Resumo
Objetivo traduzir e adaptar transculturalmente para a língua portuguesa falada no Brasil do Intent to Work with Older People Questionnaire de Nolan.
Método pesquisa metodológica de tradução e adaptação transcultural. O processo seguiu as etapas recomendadas internacionalmente, incluindo a tradução da versão original por dois tradutores bilíngues nativos do idioma-alvo, síntese das versões, tradução reversa; revisão por um comitê de juízes formado por especialistas e elaboração da versão final. A versão final foi aplicada com 33 estudantes de enfermagem.
Resultados Em 33,3% (5) dos itens houve exata similaridade entre as traduções e, em 66,7% (10), as semelhanças prevaleceram em relação ao conteúdo, com poucas diferenças semânticas. A escala traduzida apresentou IVC-Q=100%, aceitabilidade de 0,95 e coeficiente Ômega com alfa =0,61; Ω GR=0,67; ΩDT=0,67; ΩCT=0,62.
Conclusão o processo de tradução e adaptação transcultural foi bem-sucedido com manutenção das propriedades linguísticas e semânticas do instrumento original. O instrumento resultante é confiável para reprodutibilidade.
Palavras-Chave:
Comparação Transcultural; Envelhecimento; Idoso; Estudantes de Enfermagem; Enfermagem Geriátrica
Abstract
Objective to translate and cross-culturally adapt Nolan's Intent to Work with Older People Questionnaire into Brazilian Portuguese.
Method a methodological study involving translation and cross-cultural adaptation was conducted. The process followed internationally recommended steps, including translation of the original version by two bilingual translators native in the target language, synthesis of versions, back-translation; review by an expert panel of judges, and devising the final version. The final version was applied to 33 nursing students.
Results For 33.3% (5) of the items, there was exact agreement between the translations, while for 66.7% (10), the content was largely similar with minor semantic differences. The translated scale had an S-CVI=100%, acceptability of 0.95 and Omega coefficient with alpha=0.61; Ω GR=0.67; ΩDT=0.67; ΩCT=0.62.
Conclusion the translation and cross-cultural adaptation process was successful, maintaining the linguistic and semantic properties of the original scale. The resultant scale offers reliable reproducibility.
Keywords
Cross-Cultural Comparison; Perception; Aging; Aged; Students; Nursing; Geriatric Nursing
INTRODUÇÃO
A transição demográfica e epidemiológica vivenciada no Brasil e no mundo, intensificada pelas sequelas da pandemia de covid-19, e pelo crescente número de doenças crônico-degenerativas, exigem um planejamento dos sistemas de saúde para a preparação da sua força de trabalho para lidar com as complexidades envolvidas no cuidado as pessoas idosas1-3.
Apesar de tal cenário, a maioria dos profissionais de saúde não recebe oportunidades educativas sobre o envelhecimento e as pessoas idosas e, portanto, não se prepara adequadamente para responder às necessidades de cuidados de saúde e prevenção desses indivíduos3. Além disso, as áreas de gerontologia e geriatria parecem ter se tornado pouco atraentes para os profissionais de saúde, principalmente de enfermagem4.
Estudos recentes mostram que, apesar do predomínio de atitudes positivas, há uma desvalorização da condição do idoso por parte dos estudantes de enfermagem, podendo afetar potencialmente sua futura relação com os pacientes5. Revelam ainda a necessidade de treinamentos a partir de uma perspectiva não estereotipada com base nas necessidades sociais atuais, já que crenças preconceituosas e comportamentos discriminatórios veem sendo identificados entre esses alunos e devem ser estudados com mais profundidade6.
Assim, impõem-se novos desafios. Além de promover o envelhecimento saudável, emerge a necessidade de melhor preparar os jovens, futuros enfermeiros, para o trabalho junto a essa população7, bem como fazer progressos na redução do preconceito de idade em relação aos adultos mais velhos, na forma de mudança de atitudes, cultura e valores por meio de intervenções oportunas com contato intergeracional positivo, isto é, particularmente individualizado, de estatuto igualitário e presencial8.
Como ponto de partida, identificar o conhecimento dos estudantes de graduação associado ao envelhecimento, suas atitudes em relação às pessoas idosas ou suas intenções em trabalhar com essa população torna-se fundamental para compreender suas necessidades de aprendizagem e identificar seus potenciais equívocos sobre as pessoas idosas, e, assim, orientar a elaboração de novas políticas e alterações relevantes no currículo9. A partir do reconhecimento dessas percepções, seria possível buscar programas destinados aos estudantes com essa finalidade, realizar estudos mais aprofundados junto à população idosa, além de melhorar métodos investigativos10.
Apesar da importância, poucas pesquisas destinadas a avaliar tais percepções têm sido realizadas no contexto brasileiro, sendo necessário buscar instrumentos adequados, padronizados internacionalmente, capazes de mensurar nossa realidade comparando-se com investigações relevantes realizadas em outros países, ampliando as possibilidades de intervenções de sucesso5.
Entre os instrumentos que investigam as intenções em trabalhar com pessoas idosas, o Intent to Work with Older People Questionnaire (PWOP), foi desenvolvido e adaptado por Nolan (2002)11 na Inglaterra, para avaliar a intenção de estudantes de enfermagem em trabalhar com pessoas idosas e visava explorar a eficácia da educação na preparação de profissionais para satisfazer as necessidades das pessoas idosas e dos seus cuidadores em contexto multidisciplinar11.
O PWOP abrange três grandes áreas: percepções dos estudantes de enfermagem sobre o trabalho com pessoas idosas em geral; suas intenções de trabalhar essa população ao se qualificarem; e as consequências percebidas do trabalho com pessoas idosas em termos de perspectivas de carreira futuras e satisfação no trabalho11.
Apesar de seu uso padronizado em inúmeros estudos internacionais12,13, esse instrumento ainda não foi traduzido e adaptado no Brasil, impossibilitando comparações com a população brasileira. Neste sentido, este estudo teve como objetivo traduzir e adaptar transculturalmente para a língua portuguesa falada no Brasil do Intent to Work with Older People Questionnaire de Nolan sobre intenções de trabalho com pessoas idosas.
MÉTODO
Trata-se de um estudo metodológico de tradução e adaptação transcultural do Intent To Work With Older People Questionnaire (PWOP) para a língua portuguesa falada no Brasil.
A ferramenta, desenvolvida a partir de uma pesquisa qualitativa baseada nas experiências dos estudantes, foi elaborada a partir de um processo complexo baseado em entrevistas e grupos focais, sendo selecionados 15 itens que abrangem três grandes áreas abordando as percepções dos estudantes: trabalhar com pessoas idosas em geral (6 itens: 1, 5, 6, 9, 12 e 15); intenções/disposição de trabalhar com pessoas idosas (4 itens: 2, 4, 10 e 11); e consequências de trabalhar com pessoas idosas, quer em termos de perspectivas futuras de carreira, quer de satisfação profissional (5 itens: 3, 7, 8, 13 e 14). É utilizada a escala Likert de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente), com o número 3 representando indeciso ou neutro. Das quinze afirmativas, nove são formuladas negativamente e, portanto, devem ser codificadas de forma inversa (1=5)12. A pontuação mínima é 15 e a máxima é 75, onde pontuações mais altas indicam maior intenção de trabalhar com pessoas idosas14.
O desenvolvimento do processo ocorreu entre março/2023 e março/2024. Foram seguidas as estratégias metodológicas que contemplam sete etapas, seguindo Beaton et al. (2000) e Fortes e Araújo (2019), incluindo o preparo, a tradução, a conciliação de traduções, a retrotradução, a revisão e o pré-teste15,16, conforme é demostrado na Figura 1.
Mediante a autorização do autor principal (AT) do Intent To Work With Older People Questionnaire e da aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu sob pareceres números 5.278.736 e 5.453.561, de acordo com a Resolução Nº 510/2016 e 466/2012 – CNS, iniciou-se a etapa de tradução.
A tradução do instrumento original para o português falado no Brasil foi realizada de forma independente por dois nativos brasileiros, com domínio da língua inglesa, sendo das áreas da saúde e de ciências sociais. A escolha dos tradutores se deu por conveniência, após análise do Currículo Lattes; um dos tradutores possuía familiaridade com o tema e objetivos da pesquisa e o outro era de área afim, com amplo conhecimento técnico em traduções, identificados como Tradutor 1 (T1) e Tradutor 2 (T2).
Para a etapa de síntese das traduções, os profissionais tradutores e pesquisadores se reuniram por videoconferência, para comparar as traduções, tendo o debate prosseguido até a obtenção de consenso entre todos os envolvidos, resultando na Tradução 3 (T3).
No momento seguinte, a versão T3 foi traduzida para inglês por profissional nativo brasileiro contratado, fluente em português e inglês, que não teve acesso ao instrumento original, resultando na retrotradução (T4).
A versão retrotraduzida (T4) foi submetida a um consultor nativo britânico para análise de similaridade com o questionário original a fim de verificar possíveis perdas de significado (TR).
As discrepâncias encontradas foram analisadas e discutidas com o comitê de revisão, resultando-se na versão final da escala retro traduzida (T5).
Com a finalidade de análise crítica dos processos anteriores, um comitê de revisão foi composto por um grupo de quatro especialistas, sendo duas pesquisadoras relacionadas ao estudo e duas especialistas independentes selecionadas pela experiência e conhecimento na área. Três dos especialistas são enfermeiros com amplo domínio sobre o tema e um pesquisador com experiência prévia de estudos metodológicos e linguísticos; todos com titulação mínima de doutor. O comitê avaliou e aprovou a versão apresentada.
Para a avaliação, os membros do comitê receberam um instrumento de coleta de dados padronizado, contemplando as diretrizes a serem adotadas. A conferência de consenso ocorreu em reunião, por videochamada, para votação e discussão dos resultados entre todos os integrantes do grupo. O comitê considerou: a) a equivalência semântica, com a conservação do significado das palavras entre o instrumento original e o traduzido; b) a equivalência idiomática, c) a equivalência de coloquialismos ou expressões idiomáticas; d) a equivalência cultural; e) a coerência da interpretação de conferência com a cultura da população alvo; e f) a equivalência conceitual, mediante a avaliação se os termos traduzidos representavam a mesma concepção dos termos originais16.
Para o cálculo do Índice de Validade de Conteúdo (IVC), considerou-se a pontuação de cada item mediante a viabilidade da tradução ao contexto brasileiro, utilizando-se de escala tipo Likert de 1 a 4 em ordem crescente de conformidade, sendo: 1 (irrelevante / não viável); 2 (pouco relevante ou pouco viável); 3 (relevante ou viável); e 4 (muito relevante ou muito viável)17.
Calculou-se o índice de validade de conteúdo por item (IVC-I) mediante a soma de concordância dos itens que foram pontuados pelos avaliadores. Não havendo consenso sobre a validade de um item na primeira votação, realizaram-se discussões com os participantes no intuito de aceitar, modificar, substituir ou retirá-lo. Posteriormente, houve uma segunda votação para o consenso final, a fim de se chegar a uma conformidade entre os pares.
O índice de validade de conteúdo do questionário completo (IVC-Q) foi calculado utilizando-se a média aritmética a partir da contagem dos IVC-I. O parâmetro de aprovação foi de 100%, representando o consenso entre todos os especialistas17.Para avaliação do questionário pelos participantes do pré-teste, foram considerados itens relacionados à clareza, compreensão e dúvidas no preenchimento, calculado a partir da média simples dos escores positivos obtidos, sendo considerado o valor mínimo aceitável de 0,80.
Após a verificação das equivalências linguísticas e operacionais, através da manutenção das características do instrumento original quanto ao número de itens, enunciado e opções de resposta, a fim de assegurar que a versão final fosse totalmente compreensível e avaliar a sua equivalência cultural17, o produto dessa fase resultou na versão síntese do instrumento (T5).
Atendendo às orientações relativas à quantidade mínima a ser adotada16, o teste-piloto (pré-teste) da versão pré-final (T5) foi realizado com 33 alunos regularmente matriculados em cursos de graduação de enfermagem de instituição pública de ensino. Os participantes foram convidados pessoalmente, de forma intencional, durante o período de aula, após autorização da instituição. Foram incluídos todos os alunos acima de 18 anos, dos cursos de graduação em enfermagem, que aceitaram participar do estudo. Após o preenchimento do questionário, os estudantes juízes responderam o instrumento de avaliação, com respostas binárias, em relação à clareza, compreensão das afirmativas e possíveis dúvidas quanto às questões apresentadas, com a possibilidade ainda de apresentar sugestões de melhoria do questionário traduzido. Não foi necessária nenhuma adequação pós-teste.
Considerando que o instrumento é composto por escalas multidimensionais, além do Alpha de Cronbach, foram realizadas análises do coeficiente ômega por ser um índice adequado para tal aspecto, incluindo amostras pequenas, sendo considerados aceitáveis os valores iguais ou superiores a 0,60 e inferiores ou iguais a 0,9518-20. O sistema Ômega avaliou as 15 questões do questionário, divididas em três áreas. O Ômega 1 incluiu as percepções dos estudantes de enfermagem sobre o trabalho com pessoas idosas em geral (GR); O Ômega 2 incluiu as intenções de trabalhar essa população ao se qualificarem (DT); O Ômega 3 incluiu as consequências percebidas do trabalho com pessoas idosas em termos de perspectivas de carreira futuras e satisfação no trabalho (CT). O escore Ômega total é obtido pelo conjunto de ômegas.
RESULTADOS
Em 33,3% (5) dos itens houve exata similaridade entre as traduções e, em 66,7% (10), as semelhanças prevaleceram em relação ao conteúdo, com poucas diferenças semânticas. Para a concepção da versão síntese (T3), a composição dos itens ocorreu por meio do ajuste das traduções fornecidas, considerando-se ainda a versão adaptada em português traduzida em Portugal21.
O entendimento entre os tradutores iniciou-se com a uniformização dos itens, optando-se por “pessoas idosas” para “old people”. No entanto, a comissão optou por manter “idosos” nos itens 6 e 7, para evitar repetição de termos (pessoas) e “pessoas mais velhas” nos itens 09 e 11, para manter o sentido original da afirmativa.
Adequações culturais de termos e expressões idiomáticas para uso de termos mais usualmente aceitos no Brasil foram necessárias, como nos itens 3 (dead-end job / emprego sem perspectiva de futuro), 7 (high status / muito valorizadas) e 11 (not appeal to me at al / não me atrai de forma alguma). O item 6 foi adequado para ampliar o escopo em relação às inovações tecnológicas e os novos recursos no trabalho da enfermagem (...they cannot cope with hi-tech care / ...não conseguem acompanhar as inovações tecnológicas e os novos recursos nos seus trabalhos).
Para os itens 01 e 12, a comissão houve por bem manter o termo habilidades, já que as afirmativas deixam claro o sentido de oposição (cuidados básicos e habilidades de alto nível), com as respectivas cargas negativa e positiva. Tal decisão foi fundamentada no sentido de reconhecimento, apontado por Nolan (2006)9, onde a qualificação e os conhecimentos especializados são necessários para o trabalho e o cuidado com pessoas idosas.
Devido às questões culturais, a comissão fez adequações nos itens 09 e 10. No item 09, foi necessário acrescentar o termo “somente” para reforçar o sentido negativo da afirmativa, buscando a ideia de que todos os profissionais devem ter bom relacionamento com pessoas idosas, independentemente da idade. Apesar de não terem sido relatadas dúvidas pelos respondentes, observou-se que o termo “ansioso” no item 10 poderia sugerir uma conotação positiva (desejar). No entanto, após análises aprofundadas do instrumento e considerando o sentido de segurança apontado por Nolan (2006), optou-se por alterar para “Tenho medo de que minha primeira colocação no mercado de trabalho seja com pessoas idosas”, reafirmando a conotação negativa de insegurança do futuro profissional.
Na retrotradução (TR) foram observadas algumas diferenças em relação ao original, tendo em vista as adequações necessárias citadas anteriormente, sem, no entanto, apresentar erros conceituais ou inconsistências grosseiras. Assim, os itens retrotraduzidos reproduziram a mesma ideia dos itens da versão original, tendo a fase de retrotradução executado o objetivo de verificação de validade e detecção de possíveis erros na versão T5.
O Quadro 1 apresenta a versão em inglês e a versão traduzida para o português falado no Brasil.
O questionário Intent to work with Older People (SPWOP) de Nolan: intenções de trabalhar com pessoas idosas, versão original e traduzida. Botucatu, SP, 2024.
O grau de concordância durante o processo de avaliação, representado pelo Índice de Validade do Conteúdo do Questionário e cada item, estão apresentados na Tabela 1.
O pré-teste foi realizado em março de 2024, com 33 participantes, sendo a maioria com idade até 25 anos (76%), do sexo feminino (82%) e solteiros (97%), conforme é apresentado na Tabela 2.
A média dos coeficientes calculados para clareza (0,97), compreensão (0,97) e existência de dúvidas (0,91) foi de 0,95. Os valores calculados sugerem excelentes parâmetros para a análise de viabilidade do instrumento. Assim, nenhuma outra alteração foi necessária. Essa etapa trouxe rigor e consistência ao processo de adaptação transcultural, mantendo vínculo estreito do significado e o constructo explorado.
A aplicação do alfa de Cronbach está detalhada na Tabela 3. Na análise de consistência interna do instrumento, utilizando o coeficiente Ômega, encontramos os seguintes resultados: alfa =0,61; GR Ω 1=0,67; CT Ω 2=0,67; DT Ω 3=0,62.
Distribuição dos participantes por dados sociodemográficos, projeções e motivações profissionais, experiência anterior com pessoas idosas e pontuação na aplicação da escala. Botucatu, SP, 2024.
DISCUSSÃO
O presente estudo apresentou o processo de tradução e adaptação transcultural Intent to work with Older People (PWOP), de Nolan11, com estudantes de enfermagem, a partir das recomendações internacionais, obtendo-se correspondências semântica, idiomática, conceitual e cultural, com compreensão de seu conteúdo pela população alvo e consistência interna aceitável.
Traduzir uma escala internacional sobre a intenção de trabalho com pessoas idosas para a cultura brasileira encontra fundamentação em estudos que revelaram maior prevalência de resultados significativos de preconceito de idade em relação à saúde nos países menos desenvolvidos22. No entanto, diante da escassez de instrumentos de pesquisa objetivos de coletas de dados, o uso de ferramentas internacionais tem se tornado uma prática comum no Brasil23.
Neste estudo todas as propostas metodológicas foram seguidas e documentadas, a fim de alcançar o objetivo proposto. A adaptação transcultural de questionários deve ser um processo meticuloso, desenvolvido em etapas envolvendo aspectos textuais e técnicos24, com rigor metodológico capaz de garantir a confiabilidade e validade do instrumento original23. O Consensus-based Standards for the Selection of Health Measurement Instruments (COSMIN) orienta que toda versão traduzida deve ser submetida a um comitê de especialistas, além da realização de pré-teste, na busca por instrumentos mais apropriados25.
Durante as fases de tradução direta e reversa, foram encontradas algumas dificuldades para combinar palavras e expressões equivalentes do idioma alvo, obstáculo que pesquisadores também encontraram na tradução de outros questionários26,27. O questionário PWOP original em inglês foi desenvolvido e escrito em linguagem clara, porém com expressões com significado diverso culturalmente. Tais características demandaram maior esforço dos tradutores e da comissão de revisão. Ainda assim, a adaptação foi compreensível, sem dúvidas ou comentários sobre inadequação de qualquer item, como verificado no pré-teste.
No processo de adaptação transcultural devem ser analisadas a capacidade do instrumento mensurar determinado constructo em outra língua e cultura28. Nesse sentido, o comitê de revisão buscou fundamentação na comunicação efetiva29 utilizando termos mais usualmente expressos por brasileiros2, numa abordagem mais próxima da realidade nacional, respeitando-se a adequação em relação às individualidades locais da linguagem e ao cenário cultural24.
Na fase de avaliação da versão-síntese pelo comitê de revisão, a expertise clínica e metodológica dos membros possibilitou o refinamento do instrumento, sendo possível identificar e avaliar adequadamente os problemas detectados na versão adaptada. A avaliação por comitês de revisão é amplamente recomendada na literatura30 e sua interdisciplinaridade pode trazer importantes benefícios no processo17.
O pré-teste é uma etapa importante já que pode apontar possíveis dificuldades no preenchimento, na aplicação ou compreensão dos itens. As orientações para preenchimento, expressas de forma clara e bem detalhada, parecem ter sido fundamentais na coleta de dados. Essa etapa trouxe rigor e consistência ao processo de adaptação transcultural, mantendo vínculo estreito com o instrumento original.
O coeficiente alfa de Cronbach é um dos índices de fiabilidade mais utilizados em estudos de validação de instrumentos. No entanto, devido aos aspectos adicionais de capacidade desse teste e suas limitações, estudos sugerem que o Coeficiente Ômega apresenta vantagens para pesquisas aplicadas em que os itens diferem em qualidade ou têm distribuições distorcidas, além de estender a utilidade dos coeficientes alfa para estimar a confiabilidade da consistência interna das pontuações em escalas multidimensionais, como a avaliada no presente estudo18,19. Assim, a versão brasileira da PWOP, resultado deste estudo, pode ser considerada como confiável em relação à versão original, uma vez que, por meio do Coeficiente Ômega, apresentou parâmetro aceitável, assim como as traduções desse instrumento em outros países31.
Os resultados da aplicação do pré-teste indicaram a boa compreensão do questionário pelos participantes. Ao analisar os dados obtidos no pré-teste, observa-se, de modo geral, que os alunos da amostra estavam favoravelmente dispostos ao trabalho com pessoas mais velhas (média de 52,9; max=66 pontos), sendo, no entanto, inferior ao constatado em outros países onde o mesmo instrumento foi aplicado, como Irlanda (55,94; 75), Alemanha (55,70; 72), Itália (54,96; 72), Finlândia (55,89; 73), Romênia (57,3; 73) ou Malásia. Escores próximos foram apurados em outras nações como Vietnã (51,79; 71), Nepal (51,3; 66) e Malásia (52,8), mas com pontuações máximas superiores ao verificado neste estudo13,31–34.
Esses primeiros resultados revelam que, ao traduzir e adaptar o PWOP, este estudo cumpre com o objetivo de oferecer um instrumento que pode possibilitar a comparação e identificação de lacunas no ensino e a implementação de políticas para garantir que o envelhecimento se torne parte integrante de qualquer currículo educativo para profissionais de saúde melhorando as percepções do envelhecimento e a saúde dessa população3.
O instrumento pode revelar ainda dados interessantes inerentes à indecisão dos estudantes quanto ao interesse de trabalho com pessoas idosas, se esse trabalho é desafiador ou estimulante e se requer altos níveis de habilidade. Essas informações indicam desafios para programas educacionais: manter a disposição positiva em relação às pessoas idosas demonstrada por parte dos alunos e capacitar aqueles ainda indecisos ao trabalho com pessoas idosas de forma que se torne interessante, desafiador e estimulante e tenham domínio nessa área9.
O conjunto de declarações relacionado às possíveis consequências futuras de trabalhar com pessoas mais velhas indica a visão dos estudantes em relação ao impacto potencial nas carreiras, a satisfação no trabalho e o status percebido da enfermagem gerontológica. Assim, os resultados da aplicação do instrumento poderão indicar sobre a tempestividade de ações por parte das instituições educacionais para tornar essa área de trabalho mais atraente, fazendo com que os futuros profissionais de enfermagem não apenas adquiram conhecimento e habilidades, mas disposição em trabalhar com pessoas idosas em uma sociedade cada vez mais envelhecida6,8,9.
Assim, a disponibilidade do PWOP em português pode ser de interesse e utilidade para instituições de ensino avaliarem os programas educacionais voltados à melhoria da força de trabalho na enfermagem gerontológica. Pode ainda ser utilizada por pesquisadores que trabalham com a população mais velha, com outras categorias profissionais ou em conjunto com outros instrumentos.
Várias limitações deste estudo devem ser observadas. O PWOP foi testado apenas com estudantes de graduação em enfermagem em uma única instituição brasileira, dentro do mesmo programa educacional. Tendo em vista a extensão territorial e as diferenças culturais no Brasil, mesmo tendo atingido o número recomendado de 33 participantes, a não participação de experts de outras regiões do país pode ter sido um fator limitante. Estudos adicionais de aplicação da versão final da escala, sua validação psicométrica e utilização com outras categorias profissionais são recomendados.
CONCLUSÃO
Nosso estudo descreveu o processo metodológico de tradução e adaptação transcultural do questionário Intent to work with Older People (SPWOP) de Nolan da língua inglesa para o português do Brasil, seguindo as etapas recomendadas na literatura, que alcançou equivalências linguística, semântica, idiomática, conceitual e cultural, apresentando adequada compreensão dos itens pela população alvo verificada pelo pré-teste.
Considerando o panorama latino-americano das produções acerca de preconceito voltado as pessoas idosas que evidenciam lacunas presentes na literatura e a necessidade de ampliação de pesquisas, nosso estudo contribui ao apresentar um novo instrumento de mensuração investigativa, equivalente ao original.
A proposta traduzida e adaptada transculturalmente apresentada pode subsidiar pesquisas que objetivem a validação e análise dos componentes psicométricos do instrumento e futuras investigações nacionais poderão comparar dados com estudos internacionais.
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Editado por
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Editado por Isac Davidson S. F. Pimenta
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.


