Resumo
Introdução As resinas de polimetilmetacrilato e as bisacrílicas são materiais amplamente utilizados para a confecção de restaurações provisórias; no entanto, ambas apresentam uma característica de exotermia durante a polimerização que deve ser investigada por causa de possíveis interferências no sucesso clínico.
Objetivo Avaliar a variação de temperatura de polimerização da resina bisacrílica e de uma resina acrílica quimicamente ativada, em preparos classe V, pelo método direto.
Material e método Para isso, vinte dentes incisivos inferiores bovinos foram divididos em dois grupos: RA (N=10) com dentes restaurados com resina acrílica e RB (N=10) com dentes restaurados com resina bisacrílica. As mensurações das variações térmicas foram realizadas através de termopares tipo J, ligados a um termômetro óptico, e analisadas por um computador equipado com o software específico. Os dados obtidos foram analisados e submetidos à análise de médias comparadas pelo teste de Tukey (significância de 5%).
Resultado Foi possível observar que não houve diferença estatística significante entre ambos os grupos experimentais (p=0,0739), mesmo que aumento de temperatura de RA tenha apresentado média maior (0,52 °C) do que RB (0,44 °C).
Conclusão Não existe diferença significativa experimental entre o calor emitido pela resina acrílica e pela resina bisacrílica durante seus processos de polimerização, não definindo a característica de escolha de uma destas para as restaurações provisórias diretas.
Descritores:
Resinas acrílicas; polimerização; calor
Abstract
Introduction Polymethyl methacrylate and bis-acryl resins are materials widely used for temporary restorations, however, both have a characteristic of polymerization exotermia that should be investigated because of possible interferences in clinical success.
Objective to evaluate the variation of the polymerization temperature of bis-acryl resin and a chemically activated acrylic resin in the temporary restoration by the direct method.
Material and method Twenty bovine mandibular incisor teeth were divided into two groups: AR (N = 10) teeth restored with acrylic resin and BR (N = 10) teeth restored with bis-acryl resin. Measurements of thermal variations were performed using type J thermocouples, connected to an optical thermometer and analyzed by a computer equipped with specific software. The obtained data were analyzed and submitted to the analysis of means compared by Tukey test (significance of 5%).
Result It was observed that there was no statistically significant difference between both experimental groups (p = 0.0739), even though AR temperature increase presented higher average (0.52ºC) than BR (0.44ºC).
Conclusion There is no significant experimental difference between the heat emitted by acrylic resin and bis-acryl resin during their polymerization processes, not defining the factor that characterizes a choice of a material for temporary restorations.
Descriptors:
Acrylic resins; polymerization; heat
INTRODUÇÃO
Na Odontologia, durante o tratamento restaurador, as resinas acrílicas são frequentemente utilizadas na confecção de restaurações temporárias, com o objetivo de devolver e manter a função, o conforto e a estética do paciente1. Essas restaurações temporárias estão atreladas à previsibilidade do tratamento, com o restabelecimento da dimensão vertical e o planejamento da forma, do tamanho e da cor da restauração definitiva1. Assim, nas reabilitações protéticas, as restaurações temporárias são parte de uma etapa importante do tratamento, necessitando de uma durabilidade compatível com sua funcionalidade2,3.
Nesse contexto, as resinas acrílicas utilizadas devem resistir às forças mastigatórias, às repetidas remoções e cimentações realizadas ao longo do tratamento, e apresentar uma superfície passível de manutenção, com polimento, para evitar o acúmulo de biofilme dentário4,5. No entanto, a alta incidência de fraturas, a necessidade constante de reparos6 e a baixa estabilidade dimensional das próteses temporárias em resina acrílica impulsionam a pesquisa e o desenvolvimento de novos materiais e técnicas que possam contribuir para o aprimoramento de coroas provisórias7-9.
Frequentemente, as resinas de polimetilmetacrilato (PMMA) são utilizadas para confeccionar, ou mesmo reembasar, as coroas provisórias, porém apresentam desvantagens mecânicas significativas, como insuficiente estabilidade dimensional9. Já as resinas bisacrílicas, embora mais caras, apresentam propriedades vantajosas, como melhor resistência mecânica e durabilidade, menor contração de polimerização e reação exotérmica, e melhor estabilidade de cor em comparação ao PMMA1,10-12.
Quanto à técnica de fabricação de restaurações provisórias, muito utilizada clinicamente, a técnica direta apresenta duas lacunas de efetividade: a presença de monômero residual, que pode ser nociva para a polpa dentária, e o aumento de temperatura durante a reação de polimerização. Note-se que tanto a presença de monômero residual quanto o aumento de temperatura podem acarretar alterações pulpares irreversíveis13-15.
Desta forma, o objetivo deste estudo foi avaliar a variação de temperatura de polimerização da resina bisacrílica e de uma resina acrílica quimicamente ativada, em preparos classe V, pelo método direto.
MATERIAL E MÉTODO
Materiais
A Tabela 1 apresenta os materiais utilizados no presente estudo.
Além disso, foram utilizados vinte dentes incisivos inferiores bovinos – com utilização aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Animais sob o processo 14/2009-PA/CEP – obtidos em matadouro (Frigorífico Mantiqueira – São José dos Campos), de animais com faixa etária de três anos16.
Preparo dos Elementos Dentais
Os dentes foram divididos em dois grupos distintos, de 10 unidades cada, e mantidos em soro fisiológico refrigerado. Todos os espécimes tiveram suas raízes cortadas em seu terço médio e foram então despolpados, com o auxílio de limas endodônticas tipo Headströen. As faces vestibulares foram padronizadas quanto à espessura esmalte/dentina em 2,5 mm17.
Realizaram-se, então, preparos cavitários classe V, padronizados quanto à largura e comprimento (3 mm × 4 mm), utilizando-se uma turbina de alta rotação, com pontas diamantadas 1093 (KG Sorensen, Brasil), marcadas com uma área de corte de 1,5 mm, o que resultou na manutenção de espessura de dentina remanescente em aproximadamente 1 mm para todos os elementos. A técnica utilizada na confecção dos preparos estabeleceu intermitência de um segundo de corte por um segundo de descanso17, carga sobre a turbina variando entre 50 g e 8 0g, definida pela realização dos preparos sobre uma balança de precisão (Mettler – Toledo, Suíça).
Análise Térmica
Após a confecção dos preparos cavitários, posicionaram-se termopares tipo J (Ecil, Brasil), com 0,5 mm de espessura, de modo a realizar as leituras na área interna das câmaras pulpares de cada elemento. As câmaras pulpares foram preenchidas com uma pasta termocondutora e as aberturas radiculares vedadas com obturador provisório. Tanto os dentes quanto os termopares foram parcialmente incluídos em silicone denso para facilitar a estabilidade do conjunto junto à haste fixadora, mantendo a face vestibular exposta ao meio.
Procedimento Restaurador
Inicialmente, os dentes foram limpos e secos. Pela técnica direta, no grupo RA, a resina acrílica foi disposta no preparo classe V do dente até preencher totalmente a cavidade e, do mesmo modo, para o grupo RB, a resina bisacrílica foi utilizada seguindo as recomendações do fabricante. Imediatamente ao processo das restaurações, iniciou-se a mensuração da temperatura. Os termopares foram ligados a um termômetro óptico (Raynger MX4+, Raytek, EUA), ligado a um computador equipado com o software IR-Graph, V 1.02 (Raytek, EUA).
Análise Estatística
Os dados obtidos foram analisados e submetidos à análise de médias comparadas pelo teste de Tukey (significância de 5%).
RESULTADO
A Figura 1 apresenta os resultados referentes às análises térmicas realizadas para os grupos de resina acrílica quimicamente ativada e resina bisacrílica, no que diz respeito a aumento de temperatura durante processo de polimerização.
Foi possível observar que não houve diferença estatística significante entre ambos os grupos experimentais (p=0,0739), mesmo que o aumento de temperatura de RA tenha apresentado média maior (0,52 °C) do que RB (0,44 °C).
DISCUSSÃO
Um dos problemas clínicos na utilização das resinas acrílicas é a exotermia inerente a esses materiais, durante sua reação de polimerização, na qual as duplas ligações de carbono são convertidas em simples ligações, gerando calor18. E, para preencher esta e outras lacunas, nas características deste material, as resinas bisacrílicas foram desenvolvidas. No entanto, junto nasce a necessidade de se avaliar e, consequentemente, comparar o real comportamento desses materiais durante as restaurações provisórias diretas.
Alguns estudos demonstram que, como material provisório, a resina bisacrílica apresenta vantagens em suas propriedades físicas quando comparada com a resina de metilmetacrilato1,10-12. Dentre as vantagens relatadas, está a menor reação exotérmica; todavia, o presente estudo não encontrou resultados significantemente diferentes entre ambas as resinas (p=0,0739). Ou seja, a menor geração de calor, para o interior da câmara pulpar, da resina bisacrílica, com média de 0,44 °C, não apresentou diferença estatística em relação à resina acrílica quimicamente ativada, com média de 0,52 °C.
Em contrapartida, algumas pesquisas10,19 defendem que a resina à base de bisacrilato apresenta baixa reação de exotermia, sendo assim mais segura para ser utilizada como material provisório, por não apresentar um pico exotérmico durante a sua polimerização, enquanto que a resina à base de metilmetacrilato apresentaria uma alta exotermia, podendo causar danos pulpares. Assim, também, outro estudo20 analisou a transmissão de calor para a polpa com diferentes resinas à base de metilmetacrilato, que variou de 0,6 até 5 °C, e à base de bisacrilato, com variação de 0,8 até 2,9 °C, apresentando diferença significativa entre os materiais.
Já para outro estudo, apesar de a resina bisacrílica apresentar sim o menor aumento de temperatura para câmara pulpar, ambas as resinas estão dentro de um limite seguro de variação21. Em concordância com este achado, entende-se que os valores de maior risco para o tecido pulpar estão acima de 5,55 °C22 e que os valores encontrados neste trabalho para ambas as resinas, variaram de 0,4 até 0,7 °C, demonstrando segurança para a confecção de próteses provisórias.
Outro fator importante a se discutir perante outras pesquisas é a diferença de variação nos valores do aumento da temperatura, que pode existir devido às diferenças do volume do material utilizado para cada tipo de estudo. A transmissão de calor através da dentina remanescente depende de vários fatores extrínsecos e intrínsecos23,24. Em um dente que possua um preparo profundo, com consequente menor quantidade de dentina residual, o potencial de a polpa ser danificada é maior pois o fluxo de calor através da dentina é inversamente proporcional à espessura da dentina remanescente23,24. Deste modo, a espessura da dentina é um dos fatores críticos na proteção da polpa de danos causados pela variação de temperatura.
CONCLUSÃO
É possível concluir, com os resultados do presente estudo, que não existe diferença significativa experimental entre o calor emitido pela resina acrílica e pela resina bisacrílica durante seus processos de polimerização, não sendo este fator, portanto, o que definirá clinicamente a utilização de um material em detrimento do outro nas restaurações provisórias diretas.
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Como citar: Cardoso TW, Sato TP, Rode KM, Borges ALS, Rode SM. Comparação da exotermia de resinas durante a restauração provisória direta. Rev Odontol UNESP. 2019;48:e20190103. https://doi.org/10.1590/1807-2577.10319
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