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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498

Ágora (Rio J.) vol.4 no.2 Rio de Janeiro July/Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982001000200003 

ARTIGOS

 

A noção de objeto na psicanálise freudiana*

 

 

Nelson Ernesto Coelho Jr.

Psicanalista, professor do Instituto de Psicologia da USP. Alameda Lorena, 1359 ap. 82, 01424-001 São Paulo SP. Tel.(11)288-8202; patnelco@uol.com.br

 

 


RESUMO

Este artigo tem por objetivo situar e discutir as definições e o estatuto da noção de objeto na teoria psicanalítica de Freud. Será caracterizada a principal concepção freudiana que postula as pulsões como aspecto originário da constituição da subjetividade e os objetos como aspectos secundários. Mas será evidenciada também outra posição possível de ser derivada de Freud, que considera os objetos como determinantes originários na constituição da subjetividade. Será enfatizado que uma das riquezas epistemológicas da psicanálise está na dupla posição com relação ao estatuto do objeto.

Palavras-chave: psicanálise freudiana, objeto, pulsão e sujeito.


ABSTRACT

The concept of the object in the Freudian psychoanalysis. The aim of this paper is to discuss and situate the definition of the concept of the object in the Freudian psychoanalysis. The main Freudian conception that conceives the drive as the original aspect of subjectivity, and the object as a secondary one, will be characterized. But another position derived from Freud will be evinced: the one that considers the object as the original aspect in subjectivity. Thus, it will be emphasized that psychoanalysis epistemological richness derives from this double position regarding the object.

Keywords: Freudian psychoanalysis, object, drive and subject.


 

 

INTRODUÇÃO

Este texto tem por objetivo situar e discutir as definições e o estatuto da noção de objeto na teoria psicanalítica de Freud. Além deste objetivo, busca formular indicações para se conceber a articulação sujeito/objeto a partir da obra freudiana. Postulo que a compreensão da concepção de objeto na teoria freudiana é elemento decisivo na definição da concepção de sujeito, como aliás já foi sugerido, entre outros, por Merea (1994). Embora Freud não tenha explicitado uma concepção de sujeito em sua teoria, parece ser possível sugerir que as diferentes acepções que o termo objeto adquire no decorrer de sua obra são determinantes para uma possível definição do que viria a ser o sujeito na teoria psicanalítica freudiana. Entendo que a discussão desse tema é de fundamental importância no momento em que emerge com força renovada a proposição de uma teoria e uma prática psicanalítica intersubjetiva, em oposição à tradicional perspectiva intrapsíquica.1 Afinal, o objeto para Freud deve ser entendido sempre como um objeto psíquico ou é também um objeto real, externo? Quando os defensores de uma psicanálise intersubjetiva referem-se a objetos e a sujeitos, essas referências devem ser entendidas em termos de "entidades concretas", ou em termos de representações psíquicas, ou ainda, nos dois níveis simultaneamente?

Procurarei, de início, caracterizar a concepção metapsicológica que postula as pulsões como aspecto originário da constituição da subjetividade e os objetos apenas como aspecto secundário. Trata-se da posição sobre a noção de objeto que pode ser considerada predominante na obra de Freud. Por este viés, a noção de objeto aparece basicamente de dois modos: ligada à noção de pulsão — neste caso os objetos são correlatos das pulsões, são os objetos das pulsões; e ligada à atração e ao amor/ódio, quando então são os objetos correlatos do amor e do ódio.

Mas procurarei mostrar também que é possível derivar de Freud (como sugere BERCHERIE, 1988) uma outra posição metapsicológica que influenciou boa parte dos teóricos da psicanálise pós-freudiana, como Lacan e Winnicott: aquela que considera os objetos como determinantes originários na constituição da subjetividade. Aqui encontramos a evolução do pensamento freudiano a partir do texto Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci (FREUD, 1910), com destaque ainda para Introdução ao narcisismo (FREUD, 1914) e, principalmente, Luto e melancolia (FREUD,1917/1972) em que a concepção de "objetos de identificação" torna-se fundamental na constituição do sujeito, em particular através da noção de identificação primária.

 

OS DIVERSOS USOS DA NOÇÃO DE OBJETO EM FREUD

O complexo uso que faz Freud da noção de objeto em suas formulações teóricas exige que tratemos com máxima cautela a proposta de uma apresentação sistemática e "enciclopédica" dos termos e definições estabelecidos no decorrer de uma obra muito vasta, escrita em um período de mais de quarenta anos. André Green, em texto recente, chegou a afirmar que o objeto para Freud é "polissêmico, existe sempre mais que um objeto e, como um todo, eles cobrem vários campos e realizam funções que não podem ser abarcadas por um só conceito"(GREEN, 2000, p. 9). Assim como acontece com outras noções centrais do ponto de vista epistemológico,2 também com relação à noção de objeto Freud não chegou a estabelecer uma definição única e final em termos conceituais. Utilizando-se dos recursos próprios da língua alemã para a formação de palavras, Freud apresenta em suas obras uma série de noções que anunciam a riqueza e a variedade do uso do objeto na construção de sua teoria. Assim, encontramos, numa lista não exaustiva, noções como Objektwahl (escolha de objeto), Determinierung des Objectwahl (determinação da escolha de objeto), Identifizierung als Vorstufe der Objektwahl (identificação como grau elementar da escolha de objeto), infantile Objektwahl (escolha de objeto infantil), inzestuöse Objektwahl (escolha de objeto incestuosa), homossexuele Objektwahl (escolha de objeto homossexual), Anlehnungstypus der Objektwahl (escolha anaclítica de objeto), narzissistische Objektwahl (escolha narcísica de objeto), Objektfindung (encontro do objeto), Objektbesetzung (investimento de objeto), Objekt-Libido (objeto de libido), Objekttriebe (objeto de pulsões), Objektliebe (objeto de amor), Objektwechsel (troca de objeto), Objektwerbung (recrutamento do objeto), Objektverzicht (renúncia do objeto), Objektverlust (perda do objeto), Objektvermeidung (ato de evitar o objeto) e Mutterbrust als erstes Objekt (seio materno como primeiro objeto).

A partir desses conceitos podemos reconhecer muitos dos temas centrais da teoria psicanalítica de Freud e a forma como a noção de objeto participa da construção do conjunto teórico. Como um primeiro ponto seria preciso destacar a relação entre a sexualidade, ou melhor, as moções da pulsão sexual, suas "ações", e os objetos. Em geral, Freud se refere a objetos que são na realidade representações psíquicas. Assim, o movimento a que se refere a moção pulsional deve ser considerado um movimento interno ao psiquismo. A seguir, seria necessário destacar a expressão "escolha de objeto", que se refere, em geral, à escolha de objetos de amor. Como bem expressam Laplanche & Pontalis (1967) o termo "escolha" não deve ser considerado em seu sentido racional, de uma opção consciente, mas sim como o que há de irreversível, na eleição feita pelo indivíduo, do seu tipo de objeto de amor. A escolha pode se referir a uma pessoa específica que é eleita como objeto de amor, ou a tipos de escolha, como quando Freud se refere, por exemplo, à "escolha de objeto incestuosa", ou "escolha de objeto homossexual". Há ainda a referência ao próprio sujeito, ou mais precisamente, ao ego como instância psíquica, que pode ser tomado como objeto, como no caso dos investimentos narcísicos. Mas, para Freud (1914/1972), escolhas narcísicas de objeto, embora exercidas a partir do modelo estabelecido da relação do sujeito consigo mesmo, caracterizam-se também por escolhas de outros objetos que representem de alguma forma o próprio sujeito ou algum de seus aspectos. Freud partiu de sua observação da experiência psíquica de indivíduos homossexuais que escolheriam seu objeto de amor tomando a si mesmos como modelo. Em oposição a este tipo de escolha, Freud propôs o que ele denominou "escolhas anaclíticas de objeto". Nesses casos, o objeto de amor é escolhido a partir do modelo das primeiras relações objetais, em geral as relações com os pais.

Em sua primeira teoria das pulsões, Freud propõe que as pulsões sexuais se apoiam originalmente sobre as pulsões de autoconservação. Assim, as escolhas anaclíticas de objeto estariam se estabelecendo a partir do modelo de relação presente nos primeiros momentos de vida, em que a satisfação sexual se apoiaria sobre objetos responsáveis pela conservação da vida, ou seja, principalmente sobre o seio materno. Daí outro uso do objeto na formulação teórica de Freud, aquele que estabelece que o seio materno é o primeiro objeto sexual: "Em um tempo em que o início da satisfação sexual ainda está vinculado ao recebimento de alimentos, a pulsão sexual encontra o objeto sexual fora do corpo da criança, na forma do seio materno"(FREUD, 1905/1972, p.125). De fato, para Freud, o primeiro objeto será o modelo para as futuras relações objetais: "Existem, portanto, boas razões para que o ato de uma criança sugar o seio da mãe se torne o protótipo para toda relação de amor. Encontrar um objeto (die Objektfindung) é na realidade reencontrá-lo" (FREUD, 1905/1972, p.125-126). Essa é uma frase muito citada e talvez a mais reconhecida entre as passagens da obra freudiana em que há uma referência à noção de objeto.

Embora Freud fizesse inicialmente uma clara diferenciação entre a sexualidade infantil e a sexualidade posterior ao período da puberdade, já fica claro nessa passagem uma das principais características da teoria psicanalítica, ou seja, que processos psíquicos infantis, tanto em sua dimensão de ação como de afeto e representação, tendem a ser o modelo para as relações adultas. Outro aspecto a ser ressaltado a partir dessa citação de Freud é a complexidade da experiência temporal, nos termos em que é compreendida pela psicanálise. Se inegavelmente há uma linha regressiva, em que o passado explica o presente (as escolhas objetais passadas explicam as escolhas atuais ou posteriores), há também o caminho inverso, em que só as experiências posteriores podem fazer com que as passadas ganhem sentido, ganhem significado. Essa última forma de compreender a temporalidade, como se sabe, foi denominada por Freud de Nachträglichkeit (posterioridade).

No texto de 1914, "Introdução ao narcisismo", Freud retomará o tema das escolhas objetais, propondo um resumo, que por sua importância, reproduzirei na íntegra:

"Ama-se:

(1) A partir do tipo narcísico:

a) o que se é (a própria pessoa),

b) o que se foi,

c) o que se gostaria de ser,

d) alguém que foi parte da própria pessoa.

(2) A partir do tipo anaclítico:

a) a mulher que alimenta,

b) o homem que protege, e a sucessão de pessoas substitutivas que venham a ocupar o seu lugar." (FREUD, 1914/1972, p. 56-57)

Através dessa seqüência, é possível apreender os caminhos que Freud antevia para cada sujeito em suas escolhas de objeto amorosas. Mais uma vez fica claro o quanto as experiências amorosas infantis determinam as experiências posteriores. E, como aponta Merea,

"fica evidente que na escolha de objeto escolhe-se sempre com base no modelo que é ao mesmo tempo constitutivo do sujeito (e portanto também narcisista) e externo (e portanto anaclítico...). Desta perspectiva, não se torna tão cortante a distinção entre os dois modos de escolha de objeto, exceto em suas possibilidades de combinação, de extraordinária riqueza. (MAREA, 1994, p. 8-9)

Mas fica claro também que tanto os movimentos que buscam no objeto externo a realização de um desejo, como aqueles que buscam no próprio sujeito essa realização, partem de marcas estabelecidas no psiquismo e de seus registros afetivos e representacionais. Ou seja, os estímulos, ou se quisermos, os "convites" que partem do mundo externo serão sempre secundários nessa concepção. Não há aqui nenhum poder de constituição do sujeito atribuído aos objetos enquanto fonte primária. A fonte primária das ações e escolhas será sempre algo "interno" ao próprio sujeito, ou melhor, o próprio movimento pulsional. Mas, ao menos potencialmente, no movimento da escolha de objeto, o sujeito entra em contato com a diferença, e assim percebe, ainda que parcialmente, a existência de um outro, de um não-ego.

É só a partir do momento em que Freud passa a valorizar os objetos de identificação, que esse modelo poderá ser modificado. Já no texto de 1910, Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci (FREUD, 1910), pode ser verificado o movimento de Freud em direção ao reconhecimento dos processos de identificação para a constituição da subjetividade. Ao procurar compreender a homossexualidade a partir das concepções psicanalíticas, sugere que o menino tende a recalcar seu amor pela mãe e, ao assim proceder, coloca-se em seu lugar, identifica-se com ela e acaba por tomar-se a si mesmo por modelo para seus novos objetos de amor. Encontramos assim, já nesse texto, importantes formulações sobre a identificação e o narcisismo. Mas é no texto de 1917, Luto e melancolia, que a noção de identificação tomará corpo. O que se apresenta nesse texto é que em função da perda de um objeto que pode ser real ou mesmo fantasiada, o sujeito passa a viver uma identificação do objeto perdido com seu próprio ego.

Embora Freud trabalhe ainda predominantemente com a concepção do objeto como sendo endopsíquico, nesse momento de sua obra começa a se esboçar a idéia da introjeção do objeto, através da identificação (principalmente da identificação primária), como elemento central na constituição da subjetividade. Freud passa pouco a pouco a considerar o ego como um precipitado de identificações, em que o modelo fundamental é a figura paterna. As identificações, como se sabe, ocorrem desde o início da vida, e vão preparando o caminho para o Complexo de Édipo, pedra angular da constituição da subjetividade para Freud.

A identificação do menino com o pai pode servir aqui como exemplo: há, no início, ao mesmo tempo o desejo sexual pela mãe e a identificação com o pai. Na medida em que ocorre a necessidade de uma unificação da experiência psíquica, estes dois aspectos tendem a se fundir, dando origem ao Complexo de Édipo. É nesse momento que o pai passa a ser claramente um rival e a identificação pode adquirir um caráter hostil, que inclui movimentos de incorporação (querer ser como o pai) e substituição (querer ocupar o lugar do pai).Vale lembrar que o objeto incorporado (como também ocorre na relação objetal inaugural do bebê com o seio da mãe) não é da ordem do observável, já que é o objeto do desejo sexual, para o qual não há um correlato externo observável. Embora exista a referência a um objeto externo (seio da mãe, o pai, etc.) não há nenhuma garantia de que o objeto visado pelo desejo sexual e incorporado psiquicamente, seja o objeto externo real. Incorpora-se, em última instância, uma relação que passa a produzir efeitos na cadeia de fantasias inconscientes. Freud postula, nesses termos, a constituição da subjetividade como um processo de sucessivas identificações. Os objetos vão sendo substituídos e o sucesso ou o fracasso nas substituições será determinante na formação de sintomas ou do equilíbrio e das possibilidades criativas de cada sujeito.

Se retomarmos o caso específico da melancolia, estudado por Freud no texto de 1917, poderemos verificar que a principal dificuldade está justamente na impossibilidade de substituição do objeto de amor. Mesmo que o teste de realidade comprove para a instância egóica a ausência do objeto na realidade exterior, no plano das fantasias e dos devaneios o objeto perdido mantém-se presente. Ou como sugere Pollock:

"... fantasias e devaneios com relação ao finado objeto podem interferir no trabalho de luto e, em instâncias em que o objeto morto não pode ser apreciado realisticamente, o objeto continua a existir como um objeto introjetado inassimilável, com o qual conversações internas podem ser mantidas." (POLLOCK, 1994, p.155)

A tensão caracterizada pela ausência do objeto externo, acompanhado da presença psíquica do objeto é fonte de grande sofrimento. O exemplo da melancolia é elucidativo de uma das formas com que o objeto aparece na teorização freudiana. A simultaneidade entre presença e ausência, a impossibilidade de uma parcela do psiquismo em reconhecer a perda do objeto, insistindo em sua presença psíquica, evidencia a complexidade da noção de objeto em uma teoria que procura justamente ultrapassar os limites da objetividade.

Ao lado disso, entendo ser importante sublinhar a ambigüidade presente na concepção freudiana do objeto a partir da formulação das identificações como elemento constituinte dos processos de subjetivação. Pode-se reconhecer o esforço de Freud em não estabelecer uma presença apenas empírica dos objetos. Por outro lado, seria errôneo supor que Freud negue a realidade dos objetos externos ou mesmo sua importância na constituição da subjetividade. Não há, em Freud, a pretensão de que a representação psíquica do seio materno, por exemplo, possa ter se formado sem que existisse um seio materno "empírico". O objeto seria simultaneamente empírico e psíquico. É deste modo que a teorização freudiana acaba por constituir sua especificidade quanto à noção de objeto. Florence chega a afirmar que "a psicologia se refere a objetos da objetividade. A psicanálise situa-se no nível da objetalidade"(FLORENCE, 1994, p.162). A objetalidade refere-se a uma experiência da identificação que não se confundiria com a descrição psicológica da imitação. Não há, de fato, nessa concepção, a possibilidade de um objeto empírico "estável", que venha a ser imitado. Nas identificações, a ênfase recairia muito mais sobre a relação entre um sujeito e os objetos, do que nos termos em si, de forma isolada. Assim, o sujeito criaria seu objeto, da mesma forma que o objeto criaria o sujeito através de sucessivas relações.

Encontraríamos aqui o que o filósofo francês Merleau-Ponty (1945, 1964) denomina de processos de mútua constituição nas relações entre sujeito e objeto. Não há anterioridade entre sujeito e objeto e também não há mais termos fixos, já constituídos. O que há é um processo permanente de mútua constituição. Essas são as exigências reflexivas que as propostas freudianas sobre a identificação acabam por nos colocar. Nenhuma destas idéias está explicitada na obra freudiana, mas são idéias a que se chega a partir das exigências colocadas pelos textos de Freud. Voltarei a isso na conclusão deste artigo.

 

POSSÍVEIS ORDENAÇÕES PARA A NOÇÃO DE OBJETO NA PSICANÁLISE FREUDIANA

É possível estabelecer diferentes ordenações da noção de objeto na obra freudiana a partir do que já foi exposto. Nenhuma delas é definitiva, mas escolhas precisam ser feitas se quisermos avançar na compreensão de um pensamento tanto no que diz respeito a seus acertos quanto a seus erros. É inevitável, nas tentativas didáticas de ordenação de um conceito em uma obra tão complexa como a de Freud, algum grau de esquematismo e simplificação. Pretendo correr esse risco em favor da clareza da exposição e, acreditando que o leitor poderá avançar, a partir da ordenação proposta, para além dela em direção a uma re-complexificação mais sistemática do conceito de objeto e da relação sujeito/objeto na obra freudiana. Assim, uma ordenação possível seria a seguinte:

O objeto é objeto da pulsão

Considerando a teoria pulsional, Freud afirma que constitui-se como objeto da pulsão todo objeto no qual ou através do qual a pulsão consegue atingir seu alvo. O objeto não é fixo, nem previamente determinado, é o que há de mais contingente no conjunto de elementos e processos presentes nos atos pulsionais. O objeto é variável e indeterminado, mas é o que permite satisfação às pulsões. Os objetos pulsionais tendem a ser objetos parciais, como por exemplo partes do corpo. Não precisam ser objetos reais presentes, podem ser objetos fantasiados, o importante é que sejam objetos que garantam a satisfação. Nesse sentido, o objeto estará sempre a serviço dos movimentos das pulsões sexuais, tal como Freud as define em sua primeira teoria das pulsões.

O objeto é objeto de atração e de amor

Os objetos de atração e objetos de amor são em geral indivíduos que se articulam não apenas a relações pulsionais mas sobretudo a relações do ego total com os objetos. É através dos objetos de amor que Freud (1910/1972) elabora as passagens de fantasias infantis inconscientes para as experiências na assim chamada "vida real". Parte-se, na infância, de objetos visados pelas pulsões parciais para se atingir, posteriormente, objetos totais, visados pelo ego adulto. É possível apreender, a partir dessa noção de objeto, uma certa concepção de desenvolvimento psicossexual sugerida por Freud, na passagem de objetos da pulsão — parciais e pré-genitais, para objetos totais — objetos de amor e genitais. No entanto, as próprias investigações posteriores de Freud (1917/1972), e principalmente os trabalhos de Abraham (1924/1980) e Klein (1932), tornarão essas relações muito mais complexas, envolvendo a experiência do fetichismo e os processos de incorporação, introjeção e projeção, fazendo com que a relação com objetos parciais assuma um papel central.

 

OBJETO E NARCISISMO. O EGO TORNA-SE OBJETO DA PULSÃO

A introdução do ego como objeto da pulsão abre espaço para uma grande transformação na obra freudiana, que culminará com uma nova teoria das pulsões. A complexidade das relações entre as pulsões e seus objetos recoloca a questão sobre as formas de vinculação entre os objetos das pulsões sexuais e os objetos de necessidade, vinculados às pulsões de autoconservação. A própria noção de prazer e objetos de prazer precisará ser questionada, ao lado da noção de identificação. E ainda mais, o ego, nos processos narcísicos é definido como um objeto de amor. Será o ego um objeto de amor como qualquer outro?

Objeto e identificação

Principalmente a partir de Luto e melancolia, Freud passa a dar mais ênfase à importância dos objetos de identificação na constituição do sujeito. Na experiência melancólica há a introjeção de uma relação ambivalente entre o ego e o objeto, objeto que nesse caso é inconsciente. A identificação parcial entre o ego e o objeto "perdido" resulta em um processo de grande destrutividade para o ego, na medida em que o ego não consegue igualar o objeto introjetado e assim partir em busca de novos objetos. Freud estabelece também, com clareza, que o objeto pode ter sua existência no psiquismo mesmo depois de não estar mais presente como objeto da percepção. As múltiplas dimensões psíquicas e empíricas que se desdobram a partir da concepção freudiana das identificações têm papel preponderante nas formulações da noção de objeto de autores pós-freudianos. Pode-se dizer que o objeto jamais será o mesmo para a psicanálise a partir da ênfase nas identificações como elemento central na constituição da subjetividade.

Percepção e objeto. O objeto da percepção é objeto real?

A formulação sobre o vínculo entre percepção e objeto, presente sobretudo nos textos iniciais de Freud, apresenta o objeto como sendo por um lado um objeto externo e real, oferecendo ao sujeito — ou à consciência — o critério de realidade, e de outro lado como sendo um objeto psíquico e então trata-se fundamentalmente de representações (Vorstellungen). Nesse plano, Freud não se distingue de boa parte da tradição psicológica, em que objeto é objeto empírico e a representação seria uma representação do objeto real externo. A percepção seria uma função da consciência, ou do ego, que por sua vez deveria ser definido como sede das funções psicológicas (atenção, cognição, etc.). Mas Freud (1915/1972 e 1923/1972) introduz uma novidade, em termos de teorias clássicas da percepção, ao deixar aberta a possibilidade de percepções inconscientes. E nesta medida permite que se postule o reconhecimento de que nenhuma percepção garante um acesso objetivo à realidade,3 não cabendo, assim, reconhecimentos definitivos sobre a objetividade das percepções.

 

CONCLUSÃO: SUJEITO E OBJETO SÃO SUPLEMENTARES

Apesar destas diferentes acepções, podemos considerar que na teoria freudiana, de uma forma geral, o objeto está sempre ligado ao processo da história de vida do sujeito, ou seja, se o objeto é determinado por algo, não o é simplesmente por elementos constitucionais de cada sujeito, mas sim pela história de vida (fundamentalmente a história de vida infantil). Neste sentido, mesmo a assim chamada "escolha de objeto" presente na adolescência e na vida adulta, se não ocorre por acaso, também não pode ser concebida como completamente determinada, seja constitucionalmente, seja por uma decisão soberana da consciência ou do ego.

Freud denominou série complementar a complementaridade de fatores exógenos e endógenos na etiologia das neuroses. Esta mesma concepção nos parece adequada para pensar, em um primeiro nível, o estatuto do objeto na teoria freudiana. Freud se refere a objeto tanto no sentido de um objeto dito "externo" quanto a um objeto dito "interno". O objeto é simultaneamente interno e externo. Trata-se de entender as formulações freudianas para além das tentativas de reduzi-las quer ao empirismo quer ao idealismo. Assim, seria preciso reconhecer que Freud supõe um sujeito (pulsional) constituindo objetos e também objetos (de identificação) constituindo o sujeito.

A partir da trajetória realizada, é possível propor uma concepção freudiana do sujeito, apesar dos riscos envolvidos. Entendo que o sujeito precisaria ser pensado como resultado, simultaneamente, da complexa intensidade dos movimentos pulsionais e das sucessivas identificações (possíveis também graças a uma presença "ativa" de objetos como a mãe, o pai, etc.) ocorridos em seu processo constitutivo. A idéia de simultaneidade é aqui fundamental. Não penso que haja anterioridade das pulsões com relação aos objetos de identificação, como tampouco me parece possível dizer que os objetos antecedam os movimentos pulsionais. Seria necessário reconhecer em Freud uma lógica não identitária, uma lógica da suplementaridade para dar a essa concepção sua formulação mais rigorosa.

Os pólos da dualidade (pulsão-identificação, interno-externo, psíquico-empírico ou mesmo sujeito-objeto) não precisam ser pensados como cada um sendo idêntico a si mesmo. Tampouco bastaria pensar os pólos como complementares, o que ainda manteria certa unidade permanente e definitiva na concepção de cada um dos elementos complementares, ou então a diluição de cada pólo em um novo "produto" resultante da complementaridade. Entendo que cada um dos pólos traz em si a exigência de suplementação. Ou como sugere Figueiredo, a partir do filósofo francês Derrida (1973): "...cada pólo é sempre um apelo de suplemento endereçado ao outro, (...) cada pólo procura no outro a suplência de suas fraquezas ou o controle suplementar de seus excessos" (FIGUEIREDO, 1999, p. 28).

Ao propor a lógica da suplementaridade como alternativa à lógica identitária e à lógica dialética, Figueiredo procura enfatizar uma leitura que valoriza as tensões internas e as dificuldades próprias da construção da teoria em Freud, recusando leituras enrijecidas dos conceitos ou a imposição de buscas apressadas de sínteses evolutivas entre polaridades. Mais do que isso, chega a propor que "na perspectiva que acredito ser a de Freud, a subjetividade (o aparelho psíquico) é constituído na e pela lógica da suplementaridade" (FIGUEIREDO, 1999, p. 29). Outra vez encontramos, neste ponto, as concepções de Merleau-Ponty e sua noção de uma dialética sem síntese, que ao invés de reunir polaridades impõe a permanente exigência de um pólo a outro, que estarão sempre em constante dinâmica. Mas isso não implica no estabelecimento de relações aleatórias entre os pólos, ou na relativização de qualquer conhecimento sobre os processos de constituição da dinâmica:

O que se deve aqui apontar é que a dialética sem síntese de que falamos não é o ceticismo, o relativismo vulgar ou o reino do inefável. (...) Em outros termos, o que excluímos da dialética é a idéia do negativo puro, o que procuramos é uma definição dialética do ser, que não pode ser nem o ser para si nem o ser em si — definições rápidas, frágeis e lábeis..." (MERLEAU-PONTY, 1964, p.129-130)

Seja através da idéia de suplementaridade ou de uma dialética sem síntese, o que pretendo expor é a necessária suplementação dinâmica entre as concepções de sujeito e objeto na obra freudiana. Parti da tentativa de formular as diferentes concepções de objeto e seus usos nos textos de Freud. Caminhei para a proposição de possíveis ordenações da noção de objeto em Freud, para chegar a uma especulação sobre a construção de uma relação sujeito-objeto na obra freudiana. Várias tentativas de fornecer uma epistemologia confiável ao trabalho de Freud foram rejeitadas por diversos comentadores, e com razão.4 O que procurei apresentar neste texto, mais de que uma proposição epistemológica, foi a proposta de uma leitura de certas noções que acompanham o percurso realizado por Freud em sua obra, sugerindo algumas balizas que talvez permitam novos questionamentos e novas "traduções" dos textos freudianos, que parecem (felizmente) se mostrar irredutíveis a qualquer tentativa de uma tradução final e definitiva.

 

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STOLOROW, R. D. & ATWOOD, G. E. , Contexts of beeing: The intersujective foundations of psychological life, Hillsdale, New Jersey, The Analytic Press, 1992.         [ Links ]

 

 

Recebido em 7/7/2001. Aprovado em 29/9/2001.

 

 

* As idéias contidas neste artigo foram apresentadas na forma de comunicação livre no XXVIII Congresso Interamericano de Psicologia, realizado em Santiago, Chile, jul/ago de 2001, com o Auxílio Reunião-Exterior da Fapesp.
1 Confira-se, especialmente, STOLOROW, R.D. e ATWOOD,, G. E. (1992) Contexts of Beeing: The intersujective foundations of psychological life, Hillsdale, New Jersey: The Analytic Press, MITCHELL,, S. A . e ARON,, L. (orgs.) (1999) Relational psychoanalysis: the emergence of a tradition, Hillsdale, New Jersey: The Analytic Press e GREEN, A. (2000) "The Intrapychic and intersubjective in psychoanalysis", The psychoanalytic quarterly, v. LXIX, n. 1 , 2000, p. 1-39.
2 Desenvolvi argumento semelhante em dois trabalhos anteriores dedicados às noções de "realidade" (COELHO JUNIOR, N. E., in A força da realidade na clínica freudiana, São Paulo, Escuta, 1995) e "percepção" (COELHO JUNIOR, N. E., "Inconsciente e percepção na psicanálise freudiana", Psicologia USP, 1999, v. 10, n.1, p. 25-54) na obra freudiana.
3 A esse respeito, confira COELHO JUNIOR, N. E. (1999), op. cit., p.25-54.
4 Cf. MONZANI, L.R. Discurso filosófico e discurso psicanalítico: balanço e perspectivas, in BENTO PRADO JR. (org.) Filosofia da psicanálise, São Paulo, Brasiliense, 1991.