pessoas. Com tais objetivos, lhe pareceu mais importante iniciar seu trabalho divulgando a existência do laboratório e suas propostas, bem como a própria psicologia, que, naquela época, era pouco conhecida e acreditada entre nós.

Promoveu cursos de Psicologia no próprio laboratório, na Liga Brasileira de Higiene Mental(21) e na Escola de Enfermeiras Alfredo Pinto. Os cursos promovidos no laboratório eram, normalmente freqüentados por médicos da colônia(22). Mas o objetivo de atrair novos colaboradores, só veio a ter sucesso em 1925, durante um curso ministrado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. No decorrer desse curso, Nilton Campos, um médico recém-formado, vem a ser "um dos primeiros nacionais que resolveram se dedicar à penosa profissão de psicólogo" (Guimarães, 1928). Posteriormente, Nilton publica um trabalho com Radecki(23).

Ao pequeno grupo, veio juntar-se Gustavo de Rezende, psiquiatra da colônia, que, com Radecki, desenvolveu algumas produções sobre terapia psicológica e psicopatologia(24), cumprindo alguns dos objetivos estabelecidos pelo laboratório. Mais tarde, foi admitida Lucilia Tavares, professora municipal indicada pela Secretaria da Educação, para ali se aperfeiçoar e que, em sua passagem, deixou dois trabalhos teóricos(25), sendo um deles realizado com Radecki.

Uma instituição que efetivamente acreditou em Radecki foi o exército. Por intermédio da Diretoria da Aviação (não existia ainda o Ministério da Aeronáutica), o exército designou um gruipo de médicos militares para participar de um curso Psicologia, ministrado pelo próprio Radecki, no laboratório. Ao termino do curso, três médicos desse grupo foram designados para permanecer laboratório, aprendendo a desenvolver pesquisas psicológicas com interesses à seleção aviadores - o capitão Ubirajara da Rocha e os tenentes Arauld Bretas Alberto Moore.

Desse grupo militar, Ubirajara da Rocha foi o que mais se identificou com os estudos e pesquisas psicológicas, deixando dois trabalhos(26) e um interessante relatório(27), embora os outros dois também registrassem suas produções(28), cumprindo finalidades do laboratório.

Em 1927, uma comissão de médicos brasileiros, chefiada por Radecki, realizou uma viagem pela Europa, visitando onze cidades em diferentes países e percorrendo, rapidamente, os grandes centros de desenvolvimento da Psicologia européia (Campos, 1928).

De volta da viagem, alem de continuar seus trabalhos experimentais, Radecki promoveu um curso na Faculdade de Direito de Curitiba e uma conferência no Congresso de Higiene em Belo Horizonte. Enquanto isso, o laboratório continuou recebendo colaboradores - Antonio de Bulhões Pedreira(29), Osvaldo Guimarães(30) e Flávio Dias, todos de formação médica. Algumas pessoas, embora ainda não atuando no laboratório, estavam sempre em contato com o mesmo, como Euríalo Cannabrava, advoga do de Belo Horizonte, e Edgard Sanches, professor de filosofia do direito em Salvador. Em fins de 1929 e começo de 1930, o laboratório acolhe seu último colaborador, Jaime Grabois, um jovem interno da clínica psiquiatrica da Faculdade de Medicina da Bahia, que se transferia para o Rio de Janeiro. Dionélio Machado, um psiquiatra de Porto Alegre e hoje destacado escritor, esteve durante algum período em visita ao laboratório, mas não chegou a fazer parte de seu quadro de colaboradores.

A concepção teórica da Psicologia de Radecki, seu sistema psicológico, o "discriminacionismo afetivo" amadurecem e concluem-se entre 1928 e 1929,durante um curso de Psicologia ministrado na Escola de Aplicação do Serviço de Saúde do Exército. O curso, todo ele publicado em 17 fascículos intitulados "Resumo do Curso de Psychologia" foi posteriormente encadernado(31).

O "Resumo", constando de 447 páginas, apresenta, de forma criteriosamente clara, os três elementos fundamentais do sistema: a Psicologia da vida intelectual, a Psicologia da vida afetiva e a Psicologia da vida ativa. 0 quarto capitulo se ocupa de "problemas da Psicologia individual e coletiva" e o quinto, da "psicotécnica", ou seja, da aplicabilidade da Psicologia.

No "Resumo", a erudição de Radecki está à mostra. Dos 345 autores citados, percebe-se claramente a influência principal de Wundt, James, Ribot, Claparède e, secundariamente, de Freud, Ebbinghaus, Stem, Jung, Külpe, Titchner e Ach(32).

Ainda em 1928 e 1929, são publicados os "Trabalhos de Psychologia" (vol. I e II), registrando as produções do laboratório. Na verdade, os "Trabalhos" são separatas dos "Annaes da Colônia de Psychopathas".

Grabois nos diz que, ao chegar ao laboratório, as atividades científicas se encontravam diminuídas e que Radecki estava preocupado com a difusão de seu sistema(33). Não ha dúvidas que Radecki se voltava para sua auto-promoção. Um tanto vaidoso e narcisista, sonhava se imortalizar na Psicologia. Mas não se pode fazer disso um agravo ao homem. Exageros a parte, a preocupação e o empenho de Radecki nesse sentido de engrandecimento, tinham uma legitimidade compreensível. A formação, o trabalho, a dedicação e o conhecimento, nos permitem destacar Radecki como um dos mais eruditos psicólogos da fase "heróica" da Psicologia no Brasil. Aliás, ele próprio, é testemunha viva do heroísmo da Psicologia científica mundial. Remanescente do período clássico dos "sistemmakers", estava ele, no Brasil de 30, igualmente procurando um espaço, lugar ao sol.

O laboratório já vinha funcionando e produzindo normalmente, o número de dedicados assistentes era considerável e seu pensamento havia se desvelado de modo mais definitivo. Exemplo dessa preocupação para com seu sistema, é o subtítulo dos trabalhos apresentados por seus assistentes, para um concurso da Escola Normal do Rio de Janeiro, em 1930. O de Halina Hadecka(34) , com o subtítulo de "ensaio de aplicação prática do sistema do discriminacionismo afetivo de Radecki". O de Lucilia Tavares(35), Nilton Campos, Ubirajara da Rocha e Arauld Bretas(36), com o subtítulo comum de "ensaio crítico e analítico, baseado no sistema do discriminacionismo afetivo de Radecki". Na verdade, todos esses trabalhos estavam fundamentados no "Resumo" de Radecki e, em alguns casos, inclusive reproduzindo partes dele. O concurso não ocorreu e a cadeira ficou com Plinio Olinto, que lá já estava desde 1916.

Em tal estágio do desenvolvimento de seu trabalho, Radecki começou a se interessar por uma dimensão maior. Afinal, um Laboratório de Psicologia, dentro de uma colônia de psicopatas, ver-se-ia reduzido aos limites que os fins a que fora destinado o obrigariam.

Analisando as atividades do laboratório, percebe-se claramente que a tônica do trabalho de Radecki, centrou-se no objetivo de usá-lo como "núcleo científico" e como "centro didático para formar os técnicos brasileiros"(37). Em resumo, o trabalho de Radecki teve uma orientação bastante acadêmica. Por outro lado, Engenho de Dentro, ainda hoje considerado um subúrbio distante, deve ter sido conveniente, dada sua calma localização, nos idos de 1925, ano em que as atividades laboratoriais se iniciaram. Mas não mais quando dele se pretendia servir como núcleo de ensino.

Nesse sentido, por volta de 1930, Radecki como sempre empreendedor, começou a acionar todos os seus recursos, visando a transformar o laboratório, num Instituto de Psicologia. Nessa época, havia um movimento para reformar o ensino superior brasileiro. Radecki aproveita o clima e convida várias autoridades do Distrito Federal para visitarem o laboratório. Nesse mesmo 1930, de modo providencial para os planos de Radecki, o laboratório tem a oportunidade de anfitriar duas grandes personagens da Psicologia europeia - Claparède e Kohler(38)..Anizio Teixeira lá esteve em 1931 e é provável que, junto a Lourenço Filho, tenha endossado as idéias da criação de um Instituto de Psicologia, influenciando Francisco Campos, Ministro da Educação de Getúlio Vargas.

Em 1931, as publicações da "escola" de Radecki passam a obedecer a nova orientação. Parece que, naquele momento, a preocupação era levar a Psicologia ao encontro do grande público e das autoridades. Com o título comum de "À margem da Psicologia", Jaime Grabois, Euríalo Cannabrava, Lucilia Tavares e Halina Radecka publicam artigos no Diário do Comercio. Os artigos enfatizavam as relações da Psicologia com outros ramos do conhecimento - a Psicologia e a educação, a Psicologia e o direito, etc. 0 artigo de Grabois, "psicologia e medicina", ainda hoje atual pelo tema e pelo enfoque, é uma boa amostra do nível intelectual e do empenho dos trabalhadores do laboratório, nessa sua fase de transformação.

E a agitação vivida pelo laboratório em 1931, surtiu bons resultados. Em 19 de março de 1932, o Decreto Lei n9 21.173 cria o Instituto de Psicologia.

 

III - O INSTITUTO DE PSICOLOGIA

De acordo com o referido Decreto, o Instituto de Psicologia, "provem da conversão do antigo Laboratório na Colônia de Psicopatas no Engenho de Dentro e "fica sob a dependência imediata da Secretaria de Estado Educação e Saúde Publica, enquanto não for instalada Faculdade Educação, Ciências Letras...".

A viabilidade do Instituto se inseria num clima peculiar. O então denominado governo provisório de Vargas, criou, em 1930, o Ministério de Educação e Saúde, para o qual foi designado Francisco Campos que, em 1931, promoveu a reforma do ensino superior brasileiro, com a criação dos estatutos das universidades. A universidade do Rio de Janeiro havia sido criada por decreto em 1920, apenas com a finalidade de conceder o título de Doutor Honoris Causa ao Rei Alberto da Bélgica, que visitava o Brasil (Fávero, 1977) - uma universidade para "inglês ver". Mas, a nível de fato, o que se fez foi juntar as já existentes escolas Politécnicas, de Medicina e de Direito, e torná-las uma "simples aglomeração de escolas profissionais, às quais uma frágil reitoria, sem muitas funções, era acrescentada" (Schwartzman, 1979).

Pela Reforma Francisco Campos, a fundação de uma universidade exigia a "incorporação de, pelo menos, três institutos de ensino superior, entre os mesmos incluídos os de Direito, de Medicina e de Engenharia ou,ao invés de um deles, a Faculdade de Educação, Ciências e Letras" (Azevedo, 1976).

Esta última, escreve Francisco Campos, referindo-se a nova organização da Universidade do Rio de Janeiro, "pela alta função que exerce na vida cultural, é que dá, de modo mais acentuado, ao conjunto dos institutos reunidos em universidade, o caráter propriamente universitário, permitindo que a vida universitária transcenda aos limites do interesse puramente profissional abrangendo, em todos os aspectos, os altos e autênticos valores de cultura que à universidade confere o caráter e o atributo que a definem e a individuam"(Azevedo, 1976).

Assim, o status de um instituto, dentro de uma Faculdade de Educação, Ciências e Letras, permeado por um espírito universitário, permitiria a Radecki a arquitetura de planos mais ambiciosos e ainda mais arrojados do que os estabelecidos para o laboratório. Percebendo isso, Radecki e seus colaboradores lançam o Instituto numa tríplice finalidade:

I   - Núcleo de pesquisas científicas de Psicologia geral, individual, coletiva e aplicada.

II  - Centro de aplicação.

III - Escola Superior de Psicologia.

Para cumprir suas finalidades, o Instituto manteria "a mesma orientação do antigo laboratório, continuando a mesma diretriz que vinha sendo observada, há mais de oito anos, tanto nos seus trabalhos práticos, como na sua atividade científica pura. Com a mesma direção, o mesmo corpo de trabalhadores cujo preparo técnico e científico formou, contirá o Instituto a sua atividade e os estudos iniciados. As aplicações práticas não se afastarão também das normas até então seguidas, estendendo-se, entretanto, a novos domínios"(39).

O diretor do Instituto era Waclaw Radecki. Os assistentes - Agnello Ubirajara da Rocha, Halina Radecka, Edgard Sanches, Lucilia Tavares, Arauld Bretas, Jaime Grabois e Euríalo Cannabrava (este último comissionado) - agora na condição de docentes.

O Instituto compreenderia cinco sessões:

a) psicologia geral.

b) psicologia diferencial e orientação profissional.

c) psicologia aplicada à educação.

d) psicologia aplicada à medicina.

e) psicologia aplicada ao direito.

O objetivo era aproveitar a formação de cada um dos assistentes, para torná-los especialistas em áreas específicas. Lucilia Tavares e Halina Radecka tratariam da Psicologia Aplicada à Educação. Ubirajara da Rocha e Arauld Bretas, da Psicologia Aplicada à Seleção Profissional (psicotécnica) e, Jaime Grabois, da Psicologia Aplicada à Medicina. Edgard Sanches e Euríalo Cannabrava, da Psicologia Aplicada ao Direito.

Igualmente interessante, é o programa do curso que formaria "profissionais de psicologia", no plano de criação de uma "escola superior de psicologia", curso esse que iniciaria seu ano letivo em 1933.

"O curso profissional comportará as seguintes etapas:

1. na primeira, far-se-á o estudo da Psicologia Geral, baseado nas ciências biológicas e naturais, que serão estudadas no que interessam à Psicologia (biologia, anatomia e fisiologia, física e química). Nesse período, far-se-á também o estudo da propedêutica filosófica e de problemas particulares da lógica.

2. à segunda, corresponde o estudo da Psicologia diferencial e coletiva, baseado também nas ciências naturais, completado, entretanto, pelas ciências sociais e filosóficas (antropologia, sociologia, economia política, história da filosofia, teoria do conhecimento, teoria das ciências naturais, nas partes que apresentam interesse para a formação de psicologistas).

3. a última abrange os cursos de Psicologia Aplicada e os cursos monográficos de especialidades psicológicas e ciências afins (psicologia da criança, historia da psicologia, capítulos de ética e de estética, etc.).

A todos os cursos presidirá uma unidade de orientação, de modo que, ministrando-se ao aluno noções sobre um dado domínio, recebe ele, contemporaneamente , nas outras disciplinas, conhecimentos correlatos.

As aulas serão complementadas pelos exercícios práticos de laboratório e pelas aulas de argüição mútua dos alunos (seminário).

Os alunos com suficiente preparo teórico entrarão como internos nos serviços de aplicações especializadas, nas várias sessões.

O ano letivo será dividido em dois semestres.

A duração do curso profissional será de quatro anos para as pessoas de instrução secundária ou normal, e poderá sofrer redução até dois anos para as pessoas de instrução superior"(40).

A grosso modo, o curso "profissional" que Radecki e seus assistentes planejaram em 1932, não era muito diferente dos que encontramos hoje nas faculdades de Psicologia espalhadas pelo País.

Em 1932, com o ritmo acelerado de sempre, Radecki inicia a vida do Instituto. Criado em março, o Instituto já distribuía cartazes pelo Distrito Federal, anunciando a abertura de inscrições para um curso de psicologia geral, que teria início em maio do mesmo ano. Com temas amplos mas convergentes à formação psicológica, Radecki, Edgard Sanches, Ubirajara da Rocha, Arauld Bretas, Lucília Tavares, Jaime Grabois, Euríalo Cannabrava e Halina Radecka, como docentes, dariam efetividade ao curso.

Nesse mesmo 1932, deveria ter lugar em Copenhague um Congresso Internacional de Psicologia. De acordo com Grabois, Radecki solicitou uma sessão especial para a Psicologia brasileira e colocou seus assistentes na tarefa de produzir trabalhos para apresentação. O próprio Radecki, na qualidade de chefe da delegação, produziu três trabalhos - "O discriminacionismo afetivo", "A continuidade da vida intelectual" e "Criteriologia para apreciação da idade mental". Edgard Sanches escreveu "A motivação dos atos voluntários". Lucília Tavares, "A lei da tonalidade afetiva dos juízos". Em parceria, Jaime Grabois e Euríalo Cannabrava produzem dois trabalhos -"A contribuição experimental à psicologia das concepções formação voluntária representações".

Mas, se os artigos seguiram para Copenhague, o mesmo não aconteceu com seus autores. O Instituto tentou angariar verbas em todos os cantos, mas a busca resultou improdutiva. 0 governo negou. A fundação Gaffrèe-Guinle negou.

Ainda nesse ano, Radecki conclui sua monografia sobre "A colocação da psicologia no sistema das ciências".

Entretanto, todos esses trabalhos, frutos da produção acelerada dos primeiros meses de vida do Instituto, foram, ao mesmo tempo, os últimos.

No dia 24 de outubro de 1932, sete meses após a criação do Instituto, seus trabalhadores o encontram fechado, de portas lacradas, com o aviso de que, por ordem presidencial, o Instituto estava extinto e que seu material seria incorporado ao Serviço de Assistência a Psicopatas (Decreto Lei n9 21.999).

Desmoronava-se o sonho de Radecki com que, em se "constituindo a formação de psicólogos um dos principais objetivos do Instituto, o governo não só oficializou a atividade didática que já vinha sendo exercida no antigo laboratório como também a profissão de psicólogo, permitindo, desta maneira, que uma escola brasileira de psicologia, ate agora de cunho exclusiva mente idealista, se convertesse em conjunto profissional e científico oficial"(41).

Vôos Radeckianos à parte, pois o governo não tinha oficializado nem a "profissão de psicólogo" e nem a "escola brasileira de psicologia", um fato e verdadeiro - em 1932, com a curta duração de sete meses, a Psicologia oficializou-se no Brasil. Mas o vôo não era tão alto. Se o Instituto não tivesse sido fechado e se os planos de Radecki tivessem alcançado sua concretude (o estilo empreendedor não deixa dúvidas), é muito provável que a história da Psicologia no Brasil tivesse seguido um outro caminho.

Agora, uma pergunta natural - Por que o Instituto foi extinto?

O Decreto explicita que, ao assiná-lo, Getúlio Vargas teve "em vista a exposição de motivos apresentada pelo Ministro de Estado dos Negócios da Educação e Saúde Pública". Mas não diz quais foram esses "motivos". Resta-nos, portanto, deduzi-los a partir de três interpretações muitos plausíveis:

1. A de que setores influentes da psiquiatria tenham exercido pressão sobre alguns ministros, visando a fechar o Instituto, por intermédio da revogação da lei de sua criação, para impedir o possível advento da profissionalização da Psicologia no Brasil. O grande número de investidas de setores da psiquiatria, nesse sentido, algumas no presente, não permite o desprezo dessa possibilidade.

2. A de que grupos católicos, ligados à Psicologia, tenham pressionado o alto escalão do governo Vargas, visando à queda de Radecki,ao fechamento do Instituto e à revogação da lei.

3. A de que a dotação orçamentária do Instituto só daria para mantê-lo durante sete meses e que ele havia sido criado na expectativa de que viesse a ser auto-financiável.

Essa última interpretação provem de Jaime Grabois, que, tendo vivido os últimos momentos do Instituto, assegura veracidade a informação. Mas, ele mesmo, não descarta as outras duas possibilidades. Aliás, como nós, acredita que o fechamento se deveu a concomitância das três causas.

Como se sabe, a historia da luta pela conquista da Psicologia, no Brasil, envolveu setores de áreas anteriormente desenvolvidas, tais como filósofos, educadores, médicos e religiosos.

Um documento que retrata as divergências existentes na época em que o Instituto foi criado, é um artigo escrito em junho de 1932, por Alceu Amoroso Lima, intitulado "O instituto Official de psychologia". O artigo foi publicado numa revista chamada "A Ordem", porta-voz do Centro Dom Vital, reduto dos intelectuais católicos. Ali, Leonel Franca, posteriormente fundador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, andava, em 1928 e 1929, promovendo uma série de conferências que, em 1933, foram publicadas num livro denominado "A psicologia da fé".

Inicialmente revoltado contra o caráter arbitrário com que o instituto fora fundado (e nisso ele tinha razão pois foi criado e extinto ditatorialmente), Alceu arma-se contra a infiltração da "filosofia nova" (não religiosa) que vinha sendo introduzida no seio de nossa sociedade cristã, por Anísio Teixeira (simpatizante e, talvez responsável pela criação do Instituto), Fernando de Azevedo, Celina Padilha e Cecília Meireles, arautos do "comunismo" e do "sovietismo"(42).

Atiçado pela propaganda de Radecki(43), mais do que pelo texto da lei, Alceu fantasia sobre as fantasias daquele, e passa a escrever absurdos. Lança-se quixotescamente contra a criação e as finalidades do Instituto que, "sob a capa de ciência pura, se está trabalhando ativamente no sentido de uma metafísica desastrosa: o mais crasso materialismo filosófico e moral". Esbraveja pelo fato de que, "animado pelas auras do favor oficial, não se limitou o modesto laboratório de outrora a permanecer dentro de sua natureza científico-experimental, auxiliando praticamente as pesquisas psicologicas em sua aplicação limitada pelo bom senso e, atecerto ponto, pelos termos do próprio decreto de criação do Instituto" e que "já agora se lança o ex-laboratório do Engenho de Dentro às mais audaciosas aventuras, muito longe terreno experimental, ambicioanando nem menos criar uma "escola brasileira psicologia essa que, além tudo, ficaria "sob a chefia um técnico estrangeiro".

Usando e abusando de uma linguagem dramática, Alceu discorre sobre os objetivos do Instituto, tentando demonstrar o perigo que se avizinha, chamando a atenção para a "máscara de ciência positiva" da escola brasileira de Psicologia e para a "falsa metapsicologia que entende impor ao Brasil como sendo a psicologia do povo brasileiro".

Mas a culpa era do governo pois "eis aí como, sem bulha nem matinada, nas ante-salas das repartições públicas se tramou essa transformação doutrinária do Estado Brasileiro, que, de um momento para outro, se converte em Estado psicológico, em Estado filósofo, em Estado ético, combatendo determinada corrente da psicologia brasileira, a qual chama desdenhosamente de "idealista" e propugnando outra corrente, que e a do ..."discriminacionismo afetivo"..."(44). Sugerindo perplexidade, Alceu pergunda - "será possível que se venha impor, como "escola brasileira de psicologia", uma orientação naturalista da psicologia que a maioria dos brasileiros repudia?". E desabafa - "e agora nos vem esse Instituto de Psicologia materialista que é mais um atentado contra a consciência crista da nacionalidade e que nos presenteia com o "discriminacionismo afetivo", como a última palavra da "profissão de psicólogo, hoje em dia "oficializada" pelo povo brasileiro!".

Exagero lá, exagero cá. Por outro lado, afora esse aspecto hoje cômico, há o retrato vivo das lutas que cercavam as nuanças metasistêmicas da Psicologia no Brasil.

Alceu não foi responsável direto pelas tramas que determinaram o fechamento do Instituto. Aliás, ele nem o conheceu. Mas nada pode garantir (nem mesmo ele) que não tenha sido usado pelos membros de seu setor.

No final de todas as contas, acaba ficando a impressão de que as lutas estavam sendo dirigidas contra a lei e contra a pessoa de Radecki, pois, com a revogação e com a saída de Radecki daquela instituição, e do País, o Instituto i reaberto. Parece que, sem a lei e seu inspirador, a Psicologia no Brasil continuaria inócua às-"psicologias da fé" e às "psiquiatrias".

 

IV - 0 TRABALHO DE RADECKI NO PRATA

Saídos do Brasil, sem luta, os Radecki foram para Montevideo, no Uruguai. Ali, já em 1933, Radecki inicia um curso de psicologia geral na Universidade de Montevideo. No mesmo ano, começa a lecionar psicologia na Faculdade de Medicina local. Ainda em 1933, seu "Tratado de Psicologia" i traduzido para o espanhol por Camilo Payssi e Victor Delfino(45).

De 1933 a 1939, Radecki divide seu tempo e suas atividades, atuando concomitantemente no Uruguai e na Argentina, certamente procurando reconstituir sua "escola". Delfino e Payssi figuram entre os primeiros discípulos, havendo o último publicado um livro de psicopatologia junto com Radecki(46).

Em 1936, Radecki funda o Centro de Estudos Psicológicos de Buenos Aires, mais tarde denominado Instituto de Psicologia de Buenos Aires. Em 1937, publica um "Manual de Psiquiatria" com Reni Arditi Rocha(47).

Em 1944, funda o Centro de Estudos Psicológicos de Montevideo, que funciona em cooperação com o Centro de Buenos Aires e ambos passam a publicar um boletim semestral denominado "Hoja de Psicologia". Ainda em 1947, no Uruguai, funda a Escola Profissional de Psicologia que, em 1951, seria transformada em Faculdade Livre de Psicologia.

Em 1950, "organiza o I Congresso Latino Americano de Psicologia (Montevideo) e, em 1951, o governo uruguaio lhe confia a missão oficial frente ao Congresso Mundial de Psicologia (Estocolmo) e lhe encomenda a difícil tarefa de trazer ao Uruguai as bases do ensino de psicologia na Europa, para aperfeiçoar os estudos inicia dos em nossa capital" (biografia, 1953).

De volta da Europa, em fins de 1951, começa os preparativos para a realização do II Congresso Latino Americano de Psicologia(48). Infelizmente, em 25 de março de 1953, Radecki vem a falecer.

A "escola" de Radecki atraiu um bom número de colaboradores tanto na Argentina, quanto no Uruguai -Delfino, Payssi, Cáceres, Rocha, Nieto, Barilari, Zapiola, Aparicio, Mansilla, Mata, Lago e Cambiaggio, sendo esta última, até pouco tempo, presidente do Instituto de Psicologia de Buenos Aires, que, em anexo, mantém um "Círculo de Discípulos e Amigos de Waclaw Radecki".

Halina também teve uma atuação significativa no Uruguai e Argentina. Seu "Exame psicológico da criança"(49), é traduzido para o espanhol em 1947. Em 1960, ela publica um volume de psicologia social(50).

Numa comunicação pessoal, recentemente enviada por Gabriel Ventayol, diretor geral do Instituto de Psicologia Waclaw Radecki, de Buenos Aires, soubemos que Halina Radecka "faleceu em 1980, em algum lugar da República Argentina, num estado de demência senil, com transtornos próprios do deterioramento físico da idade".

 

V - A CONTINUIDADE DO INSTITUTO

Quatro meses após o fechamento do Instituto, o governo resolve admitir quatro médicos, para que atuassem como "assistentes de psicologia", no que foi então denominado Instituto de Psicologia da Assistência a Psicopatas. Esse grupo foi composto por Jaime Grabois, Ubirajara da Rocha, Eurlalo Cannabrava (descuidadamente admitido como médico) e Nilton Campos. voltava de São Paulo, onde esteve trabalhando, desde que se desentendeu com Radecki, nos últimos momentos vida do antigo laboratório que, por isso, não figurou no quadro extinto Instituto Psicologia. O pequeno grupo foi chefiado pelo psiquiatra Carneiro Airosa.

Durante esse período, que se estendeu dos primeiros meses de 1933 aos últimos de 1937, os exassistentes de Radecki resolveram dar início a um curso de Psicologia, no mesmo espírito do Instituto de 1932, aberto a universitários e pessoas com título universitário. O instrumental do ex-laboratório (e ex-instituto) foi usado para aulas demonstrativas, no decorrer dos cursos promovidos. Foi igualmente utilizado para exames psicológicos dos pacientes internados, como já acontecia nos idos do laboratório, pelos assistentes médicos de Radecki.

Mas essa situação, que perdurou por quase cinco anos, não era de agrado para alguns membros do ex-instituto, que passaram a nutrir interesses pelo ressurgimento de um centro de psicologia (e não de psiquiatria).

Assim, em 1937, Jaime Grabois e Euríalo Cannabrava começaram a articular a possibilidade de se recriar o Instituto, aproveitando alguns dos dispositivos da lei nº 452 de 5 de maio de 1937, que organizava a Universidade do Brasil, e que previa, dentre outros, a criação de um Instituto de Psicologia.

Para tanto, recorreram a Edgard Sanches, companheiro dos tempos de laboratório e, na ocasião, deputado e membro da comissão de cultura da Câmara dos Deputados Federais. Sanches influenciou a decisão de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação, que, em fins de 1937, re-cria o Instituto de Psicologia na Universidade do Brasil. 0 novo Instituto ficava sediado no centro da cidade do Rio de Janeiro, em um prédio esquina entre a avenida Nilo Peçanha e rua México.

Após ter passado por um período relativamente "morno" na Assistência a Psicopatas, o Instituto ressurge, desta vez, ligado ao âmbito acadêmico e totalmente independente da psiquiatria, como nos sonhos de Radecki.

Mas, no momento da transição, Cannabrava é designado para dirigir o Instituto de Pesquisas Educacionais. Ubirajara da Rocha reassume suas funções no Exército. Nilton resolve permanecer na Assistência a Psicopatas para, mais tarde, assumir, interinamente, a cadeira de psicologia educacional da Faculdade de Educação, em substituição a Lourenço Filho.

Assim, o novo Instituto é Jaime Grabois, seu idealizador, único funcionário e diretor. De modo irônico, o Instituto nasce sem regimento, com dotação orçamentária para aquisição de material mas não para contratar assistentes. Já havia lá o que Grabois chamou de um "mobiliário original e bastante interessante". Isso porque a sede do novo instituto tinha sido, de véspera, ocupada pelos famosos arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

O primeiro passo de Grabois foi cuidar da transferência da maior parte da aparelhagem que compunha o antigo laboratório e que ainda estava na Assistência a Psicopatas, lã no Engenho de Dentro, bem como da biblioteca, constando de umas duas centenas de livros, que haviam sido doados para o antigo laboratório por Anibal Bonfim, filho de Manuel Bonfim, e uma coleção do Annèe Psychologique.

Dessa maneira, coincidentemente lembrando os passos de Radecki, Grabois inicia a vida do novo Instituto, visando a atrair pessoas que pudessem ali se desenvolver. Abriu cursos de psicologia e, em pouco tempo, o Instituto transformava-se num centro de amplo convívio de jovens intelectuais, muitos deles passando a colaborar voluntariamente.

No início de 1938, João Consani Perrone, então um jovem de 17 anos, passa a colaborar e mais tarde foi nomeado conservador do laboratório de psicologia do Instituto. Nessa mesma ocasião, Edgard Sanches, de mandato expirado, fica comissionado no Instituto e passa a ministrar um curso de psicologia jurídica. Também colabora o técnico de educação Joaquim Ribeiro, o pediatra Cleodufo Vianna Guerra e o médico José Antonio de Souza Viarça.

A primeira tentativa de contratar assistentes foi frustrada. Haviam sido indicados José Honório Rodrigues (hoje um eminente historiador), Cláudio Nogueira e Maria Grabois.

O auxílio exclusivo de voluntários perdurou até 1940 pois, em 1941, houve prova de habilitação para admissão de assistente. 0 aprovado foi Eliezer Schneider. Logo depois, em outro concurso, foram aprovados Maurício Vinhas de Queirós e Maria Helena Bournett Furtado.

É importante lembrar que, na Universidade do Brasil, existiam três núcleos de psicologia, paralelos e simultâneos. Uma cadeira de psicologia (educacional que, a partir de 1937, com a extinção da Universidade do Distrito Federal, foi incorporada à Faculdade de Educação e em cuja cátedra estava Lourenço Filho. Uma cadeira de psicologia na Faculdade Nacional de Filosofia que, durante muitos anos, esteve sob responsabilidade de André Ombredane e que, a partir de 1945, com sua saída do Brasil, ficou sob os cuidados de Nilton Campos, que deixava a cadeira de psicologia educacional, para a reassunção de Lourenço Filho. E o Instituto de Psicologia, sob a direção de Jaime Grabois.

Os alunos de educação estudavam psicologia na cadeira de psicologia educacional. Os alunos de filosofia, na cadeira de psicologia. Os cursos do Instituto tinham um caráter de especialização.

Em 1944, foi originado um processo administrativo, visando a transferir "todo o material pertencente ao Instituto de Psicologia, para o edifício da Faculdade Nacional de Filosofia, ficando sob a direção do catedrático desta", na época, André Ombredane. Capanema pedia ainda que fosse examinada a possibilidade de Grabois ser incluído no quadro da Faculdade Nacional de Filosofia, como professor assistente ou adjunto de Ombredane. Mas Grabois não aceita nem o cargo de professor e nem a anexação do Instituto. Uma recusa compreensível, afinal, ninguém abriria mãos de sete anos de trabalho. A autonomia do Instituto continua respeitada.

Em 1947, são admitidos novos assistentes - Maria Grabois e Yolanda Schneider. Entretanto, no final desse mesmo ano, o contrato de Grabois não é renovado e ele é afastado da direção e do quadro de pessoal do Instituto(52).

Durante os dez anos em que o Instituto esteve sob a direção de Grabois, um conjunto de atividades foram desenvolvidas, principalmente com relação ao ensino, à prática e à pesquisa psicológica. Ainda hoje dotado de grande erudição e atualidade, Grabois conseguiu, ao longo desses dez anos, edificar uma biblioteca especializada em psicologia, simplesmente invejável. Profundo conhecedor da matéria e de vários idiomas, reuniu um acervo completo, moderno e atual. O instituto assinava as mais conceituadas revistas de psicologia da época.

Suas aulas eram consideradas "brilhantes" por parte de pessoas que viveram aqueles momentos. Muita gente, hoje de renome na psicologia nacional, foi iniciada, orientada e mesmo formada pelos cursos de Grabois.

O instrumental, trazido do Engenho de Dentro, e os novos aparelhos ali projetados, tornavam o laboratório do Instituto bastante completo. Esse instrumental foi fartamente utilizado nos cursos promovidos pelo Instituto e em pesquisas(53).

As baterias de testes psicológicos, fartas e variadas, habilitavam-no como centro de aplicação em psicologia. Aliás, da "tríade psicológica" da Universidade do Brasil, a psicologia, no sentido de uma prática científica e profissional, só foi exercida no Instituto.

Com a salda de Grabois, Eliezer Schneider (que esteve afastado do Instituto de 1945 a 1947, realizando seu curso de mestrado em psicologia nos Estados Unidos) assume interinamente a direção do Instituto. Cinco meses depois, já em 1948, o Instituto passa à direção do catedrático da cadeira de psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia (como havia tentado em 1944), Nilton Campos, recém concursado, que acumula as duas funções. Nesse mesmo ano, Antonio Gomes Penna é designado assistente de Nilton(54).

Sob a direção de Nilton Campos, a história do Instituto de Psicologia segue outro caminho. É importante frisar que, embora tenha sido o primeiro assistente de Radecki, Nilton não tinha a menor vocação para atividades experimentais. Aliás, desde que assumiu o lugar deixado por Ombredane(55) em 1945, Nilton voltou-se inteiramente para a filosofia. Suas relações com a psicologia estavam permeadas pelos aspectos filosóficos e, no âmbito científico, pelo prisma metodológico. Bem, nada mais justificado,se lembrarmos que seus cursos de psicologia eram destinados a alunos de filosofia. Mas a compreensão não altera o fato. Nilton não sabia o que fazer com o laboratório do Instituto e, o instrumental herdado de Radecki e aumentado por Grabois, tornou-se, inevitavelmente, peça de museu.

Dada a localização privilegiada do Instituto, Nilton escolhe sua sede apenas para dela servir-se como sala de aula, para seus cursos de psicologia. Nesse período houve, isso sim, algumas atividades práticas, principalmente na área de psicodiagnóstico, orientação vocacional e seleção, esta última, para servir a um convênio firmado com o Itamarati. Os cursos de psicologia eram ministrados por Nilton Campos, Antonio Gomes Penna, Eliezer Schneider e Octávio Soares Leite.

Em 1950, por iniciativa de Gomes Penna e colaboração de Schneider, é iniciada a publicação do Boletim do Instituto de Psicologia e, neles, podemos acompanhar o bom nível com que as aulas eram desenvolvidas pois, alheio a qualquer pretensão científica, o Boletim servia quase exclusivamente como registro de material didático. O Boletim deixou de circular em 1973).

Esta situação foi mantida até 1963, com o falecimento de Nilton Campos, em 9 de setembro desse ano. É interessante lembrar que, em 1962, a psicologia é oficializada como curso de formação profissional, no Brasil. Com a morte de Nilton, Penna o substitui na cadeira de psicologia(56) e Schneider assume a direção do Instituto.

Em 1964, por iniciativa de Gomes Penna e Schneider, é iniciado o curso de formação de psicólogos, na Faculdade Nacional de Filosofia. Até 1967, as aulas foram ministradas na única sala de que o Instituto dispunha(57).

Em 1965, a Universidade do Brasil é transformada na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Em 1967, a Faculdade Nacional de Filosofia é extinta e o curso de psicologia foi incorporado ao Instituto de Psicologia que, na ocasião e, finalmente, passa a ser uma instituição de ensino e pesquisa, velho sonho de Radecki, então ausente. Nesse ano, por uma questão de estatuto da universidade, Carlos Sanches de Queirós assume a direção do Instituto, permanecendo no cargo até 1970. De 1970 a 1976, Elso Arruda dirige o Instituto. De 1976 a 1978, o cargo é ocupado por Roberto Bittencourt e de 1978 até nossos dias, o instituto tem sido dirigido por Antonio Gomes Penna.

Portanto, o Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ainda hoje plantado na Praia Vermelha, tem uma longa história. Nasce do sonho em ato do velho mestre polonês, Waclaw Radecki - renasce na luta contínua de Jaime Grabois - e se afirma na terceira geração do primeiro.

O velho instrumental clássico do laboratório de psicologia de Engenho de Dentro, ainda hoje lá se encontra, conservado em museu, perdido na geração dos laboratórios skinnerianos.

 

VI - O SIGNIFICADO DE RADECKI NO BRASIL

Ê muito provável que Radecki tenha sido o maior conhecedor que a psicologia no Brasil teve a oportunidade de acolher. Grandes nomes da psicologia mundial de seu tempo, estiveram aqui antes, durante e depois de sua estada, mas apenas de passagem.

De um modo geral, até a década de trinta, a ausência de um centro universitário no País, como muito bem escreveu Annita Cabral (1950), determinava o autodidatismo de nossos próprios "descobridores". Waclaw Radecki e Helena Antipoff foram as poucas exceções.

Como dito inicialmente, a Escola Normal de São Paulo, anfitriou, em 1914, o especialista Ugo Pizzoli, que ali montou um laboratório igualmente nos moldes da psicologia experimental clássica, com finalidades pedagógicas. Mas de acordo com Lourenço Filho (1955) "a influência que (Pizzoli) deixou no Brasil foi apenas sensível". E isso, dito pelo próprio Lourenço, é um documento, uma vez que ele, em 1925, havendo assumido a cátedra de psicologia na Escola Normal de São Paulo, foi responsável pela reorganização do laboratório deixado por Pizzoli.

Em continuidade, Lourenço Filho declara que "já o mesmo não ocorreu com o polonês Waclaw Radecki que, na direção do Laboratório de Psicologia do Hospital do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, formou um grupo de pesquisadores de excepcional valor, mau grado a insistência com que repisava os princípios de seu sistema de "discriminacionismo afetivo", mais cedo ou mais tarde abandonado por todos os seus discípulos..."(1955).

Sem dúvida, o discrininacionismo não "vingou" em nenhum dos assistentes. Grabois confessa que não aceitava o sistema de Radecki, desde seu ingresso no laboratório. Nilton não só abandonou o sistema, como também a formação experimental, com a qual nunca se identificou.

Mas o incansável preconceito de Lourenço contra o discriminacionismo permite visualizar melhor o clima da época. O problema de Radecki, em nossa opinião, foi insistir na posição de se manter autônomo e independente. Mesmo depois de ter saído do Brasil, parece ter permanecido no mesmo hábito. Trabalhava com o seu sistema, o seu laboratório, o seu instituto, os seus assistentes, as suas publicações(58), os seus cursos, a sua escola e, por fim, o seu Congresso. Vivia como que à margem dos acontecimentos circundantes. Ora, isso não agradava às pessoas ou grupos de pessoas que também atuavam em psicologia ou em áreas afins. Marginalização aqui, marginalização acolá.

Por outro lado, não justifica, nas poucas palavras que Lourenço escreveu sobre Radecki em "A Psicologia no Brasil" (1955), tê-lo incluído num capítulo intitulado "a contribuição de trabalhadores da medicina" (a psicologia no Brasil), uma vez que, no caso de Radecki, teria sido mais preciso escrever sobre "a contribuição de trabalhadores da psicologia" (à medicina no Brasil).

O discriminacionismo, embora de importância na história das idéias psicológicas no Brasil, não foi o legado mais valioso que Radecki deixou. O significado de sua passagem não se prendeu tanto por uma teoria quanto por um conjunto de atitudes:

1. Radecki não veio ao Brasil na condição de "visitante" mas de residente, havendo inclusive, de acordo com Grabois, se naturalizado.

2. Deve ter sido o mais promissor dos pioneiros na pesquisa pura em psicologia no Brasil, embora tenha sabido complementá-la com importantes pesquisas aplicadas(59).

3. Ainda no laboratório, estabeleceu objetivos de longo alcance visando, efetivamente, a edificar uma psicologia científica no Brasil.

4. Preocupou-se realmente com a formação de um grupo de assistentes nacionais que, depois do encontro, perderam o caráter de autodidatismo.

5. Lutou pela criação de uma escola de psicologia em nível sério e pela profissionalização do psicologo.

6. Organizou um Instituto de Psicologia a que dois assistentes (Jaime Grabois e Nilton Campos), de um modo ou de outro, deram continuidade.

Entre seus discípulos, se fez marcar pela solidez de seus princípios científicos. De acordo com Nilton Campos, "o grande mestre, Waclaw Radecki, unia indissoluvelmente a esse amor pela verdade científica, a mais impecável intransigência contra os violadores da dignidade da ciência psicológica. Assim, jamais transigiu para tornar-se psicólogo da moda, cortejando a popularidade" (1953). Aliás, foi justamente o rastro dessa formação que levou Nilton a não correr para iniciar o curso de formação de psicólogos, em 1962 (Cabral,1964).

Exemplo disso é que, conforme Grabois, Radecki, ao chegar ao laboratório, nos idos de 1924, recusou, com a intransigência de que falava Nilton, um convite de Ernani Lopes, da Liga Brasileira de Higiene Mental, para que fizesse uma demonstração dos testes de Binet-Simon. Do ponto de vista de nossa medicina, na década de vinte, psicólogos e testes eram sinônimos, aliás, idéia ainda hoje fartamente difundida. Mas a recusa de Radecki, tinha motivos profundos, pois, como ele mesmo disse, no IV Congresso Brasileiro de Higiene, "na relação da sociedade com a ciência, surgem sempre os momentos em que aquela começa a exigir desta a possibilidade de aplicá-la nos problemas práticos da vida. Quanto menos a sociedade é capaz de entender o objetivo das pesquisas científicas de determinado domínio, tanto mais exige provas de utilidade. Não podendo entender, quer ver os resultados, na formulação das exigências, o "profanum vulgus" não sabe olhar longe; criando exigências sociais ele grita: "panem et circenses" - já. A palavra "prático" como exigência dirigida à ciência degenerou em bruto imediatismo" (Radecki, 1928).

Além de introduzir seus assistentes na pesquisa experimental em psicologia, embasá-los com os devidos conhecimentos teóricos e metodológicos, Radecki se preocupou em lhes dar uma formação ética, tanto na pesquisa, quanto na atividade profissional. Essa visão, ampla e abrangente da psicologia como ciência e profissão, pode ser claramente percebida no currículo da "escola brasileira de psicologia", que se pretendia tornasse realidade em 1933.

Os nove anos de dedicação à psicologia no Brasil, infelizmente pagos com injustiça, foram marcados pelo trabalho. A psicologia não existia como emprego. Didifuldades similares teve Grabois na continuidade do Instituto.

A vereda só foi retomada em 1967, com a nova estrutura do Instituto de Psicologia, que o acaso soube favorecer. Mas Radecki jamais chegou a ver a psicologia universitária no Brasil.

Radecki e praticamente desconhecido entre nós e, esta comunicação pretendeu, imperfeitamente, preencher essa lacuna, antes que mais tempo passasse e sua figura se fizesse impossível de ser reconstituída. Mesmo

Antonio Gomes Penna, atual diretor do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que conheceu o legado de Radecki através de Grabois e Nilton, falando sobre a psicologia, repete que "Radecki teve papel extremamente relevante, em sua defesa contra os que pretendiam vulgariza-la em baixo nível" (Penna, 1980). Ele está certo.

 

AGRADECIMENTOS

O autor agradece a Antonio Gomes Penna, Eliezer Schneider e ao Instituto de Psicologia Dr. Waclaw Radecki de Buenos Aires, pela atenção e pelas informações prestadas.

Agradece a Alceu Amoroso Lima pela revisão e pela sua vocação de amante da verdade.

Agradece a Jaime Grabois, espírito lúcido e culto, que forneceu informações, documentos, fontes bibliográficas, fotografias. Que viu, reviu e corrigiu. E, mais do que isso, dos vários e demorados encontros que propiciaram a possibilidade de uma visão panorâmica e crítica dos acontecimentos narrados.

 

NOTAS

(1) - Em 1924, Medeiros e Albuquerque publicou um interessante livro intitulado "Tests". Com o subtítulo de "Introdução ao estudo dos meios científicos de julgar a inteligência e a aplicação dos alunos", a pequena obra, de acordo com o próprio autor "uma simples introdução, e essa mesma elementaríssima, ao estudo dos testes", pretendia trazer para o cenário brasileiro, principalmente para o ensino de psicologia nas escolas normais, o movimento que crescia nos Estados Unidos com relação ao uso de testes psicológicos. O livro de Medeiros e Albuquerque, muito bem referendado bibliograficamente dentro de sua época, introduz o leitor nos testes de inteligência (individuais e coletivos) e discute a utilização do emprego de testes como forma de avaliação aprendizagem. O próprio autor sugere que seu livro seja a primeira publicação brasileira sobre assunto.

(2) - De acordo com Schwartzman (1979), o Pedagogium foi criado em 1890, por Benjamin Constant e tinha a finalidade de servir como órgão central de coordenação das atividades pedagógicas do pais. A proposta de criação do Pedagogium remonta ao ano de 1883, quando Antonio Herculano de Souza Bandeira, Inspetor Geral da Instrução Pública na capital do império, propõe, num Congresso de Instrução, falando da organização das escolas normais, que "para os professores sem preparo técnico, se criará um estabelecimento especial como o Pedagogium de Viena, onde os atuais professores não vitalícios e os adjuntos, serão obrigados a completar e aperfeiçoar os seus conhecimentos (Moacyr, 1938). Esperava-se que funcionasse como centro de pesquisas educacionais e museu pedagógico mas teve curta duração (Romanelli, 1980). Conforme Lourenço Filho (1955), o laboratório de psicologia que Medeiros e Albuquerque criou no Pedagogium, foi entregue a Manuel Bonfim e que "esse laboratório funcionou por mais de quinze anos, produzindo pesquisas, algumas das quais publicadas na revista Educação e Pediatria.

(3) - De acordo com Lourenço Filho (1955), Maurício de Medeiros, a partir de sua tese denominada "Métodos na psicologia", passou a se interessar tanto por esse ramo de conhecimento, que teria ido "trabalhar" no Laboratório do Hospício Santana, com Georges Dumas e que, inclusive, teria sido o primeiro brasileiro a receber "lições de psicologia experimental no estrangeiro". Em nossa opinião., há muita xenofilia nessa estória.

(4) - O adjetivo "pequeno" corre por nossa conta. Pessoas que conheceram a Hospício Nacional, não tem lembrança da existência de um "laboratório de psicologia". Estamos tentados a crer que o "laboratório" se compunha de alguns poucos instrumentos.

(5) - O único indício que hoje temos da existência e da participação de Bonfim no aludido laboratório, e a referência nominal que ele próprio faz a isso, em "Noções de psychologia"(1917). Mas, a julgar pelo que diz Lourenço Filho (nota 2), é possível que, uma vez extinto o Pedagogium, o laboratório de psicologia, fundado por Medeiros e Albuquerque, e entregue a Bonfim, tenha sido transferido para a Escola Normal, onde o último lecionava psicologia.

(6) - Uma boa visão dos aparelhos ali constante e dos trabalhos realizados no laboratório pode ser tida na leitura de um livro publicado pela Escola Normal São Paulo em 1914, intitulado "O pedagogia experimental". Ha, nele, dados sobre a "inauguração do gabinete psychologia scientífica as "instalações da anthropologia e pedagógica", muitas fotografias, "theses professores que seguiram curso "technica psychologica" professado por Pizzoli interessante "relatório cultura próprio quadro ufanismo esse movimento todo deve ter gerado nos paulistas dos anos 10, futuro I scientífico Oscar Thompson,

(7) - De acordo com outra publicação da Escola Normal de São Paulo (1927), Ugo Pizzoli era diretor e professor da Universidade de Modena, Itália. Alias, conforme essa publicação de 1927, Pizzoli teria, com seus alunos do curso de 1914, percorrido algumas instituições paulistas, como o "Instituto Disciplinar, Hospício de Alienados do Juquery, etc". Num exemplo tipicamente triste em nosso país, o apresentador da publicação de 1927, falando ainda da experiência de Pizzoli, relata que "por alguns annos, ainda sob o impulso inicial, o gabinete de psychologia experimental colheu algumas vantagens, mas, pouco a pouco, a força impulsora foi diminuindo ate ficar prestes a extinguir-se. (...) Os apparelhos, empoeirados e perros, permaneciam como vestigios de uma vida extincta. O gabinete de psychologia experimental existia só para apresentar aos olhos curiosos dos que o visitavam uma série de apparelhos interessantes, de uma applicação prática indiscutível mas, permanentemente, inactivos. E, nessas condições, meses e annos iam passando sem que se aproveitasse uma fonte preciosa de investigação scientífica". A publicação de 1927, demonstrando novo fôlego de entusiasmo, retrata os momentos de revitalização do laboratório, agora denominado "laboratório de psychologia experimental" registrando a passagem, na ocasião, pela Escola Normal de São Paulo, de Henri Piéron.

(8) - Para melhor conhecimento dessa experiência mineira, aconselhamos a leitura de "Helena Antipoff, sua vida e obra", publicado em 1975 pela José Olympio (RJ), de autoria de Daniel Antipoff (filho de Helena) e que, presentemente, fundou em Ibirité (MG) o Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA).

(9) - A ausência do hábito de documentar, entre nós, obriga-nos, em pesquisa deste gênero,a lançar mãos de técnicas de pesquisa oral. Mais do que nos livros, aliás, bem mais, a possibilidade de se recuperar os caminhos da psicologia no Brasil só encontrará viabilidade, se retirada da memória de pessoas que viveram os momentos reais dessa história. Infelizmente, esses pioneiros, essas histórias vivas, estão nos deixando e, em muito breve, não poderemos mais contar com suas memórias.

(10)-Os dados biográficos de Radecki, aqui apresentados, foram extraídos e sintetizados a partir de uma comunicação denominada "biografia", publicada em "Hoja de Psicologia" (1953). Nessa fonte, Radecki é muito destacado pelo ângulo político sua vida mas, como esse não se fez mostrar durante estada no Brasil, preferimos reduzir-lhe a ênfase.

(11) - É até provável que tenha sido pressionado pelo meio, justamente pelo fato de haver enfrentado um segundo matrimônio. Sua primeira mulher ainda estava viva e Radecki teve uma filha com ela.

(12) - A Universidade do Paraná foi criada em 1912 e oficializada por uma lei estadual. Mas o governo fedederal não reconheceu pois, para tanto, a cidade de Curitiba teria que ter cem mil habitantes (e tinha). Só veio ser reconhecida em 1946 (Romanelli, 1980).

(13) - Fontes do Prata (biografia, 1953) explicam a passagem de Radecki do Paraná para o Rio Janeiro, como um convite ministerial. Mas isso não aconteceu.

(14) - Grande número dos manuais de psicologia que eram escritos por médicos, para escolas normais, no Brasil, continham mais lições de fisiologia (quando não anatomia) do que propriamente psicologia.

(15) - O laboratório de Pizzoli, em São Paulo, igualmente clássico, era muito menor em número e variedade de aparelhos.

(16) - O "relatório" traz, também, uma série de fotografias dos aparelhos.

(17) - Jaime Grabois é um dos únicos remanescentes do laboratório, ainda em vida. E provável que haja mais dois mas não foi possível encontrá-los.

(18) - Ficam em aberto as possíveis interpretações sobre esse procedimento inusual. Grabois, por exemplo, tem três explicações: 1. para esconder a pobreza de recursos; 2. afastar o aspecto médico-hospitalar e 3. permanecer em consonância com verde do ambiente.

(19) - Radecki sabia conciliar sua dedicação musical com a psicologia. Em 1915, ainda Varsóvia, Radecki publica "Da psicologia nova criação musical polonesa"

(20) - Nesse mesmo discurso, Lourenço também tem uma explicaçao para a decoração "cabalística" de Radecki - "no linguajar dos psicólogos, seria como que uma projeção das próprias lutas de Radecki, no firmar o seu sistema de "discriminacionismo afetivo", doutrina, aliás, não desprovida de mérito". Se esse enfoque for válido, caberia perguntar quais as projeções de Lourenço, na decoração de Radecki, a ponto de lhe parecer "cabalística". Viu até "tridentes de prata" onde não havia.

(21) - Em 1925, Radecki publica "Hygiene mental da creança baseada nas leis da psychologia", Arch. Bras. de Hygiene Mental, vol. II, RJ.

(22) - Desses cursos de 1924, redundaram duas publicações: Radecki, W. "Problemas de psychologia contemporanea", Sciencia Médica, anno II, nº 6, RJ. Radecki, W. "Problemas de psychologia contemporanea", Sciencia Médica, anno II, nº 10, RJ.

(23) - Campos, N. e Radecki, W. "Pesquisas experimentaes da influência do material mnemónico esquecido sobre a associação livre", Trabalhos de Psychologia, vol. I, RJ, 1928.

(24) - Rezende, G. "Um caso interessante de estupor catatônico", Trabalhos de Psychologia, vol. 1, RJ,1928 Radecki, W. e Rezende, G. "Contribuição psychológica ao estudo da demencia precoce". Trabalhos de Psychologia, Vol. II, RJ, 1929. Radecki, W. e Rezende, G. "Introdução à psychotherapia", Dobici, RJ, 1926.

(25) - Tavares, L. e Radecki, W. "Contribuição experimental à psychologia dos juízos". Trabalhos de Psychologia, vol. 1, RJ, 1928. Tavares, L. do pensamento". Colônia Psychopathas, 1930.

(26) - Rocha, U. "Estudo da attenção nos aviadores". Trabalhos de Psychologia, vol. II, RJ, 1929. Rocha,U. "Psychologia da attenção". Colônicas Psychopathas, 1930.

(27) - Rocha, U. "Parte psychologica do relatório dos trabalhos referentes a seleção de candidatos à aviação militar. (Bases theoricas e descrição dos methodos)". Trabalhos Psychologia, vol. II, RJ, 1929.

(28) - Bretas, A. "Observações sobre um segmento (parte sensorial) do perfil psychologico dos aviadores". Trabalhos de Psychologia, vol. II, RJ, 1929. Moore, A. "Contribuição ao estudo psychologico dos automatismos". Trabalhos de Psychologia, vol . II , RJ, 1929.

(29) - Pedreira, A.B. "Contribuição experimental à psychologia da fixação mnemônica subconsciente". Trabalhos de Psychologia, vol. II, RJ, 1929.

(30) - Guimarães, O.N.S. "O laboratório de Psychologia". Trabalhos de Psychologia, vol. I, RJ, 1928.

(31) - Radecki, W. "Tratado de Psychologia", Imprensa Militar, RJ, 1929.

(32) - O pensamento de Radecki e a produção de seus colaboradores deverá, no futuro, merecer um trabalho à parte.

(33) - Como vimos (nota 20), o mesmo foi sugerido por Lourenço Filho.

(34) - Radecka, H. "Exame psychologico da criança". Colônia de Psychopathas, RJ, 1930.

(35) - "Psychologia do pensamento", op. cit. nota 25.

(36) - Campos, N. "Psychologia da vida affectiva". Colônia de Psychopathas, RJ, 1930. Rocha, U. "Psychologia da attenção", op. cit. nota 26. Bretas, A. das sensações". Paulo Pongetti, RJ 1930.

(37) - Isso não significa que o objetivo de usar o laboratório como "instituição auxiliar médica" e como "auxiliar das necessidades sociais e práticas" tivesse sido negligenciado. Como vimos (nota 24), alguns trabalhos foram realizados em psicoterapia e psicopatologia. Outros, em seleção de aviadores. Halina Radecka e Lucília Tavares, faziam exames psicológicos em crianças e os assistentes médicos, normalmente, faziam exames psicológicos nas internas da colônia.

(38) - Em outra ocasião, o laboratório foi também visita do por Henri Wallon e Helena Antipoff.

(39) - Essas palavras se encontram numa espécie de "boletim" intitulado "Instituto de Psicologia". Embora parecendo ser um documento oficial do Ministério de Educação e Saúde Pública, o "boletim" é de autoria de Radecki. Quem garante isso é Jaime Grabois e o logotipo ali impresso, "marca registrada" de Radecki (e que o acompanhou até a morte) - a letra "psi", parecendo uma espada em pé, destacada em fundo brando, num retângulo preto.

(40) - "boletim", vide nota 39.

(41) - "boletim", vide nota 39.

(42) - A Reforma Francisco Campos permitiu o afloramento de uma luta acirrada entre os representantes da chamada "escola nova" (Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, etc) e os representantes "católicos" (Alceu Amoroso Lima, Leonel Franca, (Azevedo, 1976; Romanelli, 1980; Schwartzman, 1979). Uma "guerra" político-ideológica.

(43) - "boletim", vide nota 39.

(44) - No final do citado "boletim" de Radecki, vem lá uma lista de 62 publicações, reunidas sob o título de. "Trabalhos psychologicos da corrente do "Discriminacionismo Affectivo"".

(45) - Na edição Argentina, o "Tratado" e acrescido de uma nova parte - "Posición de la psicologia em el sistema las ciencias essa que já havia sido tratada separadamente no Brasil.

(46) - Radecki, W. e Paysse, C. "Psicopatologia funcional". Aniceto Lopes, Buenos Aires, 1935.

(47) - Radecki, W. e Rocha, R.A. "Manual de psiquiatria", Buenos Aires, 1937.

(48) - Com relação ao I Congresso Latino Americano, de 1950, i sabido que Radecki cassou as credenciais do representante enviado pelos psicólogos paulistas. Ressentimento?

(49) - Colônia de Psychopathas, RJ, 1930.

(50) - Radecka, H. "Psicologia Social", Instituto de Psicologia, Buenos Aires, 1960.

(51) - Eram cursos sistemáticos, com duração média de um ano letivo e, no final, era fornecido certificado aos participantes.

(52) - De acordo com Jaime Grabois, seu afastamento foi motivado pelo clima "macartista" que imperava, naquele momento, na realidade política brasileira. Conforme ele, ocasião da reforma de seu contrato trabalho, Pereira Lira, Chefe do Gabinete Civil e antigo polícia Distrito Federal, pediu informações policiais a seu respeito e elas foram as seguintes: 1. ter recebido carteira de membro do Partido Comunista em sessão pública no Clube Ginástico Português. 2. ser reitor da Universidade do Povo, ligada ao Movimento Unificador dos Trabalhadores. 3. ter convocado a classe médica para um comício no Larco da Carioca. 4. ser irmão de Maurício Grabois, deputado vermelho. Embora o P.C. fosse legal na época, Grabois reafirma que "nunca tive uma atuação política ostensiva".

(53) - Infelizmente essas pesquisas não foram publicadas.

(54) - Embora só viesse a ser nomeado em 1949.

(55) - Ombredane, no Brasil, escreveu e publicou três livros, embora em francês. Com o título comum de "Études de Psychologie Médicale", os três volumes são assim divididos: vol. I - "Perception et langage", vol. II - "Geste et action" e vol. III -"Troubles du caractére et délires". Foram publicados pela Editora Atlântica, RJ, 1944.

(56) - Prestando concurso em 1964 e assumindo a cátedra em 1965.

(57) - De 1964 a 1967, Penna é coordenador do curso de psicologia e chefe de departamento.

(58) - A maior parte dos livros publicados por Radecki e sua "escola" são publicações próprias, sem intermediação de editoras.

(59) - Em tempo, citemos os trabalhos de Radecki ainda não indicados nesta comunicação:

Radecki, W. "A creação de hábitos sadios nas creanças", Trabalhos de Psychologia, vol.I, RJ, 1928. Radecki, W. "Test de inteligência para adultos", Trabalhos de Psychologia, vol. I, RJ, 1928.

Radecki, W. "Problemas e methodos de psychologia individual". Trabalhos de Psychologia, vol. II, RJ, 1929.

Radecki, W. "À margem de dois psychogrammas". Trabalhos de Psychologia, vol. II, RJ, 1929.

Radecki, W. "Contribuição ao estudo da suggestão e suas applicações". Trabalhos de Psychologia, vol. II, RJ, 1929.

Radecki, W. "Contribuição ao estudo psychologico da psychoanalyse". Trabalhos de Psychologia, vol. II, RJ, 1929.

 

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