Resumo
Vivemos em um mundo inegavelmente digitalizado. Nele, compreender e implementar um processo de Transformação Digital tornaram-se fatores primordiais para a maioria das organizações. Devido à sua relevância e atualidade, a Transformação Digital surge como um tema de grande interesse. A academia destaca a necessidade de um melhor entendimento dos seus requisitos e orientações estratégicas. Nesse contexto, pesquisadores sinalizam a necessidade de construir uma abordagem centrada em como transformar digitalmente modelos de negócio, e de definir quais capacitadores, fases e instrumentos precisam ser considerados. Diante disso, foi desenvolvido este estudo, cujo objetivo foi definir dimensões base para a implementação da Transformação Digital considerando um conjunto de tecnologias aderentes ao conceito de Indústria 4.0. A abordagem metodológica escolhida para o desenvolvimento do estudo foi a pesquisa processual, o método foi a pesquisa descritiva, e de impacto. Ademais, o estudo foi desenvolvido por meio de uma pesquisa exploratória e descritiva, de caráter bibliográfico e documental, concretizado via revisão da literatura. Com a realização da pesquisa, identificaram-se três direcionadores e nove dimensões que podem servir como base para o processo de Transformação Digital em uma organização. Este estudo permitiu construir um modelo preliminar que poderá servir como base para um mapeamento do processo de implementação da Transformação Digital em estudos futuros e poderá auxiliar as organizações a aperfeiçoar seus processos e ações rumo a esta era de inovação.
Palavras-chave:
Transformação Digital; Indústria 4.0; Quarta revolução industrial; Gestão tecnológica
Abstract
Our world today is undeniably digital and understanding and implementing a digital transformation process have become key factors for most organizations. Due to its relevance and contemporaneity, digital transformation emerges as a topic of great interest, where the academy indicates a lack of comprehensive portrait regarding its requirements and strategic guidelines. In this context, researchers have alerted about the need of building an approach on how to digitally transform business models, and define which facilitators, phases, and instruments can be considered. Based on this, the study aims to elucidate basic dimensions for the application of digital transformation considering a set of technologies adhering to the concept of the Industry 4.0. The methodological approach chosen for undertaking the study was procedural research, subject to its progress method as descriptive and impact research. In addition, the study was elaborated from an exploratory and descriptive research, bibliographical and documental in nature, achieved through literature review. Throughout the research, three drivers and nine dimensions were identified that can serve as the basis for the digital transformation process in an organization. With this framework, it was possible to build a preliminary model that serves as a groundwork for mapping the digital transformation implementation process in future studies and may support organizations to improve their processes and actions towards this innovation era.
Keywords:
Digital Transformation; Fourth Industrial Revolution; Industry 4.0; Technological Management
Resumen
Vivimos en un mundo indudablemente digitalizado, donde comprender e implementar un proceso de transformación digital se ha convertido en un factor primordial para la mayoría de las organizaciones. Debido a su relevancia y actualidad, la transformación digital surge como un tema de gran interés. La academia señala la necesidad de una mejor comprensión de sus exigencias y orientaciones estratégicas. En este sentido, investigadores indican la necesidad de construir un enfoque centrado en cómo transformar digitalmente los modelos de negocios, y de definir cuáles capacitadores, fases e instrumentos necesitan ser analizados. A ese respecto, se desarrolló este estudio, cuyo objetivo ha sido definir dimensiones base para la implementación de la transformación digital, teniendo en cuenta un conjunto de tecnologías que se adhieren al concepto de Industria 4.0. El enfoque metodológico elegido para desarrollar el estudio fue la investigación procedimental, el método fue la investigación descriptiva y de impacto. Además, el estudio se elaboró a través de una investigación exploratoria y descriptiva, de carácter bibliográfico y documental, concretada a través de una revisión de la literatura. En la investigación han sido identificados tres orientadores y nueve dimensiones que pueden servir como base del proceso de transformación digital en una organización. Este estudio ha permitido construir un modelo preliminar que podrá servir como base para hacer un mapeo del proceso de implementación de la transformación digital, y en estudios futuros podrá ayudar a las organizaciones a mejorar sus procesos y acciones rumbo a esta era de innovación.
Palabras clave:
Transformación digital; Industria 4.0; Cuarta Revolución Industrial; Gestión tecnológica
INTRODUÇÃO
A pandemia de COVID-19 trouxe mudanças para o mundo em setores diversos da economia e na sociedade de um modo geral. As barreiras sanitárias impostas pela pandemia impulsionaram muitas atividades cotidianas, como educação, compras, entretenimento, saúde e empreendedorismo, à adesão das ferramentas digitais. Nesse contexto, para que muitas empresas continuassem existindo, o uso da tecnologia foi essencial. Foi possível observar, então, a aceleração de um movimento já em curso em vários segmentos: a Transformação Digital (Caetano, 2021a).
O tema da Transformação Digital (TD) na sociedade não é recente. Inicia-se nas décadas de 1960 e 1970 com a utilização de sistemas transacionais básicos. Nas décadas de 1980 e 1990, a TD experimentou seu primeiro impulso significativo nas organizações com o advento dos sistemas computacionais, quando ocorreu a adoção do uso de PCs, sistemas on-line e comunicação via e-mail (Westerman et al., 2014).
Nas décadas de 1990 e 2000, a ideia de produtos, serviços e mídias digitais já era bem difundida e compreendida (Schallmo et al., 2017). A partir dos anos 2000, a TD deu um salto com a difusão da utilização do celular, a ubiquidade da internet e com as comunicações globais mais baratas (Westerman et al., 2014). Desde os anos 2000 até 2015, surgiram dispositivos e plataformas de mídias sociais que modificaram drasticamente os canais de comunicação entre as empresas e os clientes; além disso, os clientes também mudaram suas expectativas em relação ao tempo de resposta e disponibilidade multicanal. As empresas perceberam que eram capazes de comunicar-se digitalmente de forma individualizada e em tempo real (Schallmo et al., 2017).
Atualmente, em que vivemos em um mundo pós-pandêmico, a TD tem impactado grandes, médias e pequenas empresas e, de modo particular, o mercado varejista, por meio de sua implementação nas relações comerciais. Exemplos incluem atividades de delivery, atendimento autônomo, uso de chatbots alimentados por inteligência artificial, clubes de assinaturas, live commerce, vendas via WhatsApp, Facebook e Instagram, uso de links e Pix para pagamentos (Caetano, 2021b). Bonnet e Westerman (2021), autores que têm estudado sobre TD nos últimos 10 anos, argumentam que ela vem se tornando mais complexa a cada dia. Observam que, no início das suas pesquisas, a maioria das grandes empresas tradicionais usava tecnologias digitais para melhorar gradativamente áreas de seus negócios. Já hoje, segundo estes autores, uma nova onda de possibilidades tecnológicas e competitivas chega tão rapidamente, que muitas empresas ainda não dominaram determinada tecnologia, enquanto outras surgem e já estão disponíveis. Além disso, os autores argumentam que as empresas já reconhecem a necessidade (e possibilidade) de transformar digitalmente seus negócios, de modo que a TD não está sendo vista apenas como uma questão de tecnologia, e os gestores estão assumindo uma abordagem mais estratégica e de execução.
A COVID-19 acelerou a movimentação de muitas organizações rumo à digitalização, proporcionando uma mudança de mentalidade em relação a uso e aplicação de tecnologias no mundo dos negócios. Essa movimentação também exigiu a atenção de muitos gestores para a importância de elaboração de um plano estratégico que viabilize o aprimoramento de suas capacidades digitais e o aproveitamento de todas as vantagens competitivas que a TD pode proporcionar.
Nesse contexto, a TD é uma combinação de pessoas, processos e tecnologia que se conectam de forma singular com o objetivo de ajudar as empresas a ganharem competividade. É uma fusão de negócios, tecnologias disruptivas e estratégias de Tecnologias de Informação (TI), com o objetivo de aumentar a produtividade, criar valor para o cliente e novas formas de bem-estar social (N. Brown & I. Brown, 2019; Ebert & Duarte, 2018; Westerman et al., 2014). Organizações públicas e privadas já têm ciência da necessidade de mudança e da aplicação de projetos de TD, de modo que o tema se tornou uma agenda presente em reuniões de gestores de empresas de diversos setores da economia, tradicionais ou não (Caetano, 2021b; Vukšić et al., 2018).
Essas reflexões justificam o interesse em pesquisar sobre TD nas organizações, e levam a uma inquietação: Quais são as bases e os direcionadores (drivers) de construção de uma estratégia para as organizações atuarem no contexto da TD? É esta questão que se pretende responder e que norteou o desenvolvimento deste estudo.
Devido à sua relevância e atualidade, a TD é um tema de grande interesse acadêmico (N. Brown & I. Brown, 2019; Mahraz et al., 2019; Morakanyane et al., 2017; Vaska et al., 2021). Contudo, pesquisas mostraram que se trata de um conceito cuja definição ainda requer uma construção mais aprofundada, necessita de um melhor entendimento dos seus requisitos e uma orientação estratégica em uma perspectiva de longo prazo (N. Brown & I. Brown, 2019; Mahraz et al., 2019; Morakanyane et al., 2017; Schallmo et al., 2017). Além disso, pesquisadores apontam a necessidade de uma abordagem que se debruce sobre a transformação digital de modelos de negócio e defina quais capacitadores, fases e instrumentos podem ser considerados (Schallmo et al., 2017; Ziyadin et al., 2019).
Assim, o objetivo deste estudo é definir dimensões base e direcionadores para a implementação da TD, considerando-se o contexto atual das tecnologias da Indústria 4.0 (I4.0). A pesquisa foi desenvolvida por meio de uma revisão de literatura, à qual se recorreu em busca de uma visão das dimensões e de identificação dos direcionadores fundamentais para a implementação da Transformação Digital 4.0 (TD4.0) nos processos de gestão de uma organização. Para atingir este objetivo, a abordagem metodológica escolhida para o desenvolvimento desta investigação foi a pesquisa processual (Langley, 2009), a qual auxiliará no entendimento do processo de TD, considerando-se as tecnologias habilitadoras da I4.0. Desse modo, o método escolhido foi a pesquisa exploratória e descritiva (Gray, 2012).
Este artigo faz parte de uma pesquisa que está sendo desenvolvida no campo da TD e da I4.0 com o intuito de, no futuro, construir uma ferramenta para avaliação do nível de implementação da TD4.0 em empresas. Os esforços deste estudo concentraram-se na definição das bases para a TD4.0. Os dados obtidos até o momento serão aqui compartilhados.
Na segunda seção deste texto, serão abordados alguns aspectos teóricos da TD, conceitos associados ao tema, direcionadores para o processo de TD e obstáculos organizacionais a serem superados. Na terceira seção, é apresentado o desenho da pesquisa. A seção quatro é reservada aos resultados, que possibilitaram a construção de um modelo de análise para a TD, com base nos seus direcionadores (drivers), e a definição de suas dimensões base. Na última seção, apresentam-se as considerações finais.
BASES TEÓRICAS
Nesta seção serão abordados alguns aspectos teóricos relevantes relacionados ao tema da TD e que nortearão o desenvolvimento da pesquisa.
Definindo transformação digital
O conceito de TD, atualmente, carece de uma definição clara. No entanto, pesquisadores normalmente caracterizam a TD como uma grande mudança organizacional impulsionada, desenvolvida ou ativada pela tecnologia digital, que altera a forma como os negócios são conduzidos. Também é frequentemente usado de forma intercambiável com conceitos como digitalização e inovação digital. No entanto, embora existam algumas semelhanças entre esses conceitos, é importante distingui-los para obter um diálogo mais informado e baseado em um uso consistente da terminologia (Osmundsen et al., 2018).
O conceito de digitalização apresentado por Brennen e Kreiss (2016) e difundido por outros pesquisadores (Gray & Rumpe, 2015; Kääriäinen et al., 2017) envolve a transformação de formas de comunicação (imagens, vídeos e texto) e execução de processos, de analógicos ou manuais para digitais, mediante a adoção e integração das novas tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC), o que implica a conversão de dados analógicos em formato digital.
Gray e Rumpe (2015) citam exemplos de digitalização em vários setores da sociedade, como casas inteligentes (uso das TDICs para entretenimento, segurança, energia elétrica e aquecimento), mobilidade inteligente e cidades inteligentes (uso das TDICs para resolver questões de mobilidade urbana, transporte e meio ambiente, por exemplo). Os autores também destacam o uso da digitalização para a construção de novos modelos de negócio digitais, criando oportunidades para a geração de valor. Entre os benefícios da digitalização para os negócios, citados por Kääriäinen et al. (2017), estão a redução de custos e o aumento de produtividade, alcançados com a eliminação do papel e a substituição de processos manuais por softwares, o que possibilita o acompanhamento em tempo real das operações e dos resultados, permitindo um melhor gerenciamento do negócio.
Podemos considerar o processo da TD em uma organização sob duas perspectivas. Uma refere-se à digitalização de processos, produtos e serviços, em que a tecnologia é utilizada, dentre outras funções, para mapear a jornada da empresa e suas relações com consumidores e fornecedores, de modo a oferecer uma melhor experiência para o cliente. A outra diz respeito à parte estrutural, em que as ferramentas digitais precisam ser incorporadas ao ambiente organizacional e utilizadas como base para o processo de melhoria do desempenho, das entregas e dos resultados (Caetano, 2021a; Gebayew et al., 2018).
As tecnologias chamadas SMACIT (Social, Mobile, Analytics, Cloud, Internet of Things), que estão relacionadas às redes sociais (S), móveis (M), onde podem ser realizadas análises (A) que permitem o armazenamento dos dados na nuvem (C: cloud ) e fazem parte do contexto da Internet das coisas (IoT), são consideradas por alguns autores (Mitroulis & Kitsios, 2019; Sebastian et al., 2020; Vial, 2021; Ziyadin et al., 2019) elementos-chave para o processo de transformação digital. Mas, além do aspecto tecnológico, não se pode perder de vista a necessidade de uma transformação importante em pessoas e processos, o que implica realizar, também, uma transformação na forma como as organizações pensam e agem. Isso demanda construir uma nova cultura organizacional.
A TD consiste, então, em uma mudança nos modelos de negócio, nas atividades organizacionais e nos processos, por meio da combinação de tecnologias digitais diversas, cujo impacto propicia a aceleração dos resultados em todos os setores, de forma estratégica e priorizada. A TD não é uma questão apenas de tecnologia, é também uma forma de empresas fazerem negócios de maneira diferente para se manterem competitivas e disruptivas (Upadrista, 2021).
Considerando as afirmações e reflexões anteriores, bem como a revisão de literatura realizada, foram identificados alguns elementos importantes que fazem parte do conceito da TD: os atores, os quais formam a estrutura organizacional (membros, clientes e todos os componentes da cadeia de valor); tecnologias digitais, as quais viabilizam a digitalização da organização; e as capacidades digitais, que envolvem os processos de implementação, aplicação e utilização dessas tecnologias em novos processos e modelos de negócio (N. Brown & I. Brown, 2019; Mahraz et al., 2019; Schallmo et al., 2017; Vaska et al., 2021).
Nesse contexto, é importante formular uma estratégia de TD que sirva como conceito central para integrar toda a coordenação, priorização e implementação de transformações digitais dentro de uma empresa (Matt et al., 2015).
Uma estratégia para a transformação digital
Conforme descrito anteriormente, o processo de TD de uma organização envolve a mudança significativa nas suas estruturas humanas, físicas e tecnológicas. Assim, é preciso elaborar um plano, um mapa, que sirva de orientação no caminho rumo à digitalização.
Autores seminais (N. Brown & I. Brown, 2019; McAfee et al., 2012; Rogers, 2017; Westerman & Bonnet, 2015) dão ênfase aos cinco aspectos principais que precisam ser dominados no processo da TD: clientes, competição, dados, inovação e valor. A digitalização permite atender aos clientes, cada vez mais conectados e exigentes, de forma personalizada. Ainda segundo esses autores, as tecnologias digitais permitem melhorar a competividade das organizações pela realização de processos inovadores, mais ágeis, e por oferecer novas formas de comunicação e conexão com a cadeia produtiva.
Nesse contexto de TD, os dados se tornaram ativos estratégicos e as possibilidades oferecidas pelo uso de big data favoreceram processos de tomada de decisão mais robustos. A inovação, também, é impulsionada pela presença das tecnologias digitais, uma vez que elas permitiram a realização de processos de criação e desenvolvimento menos onerosos e mais rápidos, além de favorecerem o aprendizado organizacional. Por fim, o uso dessas tecnologias de forma inteligente oportuniza, também, novas formas de agregar valor ao negócio, melhorando os meios e modos de satisfazer os clientes (N. Brown & I. Brown, 2019; McAfee et al., 2012; Rogers, 2017; Westerman & Bonnet, 2015).
Os benefícios potenciais da digitalização são múltiplos e incluem aumentos nas vendas e/ou na produtividade, mais inovações e criação de valor. Uma boa estratégia para a TD envolverá uma mudança de estrutura, processos e cultura da organização, na forma como ela busca agregar valor aos seus processos e produtos (N. Brown & I. Brown, 2019; Rogers, 2017). Assim, questões como acesso, engajamento, customização, conexão e colaboração são elementos-chave para a criação de valor e desenvolvimento de plataformas digitais (N. Brown & I. Brown, 2019; Mahraz et al., 2019; Matt et al., 2015; Rogers, 2017). Contudo, ao traçar uma estratégia e plano de ação, uma visão ampla da TD deve ser considerada a fim de superar potenciais obstáculos.
Uma visão ampla da transformação digital para superar potenciais obstáculos
Não faltam oportunidades proporcionadas pelas tecnologias digitais que estão à nossa disposição depois que a quarta revolução industrial foi iniciada. Organizações públicas e privadas, de diversos tamanhos e setores de atuação, já estão lançando mão dessas tecnologias para capturar mais valor aos seus clientes e obter vantagens com as operações digitais. Então, como ir além da mentalidade atual para alcançar as oportunidades que a TD pode proporcionar? Para isso, é necessária uma visão ampla da TD.
Snow et al. (2017) argumentam que uma empresa totalmente digital consiste em uma combinação poderosa de pessoas, tecnologia e capacidade de organização, o que é apropriado ao ambiente econômico e social da era digital. Para os autores, como uma forma organizacional ágil, a organização digital deve ser constituída por indivíduos e equipes que têm facilidade com a tecnologia e que podem colaborar dentro e fora da organização para fazer melhorias nos processos e desenvolver novas soluções.
O foco da TD é mudar a jornada do consumidor, sua experiência, recorrendo à construção de novos modelos de negócio que fazem uso das ferramentas digitais para tornar as empresas mais produtivas. Uma conclusão a que se chega é que a digitalização não é apenas uma questão de TI. Ela está relacionada com novas maneiras de pensar e agir e com novos modelos de negócio. A digitalização das organizações tornou-se, portanto, uma questão de gestão, exigindo ao mesmo tempo escolhas tecnológicas inovadoras. Nesse contexto, pesquisadores apontam algumas áreas fundamentais para o processo de TD: mudanças na estrutura do negócio (cultura, modelos e processos operacionais); mudanças na criação de valor e oferta de experiências ao cliente; aspectos financeiros; além do uso de tecnologias digitais (Abolhassan, 2017; Kutnjak & Pihir, 2019; Matt et al., 2015; Morakanyane et al., 2017; Rogers, 2017; Westerman et al., 2014; Ziyadin et al., 2019).
A importância de construir uma estratégia adequada ao contexto da TD, de uma transformação digital e cultural, e, consequentemente, de usufruir dos seus benefícios é destacada por Kane et al. (2015). Para os autores, uma estratégia digital objetiva e embasada em uma cultura de mudança e inovação é determinante para que as organizações alcancem o sucesso no processo da TD. Ainda segundo eles, evitar mudar a sua mentalidade e seus processos, bem como deixar de construir uma cultura direcionada para a mudança, sem investir em capacidades organizacionais, são elementos que levam as empresas à falha na implementação da TD. Para os autores, a história do avanço tecnológico nos negócios está repleta de exemplos de empresas concentradas em tecnologias que garantem o seu sucesso.
Uma mensagem comum que emerge, então, é a necessidade urgente de repensar, recalibrar e, talvez, reinventar nossas organizações, instituições, políticas e culturas, para que elas possam permitir prosperar em um mundo onde é crescente a presença de máquinas inteligentes (Olleros & Zhegu, 2016).
Alguns pesquisadores (Matt et al., 2015; Mitroulis & Kitsios, 2019; Morakanyane et al., 2017; Vukšić et al., 2018) argumentam que a forma adequada de desenvolver um modelo conceitual de TD ainda não foi desenvolvida, bem como a academia ainda carece de diretrizes específicas para as empresas sobre como formular, implementar e avaliar estratégias de TD. Segundo eles, um número limitado de estudos acadêmicos enfocou estratégias de TD, o que sugere a realização de pesquisas futuras acerca do tema.
O objetivo deste estudo é, pois, definir dimensões base para a TD que possam servir como referência às organizações que seguem ou pretendem seguir no caminho rumo à digitalização de suas operações, produtos e serviços, bem como possam contribuir para estudos futuros no campo da TD.
DESENHO E MÉTODO DA PESQUISA
A fim de responder à questão norteadora desta pesquisa, a abordagem metodológica escolhida para o desenvolvimento da presente investigação é a pesquisa processual (Langley, 2009). Ela auxiliará no entendimento do processo de TD, considerando as tecnologias habilitadoras da I4.0.
O método utilizado neste estudo foi a pesquisa exploratória e descritiva (Gray, 2012). Esse tipo de pesquisa visa conhecer um fenômeno sem modificá-lo, a fim de entender o objeto de interesse em um determinado espaço e tempo (Cook et al., 1987).
Desse modo, este estudo apresenta-se como uma pesquisa exploratória de caráter bibliográfico e documental. Nele foi conduzida uma revisão da literatura para obter insights sobre a pesquisa atual em TD e usá-la como base para definir quais dimensões são norteadoras no processo de TD4.0 em uma organização, considerando o mundo atual (uma sociedade pós-pandêmica e com tecnologias do contexto da I4.0 disponíveis).
Na seção anterior, por meio de uma breve revisão da literatura, foi possível estabelecer uma base teórica para TD que irá servir de apoio ao desenvolvimento deste estudo. Assim, empreendeu-se uma revisão de literatura complementar àquela que serviu como base ao desenvolvimento teórico, no qual foram identificadas ideias que complementaram a visão sobre TD e possibilitaram a identificação de três direcionadores chaves para o seu processo.
Com o propósito de entender o que caracteriza processo de Transformação Digital, pesquisadores da área recorreram à revisão de literatura existente sobre o tema. Esse foi o ponto de partida para a construção de frameworks e roadmaps apresentados por diversos autores em artigos publicados sobre TD (e.g., N. Brown & I. Brown, 2019; Li, 2020; Morakanyane et al., 2017; Verina & Titko, 2019; Vial, 2019; Zaoui & Souissi, 2020). Um ponto relevante em relação ao trabalho realizado no presente estudo é a utilização de publicações recentes para a coleta dos dados, de modo que esta pesquisa possibilitará uma visão atualizada sobre o tema.
A seleção de textos e documentos a serem analisados para identificar e descrever os elementos chave que fazem parte do processo de TD foi realizada por meio de buscas com a palavra-chave “Digital Transformation” nas bases de dados Scopus e Google Scholar. Nestas, foram preferencialmente escolhidos artigos publicados a partir de 2017, com o objetivo de obter uma visão atualizada sobre o tema.
Com a leitura dos títulos e dos resumos, foram selecionados, por meio de um segundo filtro, os principais artigos para a leitura completa e composição da revisão teórica. A seleção resultou em 32 artigos acadêmicos dentre artigos publicados em journals e em conferências realizadas sobre o tema - estes últimos também foram considerados relevantes, uma vez que, segundo Gray (2012), artigos apresentados em conferências costumam conter as informações e os desdobramentos mais atualizados. Algumas das principais obras seminais sobre o tema também foram incluídas no estudo, sendo identificadas durante a leitura dos documentos analisados. Elas foram, então, acrescentadas aos 32 artigos selecionados. Esses documentos forneceram coletivamente o ponto de partida para a revisão.
Os dados coletados durante a análise dos documentos foram agrupados em nove dimensões básicas, distribuídas entre três direcionadores principais. Essas informações permitiram a construção de um modelo inicial para a análise e o estudo do processo de TD4.0 no futuro. O modelo é apresentado na seção quatro deste texto.
PONTOS DE PARTIDA PARA A TD4.0
N. Brown e I. Brown (2019) argumentam que uma estratégia de TD mapeia o caminho em direção à TD e orienta os gestores graças a um processo que é o resultado da integração e uso de tecnologias digitais. Esses autores apoiam tais empreendimentos desde que a estrutura de TD seja constituída de quatro fatores básicos: (1) compreensão de como a TD irá remodelar a criação de valor da empresa; (2) as capacidades da empresa e a sua abordagem para explorar novas tecnologias digitais; (3) a reestruturação dos processos internos de forma a garantir que as capacidades estejam disponíveis para facilitar o valor oferecido pelas novas tecnologias; e (4) recursos que financiem as iniciativas de TD.
Neste estudo, os elementos que integram o processo de TD foram agrupados em três categorias, as quais representam os direcionadores principais (drivers) do processo de TD em uma organização: o pensamento digital, que engloba cultura e novas formas de abordagem, aqui nomeado mindset digital; as suas tecnologias digitais habilitadoras; e as capacidades digitais que irão tornar o processo de TD realizável e possível.
Em cada um desses três direcionadores, foram identificadas as respectivas dimensões a serem avaliadas, conforme será mostrado adiante, na seção 4.4.
Mindset digital
Muitas organizações passaram ou estão passando por uma transformação digital. Em um contexto em que a tecnologia digital, a inovação digital e a digitalização estão alterando fundamentalmente os processos de negócios, produtos, serviços e relacionamentos, as organizações precisam mudar fundamentalmente a forma como fazem negócios e a mentalidade dos funcionários, bem como se reestruturar para sobreviver (Osmundsen et al., 2018).
Para usufruir de todas as possibilidades que as tecnologias digitais podem proporcionar, promovendo experiências cada vez melhores e personalizadas para aqueles que adquirem seus produtos e serviços, as organizações precisam, pois, realizar mudanças profundas em suas estruturas internas e externas. Um ponto de partida para o processo da transformação digital é a adoção de uma nova forma de pensar. Essa mudança de mentalidade envolve assumir internamente uma postura pró-digital, o que significa impor agilidade, flexibilidade, criatividade e inovação em suas atividades (Bonnet & Westerman, 2021; Morakanyane et al., 2017; Rogers, 2017). Desse modo, é importante criar uma rede de colaboração para todos os atores da organização, em todos os seus níveis, os quais, também, precisam estar engajados em tal processo. Além disso, é preciso ter uma cultura organizacional focada no cliente, que é o que vai direcionar a implementação das ações pela digitalização das operações. Para que a digitalização seja bem-sucedida em uma organização, Ohr (2020) e Upadrista (2021) argumentam que mentalidade digital correta não é apenas aquela que se direciona à entrega de experiências evoluídas para os clientes, é também aquela que promove uma transformação no modelo operacional e na força de trabalho da empresa.
Outro aspecto relevante em relação ao pensamento digital é a “datatização” das operações. Isso significa dizer que uma organização digital precisa assumir uma abordagem mais orientada a dados, lançando mão das tecnologias digitais não somente para gerenciar melhor as informações dos seus clientes, fornecedores e operações, como também para tornar seus processos de tomada de decisão mais robustos. Segundo Schallmo et al. (2017), a “datatização” permite obter novos conhecimentos e reimaginar modelos de negócio e operações; esse know-how recém-adquirido poderá ser utilizado para melhorar as capacidades de tomada de decisão, diferenciando a TD de outros campos de estudo. Para os autores, em lugar de apenas tornar os processos mais eficientes ou rápidos, a TD exige que os indivíduos repensem os processos antigos, criem processos e tomem novas decisões.
Osmundsen et al. (2018) abordam o processo da TD por outra perspectiva: a social. Os autores abordam estruturas sociotécnicas, as quais, segundo eles, referem-se a interações humanas (relacionamentos, normas etc.) e aspectos técnicos da estrutura (tecnologia, tarefas, rotinas etc.) Para eles, digitalização significa alavancar a tecnologia digital objetivando alterar tais estruturas sociotécnicas.
Percebe-se, então, que o processo de TD exige uma integração sustentável entre as tecnologias, os sistemas de gestão, os modelos operacionais e todos os atores envolvidos nesse processo.
Em relação ao direcionador pensamento, ou mindset digital, foram definidas na pesquisa três dimensões. A primeira, estratégia e cultura organizacional, tem a ver com a forma como a organização pensa e age. A segunda, relacionamento, consiste em uma abordagem a respeito de como a organização interage com toda a sua cadeia de clientes, empregados e fornecedores. A terceira, gestão de dados e da informação, diz respeito às informações que as empresas precisam gerenciar dentro e fora da organização.
Tecnologias digitais
Quando se fala em Transformação Digital, ocorre a alusão imediata ao uso de tecnologias digitais. Conforme apresentado no início deste texto, a presença de novas tecnologias vem transformando o mundo dos negócios há muito tempo; portanto, pode-se afirmar que a TD não é viável sem o uso de tecnologias.
A terminologia mais comumente compreendida como Tecnologia Digital está relacionada a dispositivos incorporados, mídia social, dispositivos móveis inteligentes, plataformas de colaboração, computação em nuvem, computação cognitiva, análise de big data, blockchain, inteligência artificial incorporada em máquinas e ferramentas e Internet das Coisas. Essas tecnologias oferecem novos usos baseados na inovação e focados nas necessidades do consumidor. Elas compõem um conjunto de tendências que estão em perpétua evolução exponencial e que, de uma forma dinâmica, formam a base tecnológica da TD e a influenciam significativamente (Abolhassan, 2017; N. Brown & I. Brown, 2019; Mahraz et al., 2019; McAfee et al., 2012; Snow et al., 2017; Westerman & Bonnet, 2015; Ziyadin et al., 2019).
Sob essas reflexões, conclui-se que as tecnologias digitais ubíquas consistem em um arranjo estruturado de objetos tecnológicos não materiais e materiais, contendo tecnologias de computação, comunicação, interação e informação que permitem a criação de produtos e serviços inovadores (N. Brown & I. Brown, 2019).
Considerando o papel das Tecnologias Digitais no processo de TD, foram definidas duas dimensões chave: i. operações, em que deve ser considerada a aplicação e implementação das tecnologias 4.0 na estrutura operacional da empresa, observando seus processos e procedimentos organizacionais; ii. infraestrutura, na qual é necessário considerar os recursos tecnológicos disponíveis de hardware e software.
Capacidades digitais
A TD é um assunto amplo, requer competência em estratégia e visão; pessoas e cultura; processo e governança e tecnologia e recursos. Para empresas, digital significa repensar como usar novos recursos, ferramentas e tecnologias visando melhorar a forma como os clientes são servidos e, ao mesmo tempo, reduzir os custos de TI, e, em geral, trabalhar com mais eficiência (Upadrista, 2021).
Desse modo, é fator primordial no caminho rumo à digitalização entender quais capacidades (o que pode incluir recursos, ferramentas e tecnologias) são necessárias ao processo de TD.
As capacidades digitais constituem um conjunto de habilidades e recursos que as organizações precisam adquirir e desenvolver e que serão incorporados (habilidades e recursos) às tecnologias digitais, permitindo que as organizações façam o melhor uso destas, bem como visualizem e conduzam mudanças organizacionais para obter os melhores resultados de TD (Bonnet & Westerman, 2021; Morakanyane et al., 2017; Rogers, 2017; Upadrista, 2021).
Dimensões base para TD4.0
Para Bonnet e Westerman (2021), o processo de TD exige uma reconfiguração no modelo de entrega de valor, que pode surgir com a combinação de produtos e serviços por meio de formas inovadoras, quais sejam: fazendo melhor uso de análises e projetando novos modelos de negócio. Os autores entendem que elaborar uma visão para a TD é uma jornada na qual se começa plantando a semente no topo; em seguida, as pessoas são envolvidas em todos os níveis para dar vida e crescimento a essa visão.
Mas quais são os elementos que constituem essa jornada? Como demonstrado nas seções a seguir, foram definidas nove dimensões base, apresentadas na Figura 1, a partir da revisão de literatura realizada.
Estas dimensões foram reunidas com base no pensamento dos autores deste estudo e em documentos pesquisados, aproximando os termos utilizados nos textos com a forma como os autores abordaram e definiram tais dimensões.
Sob o direcionador mindset digital, os autores, em sua maioria, abordaram a importância de uma cultura baseada em hábitos digitais, além da abertura à inovação e ao risco. Outro ponto destacado são as novas possibilidades de redes de relacionamento que surgem nesse contexto. Além disso, como foi citado anteriormente, no contexto das tecnologias e da TD4.0, os dados tornaram-se ativos estratégicos, especialmente com as oportunidades oferecidas pelo uso de big data e outros recursos de gestão da informação, o que consiste em uma nova forma de pensar a organização, citada de forma abundante nos textos.
O direcionador tecnologias digitais esteve mais presente nos documentos, tendo sido abordado, em algumas situações, no contexto da infraestrutura de TI e, em outras situações, no contexto da execução das operações.
Considerando o direcionador capacidades digitais, a necessidade de desenvolvimento de competências técnicas e comportamentais direcionadas a esse novo contexto de tecnologias 4.0 foi o tema mais frequente nos textos. Outras necessidades identificadas no contexto das capacidades digitais foram: a habilidade de digitalização dos produtos e serviços, ter uma estrutura de governança direcionada para essa nova realidade e a necessidade de recursos financeiros adequados ao processo da TD4.0.
O detalhamento de cada uma dessas dimensões é apresentado no Quadro 1.
As nove dimensões definidas neste estudo fazem parte de um cenário delineado de acordo com a pesquisa desenvolvida e que faz parte de um método investigativo que avança para definir um modelo de mensuração do grau de maturidade de uma organização no contexto da TD4.0, permitindo a supervisão do processo em questão. Nesse percurso, os próximos passos serão definir categorias relacionadas com cada dimensão (unidades de análise) e as capacidades e tecnologias digitais envolvidas em cada dimensão (indicadores de análise). Finalizada a etapa de construção do modelo, o método de pesquisa prevê a execução da etapa de sua aplicação em casos de uso em que ele será avaliado e validado por profissionais e especialistas que pesquisam TD4.0, o que visa garantir que o modelo elaborado seja o mais adequado possível. O desenvolvimento e os resultados dessas etapas serão apresentados em publicações futuras.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como resultado desta pesquisa, foi possível identificar nove dimensões base ou requisitos que podem ser considerados para medir o grau de preparação ou avanço da TD em uma organização (1. estratégia e cultura organizacionais; 2. relacionamento; 3. dados e gestão da informação; 4. operações; 5. infraestrutura; 6. desenvolvimento de competências; 7. produtos e serviços; 8. governança; 9. recursos financeiros). Elas foram agrupadas com base em três elementos direcionadores do processo de TD: mindset digital, tecnologias digitais e capacidades digitais.
Uma das contribuições desta pesquisa é a elucidação de aspectos sobre o processo de TD numa perspectiva teórica atualizada, por meio da qual foi apresentada uma abordagem considerando-se três elementos principais como possíveis direcionadores chave para esse processo.
Quanto ao contexto de aplicação da proposta de pesquisa desenvolvida, as nove dimensões que foram aqui definidas poderão ser utilizadas como ponto de partida para a construção de um roadmap para a TD no Brasil, inclusive em pesquisas futuras. Este estudo também poderá ser adaptado e aplicado a outras organizações fora do Brasil.
Embora o objetivo do estudo de definir quais dimensões são fundamentais para o processo de TD em uma organização tenha sido atingido, uma limitação que ele apresenta é que ainda não há uma demonstração prática de como realizar a TD em uma organização. Com este estudo e as nove dimensões base estabelecidas, define-se, então, como um próximo passo, construir um modelo que seja capaz de mensurar o processo de TD no Brasil.
Outra limitação que se impôs ao desenvolvimento deste estudo é a sua construção fundamentalmente teórica. Uma sugestão recomendada é realizar entrevistas, grupos focais ou outra metodologia utilizando profissionais e especialistas da área que possam validar as dimensões encontradas, além de possibilitar uma maior compreensão sobre o tema, o que se pretende realizar em investigações futuras, no contexto da pesquisa que está a se desenvolver.
Assim, uma vez que a evolução tecnológica associada ao conceito de Indústria 4.0 é crescente e intensa, esse fato torna-se um agente motivador para perpetuar a importância das pesquisas de impacto da TD nos modelos dos negócios. Portanto seria bastante interessante ter uma comunidade que dialogue sobre esse tema no âmbito da Gestão da Tecnologia e da Informação e que possa construir conhecimento com base nas diversas experiências e abordagens.
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Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.




Fonte: Elaborada pelos autores.
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