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Revista de Administração Contemporânea

On-line version ISSN 1982-7849

Rev. adm. contemp. vol.9 no.1 Curitiba Jan./Mar. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552005000100014 

RESENHA BIBLIOGRÁFICA

 

 

Luiz Alex Silva Saraiva

(FUNCESI)

 

 

HOMENS INVISÍVEIS: RELATOS DE UMA HUMILHAÇÃO SOCIAL. Fernando Braga da Costa. São Paulo: Editora Globo, 2004. 254 p. ISBN: 8525038911.

Já há algum tempo contribuições teóricas interessantes para os pesquisadores da área de Administração têm vindo de outros campos do conhecimento, como a Psicologia, a Sociologia e a Antropologia, só para ficar em alguns. Mais uma vez isso ocorre com Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social, de Fernando Braga da Costa, fruto da sua dissertação de Mestrado defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É um livro interessante, que pode ser recomendado a alunos de cursos de graduação e de pós-graduação nas áreas de Gestão de Pessoas, Relações de Trabalho e Estudos Organizacionais, particularmente os que trabalhem poder e simbolismo nas organizações.

Apoiado inicialmente nos estudos de Simone Weil sobre a opressão entre os operários (WEIL, 1996), esta obra tem o mérito de trazer à tona, com uma argumentação forte, e por vezes apaixonada, a questão da desigualdade e exclusão dos indivíduos. Ao longo de quatro capítulos (Introdução, O lugar, As Condições Materiais de Trabalho, e No pé da serra de Petrópolis), o autor se debruça sobre um fenômeno muito interessante: o desaparecimento simbólico de indivíduos pobres com profissões que não exigem qualificação escolar ou técnica. O que chamou a atenção do então estudante de psicologia sobre a invisibilidade simbólica dos garis da cidade universitária da USP se deu quando ele, vestido como eles, não foi enxergado por amigos, colegas e professores que haviam estado com ele apenas algumas horas antes. Por que ao usar um uniforme ele desapareceu? Para responder a esta, entre inúmeras questões, ele desenvolveu sua dissertação de mestrado, estando, atualmente, no doutorado em Psicologia Social da mesma instituição.

Uma observação mais acurada do texto não deixa escapar que os principais problemas são de cunho metodológico, nebulosos ao considerarmos o tom argumentativo adotado. Em que pese que é provável que tenha havido uma orientação editorial, a fim de que a obra fosse mais comercial, a carência de maiores informações lança dúvidas sobre o teor das análises e conclusões. O autor nos informa de que a investigação foi conduzida por meio de um estudo etnográfico realizado em dois níveis: investigação participante de uma modalidade de trabalho não-qualificado e subalterno (trabalho de garis) e investigação do encontro do pesquisador com trabalhadores pobres. Contudo, há poucos esclarecimentos a respeito de como se deu o processo de inserção naquele grupo específico, bem como os recursos utilizados para coleta e interpretação dos depoimentos, o que, do ponto de vista científico, enfraquece o trabalho como um todo. Além disso, o que salta aos olhos é que o pesquisador não conseguiu escaparde uma armadilha comum em estudos etnográficos (GUIMARÃES, 1990): deixouse encantar pelo seu objeto de estudo, os garis. O evidente envolvimento afetivo é manifesto na adoção de uma linguagem que chega a surpreender os leitores acostumados a um certo distanciamento analítico e comedimento no uso das palavras e adjetivos. Em alguns momentos, os argumentos usados chegam a ser quase panfletários, soando como uma espécie de ideologia da humanização das atividades profissionais, aparentemente a ser iniciada pelos garis.

Esses problemas, contudo, não ofuscam os méritos deste livro. Os depoimentos coletados são riquíssimos porque permitem que entendamos o lado de lá de profissões pouco qualificadas, de um ponto de vista parcial, sem dúvida, mas provocativo. A postura corajosa do autor também é interessante porque pode inspirar a elaboração de textos científicos menos ortodoxos na área de Administração, menos preocupados com a obediência a um formato padrão - que transforma em marginais iniciativas inovadoras em termos de método, linguagem e construção teórica e analítica. Um outro destaque é o posicionamento humanista do autor, que pode garantir momentos de reflexão para nós, estudiosos do mundo organizacional, que em diversos momentos, por termos o olhar na organização e suas múltiplas dimensões, desumanizamos um pouco nossa análise para fazer ciência - o que é um contra-senso se pretendemos encarar as organizações de forma sistêmica, com os homens em seu devido lugar.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GUIMARÃES, A. Z. Desvendando as máscaras sociais. 3.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.         [ Links ]

WEIL, S. A condição operária e outros estudos sobre a opressão. São Paulo: Paz e Terra, 1996.         [ Links ]