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Revista Brasileira de Plantas Medicinais

Print version ISSN 1516-0572

Rev. bras. plantas med. vol.14 no.2 Botucatu  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-05722012000200013 

Poaia [Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stoves]: aspectos da memória cultural dos poaieiros de Cáceres - Mato Grosso, Brasil

 

Ipecac [Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stoves]: aspects of cultural memory of "poaieiros" in Cáceres - Mato Grosso, Brazil

 

 

Teixeira, V.A.I; Coelho, M.F.B.II,*; Ming, L.C.III

IInstituto Federal de Ciência e Tecnologia de Mato Grosso - Campus Cáceres, Avenida dos Ramires S/N, Distrito Industrial, Caixa Postal 244, CEP: 78.200-000, Cáceres-Brasil    vagneraniceto@gmail.com   
IIUniversidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro Brasileira, Avenida da Abolição, 7, CEP: 62.790-000, Redenção-Brasil
IIIUniversidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Departamento de Produção Vegetal, Departamento de Botânica, Caixa Postal 510, Campus de Botucatu, CEP: 18618-000, Botucatu-Brasil linming@unesp.br

 

 


RESUMO

O Brasil está entre os principais exportadores de poaia [Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stoves] seguido do Panamá e Costa Rica. A poaia brasileira apresenta alto valor farmacológico das raízes devido aos teores de emetina e cefalina. Este trabalho teve como objetivo descrever como as famílias de poaieiros mantém a memória cultural sobre a Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stoves. As informações foram coletadas no município de Cáceres, Mato Grosso, através de entrevista estruturada e observação participante com 20 homens e 10 mulheres, de faixa etária de 45 a 86 anos. Foram citadas as formas de utilização na alimentação para animais, inseticida, carrapaticida, emético, contra diarréias, para alívio de dor de cabeça, contra malária, bronquite e dor no estômago. A raiz é a parte mais usada e a forma de preparo é tintura ou misturada ao fumo, ao vinho ou à cachaça. Poucos entrevistados passaram aos filhos o conhecimento sobre a P. ipecacuanha. A memória cultural sobre a P. ipecacuanha deve-se a vivência, extração e comercialização da planta, e por ouvir as conversas dos pais com amigos. A perda de conhecimento associado a poaia é causada pelo êxodo rural, destruição do habitat com o desmatamento e ocupação agrícola. A extinção da espécie na região contribui para a erosão cultural.

Palavras-chave: Psychotria ipecacuanha, erosão cultural, raiz de ipeca, etnobotânica, cerrado


ABSTRACT

Brazil is among the leading exporters of ipecac [Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stoves], followed by Panama and Costa Rica. The roots of Brazilian ipecac have high pharmacological value due to their levels of emetine and cephalin. This study aimed to describe how families of "poaieiros" maintain the cultural memory of Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stoves. Information was collected in the city of Cáceres, Mato Grosso State, Brazil, through structured interviews and participating observation involving 20 men and 10 women aged from 45 to 86 years. The cited forms of use were in animal nutrition, as insecticide, acaricide, emetic, against diarrhea, relief from headache, and against malaria, bronchitis and stomach ache. The root is the most used part and its preparation form is tincture or mixed with tobacco, wine or sugarcane. Few interviewees transmitted to their children the knowledge of P. ipecacuanha. The cultural memory of P. ipecacuanha is due to experience, extraction and marketing of the plant, as well as to hearing conversations between parents and friends. The loss of knowledge associated with ipecac is caused by rural exodus, destruction of its habitat due to deforestation and agricultural occupation. The extinction of this species in the region contributes to cultural erosion.

Key words: Psychotria ipecacuanha, cultural erosion, ipecac root, ethnobotany, cerrado


 

 

INTRODUÇÃO

A poaia [Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stokes - Rubiaceae], conhecida também como ipeca ou ipecacuanha, é a planta brasileira mais conhecida na área médica (Shorupa & Assis, 1998). A espécie ocorre nas regiões sombrias e úmidas das florestas tropicais da América, no sul da Amazônia brasileira, nos estados de Mato Grosso e Rondônia (Martins & Oliveira, 2004). O Brasil é o centro de origem e a maior ocorrência da espécie é no Estado de Mato Grosso, principalmente no município de Cáceres. São encontrados nas raízes de P. ipecacuanha dois valiosos alcalóides, a emetina e a cefalina, usados no tratamento de diarréias, como amebicida, expectorante e antiinflamatório (Lameira, 2002).

Uma descrição da poaia em Mato Grosso foi feita por Thieblot (1980): "A planta não passa de 25 ou 30 cm de altura, mas ela sempre se arrasta um pouco, de forma que o caule atinge uns 40 cm. As folhas são opostas, simétricas, de um verde vivo. As flores brancas arroxeadas, de um centímetro, dão nascença a um cartuchinho de sementes vermelhas. Mas é a raiz que interessa ao poaieiro. É uma raiz preta por fora e branca por dentro, formada de anéis bem juntinhos. O trabalho consiste em descobrir e arrancar essa raiz de 20 a 30 cm de comprimento que corre horizontalmente debaixo da terra. Extraída a raiz o caule fica no chão e volta a brotar. Qualquer pedaço de raiz que também fique, volta a dar um novo pé. Por ser muito mais fácil mexer com a planta quando a terra está molhada, é costume "poaiar" (poaiar é um termo usado na região para caracterizar as atividades relacionadas com a coleta extrativista da poaia, bem como poaieiro é aquele que realiza essas atividades ) no tempo da chuva".

A poaia foi um produto de extrativismo na América Tropical durante aproximadamente 300 anos e, apenas em meados do século XX, foram iniciadas plantações sob coberturas arbóreas do bosque tropical úmido, primeiro na Nicarágua e, posteriormente, na Costa Rica, estabelecendo-se cultivo com raízes de qualidade, dirigido exclusivamente para as demandas do mercado internacional (Thieblot, 1980). Situação contrária sucedeu com o abastecimento de raízes no Brasil, cujo material tem origem em áreas naturais no Estado de Mato Grosso e apresenta maior variabilidade nos conteúdos de metabólitos secundários (Addor, 1945).

O Brasil está entre os principais exportadores de poaia, seguido do Panamá e Costa Rica (Costa et al., 2000). A poaia brasileira apresenta elevado valor farmacológico das raízes devido aos altos teores de emetina e cefalina (Santiago et al., 2000), o que confere à planta elevado poder emético e amebicida.

Embora a extração de poaia tenha gerado recursos para a cidade de Cáceres, que teve o maior mercado extrativista dessa planta, informações sobre a manutenção da memória cultural, as formas de uso e os aspectos da importância econômica dessa planta são escassas. Segundo Lameira (2002), P. ipecacuanha é uma espécie ameaçada de erosão genética ou em vias de extinção por ter sofrido intenso processo extrativo nos dois séculos passados, abertura de novas fronteiras agrícolas e, também, por ter as áreas de ocorrência natural reduzidas. Oliveira & Martins (1998) também constataram que as populações naturais de P. ipecacuanha vêm diminuindo drasticamente em consequência do intenso extrativismo, do elevado valor medicinal e comercial das raízes e do desmatamento.

Essa perda de material genético tem importante papel na manutenção do conhecimento tradicional. Shanley & Rosa (2005), ao realizarem inventário etnobotânico na fronteira de exploração da Amazônia Oriental, relacionaram a erosão genética com a perda do conhecimento tradicional e afirmaram que, à medida que as árvores desaparecem da paisagem, desaparece o conhecimento botânico das mentes. No estudo das comunidades, a etnobotânica desponta como o campo interdisciplinar que compreende o estudo e a interpretação do conhecimento, significação cultural, manejo e usos tradicionais dos elementos da flora (Caballero, 1992), buscando, portanto, registrar e preservar os conhecimentos tradicionais das pessoas em relação às espécies, usos, manejos e relações com o ambiente.

De acordo com Oliveira et al. (2009), a etnobotânica pode ser compreendida como o estudo das interações entre pessoas e plantas, revelando a grande importância dos recursos vegetais para a sobrevivência e manutenção de populações locais. O levantamento etnobotânico permite o registro do conhecimento popular, possibilitando também entender a cultura do povo quanto à utilização das plantas medicinais e, ainda, subsidiar pesquisas em áreas afins, ao mesmo tempo em que contribui para priorizar espécies necessitadas de conservação (Vieira & Martins, 1996).

A finalidade deste trabalho foi identificar fatores associados com a manutenção da memória cultural junto às famílias urbanas e rurais de Cáceres, onde algum membro realizou ou realiza atividade extrativista da P. ipecacuanha.

 

MATERIAL E MÉTODO

Área de estudo

O município de Cáceres está localizado no sudoeste do estado do Mato Grosso (15º46'26" S e 57º58'37" W), forma a escarpa da Chapada dos Parecis e é caracterizado pela vegetação de transição entre cerrado e floresta tropical (Figura 1).

Antigamente ocupada por povos indígenas e, mais tarde, explorada para extração de poaia, a região foi integrada à economia regional nos anos 1950 e 1960, contando atualmente com população de 91.714 habitantes.

O clima predominante é o tropical quente e sub-úmido, com temperatura média anual de 35ºC, precipitação anual de 1.500 mm e umidade relativa média anual de 80,4% (Godoy, 2004). A precipitação pluviométrica anual está em torno de 1.216 mm, com cerca de 80% das chuvas concentradas entre setembro e abril, e uma estação seca entre maio e agosto. A temperatura média, na estação mais fria, é de 21ºC e 32ºC no verão (Castro, 1994). A vegetação nativa compreende fitofisionomias que variam de cerrado, campo cerrado e cerradão e as serras são cobertas por vegetação classificada como floresta estacional decídua, que se caracteriza por perder as folhas na época mais seca (Sano & Almeida, 1998).

Coleta de dados

O levantamento de dados e informações sobre poaia [Psychotria ipecacuanha (Brot.) Stokes - Rubiaceae] foi realizado nos meses de fevereiro a maio de 2007 no perímetro urbano e rural do município de Cáceres, Estado de Mato Grosso, Brasil.

Inicialmente, foi realizado o reconhecimento de áreas com possível ocorrência de poaia e estabelecida a área do perímetro rural onde seria realizado o contato com as pessoas a serem entrevistadas.

Na primeira etapa, foram realizadas entrevistas não estruturadas com moradores das comunidades rurais para a apresentação da proposta de trabalho. Também foi elaborado o Termo de Anuência Prévia, de forma participativa com todos os presentes de acordo com o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético - CGEN (Azevedo, 2005).

Através da aplicação da técnica de "bola de neve" (Patton, 2001), foram identificadas as pessoas com maior potencial para participar da entrevista de levantamento de informações sobre P. ipecacuanha.

Na área urbana, a identificação dos entrevistados foi estabelecida também com a técnica "bola de neve" em que os primeiros entrevistados indicaram os demais. Na escolha dos entrevistados, estabeleceu-se a condição de ter, na família, algum membro que trabalhou ou ainda desenvolve atividade com a P. ipecacuanha. Antes da realização dos trabalhos de coleta de dados, cada família foi visitada para agendar o horário mais adequado para a realização das entrevistas.

No processo de elaboração do questionário para a realização das entrevistas, foram considerados alguns aspectos, como adaptar a linguagem ao entrevistado e manter um conjunto de questões para a entrevista (Como você começou a poaiar? Por quanto tempo você poaiou?...), não sugerindo respostas para não direcioná-las.

Na segunda etapa, foram efetuadas as entrevistas estruturadas, quando, além da entrevista aplicada, foram também utilizados caderno de campo, gravador e máquina fotográfica para registro das informações. As entrevistas foram realizadas nas residências de cada entrevistado, de acordo com horário agendado anteriormente, de modo a não atrapalhar as atividades diárias. Antes de iniciar a entrevista, foi lido e entregue o Termo de Anuencia Prévia, reafirmando-se que a informação coletada seria apenas para fins de registro na pesquisa e, para cada entrevistado, foi entregue uma cópia do referido termo.

As questões abordadas nas entrevistas foram: você conhece a poaia? pra que é usada a poaia? como prepara? como é usada? qual a parte da planta usada? com quem aprendeu sobre a poaia? como era coletada a poaia? como era guardada? como era transportada? para onde ia a poaia? hoje, ainda tem muita gente que sabe sobre a poaia? ainda passam para os filhos e netos o conhecimeno sobre a poaia?

Foram realizadas 30 entrevistas, sendo quinze em área urbana e quinze em área rural. Os dados coletados nas entrevistas gravadas foram transcritos e as respostas foram tabuladas para análise das informações.

 

RESULTADO E DISCUSSÃO

As formas de uso de P. ipecacuanha e a parte da planta utilizada, citadas pelos entrevistados, encontram-se relacionadas na Tabela 1. A raiz foi a parte citada como a mais utilizada pelos entrevistados e as indicações e formas de preparo mencionadas estão em concordância com as informações de Addor (1945) e Santiago et al. (2000) Porém, quanto à forma de administração, foram registradas informações de uso não previamente referenciadas, como o uso da raiz na alimentação humana e junto ao sal para o gado, bem como o uso das folhas para diminuir a dor de cabeça. Negrelle & Fornazzari (2007) também verificaram a existência de informações ainda não referenciadas para 48% das espécies, ao realizar estudos etnobotânicos em duas comunidades rurais. Isto indica a riqueza e dinâmica do conhecimento tradicional e traz novas perspectivas para a investigação científica.

De acordo com Costa et al. (2000), apenas a raiz é processada pela indústria devido ao fato dessa possuir o alcalóide emetina, utilizado no combate à disenteria amebiana, além de possuir propriedade adstringente, expectorante e antiinflamatória. Entretanto os entrevistados referem-se ao uso da planta inteira como inseticida. Com relação a este uso, os entrevistados informaram que o preparo consiste em deixar a planta inteira em balde com água durante cinco dias e, após esse período, coar e borrifar em toda a residência. Essa forma de aplicação era usada para proteger os alimentos que ficavam armazenados na casa e, geralmente, funcionava muito bem como repelente para baratas ou outros insetos.

No uso como carrapaticida, a raiz era torrada, misturada ao sal e colocada no cocho para os bovinos, geralmente uma vez na semana. Segundo os entrevistados, o gado ficava com pelo liso na segunda semana de administração.

O uso "vomitivo" (emético), para desintoxicação, era indicado com muito receio, pois muita gente quase morreu de diarréia ao beber a água fervida com a P. ipecacuanha.  O preparo consistia em ferver água com pedaços de raiz; quando a água esfriava, era só coar e beber "que logo o vômito vem".

Silva (2000) citou que a população usava a poaia como medicamento caseiro na cura de diarréias, antiinflamatório e expectorante. Os entrevistados em Cáceres-MT disseram que a "corrução" (diarréia muito forte) era curada ao tomar chá frio da raiz; nesse caso, eles usavam a raiz curtida em água, sem fervura. A raiz seca era colocada na água e, se ficasse com "desando" (diarréia), era só beber um pouco do chá.

Contra a bronquite, o uso era na forma de xarope. Sobre o preparo do xarope, apenas três mulheres souberam informar, alertando sempre que o uso em excesso pode levar à morte. Disseram ainda, que para o xarope ter efeito positivo, a pessoa medicada precisava manter dieta. Essa dieta consistia em não tomar banho após beber o xarope, não ficar descalço, proteger-se da friagem à noite, não beber nada gelado e tomar o xarope uma vez ao dia durante três meses.

Indicações discrepantes tanto podem ser novas e corretas como podem representar erros frequentes. Negrelle & Fornazzari (2007) e Rodrigues (2007), ao realizarem levantamento etnobotânico, constataram pouca diferença entre as recomendações de uso, preparo e dosagem de raizeiro para raizeiro para a mesma espécie medicinal.

Das citações feitas neste trabalho, apenas duas tinham sido registradas por Addor (1945), três por Thieblot (1980) e três por Lameira (2002). Nenhum outro registro foi encontrado sobre o uso de poaia em animais. Dentre os usos citados está o de colocar em bebida, como vinho e cachaça, na comida para o gado, misturado ao sal, para as galinhas e cachorros, ou pulverizar a casa. 

"... Antes de viajarmos, mamãe sempre preparava um balde com aproximadamente 10 litros de água e um pouco de raiz torrada de poaia, deixava curtir por dois dias, depois ela borrifava na casa inteira. Quando voltávamos de viagem, a casa estava limpa, cheirosa, as baratas mortas e nada de formiga, pois nossa casa não tinha piso, era chão batido..." (H.M , 74 anos).

Na Tabela 2, estão relacionadas as formas de administração de P. ipecacuanha. Os entrevistados afirmaram que já ouviram pessoas dizendo que é da folha curtida que se extrai a tinta, mas nenhum citou tê-la usado. Em Addor (1945), é referendado o uso da folha para extração de tintura após um processo de fervura das folhas.

O uso da raiz de P. ipecacuanha na cachaça e vinho era feito com a raiz torrada e os efeitos da mistura, após a ingestão, eram percebidos em pequenas dosagens. Isso pode ser devido ao efeito anestésico citado por Silva (2000), pois os entrevistados afirmaram que as pessoas ficavam "abobadas" ao ingerir ipeca com cachaça.

Cerca de 50% dos entrevistados afirmaram que o conhecimento sobre a planta foi recebido dos pais ou amigos. O uso de plantas é um hábito cultural transmitido através de gerações e vários autores confirmaram esta origem do conhecimento. Alves & Silva (2003) verificaram que 57% das mães entrevistadas aprenderam a usar as plantas para as doenças de crianças a partir dos pais e avós. Marçal et al. (2003) indicaram que 66% aprenderam de parentes, enquanto Macedo et al. (2007) indicaram que 55,17% de parentes e amigos e Negrelle et al. (2007), que 92% de parentes e amigos. Já Brasileiro et al. (2008) verificaram que 67% aprenderam com familiares.

Todos os entrevistados afirmaram que nasceram e sempre moraram na região e apenas um não formou família. Entre os trinta entrevistados, vinte são do sexo masculino, todos estão na faixa etária de 45 a 86 anos e moram com filhos, netos ou amigos. Das três mulheres do perímetro urbano, uma disse que não conhecia uma planta de ipeca, somente de ouvir os avós é que tem o conhecimento sobre a planta. As mulheres entrevistadas moram com filhos e disseram que casaram apenas uma vez. O pertencimento ao lugar é importante, pois, conforme Amorozo (1996), a passagem de conhecimento é feita a partir de contato intenso entre gerações, principalmente em grupos domésticos e de parentesco.

Porém, com a vida atual, esse contato entre pais e filhos, tios e sobrinhos, e avós e netos é cada vez mais raro. Amorozo (2002), ao pesquisar três comunidades rurais de Santo Antônio do Leverger, afirma que a "modernização" traz consigo novas opções de cuidados com a saúde e certa desvalorização da cultura local, sendo, os jovens o grupo mais sensível, reforçando a tendência à perda ou abandono das práticas tradicionais.

Em relação a informação sobre o plantio da P. ipecacuanha na região, 10 pessoas no perímetro urbano e cinco no perímetro rural informaram ter conhecimento por ouvir falar sobre plantio realizado no município, sendo que os entrevistados do perímetro urbano não conheceram o local e os do perímetro rural não sabem se realmente aconteceu o plantio. Todos os entrevistados disseram que, da planta, era vendida apenas a raiz e a mesma tinha que estar seca e, se o dia estivesse bom de poaia, tirava-se até 5,0 kg de raiz.

Alguns entrevistados demonstravam emoção ao falarem da P. ipecacuanha, pareciam voltar ao tempo, com olhar distante, contavam com alegria sobre o período da colheita, mas, em seguida, logo o semblante da tristeza de não ter acumulado riqueza, pois o trabalho com a P. ipecacuanha era temporário e, com o tempo, perderam as terras. Na verdade, foram expulsos devido ao que eles disseram "progresso de exclusão", pois não tinham o título de posse da terra e eram obrigados a sair do local onde cresceram e aprenderam a lidar com a P. ipecacuanha.

Sobre a atividade de extração na mata, foi verificado que alguns termos, como "Feitoria", "Fogão", "Capão de Fogão", são dos poaieiros e, estão sendo perdidos pelo desuso, pois nem todos os entrevistados usavam esses termos ou, então, os conhecia.

A feitoria era o barraco preparado para o pernoite dos poaieiros, na verdade, um local para reunião, pois o poaieiro dormia em rede.

"... A noite, na feitoria, era só para jantar, contar uns casos do dia de trabalho, alguns felizes por encontrar um fogão, outros falavam da saudade de casa, da família e, quando a gente tava muito cansado, nóis cantava um cururu por algumas horas para esquecer a tristeza e, depois, íamos dormir porque, no outro dia, era a labuta de novo..." (A.C.S, 81 anos) .

Todos os entrevistados comentaram sobre a existência do fogão de P. ipecacuanha. Fogão era a reboleira embaixo de árvores com mais de vinte pés de poaia. Alguns que poaiaram disseram que, ao encontrar um fogão, era possível tirarem até 7,0 kg de raiz por dia. Sobre a quantidade de plantas para fornecer um quilograma de raiz, os entrevistados não confirmaram um número exato, porém, disseram que a raiz tem quebra de 50% no peso ao ser seca; usaram a expressão "meio por meio".

"... A felicidade na mata era na hora que encontrava um fogão de poaia, dava trabalho para tirar toda a raiz do fogão, mas era prazeroso, pois não seria necessário andar longe, poderia ficar horas e horas somente nesse fogão que o dia tava feito. Tinha fogão que dava para tirar até 3,0 kg de raiz. Era um tempo bom..." (C.R.O, 78 anos).

Apenas em 1945, o Ministério da Agricultura e o Serviço de Informação Agrícola publicaram o trabalho do Químico Agrícola Arnaldo Augusto Addor, do Instituto de Química Agrícola do Serviço Nacional de Pesquisa Agronômica, intitulado "Considerações acerca da P. ipecacuanha", mas poucas pessoas da cidade, onde foi efetuada a pesquisa, tiveram na época e, atualmente também, conhecimento acerca dessa publicação.

"... Ele foi meu colega de faculdade, na cidade do Rio de Janeiro, quando fiz a graduação em Ciências Sociais e Jurídicas, tínhamos um bom relacionamento na época e durou por muito tempo...". (Fala de H.M, 74 anos, que conheceu o autor de Considerações acerca da P. ipecacuanha).

Em 1970, no relatório "Consideração sobre Ipecacunha" da Estação Experimental de Cáceres, foram registradas propostas de possíveis financiamentos para o cultivo racional de ipecacuanha. No entanto, não se sabe definitivamente o motivo pelo qual a estação experimental parou as pesquisas com a ipeca. Atualmente, o local onde foi implantada a estação experimental de ipeca possui moradores sem a noção de que no local já foi desenvolvido experimento de plantio de ipeca, conhecida na época como "ouro negro".

"É uma questão de bom senso para a economia do país e um dever de justiça para os poaieiros, cujas matas são muito mais deles, por direito de prescrição aquisitiva, do que dos empresários do Sul por determinação ministerial. Os poaieiros não pedem favor, só respeito aos seus direitos, não é justo que os homens que descobrem as riquezas sejam dela expulsos no dia em que as autoridades se põem a cobiçar essa terra", assim Thieblot (1980) registrou nas conclusões, o desprezo das autoridades ao poaieiro de Mato Grosso.

As atividades com a poaia eram temporárias e a interação com as atividades diárias da roça, foi bem exemplificada por um dos entrevistados:

"... Quando chegava setembro, tinha que terminar de plantar a roça, pois aproximava o tempo de poaiá, então, nóis plantava, depois ia poaiá, ficava uns dois meses, vinha carpir a roça e voltava de novo a poaiá, até maio do outro ano dava de poaiá, depois ficava difícil. Melhor tempo de poaiá é no tempo de chuva, aí a raiz fica fácil de ser tirada. Na seca, quebra muito, não rendia poaiá na seca...". (G.C.O. 61 anos).

Para alguns entrevistados, a P. ipecacuanha acabou, não existe mais, foi extinta devido ao advento do progresso que, segundo eles, progresso só de plantio de capim, pois derrubaram a mata da poaia para plantar capim, "colocou cerca, impedindo o acesso na mata, tomaram as terras". A lembrança da lida com a poaia foi relatada com saudade:

"...Minha mãe morreu cedo, então fui para a mata de poaia com papai e meus irmãos. Sempre eu ficava com papai, na feitoria, eu sempre fazia a refeição, separava a raiz minha e de papai para secar. Tinha vez que a gente usava uma peneira para secar a raiz, era assim, colocava a peneira pendurada numa altura assim, ateava fogo abaixo da peneira, não muito perto da raiz, pois a raiz é igual porva, pega fogo rapidinho, então nós secava a raiz à noite mesmo...". (A.J.S, 68 anos).

A Figura 2A corresponde a uma área em que se extraia poaia até 2004, visitada em 2007 pelos autores do presente estudo. Ao fundo ainda se encontra a mata remanescente, na área ocupada por capim não se resta mais nenhuma planta de poaia. Dentro da mata adjacente, protegidas pela serrapilheira, foram encontradas plantas de poaia (Figura 2B) e coletadas raízes (Figura 2C).

 



 

A alteração antrópica ocasionada por mudanças nos padrões de uso local dos ambientes naturais, onde crescem muitas das espécies medicinais, em médio prazo, acarretará uma diminuição na disponibilidade e no uso de plantas nativas e espontâneas para estes fins (Amorozo, 2002). Este é o cenário constatado para a poaia em Mato Grosso.

Sobre comercialização, os entrevistados responderam que sabiam que muita P. ipecacuanha foi vendida, mas para onde não tinham certeza. Disseram que para o exterior, para Corumbá e de lá para a Europa.

O transporte da P. ipecacuanha na mata era feito no bornal (sacola de lona) até a feitoria. Depois de seca, era colocada no saco bem socada, alguns com quatro arrobas, outros maiores. Geralmente, o transporte em grande quantidade era feito em embarcações, designadas de montaria, batelão e prancha.

" ...A prancha é uma canoa pequena que carregava no máximo dois homens, era feita de ximbuva, o batelão era feito de mogno, carregava até 30 pessoas, tanto montaria como batelão eram feitos de um tronco só, já vi um batelão que carregava até três mil quilos de carga..." (A.J.S, 68 anos).

Mesmo conhecendo as indicações, muitos dos entrevistados afirmaram não saber como preparar um xarope, chá, ou de que forma era feito o preparo para uso medicinal da  poaia. Sabem que ela é remédio, mas também é veneno se usar além da dosagem.

"... Minha avó fez o xarope, mas eu não aprendi como faz, eu tomei quando era criança, lembro de que era para bronquite..."(C.J.S. 44 anos).

O conhecimento está associado ao uso do recurso. Shanley & Rosa (2005), estudando o conhecimento tradicional na comunidade de Capim na Amazônia, afirmam que, apesar de muitos habitantes conhecerem a utilidade de muitas espécies, o uso ativo de certas espécies tem declinado. Tal declínio foi demonstrado através de afirmações frequentes, tais como, "minha avó usava, nós não a usamos mais". Em Cáceres, verificou-se pouco interesse em transmitir os conhecimentos sobre a poaia como evidencia a Tabela 3.

A poaia continua sendo uma espécie importante para os habitantes de Cáceres, pois ainda é fonte de renda na região. Mas, a perda da memória sobre a poaia no município de Cáceres ocorre com rapidez e, os filhos e netos dos informantes não têm mais a memória sobre a poaia. A erosão do conhecimento tradicional é preocupação recente já que está muito associada ao abandono do uso dos recursos e mudanças no modo de vida das populações (Reyes-Garcia et al., 2005).

A pesquisa etnobotânica é muito importante, pois nas diferentes comunidades tradicionais o conhecimento associado aos recursos naturais vem sendo perdido, como constataram Zuchiwschi et al. (2010) junto a agricultores familiares do município de Anchieta - Santa Catarina, onde existe um processo gradual de perda das condições de transmissão do conhecimento tradicional local com risco de erosão do conhecimento acumulado.

 

CONCLUSÃO

A memória cultural sobre a poaia está associada à vivência, extração e comercialização da planta e, por ouvir as conversas dos pais com amigos. A perda de conhecimento associado a poaia é causada pelo êxodo rural, destruição do habitat com o desmatamento e ocupação agrícola. A extinção da espécie na região contribui para a erosão cultural.

 

AGRADECIMENTO

Aos poaieiros de Cáceres pela acolhida e inestimável colaboração neste trabalho.

 

REFERÊNCIA

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Recebido para publicação em 12/12/2010
Aceito para publicação em 20/09/2011

 

 

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