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Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação

Print version ISSN 1809-5844On-line version ISSN 1980-3508

Intercom, Rev. Bras. Ciênc. Comun. vol.42 no.1 São Paulo Jan./Apr. 2019  Epub Apr 15, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1809-5844201911 

Artigos

COMUNICAÇÃO E POLÍTICA

Corpo político, implicação, representação: um estudo do blog de Reinaldo Azevedo sobre o caso black bloc

Cuerpo político, implicación, representación: un estudio del blog de Reinaldo Azevedo sobre el caso del black bloc

Eduardo Yuji Yamamoto1 
http://orcid.org/0000-0002-3160-7599

1Universidade Estadual do Centro Oeste, Departamento de Comunicação Social, Curso de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Guarapuava - PR, Brasil

Resumo

O texto apresenta elementos teóricos e conceituais que buscam compreender uma dimensão da estrutura do poder atual evidenciada pela insurgência de formas sociais que visam novas composições. Em um segundo momento, observa a importância dos dispositivos de representação (em especial os media) na constituição de discursos que intensificam ou desaceleram tais formas sociais. Então, é realizada uma análise de conteúdo no blog do Reinaldo Azevedo (veja.com) tanto para organizar os enunciados do texto a partir de suas regularidades como para observar as operações discursivas na representação de protestos black bloc, até então pouco conhecidos pelo público brasileiro. O texto conclui que o discurso do blog obstrui o advento de um corpo social.

Palavras-chave Biopolítica; Biopoder; Media Digital; Dispositivo de Análise; Análise de Conteúdo

Resumen

El texto presenta elementos teóricos y conceptuales que buscan comprender una dimensión de la estructura de poder actual evidenciada por la insurgencia de formas sociales que apuntan a nuevas composiciones. En un segundo momento, observa la importancia del dispositivo de representación (especialmente los medios) para constituir discursos que intensifiquen o deceleren esas formas sociales. Luego, se realiza un análisis de contenido en el blog de Reinaldo Azevedo (veja.com) para organizar los enunciados del texto a partir de sus regularidades y para observar las operaciones discursivas en la representación de las protestas del black blocs, recientemente conocidas por el público brasileño. El texto concluye que el discurso del blog obstaculiza el advenimiento de un cuerpo politico.

Palabras clave Biopolítica; Biopoder; Medios digitales; Dispositivo de análisis; Análisis de contenido

Introdução

Diante da complexidade do cenário político nacional, alguns pensadores brasileiros têm buscado apreender tal fenômeno através da proposição de novos conceitos e modelos teóricos. Apesar dessas tentativas se diferenciarem em suas abordagens e enfoques, algumas delas oferecem premissas singulares a partir das quais faz-se possível uma incursão comunicacional.

Para o filósofo Safatle (2015), o caráter dispersivo dos protestos que desde 2008 têm levado às ruas manifestantes do mundo todo, com as mais diferentes reivindicações, é sintomática de uma crise do sistema político democrático, uma crise que, há tempos, tem atingido os modos de governabilidade no Brasil. Para compreendê-la, Safatle (2015) sugere atualizar importantes conceitos filosóficos como afecção e corpo social.

Não há política sem corpo, dizem, cada um à sua maneira, Rousseau, Hobbes, Spinoza [...] A instauração política aparece assim como a constituição de um corpo dotado de unidade, de vontade consciente, de eu comum [...] Se não é possível pensar a instauração política sem apelar às metáfora corporais é porque, na verdade, constituir vínculos políticos é indissociável da capacidade de ser afetado, de ser sensivelmente afetado, de entrar em um regime sensível de aisthesis. As metáforas do corpo político não descrevem apenas uma procura de coesão social orgânica. Elas também indicam a natureza do regime de afecção que sustenta adesões sociais

(SAFATLE, 2015, p.19).

A reflexão de Safatle (2015) busca compreender as relações contemporâneas de poder a partir de um princípio de afecção corporal – distinta, portanto, das formulações políticas centradas na linguagem. Tal perspectiva é compartilhada por outros pensadores brasileiros. São os casos de Pelbart (2015), que busca cartografar as linhas de força que traçam no presente outras formas de vida e relação, além dos escritos psicanalíticos de Rolnik (2016) sobre a disposição reativa do Estado, mas também da sociedade civil, que interrompem a produção de novas subjetividades e, portanto, a emergência de outro corpo social.

As constantes insurgências cotidianas (marchas, ocupações, intervenções artísticas, entre outras), diz Pelbart (2015), testemunham o caráter biopolítico das lutas atuais: “Falamos de desejo, e não de reivindicações, justamente porque reivindicações podem ser satisfeitas, mas o desejo obedece à outra lógica – ele tende à expansão, ele se espraia, contagia, prolifera, se multiplica e se reinventa à medida que se conecta com outros” (PELBART, 2015, p.169). Daí, diz o autor, a necessidade de deslocar para o centro do debate político contemporâneo o problema da gestão dos afetos que atravessam e mobilizam o corpo político da sociedade. “A insurreição é da ordem da cólera e da alegria, não da angústia ou do tédio, e deve dar lugar ao ‘falar francamente’, como o sublinhou Foucault ao analisar o estilo dos cínicos” (PELBART, 2015, p.165).

O pensamento político de Pelbart (2015) aproxima-se às ideias de Safatle (2015) e Rolnik (2016) em alguns pontos, quais sejam: a necessidade de se admitir a falência do sistema político atual que, além de não representar mais os anseios de grandes contingentes (aqueles mesmos que saíram às ruas), contraditoriamente produz restrições à circulação de seus corpos e falas (através de divisões urbanas, monitoramentos, intimidações da polícia); a urgência de normatividades capazes de afirmar as diferenças (e não as desigualdades), de expandir a experiência humana para além das formas estetizadas da mercadoria, de investir os grupos minoritários das condições para a sua própria reinvenção.

Tais convergências, que deslocam para o centro da reflexão política contemporânea o problema da gestão social dos afetos, traz aos estudos de Comunicação ao menos dois conjuntos de questões:

  1. De que maneira esses estudos têm problematizado o fenômeno da vinculação humana, ou seja, das variadas conexões experienciadas por diferentes corporeidades nas ruas e nas redes cibernéticas para produção de um corpo político? Como têm problematizado aquilo que Rolnik (2016, p.10-11) chamou de um “saber do corpo”, isto é, as experiências “fora-do-sujeito”, “extra-pessoal”, que “agitam o mundo enquanto corpo vivo e produzem efeitos em nosso corpo em sua condição de vivente”?

  2. Quais operações mediáticas podem ser percebidas no contexto da governabilidade atual: os grandes veículos brasileiros de comunicação têm intensificado ou bloqueado as reverberações dos corpos políticos em ebulição? Se, como observou Rancière (2005), a disposição de representações no campo do visível constitui o gesto político fundamental, esses veículos – que possuem legitimidade para produzir, distribuir, repercutir e suprimir as representações nos espaços públicos – assumem um papel político decisivo junto à estrutura vigente de poder.

Não é intenção desta investigação deter-se sobre os desdobramentos das problemáticas comunicacionais atinentes às premissas enunciadas pelos autores citados, mas investigar aquelas que parecem oferecer profícuas empiricidades. Nesse sentido, nos ocuparemos desse segundo conjunto de questões para observar as operações discursivas de um blog da revista Veja – um veículo de comunicação brasileiro – para o advento de um novo corpo social.

Hipóteses

Esta investigação é fundamentada no ensaio denominado “Quando as ruas queimam” de Safatle (2016). A estrutura textual do ensaio, aberta e delineada em torno de uma problemática comum a alguns autores brasileiros - Rolnik (2016), Pelbart (2015) -, viabiliza não apenas o fortalecimento de um núcleo enunciador pela incorporação de ideias convergentes, como também a produção de tensionamentos, divergências, ramificações que fixam ou reverberam o núcleo enunciador. Consequência disso é a possibilidade de incursionar-se por uma de suas ramificações enquanto premissa para uma reflexão comunicacional.

Aqui, o ensaio pode cumprir um duplo objetivo: estabelecer o contexto teórico originário, situando o ponto de partida do problema comunicacional apresentado e; permitir o desenvolvimento de uma ramificação do núcleo enunciador (denominado aqui de comunicacional), a fim de constituir um campo autônomo de reflexão e pesquisa.

De maneira breve e esquemática, as ideias de Safatle (2015, 2016) foram sistematizadas em três hipóteses que, juntas, propõem o argumento de uma crise política em curso nos países de democracia representativa. São elas: esgotamento do sistema político atual; possibilidade de um novo corpo político; bloqueio do corpo político pela representação.

Hipótese A: esgotamento do sistema político atual

Para o autor, há uma crise política mundial que, no Brasil, assume duas particularidades: I) incapacidade dos partidos e entidades de classe em absorver as demandas sociais; II) suposta ausência de caminhos para superação deste sistema de representação.

O ponto de partida de Safatle (2015) é o corpo político da sociedade que, desde o surgimento do Estado moderno, fez do medo o afeto político fundamental.

O medo conduz indivíduos e grupos a práticas autodefensivas que impedem a criação de outros modos de vida e associação diferentes daqueles que dão estabilidade à vida quotidiana, a exemplo da família. É porque as pessoas têm medo que elas autorizam algo como um Estado, uma instância soberana (princípio hobbesiano) que garante a integridade física em troca de deveres civis. O medo produziu o cidadão, o corpo político dos cumpridores de deveres. Atividades fora deste sistema são desencorajadas por ideias negativas como a possibilidade da perda de si, de suas propriedades (físicas e subjetivas), a ausência de garantias no porvir. Por isso é preferível um sistema que gera poucas expectativas às demandas sociais – mas ainda permite criar esperanças –, a aceitar uma situação de incontingência, insegurança ou instabilidade.

Mas a principal tarefa do Estado moderno, diz Safatle (2016), nunca foi de representar as demandas da sociedade, nem impedir a violência e a barbárie do estado de natureza, mas, do contrário, de gerenciar o medo que decorreria dessa mesma violência. Por isso necessita constantemente do crime.

Como já dizia Durkheim, e isto nossos governos sabem bem, o crime não é uma patologia social, mas um dispositivo fundamental para o fortalecimento da coesão. Por isso, nunca houve e nunca haverá sociedade sem crime. Através do crime, a sociedade fortalece seu sentimento de unidade contra o dano sofrido, ela volta à vida por ter um risco de desagregação à espreita. Ela precisa do crime. Na governabilidade atual, o crime não é algo que se combate, ele é algo que se gerencia

(SAFATLE, 2016, p.9-10).

O medo, enquanto afeto político, não mobiliza os corpos para novas vinculações, tampouco potencializa as forças destituintes para a renovação política. Sua força é reativa, reformista, administrativa. Dessa maneira, os dispositivos do poder instituído trabalham tanto para publicizar as crises – e, assim, justificar a existência e a indispensabilidade do Estado como instância capaz de aglutinações individualizadas (aqueles que cumprem as regras e os deveres) –, como para frustrar iniciativas que escapam do código político estabelecido – o que tornaria obsoleta a função do Estado. Um de seus principais mecanismos é a circulação do tédio, da melancolia, da ausência de perspectivas.

[...] nosso tempo tem mostrado como todo acontecimento produz também múltiplos sujeitos que procuram, com todas as suas forças, negar que o tempo acabou e que o lugar implodiu. Eles se servem da abertura produzida pelas chamas que queimam nossas ruas para usar o fogo na caldeira que cozinha o festim de sentimentos reativos com seus golpes brancos, suas fronteiras, suas bandeiras nacionais, sua ressureição de arcaísmos

(SAFATLE, 2016, p.11-12).

Fala-se aqui de um esgotamento da política vigente, não porque essa estrutura não funciona mais – pelo contrário, pois, como observou Foucault (2012), nunca um sistema de poder penetrou tão fundo na massa vivente – mas porque ele vem perdendo, paulatinamente, a sua representatividade, a sua consistência – e, portanto, sua legitimidade –, por parte dos viventes dessa mesma massa. Alguns deles vêm buscando outras formas de expressão política, a exemplo da ação direta, não mediada – como se verá a seguir com os adeptos da tática black bloc.

Hipótese B: possibilidade de um novo corpo político

O limite de tal estrutura política indica também possibilidades provenientes das condições históricas atuais. Um outro corpo político, segundo Safatle (2016), estaria em gestação. Tratar-se-ia de um corpo expansivo, orientado pela pulsão que tem ecoado das ruas enquanto organismo vivo do mundo, alheio, todavia, às representações hegemônicas da política e da cultura.

[...] contra o medo do controle, o melhor a fazer é lembrar o que pode realmente um corpo. Um corpo pode ser o campo de implicação genérica no interior do qual somos atravessados por uma pulsão que nos constitui, mas da qual não podemos nos apropriar. Pulsão é esse impulso que causa minhas ações sem que eu possa controla-lo, é aquilo que me retira da jurisdição de mim mesmo por fazer ressoar histórias de desejos desejados que não se reduzem à minha história. Aceitar a existência de uma pulsão é aceitar que há algo em mim que me destitui da condição de próprio, de portador de interesses próprios, de enunciador de uma identidade própria

(SAFATLE, 2016, p.24).

A constituição deste corpo político depende de um triplo desafio de natureza existencial: I) substituir o medo pelo desejo enquanto afeto político mobilizatório; II) destituir a ideia de indivíduo em prol de um sujeito antipredicativo; III) fugir das tentações de tentar representar essa pulsão para, do contrário, fazê-la reverberar.

Se o medo produz fechamentos e disposições corpóreas defensivas, não receptivas ou autoimunes, o desejo opera criando situações para que os corpos possam dispor-se voluntariamente nos espaços sociais, distribuindo-se de maneira indeterminada.

Pelbart (2015) denominou tal organização de “comunismo do desejo”, um modo de existência coletiva e compartilhada que tem se observado em muitos protestos nos últimos anos.

Falamos de um desejo coletivo, no qual se tem imenso prazer em descer à rua, em sentir a pulsação multitudinária, em cruzar a diversidade de vozes e corpos, sexos e tipos, até mesmo de se enfrentar com uma materialidade do poder na forma da polícia, e apreender um ‘comum’, que tem a ver com os corpos, as redes, as redes sociais, a inteligência coletiva, com uma sensorialidade ampliada, com a certeza de que o transporte deveria ser um bem comum, assim como o verde da Praça Taksim ou do Parque Augusta, assim como a água, a terra, a internet, as informações

[...], os códigos, os saberes, a cidade (PELBART, 2015, p.169).

Uma operação para viabilizar a circulação do desejo coletivo (ao invés do medo) e, assim, produzir um corpo social, é a substituição da disposição defensiva do indivíduo para um sujeito antipredicativo.

Um sujeito antipredicativo, segundo Safatle (2016, p.21), constitui uma disposição para a produção e fruição de objetos do mundo sem a pretensão de querer dominá-los ou fixá-los sob o julgo da propriedade. É uma disposição não-identitária, desessencialista ou antissubjetivista: “Melhor seria se fôssemos aqueles que não são e nunca serão proprietários, porque procuram realizar a promessa de uma apropriação que não é possessão”.

Tais condições – necessárias à constituição de um corpo político – põem-se no limite da representação, seja na impossibilidade dessa de conter a pulsação do mundo em uma identidade, seja no desafio de depô-la para ampliar o campo de experimentação do sujeito.

Um corpo animado pela continuidade pulsional depõe a representação, abrindo espaço para experiências políticas que trazem para todos os seus circuitos o processo de decisão. Para tanto, tais espaços se imunizam contra o que procura impedir a realização de tal imanência, como a colonização da política pela força dos agentes econômicos, das instituições de toda ordem, das associações que vivem de monopolizar representações

(SAFATLE, 2016, p.27).

Embora sejam vastos os fenômenos comunicacionais advindos da reflexão de Safatle (2015; 2016), nesta pesquisa, optamos por recortar uma problemática específica, isto é, o modo como alguns dispositivos de comunicação atuam sobre essa pulsão e, portanto, agem desacelerando a constituição de um novo corpo social. Evidentemente, essa problemática pode ser cotejada com outras situações empíricas capazes de confrontá-la, reiterá-la ou ampliá-la.

Hipótese C: bloqueio do corpo político pela representação

Depreende-se de Safatle (2016) que a representação constitui um dos pilares mais importantes da política moderna, pois é através dela que se pode legitimar uma estrutura de poder ou reivindicar alternativas. Para ele, a manifestação que se intensificou a partir de 2013 “não é apenas exposição da indignação. Ela é, no seu sentido mais profundo, conquista da opinião pública, produção de aglutinações através da emergência de um sujeito dotado de imaginação política capaz de implicar qualquer um” (SAFATLE, 2016, p. 21-22).

Os desafios anteriormente apresentados (mobilização pelo desejo e não pelo medo, destituição da ideia de indivíduo e constituição de um sujeito antipredicativo) passam geralmente pela ação representativa dos meios de comunicação, do modo como tais manifestações (sujeitos, imaginações políticas, entre outras) ganham visibilidade (positiva ou negativa) no espaço público.

Contra esta pulsação contínua constituinte e destituinte a política moderna inventou a representação. Ela nos fez acreditar que só haveria sujeitos políticos onde houvesse representação, que só seria possível existir se representássemos algo, um grupo, um setor, uma classe, um gênero, uma pauta [...] Fora da representação só haveria o caos, e é necessário organizar as vozes de maneira tal que se possa controlar seu tempo de fala, seu lugar de fala, sua perspectiva, suas ‘instâncias decisórias’. Essa era a forma mais insidiosa de conservação, e ela está presente tanto nas instituições oficiais quanto nos grupos que se opõem a tais instituições

(SAFATLE, 2016, p. 25-26).

Para a análise que se segue, elegeu-se os manifestantes adeptos da tática black bloc (doravante bbs) como objeto de representação de um blog da revista Veja devido a algumas particularidades desses manifestantes: I) do ponto de vista de sua representação simbólica (e não de sua existência real-histórica, concreta), eles apresentam uma novidade aos media jornalísticos brasileiros; II) para autores como Dupuis-Déri (2014) e Pelbart (2015) 1, os bbs apresentam-se enquanto movimento singular em relação a todos os outros, sobretudo pela estrutura de enfrentamento ao biopoder (constituição anônima, espontânea, articulada horizontalmente e sem líderes), daí a possibilidade de concebê-los também enquanto evento ou forma social indefinível, porém passível de implicações genéricas; III) suas ações criam um campo de controvérsias, ou seja, um território aberto para a produção discursiva dos dispositivos públicos de representação.

Para efeitos de análise não se está considerando os bbs como sujeitos políticos a priori, mas como evento capaz produzir discursividades heterogêneas. A emergência de novas incorporações, de um corpo político, é tributária de eventos ou formas indeterminadas pois, como observa Safatle (2016), a destruição dos lugares reificados da política vigente se dá por uma ação situada fora dessa estrutura de poder, e, sobretudo, de sua volição representativa.

[...] no interior da experiência política efetiva há falas sem lugar, falas que desestruturam a geometria dura dos lugares, há formas sem figuras. Há a monstruosidade caótica de falas sem perspectivas e a beleza bruta de singularidades que não se localizam. Pois construir uma constelação significa permitir a todos os elementos em seu interior mudar continuamente de lugar, circular em uma zona de indeterminação na qual todas as diferenças se implicam e se descentram. Uma constelação produz uma síntese sem unidade. Ela produz corpos políticos sem hierarquia e funcionalidade, que transformam sua força de implicação em empuxo de indiferenciação

(SAFATLE, 2016, p.15-16).

A seguir, descrevemos os procedimentos metodológicos utilizados para observar os mecanismos discursivos empregados pelo blog de Reinaldo Azevedo para representar os bbs. O blog é assinado pelo referido jornalista que construiu sua carreira em importantes veículos brasileiros de comunicação como Folha de S. Paulo, rádio Jovem Pan, revista Bravo! e Veja. O interesse de se estudar esse blog deve-se não só à influência de Azevedo sobre assuntos de política, economia e cultura2, além de sua popularidade em canais digitais de comunicação como o Facebook e o Twitter3 – razões essas que já seriam suficientes para um estudo do blog – mas, afora isso, percebeu-se uma fixação do jornalista pelos bbs e um grande número de artigos sobre eles. Em um levantamento de notícias na web sobre os bbs, realizada no mês de abril de 2016, enquanto veículos como Estadão, Folha de S. Paulo, O Globo, UOL, El País, entre outros, apresentavam um baixo número de textos sobre os bbs (cinco no máximo), o blog de Azevedo apresentou 294, uma quantidade que se considerou não insignificante em termos representativos para evidenciar as operações discursivas de seu texto. Como se verá a seguir, até com um número menor de textos já seria possível saturar o corpus desta investigação.

Metodologia

O trabalho utilizou a análise de conteúdo proposto por Moraes (1999), que supõe cinco etapas: I) constituição do corpus da pesquisa; II) transformação do conteúdo do corpus em unidade de análise; III) transformação dessa unidade em categorias; IV) descrição do material coletado; V) interpretação.

Após a constituição do corpus (I), que compreende o período em que as reportagens sobre os bbs intensificaram-se no Brasil (entre 2 de novembro de 2013 a 13 de janeiro de 2016), buscou-se na etapa seguinte (II) sintetizar todas essas informações em um registro semântico. Essa etapa, conhecida também como “unitarização”, “unidade de registro” ou “unidade de significado”, levou em conta o campo de problematização anteriormente apresentado, ou seja, o problema da representação e o advento de um corpo político. Conforme Moraes (1999, p.11): “A natureza das unidades de análise necessita ser definida pelo pesquisador. As unidades podem ser tanto as palavras, frases, temas ou mesmo os documentos em sua forma integral”.

A concepção desta unidade sintética permitiu a passagem para a terceira etapa, qual seja, a elaboração de categorias de análises (III). Assim como na etapa anterior, buscou-se uma articulação entre teoria e metodologia para a organização do corpus. Dessa forma, tais categorias foram definidas com o referido corte comunicacional (quais operações discursivas podem ser percebidas no contexto da governabilidade atual a partir deste blog?), daí resultando seis categorias. São elas: A1- Intensificação do medo; A2 - Restituição das normatividades vigentes; B1 - O que vem; B2 - Personificação do que vem; C1 - Qualificação do que vem; C2 - Dicotomização.

Em todas as categorias, buscou-se organizar os enunciados conforme sua regularidade no conjunto dos textos do blog sobre os bbs: a primeira (A1), enunciados que atualizavam o sentimento de medo; a segunda (A2), que recordavam o enunciatário a forma jurídicorepresentativa vigente; a terceira (B1), que evidenciavam a busca para compreender esse fenômeno; a quarta (B2), que modelizavam o fenômeno a partir de referências de um imaginário social pré-constituído; a quinta (C1), que atribuíam valor ao fenômeno em questão, e; por fim, a sexta (C2), que lançavam-se a uma explicação estrutural.

Análise e resultados

Para a descrição do material (IV), organizou-se os enunciados em uma tabela, tendo como base os mecanismos de representação mais recorrentes, quais sejam, a repetição de enunciados e a associação dos bbs a um sistema prévio de representação. Assim, por exemplo, para se referir aos bbs, a palavra mais utilizada foi “bandido” (que aparece cinco vezes), depois “delinquentes” (quatro vezes), “quadrilha armada” (três vezes) e assim por diante. Generalizações como a impunidade (a falta de rigor das leis brasileiras e a má vontade do governo em aplicá-las, entre outras), a representação dos bbs como organização armada e criminosa, além da responsabilidade deles pela morte de Santiago Andrade (cinegrafista da rede Bandeirantes de televisão), aparecem constantemente nos textos, às vezes de maneira explícita – “Ela [morte Santiago Andrade] foi criminosamente planejada”; “essa morte [Santiago] foi cuidadosamente planejada”; “planejaram cometer crimes” –, às vezes como pressuposto para criticar o governo, artistas e outras ideologias políticas – “grupo, declaradamente de esquerda (e sabemos como países socialistas foram verdadeiros reinos de justiça) tem noções muito particulares de direito”; “descoletes globais”; “É evidente que eles sempre serviram à esquerda”.

A Tabela 1 apresenta com mais detalhes a organização do material empírico analisado, bem como outras recorrências enunciativas.

Tabela 1 Categorias de análise a partir do blog de Reinaldo Azevedo 

CATEGORIAS ENUNCIADOS (N° DE REPETIÇÕES)
Hipótese A A1 Intensificação do medo banditismo / a depredação promovida pelos black blocs / o quebra-quebra dos black blocs / contribuíram para a desordem / mascarados lincharam policiais no Rio e incendiaram o centro da cidade/ meterem fogo / atos de vandalismo e não há nada que a Justiça possa fazer para prevenir os ataques / Tenho muito medo do que pode acontecer durante a Copa do Mundo / praticou a tentativa de homicídio contra o coronel da Polícia Militar / É realmente uma situação muito difícil / atos de violência e vandalismo / atos terroristas / arruaça / era para matar qualquer um / terrorismo social / promove a violência, o caos e a morte / protagonizar cenas de depredação e vandalismo / degeneram em tumulto e confusão / chegou ao extremo de provocar a morte do cinegrafista Santiago Andrade / resolveu espancar o suspeito / A intenção deliberada, declarada, explícita, é provocar o caos nas cidades / se organizavam para cometer crimes / capacidade de provocar mortes / objetivo era planejar novos incêndios a ônibus em São Paulo / matou o cinegrafista Santiago Andrade / Ela [morte Santiago Andrade] foi criminosamente planejada / essa morte [Santiago] foi cuidadosamente planejada / planejaram cometer crimes / estiveram envolvidos em atos violentos em manifestações / tem capacidade de provocar mortes, lesões corporais diversas, bem como danos patrimoniais e ao meio ambiente / promover tumulto, para espancar pessoas de bem, para expulsar das ruas quem quer fazer um protesto legítimo, pacífico / promover baderna /
A2 Restituição das normatividades vigentes a bagunça e a certeza da impunidade / Quebrar a cidade é um crime / o aumento da pena para crime de dano ao patrimônio e um agravante no caso de agressão a policiais / reprimir os baderneiros / Os black blocs é que seguem impunes / o país não dispõe de leis que possa manter esses fascistoides na cadeia / os marginais continuarão a se beneficiar desse vazio legal / Quando eles percebem que podem ir para a cadeia, o movimento esfria / Por que a depredação praticada pelos black blocs não é punida? / O grande problema é a legislação / Há alguma outra lei que pode ser aplicada? / Se todos que participaram do espancamento fossem presos, iriam responder por tentativa de homicídio / Quando um deles vai para a cadeia, o movimento dá uma esfriada / toda a democracia precisa de ordem para existir / Se tivesse tido uma repressão imediata, eles teriam parado / Se não segregar o bandido da sociedade, ele vai continuar a cometer crimes / Qual é o perfil dos que agem como black blocs nos protestos? / ambos tiveram a prisão decretada também por incitação criminosa (Artigo 286), associação criminosa (Artigo 288), resistência (Artigo 329) e desobediência (Artigo 330) / reinos da ineficiência /
Hipótese B B1 O que vem [Black Blocs] São jovens indo no embalo do barulho criado na internet, que se reúnem em redes sociais para combinar atos de violência e quebra-quebra contra as torcidas adversárias / A ação dos black blocs tem viés politico? Para mim, parece um viés criminoso, algo parecido com a história do grupo de amigos que decidiu colocar fogo em um índio /A maioria dos identificados é rapaz jovem com emprego e residencia fixa, sem envolvimento com o crime. Mas a investigação detectou também muitos bandidos infiltrados que iam para as manifestações para roubar /
B2 Personificação do que vem [governo PT] flertar com a bagunça / o governo do Estado não quer isso [aplicar leis], vai demonstrar ingerência / Tudo o que eles querem é um [sic] “assinatura” na baderna / [PT] origem do financiamento da baderna de rua / É PRÁTICA CORRENTE NO PT FINANCIAR OS DITOS MOVIMENTOS SOCIAIS / tática obviamente mafiosa / união entre black blocs e PCC / a colaboração do PCC / acumula uma extensa ficha criminal / envolvimento com pedofilia / grupo, declaradamente de esquerda (e sabemos como países socialistas foram verdadeiros reinos de justiça) tem noções muito particulares de direito / sua chegada à Praça Vermelha, em Moscou / Estado Islâmico / É evidente que eles sempre serviram à esquerda / Movimento Passe Livre /
Hipótese C C1 Qualificação do que vem desordeiros / mascarados / Vândalo (2) / fascistoides / marginais / mascarados flagrados em atos de vandalismo / bando / quadrilha armada (3) / bandidos (5) / infeliz / arruaceiros / bandidos disfarçados de sonhadores / uma horda de comuno-fascistoides / algozes / O anjinho / um santo / vagabundos que promovem a arruaça / fascistas asquerosos / assassinos do cinegrafista Santiago Andrade / boçalidade, covardia e prevaricação / delinquentes (4) / covardes / o grupo forma uma quadrilha armada / ridículo / patético / autoritário / vigarista / bufona / dos brucutus de preto / criminosos (2) / pusilanimidade / bandidos mascarados (2) / adeptos da tática PCC / organização criminosa / organização criminosa / baderneiros presos (2) /
C2 Dicotomização Quase totalidade da população repudia a violência / [confrontos] entre bandidos mascarados e PMs / A única força legitimada pela democracia é a polícia; o outro lado é banditismo / A Constituição de 1988 assegura todos os direitos para o criminoso, mas para o cidadão de bem, nem tantos / foi um trabalhador, que estava lá ganhando o pão de cada dia, e não um dos vagabundos que promovem a arruaça /

Fonte: elaborada pelo autor.

Para a etapa seguinte (V), devido a limitação de espaço, apresentamos somente as inferências que julgamos mais importantes sobre as categorias produzidas. Obviamente, outras interpretações poderão ser realizadas a posteriori, tanto a partir das informações contidas na tabela, quanto de cruzamentos dos extratos categoriais.

Na categoria A1, além dos enunciados que explicitam o medo trazido pela presença dos bbs – medo esse fundamental para a coesão do corpo social ao redor da normatividade constituída (Estado), de acordo com Safatle (2016) –, e que se repetem sob outras formas enunciativas, destacamos dois enunciados que permitem um aprofundamento sobre o tema. No artigo intitulado “Eles queriam matar Santiago? Não! Era pior: queriam matar qualquer um”, publicado em 10 de fevereiro de 2014, o enunciador afirma tanto no título como no interior do artigo que a ação dos bbs “era para matar qualquer um”. Essa afirmação destitui os bbs de qualquer motivação que não seja a morte, a aniquilação humana indiferenciada.

Essa representação é reiterada em outros dois artigos, “Eis a verdade insofismável: o Brasil ainda não tem leis para manter black blocs na cadeia”, publicado em 24 de novembro de 2013, em que o enunciador diz que esses não possuem um viés político, mas “um viés criminoso, algo parecido com a história do grupo de amigos que decidiu colocar fogo em um índio”; e em outro, “Black blocs atuam como justiceiros e espancaram homem acusado de furto durante ‘Ocupa Câmara’”, de 18 de fevereiro de 2014, em que o enunciador afirma que um imigrante colombiano (Júlio Cesar Guzmán Ferero) foi agredido por bbs. O enunciador diz “resolveu espancar o suspeito”. O foco sobre a ação violenta e não sobre a motivação cria, com estes dois verbos (“decidiu” e “resolveu”), a representação dos bbs como potência de morte, que não precisa de razões para eclodir, podendo fazê-la a qualquer momento.

Aqui, mais do que elaborar diferentes imagens do medo, o enunciador esforçase em associar os bbs a um monstro letal, de produção de violência extrema, gratuita e indiferenciada. O que motiva essa fixação pelos bbs? Seria uma reação à incompreensão do fenômeno? Aos objetos (simbólicos) destruídos?

A categoria A2 constitui um complemento argumentativo à categoria A1, pois, se por um lado, o enunciador atualiza os enunciatários sobre a forma jurídico-representativa vigente capaz de conter os bbs: “ambos tiveram a prisão decretada também por incitação criminosa (Artigo 286), associação criminosa (Artigo 288), resistência (Artigo 329) e desobediência (Artigo 330)”; “O grande problema é a legislação”; por outro lado, revela certo excesso social que transborda essa forma. Como em seu enunciado reflexivo: “Qual é o perfil dos que agem como black blocs nos protestos?”.

A incerteza gerada por esse evento permite diversas posições em relação à normativa vigente: abandoná-la em favor de uma outra; reformá-la ajustando os bbs à sua própria historicidade (parte-se aqui do pressuposto de que esses constituem uma expressão da nossa cultura, uma demanda da sociedade atual), ou reforça-la, acentuando seu rigor, sufocando o evento – posição essa assumida pelo enunciador.

Neste caso, a construção enunciativa se dá por um movimento que não busca compreender o fenômeno, mas refreá-lo através do endurecimento normativo, um gesto de redução fenomenológico que não esclarece aos enunciatários o fato reportado, mas estreita cognitivamente qualquer intenção em fazê-lo.

Não que a vontade de compreender o fenômeno esteja ausente no enunciador, mas o sentido que preside sua produção discursiva impede esse gesto. É o que se verifica na categoria B1: “A maioria dos identificados é rapaz jovem com emprego e residência fixa, sem envolvimento com o crime. Mas a investigação detectou também muitos bandidos infiltrados que iam para as manifestações para roubar”. O texto segue insistindo nas ações dos “muitos bandidos infiltrados”. Destaca-se aqui, todavia, a transição entre as duas frases: se na primeira a descrição parece indicar uma tentativa de compreensão do fenômeno, dando a ele uma amplitude (e aqui a possibilidade de contradições, paradoxos, especulações), na segunda o enunciador trata de reduzi-lo a um sentido já estabelecido.

Esse sentido, por sua vez, é sustentado ao longo de todo o corpus da pesquisa através de uma saturação semântica. Nas categorias B2 e C1, essa saturação se apresenta, respectivamente, ora associando os bbs a uma instituição já existente – Partido dos Trabalhadores (PT), Primeiro Comanda da Capital (PCC), Movimento Passe Livre (MPL) –, ora qualificando-os negativamente segundo um sistema moral compartilhado com os enunciatários. Tal saturação, entretanto, embora seja importante para a construção discursiva, no limite, pode chegar a excessos e instabilizar o próprio sentido. São os casos dos artigos “Salada estilístico-ideológico-misteriosa do black bloc de saias”, de 28 de junho de 2014; e “Black bloc: da sainha cute-cute ao fuzil e aos tanques na Ucrânia”, de 25 de setembro de 2014, em que o enunciador associa os bbs a organizações como a FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), as forças separatistas da Ucrânia e da Venezuela e, até, ao Estado Islâmico.

Em C2, evidenciamos algumas dicotomias propostas pelo enunciador, seja como estratégia de adesão a seu texto ou a sua predileção política, seja como forma de entendimento do fenômeno: de um lado os bbs; de outro, “quase totalidade da população”, “a polícia”, “o cidadão de bem”, “o trabalhador”.

Observa-se que essa relação dicotômica reduz novamente a possibilidade compreensiva do fenômeno em si e, desse modo, de seus desdobramentos, pois estrutura-o a partir de uma alteridade rígida que, portanto, o paralisa. Por essa razão constitui uma operação discursiva de grande relevância.

Quando o enunciador opõe os bbs à “PM”, à “polícia” (instituição/alteridade rígida), o faz modelizando-os segundo o referido campo de saturação semântica (do bandido, do criminoso, do delinquente). Da mesma maneira, quando a oposição se faz a partir do “cidadão de bem” ou do “trabalhador”, os bbs deslizam para a vala comum dos vagabundos, da máquina letal imotivada.

Os espaços de compreensão do fenômeno, de abertura e rompimento do sentido são, dessa maneira, obstruídos. Em grande parte, pelo conhecimento do enunciador das operações discursivas de bloqueio e dos valores morais que orientam a estrutura interpretativa dos enunciatários, mas, sobretudo, pela sua capacidade de articulá-los coerentemente em seus textos.

Considerações finais

A presente análise de conteúdo do blog do Reinaldo Azevedo, ao procurar compreender os mecanismos discursivos de representação dos bbs para a constituição daquilo que Safatle (2016) denominou “campo de implicação genérica” de um corpo político, constatou um movimento de bloqueio do sentido e desaceleração desse campo.

Embora sejam importantes as questões como a imputação negativa sobre os bbs, os efeitos que tais representações podem produzir nos enunciatários, entre outras, a presente investigação deteve-se às atividades de levantamento e sistematização dos enunciados sobre o caso black bloc a fim de fornecer uma unidade de análise que abarcasse os achados empíricos e que pudesse ainda evidenciar as especificidades funcionais de cada categoria.

Se a sistematização desses enunciados suscitou outras problemáticas que podem ser objetos de reflexão e pesquisas posteriores, a análise das categorias revelou algumas modalidades de ação discursiva voltadas tanto ao bloqueio do sentido quanto à desaceleração do referido campo. São elas

  1. repetição de enunciados temerosos tais como: crime, caos, morte, entre outros;

  2. enrijecimento das formas de vida e relação: busca por uma aplicação rigorosa das leis, aumento da vigilância, do controle e da repressão. A violência é aceitável desde que vinda de uma instituição (polícia, judiciário);

  3. constituição de um sujeito identitário: necessidade de um rosto, de um elemento que traga um reconhecimento total e imediato;

    proposição de modelos explicativos: uso de modelos teóricos e metodológicos pré-existentes (ao invés de modelos mais amplos e complexos).

Com a devida cautela, essas modalidades podem constituir pressupostos para a investigação em outros meios de comunicação sobre a representação de eventos que desafiam institucionalidades. Não somente para observar o modo como tais meios lidam com a estrutura de poder constituída, mas, sobretudo, para descobrir estratégias de instabilização e dissolução do sentido, de aceleração ou intensificação de um corpo genérico implicador.

1Sobre as ações deste grupo, diz Pelbart (2015, p.165): “[...] a ofensa ao equipamento público é um ataque aos instrumentos de uma governamentalidade. Como o poder se tornou ‘ambiental’, assim também os protestos devem sê-lo”.

2Um estudo mais detalhado sobre este blog pode ser encontrado em Christofoletti e Laux (2006, p.78): “O blog está hospedado no site da revista Veja, e neste ambiente, Reinaldo Azevedo aparece como colunista, expediente que o liga diretamente ao veículo, embora o blog conserve o estilo pessoal do seu autor (crítico, anti-governista, irônico e mordaz)”

3Para se ter uma ideia, até 3 de outubro de 2017, Azevedo contabilizava em sua página do Facebook (https://www.facebook.com/ ReinaldoAzevedoColunista/) 315.925 curtidas e 314.241 seguidores; já no Twitter (@reinaldoazevedo), o número de seguidores era de 505 mil.

4Dessas, apenas três são reproduções de matérias da própria revista Veja assinadas, respectivamente, por Mariana Barros (28 jun 2014), Eduardo Gonçalves (2 jul. 2014) e Daniel Haidar (15 jul. 2014).

Referências

CHRISTOFOLETTI, R; LAUX, A. P. F. Blogs jornalísticos e credibilidade: cinco casos brasileiros. Revista Communicare, v.6, n.2, p.71-82, 2006. [ Links ]

DUPUIS-DÉRI, F. Black Blocs. São Paulo: Veneta, 2014. [ Links ]

FOUCAULT, M. O nascimento da medicina social. In: FOUCAULT, M. Microfísica do poder. São Paulo: Graal, 2012. p.143-170. [ Links ]

MORAES, R. Análise de conteúdo. Revista Educação, Porto Alegre, v.22, n.37, p.7-32, 1999. Available at: http://cliente.argo.com.br/~mgos/analise_de_conteudo_moraes.html. Accessed on: 23 nov. 2018. [ Links ]

PELBART, P. P. A terra, a guerra a insurreição. Revista Eco-Pós, Rio de Janeiro, v.18, n.2, p.161-170, 2015. [ Links ]

RANCIÈRE, J. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005. [ Links ]

ROLNIK, S. A hora da micropolítica. São Paulo: N-1 edições, 2016. [ Links ]

SAFATLE, V. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. São Paulo: Cosac Naify, 2015. [ Links ]

______. Quando as ruas queimam: manifesto pela emergência. São Paulo: N-1 edições, 2016. [ Links ]

Recebido: 15 de Novembro de 2017; Aceito: 02 de Janeiro de 2019

Eduardo Yuji Yamamoto

Professor e pesquisador da Universidade Estadual do Centro Oeste (Unicentro). É doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-doutorado em Filosofia pela Scuola Normale Superiore (SNS, Pisa). Líder e coordenador do Laboratório de Estudos de Comunicação e Biopolítica (LABBIO/CNPq). É autor de “A depressão de Lars” (2015) e “Comunidade e Comunicação I – a crise do comum” (2017). E-mail yujieduardo@gmail.com.

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