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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498On-line version ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.7 no.1 Rio de Janeiro July/Jan. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982004000100007 

ARTIGOS

 

Representação e pensamento na obra freudiana: preliminares para uma abordagem cognitiva

 

 

Fabio Thá

Psicanalista; doutor em Estudos Lingüísticos pela UFPR; mestre em Letras (Lingüística) pela UFPR; professor da UTP e da Faculdade Dom Bosco (Curitiba). Rua Professor Álvaro Jorge 875; 80320-040 Curitiba PR; Tel (41) 244-6201; fvdt@bsi.com.br

 

 


RESUMO

Apresentam-se algumas considerações preliminares para uma abordagem cognitiva da doutrina psicológica presente na obra de Freud. Analisam-se as teorias freudianas da representação, do pensamento e da linguagem, com a finalidade de mostrar a coerência de seus conceitos com modelos que estão sendo debatidos atualmente nas ciências cognitivas. Correlacionando aspectos relevantes da teoria freudiana e alguns conceitos contemporâneos sobre o assunto, procura-se mostrar como os modelos atuais e o modelo freudiano concebem o pensamento como originário da experiência do sujeito, argumentando-se que não há dois processos de pensamento distintos mas diferentes padrões de conexão entre representações.

Palavras-chave: Psicologia psicanalítica, representação, pensamento, cognição.


ABSTRACT

Representation and thought in Freudian theory: introduction to a cognitive approach. This text presents some preliminary considerations for a cognitive approach to Freud's psychological theory of psychoanalysis. It analyses Freudian theories of representation, thinking, and language, in order to show that they are coherent with the cognitive models that are being discussed nowadays in the cognitive sciences. The text links some relevant aspects of the Freudian theory to contemporary concepts and shows how the models discussed and the Freudian models conceive the experiential origin of thought, arguing that there are not two distinct processes of thinking but different patterns of connections involving representations.

Keywords: Psychoanalytic psychology, representation, thought, cognition.


 

 

Este texto pretende tecer algumas considerações que retomam a doutrina psicológica da representação, do pensamento e da linguagem, tal como ela é apresentada na obra de Freud, com a finalidade: mostrar como o modelo mental freudiano aprofunda e ultrapassa a tradição da qual se originou1 e ressaltar a coerência de seus conceitos com modelos cognitivos que estão sendo amplamente debatidos, hoje, na psicologia e semântica cognitivas, em particular, e nas ciências cognitivas em geral. A primeira parte do texto considera de forma breve alguns aspectos relevantes da teoria freudiana do pensamento e da linguagem. A segunda parte introduz alguns conceitos contemporâneos sobre o assunto, originários de trabalhos em psicologia e semântica cognitivas. Por fim, a terceira parte discute algumas relações entre as duas primeiras.

 

REPRESENTAÇÃO, PENSAMENTO E LINGUAGEM

A psicologia psicanalítica, ou metapsicologia,2 como Freud a chamava, é a construção teórica empreendida para descrever e explicar o funcionamento psíquico implícito nas formações do inconsciente, cuja análise mostrava de modo sistemático o desdobramento da vida mental em dois conjuntos organizados de pensamentos, independentes um do outro, embora referentes à mesma questão. Tendo percebido de imediato que a chave para a compreensão das formações do inconsciente residia em compreender, ou interpretar, seu sentido, a construção da teoria freudiana organiza-se em torno de três questões fundamentais: como um produto psíquico, 1) adquire sentido, 2) que sentido é esse e 3) como, e em que condições, pode ter acesso à consciência. A resposta a essas questões constitui seu modelo do aparelho psíquico, elaborado incessantemente ao longo de toda a obra. De maneira geral, pode-se dizer que ele conjuga uma teoria da representação, uma teoria do pensamento e uma teoria da linguagem.

Em Freud, a tradicional dicotomia entre o lado material, ou do conteúdo ideativo, tradicionalmente identificado como a faceta psicológica e subjetiva do fenômeno mental, e o lado formal, ou do pensar, também por tradição identificado com a faceta lógica e objetiva, vão assumir a forma da dicotomia entre representação (Vorstellung) e pensamento (Gedanke). Os processos perceptivos fornecem o conteúdo representacional dos processos mentais, e a experiência do sujeito, relativa a esse conteúdo, fornece seu processamento, os chamados 'processos de pensamento'.

Freud considera as representações como entidades analógicas e imagéticas. Elas se originam da percepção, seja interna (os traços mnésicos das excitações internas), seja externa (as imagens mnésicas dos objetos), e são concebidas como unidades mentais — fundamentalmente imagens psíquicas de objetos e sensações exteriores ao aparelho psíquico. Como não são entidades isoladas, mas estão relacionadas em redes associativas que espelham sua ocorrência na realidade externa, são capazes de representar também relações e eventos.

Esta concepção está enunciada de modo claro, por exemplo, no capítulo 7 de A interpretação de sonhos (1900/1972) e no capítulo 2 de O ego e o id (1923/1976), mas pode ser observada já no texto sobre as afasias de 1891.3 Ali, Freud introduz a distinção entre representação de objeto (Objektvorstellung) e representação de palavra (Wortvorstellung), que reaparecerá apenas em 1915, no texto metapsicológico sobre o inconsciente, quando a representação de objeto é chamada de representação de coisa (Sachvorstellung). O exame da noção de representação de objeto mostra que Freud a concebe como: "...um complexo de associações, formado por uma grande variedade de apresentações visuais, acústicas, táteis, cenestésicas e outras"(1915/1974a, p.244). Freud apóia-se, aqui, em J.S. Mill, mencionando A system of logic como sua fonte.

É importante salientar, além de suas fontes filosóficas e do fato desta concepção estar inscrita no quadro da psicologia alemã da época, a noção explicitamente invocada de que uma Objektvorstellung é uma espécie de conglomerado de traços mnésicos de sensações. É aberto, isto é, sempre pode ligar-se a novas sensações, e é representado por uma sensação saliente: "Entre as associações de objeto, são as visuais as que representam o objeto..." (p.244).

Além desse conteúdo representacional, as Vorstellung também são dotadas de uma quantidade de energia (Energie) ou investimento (Besetzung ou Catexia).4 Em seu artigo sobre a "Repressão" (1915/1974b), Freud trata essa cota de energia como cota de afeto (Affektbetrag), já que ela encontra expressão em processos sentidos como afetos. Mas, há uma diferença fundamental entre investimento e cota de afeto: "A diferença toda decorre do fato de que idéias são catexias — basicamente de traços de memória — enquanto que os afetos e as emoções correspondem a processos de descarga, cujas manifestações finais são percebidas como sentimentos" (1915/1974b, p.204).

Deve-se observar que a face de investimento de uma representação não se confunde com processos de descarga, ou seja, com afetos, emoções e sentimentos. Investimento, para Freud, designa ativação, capacidade de ligação e relação entre as representações, o que resulta nas idéias. Uma representação investida é uma idéia ativada e ligada, cujas relações com outras idéias são possíveis. Esta concepção, além de sua origem na mecânica representacional de Herbart, é também inspirada na doutrina anatômica do neurônio, que vinha sendo postulada pela neurofisiologia do século XIX.5 Tais partículas materiais, os neurônios, distinguem-se por estarem num estado de atividade ou num estado de repouso devido a uma certa quantidade, sujeita às leis gerais do movimento. Assim, um neurônio pode estar vazio ou cheio de certa quantidade de energia. Esta pode fluir através de um sistema de neurônios, que pode oferecer resistência ou facilitar essa passagem.

Assim, uma coisa são as relações associativas presentes nas representações de objeto, advindas das relações captadas pelos processos perceptivos, que formam os complexos de sensações associados em uma representação. Outra coisa é a ativação ou inibição desses complexos representacionais pela energia fluente no sistema nervoso. A esse processamento de ativação ou inibição das representações Freud chama "processo de pensamento".

Com essas noções em mãos, ele postula, de acordo com a concepção do princípio do prazer e do arco-reflexo, que há um tipo de processamento da energia no aparelho mental no qual ela flui livremente através das representações, desde o pólo do estímulo ao da resposta. São as energias livres que caracterizam um tipo de processo de pensamento que receberá o nome de processo primário. Este processamento é típico dos processos inconscientes.

O outro tipo de processo de pensamento, chamado de processo secundário, se vale de outra forma a energia, a energia quiescente ou ligada. Isso significa que sua descarga fica suspensa até que muitos caminhos associativos tenham sido percorridos, o que espelha no interior do aparelho psíquico as ações que devem ser executadas na realidade para que a descarga atinja seus objetivos de escoamento. Esses processos de pensamento, que nada mais são do que "ação interiorizada", ou "ensaios para a ação", são típicos do sistema pré-consciente. Eles incluem os chamados 'processos racionais de pensamento', uma vez que necessitam levar em conta o mundo externo no equacionamento de seus objetivos.

Dessa forma, o pensamento, para Freud, é a contraparte psíquica da ação, uma vez que ele corresponde a deslocamentos de energia mental que visam a descarga motora da excitação. Essa ação pode ser imediata ou reflexa, no caso de ser dirigida pelo processo primário, ou incorporar a atividade do sujeito em seu meio, quando é regida pelo processo secundário.

Além disso, o pensamento, para Freud, é fundamentalmente não verbal. As representações organizam-se em conjuntos ordenados segundo padrões advindos da experiência perceptual, por um lado, e padrões de ativação e inibição, por outro, podendo ser mapeadas à linguagem. Mas o pensamento pode prosseguir sem ser expresso em forma lingüística. Para Freud, pensamento e linguagem são dois domínios diferentes que podem ou não se entrecruzar.

A representação de palavra é, também ela, um complexo associativo que reúne elementos de origem visual (sua imagem escrita), acústica (sua imagem sonora) e cenestésica (sua imagem motora ou articulatória). Assim como a imagem visual representa o complexo associativo do objeto, a imagem acústica (ou sonora, como a chama Freud), representa o complexo associativo da palavra. E a imagem sonora da palavra liga-se à imagem visual do objeto. É essa ligação que dá o significado das palavras. Em O ego e o id, Freud vai observar que os componentes visuais e motores da imagem da palavra são secundários, e vai reduzir esta última a seu componente acústico: "Em essência, uma palavra é, em última análise, o resíduo mnêmico de uma palavra que foi ouvida" (1923/1976, p.34). Ele atribui, inclusive, ao sistema pré-consciente, uma fonte sensória especial para as percepções auditivas da linguagem.

A ligação da imagem acústica da palavra com a imagem visual da representação resulta em uma correspondência entre uma representação de coisa e uma representação de palavra. Esta correspondência tem um papel primordial no acesso dos processos de pensamento à consciência e na mecânica do recalcamento: "...já sugeri que a diferença real entre uma idéia (pensamento) do Ics. ou do Pcs. consiste nisto: que a primeira é efetuada em algum material que permanece desconhecido, enquanto que a última (a do Pcs.) é, além disso, colocada em vinculação com representações verbais" (1923/1976, p.33).

Da linguagem depende o acesso à consciência dos processos de pensamento, uma vez que a linguagem dispõe de palavras ligadas a coisas, mas também de palavras que exprimem relações:

"... estando ligadas a palavras, as catexias podem ser dotadas de qualidade mesmo quando representem apenas relações entre apresentações de objetos, sendo assim incapazes de extrair qualquer qualidade das percepções. Tais relações, que só se tornam compreensíveis através de palavras, constituem uma das principais partes dos nossos processos de pensamento." (1915/1974a, p.231)

O resultado disso é que pensamento e linguagem são duas ordens distintas e, o que é de fundamental importância, o pensamento, a ordem derivada da percepção e da experiência, é o que dá sentido às expressões lingüísticas.

Mas é possível para o pensamento tornar-se consciente sem palavras:

"Não devemos deixar-nos levar, talvez visando a simplificação, a esquecer a importância dos resíduos mnêmicos ópticos, quando o são de coisas, ou a negar que seja possível os processos de pensamento tornarem-se conscientes mediante uma reversão a resíduos visuais, e que, em muitas pessoas, este parece ser o método favorito. O estudo dos sonhos e das fantasias pré-conscientes pode... dar-nos uma idéia do caráter especial deste pensar visual. ...De certa maneira, também, ele se situa mais perto dos processos inconscientes do que o pensar em palavras, sendo inquestionavelmente mais antigo que o último, tanto ontogenética quanto filogeneticamente." (Freud, 1923/1976, p.35)6

Esta noção semântico-cognitiva de pensamento, como padrões de ativação e inibição sobre complexos representacionais, pode ser apreciada concretamente no papel decisivo que desempenha na teoria freudiana dos sonhos. Para Freud, um sonho pode ser reduzido a uma formulação proposicional, isto é, a um pensamento, composto por um processo de pensamento residual do dia anterior, que se origina da vida cotidiana mas que recebeu o investimento de um desejo inconsciente. Essa seqüência de pensamentos recebe uma série de transformações ao ser submetida aos processos primários, cuja mecânica é a do deslocamento, da condensação e da transformação em imagens.

O deslocamento atua sobre as intensidades das idéias e a condensação as acumula, de maneira que se formam idéias dotadas de grande intensidade. No processo de condensação, a intensidade carrega a apresentação sensorial de uma idéia, isto é, sua apresentação perceptiva fica intensificada. Freud compara isso com o negrito num texto, quando se quer salientar uma palavra, ou com antigas esculturas históricas, que representavam a importância das pessoas por meio de suas dimensões. Diz Freud: "O resultado da atividade da condensação é a obtenção das intensidades necessárias para forçar caminhos aos sistemas perceptivos" (1900/1972, p.634). E mais adiante: "Poder-se-ia supor que a condensação e a formação de compromissos só é efetuada a fim de facilitar a regressão, isto é, quando se trata de transformar pensamentos em imagens" (1900/1972, p.635).

O conceito de regressão apareceu cedo na obra de Freud.7 Relaciona-se com o modelo topográfico do aparelho mental elaborado em A interpretação dos sonhos, mas depois adquire outros dois sentidos, o 'temporal' e o 'formal', que podem ser considerados como extensões semânticas do sentido topográfico original. No sentido temporal, designa o retorno a fases anteriores do desenvolvimento, seja da libido, de relações de objeto ou de identificações. No sentido formal, é empregado para nomear o retorno a modos de expressão evolutivamente 'inferiores'.

Freud se vê obrigado a introduzir este mal fadado conceito para explicar a predominância imagética dos sonhos e sua qualidade alucinatória — isto é, a vivência dos sonhos pelo sonhador como se fosse algo real, presente na percepção atual — e para dar conta da importância das imagens para a compreensão dos processos mentais inconscientes. Como a idéia básica que norteia a concepção do modelo topográfico do aparelho psíquico é a do arco reflexo, o conceito de regressão quer dizer apenas que, nos sonhos, a excitação se movimenta numa direção para trás do referido aparelho, em vez de movimentar-se, como é normal, para a frente, para a extremidade motora do aparelho. Mas, a regressão é um processo que não ocorre apenas nos sonhos:

"A rememoração intencional e outros processos constituintes de nosso pensamento normal envolvem um movimento retroativo do aparelho psíquico, de um ato ideacional complexo para a matéria-prima dos traços de memória subjacentes a ele. No estado de vigília, contudo, este movimento para trás nunca se estende além das imagens mnemônicas; ele não consegue produzir uma revivificação alucinatória das imagens perceptuais." (1900/1972, p.579)

Todas as relações lógicas pertencentes aos pensamentos oníricos, que na análise de um sonho podem ser expressas pela linguagem, durante a atividade onírica só encontram expressão por meio de imagens. Na seção C do capítulo VI de A interpretação dos sonhos, Freud discute as diferentes formas que a elaboração onírica utiliza para representar as diversas relações que são expressas por conjunções lingüísticas como 'se', 'porque', 'embora', etc... "A incapacidade dos sonhos de expressarem essas coisas deve estar na natureza do material psíquico do qual são formados os sonhos"(1900/1972, p.332). Observa a analogia entre a forma expressiva dos sonhos e a da pintura e da escultura, que está condicionada e determinada pela natureza do material que essas formas de arte manipulam. Assim, por exemplo, um grupo conceitual, como o dos filósofos, é representado pelo pintor no quadro da Escola de Atenas, com todos os filósofos reunidos em um único salão, coisa que, de fato, jamais poderia ter ocorrido. A simultaneidade no tempo e no espaço reproduz a ligação que reúne todos os indivíduos: o fato de todos pertencerem à mesma categoria conceitual. Temos aqui a representação de um conceito abstrato — uma categoria conceitual — através de elementos concretos: a proximidade física e a simultaneidade temporal. Isso é possível porque todos os elementos representados — as pessoas retratadas — compartilham de propriedades comuns que permitem que sejam situados como pertencendo a um grupo comum.

A conceitualização é uma atividade do pensamento e é fundamentalmente semântica.8 Sua representação pode ser imagética — se feita com imagens — ou lingüística — se feita com palavras. Em ambos os casos, seu sentido não é determinado pela forma expressiva, mas por seu conteúdo semântico. E esse conteúdo é dado pelos processos de pensamento que manipulam as representações.

Na próxima seção, argumentaremos que a forma de expressão imagética não é nem mais primitiva nem mais inferior que a lingüística. Pelo contrário, ela constitui a base da atividade do pensamento, que possibilita seu mapeamento à linguagem.

Esse breve percurso é suficiente para mostrar que pensar, para Freud, é uma atividade semântica e não sintática. E isso pode ser constatado inclusive onde seus escritos parecem aproximar-se, ainda mais que A interpretação dos sonhos (1900/1972), da determinação da forma lingüística na produção do significado, como é o caso da Psicopatologia da vida cotidiana (1901/1976) e de Os chistes em sua relação com o inconsciente (1905/1977).

Nessas duas obras fica evidente a estratégia semântica utilizada por Freud para o tratamento dos lapsos e dos chistes, estratégia que permitiu a categorização desses fenômenos juntamente com os sonhos e os sintomas. Busca a origem dos lapsos e dos chistes em influências exteriores à cadeia da fala, em outra seqüência de pensamentos, inconsciente mas ativa no sujeito no momento. É justamente a recuperação dessa outra cadeia de pensamentos, pela via da associação livre, que permite dar sentido a essas formações e situá-las com relação à vida e às experiências de quem as produziu. Dessa forma, Freud busca a explicação não na forma lingüística, mas nos processos de pensamentos envolvidos na sua produção.

Isso significa que as leis formais da linguagem, sejam fonológicas ou sintáticas, não fornecem uma explicação adequada das causas desses fenômenos. Elas representam os mecanismos da linguagem e, como lapsos e chistes ocorrem invariavelmente em uma linguagem, na linguagem do falante, eles por força obedecem às leis que regem a linguagem em que ocorrem, da mesma forma que qualquer outra expressão lingüística. Dessa forma, a questão que eles colocam não é de forma, mas de conteúdo. Trata-se do significado envolvido, do que eles dizem com o que enunciam. Trata-se de uma questão semântica.9

Tome-se, por exemplo, o famoso ato falho exposto no primeiro capítulo da Psicopatologia. A palavra Signorelli é dividida exatamente nas expressões signor e elli em função do significado do fragmento signor, que permitiu sua conexão com Herr,10 o mesmo ocorrendo com o surgimento de Bo (de Bósnia) para combinar com elli, e de traffio (de Trafói) para combinar com Bo. Sem considerar as relações semânticas, às quais estão ligados esses fragmentos de termos — que aqui atuam como verdadeiros morfemas de conteúdo — não é possível interpretá-los. O próprio Freud as indica, situando na base de seu gráfico os processos de pensamento em jogo: morte e sexualidade. O fato é que estes "morfemas" estão sendo tratados pelos processos de pensamento de maneira similar ao que acontece com as imagens visuais nos sonhos: cindidos, deslocados e condensados em uma simultaneidade temporal de modo a representar categorias conceituais, em uma espécie de "categorização privada on line". Botticelli e Boltraffio não representam apenas pintores neste lapso, mas, além disso, estão incluídos nas categorias da morte e da sexualidade.

Ou seja, assim como os processos de pensamento "coerentes e racionais" encontram na linguagem um meio de expressão, os processos de pensamento inconscientes atuam da mesma maneira. A questão, portanto, não está na forma lingüística, mas nos pensamento que se expressam através dela e lhe dão significado.

 

IMAGÉTICA, COGNIÇÃO E LINGUAGEM

A partir dos anos 1970, uma série de trabalhos em diversos campos das ciências cognitivas, apesar de partirem de perspectivas bastante diversas, tem apresentado evidência convergente que reconhece um processamento fundamentalmente não verbal, analógico e imagético11 como base dos complexos processos cognitivos humanos.12 No que se segue, vou abordar apenas alguns desses trabalhos, uma vez que uma discussão exaustiva ultrapassaria os limites desse texto.

Dentro da psicologia cognitiva, talvez os primeiros estudos mais influentes que levaram a considerar de modo sério a hipótese de que a mente humana dispõe de representações imagéticas, ou seja, imagens mentais distintas e análogas aos estímulos físicos percebidos, tenham sido os de Roger Shepard e Jacqueline Metzler (1971) a respeito das rotações mentais. Suas observações indicavam também que essas imagens mentais eram utilizadas para efetuar certas formas de raciocínio.

Em um experimento clássico, Shepard e Metzler apresentavam às pessoas pares de figuras bidimensionais representando formas geométricas tridimensionais. A segunda figura do par havia sofrido uma rotação, de zero a 180º, seja no plano da figura, seja no plano da profundidade. Aleatoriamente havia formas distraidoras, cujas segundas figuras não eram rotações das primeiras. Solicitava-se às pessoas que respondessem se a segunda figura era ou não uma rotação da imagem original. O resultado, surpreendente, foi que se constatou que os tempos de reação (medido pelo tempo que a pessoa levava para dar a resposta) formavam uma função linear do grau de rotação que as figuras tinham sofrido. Ou seja, quanto maior a rotação sofrida pela figura, maior o tempo que as pessoas levavam para dar a resposta. Além disso, não houve diferenças significativas nos tempos de resposta quando as rotações se davam no plano da figura ou no plano da profundidade. Outros pesquisadores confirmaram os resultados de Shepard e Metzler em outros estudos sobre rotações mentais, como, por exemplo, em rotações de figuras bidimensionais (Jordan e Huntsman, 1990) e de cubos (Just e Carpenter, 1985). Tudo se passava como se os sujeitos estivessem, de fato, girando essas figuras com as mãos diante dos olhos.

A conclusão de que os sujeitos estão girando mentalmente essas figuras é inevitável. Parece razoável concluir que os seres humanos geram imagens mentais das formas apresentadas e giram-nas em algum espaço mental. Afinal, "um dos constructos menos tangíveis da psicologia havia gerado uma lei científica de precisão impressionante" (Gardner, 1995, p.343). À luz desses resultados, faz sentido pensar que um indivíduo possui figuras em sua cabeça, tornando respeitável a idéia de um modo análogo de representação mental, um modo que capta as relações espaciais que também podem ser percebidas no mundo físico. Esses resultados colocaram em questão a tradição que imperou durante grande parte do século XX, que explicava todos os processos cognitivos em termos de mecanismos simbólicos computacionais, já que fazia muito mais sentido conceber que o curso do pensamento, nesses casos, imita os processos que ocorrem quando estímulos físicos estão sendo percebidos no mundo. A imagética deveria ser concebida em seus próprios termos, e não como resultado de um processamento sintático formal.

Stephen Kosslyn e seus colegas da Universidade de Harvard (Kosslyn et al., 1979 e Kosslyn, 1980) empreenderam um estudo sistemático da imagética, fundamentalmente centrado no estudo da percepção visual. Sua estratégia consiste em abordar o processamento de informações do sistema visual através da análise das funções que esse sistema deve realizar. A visão tem duas funções gerais: reconhecer objetos e partes de objetos; e navegar através do espaço e coordenar os movimentos. Para executar essas funções, o sistema precisa equacionar algumas necessidades opostas, especificamente o reconhecimento da permanência, unidade e identidade dos objetos, em contraste com suas ocorrências na percepção, sempre sujeitas a variações, seja na forma, no tamanho, na posição relativa, na parcialidade e integridade das apresentações.

Para equacionar o problema do reconhecimento de objetos totais e suas partes, é necessário considerar um sistema que codifique partes independentemente de sua posição no todo, outro sistema que codifique posições relativas e ainda um sistema que coordene a montagem do todo. Kosslyn argumenta que, para explicar os tipos de oposição funcional envolvidos nos processos perceptivos visuais, é necessário distinguir dois sistemas operacionais distintos que denominou, respectivamente, de categorial e contínuo.

O sistema categorial supõe algum tipo de representação estável armazenada na memória de longo prazo, que permite o reconhecimento de formas particulares, inclusive o reconhecimento, como conhecidas, de formas nunca vistas antes. Esse sistema deve registrar imagens prototípicas de objetos, que podem ser acessadas pelas sempre mutantes manifestações visuais dos objetos e que permitem todas essas manifestações serem reconhecidas como tais. Estas imagens prototípicas e suas partes são estáveis a mudanças de posição e forma. Constituem as representações do mundo dos objetos. O conjunto de variações visuais que serve para acessar uma imagem prototípica de um dado objeto, Kosslyn chama de classe funcional de equivalência. O processador categorial ignora as variações na mesma classe, respondendo ao conjunto de variações com a mesma representação. O sistema categorial também representa relações, em especial relações espaciais prototípicas, como por exemplo, "em cima" (independentemente da distância), "ligado a" (independentemente da posição), "dentro de", etc... Essas relações prototípicas também constituem classes funcionais de equivalência de relações espaciais que são aplicáveis ao conjunto de imagens de objetos.

O sistema contínuo computa as distâncias e ângulos, onde um objeto específico está, e onde está o vidente em relação ao objeto. Esse processamento é necessário para a navegação no espaço, para dirigir as ações motoras e para fazer discriminações finas. Kosslyn considera que as computações contínuas levadas a cabo no sistema visual não podem ser concebidas como medições, no sentido matemático usual, pois estas requerem sistemas métricos com unidades explícitas e coordenadas específicas. Ao contrário, o sistema visual deve ter à sua disposição um sistema de computação de natureza intuitiva e analógica, para servir de guia para a ação motora e antecipação dos movimentos, capaz de integrar o processamento de várias informações simultâneas e em períodos de tempo muito curtos. Para se ter uma idéia disso, basta pensar num jogador de futebol ou basquete no momento em que se dirige ao gol ou à cesta, ou mesmo no cálculo preciso do pulo de um gato.13

Como ambos os sistemas se integram? A idéia é de que a informação implícita, processada pelo sistema contínuo é agrupada e afunilada, através de classes funcionais de equivalência, para as imagens prototípicas, incluindo-se aí as representações de objetos, os protótipos, e as representações de relações. Johnson (1990) e Lakoff (1990) intitulam essas imagens esquemáticas prototípicas de relações de imagens-esquema, termo que também é utilizado por Mandler (1992) em seus estudos sobre os primitivos pré-lingüísticos na formação de conceitos pelas crianças.

O sistema de classes funcionais de equivalência que conduz às imagens prototípicas desempenha um papel fundamental para a organização do sistema conceitual, inclusive considerando sua conexão com a linguagem. A informação perceptual, advinda da mesma ou de diferentes modalidades sensoriais e que varia em gradientes contínuos, é agrupada em classes que são experimentadas como equivalentes para o funcionamento do organismo — equivalência de estrutura, de função, de associação no tempo ou espaço, etc. Essas classes de estímulos funcionalmente equivalentes, construídas como chunks,14 são representadas como imagens prototípicas nos sistemas categoriais, provendo um mecanismo básico de simbolização, num domínio não verbal, equipando o indivíduo com um código simbólico não verbal, fundamentalmente imagético e analógico.

As imagens podem ser, portanto, caracterizadas como entidades intermediárias entre a experiência sensorial contínua e as representações puramente simbólicas relacionadas com a linguagem. É importante notar que tanto as imagens prototípicas de objetos quanto as imagens-esquema não se confundem com imagens concretas ou 'pinturas mentais'. Elas são representações abstratas e gerais e não estão restritas à percepção visual, uma vez que incluem um conjunto de traços intermodais. São em essência padrões analógicos, complexos e esquemáticos, que constituem a base da organização da experiência cognitiva, onde ocorrem os processos de pensamento não verbal, base sobre a qual essa experiência pode ser conectada com a linguagem, fornecendo às expressões lingüísticas seu significado.

Consideremos um exemplo. Na linguagem cotidiana é comum encontrar expressões como as seguintes para falar das relações amorosas:

Veja quão longe chegamos. Foi uma longa e difícil caminhada. Não podemos voltar para trás agora. Estamos numa encruzilhada. Talvez tenhamos que tomar caminhos separados. Nossa relação não está indo a lugar nenhum. Estamos patinando. Nossa relação saiu do caminho, perdeu-se na estrada. Chegamos à beira de um precipício. Temos que parar imediatamente

Lakoff e Johnson, em Metaphors we live by (1980) propõem um tratamento metafórico para a semântica de expressões como estas. Consideram a metáfora não como uma figura de linguagem que faz parte das gramáticas das línguas naturais, mas como parte do sistema conceitual que embasa as línguas. A cognição humana contém um sistema de metáforas conceituais: maneiras de pensar conceitos abstratos em termos de conceitos mais concretos, que se refletem na linguagem cotidiana. Assim, o pensamento metafórico é concebido como um mapeamento de um domínio-fonte para um domínio-alvo, com correspondências ontológicas15 sistemáticas entre as entidades dos dois domínios. Isso quer dizer que o significado de expressões abstratas é obtido através de mapeamentos metafóricos e metonímicos a partir do significado de expressões concretas, que estão relacionadas com a experiência perceptual e motora dos humanos com seu próprio corpo e com seu meio.16

No caso das expressões acima, tem-se o mapeamento: amor é uma viagem, em que o domínio da experiência amorosa é compreendido através do domínio concreto das experiências de deslocamento físico entre dois pontos no espaço. Sua base categorial é a imagem-esquema: início-meio-fim,17 derivada dos deslocamentos corporais das pessoas no mundo, quando saem de um lugar para chegar a outro, passando por lugares intermediários e seguindo uma determinada direção. Disso deriva-se uma lógica básica, que servirá para estabelecer as correspondências ontológicas entre os domínios da experiência que estão sendo considerados em um dado discurso. Quando se sai de um ponto de partida em direção a um ponto de chegada ao longo de um caminho, deve-se passar por todos os pontos intermediários e vencer todos os obstáculos desse caminho. Além disso, quanto mais longe se está do ponto de partida, mais tempo passou desde o princípio (Lakoff, 1990, p.275).

No caso do mapeamento metafórico referido antes, o conjunto de correspondências ontológicas é o seguinte: amantes correspondem a viajantes, a relação amorosa corresponde ao veículo, os objetivos comuns dos amantes correspondem ao destino comum da viagem e as dificuldades na relação correspondem aos obstáculos na viagem.

O que constitui a metáfora amor é uma viagem é o mapeamento ontológico entre domínios conceituais, do domínio fonte das viagens ao domínio alvo da relação amorosa. O mapeamento cognitivo é primário e sua expressão lingüística secundária, uma vez que ele implica em generalizações dos significados de expressões lingüísticas com base nas generalizações feitas sobre inferências através de domínios conceituais.18

 

O PENSAMENTO FREUDIANO E O SISTEMA CATEGORIAL

O rápido percurso feito até aqui mostra que a noção freudiana de representação e pensamento é compatível com o sistema categorial proposto por Kosslyn. Lembremos que Freud concebe as representações de coisa como complexos abertos de sensações, representados por uma sensação saliente, no caso a visual, sensações que são imagens mnésicas ou traços de memória deixados no aparelho pela experiência perceptual. Ora, essa noção corresponde estreitamente à noção de imagens prototípicas e de imagens-esquema, que constituem as representações do mundo dos objetos, obtidas através dos chunks formados no sistema categorial pelas classes funcionais de equivalência que integram as variações sensoriais intermodais do sistema contínuo. Dessa forma, a Sachevorstellung de Freud pode ser entendida como uma representação imagética, que, ao ligar-se com sua correspondente Wortvorstellung, recebe um nome e lhe dá conteúdo semântico.

Nesse sistema estão os fundamentos dos processos de pensamento. Consideremos brevemente a metáfora utilizada por Freud para definir os dois processos de pensamento, o processo primário e o processo secundário: a metáfora da experiência de satisfação.

A experiência de satisfação deixa duas marcas essenciais: a percepção particular (do objeto que nutre, nesse caso) registra-se como uma imagem mnésica que permanece associada, daí por diante, com o traço de memória da excitação produzida pela necessidade. Como resultado desse elo, na próxima vez que a necessidade desperte, surgirá de imediato um impulso psíquico que procurará recatexizar a imagem mnésica da percepção e reevocar a própria percepção, processo que Freud chamava de identidade perceptiva (1900/1972, p.602). O que pode significar isso senão uma referência à formação de uma imagem prototípica? Os diversos estímulos, advindos das várias modalidades sensoriais envolvidas na experiência da necessidade, conjugam-se com os estímulos produzidos pelo objeto de satisfação, afunilando-se e conjugando-se em uma imagem no sistema categorial, que resultará no protótipo do objeto de satisfação. As classes funcionais de equivalência funcionarão canalizando as experiências semelhantes para a mesma imagem, ativando-a quando a necessidade desperte. O que Freud chama de identidade perceptiva nada mais é do que a ativação dessa imagem prototípica.

Como a identidade perceptiva não apresenta o resultado esperado, a excitação deve ser desviada por outros caminhos que possam de maneira efetiva conduzir à satisfação desejada, que envolvem, necessariamente o mundo externo (pois é lá que está o objeto visado). Assim, essa primitiva atividade do pensamento deve dar lugar a outra, o processo secundário, dominado pelo princípio da realidade, que se estende desde a imagem mnésica até o momento em que a identidade perceptiva é estabelecida com o mundo exterior. Ela precisa desviar a excitação surgida da necessidade ao longo de um caminho indireto, que envolve o movimento voluntário, de tal forma a alterar o mundo externo para que seja possível chegar a uma percepção real do objeto de satisfação. O processo secundário visa, assim, uma identidade de pensamento.

O que, nesse contexto, pode querer dizer 'identidade de pensamento' senão a constatação, por meio da ação efetuada sobre o meio, de que uma representação tem existência na realidade? O que se decide é se algo, que está no eu como representação, pode ser reencontrado na percepção. Isso implica no estabelecimento de uma correspondência entre os objetos externos e as imagens prototípicas, sendo que seu objetivo é reencontrar na percepção real um objeto que corresponda ao representado.

Essa é uma atividade de categorização cujo resultado é a produção de uma determinada categoria de objetos. Se considerarmos que as categorias conceituais estão organizadas em torno de membros centrais prototípicos,19 pode-se dizer que nessa metáfora Freud está procurando delinear o centro da categoria dos objetos de satisfação. Lembremos que Freud situava os diversos objetos de satisfação em uma série, produzida pela atividade do deslocamento, a partir de objetos primordiais.

Evidências de que Freud considerava a categorização como organizada prototipicamente podem ser encontradas em seu texto. Em As transformações do instinto exemplificadas no erotismo anal (1917/1976), texto no qual desdobra os elementos da categoria do objeto anal na série: fezes, pênis, bebê, dádiva, dinheiro..., diz:

"Como ponto de partida para esta exposição, podemos tomar o fato de que parece que nos produtos do inconsciente — idéias espontâneas, fantasias e sintomas — os conceitos de fezes (dinheiro, dádiva), bebê e pênis mal se distinguem um do outro e são facilmente intercambiáveis. Compreendemos, certamente , que expressar-se desse modo é aplicar incorretamente à esfera do inconsciente termos que pertencem propriamente a outras regiões da vida mental, e que fomos levados a nos desviar pelas vantagens oferecidas por uma analogia. Para colocar o assunto de uma forma menos sujeita a objeções, esses elementos do inconsciente são tratados muitas vezes como se fossem equivalentes e pudessem livremente substituir um ao outro." (p.160-161) (sublinhado do autor)

É evidente que, apesar de reformular suas palavras para não levantar as objeções que poderiam surgir com o uso do termo 'conceito' para indicar a relação de identidade semântica entre esses termos, Freud está pensando exatamente nisso. Sua noção de que o objeto da pulsão é o que há de mais variável nela, de que não está originalmente ligado a ela, podendo ser modificado tantas vezes quanto for necessário em função das vicissitudes sofridas durante a existência e "só lhe sendo destinado por ser peculiarmente adequado a tornar possível a satisfação" (1915/1974c) indica que a categoria dos objetos pulsionais está organizada do ponto de vista prototípico e forma uma categoria fuzzy.20 Note-se que, desta perspectiva, um mesmo objeto pode pertencer a mais de uma categoria, fato observado por Freud quando indica que um mesmo objeto pode servir a mais de uma pulsão parcial.

Assim, na categoria do objeto anal, em torno de seu melhor exemplar, fezes, distribui-se um gradiente de objetos cujo grau de pertinência é variável e, inclusive, particular. Ou seja, para um sujeito, determinado objeto pode estar nessa categoria, enquanto que para outro, não. Por exemplo, no caso do Homem dos Ratos, rato entra nessa categoria, juntamente com dinheiro, pênis, criança e ele próprio.

 

PENSAMENTO E LINGUAGEM

Voltando à última citação, decerto as objeções que Freud não queria invocar são as relativas a seus pressupostos teóricos evolucionistas, de que a esfera do inconsciente contém processos de pensamento mais 'infantis' e 'arcaicos'. Em sua obra, há uma tensão constante entre essas assunções, por um lado, e, por outro, sua constatação da uniformidade dos processos de pensamento.

Considere-se, por exemplo, o problema do duplo registro, ou dupla inscrição, que a noção topográfica da divisão inconsciente/pré-consciente acarreta. Esse problema envolve a questão de como algo inconsciente pode se tornar pré-consciente, e assim, consciente, já que, afinal de contas, só se pode saber de algo quando este se junta à consciência. Isso implica também na consideração da questão da censura que se interpõe entre os dois sistemas. Nos trabalhos metapsicológicos (1915/1974 a,b), essa questão vai ser formulada da seguinte forma: um ato psíquico x é rejeitado pela censura e permanece no inconsciente. Diz-se, então que foi recalcado. Se o ato psíquico x passar pela censura, terá livre acesso, através do pré-consciente, à consciência, resultando no ato psíquico x'. Questão: x e x' são dois registros diferentes ou são o mesmo registro que sofreu uma mudança de estado, no mesmo material e na mesma localidade?

Essa questão não pode ser respondida considerando-se o fato de que o essencial do recalcamento é a supressão do desenvolvimento da descarga da cota de afeto vinculada à representação (1915/1972b, p.204). Ora, um representante pulsional consiste de uma representação (Vortellung), uma idéia ou grupo de idéias, carregada por uma cota definida de energia psíquica (libido ou interesse). Essa cota encontra expressão em processos que são sentidos como afetos (Affektbetrag). Assim, deve-se separar, em se tratando do recalcamento, daquilo que acontece a idéia daquilo que acontece com o afeto. A idéia passa por uma vicissitude geral, que é desaparecer do consciente (caso o fosse), ou ser impedida de se tornar consciente. Isso faz com que a parcela ideativa do representante pulsional sofra os processos de deslocamento e condensação e se manifeste na forma de uma formação substitutiva. Mas o mecanismo do recalcamento não coincide com a formação de substitutos, pois não existem afetos inconscientes da mesma forma que existem idéias inconscientes. Assim, o que ocorre é uma ruptura entre o afeto e a idéia à qual ele pertence e cada um deles passa por vicissitudes isoladas.

"A idéia reprimida permanece capaz de agir no Ics., e deve, portanto, ter conservado sua catexia. O que foi retirado deve ter sido outra coisa" (p.207). Nesse ponto, Freud retoma a distinção entre representação de coisa e representação de palavra. Chega, assim, à diferença entre representação consciente e inconsciente. As duas não são registros diferentes do mesmo conteúdo em lugares psíquicos diferentes, nem estados funcionais diferentes da catexia no mesmo lugar. Ocorre que a representação pré-consciente abrange a representação de coisa mais a representação da palavra que lhe corresponde. Já a representação inconsciente abrange apenas a representação de coisa. "O sistema Ics contém as catexias da coisa dos objetos, as primeiras e verdadeiras catexias objetais; o sistema Pcs. ocorre quando essa apresentação da coisa é hipercatexizada através da ligação com as representações da palavra que lhe correspondem" (1915-1974a, p.230).

Resultado: o que o recalcamento faz é negar à representação de coisa sua tradução em palavras, resultando disso que uma representação que não seja posta em palavras — um ato psíquico que não seja hipercatexizado — permanece no inconsciente. Ora, os processos de pensamento, isto é os "atos de catexia que se acham relativamente distantes da percepção" (p.230) são destituídos de qualidades e inconscientes, e só se tornam conscientes através de sua ligação com as representações de palavras. Quando ligadas às palavras, as catexias podem ser dotadas de qualidade, mesmo quando representam ligações entre as representações de objeto, "sendo assim incapazes de extrair qualquer qualidade das percepções" (p.231). Estas relações, que se tornam compreensíveis através de palavras, constituem uma das principais partes dos nossos processos de pensamento. As palavras se tornam capazes de exprimir essas relações qualitativamente pois elas também se originam de percepções sensoriais, da mesma forma que as representações de coisa.

Isso mostra que a diferença entre os dois processos de pensamento não é qualitativa, como se houvesse um pensar 1 — que segue uma lógica mais primitiva — e um pensar 2 — que segue uma lógica racional. Pensar, para Freud, é estabelecer conexões entre representações, sejam essas conexões advindas da experiência perceptiva ou das ações que o indivíduo executa em seu meio. Isso acontece tanto no funcionamento do processo primário quanto no do secundário.

Assim, a diferença entre processo primário e secundário não reside na relação destes com as palavras, mas no padrão de ativação, ou em termos freudianos, no 'modo da energia', que responde, essencialmente, à experiência do sujeito com relação à sua satisfação. O que, de fato Freud está procurando modelar com essa diferença é a atuação concomitante dos dois conjuntos de pensamento paralelos, que ele descobriu, a partir da análise das formações do inconsciente, estarem na base do conflito psíquico, ou da "divisão do eu". Divisão que Freud vê como estrutural na categorização do que é interno e do que é externo, do que é "eu" e do que é "não-eu", e que marcará toda a atividade cognitiva dos humanos.

Em resumo: a razão freudiana é experiencial.21 As pesquisas contemporâneas nas ciências cognitivas têm mostrado que os mecanismos cognitivos isolados por Freud não são exceção na racionalidade humana, nem são superados por uma pretensa evolução para o pensamento formal, mas são a regra. Tipicamente, o homem pensa 'com seu corpo e com sua experiência'.

 

 

Referências

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(1915/1974b) "Repressão", v.XIV.

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(1916-17/1976) "Conferências introdutórias sobre psicanálise", v. XV.

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(1923/1976) "O ego e o id", v. XIX.

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Recebido em 19/11/2003. Aprovado em 22/3/2004.

 

 

1 A teoria psicológica de Freud está inscrita no quadro da tradição epistemológica do pensamento 'representacional', que percorre as discussões da filosofia moderna desde Descartes e Locke até Kant, e forjou grande parte das idéias que presidiram o surgimento da psicologia como ciência, desde a mecânica das representações de Herbart ao projeto de uma psicologia fisiológica de Wundt. Uma abordagem da metapsicologia freudiana a partir deste ponto de vista pode ser encontrada em Assoun, P-L., 1995.
2 Freud a chamava de metapsicologia por considerar sua teoria como referindo-se aos processos inconscientes, indo além, portanto, da psicologia da consciência de sua época. No entanto, dentro das ciências cognitivas contemporâneas, a noção de que os processos cognitivos são em essência inconscientes é amplamente aceita. Não vejo, portanto, necessidade de continuar utilizando o prefixo 'meta'.
3 Um excerto pode ser encontrado no apêndice C de Freud (1915/1974a).
4 Catexia é, na verdade, o termo que a tradução inglesa adotou para traduzir tanto Besetzung quanto Energie.
5 Sabia-se que a condução nervosa era acompanhada por mudanças elétricas. Os experimentos com o reflexo sugeriam que os neurônios centrais ofereciam maior resistência às excitações que as fibras nervosas e eram capazes de desenvolver grandes quantidades de energia armazenada. Para uma discussão sobre esses desenvolvimentos ver Kitcher, 1995.
6 Esta idéia de um pensamento mais arcaico atesta a influência da teoria evolucionista, nesse caso da versão do fisiologista inglês John H. Jackson, na obra de Freud. Jackson argumentava que o sistema nervoso está composto por diferentes níveis que representam outros diferentes níveis
de desenvolvimento evolutivo e gradativamente são capazes de desempenhar tarefas mais complexas. Nas doenças mentais, a 'dissolução nervosa' prejudica os níveis mais altos, sendo que o pensamento volta para níveis mais primitivos e antigos (KITCHER, 1995, p.24).
7 A primeira publicação da palavra alemã Regression ocorre no capítulo VII de A Interpretação dos sonhos (1900/1972), muito embora o conceito a ela vinculado já tivesse sido trabalhado por Freud no Projeto no uma psicologia científica (1950 [1895]/1977), descrevendo o movimento regressivo (Rückläufig) de uma excitação a partir de uma idéia até a percepção, tendo sido nomeado pelo termo regression no Rascunho L, de 1897 (1950 [1892-1899]/1977).
8 Sobre a categorização conceitual teorizada a partir de um ponto de vista semântico ver Lakoff (1990).
9 Uma abordagem semântica mais completa da análise freudiana dos lapsos pode ser encontrada em Thá, 2001.
10 Freud observa a esse respeito, em O mecanismo psíquico do esquecimento (1898/1976) que pelo fato de estar viajando muito tempo pela Itália, acostumara-se a traduzir automaticamente do alemão para o italiano e vice-versa.
11 Os termos 'imagético' e 'analógico' indicam, aqui, formas representacionais diversas das formas simbólicas e digitais tradicionalmente assumidas pelos modelos computacionais algorítmicos da mente . Por exemplo, a representação do som em um disco de vinil é análoga à onda sonora, enquanto que em um disco digital (CD) ele está registrado em forma de dígitos binários.
12 Uma ampla discussão sobre esses tópicos pode ser encontrada em Bechtel, W. e Graham, G. (1999).13 Atualmente, os modelos considerados mais adequados para o processamento contínuo são os sub-simbólicos ou conexionistas. Os modelos conexionistas, introduzidos num trabalho clássico de James MacClelland e David Rumelhart (1988), são hoje a grande vedete das ciências cognitivas. Como sua fonte de inspiração é o funcionamento neuronal, eles divergem dos modelos simbólicos tradicionais em duas características fundamentais: não supõem unidades discretas como representações na base do processamento, mas sim padrões de conexões que dão como output uma representação; consideram o processamento como ocorrendo em paralelo em múltiplos canais ao mesmo tempo, ao contrário do tradicional processamento em série dos computadores.
13 Atualmente, os modelos considerados mais adequados para o processamento contínuo são os sub-simbólicos ou conexionistas. Os modelos conexionistas, introduzidos num trabalho clássico de James MacClelland e David Rumelhart (1988), são hoje a grande vedete das ciências cognitivas. Como sua fonte de inspiração é o funcionamento neuronal, eles divergem dos modelos simbólicos tradicionais em duas características fundamentais: não supõem unidades discretas como representações na base do processamento, mas sim padrões de conexões que dão como output uma representação; consideram o processamento como ocorrendo em parale-lo em múltiplos canais ao mesmo tempo, ao contrário do tradicional processamento em série dos computadores.
14 O termo chunk pode ser traduzido por 'nacos, pequenos pedaços'. A idéia é exatamente de um composto de traços funcionalmente equivalentes da mesma ou de diversas modalidades sensoriais.
15 O termo 'correspondências ontológicas' está sendo utilizado aqui no sentido das conexões que se estabelecem nas metáforas conceituais entre os elementos do domínio-fonte e os elementos do domínio-alvo.
16 Há uma série de trabalhos em semântica cognitiva que mostram esse antropocentrismo da linguagem. Sobre isso, ver Allan, K. (2001).
17 Source-Path-Goal Schema, no original inglês.
18 Nesta conexão, considere-se a seguinte sentença de Freud: Então os senhores se lembrariam de que a maioria das palavras abstratas são palavras concretas 'diluídas', e, por essa razão, teríamos que retroceder, sempre que possível, à significação concreta original de tais palavras. Assim, os senhores teriam o prazer de constatar que podem representar 'a possessão' de um objeto pela ação real, física, de estar sentado sobre o mesmo. E a elaboração onírica executa justamente a mesma coisa (1916-17/1976, p.209).
19 Para uma descrição da teoria prototípica da categorização, também chamada de probabilística, ver Gardner (1996) e Lakoff (1990).19 Para uma descrição da teoria prototípica da categorização, também chamada de probabilística, ver Gardner (1996) e Lakoff (1990).

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