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Revista Brasileira de Educação Física e Esporte

Print version ISSN 1807-5509On-line version ISSN 1981-4690

Rev. bras. educ. fís. esporte vol.30 no.3 São Paulo July/Sept. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1807-55092016000300703 

Sociocultural

“O clássico dos clássicos” das alterosas mineiras: a invenção da rivalidade futebolística entre Athletico e Palestra

Rogério Othon Teixeira Alves* 

Silvio Ricardo da Silva** 

Sarah Teixeira Soutto Mayor** 

Georgino Jorge de Souza Neto* 

*Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros MG, Brasil

**Escola de Educação Fisica, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil

Resumo

O presente artigo tenciona investigar a gênese da rivalidade entre os clubes de futebol do Palestra Itália e Athletico Mineiro, nos anos de 1921 a 1942, na cidade de Belo Horizonte-MG. Para além da rivalidade propriamente dita, voltamos nosso olhar para outros elementos que orbitam em torno dela, constituindo as experiências dos sujeitos e do torcer. Para tanto, utilizamos as fontes localizadas nos periódicos publicados pela imprensa no período supracitado. Assim, jornais pertencentes a acervos como Hemeroteca Pública do Estado de Minas Gerais, Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, Arquivo Público da Cidade e a Coleção Linhares foram consultados. Neste sentido, as notas, colunas e seções que tratam dos embates entre Palestra e Athletico tornaram-se a matéria-prima para a elaboração desta narrativa. Podemos perceber que a imprensa colaborou, sobremaneira, na construção de uma tradição inventada para alavancar o espetáculo esportivo/futebolistico. Nestes meandros, a tentativa de um controle das condutas emerge na forma de uma “educação para o torcer”, ditando um modelo adequado de se portar, mas ao mesmo tempo, alimentando o ideário de uma rivalidade que pudesse se consolidar e marcar o cotidiano dos sujeitos envolvidos nela.

Palavras-Chave: História; Tradição; Torcer; Educação

Introdução

Mário Rodrigues Filho1 foi um dos grandes ícones da crônica futebolística brasileira do século XX. Seus comentários inspirados no cotidiano do torcedor, com termos e expressões que impactaram a linguagem (do ordinário ao literato e vice-versa), foram um dos fatores preponderantes para o alcance popular de sua obra que, posteriormente, tornou-se objeto de estudo das ciências sociais. Para ele,

[…] o futebol não seria uma paixão do povo se os sujeitos não se identificassem com um time, o seu time, com uma bandeira e uma camisa; quem torce em futebol está ligado, irremediavelmente, ao seu clube, para o bem ou para o mal, para a felicidade ou para a desgraça (p.4).

Conforme observou o autor, o futebol não alcançaria tamanha proporção se não fosse o surgimento e o incremento da ligação afetiva entre torcedor e clube. Quando nos referimos a este processo, chamamos a atenção para o fato de que o mesmo foi uma construção, pois as práticas do torcer que observamos atualmente não surgiram junto com os times; todavia, foram criadas e incorporadas pelos sujeitos ao longo da existência do futebol, incentivadas, sobremaneira, pelo crescente interesse da imprensa que se gestou em torno dos jogos disputados nos recém-criados campos.

Em se tratando da cidade de Belo Horizonte (Minas Gerais), se os primeiros clubes surgiram nos anos iniciais do século XX, pode-se inferir que a experiência do torcer atrelada ao pertencimento identitário por alguma equipe começa a surgir apenas em meados da primeira década daquele século.

A passagem de uma assistência desprovida de um sentimento afetivo por um clube de futebol para a sedimentaçâo de uma paixão clubística, marcada pela ideia central de pertencimento (meu time), não se deu de forma linear, mas assentada em um contexto plural e dinâmico. Às primeiras manifestações mais consistentes da prática do futebol em Belo Horizonte nota-se a formação de um público seletivo (assim como os praticantes), marcado pela noção de distinção e “status” social2, a.

Entre os anos de 1904 e 1908 o futebol passa por um momento oscilatório de afirmação na cidadeb, e traz consigo uma plateia mais voltada para uma notória prática social do que propriamente para um posicionamento a favor deste ou daquele clube. Neste período, os sujeitos que participavam deste processo (jogadores ou assistentes), preocupavam-se, notadamente, com o desenvolvimento do espírito esportivo, e focavam suas ações no intuito de fazer do jogo uma importante vivência social. Denominados de “sportmen” e “sportwomen”, constituíam, na primeira década do século passado, uma minoria advinda da elite belo-horizontina, caracteristicamente jovens e apegados aos novos valores do progresso e da modernidade. Após se efetivar como prática esportiva preferencial (depois de concorrer com esportes como o ciclismo e o turfe), o futebol entra na segunda década do século XX com importantes transformações. Uma delas, que diz respeito à assistência, estava na maior participação, com um aumento significativo do público assistente.

Segundo Melo3, este novo contexto, em que o esporte e o lazer ganham significação social, pode ser entendido a partir das experiências que representam:

[…] um papel estratégico preponderante e se apresentam como marcas de um novo modus vivendi, fenômeno bem típico da cidade moderna que está se estruturando, se articulando com todas as dimensões que estavam sendo construídas. São impregnadas pela idéia de luxo, pelas marcas de classe, pela influência da tecnologia, pela espetacularização do corpo, pela valorização da imagem, pela perplexidade perante a velocidade e a fugacidade (p.2).

Destarte, o reconhecimento do futebol enquanto importante manifestação que, historicamente, incorporou-se à cultura e à identidade brasileira, nos permite pensar as experiências dos sujeitos que, ao longo de mais de um século de presença deste esporte no país, conferiram a ele a vastidão de significados que observamos atualmente.

Nesta perspectiva, as reflexões de Mário Filho nos ajudam a elucidar o objetivo proposto por este artigo: o desvelamento do percurso de invenção da rivalidade entre os principais clubes do futebol mineiro na atualidade, Atlético e Cruzeiro (antigo Palestra Itália). O “clássico dos clássicos” das Minas Gerais não surge como tal nos primórdios do futebol horizontino; ao contrário, gesta-se quase três décadas após os jornais anunciarem o surgimento desse esporte na recém-criada capital mineira.

A utilização do termo invenção é intencional na medida em que objetiva acentuar o caráter forjado da rivalidade construída entre os arquirrivais das alterosas, negando, dessa forma, uma existência essencialista, delimitada, “a priori”, pelo momento de surgimento dos clubes. Falar de invenção permite pensar, por exemplo, no importante papel da imprensa periódica (em especial, os jornais impressos), na construção da hostilidade entre simpatizantes de diferentes times. Implica também pensar no incentivo ao incremento (senão ao surgimento) de um pertencimento clubístico mais acirrado por parte dos torcedores.

Entre pequenas notas e grandes reportagens de páginas inteiras, entre variadas imagens e manchetes, pudemos localizar a emergência dos embates protagonizados pelos diversos sujeitos que compunham o público das canchas: jogadores, árbitros, dirigentes, policiais e, principalmente, os torcedores. Do nascimento, vimos o recrudescimento da rivalidade, em uma relação repleta de importantes elementos que construíram, ao longo das décadas, o que representa hoje, no Estado de Minas Gerais, a existência de Atlético e Cruzeiro.

Assim, partimos da compreensão de que a rivalidade, fruto da produção de um “estranhamento do outro”, é uma construção histórica que sucede temporalmente o surgimento dos clubes, ou seja, nos primeiros anos do futebol em Belo Horizonte é possível perceber assistências favoráveis a uma ou outra equipe, pautadas muito mais pelo que cada “team” representava em dado momento na sociedade mineira do que pela relação de oposição gestada entre um e outro. A nota do periódico Minas Geraes evidenciava este distanciamento e/ ou ausência de um sentimento rival, ao descrever um encontro esportivo/festivo no ano de 1910:

O bello festival correu animadissimo, tendo attrahido ao ground do “Sport Club Bello Horizonte” grande numero de familias e cavalheiros da nossa melhor sociedade […]. A lucta travou-se entre o “Sport Club de Bello Horizonte” e o “Riachuelo F. C.”, do Rio, que sahiu vencedor. Os bravos rapazes receberam innumeros applausos das pessoas presentes, mostrando-se gratos pelas gentilezas que lhes foram dispensadas pela nossa sociedade4 (p.6).

Ao propormos este estudo, partimos do pressuposto de que, no universo do futebol, a rivalidade clubística tornou-se um elemento essencial na constituição do espetáculo esportivo, envolvendo temáticas relevantes para os estudos que compreendem este esporte como objeto das ciências humanas e sociais, tais como violência, consumo, identidade, relações de poder, códigos de pertencimento, apropriação midiática, dentre outros. Se não impossível, difícil seria imaginar o alcance do futebol na cultura (tal qual o percebemos hoje) sem a construção da rivalidade que envolve torcedores e clubes.

Da emergência aristocrática e fortemente relacionada à formação de uma cultura físico-esportiva mais afeita aos preceitos da modernidade europeia, o futebol belo-horizontino viu-se interpelado pelos mais variados sururusc e por intercorrências de toda a sorte. De uma assistência recorrentemente declarada como composta pelas “famílias da melhor sociedade”5 (p.2), os impressos passaram a retratar, com relativa rapidez, a proliferação de um aglomerado de pessoas indesejáveis e incivilizadas. Com o passar dos anos, mais precisamente entre as décadas de 30 e 40, tornam-se perceptíveis preocupações com uma “educação para o torcer”, que ultrapassavam as querelas campais e se mostravam também presentes no cotidiano da cidade, dada a excitabilidade perturbadora que o futebol causara na capital mineira.

Método

No desvelar das questões postas, valemo-nos da análise de jornais publicados na capital mineira entre os anos de 1921 e 1942, momento crucial para o delineamento da rivalidade clubística em questão. O marco inicial corresponde ao ano de surgimento do clube Palestra Itália e o marco final, ao ano em que o clube sofreu mudanças significativas, abandonando o nome que fazia referência à colônia italiana.

Assim, impressos pertencentes a acervos como a Hemeroteca Pública do Estado de Minas Gerais, a Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, o Arquivo Público da Cidade e a Coleção Linharesd foram consultados. Neste período, percebemos um paulatino enfraquecimento do triângulo de forças composto por Atlético, Palestra e América (outro importante clube da capital naquele momento) e, por conseguinte, a consolidação dos dois primeiros como protagonistas do futebol nas Minas Geraise.

No contato com os jornais encontrados nos diversos acervos em questão, vários títulos foram previamente selecionados, priorizando-se os que abordavam assuntos específicos sobre esportes e futebol. São eles: Diário de Minas, Gazeta Esportiva, Minas Geraes, O Estado de Minas, Folha da Tarde, Folha de Minas e Estado de Minas. Nas décadas pesquisadas o futebol já havia se consolidado como um dos esportes mais praticados na cidade de Belo Horizonte e mais veiculados na imprensa periódica, o que justificou a nossa escolha por este tipo de fonte.

Para a composição deste artigo, foram selecionadas 54 reportagens, o que corresponde a apenas uma parte do total pesquisado, dado o grande número de fontes mobilizadas, referentes aos mais de 20 anos que compreenderam o período estudado. Frente à limitação deste texto, nem todos os jogos pesquisados foram aqui retratados, fato que também justifica alguns saltos temporais, já que elegemos (com o devido cuidado de manter coerente a história narrada) as fontes que julgamos mais capazes de cumprir com os objetivos aqui propostos, dada a multiplicidade de abordagens possíveis que a pesquisa nos possibilita.

Percorrendo situações pontuais que marcaram a temporalidade estudada na cidade de Belo Horizonte, importa-nos muito mais do que apenas a história dos referidos clubes e de seus embates dentro e fora de campo. Tencionamos, além, por meio das perspectivas que o estudo histórico nos possibilita, elencar fatos e informações que nos permitam pensar a constituição das rivalidades no torcer enquanto manifestação primordial para se compreender as complexidades do (e para além do) futebol.

Resultados e discussão

Os primeiros embates no futebol horizontino

Para se compreender melhor a história aqui proposta torna-se relevante contextualizar o cenário futebolístico de Belo Horizonte antes mesmo do surgimento de um dos protagonistas deste enredo, o Palestra Itália. Em momento anterior à criação da referida equipe, o Club Athletico Mineiro e o America Football Club foram os primeiros detentores de uma competitividade mais acirrada na cidade, situação já capaz de anunciar um pretenso sentimento rival.

Ambos os times (Atlético e América) tiveram uma origem bastante semelhante. O primeiro, demarcado pelas cores preta e branca, foi criado em 1908 por jovens estudantes da aristocracia local, no coreto do Parque Municipal, um dos mais importantes locais de diversão da recém-capital, fundada em 1897. Já o segundo, alviverde, surgiu em 1912, nas imediações da Rua da Bahia (região também central da cidade), e foi constituído, assim como o Atlético, por jovens considerados filhos da elite. A maior diferença entre os dois residia no fato de que o clube americano foi composto, em seu momento inicial, por crianças, justamente para que os meninos de tenra idade tivessem aonde e como jogar; enquanto o Atlético era formado por estudantes secundaristas. Alguns anos mais tarde, o plantel americano passaria também a agregar jovens e adultos.

O momento de surgimento dos dois clubes dialoga com o franco crescimento do futebol em Belo Horizonte. Após um breve período de escassez de agremiações futebolísticas, com a extinção em 1907 das que existiam até aquele momento (as primeiras surgiram em 1904), o ano de 1908 marcou uma nova fase da modalidade esportiva, com o surgimento de outras agremiações6. Nesse período foram criados o Villa Nova Atlético Clube (1908), o Sport Club Mineiro (1908), o Gymnasio Football Club (1909), o Republicano Football Club (1909), o Horizontino Football Club (1909), o Minas Geraes (1910), o Yale Sport Club (1910), o Palmeiras Football Club (1912), o Club de Sports Hygienicos (1913), o Cristovão Colombo (1915), dentre outros.

Em 1915 a cidade assistiu à criação da Liga Mineira de Sports Athleticos, entidade fundamental para os desdobramentos futuros do futebol e do torcer em Minas Gerais. Naquele mesmo ano, a Liga instituiu a primeira edição do que se considera, atualmente, como campeonato mineiro. Naquela época, o torneio se chamava “Taça da Cidade” e era disputado pelas principais equipes existentes. O Atlético sagrou-se campeão, sobrepujando os clubes do América, Cristovão Colombo, Yale e Hygienicosf.

No entanto, os anos seguintes foram marcados pela supremacia do América Futebol Clube, que conquistou todos os títulos entre 1916 e 1925. Nesse momento, já era perceptível a configuração de uma identidade clubística por parte daqueles que assistiam aos jogos, acirradas, de maneira especial, pela própria criação da Liga, que passou a organizar outros campeonatos. Apesar disso, ainda não se visualizava nos impressos a configuração de uma rivalidade capaz de causar sentimentos de aversão e hostilidade entre torcedores, embora a partida entre estas duas equipes tenha sido a primeira a provocar na população momentos de ansiedade pré-jogo.

Já em 1926 e 1927, o Atlético retoma a sua anterior condição e conquista o bicampeonato mineiro. Em uma das vitórias atleticanas no ano de 1927, o Correio Mineiro relatou o encontro entre os antigos rivais, “[…] com assistência calculada em mais de cinco mil pessoas, destacando-se o grande número de famílias da nossa melhor sociedade”7(p.3). O jornal expôs, ainda, que esse jogo era o que melhor representava a elite local.

Em uma das seções “Desportos” do Minas Geraes, do ano de 1929, retratou-se a relação amistosa em que os dois times comumente se enfrentavam, embora já fossem noticiados como grandes rivais. Apesar de serem as duas agremiações de maior representatividade esportiva do Estado, ambas eram dotadas de simpatias mútuas e sentimentos de irmandade, conforme ilustrado pela nota:

[…] a pugna de hoje entre os dois antigos rivaes será daquellas em que o expectador tem, por repetidas vezes, o coração a pulsar de verdadeira emoção e enthusiasmo. E acresce a tudo isso uma aureola de intensa symphatia de amizade que envolve os dois gloriosos clubs por parte de todo o povo mineiro que, mesmo fóra da capital, acompanha com vivo interesse seus dois queridos conjunctos, orgulhos do sport de Minas. E é por isso que podemos prever para hoje a melhor tarde sportiva do anno, em que ao lado da technica do “association”, teremos o prazer de ver duas esquadras irmãs se degladiarem no campo da lucta com aquelle ardor, energia e bravura dignos sempre dos maiores elogios8 (p.1 1, grifo nosso).

A citação acima pode ser reflexo não somente da relação vivenciada pelos dois clubes, mas dos próprios propósitos que abarcavam o futebol naquele momento. Esporte declaradamente destinado a uma parcela restrita da população belo-horizontina (embora não signifique que a sua recepção e a sua vivência tenham sido igualmente limitadas), e com finalidades que envolviam a formação física e moral da juventude citadina, o futebol, nesse momento, ainda pautava-se fortemente nos ideais cavalheirescos do jogo inglêsg. Assim, pode-se considerar que faziam parte do próprio esporte, códigos “civilizados” de conduta em prol da educação de uma sociedade que urgentemente se pretendia moderna; situação que se transformaria bruscamente nos anos seguintes, em meio ao paulatino arrefecimento de um dos protagonistas do grande jogo “das elites”: o América.

Até o ano de 1931 ainda havia certa supremacia americana sobre os atleticanos, mas a goleada de 6 a 2 do Atlético em um dos jogos do início da temporada imporia a trajetória de superioridade alvinegra, quer no número de vitórias, quer nas conquistas de títulos. No jogo em questão, o Estado de Minas noticiou “[…] uma partida enthusiasmada e leal, onde o America sofreu um dos maiores revezes de sua carreira sportiva”9 (p.6). Esta derrocada se acentuaria nos primeiros anos profissionais do futebol em Belo Horizonte, momento que se mostrou bastante conturbado para o clube americano.

Segundo Moura10, o futebol foi amador, por estatuto, até 1933. O profissionalismo seria implantado no Brasil primeiramente no Rio de Janeiro, com a fundação da Liga Carioca de Futebol. Os paulistas acompanhariam a tendência, e o profissionalismo se difundiria para os Estados mais próximos, caso de Minas Gerais. Vale destacar o ano de 1933 como momento definidor dos rumos da nova perspectiva que marcaria o contexto futebolístico na cidade de Belo Horizonte. O movimento em prol da profissionalização parecia irreversível. Souza Neto11 é enfático: “[…] da assistência fidalga dos primeiros anos do futebol na capital mineira, pouco restara” (p.114).

Nesse momento, práticas que já aconteciam de forma velada (como pagamento aos jogadores para defenderem determinadas equipesh) se oficializariam na instituição da profissão. Entretanto, em meio a esta atmosfera de mudanças que delineariam novos rumos para o futebol nacional, o América, contrariamente, resistiu à ordem profissional, permanecendo na defesa do futebol amador. Chegou, até mesmo, a propor a profissionalização apenas para efeito burocráticoi, enquanto seus jogadores continuariam vinculados ao clube sem remuneração. Seus apelos não foram acolhidos e, possivelmente, as resistências operadas pelo clube podem ter se constituído como fatores preponderantes para o início de seu declínio.

Os estudos acadêmicos, nesse sentido, ainda são incipientes, o que dificulta uma análise mais aprofundada sobre esse acontecimento. Contudo, sabe-se que o clube americano experimentou um longo período de derrotas após a conquista do decacampeonato, momento que se aproxima ao advento do profissionalismo na capital; situações estas que, provavelmente, fragilizaram a rivalidade outrora construída com o Atlético.

Não obstante, para além dos conflitos que se gestaram em torno da mudança do amadorismo para o profissionalismo, outro importante fator que pode ter colaborado para o arrefecimento dos embates rivais entre os referidos clubes reside na fundação do time da colônia italiana. Souza Neto11 anunciou a entrada do Palestra Itália como terceira força rival no futebol de Belo Horizonte já nos seus primeiros anos de existência. Fundado em 1921, este clube criaria uma nova percepção de luta e oposição. Se o Atlético Mineiro surgiu numa Belo Horizonte ainda jovem e em construção identitária, o Palestra Itália nasceu com características bem diferentes. Os itálicos já não eram mais os pobres imigrantes que chegaram a Minas Gerais em razão da crescente demanda de mão de obra deixada pelos escravos. Sua colônia na cidade, ao final dos anos 1910, era exclusiva e organizada. E, paralelamente ao nacionalismo eclodido na Europa após o fim da Primeira Guerra Mundial, surgiu a Societá Sportiva Palestra Italia, em 1921, dois anos após o nascimento do partido fascista italiano. Com as cores da bandeira da Itália (verde, branco e vermelho), durante quatro anos, o Palestra dispôs em seu plantel, por força do seu regulamento, de jogadores de nacionalidade somente italiana ou de descendentes.

Em abril de 1921, três meses após sua fundação, mas ainda anterior aos primeiros confrontos contra Atlético e América, a seção Vida Sportiva do Diário de Minas descreveu o novato clube. “[…] O Palestra, sendo embora uma sociedade nova, já se vae impondo ao nosso meio desportivo pelo progresso rapido que está assignalando a sua existencia”12 (p.2) A Societá Sportiva Palestra Italia, no ano de sua fundação e após um torneio de acesso, já fazia parte da divisão de elite do futebol local. O grande feito do Palestra em 1921 foi, no ano de estreia, disputar a final dos segundos times do Campeonato da Cidadej. Tal acontecimento chamou a atenção do Diário de Minas e demonstrou que a agremiação exclusiva de italianos nascera com singular força:

Dizem, entretanto, que o Palestra, trenado, forte, confiante, não quer saber de nomes nem de tradições. E, afinal de contas, tem lá sua razão13 (p.3).

O festival sportivo de hoje no Prado Mineiro é desses que despertam o maior interesse. Póde dizer-se que, pela anciedade com que se espera, o jogo Palestra x America (segundos quadros) é já um encontro célebre. Nestes últimos dias, em nossas rodas sportivas, não se fala em outra cousa, sinão no magnífico embate. Vamos, com effeito, presenciar uma lucta admirável no campo e a um enthusiasmo estupendo entre os torcedores. As opiniões a respeito do resultado são as mais desencontradas14 (p.3).

A zona de conforto vivida pelos dois tradicionais clubes seria rapidamente transformada num triângulo de forças, formado por América, Atlético e Palestra. O Diario da Tarde, de fevereiro de 1931, 10 anos após a fundação do clube italiano, reporta o sucesso precoce dos periquitosk e a figura de Nininho, seu primeiro grande ídolo:

A S. S. Palestra Italia constituiu-se, em pouco tempo, na Capital, um grêmio poderoso, de prestigio e sympathias radicados no seio da nossa população. […] Os valorosos “periquitos”, creanças pela edade, já conquistaram, não obstante, como gente grande, fartos louros, dando exemplo frisante de quanto pode a força de vontade bem orientada. É de justiça encarecer, como nota honrosa para o Palestra, que o campeonato de 1930 foi conquistado sem um empate siquer, por onde se verifica a pujança do “onze” em que predomina, como astro de primeira grandeza, a figura insinuante de Nininho15 (p.1).

Se, nos primeiros anos da década de 20, a rivalidade construída entre America e Athletico centralizava as atenções da vida esportiva na Capital, o ano de 1926 demarcaria uma importante mudança. Entre 1926 e 1930, todos os títulos conservaram-se nas mãos dos novos adversários: Athletico (1926-1927) e Palestra (1928-1929-1930). Neste período, a torcida palestrina passou a ocupar relevante espaço no cenário do futebol em Belo Horizonte, dividindo, com atleticanos e americanos, o simbólico “status” de melhor e maior torcida11.

Já se podia considerar o clube italiano uma equipe de igual força em relação às principais agremiações. Os jogos entre Atlético e Palestra explicitavam, nos anos finais da década de 20 e nos iniciais da década de 30, conotações de uma animosidade recíproca: seriam “[…] adversários irreconciliáveis e poderosos nas canchas mineiras”13 (p.1).

A invenção da rivalidade entre Atlético e Palestra: “uma athmosphera de odios”

A história dos confrontos entre Atlético e Palestra se inicia em 17 de abril de 1921. Segundo o Diario de Minas, ocorreu um inesperado triunfo da recém-criada equipe de colonos italianos. A partida, “cujo resultado despertava o interesse e a curiosidade geraes, terminou com uma brilhante victoria do Palestra pelo score de 3 a 0”16 (p.2). Seria o prelúdio de um encontro movimentado, digno das maiores atenções jornalísticas, pois já no primeiro jogo da história dos dois clubes, encontramos destacado interesse da imprensa para o novo encontro futebolístico da cidade. Atlético x Palestra não passou despercebido.

No segundo jogo, o mesmo jornal descreveu a partida como a mais curiosa e animada, já vislumbrando o advento de uma iminente rivalidade “[…] entre o club da colônia italiana e o tradicional Athletico Mineiro”17 (p.2). O clima criado devido à derrota do Atlético para o Palestra no jogo inaugural demarcou este embate como um dos mais importantes encontros esportivos de Belo Horizonte.

Neste período inicial, em que o Palestra Itália contou somente com jogadores “oriundis”l (1921-1925), os dois clubes se enfrentaram oito vezes, sendo o último embate no dia 20 de setembro de 1925, acontecido num festival em comemoração à data da reunificação da península itálica, fato de muita importância para os italianos. Nesses primeiros oito jogos, notamos vantagem no número de vitórias e gols marcados para o noviço Palestra. Foram três vitórias para o time da colônia, três empates e duas vitórias do Atlético. Ao final deste primeiro período, o Palestra já demonstrara potente vigor, enfrentando o Atlético de igual para igual.

Entretanto, o exclusivismo italiano acabaria. Segundo Couto18, o Palestra, com o intuito de se aproximar dos bons jogadores brasileiros e de se identificar com o restante da população, em 1925, além de retirar a cláusula do seu estatuto que proibia a participação de outras descendências em seu quadro de atletas, adotou o nome aportuguesado Sociedade Sportiva Palestra Itália.

O recrudescimento da rivalidade clubística pôde ser notado, em especial, nos meandros do comportamento das torcidas no nono jogo. O jornal Correio Mineiro descreveu minuciosamente a partida: “a […] assistência foi calculada em cerca de cinco mil pessoas e foi magnífica a torcida que ambos os clubs levaram ante-hontem ao campo”7 (p.3). Interessante no relato do jornal é a descrição de atitudes reprováveis de torcedores palestrinos e atleticanos, que se envolveram em confusão depois de terminado o jogo:

[…] Nas archibancadas do lado da torcida atleticana, alguns elementos “indesejáveis” começaram a cometter disturbios que provocou a reação de alguns palestrinos exaltados, chegando o conflito a tomar proporções bem desagradáveis. (…) O que não podemos deixar de lamentar é a attitude de alguns torcedores do Palestra que intervieram no conflicto de maneira desastrosa, não respeitando nem as distinctas senhorinhas que se achavam nas archibancadas7 (p.3).

Ainda sobre o teor da referida nota, vale destacar a separação de sentidos atribuídos às palavras “assistência” e “torcida”, ambas já imbuídas da ideia que prevaleceria ao longo dos anos: assistência como referência ao montante de pessoas que presenciavam a partida (algo próximo ao sentido de espectador), e torcida como grupo de sujeitos contidos de paixão e pertencimento clubístico. Neste momento, verificava-se uma transição quanto ao uso destas palavras nos periódicos, uma passagem na utilização de assistência para torcida (no início, lançavam mão do termo assistência com uma indisfarçável prevalência).

Intitulados de indesejáveis, alguns torcedores começaram a se comportar fora das normas instituídas como adequadas para a assistência futebolística, demarcada pelos ideais aristocráticos e cavalheirescos vislumbrados no início do século XX. Nesse momento, os jornais reverberam essa mudança, demonstrando nítido descontentamento: distúrbios, exaltados, desagradáveis, desastrosa, foram algumas das palavras que definiram o comportamento da torcida atleticana e palestrina. Este jogo sugere um marco da gênese de uma rivalidade mais concreta e perceptível, apropriada por aqueles que viviam o dia-a-dia do futebol na capital.

A realidade dos jogos já não possuía o outrora “glamour” dos eventos futebolísticos nos “grounds” da capital. O rebuscado ficava por conta da escrita dos cronistas esportivos, como na descrição da torcida de algumas senhorinhas que estavam presentes na goleada de 9 × 2 do Atlético sobre o Palestram, em 1927, publicado pela Gazeta Esportiva19:

O Athletico procurava abater o seu leal adversario, o Palestra. Uma onda de enthusiasmo sem par tinha invadido aqueles corações, enchendo-os de impetuosa emoção. Dentre estas delicadas flores, que ornavam o campo do alvi-verde, a senhorita M. L., salientava-se pelo seu genial modo de torcer, ora gesticulando graciosamente, ora, em baixa voz, approvando o jogo do quadro alvi-negro. […] Eram três mocinhas, que, talvez desprezando os gritos e algazarras da torcida, conversavam calmamente, durante o encontro de domingo ultimo (p.3).

Frequentar o estádio passava, aos poucos, a ser programa acessível a muitos. A figura do torcedor substitua a mera presença nas arquibancadas. Após seis vice-campeonatos seguidos (1922/23/24/25/26/27) e a histórica goleada sofrida em 1927, o Palestra Itália sagrar-se-ia tricampeão da cidade (1928/29/30). E, se no primeiro jogo do campeonato de 1928 o Atlético venceu por 2 a 0, o Palestra só seria derrotado novamente em 1931. Nesse período, os destaques trazidos pelos jornais são marcados por maior ênfase na divulgação entusiasmada das partidas.

O Minas Geraes não economizou na descrição do décimo primeiro jogo: “[…] Foi um espetaculo devéras surprehendente o que a nossa Capital teve oportunidade de assistir domingo”20 (p. 10). Para relatar o primeiro revés sofrido pelo Palestra Itália naquele ano, o jornal chamou o encontro de lucta de leões. As arquibancadas e adjacências comprimiram a “[…] animada e enthusiastica torcida, calculada em mais de 10.000 pessoas”. A vitória atleticana foi recebida “[…] por entre demonstrações de alegria e jubilo por milhares de alvi-negros, assinalando um facto de grande importância”18 (p.10).

Em O Estado de Minas anunciou-se: “[…] raramente o mundo sportivo da capital tem o ensejo de apreciar a um encontro de football como o de ante-hontem”21 (p.3). O jornal notou a torcida dividida em “duas facções, que vibrava com enthusiasmo, ovacionando o nome de seus predilectos”21 (p.3): no Atlético, Jairo, Said e Mário de Castro e no Palestra Itália, Nininho, Ninão e Bengala.

No entanto, este jogo foi sucedido de grande confusão, causada por uma carta publicada na seção A Pedidos, do jornal O Estado de Minas. Supostamente escrita por um palestrino, nela foram descritas injúrias contra o Atlético. A diretoria do Palestra refutou a atitude e se pronunciou negativamente sobre o acontecido. Independentemente da autoria, o uso da carta pelo jornal esquentaria o clima entre as equipes, capaz de “[…] crear uma athmosphera de rivalidades e odios”22:

[…] Nenhum palestrino, digo mais, nenhum sportman seria capaz de escrever aquillo. Certamente, foi obra de espírito mal intencionado com o objetivo evidente de crear, em torno do glorioso Palestra, uma athmosphera de rivalidades e odios. Depois do jogo do dia dois do corrente, entre o Athletico e o Palestra houve, é exacto, pessoas que, em nome do Athletico, se excederam, transpuzeram o limite do razoavel e da decencia. Mas, não foi obra do Athletico e nem dos athleticanos. Quem guarda no seu activo tradições gloriosas e cavalheirescas como o Athletico Mineiro não pode descer até onde foi os exaltados (p.6).

Neste trecho de reportagem é possível perceber a imprensa enquanto fundamental espaço de fomento da rivalidade, emergindo nos seus meandros as disputas que sedimentavam forma e conteúdo do sentimento de oposição e estranhamento do “outro”.

No ano seguinte, o Minas Geraes publicou um relato-crônica em que buscou explorar os acontecimentos que circundavam o encontro futebolístico entre Atlético e Palestra. O jornalista abusou das metáforas que sugeriam a importância do movimento para a partida.

O domingo esportivo despovoou muito cedo o centro da cidade. Bello Horizonte ficou sendo o campo do Athletico. Ao meio dia, a multidão da torcida começou a movimentar-se. Automóveis cheios. Onibus andando pesadamente. Subindo o morro, grandes grupos de gente apressada davam idea de uma emigração penosa23 (p.12-3).

Aos poucos, as arquibancadas do estádio do Atlético se encheram e as previsões começaram: “[…] 15.000! 18.000! De um lado da archibancada a torcida do Athletico, a maior da cidade. Do outro, a do Palestra […]. As torcidas entreolham-se. Palestra! Athletico”! Perto do fim do jogo os atleticanos começaram a retirar-se e “a archibancada começava a esvaziar-se”, ainda dando tempo de “algumas brigas de torcedores. Murros e confusão”23 (p.12-3).

Estádio lotado já não era novidade, assim como variadas formas de desentendimentos entre torcedores. Atlético x Palestra: afinal, o que representava esse jogo a certa altura? “[…] Para nossa gente o maior do mundo”, segundo o Minas Geraes. O Atlético representava “uma espécie de democracia resistente, que as derrotas não alteram”. Já o Palestra era retratado como “uma porção de brasileiros que alguns torcedores consideram como italianos. Principalmente no dia do jogo. Por teima. Para contrariar”. Que sentimentos este jogo provocava, segundo o impresso? “Vontade de rir e de chorar. Mistura horrível. Uma coisa que nem Deus seria capaz de exprimir. O povo esperando. A maior ansiedade de 1929. Os athleticanos convencidos de bater. O Palestra certo de bater”. Ao final, 5 a 2 para o time “ítalo-brasileiro” e “a rapaziada do Palestra conquistava, facilmente, as sympathias do povo de Bello Horizonte”24 (p.11).

A décima quinta partida, ocorrida em 1° de junho de 1930, seria a última da série invicta do Palestra sobre o Atlético. O Minas Geraes trazia a expectativa que o jogo provocava e advertia:

Sim, é hoje. Data historica. O maior dia deste anno. Gente vibrando de enthusiasmo puro. E outros misturando enthusiasmo com ambição. Grandes apostas no Athletico e no Palestra. Segunda-feira, novos ricos. E sujeitos tristes, exactamente como aquelles que gastam tudo no Carnaval25 (p.12).

Nesse mesmo ano, o Minas Geraes já alertava: Palestra contra Atlético “nunca precisou de propaganda”26 (p.11). Por fim, sentenciava o jornal, ao final de mais uma vitória palestrina: o “[…] Palestra foi inventado em Bello Horizonte para vencer sempre o Athletico”24 (p.1 1). Certamente, uma situação que já incomodava os alvi-negros.

No ano de 1931 foram realizados sete jogos entre Atlético e Palestra, um recorde de encontros até então. No expediente do dia 1° de março, o Minas Geraes demonstrou a rivalidade footballistica explícita entre os “[…] mais fortes adversários das canchas mineiras”, o que provocou exagerado entusiasmo pré-jogo. O excessivo clubismo justificava plenamente “o vivo interesse com que os bellorizontinos apreciadores do association aguardavam o encontro de logo mais”27 (p. 12). No Estado de Minas, lia-se a expectativa para a maior pugna do ano.

E foi tão somente para esta lucta que os interessados do football viveram toda a semana. Só se falou de Palestra. Só se falou de Atlético. Nas esquinas, nos bondes, nos cafés, nos meio-fios, em toda parte, grupos de torcedores só falavam no assunto official. Quem vencerá? Atlético? Palestra?28 (p.6).

Ante tamanha espera, segundo o referido impresso, a diretoria do Palestra, prevendo acontecimentos desagradáveis durante a partida, apelou publicamente à torcida palestrina: “[…] que seja cada torcedor o juiz de seus proprios actos, evitando-se deste modo, acontecimentos desagradáveis que venham prejudicar a boa reputação que goza o nosso estremecido club, nos meios desportivos desta Capital”. A solicitação terminava lembrando ser “dever de nossa torcida ser sincera e justa no seu modo de apreciar o jogo, e, desapaixonadamente, aplaudir com enthusiasmo os amadores que pizarem o gramado”28 (p.6).

Nesse momento, é perceptível, com maiores evidências, a promoção de uma espécie de educação para o torcer via imprensa periódica, que tentava (por vezes subliminar, por vezes explícita) determinar o modo de portar-se nas arquibancadas. O próprio Estado de Minas deixava clara esta pretensão: “[…] com os torcedores exaltados as autoridades policiaes e desta sociedade agirão com todo o rigor contra os que com palavras, gestos ou actos offenderem directores de club, amadores, juízes ou pessoas do publico”28 (p.6).

Porém, de nada adiantariam os pedidos. Após a partida, o Minas Geraes relatou o jogo, destacando que a grande massa popular presente no stadium palestrino testemunhou, “com applausos e vivas, uma empolgante pugna entre os mais fortes adversários das canchas mineiras”. O jornal terminou alertando para o “ […] sério conflito entre torcedores dos quadros em lucta”, causados pela ansiedade e “superexcitação” nas arquibancadas29 (p.15).

Vale também destacar a descrição mais detalhada do Estado de Minas. O jogo não terminaria no tempo regulamentar. O Atlético, por ordem do seu presidente, sentindo-se prejudicado, abandonou o campo. Dizia a nota: “[…] Foi simplesmente lamentável. O Athletico deveria proceder diferente em respeito ao seu adversário e ao público”28 (p.6). E quanto aos torcedores, vale observar a revolta do jornal relativa aos comportamentos tidos como desviantes.

Não era propriamente torcida aquela multidão que se agglomerava nas geraes do campo da av. Paraopeba. Era antes um ajuntamento de irresponsáveis, que não tem noção do que seja a propriedade alheia. Uma verdadeira torcida, torce, grita, reclama, ameaça, porém nunca depreda. Quando foi conquistado o 3° ponto do Athletico a torcida das geraes, fez tombar as grades, e após o jogo, trechos das archibancadas foram também atingidos pela fúria. Foi sem dúvida, uma triste prova das nossas “torcidas”. Da maneira que os fatos se passaram, seria de desejar um policial para cada torcedor28 (p.6).

As cenas de depredação causadas pelos sururus denotam o estado de nervos que essa partida provocara. A guarnição policial tornar-se-ia um componente essencial nesses encontros. No jogo seguinte, o Atlético teria mais uma oportunidade de quebrar o tabu de quase três anos sem vencer o Palestra. E, talvez, justamente por isso, o Minas Geraes tenha alertado para “[…] o cunho de sensacionalismo de que se caracterizavam as pugnas travadas entre os maiores adversários dos campos mineiros”30. O resultado do match de logo mais tornava “[…] palpitante o interesse de nossos afeiçoados ao sport bretão”30 (p. 12-3).

No Estado de Minas houve grande destaque para a vitória atleticana, pois o Palestra estava há “[…] três annos sem conhecer os dissabores de uma derrota frente aos clubs da Capital”31 (p.6). Outro destaque no jornal era a expectativa quanto ao comportamento da torcida, pois existia a preocupação de que ocorressem incidentes de violência como no jogo anterior: “[…] é de se esperar que em um futuro bem próximo não mais sejamos expectadores de scenas vergonhosas que tanto depõem contra os nossos torcedores do futebol”29 (p.6). O torcedor, definitivamente, em 1931, já deixara de ser mero espectador e passara a ser motivo de preocupação para o bom andamento do esporte, que já mostrava características de espetáculo.

“Rivaes de longa data”, a partida entre Atlético e Palestra proporcionava aos “sportistas bellorizontinos, as mais memoráveis pugnas de association' que temos oportunidade de assistir”32 (p.6). As palavras do Estado de Minas traduziam a atmosfera de rivalidade em torno deste encontro e demonstravam o entusiasmo das duas torcidas

Possuindo como possue o C. A. Mineiro uma grande maioria da torcida bellorizontina, é fácil de prever principalmente para aqueles que frequentam os nossos campos, a intensidade da “gritaria” e transporte de alegrias. Por sua vez, os adeptos dos “periquitos” não ficarão atrás, e a cada feito de seus preferidos, o estádio tricolor era sacudido por um frêmito de enthusiasmo que terminava por um enorme vozerio de satisfação das torcidas, que saudavam e animavam os seus jogadores32 (p.6).

Em um expediente de domingo, o Minas Geraes reforçou a “[…] torturante ansiedade” pelo jogo, pois nos quadros de Atlético e Palestra “se alinham os melhores footballers de Minas”, e quando suas esquadras “se chocam, a cidade toda treme ao sopro das emoções que o prélio proporciona e ante o colorido incompreensível de suas admiráveis fases”32 (p.10).

É força, confessar, o homem do football – o que pratica e o que assiste – uns menos outros mais, todos imprimem às tonalidades de seus aplausos um pouco do personalismo que pula, grita e enlouquece dentro do seu peito, quando o bando favorito corre firme na estrada da vitoria ou resvala no sulco da derrota33 (p.10).

No vigésimo primeiro jogo, disputado em 29 de novembro de 1931, o Estado de Minas descreveu uma partida concorridíssima, como já era de praxe nos jogos Atlético contra Palestra: “O publico bellohorizontino tomou de assalto todas as dependências do grêmio da camisa verde, acotovelando-se aqui, empurrando-se alli para collocar-se melhor”34 (p.6). E ao final da reportagem, tão importante quanto a vitória do Atlético por 2 a 1, foi o fato de a torcida se comportar “[…] com muita disciplina, muita ordem. Nenhum protesto. Nem uma só vaia”, apesar de o campo estar lotado32 (p.6).

Os “[…] dois velhos rivais das nossas canchas”, diria o Minas Geraes 35 (p.9), se encontrariam na última partida do ano, num match no estádio atleticano. Ao final do jogo, verificou-se o desafogo do jornal, pois a partida terminou sem conflitos: “[…] o espírito esportivo demonstrado ontem pelo povo e jogadores rasgou aos descrentes das nossas cousas esportivas novas esperanças de paz no seio dos esportes belorizontinos”. O bom exemplo era bem-vindo ao desporto da capital, pois este se encontrava “em contínua e prejudicial ebulição” em função das constantes cenas de violência nos estádios da cidade35 (p.9).

Em uma de suas crônicas publicadas na seção Esportes, o Minas Geraes já havia anunciado o quanto a rivalidade estava constituída entre os times:

Os clubs Palestra e Atlético, pela igualdade de forças que equilibra as suas esquadras e nota de sensacionalismo que imprimem às partidas em que se contendem, foram considerados pelo nosso público esportivo como adversarios irreconciliaveis e poderosos nas canchas mineiras. De fato, tempo houve em que a animosidade reciproca dos dois grandes clubs montanheses atingiu tal ponto, que tudo que se lhe dizia ao contrario ou que se fazia para oculta-la, era em vão, sem resultado satisfatório. Ás vezes os dois grandes competidores trocavam brindes, votos de prosperidades, ramalhetes de flores; escrevia-se um discurso laudatorio e o capitão de um quadro o declamava em campo, como se os clubs fossem os maiores amigos deste mundo. E a gente, vendo isso tudo, ficava até comovido na arquibancada, pensando na maneira cordial que eles se admiravam. Mas, nada passava de presente de gregos e quando a bola caía em movimento a rivalidade dava uma vassourada nas cortesias […]36 (p.11).

Alguns anos mais tarde, o jornal Estado de Minas alertava que o público esportivo de Belo Horizonte esperava com “indescriptivel interesse a disputa da Taça Moura Costa entre Atlético e Palestra, rivaes antigos e tradicionais dos nossos campos”37 (p.10). Já era sabido por toda cidade o tamanho da importância desse encontro. Dessa forma, o jornal concluía: “[…] para que o estadio apanhe um publico numerosissimo, é o bastante citar que Athletico e Palestra vão se medir”37 (p.10).

Nos jogos seguintes notamos uma maior utilização da palavra “clássico”, para designar o confronto entre ambos. À época, tal expressão era utilizada com a devida moderação, só empregada para jogos de reputação significativa: “[…] Como sempre o clássico Atlético x Palestra levou anteontem, ao campo do último, grande assistência, e deu-lhe, com fases emocionantes e sensacionais imprevistos, intenso entusiasmo e vibração”38 (p.2, grifo nosso).

“Palestra x Athletico – Um espetaculo tão completo como poucos”: assim se deu a chamada do Estado de Minas para o jogo de número trinta, que por pouco não se tornou mais um revés atleticano39 (p.8). Os alvinegros só conseguiram o empate no final da partida e comemoraram um resultado “[…] indubitavelmente honroso, quando se enfrenta um adversario da classe do Palestra em seu proprio campo”. O jornal tratou o jogo como “[…] a grande voz da cidade que se fez ouvir dos quatro cantos desta Bello Horizonte, com emoções violentas, lances supremos que suspendem a respiração e fazem fugir a palavra”39 (p.8).

O primeiro jogo de 1935 também transcorreu regado a todas as nuanças inerentes a um encontro Atlético x Palestra, como mencionou o jornal Folha de Minas: “uma peleja de emoções indescriptiveis! Um dos mais soberbos espetáculos de futebol dos ultimos tempos”40 (p.9). O periódico encarregou-se de descrever a partida como um “[…] espetaculo de futebol brilhantíssimo sobre todos os aspectos”. Os dois teams foram responsáveis por um “match de violentas emoções das mais memoraveis refregas do association, sem que se registrasse o mínimo incidente”40 (p.9).

O mesmo impresso apresentou o trigésimo nono jogo como um “[…] espectaculo brilhante e movimentado; pôde-se dizer que não houve um só momento de monotonia”41 (p.10). Se o jogo satisfez, no que se refere ao seu desenvolvimento e qualidade, terminando 3 a 2 para o Palestra, mesma coisa não se pôde dizer sobre o comportamento dos jogadores e torcedores: “[…] a pratica do jogo violento degenerou para uma verdadeira matança, mudando por vezes a feição da partida. Foi uma coisa que empanou grandemente o brilho da partida, exacerbando os animos de torcedores dos dois lados”. Após o jogo, “[…] houve uma serie de arruaças provocadas por elementos menos responsaveis, empenhando-se em luta corporal dentro e fora do campo”41 (p.10).

Aparentemente, o quadragésimo segundo jogo, o primeiro do ano de 1936 foi o mais violento até então. A Folha de Minas não poupou críticas e relatou, em quase toda sua página esportiva, os eventos tidos como negativos na partida. “Adversarios tradicionais dos nossos campos, que sempre tiveram ensejo de proporcionar à ‘torcida’ os melhores e mais belos espetáculos, Athletico e Palestra não pareciam os mesmos antagonistas de outros tempos”42 (p.8). O público pagante, ao invés de futebol, assistiu à “[…] violencia empregada pelos litigantes, a sua deslealdade e as constantes reclamações contra as marcações do arbitro”. Segundo o jornal, estas “[…] foram as notas culminantes do clássico”42 (p.8).

O segundo jogo de 1936 não seria diferente. O jornal Estado de Minas relatou “[…] reclamações improcedentes ao juiz, ameaças de pugilato, carregadas propositaes, visando inutilizar adversários”43 (p.9). O regime de cordialidade fora substituído pela “these comum de guerra: iodo, ether, arnica e ligaduras…”. Devido à “[…] pancadaria entre os jogadores”, antes mesmo do final da partida, “uma terça parte da assistencia, avessa a violencias, emigrou pacificamente do campo”43 (p.9).

Chama a atenção, porém, a descrição mais contundente da Folha de Minas. Expressões como acontecimentos revoltantes, degradantes, incidentes desagradáveis, irritantes, flagrante desrespeito ao publico deram a tônica do texto do jornal. “O match que a cidade cognominou de clássico” transcorreu cheio de atropelos e interrupções: “sob um calor causticante, o jogo durou duas horas e 25 minutos, quando o mesmo, segundo as leis que regem o futebol, deveria ser realizado num espaço de uma hora e 40 minutos, no màximo”44 (p.8). As cenas de violência no campo ficaram registradas nas imagens da partida, veiculadas pela primeira vez nas paginas deste periódico, conforme demonstra a FIGURA 1.

Fonte: Folha de Minas45 (P.8).

FIGURA 1 Instantâneos do clâssico Atlético e Palestra. 

Ao final do quadragésimo quarto encontro, foi relatado no mesmo jornal um placar incomum: 6 a 1 para o Atlético. No estádio, “[…] todas as dependencias se encontravam completamente lotadas por um publico enthusiasta, facto, alias, normal quando da realização do clássico”, pois o jogo Atlético contra Palestra figurava “como ponto de convergencia de todas as emoções do publico“45 (p. 10). Contudo, talvez, tão insólito quanto o placar elàstico da partida, foi o comportamento da guarda policial em pleno campo de jogo.

No período, brigas entre jogadores já não eram incomuns, mas no exato momento em que os policiais intervieram no sururu, os espectadores, “[…] attonitos, viram, então, os policiaes fanatizados, extremarem-se, provocando o prolongamento das ocorrencias, engalfinhando-se à custa de convicções erradas”45 (p. 10). Constou, no jornal, que os próprios policiais foram “[…] partidarios exaltados dos bandos em luta e suas convicções inspiraram rudes violencias por 12 minutos”. Os policiais, amotinados entre atleticanos ou palestrinos, arrancaram seus revolveres e sabres numa atitude “desconcertante dos mantenedores da orderm”. O conflito refletiu o “ […] desequilibrio de disciplina dos players”, e também, “a predilecção dos policiais pelo tumultuo e arbitrariedades”45 (p. 10).

No jogo seguinte, anunciaria a manchete esportiva do Folha de Minas: “O clássico teve a duração de 50 minutos“46 (p. 10). Aos cinco minutos do período final, “[…] acontecimentos inesperados, que se caracterizaram pela indisciplina e a falta de brio esportivo, vieram transtornar o brilhantismo de uma tarde que se annunciara sob os auspícios dum optimismo excepcional”. Posteriormente à anulação de um gol que os palestrinos julgaram lícito, o juiz da partida, após “[…] uma palavra mais forte de Niginho, o mandou para fóra do campo”. Como a orderm não foi aceita, depois de muita discussão entre jogadores, policiais e dirigentes “[…] e contra a expectativa gerai, tripudiando uniformemente sobre os direitos do publico pagante, sobre as leis da disciplina esportiva e sobre o seu proprio renome, o gremio periquito resolveu não progredir na disputa”46 (p. 10).

Já o quadragésimo sexto encontro tentou marcar um tempo pacífico entre os rivais. Segundo a. Folha de Minas, “[…] foi a primeira partida entre as equipes que a pacificação veiu reunir”47 (p. 10). Para o jogo-festa, “[…] esperava-se, e era muito natural, que a assistencia batesse um “record”, dada a projecção de que desfructam os confrontos entre Palestra e Athletico”. Porém, a tarde cinzenta com ameaças de chuvas fortes “[…] provocou o retrahimento dos “fans”, que ficaram na expectativa do resultado ou deante de seus rádios receptores”. A descrição do jornal relatou que “muito perderam os que lá não foram. Athletico e Palestra realizaram uma grande peleja; ao final, o Palestra Italia obteve brilhante triumpho” e a violência, dessa vez, não monopolizou as paginas do periódico47 (p. 10).

No entanto, a desejada paz não perdurou por muito tempo. Em um dos jogos seguintes, o Atlético vencia o clássico por 3 a 1, “[…] mas o intenso nervosismo e o excesso de enthusiasmos” podem ter sido “os factores dos disturbios observados no encontro dos dois tradicionaes adversários”48 (p. 10). Se o último cotejo “fora disputado com lisura”, este teve desfecho lamentável. Após uma agressáo do arqueiro palestrino, Geraldo II, no centroavante atleticano, Guará, e posterior revide, o juiz expulsou os dois. Depois de muita discussão, definiu-se que os quadros atuariam com 10 jogadores, momento em que o “sururu” assumiu grande proporção com a participação de policiais, guardas civis e investigadores. Saldo da confusão: Caieira e Geraldo I, ambos do Palestra, foram presos e conduzidos à Polícia Central, onde ficaram detidos. Serenados os ânimos, o jogo recomeçou após 15 minutos de interrupção, os players expulsos e presos foram substituídos e, como no Palestra não havia mais goleiro disponível, o atacante “[…] Bengala se propôs a fazer as vezes do keeper48 (p. 10).

Nos jogos seguintes, pode-se observar uma alternância nas publicações dos impressos, que ora destacavam as más condutas, ora enalteciam o brilhantismo das partidas. Diferentemente do amistoso anterior, o Estado de Minas relatou que “Athletico e Palestra exhibiram no clássico” que valia a liderança da tabela do campeonato de 1939 “um espirito de luta intenso, fazendo vibrar a torcida”49 (p.9). O bom público presente viu despertar “[…] uma energia explicável pela rivalidade de um “clássico” á altura das suas melhores tradições”49 (p.9).

Já no ano seguinte, o clássico que valia a posição de líder da tabela do campeonato de 1940, foi marcado por muita confusão, como evidenciado na seguinte nota:

[…] motivados pela marcação de um goal a favor dos athleticanos e logo depois um penalty para os palestrinos, originaram-se em campo dois “sururús”. Assistiu-se a agressões, prisões, etc, de tudo isso tomando parte saliente jogadores, technicos, e outras pessoas de certa responsabilidade […]. Esses não são os jogadores de futebol que os nossos clubes necessitam50 (p.10).

O final da temporada do futebol mineiro de 1940 talvez tenha sido o mais destacado da história do clássico Atlético contra Palestra, até então. Após os dois primeiros turnos, como descrito no Minas Geraes “[…] a Liga de Futebol de Belo Horizonte suprimiu o terceiro turno de seu campeonato, relativo a 1940, e determinou que o mesmo se decida em uma série melhor de três, a ser disputada pelos quadros do Atlético e do Palestra, leaders do certame”51 (p.10). A expectativa para o jogo foi intensa: “considerados a importância do prélio e o valor dos dois contendores, o público esportivo aguarda sua realização com grande e justificado interesse”52 (p.8).

Segundo a Folha de Minas “[…] o clássico correspondeu plenamente á expectativa, em nada deixando a desejar. Athletico e Palestra ofereceram aos seus fans um espectaculo de proporções grandiosas e que decorreu num ambiente de absoluta disciplina”53 (p.8). O primeiro jogo da melhor de três finais do certame de 1940 “[…] provocou momentos de vibração nas dependencias do estadio Antônio Carlos”. A maior objetividade do Palestra “[…] valeu-lhe um triumpho nitido e merecido sobre o Athletico” (3 a 1), aumentando a expectativa para o segundo jogo da final, pois o Atlético deveria vencer para provocar o terceiro e último53 (p.8).

O Minas Geraes relatou que o segundo “[…] match da melhor de três, assistido por um público numeroso e entusiasta”54 (p.6), acabou com a vitória do Atlético por 2 a 1, resultado que forçaria o terceiro e decisivo confronto para designar o campeão mineiro de 1940. De acordo com a Folha de Minas, “[…] pouca gente acreditava no triumpho do gremio alvi-negro”, mas a vitoria surpreendeu os “seus fervorosos fans, que em grande numero compareceram ao campo do Palestra para estimulá-los”55 (p.9).

O mesmo jornal fez ampla cobertura do clássico decisivo: o futebol posto em prática “[…] pelos dignos adversários desenrolou dentro de elogioso ambiente de disciplina e cordialidade”56 (p.8). Pode-se, assim, dizer que Atlético e Palestra encerraram o campeonato de 1940 “[…] com chave de ouro para o nosso futebol”56 (p.8). A importância do encontro ficou explícita nas palavras do periódico.

O prélio decisivo do campeonato assumiu o logar de acontecimento de destaque na vida da cidade, movimentando a sua população e arrastando para o local de sua realização milhares de pessoas das localidades vizinhas de Bello Horizonte56 (p.8).

O jornal descreveu que o estádio do América, palco neutro da final, “[…] apresentava, minutos antes do inicio da partida, as suas amplas dependências literalmente occupadas por uma assistencia numerosa”. Após o final da partida, os “[…] fans do Palestra organizaram uma passeata-monstro pelas principaes artérias da cidade, cantando, soltando fogos de artifícios e dando vivas enthusiasticos aos campeões”56 (p.8).

De maneira semelhante, a partida válida pela última rodada do 1° turno do certame de 1941 foi tratada pelo Minas Geraes como um “[…] sensacional cotejo, que está monopolizando as atenções de nosso meios esportivos: Palestra x Atlético, um Mundo de Sensações”57 (p.8). Após a partida, a Folha de Minas publicou: “o clássico Atlético x Palestra, considerado o espetáculo máximo do futebol mineiro” (p.8)58.

A vitória do Palestra foi conquistada contra o líder do campeonato e aumentava as possibilidades deste clube se tornar bi-campeão (1940/41). Durante a partida “[…] os torcedores palestrinos entoaram hinos de incentivo aos “cracks” da camisa tricolor, fizeram espoucar foguetes e prorromperam no clássico mais um58 (p.8).

Esse jogo marcou a primeira mudança no nome do Palestra. Em face às deliberações do governo brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial, declarando inimigos os países do Eixo (nações lideradas pela Alemanha, Itália e Japão), o presidente da Sociedade Esportiva Palestra Itália, em decisão “ad-referendum”, mudou a denominação do clube itálico para Sociedade Esportiva Palestra Mineiro. O Estado de Minas, além de definir o encontro como “o classico dos clássicos”, expôs a nota informativa da alteração na edição do dia 31 de janeiro de 1942:

Tendo em vista o decreto-lei do Presidente da Republica que nacionalizou as sociedades de caráter esportivo no territorio nacional, comunicamos a quem possa interessar que, a ex-Sociedade Esportiva Palestra Italia, passou a denominar-se SOCIEDADE ESPORTIVA “PALESTRA MINEIRO”, por ato de sua diretoria, ad-referendum do Conselho Deliberativo do Clube. Belo Horizonte, 30 de janeiro de 1942 Pela Diretoria:

ENEAS CIRO PONI, presidente59 (p.7).

A expectativa para a primeira partida do Palestra Mineiro contra o Atlético Mineiro foi exposta em edições do Minas Geraes e Folha de Minas. “Essa peleja”, segundo o Minas Geraes, “ […] está cercada da maior atenção por parte de público esportivo visto que o Atlético se acha na leaderança do certame, a dois pontos dos segundos colocados, Palestra e Siderúrgica”60 (p.11). Uma vitória “[…] no sensacional clássico”, era fundamental para as pretensões palestrinas pela “disputa do campeonato de profissionais de 1941”61 (p.9). A Folha de Minas lembrou que “[…] a antiga rivalidade existente entre os dois gremios justifica plena e cabalmente o interesse que ha muito se apossou do nosso publico esportivo, atuando sob o aplauso de suas numerosas torcidas”62 (p.15).

Ao final, o jornal relatou que “Atlético x Palestra havia consagrado um espetáculo de vibração e enthusiasmo por parte da numerosa torcida e empenho dos seus players62 (p.15). Com a vitória, o Atlético consolidaria a sua escalada para a conquista do campeonato e evitaria o bicampeonato palestrino.

Talvez, em função dos reveses que se prorrogariam por mais três partidas, a denominação do clube palestrino seria modificada mais uma vez. No próximo clássico, o grêmio jogaria com o nome de E.C. Ipiranga. No Minas Geraes de 1° de outubro há o anúncio da segunda mudança.

Esporte Clube Ipiranga

Reunindo-se anteontem para tratar de importantes assuntos, a diretoria da Sociedade Esportiva Palestra Mineiro deliberou que, de agora em diante aquela agremiação terá a denominação de Esporte Clube Ipiranga63 (p.14).

O ano de 1942 foi, assim, turbulento nos bastidores do Palestra. Esteve a mudar de nome por três vezes (Ipiranga também não se sustentaria) e, no campo de jogo, havia mais de um ano sem vencer o rival Atlético Mineiro. O Atlético, após 72 “fouls”, foi campeão “[…] triunfando sobre seu veterano adversário pela contagem de 2 a 1”. Pode-se notar na Folha de Minas que os torcedores lotaram completamente “[…] as dependencias do estadinho do Barro Preto, para delírio dos fans do Atlético, após o prélio”64 (p.7). No Minas Geraes nota-se a declaração: “Abatido o Ipiranga, por 2 × 1. Com esse triunfo, o Atlético sagrou-se, brilhante e merecidamente, bi-campeão mineiro de futebol”64 (p.7).

Quatro dias após o único clássico do Ipiranga, o Estado de Minas 65 (p.7) e o Minas Geraes66 (p.8). anunciaram que, em reunião no dia anterior, o Conselho Deliberativo do clube não referendou a decisão da diretoria e decidiu por uma nova denominação: Cruzeiro Esporte Cluben. Decidiram, ainda: aceitar o pedido de renúncia do presidente Eneas Ciro Poni; entregar a direção do clube, por 15 dias, a uma junta governativa; doar todos os troféus e bronzes à campanha do metal e adotar um novo uniforme para a equipe de futebol.

Com a eclosão destes fatos, o ano de 1942 encerraria a história da rivalidade entre Atlético e Palestra, marco final desta pesquisa. No entanto, mesmo que os momentos seguintes tenham sido marcados por mudanças significativas na trajetória do antigo Palestra, estas, em longo prazo, não implicaram na diminuição de sua força e no enfraquecimento da rivalidade construída com o Atlético. Pelo contrário, nas décadas seguintes se acentuariam os embates e as rivalidades entre torcedores, e Atlético e Cruzeiro se concretizariam como os grandes protagonistas do futebol mineiro, “status” que se mantém na atualidade. O clássico dos clássicos da cidade, assim anunciado pelos jornais, ainda hoje se sustenta como o maior espetáculo esportivo das alterosas.

A rivalidade para além das quatro linhas

Mais do que o desvelamento da história destes clubes e dos embates gestados em torno deles (sem negar a riqueza que os mesmos em si, comportam), importa-nos problematizar a construção da rivalidade como elemento fundamental na compreensão do que se tornou o futebol para a sociedade brasileira e de forma especial, para a mineira. Parte essencial do espetáculo esportivo, como ponderou Mário Filho, reside na apropriação de um sentimento rival. Talvez não seja exagerado dizer que, da mesma forma que o futebol alimenta a rivalidade, esta também alimenta o futebol, em uma reciprocidade que garante a sobrevivência de ambos. De maneira semelhante, pode-se inferir que um time só existe em razão do outro, desse estranhamento causado pelo sentimento de oposição gestado historicamente.

Alguns pontos nos parecem relevantes em relação à realidade mineira. O primeiro deles é a constatação de um processo de gestação da rivalidade que, como demonstram nossos estudos, não se estabeleceu com o surgimento dos clubes. Ao contrário, foi incrementado ao longo dos anos que se seguiram à criação do Palestra. Neste caso, é interessante ressaltar que o Atlético já havia protagonizado embates emocionantes com outras equipes, como o América. No entanto, ao que indicam as reportagens, mesmo que as partidas tenham sido capazes de reunir grande público na cidade e de estampar as mais variadas notícias nos periódicos mineiros, não chegaram perto de se aproximar do “jogo de nervos” que significou um Atlético x Palestra. Foi a partir do momento em que estas equipes passaram a se encontrar, que proliferaram as acusações de violência, indisciplina e incivilidade no futebol mineiro. Os jornais estamparam o descontentamento com os rumos que o esporte bretão, originariamente cavalheiresco e cortês, alcançava nas alterosas.

As fontes mobilizadas não apenas reforçam a preocupação com o bom emprego moral do futebol na capital mineira, mas agregam a esta história algumas ambiguidades importantes. A primeira delas reside na percepção de que tal esporte se tornou tão forte na cultura belo-horizontina que os insistentes apelos normativos não pareceram suficientes nem para aqueles contratados como responsáveis pela ordem. Em algumas reportagens foi possível perceber o envolvimento da própria policia, tida como “apaixonada”, nas diversas brigas. Nesta perspectiva, também é possível perceber que as formas de recepção e de apropriação popular, em significativas ocasiões, distanciavam-se dos preceitos aristocráticos que se desejava para o futebol naquele momento. Dessa forma, podemos também inferir que os comportamentos desviantes podem ser indícios de uma solidificação da rivalidade, pautada em pressupostos de competição e revanchismo que, aos poucos, distanciavam-se da fidalguia esportiva.

A segunda ambiguidade refere-se à atitude da imprensa. Ao mesmo tempo em que os jornais condenavam os comportamentos considerados desviantes, também agitavam os ânimos dos torcedores com publicações que enalteciam ora um clube, ora outro. A própria conformação da escrita colocava, recorrentemente, os dois times em oposição, com a utilização de termos como luta, facção, guerra, dentre outros; situação pouco observada entre América e Atlético, em que prevaleciam a cordialidade e um sentimento de irmandade (pelo menos como retratado pelos impressos). Alguns exemplos são marcantes, como “adversários irreconciliáveis nas canchas mineiras”; “atmosfera de rivalidades e ódios”; ou “os atleticanos convencidos de bater, o Palestra certo de bater”. Em algumas edições é possível perceber a clara oposição que marcava as duas equipes nos noticiários, como “clube da colônia italiana e o tradicional Atlético mineiro”. Outro forte exemplo consiste em algumas descrições feitas ao Palestra: “porção de brasileiros que alguns torcedores consideram como italianos. Principalmente no dia do jogo. Por teima. Para contrariar”; ou “o Palestra foi inventado em Belo Horizonte para vencer sempre o Atlético”.

Compreendemos, assim, os jornais enquanto veículo fundamental na invenção da rivalidade entre Atlético e Palestra, fato que também merece destaque dada a importância da imprensa periódica naquele momento, constituindo-se como principal meio de veiculação de informações entre os moradores da capital mineira. Nesse caso, também é possível pensar na fomentação do embate entre os clubes como um recurso de vendagem editorial, dada a relevância que o futebol possuía dentre as diversões citadinas.

Por fim, outra ambiguidade interessante refere-se à denominação dada pelos jornais ao “clássico” como tradicional, o que nos faz remeter ao sentido que Eric Hobsbawm67 confere às tradições inventadas. Segundo o autor, para uma situação ser considerada tradicional não precisa, necessariamente, ter sua origem perdida no tempo, ou seja, tradições podem ser construções muito recentes, forjadas para conferir sentido e valor à determinada prática. Nessa perspectiva, para Hobsbawm, as tradições inventadas tentam, sempre que possível, estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado, utilizando-o como legitimador de ações. Tal situação é possível porque existe um pensamento construído historicamente que elege o que é retratado como tradicional como algo indiscutível, que se explica por si só. Assim, aquilo que é nomeado como tradição, especialmente por meios formadores de opinião (como os governos e as mídias, por exemplo), carrega um valor quase inquestionável de distinção histórica. A sua utilização pode perpassar inúmeras situações da vida social, tais como discursos políticos, cerimônias governamentais (como as de sucessão presidencial e real), o uso de determinados acessórios ou de determinadas roupas (compatíveis com um símbolo construído sobre determinado lugar) e, a exemplo desse artigo, situações esportivas.

Os jornais, logo no começo do embate entre os dois times, já anunciavam o encontro como tradicional, o que de certa forma, parecia agregar importância às notícias repassadas e às próprias partidas. Após pouco mais de uma década, os impressos decretavam: “Rivaes de longa data”, “rivaes antigos e tradicionais dos nossos campos”, dentre outros exemplos encontrados nas fontes. Neste sentido, chama a atenção o caráter simbólico e discursivo da tradição e, com isso, a inexistência de uma demarcação temporal que a defina. A forma de escrita dos textos, pautadas em recursos de valorização dos clubes e de suas histórias, pode ter se constituído em forte fomentador da competitividade, ao incorporar o sentido de tradição em uma rivalidade ainda recente. Inegavelmente, ganhar o jogo “das tradições” não era ganhar qualquer jogo.

Na análise das inúmeras reportagens outras discussões podem, ainda, ser empreendidas. A primeira delas é a constatação de que a violência no futebol belo-horizontino é retratada desde meados da década de 20, o que pode ser um indício de que as condutas mais fervorosas advindas da rivalidade começam a ser forjadas muito antes, por exemplo, do surgimento das torcidas organizadas no final do século XX.

No caso da hostilidade construída entre Atlético e Palestra, podem ser pensadas algumas hipóteses que nos ajudam a compreender a projeção que esta rivalidade ganhou na cidade, para além da ação da imprensa. Atlético e América surgiram de forma muito semelhante: ambos os clubes foram fundados pela alta sociedade mineira, composta por filhos de políticos, empresários e comerciantes bem-sucedidos. Em razão da pequena população presente na cidade nos primeiros anos do século XX, dado que Belo Horizonte foi fundada em 1897, era bem possível que os integrantes dos dois times mantivessem relações fora dos campos. Um exemplo é a própria utilização pelos jogadores do América do campo do Atlético, quando o primeiro time ainda não tinha onde treinar. A irmandade retratada pelos jornais também pode ser indício da boa convivência entre os dois clubes.

Já o Palestra, formado por imigrantes italianos, surge como o “outro”, o “de fora”, o que ostentava as cores de outro país. Representava aqueles cidadãos que chegaram a Belo Horizonte como reforço de mão-de-obra, mas que, posteriormente, formaram uma legião de trabalhadores que se estabeleceram com relativo sucesso na cidade. O desenvolvimento dos italianos no comércio desde a inauguração da cidade pode, de fato, ter gerado sentimentos repulsivos por parte da sociedade mineira.

Vale ressaltar que os itálicos possuíam um bairro próprio (o Barro Preto, situado a região central da capital) e até um impresso, confeccionado no idioma pátrio dos estrangeiros: o Araldo Italiano. Somado a isso, tem-se que o clube palestrino já surge bastante forteo, competindo de igual para igual desde os primeiros jogos que disputou, formando um triângulo de forças no futebol mineiro. Com a decadência do América, ficou a cargo do Palestra o outro lado do protagonismo de uma rivalidade que perduraria até os dias atuais. No entanto, os jornais também evidenciaram a paulatina aceitação dos cidadãos locais ao clube, que também utilizou de estratégias de aproximação, como o aportuguesamento do seu nome e a permissão para a entrada de jogadores que não fossem italianos ou descendentes.

Outra possibilidade de debate, a partir das fontes emergidas, está no processo de formatação da rivalidade que, ora incentivada, ora restringida, teria que se adequar a um padrão desejado. Podemos entender que um projeto de “educação para o torcer” estava em curso, alinhando (e realinhando, quando necessário), as posturas e condutas provenientes dos torcedores nas arquibancadas.

A partir da década de 20 percebemos um movimento mais regular no desenvolvimento das condutas desviantes, ocasionando intervenções da força policial pública e gerando a instituição de uma “forma correta de torcer”, em que a adequada postura deveria prevalecer aos olhos daqueles que controlavam o espetáculo. Em várias notas, recomendava-se que os torcedores conservassem uma postura apropriada, sob pena de serem expulsos dos campos.

A existência de uma crescente rivalidade entre os clubes acentuava o caráter de pertencimento e paixão, e estes, por sua vez, inflamavam os torcedores que acabavam se exaltando no afã de verem o seu clube vencedor. Desta forma, é possível estabelecer uma direta relação entre a existência e o crescimento de uma hostilidade (baseada em um sentimento rival) com o aumento da noção de pertencimento e da paixão clubística.

Norbert Elias68, ao se debruçar sobre o processo civilizatório, elabora, em dado momento da sua obra, uma relação entre o esporte, a violência e as emoções vivenciadas no mundo esportivo. Sobre isto, chega a afirmar a existência de uma relação entre as formas de conflito com as formas de interdependência, na tentativa de estabelecimento do nosso grupo e do outro (“outsiders”), através de emoções como o prazer e o sofrimento. A constituição das torcidas, da rivalidade e dos confrontos é um processo que reflete, em parte, o pensamento do autor.

Em “A Busca da Excitação”, Norbert Elias69 questiona, enfatizando a necessidade social do conflito (tensão-prazer): “Numa sociedade cada vez mais regulamentada, como se podiam garantir aos seres humanos os meios suficientes de excitação agradável em experiências compartilhadas sem o risco de desordens socialmente intoleráveis e de ferimentos mútuos?” (p.256). É o próprio autor quem indica uma possível resposta, afirmando que “o futebol, como outras modalidades de desportos de lazer, se apoia no equilíbrio precário entre o enfado e a violência” (p.84).

Na existência do conflito é que o controle social passa a vigorar. Controle que o sociólogo alemão percebe nos dispositivos de coerção sobre os comportamentos violentos, seja através dos discursos, das práticas normativas, dos poderes institucionalizados em maior ou menor medida e nos mecanismos de autocensura ou autocontrole69. A evidência dessa “normatização de condutas” ocorre nas tentativas de instauração de um ordenamento do torcer em Belo Horizonte, cada vez mais necessário com o incremento da rivalidade entre as equipes, destacadamente entre os jogos que comportavam as esquadras de Atlético e Palestra.

Embora o objetivo deste artigo tencionasse ir para além de uma representação essencialmente descritiva, a narrativa superposta em uma linha temporal, apresentando um quadro mais geral e abrangente dos confrontos entre Atlético e Palestra se tornou inevitável. Ainda assim, não nos furtamos ao debate dialógico com uma perspectiva conceitual, assentada na aproximação com temas e autores que pudessem enriquecer a proposição desta escrita.

Tendo o seu espectro de análise circunscrito à cidade de Belo Horizonte, acreditamos que uma prudente aproximação possa ser feita com relação a outros espaços (e consequentemente, outras rivalidades). A especificidade local guarda em si uma série de possibilidades a serem compreendidas, desde que atentas a uma necessária abertura do olhar para questões mais genéricas (como política, economia, trabalho e lazer).

Assim, procuramos entender a construção da rivalidade entre Atlético e Palestra a partir da apropriação do que está no seu entorno (e não apenas à rivalidade em si). Reconhecemos, no entanto, que outros olhares podem (e devem) ser colocados sobre o debate aqui situado. Enquanto exercício da história, o passado se constitui, definitivamente, em um permanente se fazer.

a Segundo Luiz Henrique de Toledo2, toda uma discussão importante sobre a popularização do futebol mostra que tal processo confrontou-se às tentativas e estratégias de distinção social implementadas pelas elites esportistas do início do século XX, que ‘obstacularizaram como puderam a participação mais universalizada das camadas populares no campo de jogo.

b Sobre este movimento, a dissertação de Mestrado do historiador Raphael Rajão Ribeiro6 é bastante esclarecedora. Nela, o autor aprofunda as causas e os motivos dos períodos oscilatórios da inserção do futebol na Capital mineira, nos primeiros anos do século XX.

c Expressão comum à época para designar brigas, confusões e conflitos dentro e fora dos campos.

d Acervo composto por jornais e revistas acumulados por Joaquim Nabuco Linhares, nascido em Ouro Preto em 1880. Todo o material foi adquirido pela UFMG no ano de 1976, passando a se denominar “Coleção Linhares”.

e Importante ressaltar que outros clubes também figuraram com destaque nos jornais mineiros, conquistando resultados importantes, caso do Villa Nova, da cidade de Nova Lima, e do Esporte Clube Siderúrgica, da cidade de Sabará. No entanto, sem desconsiderar a relevância destas e de outras agremiações na construção do futebol mineiro, nos ateremos especificamente à rivalidade entre Atlético e Palestra.

f Em 1914 foi realizada uma importante competição: a Taça Bueno Brandão, disputada e organizada pelos clubes do Atlético, América e Yale e vencida pelo primeiro. Este evento é tido como impulsionador para posterior criação da entidade representativa/organizativa – a Liga Mineira de Sports Athleticos, em 1915.

g Outro forte indício era a própria linguagem utilizada nos impressos para noticiar as partidas de futebol. Era bastante comum a importação de termos da língua inglesa. Não se pode negar o poder desses dispositivos de distinção. Em um país em que a grande maioria ainda era analfabeta em sua própria língua pátria, a veiculação de termos em inglês pressupunha, de antemão, a compreensão por uma parcela bastante diminuta da população.

h No final da década de 20 já era comum a existência de formas encobertas de remuneração, feitas pelos principais clubes aos seus melhores jogadores, prática que ficou conhecida como “amadorismo marrom”.

i De acordo com Moura10 (p.121), o presidente do América impôs a seguinte condição: o clube teria o título de profissional apenas para “efeito externo”, conservando-se, no seu interior, o caráter amadorista. Assim, foi proposto aos seus jogadores que defendessem a camisa do time “sem a necessidade de remuneração e contractos, mantendo, assim, a primitiva fórmula amadorista no profissionalismo”.

j Naquele momento, o campeonato da cidade possuía, na primeira divisão, representantes dos principais clubes, divididos entre os primeiros e os segundos times. Assim, existia a final dos primeiros times (mais valorizada) e a final dos segundos times. Para mais informações, ver a dissertação “A bola em meio a ruas alinhadas e a uma poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte” (1904-1921), do historiador Raphael Rajão Ribeiro6.

k Em razão da cor de seu uniforme ser predominantemente verde, a equipe palestrina ficou conhecida, naquele momento, como “periquitos”.

l O termo oriundi designa as pessoas de origem italiana, com ou sem cidadania, nascidas em outros países.

m Este é o escore mais elástico registrado entre os embates das duas equipes até os dias de hoje.

n Embora não exista uma fonte comprobatória, é possível inferir que as mudanças de nome do Palestra para Ipiranga e posteriormente Cruzeiro estejam atreladas a uma tentativa de apropriação com vínculos de símbolos tipicamente nacionais (ambas as palavras estão presentes no Hino Nacional Brasileiro). Ipiranga, enquanto rio que à sua margem ocorrera a declaração da Independência; e Cruzeiro, como alusão à constelação estelar Cruzeiro do Sul, vista somente do Hemisfério Sul. Estas mudanças tencionavam o afastamento da identidade italiana com o clube, em meados da II Guerra Mundial.

o Os imigrantes italianos, notadamente os comerciantes, não só apoiavam financeiramente o clube, investindo recursos para o seu desenvolvimento, como também enxergavam nele uma oportunidade de reconhecimento social.

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Recebido: 10 de Março de 2014; Revisado: 02 de Junho de 2015; Revisado: 12 de Outubro de 2015; Aceito: 15 de Outubro de 2015

ENDEREÇO Silvio Ricardo da Silva, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Pres. Antônio Carlos, 6627, 31270-901 - Belo Horizonte - MG - BRASIL, e-mail: prof.srs@gmail.com

O autor Silvio Ricardo da Silva é bolsista da CAPES Pós-Doutorado - Universitat de València - 99999.006530/2014-01

a autora Sarah Teixeira Soutto Mayor é bolsista da CAPES - PDSE - Universidad de Buenos Aires - 99999.010626/2014-00.

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