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Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702

Educ. Pesqui. vol.32 no.2 São Paulo May/Aug. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022006000200003 

ARTIGOS

 

Grupos de discussão na pesquisa com adolescentes e jovens: aportes teórico-metodológicos e análise de uma experiência com o método

 

Discussion groups in the research with teenagers and youngsters: theoretical-methodological contributions and analysis of an experience with the method

 

 

Wivian Weller

Universidade de Brasília

Correspondência

 

 


RESUMO

Trabalhar com grupos juvenis de contextos interculturais e sociais distintos àquele do pesquisador exige cuidado e rigor no procedimento e na escolha dos métodos a serem utilizados para a coleta de dados, assim como uma preparação para o trabalho de campo. Mesmo assim, o pesquisador será confrontado com códigos de comunicação e estilos de vida que lhe são alheios. A decodificação desses sistemas exige uma espécie de imersão do pesquisador no meio pesquisado e um controle metodológico permanente do processo de interpretação, de forma a evitar vieses ou afirmações distorcidas sobre a realidade social de seus entrevistados. Nos últimos anos, o número de dissertações e teses sobre infância e juventude tem aumentado consideravelmente. No entanto, pela necessidade de entregarmos os trabalhos nos prazos estipulados ou por atribuirmos ao referencial teórico maior grau de importância, poucas vezes nos dedicamos a reconstruir a trajetória percorrida durante a fase de coleta e análise dos dados empíricos e a justificar as escolhas teórico-metodológicas realizadas. O presente artigo reconstrói o percurso de uma pesquisa de campo realizada com jovens em São Paulo e em Berlim, apresenta os instrumentos utilizados na coleta de dados e analisa o emprego dos grupos de discussão como um método de pesquisa que privilegia as interações e uma maior inserção do pesquisador no universo dos sujeitos, reduzindo, assim, os riscos de interpretações equivocadas sobre o meio pesquisado.

Palavras-chave: Pesquisa qualitativa — Grupos de discussão — Grupos focais — Adolescência — Juventude.


ABSTRACT

Working with groups of youngsters from social and intercultural contexts distinct from those of the researcher requires care and rigor in the procedure and choice of methods to be used in data collection, just as in the preparation for the fieldwork. Even so, the researcher will be confronted with codes of communication and lifestyles that are alien to him/her. The decoding of these systems demands a kind of immersion of the researcher into the medium studied, and a constant methodological control of the process of interpretation, so as to avoid biases and distorted statements about the social reality of the interviewees. In the last years, the number of theses and dissertations about childhood and youth has increased considerably. However, because of the need to comply with deadlines, or for attributing to the theoretical framework a higher level of importance, we seldom dedicate ourselves to reconstruct the trajectory followed during the phases of collection and analysis of the empirical data, and to justify our theoretical-methodological choices. The article reconstructs the path followed by a fieldwork carried out with youngsters in São Paulo and in Berlin, describes the instruments used to collect data, and analyzes the use of discussion groups as a research method that privileges interactions and the greater insertion of the researcher in the subjects' universe, thereby reducing the risk of mistaken interpretations about the medium researched.

Keywords: Qualitative research — Discussion groups — Focal groups — Adolescence — Youth.


 

 

O presente artigo reconstrói o percurso de uma pesquisa de campo, discute as escolhas teórico-metodológicas e os problemas encontrados no processo de coleta e análise de dados com o objetivo de apresentar algumas reflexões que possam auxiliar na elaboração de futuras pesquisas com adolescentes e jovens. Trata-se de um estudo realizado com jovens pertencentes ao movimento hip hop nas cidades de São Paulo e Berlim, cujos resultados foram apresentados como tese de doutorado no Departamento de Sociologia da Universidade Livre de Berlim e publicados posteriormente como livro e sob forma de artigos (entre outros: Weller, 2003 e 2004)1. Embora tenham sido utilizados diferentes procedimentos de coleta de dados durante a pesquisa em questão – observação participante, entrevistas de grupo, entrevistas narrativas (Jovchelovitch; Bauer, 2002), entrevistas com especialistas (Flick, 2004) –, o método conhecido como grupo de discussão constituiu a principal fonte de coleta de dados, o que justifica sua abordagem ao longo deste artigo. Inicialmente, faremos uma breve discussão sobre entrevistas de grupo, buscando esclarecer algumas diferenças entre grupos focais e grupos de discussão. Em seguida, apresentaremos nossa experiência com o método, destacando sua contribuição para a pesquisa com adolescentes e jovens.

 

Entrevistas de grupo: esclarecendo algumas diferenças entre grupos focais e grupos de discussão

Grupos focais

Em alusão ao conceito de esfera pública de Jürgen Habermas, Gaskell (2002) afirma que os grupos focais podem ser definidos como uma "esfera pública ideal", já que se trata de "um debate aberto e acessível a todos [cujos] assuntos em questão são de interesse comum; as diferenças de status entre os participantes não são levadas em consideração; e o debate se fundamenta em uma discussão racional" (p. 79). Essa técnica de entrevista – de origem anglo-saxônica – começou a ser utilizada nas pesquisas de marketing e de reação do público à propaganda no período do pós-guerra por pesquisadores como Robert Merton, Patrícia Kendall e P. Lazarfeld (Loos; Schäffer, 2001). Os grupos focais são geralmente constituídos por um número de seis a oito pessoas, que são convidadas a debater sobre um determinado assunto com a ajuda de um moderador, como nos talk shows apresentados em canais de televisão. No entanto, de acordo com Gaskell (2002), existem pelo menos três progenitores ou tradições associados à utilização de grupos focais como técnica de entrevista, sendo eles:

  • a tradição da terapia de grupo (Tavistock Institute);
  • a avaliação da eficácia da comunicação (Merton; Kendall, 1984);
  • a tradição da dinâmica de grupo em psicologia social (Lewin).

Para Flick (2004, p. 132-133), essa técnica já bastante antiga parece ter passado por "uma espécie de renascimento", uma vez que continua sendo freqüentemente utilizada por enfatizar o "aspecto interativo da coleta de dados" e propiciar uma 'economia de tempo' por meio da obtenção de mais de um depoimento ou opinião sobre um determinado assunto de uma única vez (Rodrigues apud Cruz Neto; Moreira; Sucena, 2002). Os grupos focais se apresentam como um "método quase naturalista" de geração de representações sociais mediante a simulação de discursos. De acordo com Flick (2002, p. 128), os grupos focais podem ser vistos também como um "protótipo da entrevista semi-estruturada" e os resultados optidos por meio desse tipo de entrevista

[...] foram de tal forma positivos que a técnica recebeu novo alento no campo das ciências sociais, inicialmente pelo viés político, com sua utilização no mapeamento e na elaboração do perfil dos eleitores, influenciando diretamente na definição das diretrizes e ações de partidos e candidatos. Trilhando esse percurso, espraiou-se pelos diversos segmentos da pesquisa social, suscitando novas situações que, ainda inconclusas, precisam ser amplamente discutidas pelos profissionais da área, sob o risco de assistir-se a um transplante cuja incompatibilidade estrutural – a contradição mercado x sociedade civil, consumidor x cidadão, mercadoria x ser humano – só é percebida próxima da irreversibilidade, causando inúmeras e graves seqüelas. (Cruz Neto; Moreira; Sucena, 2002, p. 3)

Como técnica para avaliar a reação de um grupo de pessoas sobre um determinado tema ou produto, o papel do entrevistador se confunde muitas vezes com o do repórter ou moderador, já que este é responsável pela organização das falas e dos conteúdos. Para Callejo Gallego,

[...] el moderador de la reunión, además de ser el representante del poder y la instancia investigadora, se convierte prácticamente en un conmutador de la circulación. Es el que da paso a las intervenciones de unos y otros participantes. Pero, sobre todo, es el que da paso a unos temas y cierra el paso a otros, poco o nada relacionados con los objetivos de la investigación. (2002, p. 419)

Como procedimento de coleta de dados, os grupos focais têm sido muitas vezes utilizados em pesquisas na área de saúde (Gatti, 2005), em pesquisas explorativas ou avaliativas ou ainda como uma técnica complementar aos dados obtidos por meio de pesquisas quantitativas, ou seja, de questionários aplicados (Merton, 1984). Para fins mercadológicos ou de coleta de opiniões sobre um determinado assunto, diferenças econômicas e sociais, o nível de formação e a faixa etária dos entrevistados não são relevantes para a análise (Gaskell, 2002). Também não é necessário que os membros de um grupo focal se conheçam ou tenham algum tipo de vínculo. Gatti apresenta ainda as sugestões de alguns autores, entre outras, a de que os grupos devem ser formados por pessoas "que tenham diferentes opiniões em relação às questões que serão abordadas" e "que em certas condições pode não ser muito produtivo misturar gêneros no grupo, porque os homens têm a tendência a falar com mais freqüência e com mais autoridade quando há mulheres no grupo [...] e isso pode irritá-las e trazer reações que podem prejudicar o trabalho em relação aos objetivos visados" (2005, p. 20). Tais características, assim como o papel desenvolvido pelo moderador durante a entrevista, fazem dos grupos de discussão um procedimento distinto aos grupos focais, uma vez que o objetivo principal desse tipo de entrevista é a obtenção de dados que permitam a análise do meio social dos entrevistados, bem como de suas visões de mundo ou representações coletivas.

Grupos de discussão

Os grupos de discussão passaram a ser utilizados na pesquisa social empírica pelos integrantes da Escola de Frankfurt a partir dos anos 50 do século passado, especificamente em um estudo realizado em 1950-51 e coordenado por Friedrich Pollok, no qual foram realizados grupos de discussão com 1.800 pessoas de diferentes classes sociais (Pollok, 1955; Loos; Schäffer, 2001). Porém, foi somente no final da década de 1970 que esse procedimento recebeu um tratamento ou pano de fundo teórico-metodológico – ancorado no interacionismo simbólico, na fenomenologia social e na etnometodologia –, caracterizando-se, dessa forma, como um método e não apenas como uma técnica de pesquisa de opiniões. Segundo Bohnsack (1999), para que os grupos de discussão adquiram a propriedade de método, é necessário que os processos interativos, discursivos e coletivos que estão por detrás das opiniões, das representações e dos significados elaborados pelos sujeitos sejam metodologicamente reconhecidos e analisados à luz de um modelo teórico ou, em outras palavras, quando interpretados com base em categorias metateóricas relacionadas a uma determinada tradição teórica e histórica.

Werner Mangold analisou em sua tese de doutorado as pesquisas empíricas realizadas pela Escola de Frankfurt e os procedimentos metodológicos empregados. Foi um dos primeiros pesquisadores a criticar a forma como os depoimentos coletados em entrevistas grupais eram analisados e a dar um novo sentido aos grupos de discussão, transformando o método em um instrumento de exploração das opiniões coletivas e não apenas individuais (Mangold, 1960; Bohnsack, 1999). De acordo com Mangold,

[...] a opinião do grupo não é a soma de opiniões individuais, mas o produto de interações coletivas. A participação de cada membro dá-se de forma distinta, mas as falas individuais são produto da interação mútua [...]. Dessa forma as opiniões de grupo cristalizam-se como totalidade das posições verbais e não-verbais. (1960, p. 49 - Tradução e grifos nossos)

As opiniões de grupo (Gruppen-meinungen) não são formuladas, mas apenas atualizadas no momento da entrevista. Em outras palavras: as opiniões trazidas pelo grupo não podem ser vistas como tentativa de ordenação ou como resultado de uma influência mútua no momento da entrevista. Essas posições refletem acima de tudo as orientações coletivas ou as visões de mundo do grupo social ao qual o entrevistado pertence. Essas visões de mundo (Weltanschauungen) resultam — segundo Mannheim (apud Weller et al., 2002, p. 378-79) – de "uma série de vivências ou de experiências ligadas a uma mesma estrutura que, por sua vez, constitui-se como uma base comum das experiências que perpassam a vida de múltiplos indivíduos". Nesse sentido, Mangold (1960) estava interessado em conhecer não apenas as experiências e opiniões dos entrevistados, mas as vivências coletivas de um determinado grupo (por ex.: refugiados) ou as posições comuns de uma determinada classe social (por ex: trabalhadores da indústria do carvão, agricultores etc.), independentemente de se conhecerem ou não entre si (Bohnsack, 1999).

As reflexões de Mangold (1960) abriram caminho para um outro aspecto a ser pesquisado por meio dos grupos de discussão, denominado pelo autor como 'opiniões de grupo' e que dizem respeito às orientações coletivas oriundas do contexto social dos indivíduos que participam em uma pesquisa: os entrevistados passaram a ser vistos, a partir de então, como representantes do meio social em que vivem e não apenas como detentores de opiniões. Para o sociólogo Ralf Bohnsack (1989, 1999 e 2004) – na época, assistente de Werner Mangold –, as discussões

[...] realizadas com grupos reais devem ser vistas como representações de processos estruturais [...] que documentam modelos que não podem ser vistos como casuais ou emergentes. Esses modelos remetem ao contexto existencial compartilhado coletivamente por esses grupos, ou seja, às experiências biográfico-individuais e biográfico-coletivas, que [por sua vez] estão relacionadas às experiências comuns como membros de um meio social e de uma mesma geração, às experiências como homens ou mulheres, entre outras, e que em um grupo de discussão são articuladas por meio de um 'modelo coletivo de orientação'. (Bohnsack; Schäffer, 2001, p. 328-329 – Tradução nossa)

Com base na sociologia do conhecimento de Karl Mannheim, em especial de seus escritos publicados postumamente no livro Strukturen des Denkens [Structures of Thinking], a pesquisa social empírica ganhou novos contornos, sobretudo no que diz respeito aos métodos de interpretação de dados (Weller, 2005). Ralf Bohnsack acrescenta novos elementos aos grupos de discussão e desenvolve um método de análise que ele denomina como método documentário de interpretação (sobre esse método ver Weller, 2005; Bohnsack; Weller, 2006) em alusão ao método que Mannheim apresentou no ensaio Beiträge zur Theorie der Weltanschaungs-interpretation (Contribuições para a teoria da interpretação das visões de mundo) publicado originalmente em 1921-1922. Bohnsack integra em seu método de interpretação dos grupos de discussão tanto a perspectiva 'interna' – que visa reconstruir o modelo de orientação por meio do qual os integrantes do grupo interagem e verificar a emergência e a processualidade dos fenômenos interativos –, como a perspectiva 'externa', voltada para a análise da representatividade desses fenômenos interativos em uma determinada estrutura. Essa dupla perspectiva de análise rompe, de certa forma, com a tradição interacionista predominante em algumas pesquisas da década de 1970, nas quais a relação entre o grupo pesquisado e o contexto social permanecia em segundo plano (Bohnsack; Schäffer, 2001).

Os grupos de discussão, como método de pesquisa, passaram a ser utilizados a partir da década de 1980, sobretudo nas pesquisas sobre juventude. Estudos clássicos da sociologia da juventude bem como da psicologia do desenvolvimento definem o peergroup como sendo o espaço de maior influência na formação e articulação de experiências típicas da fase juvenil. É principalmente no grupo que o jovem trabalhará, entre outras, as experiências vividas no meio social, as experiências de desintegração e exclusão social, assim como as inseguranças geradas a partir dessas situações. Os grupos de discussão têm contribuído na análise de fenômenos típicos dessa fase do desenvolvimento, permitindo a elaboração de diferentes tipologias, tais como:

  • de desenvolvimento (Entwicklungstypik) – voltada para a análise das mudanças biográficas relacionadas às experiências adquiridas na fase de transição entre a adolescência e a vida adulta;
  • geracional (Generationstypik) – das características comuns de um mesmo grupo etário, muitas vezes, em contraposição às gerações mais velhas;
  • do meio social (Milieu-oder sozialräum-lichetypik) – das relações entre origem social e orientação biográfico-profissional;
  • de formação educacional (Bildungstypik) – relacionada às diferenças entre os tipos de escola (por exemplo: entre alunos da Hauptschule, Realschule ou Gymnasium, ou de escolas públicas x escolas particulares);
  • de gênero (Geschlechtstypik) – voltada, por exemplo, para a análise das diferenças biográficas e das escolhas profissionais de jovens de ambos os sexos (Bohnsack, 1989).

O método também tem sido aplicado em pesquisas com crianças (Nentwig-Gesemann, 2002), com portadores de necessidades especiais (Wagner-Willi, 2002) e adultos de distintas gerações (Schäffer, 2003). Como afirmado anteriormente, os grupos reais se constituem como representantes de estruturas sociais, ou seja, de processos comunicativos nos quais é possível identificar um determinado modelo de comunicação. Esse modelo não é casual ou emergente, muito pelo contrário: ele documenta experiências coletivas assim como características sociais desse grupo, entre outras: suas representações de gênero, classe social, pertencimento étnico e geracional. Nesse sentido, os grupos de discussão, como método de pesquisa, constituem uma ferramenta importante para a reconstrução dos contextos sociais e dos modelos que orientam as ações dos sujeitos. A análise dos meios sociais compreende tanto aqueles constituídos em forma de grupo (família, vizinhança, grupos associativos, grupos de rap) como os "espaços sociais de experiências conjuntivas" (konjunktive Erfahrungsräume), na terminologia de Karl Mannheim (1980). Nesse sentido, as experiências de racismo e segregação vividas por jovens paulistanos ou berlinenses constituem um espaço social de experiências conjuntivas ou de experiências comuns, ainda que vividas e trabalhadas de forma distinta (Weller, 2003; 2004).

Portanto, os grupos de discussão representam um instrumento por meio do qual o pesquisador estabelece uma via de acesso que permite a reconstrução dos diferentes meios sociais e do habitus coletivo do grupo. Seu objetivo principal é a análise dos epifenômenos (subproduto ocasional de outro) relacionados ao meio social, ao contexto geracional, às experiências de exclusão social, entre outros. A análise do discurso dos sujeitos, tanto do ponto de vista organizacional como dramatúrgico, é fundamental e auxiliará na identificação da importância coletiva de um determinado tema.

 

Grupos de discussão com jovens negros em São Paulo e jovens de origem turca em Berlim

Como mencionado anteriormente, a pesquisa em questão foi realizada como parte dos estudos apresentados como tese de doutorado. A análise da experiência com o método requer uma contextualização do trabalho de campo, que será apresentado de forma sucinta para o leitor deste artigo. Desde os primeiros contatos com jovens negros em São Paulo e com jovens de origem turca em Berlim, ou seja, durante a fase de construção do projeto de pesquisa, foi possível verificar que o hip hop se havia constituído em um espaço de partilha de experiências e de elaboração de estratégias de enfrentamento do racismo e do preconceito. Durante a pesquisa, buscou-se compreender as visões de mundo desses jovens e a forma como estilos culturais globalizados são apropriados e ressignificados. Ao mesmo tempo, esse estudo sobre gênese, estrutura e função dos grupos juvenis analisou a importância dessas práticas culturais na construção de identidades, no enfrentamento da segregação socioespacial e da discriminação étnica e/ou religiosa. Para tanto, elaboramos um conjunto de questões que orientaram a escolha das técnicas e dos procedimentos de coleta e análise dos dados, dentre as quais:

  • Qual a importância da práxis musical e artística do hip hop nesses meios sociais? Que tipo de orientações coletivas ou visões de mundo emergem dessas práticas?
  • Qual a função do grupo juvenil (peergroup) nos distintos contextos?
  • Apesar das diferenças históricas, políticas e sociais entre ambos países assim como das diferenças culturais entre jovens paulistanos e berlinenses, é possível encontrar semelhanças com relação aos modelos de orientação ou visões de mundo?
  • Como se posicionam em relação ao grupo étnico? Como discutem imagens e definições relativas ao pertencimento étnico (tanto aquelas atribuídas externamente como as que são construídas pelo grupo)?
  • Como estão constituídas as relações interétnicas no cotidiano e que leitura fazem das relações étnico-raciais em ambos países?
  • Como os jovens percebem as práticas de discriminação? Quais são as conseqüências dessas experiências? É possível identificar estratégias de enfrentamento dessas situações?

O trabalho de campo exige não somente o domínio metodológico e metateórico do tema, mas também um conhecimento sobre o meio pesquisado como, por exemplo, a situação social dos entrevistados, atividade profissional, entre outros aspectos. Ao mesmo tempo, o pesquisador deve conhecer os instrumentos de pesquisa e escolher procedimentos ou técnicas apropriados ao tipo de estudo que pretende realizar. Na pesquisa em questão, optou-se por trabalhar com distintas técnicas de coleta de dados, com o objetivo de conhecer as orientações individuais e coletivas dos jovens de ambas cidades e ampliar as possibilidades de análise e compreensão do significado de estilos culturais juvenis em contextos de segregação socioespacial e de discriminação étnico-racial. Para tanto, foram realizados no período 1998 a 2000 quinze grupos de discussão (de três a seis integrantes) e quinze entrevistas biográfico-narrativas (história de vida) com jovens de ambas as cidades. Como procedimento de coleta de dados, fizemos uso ainda da observação participante e adquirimos material audiovisual e impresso sobre os grupos tais como CDs, vídeos de apresentações, artigos de jornais e fanzines.

Em São Paulo, a pesquisa de campo foi realizada em duas fases distintas: de março a maio de 1998 e nos meses de março e abril de 1999. Na segunda fase, os grupos entrevistados anteriormente foram contatados com o objetivo de obter informações sobre o desdobramento de algumas atividades desenvolvidas por eles. Em Berlim, o trabalho de campo foi realizado no âmbito de um projeto de pesquisa sobre "Criminalidade e experiências de exclusão típicas da fase do desenvolvimento e do meio social em grupos juvenis" (Entwicklungs — und milieutypische Kriminalisierungs — und Ausgrenzungserfahrungen in Gruppen Jugendlicher), coordenado pelo professor Ralf Bohnsack. No âmbito desse projeto, foram realizadas cerca de 30 entrevistas de grupo e 30 entrevistas individuais que, de certa forma, também contribuíram para a análise comparativa das visões de mundo de jovens pertencentes a mesma faixa etária. No estudo realizado com jovens de origem turca e árabe na cidade de Berlim, foram entrevistados, por um lado, jovens com antecedentes criminais e/ou com tendências para o uso da violência e, por outro, jovens sem antecedentes criminais. Buscou-se compreender de que forma os riscos e problemas da adolescência e da criminalidade estão relacionados à socialização no contexto migratório e à discriminação étnica. A pesquisa gerou uma tese de livre docência (Schittenhelm, 2004), três teses de doutorado (Nohl, 2001; Weller, 2003; Przyborski, 2004), uma dissertação de mestrado (Gaffer, 2001), além de uma série de artigos sobre o tema. Em inglês: Bohnsack; Nohl, 2003; Bohnsack; Loos; Przyborski, 2001.

Embora tenha entrevistado tanto grupos masculinos como femininos de duas faixas etárias distintas, 14 a 19 e 20 a 26 anos, selecionamos para a análise em profundidade quatro grupos constituídos por jovens do sexo masculino entre 20 e 26 anos (dois grupos da cidade de São Paulo e dois de Berlim). Os demais grupos entrevistados estiveram presentes nas análises e estes exerceram um papel fundamental na validação da tipologia construída sobre os grupos de rap de ambas as cidades e que denominamos como grupos de orientação geracional e de orientação social-combativa (Weller, 2003; 2003a; 2004). Algumas entrevistas também foram utilizadas em trabalhos posteriores, entre outras, as entrevistas com os grupos femininos (Weller, 2005a).

Critério para a seleção dos grupos

A seleção dos grupos orientou-se pelo critério definido por Anselm Strauss como amostra teorética (theoretical sampling). Para Strauss (1994), a pergunta principal e norteadora do procedimento definido como theoretical sampling é a seguinte: que grupos ou subgrupos populacionais, quais acontecimentos ou ações constituirão o próximo elemento de análise e, conseqüentemente, de levantamento de dados? Qual é o interesse teórico? O critério de seleção não se orienta por uma amostra representativa em termos estatísticos, mas pela construção de um corpus com base no conhecimento e na experiência dos entrevistados sobre o tema2. Portanto, a amostra teorética não é definida previamente, mas ao longo da pesquisa, implicando em um processo consecutivo e cumulativo de coleta de dados. Em outras palavras: após a realização de um grupo de discussão, a escolha dos candidatos para a realização da entrevista subseqüente dar-se-á com base nas informações obtidas na entrevista anterior e assim sucessivamente. Esse procedimento é realizado com o objetivo de esclarecer, validar, controlar, modificar ou ampliar os resultados obtidos até então, o que implica uma comparação constante dos dados já no momento de coleta destes. A comparação constante, como método de investigação empírica (constant comparative method), foi introduzida pelos autores na década de 1960. Esse procedimento analítico ficou conhecido como "teoria fundamentada" ou grounded theorie (Glaser; Strauss, 1967; Mella, 1998). De acordo com Glaser; Strauss (1967), o método comparativo possibilita, por um lado, a generalização dos resultados obtidos por meio da pesquisa e, por outro, a elaboração de teorias fundamentadas em dados empíricos. Segundo Mella, a teoria fundamentada procura

[...] eliminar la distancia entre las grandes tradiciones teoréticas en ciencias sociales y la investigación empírica. Se trata por tanto de enfatizar la calidad de generación de teoría más que la verificación de teoría, puesto que se plantea que los esfuerzos han sido puestos en demasía en lo primero en vez de lo segundo. La fuente para la generación de teoría es el dato empírico y el método es el análisis comparativo. (1998, p. 69)

Com base nesse procedimento, as entrevistas em São Paulo e Berlim foram realizadas com grupos reais, ou seja, com jovens pertencentes a bandas musicais nas quais eles já se percebiam como um coletivo. Muitos já estavam acostumados a dar entrevistas e se mostraram desde o início dispostos a participar da pesquisa, encarregando-se inclusive de passar o contato de colegas de outras bandas para que pudéssemos entrevistá-los. No entanto, foi necessário esclarecer para alguns grupos que não se tratava de uma reportagem para um documentário televisivo, uma vez que as entrevistas foram apenas gravadas e não filmadas.

Tópico-guia e condução dos grupos de discussão

Como descrito no início do artigo, um conjunto de questões orientaram a escolha das técnicas e dos procedimentos de coleta e análise dos dados. Essas questões surgiram a partir da revisão bibliográfica assim como do estudo preliminar do campo de pesquisa. A partir dessas questões, elaborou-se um tópico-guia com alguns temas que pudessem servir como estímulo para a discussão entre os jovens (anexo I).

O tópico-guia de um grupo de discussão não é um roteiro a ser seguido à risca e tampouco é apresentado aos participantes para que não fiquem com a impressão de que se trata de um questionário com questões a serem respondidas com base em um esquema perguntas-respostas estruturado previamente. Porém, isso não quer dizer que não existam critérios para a condução dos grupos de discussão. É fundamental, por exemplo, que a pergunta inicial seja a mesma para todos os grupos, uma vez que se pretende analisá-los comparativamente. Bohnsack (1999) elaborou ainda alguns princípios para a condução de entrevistas, que buscamos incorporar em nossa pesquisa. De acordo com o autor, durante a entrevista, o pesquisador deverá

  • Estabelecer um contato recíproco com os entrevistados e proporcionar uma base de confiança mútua;
  • Dirigir a pergunta ao grupo como um todo e não a um integrante específico;
  • Iniciar a discussão com uma pergunta vaga, que estimule a participação e interação entre os integrantes. Exemplo: Vocês poderiam falar um pouco sobre o vosso grupo? Como foi que ele surgiu?;
  • Permitir que a organização ou ordenação das falas fique a encargo do grupo;
  • Formular perguntas que gerem narrativas e não a mera descrição de fatos. Deve-se evitar, portanto, as perguntas por que e priorizar aquelas que perguntam pelo como. Exemplo: Como vocês vêem o problema da violência no bairro?;
  • Fazer com que a discussão seja dirigida pelo grupo e que seus integrantes escolham a forma e os temas do debate;
  • Intervir somente quando solicitado ou se perceber que é necessário lançar outra pergunta para manter a interação do grupo.

Num segundo momento, quando o grupo já sinaliza haver esgotado a discussão sobre determinado tema, o entrevistador dará início a uma segunda sessão de perguntas imanentes, com o objetivo de aprofundar ou esclarecer dúvidas sobre aspectos discutidos até aquele momento. Por exemplo: Vocês estavam falando antes das vossas famílias. Vocês poderiam contar um pouquinho mais sobre como é a relação de vocês com os vossos pais? Terminada essa fase, o entrevistador poderá dirigir perguntas específicas ao grupo, sobre temas que até então não foram discutidos e que se apresentam como relevantes para a pesquisa. Quando julgar pertinente, poderá realizar na sessão final perguntas divergentes ou provocativas. Trata-se de um procedimento recomendado somente para aqueles que já acumularam alguma experiência na condução de entrevistas, já que esse tipo de perguntas poderá gerar situações controversas e até um certo mal-estar entre os participantes e o entrevistador. Aspectos que suscitaram dúvidas no momento da discussão também podem ser esclarecidos ou ratificados mediante outros procedimentos tais como a observação participante.

Grupos de discussão: vantagens para além da 'economia de tempo'

Da forma como o método foi apresentado, o leitor perceberá que os grupos de discussão não representam propriamente uma 'economia de tempo', já que essas entrevistas acabam estendendo-se por uma, duas ou até três horas de debate. Alguns autores criticam a imensidão de dados coletados e a dificuldade de transcrição destes (Flick, 2004). Porém, se pensarmos nos avanços tecnológicos adquiridos com os gravadores digitais, esse aspecto já deixou de ser um problema central. Antes de discutir algumas possibilidades de análise dos grupos de discussão, farei uma breve apresentação das vantagens obtidas por meio desse método, sobretudo nas pesquisas com adolescentes e jovens:

1 Estando entre colegas da mesma faixa etária e meio social, os jovens estão mais à vontade para utilizar seu próprio vocabulário durante a entrevista, desenvolvendo, dessa forma, um diálogo que reflete melhor a realidade cotidiana;
2 A discussão entre integrantes que pertencem ao mesmo meio social permite perceber detalhes desse convívio, não captados na entrevista narrativa ou por meio de outra técnica de entrevista;
3 Embora a presença do pesquisador e do gravador gere uma situação distinta a de uma conversa cotidiana, os jovens acabam ao longo da entrevista travando diálogos interativos bastante próximos daqueles desenvolvidos em um outro momento. O entrevistador passa a ser uma espécie de ouvinte e não necessariamente um intruso no grupo;
4 A discussão em grupo exige um grau de abstração maior do que a entrevista individual, uma vez que durante a entrevista os jovens são convidados a refletir e expressar suas opiniões sobre um determinado tema. O grupo de discussão pode levar também a conclusões sobre as quais os jovens ainda não haviam pensado ou pelo menos ainda não haviam refletido nesse grau de abstração. Vejamos um exemplo: Durante uma discussão realizada com jovens-mulheres de origem turca em Berlim, na qual as entrevistadas narravam problemas enfrentados com os colegas do sexo oposto na transição entre a adolescência e a vida adulta, o longo debate terminou com a seguinte reflexão: "[...] agora fica bem claro para mim o que se passa aqui. Isso já era claro antes mas agora que estou pensando sobre isso, e, eh, que eu vejo um pouco as imagens, é mesmo um absurdo [...]" (Weller, 2005a);
5 O grupo pode corrigir fatos distorcidos, posições radicais ou visões que não refletem a realidade socialmente compartilhada. Estando entre os membros do próprio grupo, os jovens dificilmente conseguirão manter um diálogo com base em histórias inventadas. Nesse sentido, é possível atribuir um grau maior de confiabilidade aos fatos narrados coletivamente. Vejamos outro exemplo: durante uma discussão de grupo, um jovem berlinense de origem turca começa a narrar sua dificuldade em encontrar emprego, alegando que já havia enviado seu currículo para mais de vinte empresas. Nesse momento, seus colegas começam a rir e ele também. Após um curto espaço de tempo, o jovem volta a fazer a mesma colocação, mas faz um sinal com a mão de que, na realidade, havia enviado seu currículo para duas empresas.

 

Primeiros passos para a análise de grupos de discussão

Assim como em outras entrevistas, é fundamental que o pesquisador faça um relatório que contemple informações relativas ao local da entrevista, aos entrevistados e à situação da entrevista. Para a coleta de informações adicionais sobre os entrevistados na pesquisa em questão, cada participante preencheu no final da entrevista um questionário (anexo V). A organização dos dados coletados inicia com uma primeira fase de interpretação, denominada interpretação formulada e que compreende os seguintes aspectos:

  • Divisão da entrevista por temas e subtemas ou passagens e subpassagens, indicando, por exemplo, se um tema foi iniciado pelo grupo ou se partiu de uma pergunta do entrevistador (anexo II);
  • Seleção das passagens centrais, também denominadas metáforas de foco (Fokussie-rungsmetapher);
  • Seleção das passagens relevantes para a pesquisa;
  • Transcrição da passagem inicial, das passagens de foco e daquelas relevantes para a pesquisa;
  • Reconstrução da estrutura temática da passagem a ser analisada, que também poderá ser dividida em temas e subtemas.

Com base nesses passos desenvolvidos segundo o método documentário de interpretação (Weller, 2003; 2005), a transcrição completa de um grupo de discussão deixa de ser necessária. De acordo com esse método, a análise de uma entrevista principia-se com a passagem inicial, seguida da análise das passagens de foco e das que discutem questões relacionadas ao tema da pesquisa. Esse processo compreende dois momentos: interpretação formulada e interpretação refletida. Durante a interpretação formulada, busca-se compreender o sentido imanente das discussões e decodificar o vocabulário coloquial. Em outras palavras, o pesquisador reescreve o que foi dito pelos informantes, trazendo o conteúdo dessas falas para uma linguagem que também poderá ser compreendida por aqueles que não pertencem ao meio social pesquisado. Nessa etapa de análise, ele não traça comparações e tampouco utiliza o conhecimento que possui sobre o grupo ou meio pesquisado. Já a interpretação refletida implica uma observação de segunda ordem, na qual o pesquisador realiza suas interpretações, podendo recorrer ao conhecimento teórico e empírico adquirido sobre o meio pesquisado (Weller, 2005; Bohnsack; Weller, 2006). Enquanto a interpretação formulada analisa a estrutura básica de um texto (organização temática), a interpretação refletida busca analisar tanto o conteúdo de uma entrevista como o 'quadro de referência' (frame), que orienta a discussão, as ações do indivíduo ou grupo pesquisado e as motivações que estão por detrás dessas ações. Goffman (apud Joseph 2000) se refere ao termo 'quadro' (frame) como um

[...] dispositivo cognitivo e prático de organização da experiência social que nos permite compreender e participar daquilo que nos acontece. Um quadro estrutura não só a maneira pela qual definimos e interpretamos uma situação, mas também o modo como nos engajamos numa ação (p. 94).

A interpretação refletida tem por objetivo a reconstrução desse 'quadro de orientação', ou seja, do habitus (Bourdieu, 1999). Na análise de uma entrevista de grupo, o primeiro momento da interpretação refletida é dedicado à reconstrução da organização do discurso e à análise da interação entre os participantes, por exemplo: a forma como se referem uns aos outros ou uma às outras, a dramaturgia e a densidade do discurso. Durante a interpretação refletida, quer dizer, no processo de explicação de uma norma, de um modelo ou quadro de orientação, o pesquisador busca analisar não somente questões temáticas que possam parecer importantes, mas também padrões homólogos ou aspectos típicos do meio social.

No entanto, um modelo de orientação comum só poderá ser confirmado mediante a comparação com outros grupos. Nesse sentido, o próximo passo é a escolha de um segundo grupo que, num primeiro momento, será analisado internamente (análise comparativa das passagens escolhidas). Na seqüência, o pesquisador realiza uma análise comparativa de um tema comum e da forma como foi discutido por diferentes grupos, seguindo o princípio da análise comparativa constante como descrita por Glaser; Strauss (1967). Toda interpretação somente ganhará forma e conteúdo quando realizada e fundamentada na comparação com outros casos empíricos. Somente por meio desse procedimento, o pesquisador poderá caracterizar um discurso, um comportamento ou uma ação como típico de um determinado meio social e não só do grupo entrevistado. A quantidade de grupos de discussão a ser realizada para uma determinada pesquisa deve seguir o princípio da saturação, não no sentido de que novas entrevistas "não irão trazer mais nenhuma variedade" (Bauer; Gaskell, 2002, p. 512), mas orientada para a análise comparativa e tipificação das visões de mundo ou orientações coletivas encontradas no meio social pesquisado (Nohl, 2001).

 

Considerações finais

Trabalhar com grupos juvenis de contextos interculturais e sociais distintos àquele do pesquisador exige cuidado e rigor no procedimento e na escolha dos métodos a serem utilizados para a coleta de dados, assim como uma preparação para o trabalho de campo. Mesmo assim, o pesquisador será confrontado com códigos de comunicação e estilos de vida que lhe são alheios. A decodificação desses sistemas e dessas informações exige uma espécie de imersão do pesquisador no meio pesquisado e um controle metodológico permanente do processo de interpretação, de forma a evitar vieses ou afirmações distorcidas sobre a realidade social de seus entrevistados. A utilização de grupos de discussão como método em que os jovens conduzem a entrevista e o entrevistador busca intervir o mínimo possível, assim como o princípio da análise comparativa constante são possibilidades que permitem uma inserção do pesquisador no universo dos sujeitos e que, de certa forma, reduzem os riscos de interpretações equivocadas. O mesmo rigor deve ser mantido na escolha dos enfoques teórico-metodológicos que orientarão o trabalho de análise dos dados. As entrevistas com os jovens paulistanos e berlinenses foram analisadas segundo o método documentário de interpretação, que se encontra vinculado às correntes compreensivas ou interpretativas da tradição sociológica e que se revelou como mais indicado para essa pesquisa comparativa de caráter intercultural (Weller, 2005). Atualmente os manuais de pesquisa oferecem uma variedade de técnicas de coleta e análise de dados nos quais a relação entre teoria e empiria nem sempre parece estar articulada. Um determinado tipo de entrevista também está associado a um ou a outro método e corrente teórico.s Portanto, durante a escolha dos procedimentos de coleta de dados, é importante que o pesquisador reflita também sobre o método que pretende utilizar na análise do material empírico.

 

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Correspondência:
Wivian Weller
Faculdade de Educação - Unb
Depto. Teoria e Fundamentos
Campus Univers. Darcy Ribeiro
70910-900 – Brasília – DF
e-mail: wivian@unb.br

Recebido em 16.06.05
Modificado em 07.11.05
Aprovado em 22.11.05

 

 

Wivian Weller é doutora em Sociologia pela Universidade Livre de Berlim, Alemanha, professora adjunta do Departamento de Teoria e Fundamentos e do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Infância e Juventude, NEIJ/CEAM/UnB.
1. A escolha do tema para a pesquisa resultou de estágios e trabalhos realizados anteriormente nas cidades de São Paulo e Berlim: da dissertação mestrado sobre "Analfabetismo e migração em São Paulo" e da experiência como auxiliar de pesquisa e docência no Instituto de Educação Intercultural da Universidade Livre de Berlim (1993 a 1996), entre outros.
2. A tradição quantitativa prioriza critérios como o tamanho da amostra e sua representatividade. Segundo Gaskell; Bauer (2002), os equivalentes funcionais na pesquisa qualitativa seriam a construção do corpus, a descrição detalhada, a triangulação de métodos entre outros.