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Sociologias

Print version ISSN 1517-4522

Sociologias vol.13 no.26 Porto Alegre  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222011000100014 

RESENHA

 

Anthony Giddens e as políticas da mudança climática

 

Anthony Giddens and the politics of climate change

 

 

Leandro Raizer

Doutorando em Sociologia na UFRGS/Université de Montreal

 

 


RESUMO

Anthony Giddens tem desenvolvido importantes teorias que buscam compreender as transformações ocorridas no contexto da sociedade contemporânea, destacando-se sua discussão sobre a modernização reflexiva e suas consequências sociais. Este texto apresenta e problematiza a análise de Giddens sobre o fenômeno da mudança climática e de suas implicações societais, ressaltando sua contribuição para a teoria sociológica e para o estudo das políticas verdes.

Palavras-chave: Políticas. Mudança climática. Crise ecológica.


ABSTRACT

Anthony Giddens has developed important theories that seek to understand the changes occurring in the context of contemporary society, especially in his discussion on reflexive modernization and its social consequences. This paper presents and discusses Giddens' analysis of the phenomenon of climate change and its societal implications, emphasizing his contribution to the sociological theory and the study of green politics.

Keywords:Politics. Climate change. Ecological crisis.


 

 

GIDDENS, Anthony. The Politics of Climate Change. Cambridge: Polity Press, 2009. 256p.

Elementos para uma teoria sobre a mudança climática

Recentemente, resgatando alguns elementos tratados em As Consequências da Modernidade, Giddens tem se dedicado a ampliar os conhecimentos sobre risco ecológico, com ênfase no fenômeno atual da mudança climática e suas diversas implicações societais.

Particularmente, tem tratado do desenho das políticas verdes ou das possíveis respostas dos países frente aos desafios e paradoxos impostos pelo aquecimento global. É precisamente isso que o livro The Politics of Climate Change, publicado em 2009, discute.

O livro é constituído por oito capítulos nos quais o autor discorre sobre diversos temas ligados à questão da mudança climática e seus impactos em áreas como segurança energética, mercados de carbono, políticas verdes, governança, mudança tecnológica e impostos, adaptação e geopolítica.

O livro em questão não é apenas um desdobramento natural da aplicação da teoria da modernização reflexiva de Giddens sobre o fenômeno da mudança climática, mas o resultado de seu envolvimento no Centre for the Study of Global Governance, na London School of Economics, no qual ele tem atuado como consultor nessa área para o Governo do Reino Unido.

Em suas próprias palavras, o livro trata de pesadelos, catástrofes, sonhos e veículos 4x4, e de como nossa rotina cotidiana e individual afeta a continuidade e a qualidade de nossa existência coletiva, sem que muitos de nós percebam.

Para Giddens, na concepção da maioria das pessoas, existe um abismo entre as preocupações e rotinas familiares/cotidianas, e seu impacto num abstrato e sombrio futuro de caos climático para o qual diversos estudos apontam. Mesmo com o conhecimento já existente sobre as consequências da mudança climática, individuais e coletivas, a humanidade como coletividade está apenas começando a tomar as medidas necessárias para responder de forma adequada às novas demandas em termos do desenvolvimento de novos hábitos, políticas e práticas.

Nesse sentido, tanto devido à sua escala de abrangência, como ao fato de os impactos ainda incertos poderem ser apenas sentidos num futuro próximo, o fenômeno da mudança climática é único na história da humanidade. Em outras palavras, muitos estudos têm apontado a necessidade de se travar um "esforço de guerra" para solucionar o problema, no entanto, não tem sido fácil identificar quem são os "inimigos" e a melhor "forma de combate".

Justamente, devido a essas características, muitos países têm esperado até que os efeitos e problemas surjam de forma mais clara e concreta, assim como suas soluções. Tal posição poderá levar a uma situação na qual será tarde demais para tomar medidas ou realizar ações, que se tornarão paliativas, senão mesmo inócuas.

 

O Giddens's paradox e as políticas verdes

Nessa direção, a ideia central proposta pelo autor ou, em suas palavras, o Giddens paradox, trata das políticas de mudança climática que estão sendo desenvolvidas no presente, em meio a uma situação de grande incerteza e risco.

Para Giddens, o estado nacional continua a ser o ator principal na elaboração dessas políticas, já que existe uma grande dificuldade no cenário internacional no que diz respeito ao estabelecimento de metas nacionais ou internacionais e de mecanismos de controle para redução de emissão de gases estufa. Além disso, o desenvolvimento de novas tecnologias, essenciais para reduzir a emissão desses gases, possui um alto custo, que terá que ser financiado de forma pesada pelos sistemas nacionais de inovação, com o estado sendo o grande fomentador.

Apesar disso, os mercados também terão papel importante na mitigação da emissão de gases estufa, já que existem muitos campos da produção nos quais o estado possui pouca ingerência. Existem vários mecanismos de mercado, como é o caso dos mercados de carbono, que poderão atuar como força propulsora, principalmente através do estímulo do mecanismo de eficiência e concorrência entre as empresas.

O estado, claro, continuará a desempenhar papel importante, seja no nível local, regional ou nacional e, sobretudo, como coordenador de esforços oriundos dos mercados e da sociedade civil.

Para Giddens, a problemática da mudança climática não pode ser reduzida a um assunto de esquerda-direita, ou de maior ou menor produtividade. Antes disso, exige políticas de longo termo e escopo, implicando o aumento dos investimentos ambientais e a busca de consenso e cooperação.

Mas como alcançar o nível de consenso exigido para isso? Segundo Giddens, se observarmos os países que estão na vanguarda da mudança climática, veremos que esses problemas estão sendo suplantados pela problemática da competitividade internacional, na qual os países e as indústrias estão tendo que adotar cada vez mais padrões de produção eficiente, limpa e verde, sob pena de serem ultrapassados por países ou indústrias mais eficientes. Nesse sentido, a questão internacional tende a ser bastante coercitiva, obrigando o estado e as empresas a tornar a produção mais limpa, apesar da existência de conflitos e disputas sobre sua relevância.

Para Giddens, o desenvolvimento das políticas da mudança climática, que compreendem desde planos ambientais até o investimento em fontes renováveis, implica a presença de ideias-chave. A primeira delas, ensuring state, diz respeito ao papel do estado no processo como um facilitador, ou seja, ajudar e estimular a diversidade de grupos sociais que conduzirão as políticas, e de dar suporte a ela; já a ideia de political convergence trata do quão importante é o apoio político e a legitimidade alcançados por essas ações e da importância dessas políticas para o seu rápido avanço, ao passo que a ideia de economic convergence dá conta do quão rápido as inovações tecnológicas são desenvolvidas para combater o aquecimento global.

Outra ideia importante proposta por Giddens diz respeito à de development imperative, segundo a qual os países menos desenvolvidos, por terem contribuído pouco com o aquecimento global, têm o direito, ainda que de forma limitada, de se desenvolver mesmo que fazendo uso de processos que impliquem emissões de carbono mais elevadas.

Ademais, nos capítulos finais do livro, Giddens destaca o fato de que, embora as iniciativas precisem ser tomadas pelos diferentes países, tendo em vista suas particularidades, possibilidades e concepções, uma efetiva resposta à mudança climática deverá ser multilateral, ou seja, os países precisarão trabalhar juntos em variados campos, mesmo que haja diferentes posições e interesses contraditórios.

 

Mudança climática e sociedade: o desafio

A problemática da mudança climática, tomada em suas distintas dimensões, impõe à sociedade, aos indivíduos, à ciência, ao estado e às empresas, um duplo desafio: o primeiro deles é a busca de referências para compreender esse fenômeno e seus impactos sobre o meio ambiente, a economia e a qualidade de vida; o segundo, a busca de soluções e o desenvolvimento de medidas e ações concretas a curto, médio e longo prazos, que visem a mitigar seus efeitos.

Quem decide quais são as prioridades e o montante a ser investido nas políticas verdes? Quais são as ações e medidas recomendadas? Quem deve conduzi-las? Existe espaço para uma coordenação global dos esforços?

Mesmo que não responda de forma definitiva a essas questões, o livro — no que diz respeito ao primeiro desafio, ou seja, compreender o que está ocorrendo- torna-se uma fonte importante de inspiração para a gama crescente de pesquisadores da área de Ciências Sociais que têm se preocupado em estudar esse complexo processo e suas diversas implicações societais.

No que tange ao segundo - o da busca de soluções - , como discutido por Giddens, há um crescimento nas ações e medidas tomadas pela sociedade, grupos econômicos, estados e indivíduos, que buscam mitigar os efeitos e as consequências da mudança climática. No entanto, ainda é bastante incipiente a análise e a reflexão sobre o alcance, o grau de sucesso e a forma como essas medidas têm sido elaboradas e desenvolvidas.

 

 

Recebido: 27/05/2010
Aceite final: 28/06/2010

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