SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 issue1Identidade, alteridade e globalização: uma reflexão a partir do testemunho de Rigoberta Menchú author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.22 no.1 Brasília Mar. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932002000100002 

ARTIGOS

 

A inserção do psicólogo no Programa Saúde da Família

 

 

Claudia Lins Cardoso*

Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo descreve o projeto de extensão Inserção do Psicólogo no Programa Saúde da Família, realizado desde agosto de 1998 junto a pacientes diabéticos e hipertensos, numa parceria entre o Departamento de Psicologia da FAFICH da UFMG e a Secretaria Municipal de Saúde de Vespasiano (MG). O PSF desenvolve ações de promoção e proteção à saúde do indivíduo, da família e da comunidade, incentivando ações coletivas e individuais baseadas, principalmente, na área de prevenção. A inserção do psicólogo na equipe busca, mediante assistência clínica, melhorar a saúde da população atendida através da atenção para com os aspectos psicológicos, tanto em termos de prevenção, quanto de tratamento, tendo a gestalt-terapia como referencial teórico. A tônica do trabalho tem sido facilitar a comunicação dos pacientes, ampliar a sua conscientização e a sua responsabilidade sobre a doença e sobre si mesmo. Também tem se configurado numa experiência positiva para os alunos envolvidos, que exercem a prática clínica num contexto comunitário.

Palavras-chave: Programa Saúde da Família, Psicologia clínica comunitária, Gestalt-terapia, Grupo.


ABSTRACT

This article describes the project The Insertion of the Psychologist in the Family Health Program (FHP), which has been carried out since August, 1998, with patients suffering from arterial hypertension and diabetes, in a partnership between the Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais and the Secretaria Municipal de Saúde de Vespasiano, Minas Gerais. The FHP promotes and protects the health of individuals, families and the community, encouraging individual and social actions based especially on prevention. Gestalt-therapy is the clinical approach. Psychologists are included in the team with a view to improving the health of the community through psychological treatment and prevention. The intention has been to make patients’ communication easier, increase their awareness and their responsibility with themselves and their disease. It also has been a positive experience for the students involved, since they gain practice in clinical psychology in the context of a community.

Keywords: Mental health, Family Health Program, Community clinical psychology, Gestalt-therapy, Group.


 

 

O Programa Saúde da Família

O Programa Saúde da Família (PSF) busca desenvolver ações de atenção primária à saúde, dirigidas não somente para a cura e prevenção de doenças, mas, principalmente, buscando promover a qualidade de vida e valorizar o papel dos indivíduos no cuidado com sua saúde, de sua família e de sua comunidade. Trata-se de uma proposta de atuação que visa a propiciar a integração das ações de promoção, proteção, recuperação e reabilitação da saúde constituindo-se, por definição, num modelo que se opõe ao modelo assistencial, centrado na doença e no consumo de medicamentos.

Seus objetivos trazem implicitamente a noção do homem como um ser de múltiplas necessidades, e não como portador de determinada doença a ser extirpada mediante procedimentos médicos. Antes, visa a difundir informação entre a população como um todo através de uma ação interdisciplinar, permitindo uma atenção à saúde mais completa, o que se configura numa ação preventiva, e não simplesmente assistencialista. De acordo com essa perspectiva, é inegável a influência de fatores emocionais e sociais na manifestação das patologias físicas. Tanto a doença em si, quanto a fantasia que o seu portador faz dela alteram, em maior ou menor grau, sua auto-estima, sua auto-imagem, suas relações interpessoais e com o mundo que o cerca.

 

O Psicólogo no PSF

Em 1998, a Secretaria Municipal de Saúde de Vespasiano (MG) solicitou a parceria do Departamento de Psicologia da UFMG junto ao Programa de Saúde da Família. Por se tratar de um programa bastante amplo, as várias equipes de saúde sugeriram o desenvolvimento de um projeto de assistência psicológica tendo como público-alvo os pacientes diabéticos e hipertensos, pois percebiam uma demanda que apontava para a necessidade da inclusão de um profissional da área da Psicologia.

Atualmente, o PSF em Vespasiano conta com nove equipes, cada qual composta por um médico, uma enfermeira, uma auxiliar de enfermagem, cinco agentes de saúde (membros da comunidade treinados para intermediarem o contato entre a comunidade e a equipe) e um estagiário de psicologia.

 

A Concepção Holística de Homem

A apreensão do homem como um organismo unificado, onde mente e corpo, comportamento e emoção são entendidos como aspectos absolutamente interligados do ser humano, vem sendo bastante difundida entre os profissionais da área da saúde. Diversos estudos científicos têm comprovado que fatores biológicos, psicológicos e sociais interagem de diferentes modos e proporções na gênese de qualquer enfermidade.

Segundo Melo Filho (1997), de um a dois terços dos pacientes que procuram ambulatórios médicos ou serviços de emergência sofrem de manifestações hipocondríacas, histéricas ou somatizações, onde o componente psicológico está comprovadamente presente. Porém, mesmo as pessoas que realmente padecem de algum comprometimento físico sofrem influência do fator psicológico, pois a fragilidade gerada pela doença sempre afeta de alguma maneira a integridade da pessoa. Conseqüentemente, todo paciente somático possui um comprometimento psicológico em maior ou menor grau, o que justificaria o atendimento psicológico em associação ao tratamento médico.

Ismael (1998) ressalta o tratamento como um fator que pode afetar o equilíbrio psicológico do indivíduo, já que muitas vezes requer o ajustamento a um novo meio físico e social ou implica a manipulação do paciente por pessoas desconhecidas.

Quanto ao atendimento comunitário, Vasconcelos (1999) sintetiza essa perspectiva do homem como ser bio-psico-social ao afirmar que “atuar apenas para alongar a sobrevivência biológica é um objetivo muito limitado” (p. 152).

A partir desse prisma e da demanda existente na comunidade assistida pelo PSF em Vespasiano, julgou-se que a inserção do psicólogo na equipe de trabalho poderia contribuir no sentido de ampliar a promoção da saúde dos pacientes portadores de diabetes e hipertensão arterial mediante a atenção para com os aspectos psicológicos, tanto em termos de prevenção quanto de tratamento.

 

Objetivos

A proposta de inserção do profissional da área de psicologia no PSF busca:

• atuar junto à comunidade, difundindo informações sobre saúde mental e fazendo uma identificação das pessoas portadoras de diabetes e hipertensão arterial com comprometimentos emocionais que demandem assistência psicológica;

• possibilitar um espaço terapêutico para que as pessoas possam trocar experiências e desenvolver suas potencialidades, a fim de usá-las da forma mais adequada no atendimento de suas necessidades, esperando-se, com isso, beneficiar não apenas o seu quadro clínico, mas também despertá-las para seu potencial na construção de uma vida com mais qualidade;

• atuar junto à equipe do PSF, colaborando com outros profissionais da Saúde, visando a integrar esforços, estimular a reflexão e a troca de informações sobre a população atendida, de modo a facilitar sua avaliação e evolução clínica;

• proporcionar ao estudante de Psicologia a aplicação dos conhecimentos obtidos no curso numa atuação tanto terapêutica quanto preventiva, mediante o atendimento supervisionado dos pacientes e do trabalho desenvolvido junto à equipe interdisciplinar.

 

Descrição das Atividades

Com base em experiência anterior (Cardoso, 1999), a proposta inicial de atendimento era a formação de grupos de psicoterapia. Porém, o contato com a população assistida revelou a necessidade de outros tipos de intervenção que suprissem melhor a demanda. Assim, a atuação da Psicologia tem se dado, basicamente, através das seguintes atividades:

Grupos Informativos: grupos abertos, homogêneos (compostos exclusivamente por pacientes portadores somente de diabetes ou hipertensão arterial de ambos os sexos), duração aproximada de 60 minutos, coordenado por um profissional do Centro de Saúde envolvido com o tratamento de diabéticos e hipertensos. Enfatiza a difusão de informações sobre a doença e sua evolução.

Grupos de Psicoterapia: possuem freqüência semanal, duração de 90 minutos e dois estagiários intervindo em sistema de co-terapia. Participam pessoas de ambos os sexos e mistos quanto à patologia (isto é, há tanto diabéticos quanto hipertensos num mesmo grupo). Apesar de compostos por pessoas portadoras de uma doença comum, o tema não gira necessariamente em torno dela. Como a gestalt-terapia é o referencial teórico que permeia todo o trabalho, busca-se favorecer a conscientização das situações vivenciadas pela pessoa e pelo grupo, de modo que seja possível o desenvolvimento de recursos para lidar com as experiências, o reconhecimento dos limites e o fortalecimento do auto-apoio, aumentando, assim, a auto-estima. Com isso, o foco das intervenções incide sobre a exploração das experiências e sentimentos trazidos pelos participantes (Cardoso, 2001; Greve, 1996; Ribeiro, 1994).

Dinâmica de Grupo: diante do grande número de pacientes contra-indicados para psicoterapia de grupo, optou-se pela dinâmica de grupo como outra forma de atuação. Diferente daquela, configura-se por encontros temáticos de cerca de 60 minutos de duração, sem continuidade entre eles, com composição flutuante, tema previamente definido e esgotado a cada encontro. Tem como objetivo investigar a experiência de seus membros a partir do material emergente, enfocando o aspecto emocional, as crenças e ações de cada pessoa, possuindo também conotação pedagógica na medida em que, eventualmente, são difundidas algumas informações. Assim, espera-se ampliar o auto-conhecimento, o contato com sentimentos e a responsabilidade consigo mesmo, incluindo os aspectos referentes à doença. Já foram abordados diversos temas, como, por exemplo, a vivência de ser diabético ou hipertenso (onde os pacientes expuseram questões como a dificuldade em lidar com os limites impostos pela doença e a reflexão sobre fatores particulares da vida que entendem como influentes no seu quadro clínico); a “receita de saúde e doença” (cujo objetivo principal foi ampliar a conscientização dos pacientes sobre sua parcela de responsabilidade no tratamento, além de possuir um caráter informativo); os sentimentos; a experiência de se deparar com seus próprios limites; preocupação; ou ainda, a vivência de fazer uso de medicamentos, dentre outros. O tema do encontro é apenas um estímulo para as pessoas expressarem sua vivência no momento. Quando emerge uma questão que mobiliza mais o grupo, é esta que será trabalhada, mesmo sendo distinta do tema proposto inicialmente. É comum a utilização de recursos expressivos visando a facilitar o contato e a expressão dos pacientes sobre sua experiência (lápis coloridos, papel, revistas, colagens, etc.)

Teatro Informativo: devido às peculiaridades das atividades desenvolvidas pelos profissionais da Psicologia, surgiu a necessidade da realização de uma palestra para os pacientes, onde seriam explicitadas a proposta da Psicologia e a descrição de algumas características principais: objetivos, sigilo, composição dos grupo, esclarecimentos sobre concepções errôneas a respeito da psicoterapia e do psicólogo. Experiências anteriores demonstraram que a palestra como forma de veicular informações para esse tipo de público não leva a resultados satisfatórios, pois a sua compreensão fica comprometida em função da abstração característica do tema “psicologia”. Nesse sentido, elaborou-se uma peça de teatro, intitulada “Histórias por um Fio: Falando sobre Psicoterapia de Grupo”, cujo objetivo foi ilustrar e informar sobre a assistência psicológica, o psicólogo e as peculiaridades da psicoterapia de grupo de forma lúdica e acessível ao entendimento dos pacientes (Cardoso & Santos, 2000).

Visita Domiciliar: os estagiários acompanham a equipe em visitas domiciliares com o objetivo de divulgar o trabalho, conhecer um pouco da realidade das pessoas atendidas e, eventualmente, prestar assistência psicológica a pacientes impossibilitados de comparecerem ao Centro de Saúde.

Atendimento Individual: apesar de a proposta do trabalho ser grupal, há inúmeras solicitações de atendimento individual. Os estagiários são orientados no sentido de atender os pacientes, reconhecer a demanda e fazer o encaminhamento pertinente.

Todas as atividades realizadas pelos estagiários são acompanhadas através de supervisão semanal, com cinco horas de duração. O espaço da supervisão é utilizado para discussão e reflexão dos atendimentos e situações ocorridas ao longo do trabalho. Também ocorre o compartilhar das vivências dos estagiários em relação ao trabalho na comunidade. Por se tratar de atividades desenvolvidas com uma população carente, com um proximidade maior com a miséria e a violência, os alunos, por vezes, ficam muito mobilizados e demandam da supervisora um olhar mais atento não apenas sobre sua atuação, mas sobre sua experiência pessoal, a qual, em alguns momentos, o impede de possuir um discernimento sobre a melhor intervenção.

 

Resultados Obtidos

Visando a ilustrar a dimensão da demanda de atendimentos realizados pela Psicologia, no período de janeiro a novembro de 2001 foram realizadas, nas nove equipes do PSF em Vespasiano, as seguintes atividades: 99 dinâmicas de grupo com o total de 1157 pacientes diabéticos (média de 11,7 pacientes por grupo), 284 dinâmicas de grupo com o total de 3725 pacientes hipertensos (média de 13,1 pacientes por grupo), 65 dinâmicas de grupo com o total de 777 pacientes diabéticos e hipertensos (média de 12 pacientes por grupo). Quanto aos grupos informativos, foram realizados 10, com a presença de 90 pacientes diabéticos (média de 9 pacientes por grupo), 21 com 467 pacientes hipertensos (média de 22 pacientes por grupo) e 7 com 61 pacientes portadores de diabetes e hipertensão arterial (média de 8,7 pacientes por grupo). Foram realizadas ainda 206 visitas domiciliares, 249 atendimentos individuais e 3 apresentações do teatro informativo Histórias por um Fio: Falando sobre psicoterapia de grupo. No presente período não houve grupos de psicoterapia.

Quanto à diferença entre o número de dinâmicas de grupo com pacientes diabéticos e hipertensos, faz-se necessário registrar que o número de pacientes diabéticos na comunidade é inferior ao de hipertensos, levando à maior oferta de grupos de hipertensos. Além disso, as dinâmicas são marcadas no mesmo dia da consulta médica, e nem sempre as consultas com os pacientes diabéticos coincidem com os dias nos quais os estagiários vão ao Centro de Saúde.

 

Reflexões Sobre o Caminho Percorrido

Coerente com os princípios da gestalt-terapia, abordagem que é o referencial teórico desse projeto, uma preocupação constante é manter postura flexível e aberta para troca sistemática de saberes com as pessoas atendidas, de modo que as nossas intervenções partam de uma demanda legítima e sejam efetivamente acessíveis a elas. Boarini (1989) faz uma exposição das dificuldades encontradas quando a oferta de atendimento não atende às características da população assistida. Estamos atentos para evitar ao máximo o que Vasconcelos (1999) descreve como uma prática educativa mais formal, a qual muitas vezes é rígida e mantém o “fosso cultural existente entre a instituição e a população, em que um lado não compreende a lógica e as atitudes do outro” (p. 29). Foi essa preocupação que nos fez reformular a metodologia inicial e desenvolver aquelas supracitadas.

À medida que o trabalho foi se consolidando, as dinâmicas de grupo demonstraram adequar-se melhor à demanda da população, revelando-se bastante úteis na ampliação do contato com os pacientes, ao se configurarem como um espaço de expressão mais autêntica. Progressivamente, as pessoas mostram fragmentos da realidade vivida (em várias instâncias) os quais não são revelados durante a consulta médica, como por exemplo, a falta de esclarecimento sobre situações simples do seu cotidiano. Nesse sentido, temos estimulado a comunicação no grupo, primeiramente para que seus membros possam revelar a realidade conforme percebem a partir da sua própria ótica. A proposta passa, inclusive, por facilitar a expressão dos pacientes, sem qualquer tipo de julgamento ou evitando constrangimentos em função daquilo que está sendo falado. Também temos buscado facilitar a comunicação entre a comunidade e a equipe de saúde, pois nos são revelados dados nem sempre acessíveis a esta última. Assim, já levantamos junto à Secretaria Municipal de Saúde demandas tais como a necessidade do desenvolvimento de um programa de alfabetização (o índice de analfabetismo é bastante elevado e as pessoas sempre mencionam o constrangimento e a vergonha por essa condição) ou o desenvolvimento de uma horta comunitária (muitos pacientes trabalharam em lavoura e se aposentaram em função da doença, outros se acalmam ao cuidarem de plantas, e além de tudo, uma horta em casa possibilitaria uma alimentação mais saudável).

Outra estratégia tem sido levar o grupo a pensar sobre as diferentes perspectivas que são mostradas para que eles possam trocar experiências entre si. Em função do material que emerge, é possível discernir o grau de compreensão (e também a falta de) acerca do tema em questão, possibilitando esclarecimentos pertinentes, levantamentos de demandas e de possíveis estratégias a serem seguidas futuramente.

Os pacientes têm demonstrado (inclusive verbalmente) que a experiência do grupo tem sido positiva, seja no sentido de falarem sobre si, de serem ouvidos seja no de terem pessoas genuinamente interessadas em oferecer ajuda. Isso foi confirmado numa dinâmica cujo tema foi a avaliação dos pacientes sobre o trabalho desenvolvido pela Psicologia na equipe do PSF em Vespasiano. Além disso, as pessoas atendidas, principalmente nos grupos de psicoterapia e nas dinâmicas, demonstraram maior disponibilidade para falarem de si mesmas, expressarem seus sentimentos e interagirem com os demais membros do grupo. Muitas delas revelaram que essa abertura estava se refletindo também em outras relações, fora do espaço psicoterapêutico, em especial com os familiares.

É interessante registrar que no início, era comum os pacientes se referirem aos grupos como “brincadeirinhas” ou “espaço para se distraírem”. Entretanto, atualmente o grupo é mencionado como o “espaço para falar de si, das suas coisas; e falar alivia”, ou “o lugar onde se pensa sobre as coisas da vida e como se pode fazer para melhorar”, ou ainda “onde a gente melhora porque fala e porque aprende com a história que o outro conta”. Um outro paciente disse que “é bom falar, pois as palavras pesam quando ficam guardadas dentro da gente”.

Outra menção feita pelos grupos refere-se aos fatores que os pacientes associam ao aumento da glicose/pressão. Inicialmente, eles praticamente só enfatizavam o aumento dos índices com abusos alimentares (incluindo bebidas) e com a não-ingestão dos medicamentos. Hoje, boa parte deles já reconhece a influência dos fatores emocionais na sua saúde (preocupação, problemas conjugais e familiares, violência, etc.) e procura utilizar o espaço do grupo ou do atendimento individual para cuidar dessas questões. Ainda assim, várias pessoas encontram dificuldades em falar sobre seus sentimentos; normalmente eles são mencionados apenas como os sentimentos “bons” e os “ruins”.

Esse resultado é pertinente com a posição sustentada por Kessler & Albee, citados por Mejias (1995), a saber:

“(...) praticamente qualquer esforço para melhorar a educação das crianças, tornar a comunicação mais eficiente, desenvolver auto-controle e auto-estima, reduzir o stress e a poluição – enfim, todo esforço dirigido no sentido de melhorar a condição humana e tornar a vida mais gratificante e significativa – pode ser considerado parte da prevenção primária do distúrbio mental ou emocional.” (Mejias, 1995, p. 37)

Diversas vezes, pessoas verbalizaram que o simples fato de falar sobre os seus problemas e serem ouvidas por alguém interessado em ajudá-las era suficiente para proporcionar algum alívio. Também se mostrou fator benéfico o contato com a própria experiência e com os recursos de que passaram a dispor para lidar melhor com suas dificuldades, recursos esses sinalizados tanto pelos psicoterapeutas quanto pelo grupo. Por outro lado, a constatação de que um determinado problema não era exclusividade sua, pois outros também o experimentavam de forma diferente, serviu para amenizar a ansiedade e ampliar o leque de possibilidades do cliente em relação a ele. Verificou-se, com isso, uma troca de vivências onde cada um pôde aprender com a experiência do outro.

Além da comunicação, o trabalho da Psicologia tem sido no sentido de ampliar a conscientização dos pacientes sobre a doença e sobre si mesmo e, principalmente, a responsabilidade de cada paciente no seu próprio tratamento (além do médico e de Deus, que são as figuras em quem a maioria deles concentra a responsabilidade da sua saúde/doença).

O teatro informativo “Histórias por um Fio: Falando sobre Psicoterapia de Grupo” (Cardoso & Santos, 2000) tem sido utilizado também para melhorar essas questões. Seu texto inicial foi modificado para a inclusão de esclarecimentos e cuidados importantes que, ao longo dos atendimentos, se revelaram como fontes de abandono ou de incompreensão sobre o tratamento. Objetivamos difundir mais informações entre a comunidade através desse contato lúdico, que tanto tem estimulado a participação das pessoas que assistem a eles. Como resultado, pode-se observar que através da identificação com personagens e da linguagem utilizada na peça para expor seus objetivos, há uma maior participação dos pacientes presentes, comentando, no final da apresentação, o que eles compreenderam e possibilitando ainda que se desfizessem os mal-entendidos.

Embora nosso trabalho tenha como principal foco a comunidade, é impossível deixar de considerar a equipe de saúde. Procuramos atuar em parceria, almejando romper barreiras, conquistar um espaço próprio, desmitificar concepções errôneas que (ainda) existem sobre a atuação do psicólogo e, principalmente, estabelecer um canal de comunicação através do qual seja possível o intercâmbio de informações, agregando esforços para uma prestação de serviços de melhor qualidade aos pacientes. Assim, a tentativa de desenvolver um trabalho interdisciplinar junto a profissionais de outras áreas também tem se revelado grande fonte de experiências. Inúmeras vezes são discutidas na supervisão não somente a aplicação dos aspectos teóricos envolvidos na prática clínica, mas também os entraves típicos do trabalho em instituição, as questões referentes às relações do psicólogo junto a outros profissionais da área de saúde e aos pacientes. Contudo, pode-se notar claramente o avanço no relacionamento entre o psicólogo e a equipe do PSF. Nem sempre, porém, isso é fácil. No nosso caso, um grande empecilho em relação a essa integração refere-se ao fato de se tratar de um projeto de extensão onde, das treze horas de dedicação dos estagiários, apenas oito são dentro do Centro de Saúde (as demais horas destinam-se à supervisão). Mesmo com tais limitações, os avanços obtidos junto à clientela e à equipe apontam para a importância da inclusão efetiva de um psicólogo na equipe do PSF.

Essa experiência tem sido positiva não apenas para a clientela participante, mas também para os estagiários envolvidos, tendo eles a oportunidade de realizar o atendimento clínico em instituições públicas de saúde. Ainda há muito que se aprender, pois trata-se de uma atividade árdua sobre a qual o respaldo teórico ainda é incipiente, no curso de graduação em Psicologia. A maior parte da prática clínica dos alunos ocorre nos moldes do atendimento em consultório particular. Muitas vezes, acostumados com essa demanda, eles criam expectativas sobre as pessoas atendidas e sobre o trabalho interdisciplinar que não se realizam, gerando frustrações e até mesmo uma desmotivação sobre seu desempenho e a pertinência da prática.

Assim sendo, a atuação em Centros de Saúde com clientes de uma classe social menos favorecida e em contato com outros profissionais tem se mostrado uma excelente oportunidade para o enriquecimento da formação clínica do estagiário de Psicologia. Buscamos torná-los mais sensíveis às diferentes demandas desse tipo de clientela, desenvolvendo a noção de que profissionais humanizados, capazes de possuir um olhar contextualizado sobre a pessoa a ser atendida e de desenvolver um trabalho integrado, estão aptos a prestar um serviço de melhor qualidade à comunidade.

 

Conclusão

O caminho percorrido demonstra que são muitos os desafios e aponta para a necessidade de se dar continuidade ao que já vem sendo realizado. A comunidade já sabe da existência de um serviço de assistência psicológica no PSF e, com isso, a demanda tem aumentado a cada dia, não apenas para a assistência aos pacientes portadores de diabetes e hipertensão arterial, mas também para psicoterapia individual, psicoterapia infantil, orientação psicopedagógica, psicoterapia e orientação familiar, conjugal e de pais, dentre outras. Além disso, o PSF desenvolve outros trabalhos que, apesar da necessidade, não contam com um profissional da Psicologia. Nesse sentido, faz-se necessária a implantação de um Serviço de Psicologia com profissionais gabaritados para o atendimento dessas necessidades da população, que não são poucas.

Temos constatado que o PSF, indubitavelmente, oferece benefícios inestimáveis no que se refere à melhoria da qualidade de vida da comunidade. Entretanto, a cada dia, observamos ser necessária a descoberta por parte dos pacientes do seu próprio potencial para a construção de uma vida melhor e mais digna. Entendido sob outro prisma, nossa atuação tem sido no sentido de alterar sua condição de “pacientes crônicos” para a de “pessoas portadoras de uma doença crônica”. Os cuidados básicos para consigo mesmo e para com sua saúde são a porta de entrada do nosso trabalho nesse sentido sendo, para isso, imprescindível o despertar das pessoas para a sua parcela de responsabilidade nesse processo de construção, tornando-se, assim, agentes (e não apenas pacientes). Acreditamos também que o grande benefício (ou aprendizagem?) foi a maior proximidade com os pacientes, oferecendo-lhes a oportunidade de se mostrarem na sua autenticidade. Esse caminho se revelou o mais profícuo no sentido não apenas assistencial, mas principalmente preventivo.

 

Referências bibliográficas

Boarini, M. L. (1989). Estágio em Posto de Saúde: Prática e reflexão. Em: Psicologia:Ciência e Profissão, ano 9, 2: 27-30.         [ Links ]

Cardoso, C. L. (1999). Psicoterapia de Grupo com Pacientes Somáticos em Centros de Saúde. Estudos de Psicologia, v. 16, 2: 5-15.         [ Links ]

Cardoso, C. L. (2001) O Gestalt-terapeuta na Comunidade: Descobrindo a Autenticidade do Sujeito. Em: Revista do VII Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica, 7: 95-108.         [ Links ]

Cardoso, C. L. & SANTOS, P. L. C. (2000). Histórias por um fio: Falando sobre psicoterapia de grupo, Insight: Psicoterapia e Psicanálise, n. 108, p. 25-29, jul/2000.         [ Links ]

Greve, D. W. (1996). Psicoterapia gestáltica de grupo. In: H. I. Kaplan & B. J. Sadock (org.) Compêndio de Psicoterapia de Grupo, 3a ed., Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

Ismael, S. M. C. (1998). A psicologia e o hospital. Insight Psicoterapia, ano VIII, 85:22-23.         [ Links ]

Mejias, N.P. (1995). A Atuação do Psicólogo: Da Clínica para a Comunidade. Cadernos de Psicologia, 1:32-43.         [ Links ]

Melo F, J. (1997). Grupoterapia com pacientes somáticos: 25 anos de experiência. In: D. Zimerman & L. C. Osório. Como Trabalhamos com Grupos,Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

Ribeiro, J. P. (1994). Gestalt-terapia: O Processo Grupal: Uma Abordagem Fenomenológica da Teoria do Campo e Holística, São Paulo: Summus.         [ Links ]

Vasconcelos, E.M. (1999). Educação Popular e a Atenção à Saúde da Família. São Paulo: Hucitec.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Claudia Lins Cardoso
Universidade Federal de Minas Gerais
Departamento de Psicologia
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Av. Antônio Carlos, 6627
31270-901 Belo Horizonte - MG
Tel.: +55-31-3499-5022
E-mail: clins.bh@terra.com.br

Recebido em 04/01/01
Aprovado em 20/10/01

 

 

* Professora Assistente do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.Mestre em Psicologia Social. Coordenadora do projeto de extensão Inserção do Psicólogo no Programa Saúde da Família. Gestalt-terapeuta.