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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714On-line version ISSN 1984-0381

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.12 no.3 São Paulo Sept. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142009000300012 

CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA
ENSAIO

 

Os distúrbios da linguagem nos alienados*

 

 

Jules Séglas

 

 

Modificações do conteúdo

Do mesmo modo que as ideias políticas, religiosas e científicas exercem no homem são de espírito uma particular influência sobre o conteúdo da linguagem, também as ideias errôneas dos alienados têm uma influência análoga em seus discursos. As pessoas sãs de espírito, fechadas em certo círculo de ideias, sempre se referem a seus temas favoritos; os alienados igualmente têm sempre uma tendência particular a retornar à sua "mania" [marotte]. É o que Kussmaül chama de "a paralogia temática". E ela existe mesmo nos mais desconfiados, nos mais dissimulados, que, frequentemente numa primeira abordagem, narram os fatos totalmente diferentes de seu verdadeiro delírio. Se o interrogatório é bem dirigido, sem tardar perceberemos que "fizemos vibrar a corda sensível". Enquanto não tocamos em sua ideia fixa, o doente fala com calma e inteligência; nada desvela seu delírio. A loucura se manifesta com força e repentinamente desde que o alienado permita exprimir suas convicções delirantes. Igualmente, se um primeiro interrogatório não obteve êxito, o mais simples é esperar pacientemente; ao cabo de algum tempo mais ou menos curto, o indivíduo em observação findará por retomar seu tema favorito e o relato falado, senão escrito, de suas concepções delirantes. Repetidas vezes tivemos a oportunidade de observar esse fato nos perseguidos.

Ademais, encontramos frequentemente em algumas enfermidades determinadas frases especiais, estereotipadas e como que características.

Tais como, por exemplo, as frases bem conhecidas dos perseguidos que, por desconfiança, recusam responder às questões que lhes fazemos: "Você o sabe bem. - Meu problema é conhecido. - Está nos jornais. - Não são mistérios. - Eu quero minha liberdade" etc.

Um melancólico que tornará a se fechar num silêncio mais ou menos completo, dirá: "Deixe-me. - Vocês perdem demasiado tempo comigo. Eu sou uma besta. - Tudo acabou. - Eu não compreendo nada. - Se eu soubesse."

Perguntem a um paralítico geral quando ele deve sair e não estranhariam ao receber, como frequentemente assinalado por M. J. Falret, esta resposta quase que invariável: "Eu saio amanhã".

Todas essas frases estão em relação com o delírio especial dos diferentes doentes. Até mesmo existem algumas expressões que podem colocar em evidência os sintomas particulares do delírio.

Por exemplo, as expressões: "As pessoas gesticulam quando eu passo... alguém me eletrizou. - Alguém me viola. - Fazem-me injúrias", denotam a presença de interpretações delirantes, de distúrbios da sensibilidade geral, de alucinações genitais, de alucinações auditivas.

Muitos melancólicos não falam jamais senão em companhia de suas frases de palavras [phrases de mots]: "Eu acredito, parece-me", denotando bem o estado emocional em que se encontram, a mudança que se faz neles sob o efeito da doença, a incerteza de suas novas percepções.

Que um persecutório se sirva, para designar seus inimigos, dos pronomes indefinidos on, ils; de um termo coletivo: os Jesuítas, os francos-maçons; de uma designação especial, isso tem ainda importância, pois essas locuções diferentes correspondem a etapas diversas de um delírio mais ou menos sistematizado: a palavra indefinida marca o início da afecção, o termo coletivo um delírio já mais claro e a designação especial uma afecção muito sistemática. E ainda, em medicina legal essa simples constatação tem um valor considerável, pois quanto mais o delírio se personifica e mais o doente designa claramente seus adversários imaginários, mais há a tendência de passar da ideia ao ato, do advir à agressão.

Indicações semelhantes podem ser dadas pelo emprego que o doente faz de palavras novas. Os neologismos merecem um estudo particular, pois constituem uma das modificações mais curiosas da linguagem nos alienados, e já há muito tempo sua importância foi assinalada por diferentes autores.

Neologismos - Embora a palavra neologismo só se aplique estritamente à criação de um vocábulo novo, englobamos também sob esse nome, a fim de não multiplicar as divisões, os casos em que as palavras usuais são desfiguradas ou desviadas de seu sentido habitual (paralogismos); todos esses fatos tendo, aliás, em medicina mental, uma significação análoga. Essas palavras nascem respeitando os mesmos processos que aquelas que se introduzem na linguagem ordinária.

Essas novas palavras nascem seguindo os mesmos processos daquelas que se introduzem na linguagem ordinária.

Do ponto de vista de seu modo de aparição, de sua significação psicológica, os neologismos podem ser divididos em duas grandes classes: os neologismos passivos e os neologismos ativos.

Os neologismos passivos são os que resultam de processos automáticos; os neologismos ativos são criados voluntariamente. No primeiro caso, os elementos, palavras, imagens, ideias se associam nelas mesmas; no segundo, a vontade intervém para criar.

Os neologismos passivos, resultantes do simples automatismo psicológico, encontram sua explicação na lei geral da associação por contiguidade ou semelhança e se formam definitivamente pela associação de assonâncias ou de representações. Vejamos um exemplo fora da alienação.

No argot francês, disse M. Lefèvre, que conhecemos um pouco graças aos excelentes estudos de M. Marcel Schwob, encontramos a expressão "linges" designando os jogadores de "bonneteau"; a série dos intermediários seria a seguinte: "bonneteau", "bonnet", "bonneterie", "lingerie". Há aqui um neologismo bem estranho e nós vemos que ele se exprime simplesmente pela lei da associação. Uma similitude de palavras ou de imagens verbais faz passar de "bonneteau" a "bonnet", e uma similitude de imagens visuais leva-nos de "bonnet" a "linges".1

Nos alienados, os neologismos passivos, também de origem automática, encontram-se, por exemplo, muito frequentemente nos estados maníacos, onde as novas palavras se formam por assonância, sem ter para o doente nenhuma significação, e resultam também da extrema rapidez das associações de ideias, de representações mentais variadas, sucedendo-se como imagens de um caleidoscópio.

Nós os encontramos também no alcoolismo agudo ou crônico, na paralisia geral progressiva, onde o discurso é permeado por palavras desviadas de seu sentido, empregadas, além disso, porque são mais sonoras, mais pomposas; onde vemos os doentes, debilitados sobretudo do ponto de vista da memória, esquecerem os substantivos usuais, servirem-se de circunlocuções para substituir a palavra esquecida e, finalmente, pronunciar sílabas e/ou frases ininteligíveis. O mesmo concerne aos dementes que, devido à debilidade de sua memória, desviam as palavras de seus sentidos, desmantelando-as e formando assim novas palavras; e onde o discurso se limita frequentemente - quando a ruína das faculdades é completa - em repetir automaticamente palavras ou sílabas incompreensíveis, não tendo outra ligação aparente senão uma assonância mais ou menos completa.

Na linguagem dos imbecis, encontramos também frequentemente palavras mal articuladas, sílabas sem outra ligação de associação que a ressonância e fazendo sua linguagem parecer com a das crianças que dizem 'nounou' por 'nourrice' [ama], 'dada' por 'cheval' [cavalo] etc. Nos idiotas, os sons mal articulados, os gritos disformes que eles emitem não podem ser tomados como neologismos, mesmo passivos.

Existe ainda uma classe de palavras criadas que pode pertencer à classe dos neologismos passivos, contudo se formam por um procedimento diferente desse que viemos expondo. Essas palavras novas, como observou Brosius, são resultantes de um impulso. É um reflexo motor sucedendo a impressão atual e sem que aí haja a menor relação entre a ideia e a palavra. Ao mesmo tempo podemos frequentemente notar os movimentos em outros grupos musculares. Isso não nada mais do que um fenômeno de descarga análogo à interjeição, que se produz sob a influência de uma emoção viva, e parece aliviar assim a sensibilidade exaltada.

Cotard2 dá a esses fatos uma interpretação análoga:

Sob a influência, ele disse, de um estado de exaltação da sensibilidade moral, os atos que, em estado normal, jamais se produzem sem o concurso prévio da inteligência, tomam o aspecto de manifestações mímicas, de atos sucedendodiretamente às impressões morais, sem trabalho intelectual intermediário. É assim que a linguagem articulada se apresenta com um aspecto [caractère] absurdo, ilógico, incoerente. As palavras se apresentam verdadeiramente seguindo algumas afinidades que as relacionam aos diversos estados emotivos fora de toda espécie de ligação lógica. Daí a repetição frequente de algumas palavras ou de algumas sílabas desprovidas de sentido. A linguagem se aproxima da interjeição e da injúria.

Ao estado fisiológico mesmo, basta um sentimento vivo para fazer com que sejam pronunciadas sílabas desprovidas de sentido ou palavras incoerentes.

Observamos uma pessoa desse gênero, muito impressionável, mas absolutamente alienada, e que, sob a influência de uma emoção viva, pronunciava palavras sem significação e sílabas incompreensíveis. A mais frequente dessas interjeições era a seguinte: "Béaah!" Ela pronunciava, dizia, essas sílabas como um descarrego e lhe parecia que elas a aliviava muito.

Fenômenos semelhantes são encontrados nos alienados. Recentemente M. Féré3 reportou à Sociedade de Biologia o fato de um perseguido que pronunciava a palavra "Crouque" cada vez que tinha um motivo para excitação, e ele assinalava que esse neologismo não era produzido senão pela associação de movimentos vocais espasmódicos com um estado emocional.

Nos maníacos é frequente notar sílabas associadas, palavras novas sem significação, seguidas umas das outras, como únicos sintomas de um estado de excitação motriz, e sem que o doente lhe dê uma significação particular.

Fatos da mesma ordem são encontrados também na melancolia ansiosa. Uma doente desse gênero, observada por Cotard, lhe disse: "Estou num estado de terrível angústia e de agitação nervosa, eu falava constantemente e sentia que minha fala não era mais dirigida por meu pensamento".

A linguagem dos dementes é também por vezes salpicada de neologismos da mesma natureza.

Não é raro, outrossim, ver doentes afetados por ideias obsedantes pronunciar, quando estão em estado de crise de angústia, palavras por vezes incoerentes. Elas são notadamente encontradas em algumas formas de onomatomania, embora possam ser também encontradas nas variedades de obsessão. Um doente desse gênero, que observamos durante longo tempo em nosso consultório da Salpêtrière, sofria de ideias obsedantes, sem ser onomatômano; pronunciava as palavra "Bibi-Raton" para fazer cessar suas crises de angústia. Tomou esse hábito porque se lembrava que uma vez, sob o efeito de uma crise, pronunciou essas palavras subitamente, de modo explosivo, sem lhes ter buscado, e que essa espécie de interjeição particular pôs fim ao estado emocional de grande sofrimento em que se encontrava no momento.

Ao inverso dos precedentes, os neologismos ativos são criados com intenção e correspondem a uma ideia mais ou menos nítida no espírito do indivíduo. Desprovidos de sentido para todos aqueles que não ele, adquirem uma significação especial quando se tem a chave. Essa espécie de neologismo abunda na linguagem corrente. Algumas escolas literárias fazem abuso dele; na política assistimos todos os dias a criação de novas palavras como: oportuniste [oportunista], radical [radical], centre-gauche [centro-esquerda], libre-échangiste [livre-comércio] etc., insignificantes nelas mesmas, porém denotam um trabalho intelectual anterior.

Essas considerações nos fazem já entrever (hipótese confirmada, a esse propósito, pela clínica) que essa variedade de neologismos está sobretudo relacionada com os delírios sistemáticos, quaisquer que sejam suas variedades: persecutório, grandioso, místico, erotismo, hipocondria.

Uma vez organizado o delírio, mais ou menos engenhoso segundo os recursos de seu espírito, após ter longamente refletido, longamente buscado, após ter meditado seus argumentos, discutido seu valor, o doente os concentra em algumas dessas palavras novas, que lhe parecem mais apropriadas que os termos ordinários para exprimir de uma maneira precisa suas convicções errôneas. Mas, o que é bom notar, é que, uma vez encontrada a palavra, ele se contentará a partir de então com ela. Essa palavra fixa seu pensamento, e, desde então, ele quase esquecerá as sínteses sucessivas que o levaram à sua criação. Não há mais nada para explicar, nada para buscar, a palavra diz tudo e sua presença mascara, no fundo, uma considerável debilidade do pensamento. Não existe aí desgraçadamente também, como no estado normal, em que os forjadores de sistemas científicos que não fazem senão dissimular, com o uso de vocábulos mais ou menos pomposos e pitorescos, a debilidade e o vazio de suas teorias? Assim como o alienado crônico, eles cultuam a palavra; são, como se tem dito, os "logólatras".

Em muitos casos é muito difícil saber a razão da escolha da expressão. Por vezes ela é imaginada, compreensível, tem uma relação tão direta com a ideia que deve exprimir, que a descobrimos facilmente na palavra de nova formação que a designa.

Por exemplo, um perseguido, que se queixa que lhe olham atravessado, se diz na mira dos perseguidores dos "Reluquets". Uma outra, sofrendo de distúrbios de sensibilidade geral, se queixa das sensações dolorosas ao longo da espinha dorsal, que ela atribui a artimanhas de uma força "épinedorsalier".

Um doente perseguido escuta vozes que vêm de longe e de timbres diferentes, qualificando-as de "polyphoniques" e de "téléphoniques".

Existe ainda algumas palavras que, compreensíveis nelas mesmas, só se tornam neologismos quando associadas com outras, por exemplo, as palavras jambes de verres [pernas de vidro], lime de feu [afiador de fogo]...; expressões imaginadas, correspondendo frequentemente a sensações particulares experimentadas pelo doente, que busca descrevê-las com maior nitidez possível.

Esses são os casos mais simples, mas há outros que mal sabemos qual é a relação entre o neologismo com a ideia a que se aplica, e onde o doente é obrigado a explicar o que subjaz em seu pensamento.

Então o neologismo resulta de associações de ideias prévias; algo análogo a esses "truques" mnemônicos empregados para se recordar alguns nomes e que fazem com que num dado momento a palavra criada se apresente ao espírito no lugar disso que tinha por meta trazer à memória.

Outras vezes o neologismo tem sua origem nas alucinações auditivas, fazendo o doente escutar palavras incompreensíveis a princípio e que, após, adquirem uma significação especial.

Um doente de Brosius,4 tendo escutado a palavra "Kizfteck" enquanto comia, serviu-se dela depois todas as vezes que desejava dizer: "J'ai assez mangé" [Estou satisfeito/Já comi o bastante].

Um outro citado por Snell5 escutava as sílabas "bi, bi", fazendo-se chamar "Bischof" (évèque [bispo]).

Esses casos, em que os neologismos se apresentam a princípio sob a forma de alucinações auditivas, são muito frequentes e encontramos amiúde doentes aos quais perguntamos porque usam tal ou qual palavra para designar, por exemplo, os perseguidores, e respondem: "Mas eu não sei, são eles que me disseram que se chamam assim". Uma doente que observamos pretendia estar em relação com um espírito que ela chamava "Paparita". Foi ele, ela acrescentou, que havia lhe dito que esse era seu nome.

Os alienados fazem, em geral, um verdadeiro abuso de seus neologismos, e as ideias ou as coisas que eles significam são as mais variadas; não é inútil, nessa ótica, classificá-los em diferentes categorias.

É isso que fez o doutor Tanzi,6 que propôs o agrupamento que se segue, útil por servir como guia na procura das ideias expressas por esses vocábulos novos:

Primeiro grupo - Nomes fazendo alusão a agentes ou a estados físicos. Uma de nossas doentes se diz vítima de perseguidores, os Bouliqueurs. Outra está na mira da perseguição dos Vampas; uma terceira, o é pelos Reluquets; outra é perseguida pelos Bobs e pelos Majors.

Segundo grupo - Nomes fazendo alusão a agentes ou a estados fisiológicos com traço alucinatório. Um perseguido é torturado pelo nitral; outra, pela máquina giroitement.

Terceiro grupo - Nomes fazendo alusão a agentes ou a estados fisiopatológicos com traço alucinatório. Muitos alucinados auditivos se queixam de ser téléphonés; uma de nossas doentes atribui o nome injecteurs [injetores] aos personagens que lhe falam. Uma outra é emplâtrée, empestiférée [fedegosa], emboucanée pelo fondement. Outra é submetida a torturas de um algoz epinedorsalier [espinhodorsal] que lhe déséchine o dorso.

Apêndice - Termos análogos aos precedentes, mas com uma qualificação sexual. Por exemplo, a doente anterior experimenta alucinações genitais e sempre se serve, a esse propósito, da palavra "coucouze". Um perseguido de M. Marandon de Montyel tinha alucinações genitais que ele designava com o termo "nonentation".

Quarto grupo - Conjurações, fórmulas de exortação, evocação. Um alienado de nossa consulta pronunciava as palavras "Zut! du flan!" para fazer cessar as alucinações genitais. Um perseguido fazia, com o mesmo objetivo, os gestos "excavalatiques".

Uma doente de M. Saury se servia da conjuração: "Dieu treize" para evitar as torturas das almas do purgatório.

Quinto grupo - Terminologia metafísica e pseudocientífica. Um doente de Tanzi escrevia um livro sobre a anthropofotologie; outro se ocupava da alitiométrie philosophique. Lemotamatomel é, para um alienado, o símbolo da eternidade.

Sexto grupo - Autodenominação. Observamos atualmente uma perseguida megalomaníaca que, se lhe perguntamos sua qualidade, responde: "Je suis la reine de France Zazi" [Eu sou a rainha de France Zazi]. Um outro doente, citado por M. Lefèvre, se dizia "foudroyantissimeur".

Sétimo grupo - Neologismos assistemáticos e absurdos. Nesse último grupo entram os neologismos passivos, mas também alguns neologismos ativos, de tal modo que constituem a linguagem de uma de nossas doentes, perseguida megalomaníaca, que pretende saber todas as línguas e que, quando lhe falamos sobre o que ela designa, não responde senão por uma série de sílabas justapostas sem nenhum sentido e absolutamente incompreensíveis.

São os neologismos dessa última categoria que parece que Martini7 teve sobretudo em vista. Mas esse autor nos parece ter abusado da hipótese, quando pretendeu estabelecer uma relação entre o estado de espírito do doente e o emprego de algumas vogais especiais; e quando, nesses mesmos casos, ele considera como signo de ruína intelectual o uso cada vez mais restrito de consoantes.

De suas pesquisas especiais, o doutor Tanzi tira algumas conclusões que apresentam algum interesse.

É assim que os neologismos ativos, tomados do ponto de vista de sua significação, se apresentam, com frequência, na ordem do agrupamento acima.

Estabelecendo a relação do número de neologismos encontrados com o de doentes, Tanzi encontra 239 neologismos para 168 doentes. Há aí então o fato de que muitos neologismos podem pertencer a um mesmo grupo ou a grupos diferentes.

Os neologismos duplos encontram-se mais frequentemente no delírio metafísico do que em outro lugar, e compreendemos que sua multiplicação seja mais fácil em um terreno também vasto do que nos limites necessariamente estreitos de um delírio pessoal.

Das 239 palavras novas, somente 83 são verdadeiros neologismos; as outras são, sobretudo, paralogismos, devido a uma terminação insólita ou a uma alteração de seu sentido no vocabulário do doente. Os verdadeiros neologismos são encontrados mormente no primeiro e no seguindo grupo. Os neologismos metafísicos são encontrados nos simples desequilibrados, mas também nos verdadeiros alienados.

A classificação dos neologismos do ponto de vista gramatical é difícil de estabelecer. Contudo, são os substantivos e os adjetivos os mais frequentes (90%); seguidos dos verbos e algumas interjeições. As locuções escapam evidentemente à classificação.

É importante notar que o mesmo neologismo é encontrado em alienados vivos distantes uns dos outros e que não se conhecem. Essa identidade do pensamento nos doentes vivos em culturas diferentes mostra que as leis do delírio são muito mais simples e mais constantes do que poderíamos crer.

É igualmente importante assinalar nos alienados, que se servindo além dis-so, a esse propósito, de neologismos diferentes, a importância supersticiosa atribuída às cifras, notadamente ao que, como 13, 3 e 7, têm uma importância cabalística. Nos alienados raciocinantes, ainda, encontramos frequentemente ideias filosóficas, tais que parecem ser os frutos de uma mesma planta, e que, reunindo todos os escritos desses diferentes doentes, poderíamos quase constituir uma escola especial de filosofia.

Os neologismos que se aplicam às personificações visam sobretudo os personagens malfeitores. Nos que fazem alusão a agentes ou a estados físicos, é fácil reconhecer as sensações novas, um ponto de partida alucinatório. Aí se está igualmente mais próximo do terceiro grupo. Os neologismos que têm como traço as ideias genitais marcam muito mais uma interpretação do que uma descrição, e, como tais, estão mais em relação com os distúrbios de ideação do que com os de percepção.

Bem frequentes, os neologismos que se aplicam aos perseguidores têm uma marca de superstição e revelam uma crença em poderes sobrenaturais.

Os neologismos assistemáticos são frequentemente difíceis de compreender, e seus inventores, que resumem assim seu delírio, não podem ou não querem dar uma significação deles. Eles mesmos são impostos à consciência sem gênese lógica e frequentemente é essa origem misteriosa para o doente que o fascina.

É inútil buscar nos neologismos a menos analogia, do ponto de vista de sua formação, com a linguagem da criança, pois o alienado já está possuído de uma língua completa. Contudo, aí estão alguns, do último grupo notadamente, que lembram inteiramente a linguagem primitiva.

O que caracteriza todos esses neologismos é a presença de ideias delirantes que eles condensam de algum modo. Mais ainda, eles revelam uma tendência a exagerar a importância da palavra, uma espécie de fé em sua virtude misteriosa.

Os casos mais numerosos em que os alienados delirantes sistemáticos criam neologismos metafísicos, resulta deste fato: que o delírio não é de modo algum parcial, monomaníaco. Ao contrário, do lado do delírio típico há sempre tendências delirantes gerais que aparentemente aproximam os delirantes dos desequilibrados.

Em resumo, o neologismo não é por ele mesmo um sintoma patológico, mas torna-se índice de um distúrbio mórbido quando, como sempre no alienado sistemático, exprime um fato de superstição desenvolvend-se na consciência e praticamente atestando as proporções de uma ideia fixa.

Baseando-se nessas diversas considerações e, por outro lado, comparando e assimilando os neologismos aos numerosos documentos postos no domínio do Folk-Lore, o doutor Tanzi dá aos neologismos a significação de um fato de regressão atávica.

Sem ir até aí, ao menos podemos dizer que o neologismo ativo denota um delírio muito sistematizado, tendendo à cronicidade e repousando sobre um fundo de debilidade intelectual. Assim, sua aparição é nela mesma um mau prognóstico.

Porém, não é preciso aplicar essa significação prognóstica desfavorávelindistintamente a todos os neologismos, quaisquer que sejam. É essa confusão, feita por alguns autores, que engendrou a todo momento divergências de opinião sobre o valor prognóstico do neologismo: como o desacordo existente entre as conclusões dos primeiros trabalhos de Damerow8 e de Martini,9 um diz que ele é signo de incurabilidade, o outro, recorrendo a dois casos, sustenta uma opinião contrária.

O primeiro certamente tem razão, mas o segundo não está, talvez, errado, e a questão poderia, parece-nos, ser resolvida pela seguinte distinção. O neologismo ativo denota uma afecção crônica, incurável, uma debilidade intelectual que só se acentuará, se traduzido pelas modificações paralelas dos neologismos que se tornam menos lógicos, menos racionais. Quanto aos neologismos passivos, se alguns dentre eles estão em relação com os estados incuráveis da demência, paralisia geral, vimos que também os encontramos nos casos muito benignos, de excitação maníaca, por exemplo. Também seu valor prognóstico é válido e eles não são por si próprios, como os precedentes, um signo constante de incurabilidade.

 

 

JULES SÉGLAS
Médico de la Salpêtrière; membro da Sociedade médica dos hospitais, da Sociedade médico-psicológica, da Sociedade de antropologia, da Sociedade de medicina mental da Bélgica etc.

 

 

* Publicado em 1982, por J. Rueff et C. Editeurs, Paris, 304p. Tradução de Walker Douglas Pincerati. Revisão técnica de Mário Eduardo Costa Pereira.
1. Snell, Ueber dir veänderte Sprechweise und die Bildung dir neuer Worte und ausdrücke in Wahnsinn (Allg. Zeitsch. f. Psych., B. IX, p. 11, 1852); Brosius, Ueber die Sprache der Irren. Allg. Zeitsch. f. Psych., B. XIV, p. 37-64; Shlager, Wien. Med. Wochenblatt, XX, II, 12, 14.; Tanzi, Neologismi degli alienati in rapporto col delirio cronico (Riv. sp. di fren., t. XV, fasc. IV, 1889); Lefèvre, Étude clinique des néologismes en médecine mentale. Thèse de Paris, 1891; A. Marie, Étude sur quelques symptômes des délires systématisés. Paris: O. Doin, 1892.
2. Cotard, Étude sur les maladies cérébrales et mentales, 1891, p. 250.
3. Féré, Société de Biologie (20 juin 1891).
4. Brosius, loc. cit.
5. Snell, loc. cit.
6. Tanzi, loc. cit.
7. Martini, Veränderung der Ausdrücksweise bei Irren(Allg. Zeitsch. F. Psysch., B. XIII, p. 605).
8. Damerow, Sefeloge, p. 101.
9. Martini, loc. cit.

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