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Jornal Brasileiro de Pneumologia

Print version ISSN 1806-3713On-line version ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.31 no.4 São Paulo July/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132005000400015 

RELATO DE CASO

 

Hemangiomatose capilar pulmonar, uma rara causa de hipertensão pulmonar. Primeiro caso brasileiro*

 

 

Helano Neiva de CastroI; Mara Rúbia Fernades de FigueiredoI; Norma Selma SantosII; Teresa Neuma Albuquerque Gomes NogueiraIII; Maria da Penha UchoaIV; Marcelo Alcântara HolandaV

IMédico Residente de Pneumologia do Hospital de Messejana - HM - Fortaleza (CE) Brasil
IIMédica Radiologista do Hospital de Messejana - HM - Fortaleza (CE) Brasil
IIIMédica Patologista da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza (CE) Brasil
IVMédica Pneumologista do Hospital de Messejana - HM - Fortaleza (CE) Brasil
VChefe da Unidade de Terapia Intensiva Respiratória do Hospital de Messejana - HM - Fortaleza (CE) Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A hemangiomatose capilar pulmonar é uma doença rara, caracterizada por proliferação de capilares que invadem o interstício pulmonar e o septo alveolar. Documentamos o primeiro caso brasileiro: um paciente do sexo masculino, de 21 anos, com hipertensão pulmonar grave, que evoluiu para óbito. Na tomografia computadorizada de alta resolução apresentava pequenas opacidades intersticiais nodulares maldefinidas, bilateralmente. Foi realizada biópsia pulmonar post-mortem e encontrada intensa proliferação multifocal de capilares nas paredes alveolares, septos interlobulares e tecido conjuntivo peribrônquico. O diagnóstico de hemangiomatose capilar pulmonar deve ser considerado nos pacientes com hipertensão pulmonar e alterações sugestivas na tomografia computadorizada de alta resolução.

Descritores: Hemangioma capilar/etiologia; Hemangioma capilar/diagnóstico; Hipertensão pulmonar/complicações; Tomografia computadorizada de emissão; Relato de caso


 

 

INTRODUÇÃO

A hemangiomatose capilar pulmonar (HCP) é uma doença rara, que se caracteriza basicamente por uma proliferação exagerada de capilares no interstício pulmonar e septos alveolares.(1) Ocorre em ambos os sexos, na faixa etária dos doze aos 71 anos e apenas um total de 31 casos foram descritos na literatura internacional(2). Este relato tem como objetivo apresentar o primeiro caso brasileiro de hipertensão pulmonar grave secundária a hemangiomatose capilar pulmonar, bem como uma revisão dos aspectos patogênicos, diagnósticos e terapêuticos envolvidos.

 

RELATO DO CASO

Um paciente do sexo masculino, com 21 anos de idade, motorista, residente em área rural (Viçosa - CE) procurou serviço médico queixando-se de dispnéia progressiva aos esforços havia um ano, com episódios isolados de hemoptise.

Quinze dias antes da admissão hospitalar fez um cateterismo cardíaco que evidenciou hipertensão pulmonar com pressão sistólica de artéria pulmonar de 56 mmHg. Ao exame físico inicial observava-se dispnéia (+/4+) e segunda bulha hiperfonética em foco pulmonar. Negava tuberculose, asma, tabagismo e uso de drogas ilícitas.

Os exames de hemograma, função hepática e função renal foram normais. A gasometria arterial em ar ambiente apresentou: pH de 7,44; PaCO2 de 31; PaO2 de 67; SaO2 de 93% e HCO3 de 20. Os exames parasitológico de fezes, fator antinúcleo, anticoagulante lúpico, anticardiolipina e antivírus da imunodeficiência humana foram negativos. A pesquisa seriada de bacilo álcool-acidorresistente no escarro induzido foi negativa.

O eletrocardiograma mostrava sinais de sobre-carga ventricular direita. O exame de ecocardiograma evidenciava uma fração de ejeção de 79%, dilatação das câmaras direitas, insuficiência tricúspide moderada e pressão média de artéria pulmonar de 56 mmHg. Pelo agravamento dos sintomas fez-se uma nova arteriografia pulmonar, a qual mostrou pressão sistólica de artéria pulmonar de 80 mmHg, pressão diastólica de artéria pulmonar de 42 mmHg, pressão média de artéria pulmonar de 55 mmHg e pressões de câmaras cardíacas direitas elevadas.

Foram realizadas espirometria, ultra-sonografia de abdome com doppler e biópsia retal com pesquisa de esquistossomose, cujos resultados apresentaram-se normais. A radiografia de tórax inicial foi considerada normal (Figura 1A). Contudo, na tomografia computadorizada de alta resolução foi notado um padrão de vidro fosco difuso com pequenas opacidades nodulares bilaterais, de limites pouco definidos (Figura 2).

 

 

 

 

O paciente apresentou piora clínica com franca insuficiência respiratória e elevação da pressão arterial pulmonar (pressão sistólica de artéria pulmonar de 90 mmHg) e piora radiológica (Figura 1B). Foi transferido para unidade de terapia intensiva e submetido a pulsoterapia com metil-prednisolona (1 g/3 dias), sem resposta clínica eficaz. Foi submetido à ventilação mecânica invasiva, mas não houve melhora na hipoxemia, tendo-se seguido o óbito.

Na biópsia pulmonar post-mortem, encontrou-se intensa proliferação multifocal de capilares nas paredes alveolares, septos interlobulares, em região peribrônquica e perivascular, assim como na pleura. Hemossiderose e espessamento discreto da média das artérias pulmonares e da camada íntima em vênulas e pequenas veias foram observados (Figura 3). Notaram-se também trechos com fibrose septal discreta e leucócitos esparsos. Este conjunto de achados é consistente com o diagnóstico de hemangiomatose capilar pulmonar.(3- 9)

 

 

DISCUSSÃO

A HCP é uma rara causa de hipertensão pulmonar. Apenas 31 casos já foram relatados na literatura. Este é o 32º caso documentado. Não há predominância por sexo(3-8) e ocorre principalmente em adultos jovens (variando dos seis aos 71 anos de idade).

A sua etiologia é desconhecida, mas em alguns casos sugere-se relação com o uso de anticoncepcionais orais e em outros um componente familiar.(8-11). Há ainda evidências de que possa resultar de uma proliferação capilar neoplásica ou ser conseqüente a uma infecção prévia.(12-15)

Os pacientes apresentam-se clinicamente com dispnéia, hemoptise e nos casos mais avançados com hipertensão pulmonar. Achados espirométricos inespecíficos, tanto de restrição volumétrica quanto de obstrução ao fluxo aéreo, além de capacidade de difusão de monóxido de carbono diminuída, aparecem nas provas de função pulmonar(15).

Os achados radiológicos mais típicos são de micronódulos, infiltrados reticulonodulares difusos e aumento do calibre da artéria pulmonar. Na tomografia computadorizada de tórax de alta resolução apresentam-se com padrão de vidro fosco, alargamento da artéria pulmonar e presença de pequenos nódulos difusos e bilaterais maldefinidos.(15-17)

No exame histopatológico verifica-se: proliferação multifocal de capilares nas paredes alveolares, septos interlobulares, peribrônquicos e pleurais; hipertrofia da musculatura das arteríolas pulmonares; espessamento da camada íntima de vênulas; e hemossiderose.(17-18) O diagnóstico diferencial deve ser feito com a doença veno-oclusiva pulmonar, que cursa com trombose e fibrose obliterando vênulas e com conseqüente congestão pulmonar.(19-20) Em alguns casos de doença veno-oclusiva pulmonar podem ser encontrados focos de HCP. O inverso também pode ocorrer, ou seja, podem ser encontrados focos de doença veno-oclusiva pulmonar na HCP, mas não de modo disseminado. Isto torna a distinção entre HCP e doença veno-oclusiva pulmonar em certos casos difícil e dependente da determinação da característica dominante. Uma congestão pulmonar pode levar a um ingurgitamento dos capilares alveolares e a uma falsa impressão de HCP; contudo, neste caso, não é observado aumento quantitativo dos capilares(9).

Tentativas de tratamento com esteróides e ciclosporina não obtiveram sucesso. Terapias com alfa-interferon,(17) pneumectomia na doença unilateral(10) e transplante de pulmão também foram relatados(18).

Neste caso, inicialmente pensamos em otimizar os níveis de pressão da artéria pulmonar com o uso de vasodilatadores, após um teste de vaso-dilatação com óxido nítrico, para uma posterior biópsia pulmonar a céu aberto. Contudo esta conduta foi abandonada pois o uso de vasodilatadores na suspeita de HCP pode levar a um risco de edema agudo de pulmão durante o procedimento.(13)

Em apenas dois casos documentados na literatura houve respostas terapêuticas satisfatórias. O primeiro com o uso de alfa-interferon, sem recorrência após cinco anos, e o segundo com o uso de doxiciclina.(2) Neste último, o paciente apresentava uma manifestação de endoteliose atípica e inicialmente não respondeu ao tratamento com alfa-interferon. A resposta foi acompanhada pela dosagem urinária do fator de crescimento do fibroblasto, sendo esta a melhor resposta tera-pêutica dos casos já documentados na literatura.

O prognóstico da HCP em geral é ruim, com sobrevida após o diagnóstico, sem tratamento, menor que dois anos.(1-18)

Devido à raridade desta patologia, observamos, após revisão, que este é o primeiro caso a ser publicado na literatura médica brasileira indexada. Cabe ressaltar a importância de se incluir a HCP no diagnóstico diferencial de hipertensão pulmonar, para que novos casos sejam precocemente diagnosticados.

 

REFERÊNCIAS

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3. Fernandez-Alonso J, Zulueta T, Reyes-Ramirez JR, Castillo-Palma MJ, Sanchez-Roman J. Pulmonary capillary hemangiomatosis as cause of pulmonary hypertension in a young woman with systemic lupus erythematosus. J Rheumatol. 1999;26(1):231-3.        [ Links ]

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Endereço para correspondência
Helano Neiva de Castro
Rua Gilberto Studart 488, 1.265, apto 201
Parque do Cocó, Fortaleza - CE
CEP: 60190-750
Tel: 55 85 3265-6619
E-mail: helanocastro@terra.com.br

Recebido para publicação em 17/2/05. Aprovado, após revisão, em 15/4/05.

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Pneumologia do Hospital de Messejana - HM - Fortaleza (CE) Brasil.

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