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Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702On-line version ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.26 no.1 São Paulo Jan./June 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022000000100011 

Crianças de revistas (1930/1950)

 

Olga Brites
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Correspondência para:
Olga Brites
Rua Cotoxó, 114 – apto. 33
05021-000 São Paulo – SP
e-mail: olgabrites@uol.com.br

 

 

Resumo

As revistas brasileiras Vida Doméstica e Fon-Fon! publicaram entre 1930 e 1959 diferentes materiais sobre infância: textos, fotografias, caricaturas, desenhos ilustrativos etc. Este artigo analisa algumas imagens fotográficas ali presentes, discutindo seus campos temáticos e alguns procedimentos de análise que contribuíram para a caracterização das crianças no universo social brasileiro pelos periódicos indicados.
As crianças neles representadas eram, na sua maioria, brancas e possuíam vida familiar estruturada (pai, mãe) e condição social privilegiada. As fotos das crianças, em algumas circunstâncias, eram produzidas em estúdios fotográficos e destacavam a beleza e felicidade. Seus trajes e adereços ajudavam a compor a imagem de criança bem nascida e feliz.
O universo da fotografia na infância está articulado a outras preocupações constantes quando se fala de criança: saúde, educação, religiosidade, lazer e moda. As fotos institucionais como, por exemplo, dos parques infantis assumem características diferentes daquelas explicitadas anteriormente. Nesse caso, as crianças eram fotografadas coletivamente como propaganda das atividades desenvolvidas pelas instituições.
Considerando a fotografia como produção social, e evitando, portanto, concebê-la como reflexo do real, o artigo procura articular textos e imagens, bem como refletir sobre diferentes possibilidades do mundo infantil.

Palavras-chave

Infância – Imprensa – Fotografia.

 

Magazine children (1930/1950)

Abstract

The Brazilian magazines Domestic Life and Fon-Fon! published between 1930 e 1950 different materials about childhood: texts, pictures, caricatures, illustrative drawings etc. This article analyzes some of those photographic images, discussing their thematic fields and some analysis procedures that contributed to the characterization of children within the Brazilian social universe by those periodicals.
The children represented in them were, in their majority, white and they possessed structured family lives (father, mother) and a privileged social situation. The children's pictures, in some circumstances, were produced at photographic studios and they highlighted the beauty and happiness. Their clothes and accessories helped to compose the image of well-off and happy children.
The universe of photography in the childhood is articulated to other constant concerns when speaking about children: health, education, religiosity, leisure and fashion. Pictures of institutions such as, for instance, playgrounds assume characteristics different from those described previously. In that case, the children were photographed collectively as an advertisement of the activities developed by the institutions.
Considering the picture as a social production, and avoiding, therefore, to conceive it as a reflex of the real, the article tries to articulate texts and images, as well as to consider different possibilities of the child's world.

Keywords

Childhood – Press – Photography.

 

 

Este artigo discute imagens de infância veiculadas em duas revistas brasileiras – Vida Doméstica e Fon-Fon! – no período de 1930 a 1950.

Há um intenso investimento na infância durante esse período, que se traduziu em ações públicas, como a criação do Departamento Nacional da Criança (DNCr, nos anos 40) e dos parques infantis na cidade de São Paulo (na década anterior), dentre outras iniciativas.

Além disso, a imprensa periódica teve grande crescimento a partir do início do século XX (Sodré, 1977), assumindo os papéis de formadora de opinião pública, espaço de debate e produção ideológica, por meio da valorização das ações governamentais dirigidas à infância, dentre outros tópicos. Colocou-se ainda como educadora da família – em especial, da mulher – no que se refere aos cuidados com a criança.

A periodização, entretanto, não representa uma camisa de força, permitindo refletir sobre momentos anteriores, que oferecem condições de perceber permanências e mudanças em relação às imagens de infância construídas por essas publicações.

As fotografias de crianças publicadas por aquelas revistas foram consideradas como referenciais importantes na construção de uma infância idealizada: robusta, bela e alegre. Esses atributos, explicitados em textos e imagens, são recorrentes para projetar o futuro desejado: sucesso por meio de determinada vida profissional ativa e escolaridade, cuidado com a família bem estruturada, saúde, beleza.

Embora não sejam objeto central de discussão neste artigo, os parques infantis de São Paulo foram destacados por essas revistas como lugares privilegiados para a educação infantil. Elas incorporaram uma discussão sobre tais instituições, presente em diferentes fontes documentais produzidas pelo poder público, que destacava sua função de retirar as crianças das ruas e prepará-las para a vida social, dividindo com os pais a tarefa de educá-las convenientemente e participando da formação da própria família.1

As imagens fotográficas de infância trabalhadas em periódicos brasileiros dos anos 30 a 50 do século XX estavam em sintonia com questões como fragilidade, ameaça sofrida, inocência, perspectiva de futuro, possibilidades de transformação no presente e riscos de mortalidade. Daí, a necessidade de cultivar naquelas páginas uma visão idealizada da criança, padrão a ser alcançado, como forte, saudável, estudiosa, adaptada ao ambiente familiar, escolarizada, religiosa, regrada, bem-comportada, com aspecto higienizado, livre dos estigmas visíveis da carência. A pobreza infantil, também presente nessas publicações, figurava como problema, atraso e objeto de transformação para o bem do país.

A criança abordada nos periódicos era, muitas vezes, o bebê, que merecia cuidados médicos específicos (daí, seções dedicadas à puericultura), e também as mais crescidas, em idade escolar.

 

As revistas

A produção de imagens de infância obedecia a um ritmo específico de elaboração e difusão na imprensa periódica. Tal ritmo incluía a retomada ou a criação de conteúdos com certa regularidade junto ao público leitor, com o surgimento de novas edições. Aquela periodicidade dizia respeito à veiculação de reportagens, fotografias, ilustrações, caricaturas e outros materiais similares.

O periodismo tinha papel ativo no conjunto da vida social, não podendo ser entendido como mero reflexo da sociedade. Assumia uma capacidade de interferir nos processos sociais gerais, estabelecendo articulações entre o universo do consumo e outras práticas, criando necessidades, e conservando hábitos. As revistas e os jornais não se limitavam a registrar imagens de infância preexistentes no social. Eles participavam do fazer social daquelas imagens, operando nos parâmetros de um grupo social e reforçando seus valores.

Nas revistas como Vida Doméstica e Fon-Fon!, editadas no Distrito Federal (Rio de Janeiro), falava-se para mulheres que possuíam poder aquisitivo alto ou médio, abordando a infância de seu meio social, e apenas eventualmente mencionando o universo da pobreza.

Vida Doméstica e Fon-Fon! utilizavam diferentes recursos de linguagem (texto, fotografia, desenhos), possibilitando o trabalho com a construção de sentidos no social por meio de elementos diversificados de expressão.

O periódico Vida Doméstica trazia, além de materiais de propaganda, textos e imagens a respeito de múltiplos temas referentes à família brasileira, como reportagens sobre cuidados com infância, casamento e moda, além de grande quantidade de fotos, cujos conteúdos representavam aquilo que o mensário considerava eventos especialmente significativos.

A revista apresentava-se como a publicação do lar e das mulheres e era propriedade da Sociedade Gráfica Vida Doméstica Ltda., que possuía outras publicações: Vida Infantil, Vida Juvenil e seus respectivos almanaques.

Por suas características, Vida Doméstica era dirigida prioritariamente ao público feminino, e concebia a mulher como consumidora dos diversos produtos anunciados. Destacava aspectos referentes à beleza (daí, anúncios de vários cosméticos: esmaltes, sabonetes e cremes), além de propagandas de tecidos para confecção de vestidos e outros produtos. As propagandas da revista abordavam os mais diversificados artigos e serviços: jóias, óculos, camisas, carrinhos de bebês, relógios, cigarros, móveis, lenços, porcelanas, brinquedos, remédios, alimentos, hotéis, agências de turismo, ítens de moda. Ela dedicava grande parte de suas páginas à publicidade, com muitos números que apresentavam quatro ou cinco páginas iniciais apenas de anúncios. Isto serviu também para financiar o mensário, que teve um longo período de edição, de 1920 à primeira metade da década de 60.

As propagandas de Vida Doméstica reservadas à infância reforçavam as idéias de saúde, beleza e inteligência, apontando produtos que, milagrosamente, resolveriam todos os problemas: Toddy, Emulsão de Scott, Aveia Quaker etc.

Tal revista divulgava também anúncios dos periódicos ligados ao seu grupo editorial, atraindo os leitores para o que essas publicações ofereciam: calendário, trabalhos manuais, publicação de romance com ilustrações coloridas. Destacava-se ainda o luxo gráfico das edições, "reunindo nomes da literatura e das artes nacionais".

Esses anúncios realçavam a qualidade dos vários produtos lançados pelo mesmo grupo, que também se destinavam a crianças e adolescentes.

Em 1940, Vida Doméstica trouxe reportagens que anunciavam seus 20 anos, reeditando matéria do primeiro número, onde estampara seu projeto. Ali, o mensário afirmava "que não era novidade a existência de uma nova revista no Brasil", sugerindo o aparecimento de várias outras (Sodré, 1977; Bahia, 1990). Nesse quadro, no entanto, Vida Doméstica declarava destacar-se como diferente por tratar de assuntos úteis, como avicultura e criação de outros animais (cães, gatos), servindo ao enriquecimento do Brasil, uma vez que dava atenção especial ao desenvolvimento de suas terras. Propunha-se, assim, a divulgar acontecimentos relacionados à agricultura e à pecuária, conclamando ao aproveitamento das riquezas naturais do país.

Tais considerações permitem observar que a própria vida familiar tinha um caráter urbano específico quando a revista surgiu, com um público morador de residências onde havia espaço para a criação de animais, a que o mensário tanto fazia referências, alcançando também, possivelmente, leitores de áreas rurais. Na contracapa da revista, publicava-se freqüentemente calendário agrícola, o que se associava ao peso do público rural como seu alvo. Isso não impediu que a revista, referindo-se à infância, demonstrasse preocupações com a carência de espaços urbanos de lazer, apontando apartamentos como novas moradias que dificultavam a brincadeira das crianças.

Também Fon-Fon! publicava materiais publicitários, embora em menor escala do que Vida Doméstica, e apresentava produtos e serviços semelhantes àqueles mencionados. Iniciando-se em 1907 (Silva, 1990), Fon-Fon! definia-se como "semanário alegre, político, crítico e esfuziante", explorando largamente o desenho humorístico, sem se dirigir prioritariamente ao público feminino, mas trazendo em suas crônicas e outros textos ou imagens alguns apelos para aquele universo de consumo – temas como a flor e o sorriso, formas de conquistar um marido, alimentação adequada para a nutriz etc.

Essas duas revistas diferenciavam-se na medida em que Vida Doméstica era muito mais dirigida à família e ao lar, enquanto a outra publicação se dedicava prioritariamente à caricatura e à política, realçando o espaço carioca. Bassanezi (1996) salientou a preponderância da crônica social em suas páginas. Essa tendência diminuiu sensivelmente nos anos 30/40, quando Fon-Fon! publicou fotografias de mulheres como modelos de elegância e beleza, junto a imagens de pessoas de ambos os sexos, formadas em diferentes cursos universitários, embora as figuras femininas fossem mais destacadas nos universos de luxo e beleza que nos da educação.

Fon-Fon! explorava as situações de humor, nas quais era possível rir de temas que, noutras circunstâncias, se revelavam muito mais dramáticos – alcoolismo, por exemplo. O riso também assumiu ocasionalmente a função de repor papéis tradicionais para a mulher, conservando normas.2 A própria medicina serviu de objeto para o riso, reforçando, por vezes, a imagem de ignorância do paciente, mas também atribuindo ao médico uma potencial ameaça à vida do doente.3

Nesse contexto, as crianças, principalmente os meninos, apareciam como levadas e desafiadoras do mundo adulto.4 A narrativa quadrinizada "Crianças de Hoje" mostrou pais arrumando presentes em árvore de Natal para a filha, que os observava sorrateiramente; em seguida, quando eles se recolheram, ela foi à árvore e mexeu nos brinquedos deixados pelos pais; por fim, estes foram acordar a filha para lhe dar os presentes e ela se comportou como se nada houvesse acontecido (Fon-Fon!, jan. 1949).

Esse último material apresentou uma criança esperta, com valores expressos no seu tempo presente, que dominava o mito de Papai Noel sem renunciar às suas vantagens. O riso, nos exemplos arrolados, não se comprometia rigidamente com nenhum ponto de vista, funcionando como instrumento de acolhimento para determinadas questões e de rejeição para outras (Silva, 1989). O que interessa em relação ao riso é pensar sobre articulações entre os temas abordados e outros materiais dos periódicos.

Predominavam propagandas e fotos nas páginas de Vida Doméstica. Como em Fon-Fon!, os textos que acompanhavam as fotografias eram curtos, apenas explicavam os eventos, quase sempre marcados por luxo e grandiosidade, com homens e mulheres vestidos em estilo sofisticado. Havia, portanto, um modo de vida que era afirmado e reforçado para as leitoras como ideal, próximo das camadas mais privilegiadas socialmente, que apareciam como exemplos de elegância e beleza. As imagens da infância estavam sintonizadas com esse padrão adulto de viver o social, e atributos dos grupos sociais privilegiados também eram designados para o universo infantil.

Repetiam-se nelas, todavia, instrumentos para atingir seus objetivos gerais de vigiar mães, infância e família: valorização da puericultura e a necessidade de controlar o tempo da criança.

 

Crianças fotografadas

As seções "Página Infantil" e "Crianças" de Fon-Fon! dedicavam-se a publicar retratos de crianças, tanto bebês como as maiores. Os meninos crescidos eram fotografados, habitualmente, com roupas mais sérias, como miniaturas de adultos – terno, dólmã. As meninas figuravam em trajes mais propriamente infantis, embora, em alguns casos, a pose para a fotografia revelasse postura composta, na direção da seriedade. Podemos verificar diversas imagens de infância construídas pelas revistas por meio de poses, roupas e adereços.

 

 

 

A fotografia não é reflexo do real nem ilustração, ela é dotada de uma historicidade própria, que considera novas tecnologias, formas de conceber e encarar o social. O fotógrafo, por seu turno, não é mero espectador do objeto fotografado, ele age e interfere, criando novas realidades.

Nessas fotografias de crianças, a pobreza não costumava aparecer, inexistindo espaço para o registro do trabalho infantil, da sujeira, da carência, exceto sob o signo da assistência. A luz que revelava essas crianças fazia parte de um mundo da bela aparência, que indicava saúde e felicidade. Tirar fotos de corpo inteiro integrava um projeto de revelar condições sociais favoráveis: o corpo era elemento importante no diagnóstico dos fotografados – pés, mãos, rosto, tronco, roupas asseadas, limpas, cabelos impecáveis, pele aveludada e macia, sempre branca, tão valorizada no anúncio de certos produtos para a infância. A linguagem fotográfica era parte de um universo marcado por debates e trocas de experiências – iluminação, ambientação, adereços decorativos que facilitavam as poses (Machado, 1984; Kossoy, 1989; Santos, 1989).

A primeira comunhão das crianças – sacramento da Igreja Católica – fez parte desses eventos comemorados socialmente e mereceu registros fotográficos nos dois periódicos analisados. Documentar a primeira comunhão remetia, ainda, a uma dimensão de religiosidade a ser preservada. O texto que acompanha uma das fotos de crianças nessas condições apresentava os seguintes dizeres:

No dia em que Jesus vem alegrar o coração dos pequeninos. É uma data inesquecível na vida das crianças, a da sua primeira comunhão. Fica assinalada para o resto da existência, como a memória feliz da pureza integral da meninice. A graciosa menina Noemia Machado no dia em que se aproximou da Mesa Eucarística e realizou a maior aspiração de sua existência infantil. É dileta filha do sr. Adolfo Machado. (Vida Doméstica, jan. 1930)

Nessa perspectiva, a felicidade absoluta das pessoas (e, mais ainda, das crianças) residia na fé cristã, que devia se fazer presente em todos os lares. A imagem de inocência da criança foi associada a essa dimensão de religiosidade, a ser preservada. Tal espiritualidade pressupunha identificar uma filiação, demonstrando não se tratar de uma criança qualquer. Essa atitude não era exclusiva para a criança de classe média, como se observava em festas de Natal em instituições assistenciais, públicas e privadas, freqüentemente noticiadas em revistas e jornais, em que eram fotografadas personalidades e o público ali atendido, demonstrando a união de todos em Cristo e até a identificação entre crianças pobres e Jesus. Na criança e pela criança, diluíam-se tensões e diferenças sociais. As fotografias apresentam uma classe dominante sintonizada com o universo da pobreza, ajudando, transformando, diferenciando-se de setores de elite alheios a esses problemas. Tratava-se de exibir os pobres e, junto com eles, a elite que o país devia desejar.

 

 

Fotografias de primeira comunhão incluíam trajes pomposos, semelhantes a roupas nupciais – vestido longo, terno ou mesmo fraque –, remetendo o mundo infantil ao universo adulto. Em várias ocasiões, crianças mais crescidas, de ambos os sexos, surgiram carregando adereços da vida escolar – livros, por exemplo. Animais de estimação e brinquedos também apareciam junto aos seus donos, especialmente os menores, em situações de pose calculada. Brinquedos ou animais remetiam ao consumo, status, tudo muito disciplinado, expondo uma imagem de infância num padrão social de privilégio.

Era mais habitual fotografar cada personagem individualmente, procedimento modificado quase apenas na primeira comunhão e no carnaval. Embora os pais não figurassem junto aos filhos, seus nomes eram sempre associados aos das crianças, dividindo com estas o prestígio da exposição pública.

Essas fotos valorizavam a pose, sugerindo situações de estúdio fotográfico, fixando um momento da vida dessas pessoas (Barthes, 1996), e constituindo uma referência de prestígio no meio familiar e social. As fotografias de crianças naquelas seções de Fon-Fon! diferiam de imagens fotográficas usadas em propaganda, em que, por vezes, a exibição do produto nem sempre exigia que as figuras humanas olhassem para o público leitor. Evidenciavam, todavia, a importância da pose fotográfica, até em situações que aparentavam informalidade, como salientado por Denise Bernuzzi Sant'Anna (1997), referindo-se a outros materiais do periodismo.

 

 

 

As experiências fotográficas de Vida Doméstica diziam respeito a certos ritos de passagem valorizados socialmente – primeira comunhão, casamento, encerramento de ano letivo, formaturas –, sugerindo como eles deviam ser comemorados e rememorados: roupas, cerimônias, exibição de zelo e cuidado. Por outro lado, os adultos fotografados representavam dimensões da vida "bem sucedida", resultante de famílias estruturadas. Tais fotografias expressavam sintonia com valores sociais dominantes.

A família do presidente Vargas tinha também destaque nesses ritos fotográficos, como modelo de filhos bem-criados e exemplo para o Brasil (Vida Doméstica, jan. 1938), imagem paternal e familiar que foi discutida, a partir de outras fontes, pela historiadora Maria Helena Capelatto (1996).

Páginas que noticiavam casamentos por meio de fotos eram freqüentes, com meninas que apareciam como damas de honra. Fotografias de noivas paulistas também foram publicadas em vários números da revista, destacando o luxo. Ao mesmo tempo, o casamento privilegiado era aquele realizado na Igreja Católica, num contexto de pompa. Não havia espaço para o registro de relações externas àqueles padrões – concubinatos, mães solteiras, relações amorosas eventuais, roda dos expostos –, situações que Maria Odila Silva Dias (1984) indicou em relação ao século XIX e que continuavam a ocorrer no período abordado.

Existiam também fotografias de cerimônias dessa natureza em âmbitos populares, feitas por fotógrafos ambulantes, que não chegavam àquele espaço de publicação, evidenciando a assimilação da linguagem fotográfica por esses grupos sociais dentro dos seus padrões de vida (roupas, ambientes etc.), como consta de lembrança pessoal de fotografias de meus pais, bem como de depoimentos de conhecidos sobre fotografia ambulante nos anos 40 e 50.

Retratos infantis, que realçavam a filiação das crianças e a infância como expressão de beleza, alegria e felicidade na família, foram divulgados por Fon-Fon! desde os anos 20, junto com fotografias de casamentos, moças, formaturas e bodas de prata (Fon-Fon!, jan./fev. 1926).

Em Vida Doméstica, as crianças apareciam fotografadas em várias solenidades, como audição em conservatório musical, o que não deixava de ser propaganda da própria escola, apontando uma musicalidade que educava de acordo com a psicologia e a didática.

Meninos e meninas foram também fotografados em bailes carnavalescos, com suas diversas fantasias. A imagem da infância, nesses casos, foi sempre de sucesso, espetáculo, graça, beleza, felicidade.

 

 

Eram comuns as fotografias de crianças no encerramento do ano letivo. Sobre um desses eventos, uma das revistas escreveu:

Estas fotografias encantadoras são da festa de encerramento do curso primário do Colégio Jacobina. Encanto, graça, dois adjetivos que cabem tão bem à infância, ali se encontravam para alegria dos assistentes, pais e pessoas amigas das famílias das alunas, que não se esqueceram de aplaudir as pequenas artistas. Momentos da infância que nunca mais serão esquecidos, estas festas de fim de ano têm o dom de deixar uma recordação agradável de um ano passado no convívio escolar, para que mais tarde possam sentir como nos versos do poeta, as saudades da infância querida que os anos não trazem mais. (Fon-Fon!, jan. 1950)

A imagem idealizada da infância expressou-se em alusão a bons tempos. As recordações desse período deveriam ser preenchidas pela alegria que representava vivê-la, etapa "risonha e franca", que devia retornar por meio de lembranças positivas.

Vida Doméstica identificou quais momentos da infância o leitor precisava guardar na lembrança, incentivando o registro fotográfico como instrumento adequado para preservar recordações de festas e momentos de sucesso.

Esse mesmo tom foi usado pelo periódico no registro de diversos eventos, como as formaturas da Faculdade Nacional de Medicina, da Universidade do Brasil, e dos Colégios Companhia Santa Tereza de Jesus, Bennett, Nossa Senhora de Sion, Anglo-Americano e Notre Dame, abrangendo adultos e seguindo os mesmos padrões de luxo e sofisticação assinalados em relação ao mundo infantil. Todas essas instituições de ensino eram de elite, o que ajuda a situar o âmbito de atenção e de possível circulação de Vida Doméstica.

Outra seção dessa revista que orientava no cuidado dos filhos, "Guia das Mães", apresentava-os como as "melhores boas festas de casais venturosos", e eram muitas as fotos de crianças enviadas para serem publicadas, com textos curtos, que identificavam os fotografados – procedimento freqüente da imprensa brasileira até esse período, visando a angariar rendas (Sodré, 1977). O mensário colocava os serviços de fotógrafos à disposição dos leitores, circunstância que reforça interpretações aqui feitas sobre a intencionalidade e a historicidade do ato fotográfico. Eis dois exemplos daquelas legendas:

Liamir, com três anos e meio, filhinho do sr. F. Guerriére e de sua exma. esposa, dona Adelina Guerriére, cirurgiões dentistas. O interessante filhinho do Dr. Agostinho C. Brêtas, médico. (Vida Doméstica, jan. 1930)

Registrava-se sempre a prestigiada atividade profissional dos pais, indicando ligações da infância destacada com status social. Nesses termos, tais fotografias funcionavam como uma espécie de publicidade pessoal e familiar, fortalecendo publicamente as imagens daquelas pessoas. A revista também apresentava retratos de personalidades públicas, como o presidente Vargas. Divulgar fotografias e nomes de família era um gesto de aproximar esses personagens daquele universo de conhecimento público ampliado.

Essas imagens de crianças não combinavam com os índices alarmantes de mortalidade infantil, mais presentes na imprensa diária paulistana (O Estado de São Paulo e Diário Popular) e eventualmente referidos naquelas revistas. A insistência das últimas em publicar matérias reservadas à puericultura expressou preocupação de preservar a vida de crianças, inspirada no modelo do adulto bem-sucedido. Por outro lado, a criança fotografada naquelas circunstâncias ritualísticas aparecia integrada ao mundo adulto, demonstrando relação harmoniosa entre pais, filhos e fotógrafo, e evidenciando a circulação desses valores entre adultos e crianças.

Esse universo apontado pelas revistas estava, em certos aspectos, diferenciado daquilo que era parâmetro para as camadas populares. O uniforme nas escolas destinadas aos pobres, por exemplo, era uma forma de evitar a aparência indesejada das crianças, representando também, simbolicamente, igualdade de condições. Em escolas de elite, ao menos até os anos 50, uniformes eram usados como símbolo de ostentação, incluindo divisão entre roupas para o cotidiano e aquelas destinadas a desfiles cívicos e festas – tecidos ainda mais finos, acompanhados de chapéus e luvas etc.

Também para crianças trabalhadoras, como jornaleiros e vendedores ambulantes, os uniformes eram uma maneira de evitar trajes indesejados, maltrapilhos, identificando-as no espaço urbano, disciplinando suas atividades, e separando trabalhadores infantis de menores delinqüentes, e ambos das crianças bem-nascidas.

As crianças fotografadas em atividades escolares ou exibições cívicas não eram apresentadas individualmente. As fotos consideravam sempre grande quantidade de alunos, como nos parques infantis, uniformizados, disciplinados, exercendo atividade física orientada, demonstrando que a preocupação principal era valorizar iniciativas das instituições consideradas, levando em conta a idéia de que o projeto era bem recebido por um número expressivo de crianças e famílias.

 

 

Em alguns momentos, houve críticas aos shorts usados por meninas e mocinhas em desfiles na cidade, julgados "sumários", exibidores do físico. A imprensa, fazendo esses comentários, assumia-os como pertinentes, apontando que eles surgiram em "rodas de pessoas respeitadas". O tema apareceu no jornal paulistano A Gazeta (1937).

Fon-Fon! ofereceu sugestões de roupas para crianças, apresentando modelos e moldes, indicando tecidos finos: organdi, cambraia de linho branco etc. (Fon-Fon!, jan. 1938). Costurar era desaconselhado apenas em alguns momentos da gravidez, levando em conta os cuidados para preservação da saúde da mãe e da criança (Fon-Fon!, fev. 1942).

Recomendava-se simplicidade nos trajes infantis, definindo o que se considerava bom-gosto e atitudes inadequadas nas vestimentas. Também aqui julgava-se necessário observar a criança, para definir momentos significativos de sua vida. Evidentemente, essa criança tinha uma identidade social específica de classe média e a atividade da costura também aparecia como tarefa doméstica da mulher nessa faixa social (Fon-Fon!, jun. 1942).

Considerando que a linguagem fotográfica necessitava de um repertório de conhecimentos do leitor, sua decodificação requeria referenciais, demonstrando que tal leitura não dependia apenas de uma visão imediata. A seção "Teste Fotográfico", de Fon-Fon!, exigia do leitor que ele identificasse as pessoas fotografadas através de múltiplas opções, à maneira de um teste (Fon-Fon!, out. 1949).

Junto com a fé, a imagem fotográfica da criança foi também associada ao poder de Estado, como se observa em cena de Getúlio Vargas com trigêmeos, vestidos como marinheiros, o presidente segurando a mão de um deles. Segundo a legenda dessa imagem, Vargas amava as crianças também como educador que era, função que, nas páginas da revista, se deslocava entre médicos, mães, professores e outros atores sociais. Os trigêmeos foram usados como símbolo do pensamento presidencial sobre o futuro, coadjuvando uma legitimação dessa autoridade (Fon-Fon!, mar. 1942).

Heloísa Helena de Jesus Paulo (1987) comenta a produção de cartilhas, santinhos e outros materiais destinados aos jovens nesse período, conferindo-lhes "um papel de destaque na edificação de uma nacionalidade". Capelatto (1996) realizou análise comparativa da propaganda varguista e peronista, salientando o menor apelo emocional nos exemplos brasileiros.

Essas fotografias de crianças tiveram o papel de tornar ainda mais palpáveis os temas abordados (beleza, robustez, alegria, elegância, riqueza), explorando o poder de convencimento delegado à visão. A rapidez de articulação entre assuntos e personagens com base em fotografias foi importante dimensão nas imagens de infância desse período, situando-as em múltiplos contextos da vida social.

Em Fon-Fon! ocorreu procedimento similar, que pode ser exemplificado com a fotografia do Dr. Paulo Frontin, homem público, cuja condição de pai foi valorizada por adjetivação positiva, ladeado pelos filhos – duas meninas e um menino (Fon-Fon!, dez. 1907). Embora esse exemplo seja do início do século, a prática permaneceu na revista até o período aqui discutido.

As legendas de fotografias em Fon-Fon! identificavam meninas como "graciosas" ou "interessantes", enquanto os meninos eram designados como "inteligentes". Essa diferença indica que as imagens de infância também participavam das identidades de gênero.

Schemmes (1995) destacou o papel das festas cívicas na consolidação da idéia do novo e no apoio ao governo Vargas, afirmando que desempenhavam importante papel na "cooptação das massas" e no "disciplinamento dos cidadãos", "considerando-se fundamental a participação das escolas, das crianças e das mulheres, além dos homens da Escola de Educação Física do Exército, Polícia, Tiros de Guerra etc." (Schemmes, 1995).

Um lugar privilegiado da cidade de São Paulo para registrar a presença de crianças em situações solenes, como o Dia da Criança, foi o Parque da Água Branca. Fotos panorâmicas mostravam a grande quantidade de crianças em atividades físicas. A prática da educação física era elogiada como benéfica a mulheres e crianças, sendo lembrados o Departamento de Educação Física do Estado de São Paulo e a Cruzada Pró-Infância. No caso do "Concurso de Robustez Infantil", os bebês eram fotografados de fraldas, sentados, de peitos nus. O jornal destacou como símbolo dessa campanha uma criança nua numa balança (O Estado de São Paulo, nov. 1936). Também figuraram crianças vestidas, apresentadas pelas mães sorridentes, que exibiam os filhos para o público leitor como frutos de grande cuidado, numa atitude de orgulho.

 

 

Política institucional e pobreza

As ações governamentais mereceram sempre elogios por parte de Vida Doméstica e outros órgãos congêneres. O Departamento Nacional de Propaganda foi ali apresentado como órgão que atuava de forma inteligente, por exemplo, na produção cinematográfica oficial, servindo de elemento para orientar outras realizações nessa área, no Brasil (Vida Doméstica, jan. 1939). A revista apresentava-se como dedicada às realizações do "Regime Nacional". A partir disso, podemos afirmar que as imagens de infância divulgadas pelo mensário estavam em sintonia com projetos políticos mais amplos, desempenhando neles um papel ativo.

É demonstrativa dessa dimensão a reportagem "O Brasil é uma Democracia Educativa", caracterizando a política interna brasileira como "educadora, de assistência, de disciplina e controle de todas as atividades individuais" (Vida Doméstica, mar. 1941).

As noções de trabalho e ordem foram empregadas de forma a qualificar as ações governamentais. O Estado acolheria a todos, sem distinção de nacionalidade ou religião. O presidente foi apresentado como símbolo de unidade da nação.

A democracia foi defendida e definida como o sistema político que tinha por pressupostos a liberdade e a igualdade, aquele que vinha do povo e se voltava para ele, uma forma de organização que se opunha a "liberalismos desordenados". As palavras disciplina e civilização foram evocadas para legitimar a forma de governo.

Esse Estado estaria acima dos interesses individuais e de partidos políticos. A sociedade saudável seria aquela que observasse civismo, educação, disciplina. Assim, vida privada e pública confundiam-se no sentido da legitimação desse poder de Estado. Daí, sua insistência em normatizar a vida da família, abrangendo inúmeros espaços da existência infantil.

O olhar para as crianças pobres foi interpretado com base em atitudes consideradas "beneméritas" de alguns homens de posses, "desprovidos de soberba" (Vida Doméstica, jan. 1952). A pobreza, em Vida Doméstica e Fon-Fon!, apareceu a partir da filantropia, sendo atendida por meio de obra generosa de figuras que tinham certo destaque social, inclusive os governantes, e dos ricos, portadores de "compaixão" pelos necessitados, constituindo uma imagem da infância como base da riqueza da nação.

Valorizava-se a pobreza, na medida em que fosse considerada generosa e afetiva. Nesse sentido, Vida Doméstica publicou um texto intitulado "Uma Dedicação Vale Mais do que a Fortuna", abordando a história de uma família de posses, que colocou a mãe, já idosa, em asilo sofisticado, deixando-a ao abandono: sua saúde ficou ainda mais fragilizada devido à ausência dos filhos. Ao mesmo tempo, apresentava uma experiência de mulher pobre, que vivia sozinha, com mãe doente, merecedora de todos os cuidados da filha zelosa, capaz de assumir, apesar da ausência de recursos financeiros, a doença materna. Resultava dessa narrativa a moral de que o dinheiro não era tudo, importando muito mais a dimensão afetiva da relação familiar (Vida Doméstica, out. 1942).

De acordo com o projeto geral de Vida Doméstica para a família, os laços mãe-filhos eram reforçados na relação inversa, quando os filhos deviam cuidar da mãe. Isso implicou uma idealização da pobreza moralizada e feliz, que não dependia de grandes recursos econômicos para praticar o bem.

A relação mãe-filhos sempre funcionou como apelo nas reportagens que tratavam da pobreza. Em Fon-Fon!, o tema foi também comentado a partir da experiência da Segunda Guerra Mundial. Para isso, foram publicadas fotografias de crianças italianas pobres, apontando a habitação como um dos principais problemas resultantes da guerra: "Esses garotinhos descalços, sujos e esfarrapados de hoje são os cidadãos da Itália de amanhã" (Fon-Fon!, abr. 1949).

Essa visão da infância, reportando-se a um anti-modelo da criança higienizada e com lar bem estruturado, era uma perspectiva que também se tinha para o Brasil, embora aqueles textos e imagens dessem a impressão de que tais problemas estivessem muito afastados do país. Pensar na infância, portanto, era projetar o futuro desejável, que não se confundia com aquele presente. O contexto da Segunda Guerra Mundial foi apresentado como perigo e ameaça para a criança, em seu nome deveriam ser evitadas ações belicosas (Folha da Manhã, 19 set. 1942).

 

Conclusões

As imagens fotográficas de crianças nas revistas Vida Doméstica e Fon-Fon! estavam sintonizadas com artigos e outros textos que valorizavam uma família bem estruturada, com filhos saudáveis. O que se encontrava fora desses padrões era visto como desvio e devia ser corrigido.

Tais revistas davam voz a médicos, educadores e outros profissionais como aliados da imprensa no que se refere à preservação e transformação da realidade. Iniciativas que representavam construir possibilidades de afirmação dos ideais propostos eram divulgadas e defendidas pelos periódicos, como ocorria com parques infantis e seções de puericultura, dentre outras.

A família, para chegar aos padrões ideais ali defendidos, devia participar de um projeto de educação que se iniciava antes do casamento. Daí, a insistência nas recomendações sobre o parceiro ideal e estratégias de preservação do casamento, criticando eventuais desvios em relação a esses projetos – feminismo, trabalho da mulher fora do lar etc. Apesar disso, as revistas lidavam com conflitos socialmente presentes, anunciando o trabalho feminino em propagandas, e assumindo atividades assistenciais como tarefas femininas que se desdobravam para fora do lar também no cuidado com as crianças. Ao mesmo tempo que valorizavam trajes luxuosos e vida social ativa, condenavam a excessiva dedicação a essas atividades quando representavam prejuízo ao bom convívio familiar.

Pode-se identificar que, do ponto de vista das revistas aqui discutidas, a harmonia no lar era dada pelos cuidados e orientações científicas adequadas; fora dele, isso foi abordado a partir da escolaridade, que começava nos maternais, passando pelos parques infantis e atingindo o ensino fundamental.

Vida Doméstica referiu-se à Conferência Nacional de Proteção à Infância de 1933, publicando trecho que comentava a fala de Lucilia Ribeiro:

O lar deve ser para a creança, uma fonte de alegria; ali deve receber o primeiro toque para a formação do seu caracter. Entre carinhos, mas também justas e severas reprehensões, é que a verdadeira mãe, segundo Christo, forma os tenros corações de seus filhinhos; se guia-lhes os passos ainda vacillantes e incertos, guia-lhes também a alma ‘thesouro divino' que Deus, Suprema auctoridade, depositou-lhe nas mãos. Os paes devem ser os constantes orientadores de seus filhos; devem fazer da creança, por uma instrucção sabia e criteriosa, um ente capaz de apreciar a Virtude, a fim de nos seus actos, pratica-los. (Vida Doméstica, fev. 1936)

Esse trecho é muito representativo em relação às imagens de infância veiculadas pelos periódicos comentados. Ele contém a expressão "verdadeira mãe", qualificando a quem se referia, situando-a em relação a Cristo. Atribui aos pais uma permanente função orientadora, em nome de Deus, e coloca como fruto da correta orientação a prática da virtude, devidamente sacralizada.

Em relação à infância, os periódicos desenvolveram uma cultura fotográfica, que atuava em momentos socialmente privilegiados – primeira Comunhão, festas de encerramento do ano letivo, carnaval – e também num cotidiano que afirmava a beleza e o sucesso. Através das fotografias, constituía-se um espetáculo social do que se devia ver.

Ao mesmo tempo, havia cortiços, abandonos, trabalho infantil: essas outras faces da criança idealizada, higienizada e bela, que, embora tendo a existência admitida, pouco apareceram em Vida Doméstica e Fon-Fon!.

 

 

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Recebido em 31.08.00
Aprovado em 07.11.00

 

Olga Brites é professora do programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, nas áreas de História do Brasil e Pesquisa Histórica. Doutorou-se em História social na mesma universidade, sob orientação da Profa. Dra. Déa R. Fenelón.

 

 

1. Essas questões são discutidas no capítulo "Imagens de crianças: algumas experiências", da tese de doutoramento pela PUC/SP, intitulada Imagens da infância – São Paulo e Rio de Janeiro, 1930 a 1950, de nossa autoria.

2. Uma mulher pergunta ao marido: "Querido, por que não fazes um seguro de vida?" Ele responde-lhe: "Por que? Vais principiar de novo a cozinhar?" (Fon-Fon!, maio 1942).

3. Um médico indagou ao paciente: "Fizeram-lhe bem as sanguessugas que lhe receitei ontem?". O doente respondeu: "Não sei, doutor, a única coisa que posso adiantar é que tinham um sabor detestável". Noutro exemplo, uma paciente declarou: "Sofro muito, Doutor. Algumas vezes, tenho ímpeto de matar-me". O médico rebateu: "Não se aflija tanto, Senhora, para que eu estou aqui?". Noutra ocasião, alguém perguntou a uma mulher: "E seu marido, já está fora de perigo?". A resposta feminina foi: "Ainda não, pois o médico continua indo lá em casa todos os dias" (Fon-Fon!, jul. 1942).

4. Num desenho, apareceram homem, elefante e dois moleques correndo, com o primeiro declarando: "Seus moleques! Eu os ensinarei a por sabão na água do elefante!" (Fon-Fon!, jan. 1938).

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