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Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial

Print version ISSN 1676-2444

J. Bras. Patol. Med. Lab. vol.41 no.3 Rio de Janeiro June 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1676-24442005000300001 

NOSSA CAPA OUR JOURNAL COVER

 

 

Boutique de Barbier (Loja de Barbeiro).
Aquarela, 1821. Jean Baptiste Debret

 

Os moradores de cidades portuárias como Rio de Janeiro e Salvador, as mais importantes do Brasil no final do século 18, não contavam com o auxílio de muitos médicos ou cirurgiões. Mesmo nos navios que atracavam na cidade, a ausência de profissionais de saúde era não apenas sentida, mas problemática. E isso era facilmente perceptível no grande número de internações de marinheiros e soldados em trânsito nos hospitais militares e casas de misericórdia.

Na ausência dos médicos, cabia aos práticos e barbeiros cuidar dos doentes a bordo, fazendo uso de todos os medicamentos disponíveis nas chamadas caixas de botica das embarcações. Mesmo nos hospitais estabelecidos, os cirurgiões e médicos ressentiam-se de recursos para tratar os pacientes. Até mesmo para os padrões da época, os medicamentos e instrumentais disponíveis eram verdadeiramente precários.

Vale ressaltar que não apenas os recursos eram parcos como os ganhos obtidos com a profissão também. Assim, além do reduzido número de profissionais, muitos acabavam por trocar de povoado em busca de melhores condições e salários.

Os barbeiros, que também disputavam com médicos, cirurgiões e boticários o exercício da função de profissionais da saúde, tinham autorização oficial para realizar algumas práticas médicas, notadamente as intervenções cirúrgicas de pequeno porte, como sangrar, sarjar, aplicar ventosas, tratar ferimentos, além de extrair balas e dentes. Vale o relato do próprio Jean Baptiste Debret, pintor francês que soube retratar de forma tão real e fiel o Brasil do final do século 18: "Os oficiais de barbeiros que atuavam na cidade do Rio de Janeiro eram quase sempre negros ou mulatos. Além de prestarem serviços de barbearia e de pequenas cirurgias propriamente ditas, ocupavam-se também com outras atividades dos mais variados tipos, como o conserto de roupas e o arranjo de pequenas bandas musicais, então muito comuns na corte; quando não atendiam os fregueses nas calçadas das ruas, geralmente suas lojas funcionavam em suas próprias moradias".

Na aquarela de Debret que ilustra a capa desta edição, intitulada Loja de Barbeiro, o pintor faz o retrato fiel de seu relato, com a presença dos negros exercendo a função e, em especial, o letreiro da loja onde se lê "Barbeiro, Cabeleireiro, Sangreiro, Dentista e Leilão e Bixas".