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Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica

Print version ISSN 1516-1498On-line version ISSN 1809-4414

Ágora (Rio J.) vol.7 no.1 Rio de Janeiro July/Jan. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982004000100010 

RESENHAS

 

Falo ou feminilidade: uma discussão instigante

 

 

Regina Neri

Psicanalista, doutora em teoria psicanalítica pelo Instituto de Psicologia da UFRJ; bolsista recém-doutora do CNPq junto ao Núcleo de Estudos da Subjetividade da Pós-graduação em Psicologia Clínica, PUC-SP. reginaneri@uol.com.br

 

 

Gramáticas do erotismo. Joel Birman.
Rio de Janeiro: Record, 2001.

Falo ou feminilidade?, eis a questão debatida por J. Birman em Gramáticas do erotismo. O trabalho de resgate e aprofundamento do conceito de feminilidade, que vem sendo realizado pelo autor desde 1993, apresenta-se como um empreendimento de fôlego que resulta em uma interpretação original da metapsicologia freudiana — a virada dos anos 1920 — a qual vai privilegiar o registro pusional econômico em detrimento do representacional tópico, contexto em que emerge o conceito de feminilidade.

A continuidade dessa pesquisa conduz o autor, atualmente, a se debruçar sobre a questão da diferença sexual, objeto de discussão nesse livro, no qual vem destacar a presença de diferentes gramáticas do erotismo no texto freudiano. A singularidade e a riqueza da obra freudiana é a de se constituir, ela mesma, em uma tensão discursiva entre o determinismo universal da lógica fálica e a feminilidade como enunciação do singular.

Discurso de subversão do sujeito do cogito ou nova metafisica sobre o sujeito e o sexo? A interrogação endereçada à psicanálise pela obra de Foucault e por teóricas do movimento feminista é de peso. Produção discursiva histórica ou teoria universal do sujeito? Como sublinha G. Fraisse, a psicanálise se constitui como primeiro discurso a colocar no cerne de sua interrogação a questão da diferença sexual, tratada ao longo da história do pensamento filosófico de modo periférico. No entanto, no que concerne à sua teoria sobre o feminino, Freud não faz mais do que reeditar "uma metafisica dos sexos", que desde a Antiguidade permeia o pensamento ocidental, instaurando uma dicotomia hierárquica na qual o masculino é equivalente de "mais", e o feminino de "menos".

Ao inscrever a psicanálise entre os dispositivos das ciências sexuais emergentes no século XVIII e XIX, Foucault vem mostrar de que modo ela se configura como um discurso de adestramentos dos corpos e da sexualidade, visando à consolidação da família burguesa: a operação de patologização do corpo feminino atrela a mulher à maternidade, aprisionando-a no espaço doméstico, garantindo ao homem o domínio do espaço público. Entretanto, Freud vai igualmente criticar de forma radical o dispositivo de hereditariedade-degeneração dominante na época, ao formular o conceito de pulsão sexual perverso-polimorfa que aponta para a plasticidade da sexualidade humana

A teoria freudiana da sexualidade fundou-se, como assinala J. Birman, sob o postulado de uma masculinidade originária — a sexualidade feminina e masculina sendo constituída pelo operador fálico —, inserindo-se desse modo na hierarquia naturalizada dos sexos. No fim de sua obra, Freud teria rompido com essa tradição ao formular, a partir da clínica, o conceito de feminilidade: a experiência de desamparo dos homens e mulheres diante da perda dos referenciais fálico-narcíssicos abre para homens e mulheres novas possibilidades de sujetivação ao sinalizar um sujeito da mobilidade pulsional em permanente tentativa de inscrição da estesia pulsional em singularidade ética e estética.

A construção fálico-edípica já foi objeto de numerosos questionamentos na psicanálise, a começar por Freud, que muito cedo percebe os impasses desse modelo para pensar o processo de subjetivação da mulher. No entanto, o que não foi problematizado é que a teoria da diferença na psicanálise tem inegavelmente o masculino como paradigma. A lei constitutiva do desejo em Freud e Lacan é a lei do pai, a teoria fálico-edípica configurando-se como uma versão masculina da diferença, na qual o outro, o feminino, só pode ser pensado em simetria ou dessimetria ao referencial fálico e formulado como "um a menos" (castrado e invejoso em Freud) ou "um a mais" (bi-gozo em Lacan). A dialética da castração, girando em torno da presença-ausência do falo, instala uma dicotomia fálico/castrado, na qual o feminino fica indelevelmente marcado pela inveja do pênis e pela falta.

Assim, apesar da constatação magistral de Lacan de que a lógica fálica foraclui o feminino, no nosso entender o que fica foracluído na psicanálise pela operação de deslocamento do pênis ao falo como referência simbólica é o travestimento do masculino em universal neutro fundador. A promoção do falo à instância neutra fundadora pode ser considerada justamente como o próprio atestado da superioridade do masculino, o qual não pode ser reduzido a um órgão sexual, o pênis, como no caso da mulher, que se define, antes de tudo por seu sexo, sob pena de caricaturar a própria universalidade fálica.

Confrontada à crise atual que afeta os recortes tradicionais masculino/feminino, a psicanálise, como comenta M. Schneider, mantém uma posição aparentemente inabalável, impondo um sistema de referências enunciado sob um modo a-histórico, considerando a crise da ordem simbólica vigente como uma ameaça que conduziria à indiferenciação e ao caos. O que se coloca como pano de fundo do questionamento da centralidade do Édipo como eixo de subjetivação, tal como o aqui realizado por J. Birman é a capacidade de a psicanálise contemporânea colocar a clínica e a teoria na escuta de seu tempo.

Nunca é demais lembrar a ousadia de Freud e de Lacan ao desafiarem os discursos dominantes fora e dentro da psicanálise, fazendo da escuta de suas épocas uma exigência de produção teórica. No entanto, para realizar tal tarefa, é preciso se colocar em guarda em relação a operações apressadas de acomodação da psicanálise aos ares do nosso tempo, pois ao fazerem a economia de um questionamento rigoroso no interior do corpo teórico psicanalítico, não fazem juz à riqueza do arcabouço conceitual que a psicanálise acumulou ao longo de sua história e que nos convida à sua problematização e potencialização.

 

 

Recebida em 31/3/04.
Aprovada em 23/4/04.

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