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Pandaemonium Germanicum

On-line version ISSN 1982-8837

Pandaemonium ger. vol.19 no.28 São Paulo Sept./Oct. 2016

http://dx.doi.org/10.11606/1982-883719284573 

Artigos

A literatura brasileira de expressão alemã e a crítica

Brazilian literature written in German, and its criticism

Celeste Ribeiro de Sousa1 

1Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de Letras Orientais, Av. Prof. Luciano Gualberto, 403, sala 35, 05508-010, São Paulo/SP, Brasil. Email: celeste@usp.br.

Resumo

O presente texto objetiva expor e divulgar ao mais amplo público leitor um panorama cronológico comentado dos estudos críticos publicados sobre a literatura produzida por imigrantes de língua alemã e seus descendentes no Brasil, mostrando que e por que se tratam de uma crítica parcial, o que evidencia a necessidade de atrair a atenção para este campo de pesquisa, partindo dos novos horizontes abertos pelos estudos culturais, pela imagologia, pelos estudos da memória, além da crítica poética. Parte-se das palavras encorajadoras de Boris Fausto em Fazer a América (1999) e de Wander de Melo Miranda em Nações literárias (2010), pois a literatura de língua alemã gerada no país pertence à cultura brasileira, é uma das nações literárias encastoadas no Brasil.

Palavras-chave: Literatura teuto-brasileira; Literatura da imigração alemã; Brasil alemão

Abstract

This text aims to divulge a chronological and commented panorama of the critical studies published about the literature produced by German-speaking immigrants and their descendants in Brazil, arguing that this is a partial critique. This text also aims to emphasize the need to draw attention to this field of research. Nowadays, in addition to the poetic approach, other critical perspectives, such as cultural studies, imagology and memory studies, open new horizons. The encouraging words of Boris Fausto in Fazer a América (1999) must be taken into consideration as well as the support positions of Wander de Melo Miranda in Nações literárias (2010). According to Melo Miranda for example we could say that the literary production in German in Brazil belongs to the Brazilian culture and is a literary nation within this country.

Keywords: Teuto-Brazilian literature; literature of the German immigration; German Brazil

Ihr lieben Bras-Teutonen

habt ihr schon überdacht,

was wohl ein Wolfgang Goethe

im Urwald hätt' vollbracht?

Wer spräche heut' von dem Genie,

Wär' er geboren in Ijuí.

(Hilda Siri. "Kleinigkeiten IV").

1 O "estado da arte"

Trata este texto de uma literatura que designo de "literatura brasileira de expressão alemã". Como classificar a literatura que os imigrantes de língua alemã publicam no Brasil sobre o Brasil e sobre outros vários temas? Como classificar a literatura que seus descendentes, já brasileiros, continuam a publicar em língua alemã e, às vezes, em português sobre esses mesmos temas? Durante muito tempo, essa literatura foi chamada literatura teuto-brasileira. Porém, o adjetivo "teuto" ou "teutônico" remete para os povos germânicos da antiguidade longínqua, emigrados da Jutlândia e, durante gerações, espalhados pela Europa, onde fundaram vários reinos, um deles o dos francos, assimilado pela França, outro o dos anglos, aglutinado ao Reino Unido em eras remotas, para não falar dos visigodos, que se assentaram na Península Ibérica. Além de "teuto" ser um termo não familiar para brasileiros, seu significado não faz jus à realidade do fenômeno produzido pelos imigrantes de lingual alemã e seus descendentes a partir do século XIX no Brasil.

Sem fugir à controvérsia dos nacionalismos associados à literatura, proponho para essas produções literárias a designação de "literatura brasileira de expressão alemã", porque me parece a mais próxima de um perfil adequado ao assunto em discussão. Afinal, os temas trabalhados nessa produção cultural dizem respeito em sua maioria ao Brasil; a grande maioria dos autores ou é imigrante que aqui fixou residência e aqui morreu, ou é brasileira já nascida no país. Apenas a língua empregada é o alemão e, em alguns casos, também o português. Ao colocar essa produção no âmbito geral da literatura brasileira, atraio o interesse dos leitores brasileiros e, ao particularizá-la com o adjunto "de expressão alemã", aponto para o fato de ser o Brasil um país de imigrantes das mais variadas procedências, que, de fato, é.

No século XIX e posteriormente, enquanto vão sendo publicadas as obras poéticas canônicas que hoje dão forma à literatura brasileira, muitas outras também vão surgindo e restando desconhecidas.

No grupo das que vão restando desconhecidas, destaco aquelas escritas em língua alemã, por vezes em português, registrando um Brasil de perspectivas peculiares, que vão aparecendo e circulando dentro da comunidade de idioma alemão estabelecida no Brasil, uma comunidade, que, oficialmente, é fundada em 25 de julho de 1824, dia em que um grupo de 43 imigrantes chega ao país e desembarca no antigo Porto das Telhas (hoje São Leopoldo) no Rio Grande do Sul.

Percebi ao longo dos anos que, no Brasil, ao lado da literatura canônica dos países de idioma alemão, tanto a literatura de viagens quanto a literatura do exílio têm atraído cada vez mais pesquisadores, enquanto a literatura da imigração de língua alemã, até há pouco tempo chamada literatura "teuto-brasileira", sofre uma espécie de sutil, elegante e persistente rejeição, em particular acadêmica.

Tenho tentado identificar as causas dessa sutil, elegante e persistente rejeição e, até agora, consegui distinguir algumas.

A mais imediata é a mais óbvia: à exceção das comunidades que cultivam o alemão como a língua materna de seus antepassados, muito poucos no Brasil leem este idioma. A barreira da língua impediu e impede a divulgação ampla de tais textos. Outras razões são verbalizadas por colegas da Academia: trata-se de uma literatura "de almanaque", uma literatura irrelevante, porque supostamente escrita por gente sem instrução, camponeses, e, assim, sem valor poético. Trata-se de uma literatura ensimesmada, datada, pertencente ao passado, anacrônica. É uma produção ilhada, circunscrita a uma colônia de imigrantes na zona rural brasileira dos séculos passados, envolvida com temas domésticos, menores. De fato, os estudos críticos sobre esta literatura, publicados até agora, se não ajudam a criar essa resistência, não contribuem para desfazê-la, ora porque se baseiam em teorias literárias passadas, marcadas pelo impressionismo, pela estilística, pelo new criticism, pelo formalismo russo e pelo estruturalismo, ora porque examinam um corpus, um recorte, uma amostragem muito pequena. Afinal, é de suma importância lembrar o fato de não se conhecer o universo desse fenômeno cultural: o número total dos autores e o número de suas obras é ignorado. Mas todas estas observações são passíveis de correção e, sobretudo, de clareamento: basta pesquisar, analisar e publicar. Porque esta literatura tem, sim, valor poético, embora haja obras de todas as potenciações de significado. Também não se trata de uma produção restrita ao passado, pois continua sendo produzida, embora com bem menos intensidade. Não é igualmente uma produção "ilhada" na zona rural brasileira, porque, a título de exemplos de publicações recentes, que veiculavam textos dessa literatura, há a considerar o jornal Brasil-Post e o jornal Deutsche Zeitung ou Deutsche Nachrichten, que até há pouquíssimo tempo davam a conhecer em língua alemã parte dessa produção literária a todo país. Além disso, existem livros também recentes publicados em português por descendentes de imigrantes de língua alemã, que continuam a tematizar a imigração de seus antepassados, como é o caso de Liti Belinha Rheinheimer, a qual entre 2006 e 2011 publica a trilogia O campanário de tempo.1

Assim, as causas mais fundas da sutil, elegante e persistente rejeição a esta literatura devem talvez ser procuradas na história e no imaginário tanto de brasileiros quanto de estudiosos de língua alemã.

Comecemos lá atrás no tempo do imperador Pedro I, que incentiva a imigração de gente de fala alemã porque precisa de homens treinados para o exército da jovem nação, para o povoamento de regiões de fronteiras vulneráveis, particularmente no sul do país, e também para aumentar o branqueamento da população brasileira. A integração desses imigrantes à jovem nação não é uma tarefa fácil, não só porque as promessas de paraíso feitas aos imigrantes não se concretizam e os imigrantes enfrentam vida dura no meio de florestas, mas também, conforme o historiador da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Marcos Justo Tramontini, no artigo "A escravidão na colônia alemã (São Leopoldo - primeira metade do século XIX)", porque os brasileiros donos do poder local não permitem essa integração, receosos da grande capacidade de articulação social e da boa instrução que esses imigrantes mostram ter nas colônias. Representam, portanto, uma ameaça ao status quo político da época.

Por causa dessa desconfiança teria havido todo um movimento de não aceitação dos imigrantes em geral e dos de fala alemã, em particular, porque estes, além disso, falam uma língua absolutamente incompreensível. Podem-se levantar aqui três episódios ilustrativos dessa presença de língua alemã "incômoda", que merecem destaque: a ação ou inação dos imigrantes alemães e eventualmente de seus descendentes na Farroupilha (1835-1845) e a consequente criação da República Rio-Grandense (1836-1845) e, depois, o comparecimento dos mercenários de língua alemã, os chamados Brummer, na Guerra contra Oribe e Rosas, em 1851, como, por exemplo, Karl von Koseritz, o barão von Kahlden, Wilhelm Ter Brüggen, Friedrich Hänsel, Herrmann Rudolf Wendroth, Franz Lothar de la Rue, Carl Otto Brinckmann, Carlos Jansen, Friedrich Adolf Lange, entre outros. Muitos desses mercenários acabam por ficar no país e são assimilados pelas colônias, vindo posteriormente também a tomar parte na Guerra do Paraguai entre 1864-1870 e mesmo a ocupar cargos políticos no Império.

Quarenta e quatro anos depois, durante a 1ª Guerra, os alemães e seus descendentes no Brasil voltam a ser alvo de rejeição. Se o Brasil de 1914, na época governado pelo presidente Venceslau Brás, no princípio, não participa da Primeira Grande Guerra, tendo declarado oficialmente em 4 de agosto desse mesmo ano sua neutralidade, nem por isso sai do conflito ileso: um navio brasileiro, o "Rio Branco", é afundado por um submarino alemão em 3 de maio de 1916, fato que gera comoção nacional. As relações entre o Brasil e o Reich ficam estremecidas. No dia 5 de abril de 1917, outro barco brasileiro, o "Paraná", um dos maiores da marinha mercante, é também torpedeado por um submarino alemão em águas francesas e três brasileiros morrem. Em setembro desse mesmo ano, também o encouraçado "Macau" é atacado. Indignados, os brasileiros levantam-se em manifestações, pedindo do governo uma resposta à altura. O ministro das relações exteriores, Lauro Müller, de origem alemã e favorável à neutralidade brasileira, é obrigado a renunciar. Em Porto Alegre, ocorrem manifestações mais belicosas, que atacam e depredam estabelecimentos comerciais pertencentes a alemães ou seus descendentes, como, por exemplo, o Hotel Schmidt, a Sociedade Germânia, o clube Turnerbund e o jornal Deutsche Zeitung . Pressionado, o governo brasileiro declara guerra ao Reich em outubro de 1917 e usa esta circunstância para reprimir com violência os opositores, declarando estado de sítio. Mesmo assim, em 1 de novembro de 1917, é a vez de Petrópolis, onde o restaurante Brahma é totalmente destruído e a "Gesellschaft Germania", a Escola Alemã, a empresa Arp e a sede do Diário Alemão são depredados.

Vinte e um anos depois, em 1938, o chamado "perigo alemão", ou seja, a presença da ideologia nazista nas colônias de idioma alemão, assusta o governo de Getúlio Vargas e, por consequência, as escolas alemãs são fechadas e depois, em 1939, o uso do idioma é proibido e os alemães e seus descendentes no Brasil voltam a ser rejeitados por toda a nação brasileira.

Tais situações históricas foram captadas por muitos, entre eles por um dos incentivadores da literatura produzida nas colônias de língua alemã, Ernesto Niemeyer, que mais adiante haveremos de comentar. Às palavras tristes deste crítico, refere-se Juanita Schmalenberg Bezner (1964) no ensaio "Ernesto Niemeyer. Ein Blatt zu seinem Gedächtnis" [Ernesto Niemeyer. Uma página em sua memória]. Diz a escritora: "Ninguém apreciava mais que ele o intercâmbio cultural entre o Brasil e Alemanha, mas nos anos pós-guerra, prenhes de ódio, quem se incomodava com obras do espírito e da paz?"2. Tais situações históricas são tão fortes que ainda repercutem em 1988. Neste ano, o hoje respeitado escritor austríaco Robert Menasse lança em Viena o romance Sinnliche Gewißheit [A certeza sensível]. Entre os vários pontos importantes da temática tratada, ressalta a imagem negativa que o autor tece dos imigrantes de língua alemã em São Paulo. Como se sabe, os textos literários são eficazes formadores de opinião de longo prazo e a aquisição do conhecimento repousa sobre um princípio conhecido como "generalização". O que se escreve no livro de Menasse e, eventualmente em outros, sobre os imigrantes de língua alemã em São Paulo acaba por projetar-se sobre todos os imigrantes de língua alemã e seus descendentes no Brasil.

Não está aqui em causa nenhuma defesa camuflada de censura. A literatura deve manter-se terreno livre, que sempre foi. Ao contrário, o que aqui se defende é o exame competente, livre de todos e quaisquer preconceitos, das produções desses imigrantes e de seus descendentes no Brasil, pois elas são uma parte da cultura brasileira que merece ser iluminada. Por isso, insisto na divulgação e no estudo dessa literatura e ajo animada pelas palavras de Boris Fausto, em sua introdução ao livro Fazer a América, onde declara (1999: 11) que o interesse tardio do Brasil pelas questões da imigração só agora começa a despertar, porque em primeiro plano apareceram o problema do negro e das migrações internas para investigar. Também me animam, no plano dos estudos literários, os horizontes abertos pelos estudos culturais, que admitem como dignos de estudo não apenas os textos reconhecidamente canônicos, mas também todos os não canônicos, ou seja, todos os textos que se encaixam na escala, que vai "do grau zero da escritura" (Roland Barthes), quero dizer, da escrita monovalente, segundo as estritas normas da gramática, à escrita polivalente, que subverte em diversos graus as regras gramaticais, criando multiplicidade de significados (Ezra Pound). E também me dão estímulo as posições de Wander de Melo Miranda, sobretudo, em Nações literárias (2010): em culturas heterogêneas, como a brasileira, é preciso forçar a abertura do cânone rígido e unívoco.

Como plataforma para o desenvolvimento de outras pesquisas de reavaliação da produção literária em pauta foi montado em 2006 o projeto interuniversitário "Literatura brasileira de expressão alemã", que se encontra em progresso em <http://martiusstaden.org.br/conteudo/detalhe/69/rellibra> (acesso em 11 abr. 2016).3

2 Os críticos alemães

Se nos voltarmos para os principais estudos críticos, publicados sobre a literatura escrita por imigrantes de língua alemã e seus descendentes no Brasil, encontramos os seguintes nomes, pela ordem cronológica da publicação de seus textos: Oscar Canstatt, Ernesto Niemeyer, Gottfried Fittbogen, Wilhelm Schneider, Manfred Kuder, Emílio Willems, Werner Aulich, Erich Fausel, Walter Koch, Marion Fleischer, Carlos Fouquet, Celeste Ribeiro de Sousa, Valburga Huber, Ingrid Assmann (de Freitas), Imgart Grützmann (Bonow) e Gerson Roberto Neumann. Podemos distinguir dois grupos principais: um de alemães europeus que viajam em determinado período ao Brasil e depois retornam à Alemanha ou a outros países, isto é, não fixam residência nem morrem no Brasil, e outro formado por descendentes de alemães, nascidos no Brasil, e por uma estudiosa, que, embora de outra nacionalidade, se interessa pelo assunto. No primeiro grupo, enquadram-se: Oscar Canstatt, Gottfried Fittbogen, Wilhelm Schneider, Manfred Kuder, Emílio Willems, Werner Aulich e Erich Fausel. No segundo grupo, encaixam-se Ernesto Niemeyer, Walter Koch, Marion Fleischer, Carlos Fouquet, Celeste Ribeiro de Sousa, Valburga Huber, Ingrid Assmann (de Freitas), Imgart Grützmann (Bonow) e Gerson R. Neumann.

Em 1902, o alemão Oscar Canstatt (1842-1912) faz publicar na Alemanha o primeiro texto crítico que se conhece sobre o assunto: Kritisches Repertorium der Deutsch-Brasilianischen Literatur, traduzido para o português do Brasil em 1967 como Repertório crítico da literatura teuto-brasileira. Canstatt emigra para o Brasil em 1868, volta à Europa em 1871, retorna ao Brasil em 1874 e morre na Alemanha em 1912. Suas experiências dão origem a vários artigos relativos ao Brasil e aos imigrantes de língua alemã aqui estabelecidos, todos publicados na Alemanha. O livro Kritisches Repertorium der Deutsch-Brasilianischen Literatur é, sobretudo, um "dar a conhecer", uma compilação minuciosa de todas as obras publicadas em língua alemã sobre o Brasil desde a Descoberta até a data da publicação, 1902: as primeiras narrativas, os textos de propaganda edulcorada das terras brasileiras e das colônias, os textos históricos sobre a vida nas colônias e sobre os maus tratos sofridos pelos colonos, os textos que desmentem esses maus tratos, as obras produzidas por viajantes, os textos sobre as guerras brasileiras (a Guerra do Prata, a Guerra do Uruguai e a Guerra do Paraguai). O livro também se manifesta sobre os textos que comentam as missões evangelizadoras no país. Dá também notícia do aparecimento dos primeiros jornais como o Deutsche Zeitung ("Jornal alemão"), editado por Karl von Koseritz; dos primeiros Kalender ("Anuários") nas colônias, tendo sido o primeiro da série, segundo Canstatt, o Santa Catarinaer Volkskalender ("Anuário popular de Santa Catarina"), de 1864, ainda no reinado do imperador D. Pedro II. Conforme o estudioso, tanto os jornais quanto os Kalender são os veículos par excellence da beletrística teuto-brasileira.

Em 1929, Gottfried Fittbogen (1878-1941), teólogo e germanista alemão, no ensaio Die Dichtung der Auslanddeutschen [A literatura dos alemães no estrangeiro], assim se refere às produções literárias dos imigrantes de língua alemã no Brasil e, eventualmente, de seus descendentes:

Para o total conhecimento da "existência" de nossos compatriotas no estrangeiro é também necessário levar em consideração a literatura que eles produziram como a mais pura expressão de sua vida intelectual. Porém, não nos podemos ancorar apenas e em primeira linha na dimensão estética; ao contrário, precisamos usar grandezas biológicas: para nós, essa literatura é uma manifestação do "ser aqui e agora" lá existente.

Tomada em absoluto, a literatura dos vários grupos de alemães no estrangeiro não ocupa nenhuma outra posição diferente da literatura produzida por grupos semelhantes de alemães na pátria. Trata-se de uma literatura que denominamos de raiz ou literatura regional. Ela pertence aos estratos da grande literatura alemã e tem, na história geral da literatura alemã, o seu lugar, ou se torna exceção, quando a produção de um de seus escritores se eleva acima desses estratos. Em consequência da posição periférica desses grupos, adquire, todavia, um significado elevado: é a expressão da nacionalidade localista (de origem) e está a serviço da autopreservação. (Fittbogen 1929: 826).4

Em 1933, quatro anos depois, o mesmo Fittbogen volta ao assunto no artigo "Deutsche Dichtung in Brasilien" [Literatura alemã no Brasil]. Nesse texto, relaciona a literatura dos imigrantes de língua alemã, produzida e enraizada em solo brasileiro, com as questões práticas da vida cotidiana nas colônias. Distingue essa literatura daquela produzida por imigrantes que retornam à Europa, que não estabelecem raízes no Brasil, autores como Dranmor, pseudônimo de Ferdinand Schmidt, ou Wilhelm Schweitzer, Alfred Funke, Therese Stutzer, Marie Kahle ou ainda os viajantes Friedrich Gerstäcker e Hans Friedrich Blunck. Autores teuto-brasileiros seriam apenas aqueles que permanecem no Brasil ou, de modo mais exato, aqueles que já nascem aqui, os quais, no entanto, são ainda pouquíssimos. Dito de outro modo: no grupo de autores teuto-brasileiros, Fittbogen distingue os aclimatizados e os natos, e essa categorização não é apenas formal. Os primeiros passam a infância e a juventude na Alemanha, ali fazem sua formação. A vivência brasileira já os pega adultos, não lhes alcançando as raízes. Na tentativa de projetar clareza sobre o fenômeno investigado, o crítico procede ainda a outro desmembramento: como os assentamentos das colônias no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina se deram em circunstâncias diferentes, é necessário separar também os escritores dos dois Estados, não levando em consideração os escritores dos demais Estados por serem em número irrelevante. Santa Catarina, ao contrário do Rio Grande do Sul, teria sido um Estado bem menos povoado, a colonização teria começado ali mais tarde, a partir de 1850, embora o estabelecimento de escolas e o acesso à educação formal tenha sido mais intenso em Santa Catarina do que no Rio Grande do Sul. Considera Fittbogen que só é possível escrever literatura no seio de uma grande comunidade. Portanto, o levantamento de obras e autores deverá começar pelo Rio Grande do Sul. Contudo, o levantamento levado a efeito pelo estudioso incorre em várias exclusões: são considerados autores apenas aqueles que tenham obras publicadas por editoras; também são excluídos aqueles que publicaram só em jornais, revistas ou Kalender, como é o caso de José Deeke. Do mesmo modo, ficam excluídas as traduções do português para o alemão. Posto isto, são enumerados e têm a temática de suas obras comentada primeiro os autores rio-grandenses: Cyklop, pseudônimo de Alfred Wiedemann, Wilhelm Süffert, Wilhelm Rotermund, Arno Philipp, Karl Heinrich Oberacker, Otto Meyer, Ambros Schupp e Carl Friedrich Niederhut. Depois, os catarinenses: Georg Knoll, Wolfgang Ammon e Ernesto Niemeyer. Avalia, então, Fittbogen que a literatura de língua alemã produzida tanto no Rio Grande do Sul quanto em Santa Catarina não é uma literatura determinada por padrões artísticos ou estéticos; é um conjunto de textos que simplesmente retratam, por observação, os movimentos da vida nas colônias, sem que ao camponês seja dada voz. São aqueles que testemunham sua labuta, comerciantes, jornalistas, professores, pastores - a intelligentsia das colônias - que o representam de perspectivas diferenciadas.

Em 1936, Wilhelm Schneider (1885-1979), um germanista da Universidade de Bonn, faz publicar em Berlim o livro Die auslanddeutsche Dichtung unserer Zeit [A literatura alemã no estrangeiro de nossa época]. Há no capítulo I algumas observações que, à partida, merecem registro. Assim começa a obra:

Este livro deve a sua gênese a uma mudança da opinião pública sobre a germanidade no estrangeiro, uma opinião que foi trabalhada nos tempos da Grande Guerra, que foi angariando sempre mais e mais força e clareza nos tempos do pós-guerra e que, na Alemanha nacional-socialista, quase produziu um movimento popular. [...] A concepção oficial de germanidade no estrangeiro começou a solapar uma consciência popular supranacional. Depois da derrocada, seguiu-se um processo de autoconhecimento do povo alemão e, para a aferição do grau de pertença de um povo, foram reconhecidas como medidas corretas ter o mesmo sangue, a mesma língua, a mesma religião, os mesmos costumes, as mesmas tradições e a mesma arte. [...] O sentimento nacional fortaleceu-se, porque fora maltratado pelos tratados de paz, e para a nova consciência popular, que não se detinha diante de fronteiras políticas, os alemães no estrangeiro tornaram-se irmãos necessitados de ajuda, que poderíamos orientar com prazer e abnegação, irmãos de grande valor para a pátria mãe, que conhecíamos e reconhecíamos. (Schneider 1936: 5-6).4

Em suas observações relativas à literatura de língua alemã produzida no Brasil, Schneider coloca a pergunta: se a literatura alemã não nega lugar a escritores suíços ou austríacos, por que o negaria aos alemães que vivem em outros países e escrevem com verdadeira força criativa? E mais ainda: por que a avaliação estética deveria ser a única capaz de aferir o valor de uma obra?

Para dar resposta a estas perguntas, Schneider retoma Fittbogen e Joseph Nadler (1884-1963), este último um germanista também nacional-socialista, o primeiro a incluir na história da literatura alemã as produções literárias populares. Mas, apesar de Schneider reconhecer a importância da literatura criada por alemães no estrangeiro, não consegue oferecer-lhe um lugar idêntico àquele que os alemães do Reich nela ocupam. Entre as razões que justificariam essa diferenciação estariam, segundo Schneider, o baixo valor poético dos textos, a difícil penetração em território alemão desses escritos, publicados por editoras não alemãs, e a não aceitação desses textos por parte dos editores, uma recusa baseada não em critérios valorativos, mas em uma atitude negativa automatizada, popular e oficial, em relação aos emigrados. Na parte do livro dedicada com exclusividade à literatura alemã na América do Sul, o Brasil é particularizado por ter, "comparativamente, a escrita mais rica," ("das verhältnismäßig reichste Schriftum") (Schneider 1936: 304). Neste âmbito, são enumerados vários poetas e prosadores com dados biográficos e características temáticas das respectivas obras. Entre eles: Georg Knoll, Ernesto Niemeyer, Otto Meyer, Wolfgang Ammon, Arno Philipp, Alfred Wiedemann e Franz Donat.

Em 1937, outro professor da Universidade de Bonn, Manfred Kuder (1911-2008) publica o livro Die deutschbrasilianische Literatur und die Bodenständigesgefühl der deutschen Volksgruppe in Brasilien ("A literatura alemã-brasileira e o sentimento de pertença do grupo alemão no Brasil"). Nesta publicação, o crítico começa por mencionar as fontes de onde bebeu informações. Entre elas, Niemeyer (brasileiro, tratado no próximo capítulo), Fittbogen e Schneider. Divide o seu livro em duas partes principais. A primeira parte é subdividida em onze capítulos, a saber: "Os Kalender teuto-brasileiros", "A história das tendências ideológicas, religiosas e pedagógicas", "As narrativas de colônia", "As narrativas de imigração", "As narrativas de memórias", "As narrativas históricas", "As crônicas", "As biografias e as narrativas de viagens", "As narrativas de aventuras", "Ensaio sobre a configuração poética", "A lírica", "O teatro" e "Panorama histórico". Há um capítulo intermediário, dedicado ao enquadramento social dos autores. A segunda parte é subdividida nos seguintes sete capítulos: "Natureza e indivíduos na nova pátria", "O luso-brasileiro", "O filho do imigrante", "A mulher alemã", "O teuto-brasileiro", "O imigrante", "A posição frente à velha pátria". A conclusão é intitulada "O localismo do grupo alemão no Brasil no espelho da literatura". Os títulos dos capítulos, per se, já ilustram a diversidade das produções e a análise detalhada que Kuder desenvolve. Ao lado dos jornais, os vários Kalender teuto-brasileiros (católicos, luteranos, liberais, conservadores), que são discriminados e analisados por Kuder, constituem importante veículo de comunicação nas colônias. Neles é publicada grande parte da produção literária da colônia. No desenrolar do texto, vários nomes são citados juntamente com suas obras e os resumos correspondentes, com comentários sobre não apenas o conteúdo mas também sobre a forma poética. Trata-se de nomes como Guilherme Ahrons, Aldinger, Ammon, P. Amstad, Arno Philipp, Wilhelm Brepohl, Dahlmann, José Deeke, Doss, Dranmor (Ferdinand von Schmid), Otto Fenselau, Helga Gronau, Gertrud Groß-Hering, Hirt, Maria Kahle, Georg Knoll, Karl von Koseritz, Ludwig Kruse, Luiz Meisinger, Otto Meyer, Wilhelm Rotermund, Schlabitz, Ambros Schupp, Wilhelm Schweitzer, A. W. Sellin, Therese Stutzer, Wilhelm Süffert, Alfred Wiedemann, Gisela Wolf, Wilhelm Wustrow. No teatro, os nomes citados são: Werner Burckas, Hellmut Culmann, Marie Faulhaber, Carl Niederhut, F. W. Richter, Klara Sauer-Geilenberg, Rudolf Schäfer, Carlos Schüler, Ambros Schupp, Margret Sprute-Wäldin, Albert Wieck. Quando avalia a realização poética dos textos, Kuder pondera que o interesse dos escritores pelos conteúdos sempre ultrapassa o cuidado com a forma, de modo que esta sempre fica deficiente, irrealizada. O escritor que mais mostraria preocupação com o quesito formal, seria, segundo ele, Niemeyer, mas Niemeyer, na qualidade de filho de dirigente de colônia, não consegue ultrapassar a perspectiva local. No trabalho de avaliação, Kuder opera, assim sem concessões, com as balizas usadas por Goethe para definir "Weltliteratur" (literatura universal): forma elaborada e conteúdo de alcance global.

Em 1946, Emílio Willems (1905-1997), sociólogo alemão, professor da FFLCH da USP, publica em São Paulo o livro Assimilação e populações marginais no Brasil. Afirma peremptoriamente, num diminuto capítulo acerca da literatura produzida nas colônias teutas, o seguinte:

O romance, a novela, a poesia e o teatro, criados por imigrantes alemães e seus descendentes próximos, encontraram a reprovação estética quase unânime dos poucos críticos alemães que tomaram conhecimento desse ramo americano de literatura germânica. É uma literatura, sobretudo, de almanaque e jornal, escrita por diletantes e destinada ao "consumo" de leitores, cuja maioria, apenas alfabetizada, não é capaz de elevar-se acima do nível mais rudimentar. (Willems 1946: 545).

Reporta-se o crítico a Manfred Kuder e a Ernesto Niemeyer. Assinala escritores já anteriormente citados. Ressalta a dificuldade de publicação e a instabilidade da imprensa bem como a baixa periodicidade dos jornais e Kalender. Não há, porém, em suas palavras vislumbres de real crítica literária. Simplesmente corrobora e radicaliza opiniões de seus antecessores e, ao acrescentar que se trata de uma literatura de almanaque e jornal, recordando talvez as Kalendergeschichten dos séculos XVII e XVIII, estabelece um preconceito, esquecendo-se de que Johann Peter Hebel (1760-1826) escreveu narrativas de almanaque hoje canônicas.

Em 1956, Werner Aulich (1906-1972), filósofo alemão, com estadia no Brasil em 1939, publica o texto "Vom Pathos der Auswanderer" [Do pathos do emigrante]. Werner Aulich consegue isolar, a partir de um determinado corpus, o Leimotiv dessa literatura: a imigração, configurada nos mais diversos matizes, uma temática compartilhada pelo público leitor, isto é, pela comunidade de língua alemã, já que a experiência da imigração está impregnada tanto nos imigrantes quanto em seus descendentes, fato que, aliás, segundo ele, impede esses textos literários de atingir os leitores alemães. Refere-se ele ao fato de que tais escritores nunca fizeram escola, nem tampouco os editores conseguiram auferir lucro com suas publicações. Trata-se, por isso, segundo ele, de uma literatura já em parte morta ou a caminho do esquecimento, embora sempre apareçam novas narrativas e Lieder. Prevê o autor que, com o tempo, essa temática deixe de fazer sentido e caminhe para o olvido junto com a correspondente literatura. Aulich concorda com as conclusões de Schneider e Kuder, ao afirmar que o melhor escritor teuto-brasileiro não atinge senão a média dos autores europeus. Afirma Aulich que, para avaliar com justeza a literatura teuto-brasileira, seria preciso entrar na pele de um teuto-brasileiro.

Em 1957, o escritor e crítico Erich Fausel (1904-1963), professor da Universidade de Tübingen, emigrado para o Brasil e, em 1937, professor do Ginásio Sinodal em São Leopoldo, num artigo intitulado Deutsche Stimmen in der Rio-Grandenser Literatur [Vozes alemãs na literatura rio-grandense], chama a atenção para o fato de os imigrantes, em sua grande maioria, não possuírem grande bagagem literária, apenas o conhecimento da Bíblia e do Livro dos Cânticos. No Brasil, ao chegarem, também não encontram condições que estimulem a sua criação poética. Da mesma forma, à época da chegada dos primeiros grupos de imigrantes de língua alemã, a literatura brasileira, segundo ele, inexiste. E, logo, declara: "Nem anteriormente nem hoje podemos avaliar os resultados dessa produção textual com critérios rigorosamente estéticos ou literários; nunca ultrapassaram a modesta mediania da literatura de entretenimento caseiro".5 Para concluir, responde à seguinte pergunta: por que nunca surgiu um grande escritor nesse grupo étnico. Explica ele:

A imigração e a colonização como um todo ocorreu de maneira caótica, individualista, e a massa dos imigrados não tinha grandes pretensões culturais. A falta de escolas próprias mais graduadas entravou um desenvolvimento intelectual mais elevado, a luta dura pela sobrevivência sugou sem trégua todas as energias, a convivência ao estilo burguês rural e colonizador não permitiram o afloramento de um grande rebento próprio. (Fausel 1957: 88).6

Esquece-se o crítico de problematizar, por exemplo, os casos de Raul Bopp (1898-1984) e de Augusto Meyer (1902-1970), nesse tempo, já escritores canônicos da literatura brasileira.

A propósito de Fausel e de suas palestras no Brasil, manifesta-se em 1959 a escritora Hilda Siri, que trabalhou longos anos na redação do Serra-Post Kalender, num muito interessante ensaio intitulado "Bodenständiges Schrifttum. Betrachtungen einer Dichterin" [Letras localistas. Considerações de uma poetisa]. Diz ela:

Quem hoje quiser ver o seu trabalho literário impresso - e qual escritor não gostaria de vê-lo? - precisa escrever exatamente o que os senhores editores ou as instituições fomentadoras da cultura germânica (Deutschtum) desejam do escritor. O mais fácil de publicar ainda são os "poemas e histórias localistas", que se referem à imigração e ao destino dos imigrantes. A palavra localista me persegue durante os sonhos e também, mesmo em jejum, me causa ânsias. A meu ver, essa é uma palavra destinada a enrijecer e sufocar a verdadeira inspiração poética. Mas o que a maioria das pessoas entende por localista? Elas entendem um passado de aproximadamente trinta anos atrás, um período, em que aqui a cultura germânica (Deutschtum) se encontrava em pleno esplendor. E, às vezes, elas entendem por localista uma ilusão, que nem corresponde a esse passado, nem possui atualidade. Para muitos, localista equivale ao nome coletivo, que dá conta da luta dos primeiros imigrantes contra as adversidades da floresta virgem, do fatalismo das mulheres imigrantes, da ambição dos jovens por trabalhos intelectuais, das aventuras de mascates... numa palavra: faroeste como epopeia. Parece um milagre que, ainda assim, bons poemas e contos, até mesmo romances, tenham sido produzidos.

[...]

Nas gavetas de meus colegas de trabalho encontram-se diversas pastas com as seguintes inscrições: histórias de jornal e artigos, poemas em comemoração ao dia 25 de julho, dia das Mães, Natal e Páscoa, histórias e poemas de anuário, traduções, etc. Bem mais embaixo, há uma pasta arrumadinha sem nenhuma inscrição. Aí, nessa pasta, estão guardados os poemas, os contos e as histórias, que não possuem qualquer perspectiva de publicação. Frequentemente, são trabalhos menores e maiores, valiosos, para os quais não se encontra editor e para os quais nem se dispõe de dinheiro suficiente para imprimi-los em editora privada.

Alguém no Brasil, que procure pela autêntica literatura brasileira em língua alemã, não a encontrará nos jornais e anuários, mas certamente nessas pastas sem inscrições. (Siri 1959: 1). 7

Tais palavras fazem supor a existência de uma autocensura induzida muito provavelmente pelas circunstâncias históricas abordadas no começo deste texto, o que torna ainda mais premente fazer um levantamento exaustivo das produções literárias em pauta, comparando as épocas em que foram publicadas.

Em 1963, Manfred Kuder retoma o tema em um artigo, intitulado "Die deutsch-brasilianische Literatur" [A literatura alemã-brasileira]. Comenta os trabalhos de seus predecessores Erich Fausel e Werner Aulich e também um prefácio do brasileiro Carlos Fouquet, que apreciaremos em seguida, e parte da constatação de que o conteúdo do seu livro sobre literatura alemã-brasileira, de 1937, atrás referido, ainda é válido. Ressalta que os autores não são camponeses, mas pastores, médicos, professores, jornalistas, agrimensores, comerciantes, pessoas donas de maior cultura, que têm oportunidade de conviver com os colonos, observar-lhes a vida, ouvir suas histórias e registrar, então, suas impressões em forma literária ou em outros tipos de discurso. Kuder retoma o fio cronológico das ondas de imigração e seus contextos e estabelece duas grandes fases em que insere diversos autores, cujos nomes e obras declina com os respectivos comentários. Depois de cem anos, segundo observa, essa literatura já atingiu seu ápice e começa a definhar, não querendo isto dizer que melhores obras não venham ainda a aparecer. As razões para esse declínio estariam ligadas à contração do círculo de leitores, constituído por emigrantes de língua alemã e seus descendentes, ainda cultivadores da língua arcaizada e sujeitada a hibridização. As obras de autores imigrantes - impressas na Alemanha - constituiriam casos isolados e não representariam a literatura alemã-brasileira. Além do mais, apenas uma ínfima parcela das publicações teria atingido algum valor estético. Essa literatura teria tão somente um significado sociológico para as pessoas que compartilham a experiência da imigração, marcada por profunda cisão na trajetória existencial e/ou profissional, pela separação do entorno natal e de suas leis, pelo novo começo em outra terra de civilização mais pobre, pelo eventual sentimento da impossibilidade de retorno, pela necessidade de adaptação ao primevo, pelo orgulho do sucesso, quando obtido.

3 Os críticos brasileiros

Em 1917, Ernesto Niemeyer (1863-1950) ), nascido em Joinville, Santa Catarina, filho de um cônsul alemão e diretor da colônia Dona Francisca, exorta os membros das colônias a escreveram narrativas e poesia num artigo de cinco páginas, intitulado "Teutonen-Literatur"8. Começa por levantar a pergunta: "Gibt es schon eine teutobrasilianische Literatur?" [Já existe uma literatura teuto-brasileira?] e afirma que, para alguns, já há, sim, uma literatura teuto-brasileira. Ele mesmo afirma que, tendo a comunidade teuto-brasileira sua própria vida na nova pátria, tem de ostentar também sua própria literatura: uma literatura que seja a expressão genuína da vida dessa comunidade, portanto, uma literatura que dê forma à experiência de ser-se a um só tempo alemão e brasileiro, uma literatura que cultive, de preferência, "Lieder", a forma mais adequada à tradução da essência da beleza. E, para isso, não basta apenas saber alemão, é preciso ser culto, saber trabalhar a língua de maneira genial, pois apenas dessa forma se estimula e desenvolve a sensibilidade nos leitores da comunidade.

Em 1963, sai publicado nas Atas do I Colóquio de Estudos Teuto-brasileiros em Porto Alegre, um texto de Walter Koch (1925 - 2008), professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intitulado "O Brasil, sua terra e sua gente nos contos do Koseritz´ Deutscher Volkskalender für die Provinz Rio Grande do Sul 1874-1890". Sem se comprometer com o valor poético das narrativas, Koch faz, no entanto, observações textuais importantes, porque até então inéditas e porque subordinadas a um recorte preciso. Chama a atenção para o objetivo do Koseritz´ Kalender, declarando ter atuado o Anuário, enquanto dirigido por Karl von Koseritz em seus primeiros dezesseis números, como banco de memórias da etnia para as futuras gerações. Informa também que cada Kalender contém, além de ensaios, um ou dois contos de enredo, cuja ação se passa nas "picadas" ou fazendas, contos esses prenhes de generalizações, descrições de cunho romântico, personagens tipificadas, informações sobre a terra e a gente brasileira, "esses loiros e robustos filhos da colônia alemã que crescem saudáveis no clima ameno do sul..." (Koch 1963: 203). Focam essas narrativas também os escravos, os lusos, os alemães, traçando-lhes perfis, cujo objetivo é abrir caminho para o entendimento mútuo entre os vários grupos étnicos presentes na nação brasileira.

Em 1967, Marion Fleischer (1938-2009), professora titular de Língua e Literatura Alemã da Universidade de São Paulo, com a publicação de A poesia alemã no Brasil, sua tese de Doutorado, torna-se a primeira estudiosa a abordar na Academia brasileira este fenômeno literário a partir do chamado close reading. Para isso, estabelece um recorte, cujos parâmetros assentam num determinado período, denominado de "atual" e no gênero lírico - ou seja, a crítica elege o Pós-Segunda-Guerra (período sobre o qual ainda nada se dissera) e a poesia. Apoia-se nas declarações de dois críticos anteriores, Werner Aulich e Manfred Kuder. De Werner Aulich, escolhe para sustentar seus argumentos, a afirmação de que

[...] sem dúvida é possível afirmar que mesmo o melhor poeta teuto-brasileiro não atinge, no que diz respeito à concepção estilística e à estruturação temática, senão a média de autores europeus. Mas da mesma forma pode afirmar-se que esses dois valores distintos devem ser medidos de duas maneiras, sendo necessário chegar a critérios diferentes para avaliar com justiça um fenômeno recente, único e isolado. (Apud Fleischer 1967: 7).

De Manfred Kuder, escolhe o diagnóstico de que a literatura teuto-brasileira não vai além do "emprego daquela forma que os poetas conheciam anteriormente à sua emigração da Alemanha, enquanto o conteúdo é condicionado, especificamente, pelas novas condições prevalecentes nas colônias alemãs". (Apud Fleischer 1967: 8).

Procura, portanto, a autora chegar aos "critérios diferentes para avaliar com justiça um fenômeno recente, único e isolado" (apud Fleischer 1967: 8), através da análise de poemas selecionados dos seguintes sete escritores: B. A. Aust, Carl Fried, Luise Bresslau-Hoff, Dora Hamann, Gustav Friedrich Körber, Juanita Schmalenberg e Ricardo Sanders, cujas poesias transcreve ao final do livro.

A partir da análise de alguns poemas, traça conclusões para toda a poesia teuto-brasileira, generalizando essas conclusões para toda a literatura escrita em língua no Brasil:

Destaca-se [a poesia teuto-brasileira], inicialmente como fenômeno extramente heterogêneo, a apresentar notável variedade, tanto no que respeita aos temas, como no que concerne à linguagem e aos aspectos formais. Nela inexistem movimentos claramente delineados; os escritores teuto-brasileiros distinguem-se, principalmente, por acentuado individualismo, a cercear a repercussão de suas produções, que raramente lograram despertar interesse além dos estreitos limites nos quais nasceram. Deve-se tal fato a duas razões; em primeiro lugar, não possui a literatura alemã, escrita no Brasil, centros intelectuais dos quais pudessem surgir personalidades que, plasmadas por uma mesma formação e animadas por um mesmo espírito orientador, viessem, conjuntamente, a dar o impulso para determinado movimento. Isoladamente destacam-se poetas de verdadeiro valor, cada um deles, porém, trilhando sozinho o seu caminho.

Um segundo fator, a determinar a fraca projeção da maioria das obras teuto-brasileiras, resulta das próprias características formais destas produções; todas elas são marcadas por pronunciada tendência conservadora, a motivar um apego inoportuno a formas estilísticas superadas, herdadas do país de origem dos autores. Assim, mesmo os mais destacados talentos falharam em encontrar um estilo próprio, típico, que desse à poesia alemã no Brasil, vista no seu conjunto, cunho característico. (Fleischer 1967: 133).

Em 1974, Carlos Fouquet (1897-1980) publica o livro Der Deutsche Einwanderer und seine Nachkommen in Brasilien - 1808 -1824 - 1974, traduzido para o português neste mesmo ano com o título O imigrante alemão e seus descendentes no Brasil 1808 - 1824 - 1974, em que faz um balanço do fenômeno da imigração de língua alemã no Brasil. No capítulo dedicado às produções literárias dos imigrantes de língua alemã e seus descendentes, Fouquet observa que um dos grandes obstáculos ao desenvolvimento da literatura teuto-brasileira é o fato de não ter havido uma interação mais produtiva entre escritor e leitor, pois o círculo de leituras era muito fechado, por causa da língua alemã, e, portanto, não oferecia espaço para críticas, que pudessem ajudar a desenhar outros caminhos, mesmo havendo editores preocupados em divulgar e estimular tal literatura, como Wilhelm Rotermund, em São Leopoldo, Arthur Koehler, em Santa Catarina, Arno Philipp, em Porto Alegre. Aponta o estudioso, sem maiores detalhes, os três "temas eternos", presentes em tal produção literária: "Deus", "a natureza" e o "amor", seguidos de outros também recorrentes: "despedida da pátria", "viagem ao desconhecido", "formação de uma nova identidade", "orgulho das próprias realizações", "saudades", "louvor ao Brasil", além das traduções de obras da literatura brasileira. Nota também que, entre as vozes poéticas, não há a de colonos nem de operários.

Em 1980, sai publicado o livro de Celeste Ribeiro de Sousa (1948 - ). Trata-se de uma dissertação de Mestrado orientada por Marion Fleischer na Universidade de São Paulo. Aborda-se aqui um corpus formado pela prosa literária veiculada especificamente no Serra-Post Kalender, de 1948 a 1973, portanto, os últimos 25 anos de sua existência, ou seja, o Pós-Guerra. Entre todos os Kalender, o Serra-Post é o mais longevo e regular. É uma época em que, no Brasil, especificamente na USP, a influência do formalismo russo e do estruturalismo francês é avassaladora. Apoiada em Gérard Genette na análise da ação narrativa e em Dionyz Durisin na criação de uma tipologia, a crítica dá forma ao corpus, que analisa comparativamente. São escolhidas 35 narrativas de 16 autores: Alfred Reitz, Ameli Reichardt, Charlotte Wollermann Fischer, Elly Herkenhoff, Emmy Jagow-Zieseniss, Gertrud Grimm, Hermann Heland, Hilda Siri, Juanita Schmalenberg Bezner, Johann Dahlke, Luiz Kuchenbecker, Margret Kuhlmann, Martin Fischer, Matthaeus Braun, Otto Grellert, e Ricardo Sanders. A tipologia dá origem ao título dos capítulos: "Desilusão do imigrante ante a terra prometida"; "Vida na nova pátria"; "Terra natal"; "Idealização dos antepassados"; "Amor"; "Terras brasileiras"; "Folclore brasileiro"; "Participação dos colonos na história do Brasil". Na conclusão, a heterogeneidade é uma marca que acompanha as narrativas examinadas. Há escritores donos de farta produção; há autores de um só texto. Há textos formalmente simplérrimos e outros mais elaborados. Uma citação de Kenneth Burke, retirada de A teoria da forma literária, que curiosamente já aparece esboçada em Manfred Kuder, encerra a questão:

Na medida em que os pormenores, numa obra, sejam oferecidos, não por sua conexão com a tarefa de moldar e atender às expectativas do leitor, mas porque tais pormenores são interessantes por si mesmos, o atrativo da forma se coloca atrás do atrativo da informação. A atrofia da forma segue-se à hipertrofia da informação. (Apud ribeiro de Sousa 1980: 97).

No corpus, predomina a hipertrofia da informação, mas algumas narrativas atingem níveis de construção consideráveis, como é o caso de Müllers Lena [a Lena do moleiro]9, de Matthaeus Braun, ou Die alte Truhe [O velho baú]10, de Hilda Siri.

Em 1981, Marion Fleischer, respondendo a um convite de Alexander Ritter à então cadeira de alemão da FFLCH da USP para colaborar com um artigo seu sobre a literatura dos imigrantes de língua alemã no Brasil, decidiu ela mesma elaborar uma antologia de textos produzidos por esses mesmos imigrantes e seus descendentes com a colaboração de Celeste Ribeiro de Sousa na parte relativa à prosa e ao glossário. A essa antologia deu o título de Elos e anelos. Da literatura em língua alemã no Brasil. Consta a antologia de uma introdução bilíngue, que logo no começo frisa o recorte da seleção de textos (poesia e prosa) a partir de 1945. São selecionadas produções dos seguintes autores: Alexander Lenard, Alfred Reitz, Benno Aust, Carl Fried, Carlos Fouquet, Carlos Hunsche, Charlotte Wollermann Fischer, Dora Hamann, Elly Herkenhoff, Erich Fausel, Erich Quast, Erwin Rheinhold Bock, Friedrich Kiefer, Gustav F. Körber, Hilda Siri, Joseph Kissner, Juanita Schmalenberg Bezner, Karin Sigrid, Luise Bresslau-Hoff, Margret Kuhlmann, Otto Grellert, Rudolf Hirschfeld e Ricardo Sanders. Salienta Fleischer as dificuldades de acesso a esses textos e enfatiza a sua peculiaridade, afirmando:

Percebe-se de imediato, que a produção literária teuto-brasileira se distingue acentuadamente das literaturas brasileira e alemã contemporâneas; comprometida com cânones estilísticos tradicionais, em detrimento de processos artísticos renovadores, essa literatura caracteriza-se por uma visão de mundo bastante estática, pouco propensa a reflexões sobre a realidade subjetiva e objetiva em que vive o homem moderno. Poder-se-ia ponderar que a modernidade de uma literatura não se mede necessariamente pela sua adesão a correntes de vanguarda, mas que, pelo contrário, as opções estilísticas do passado são passíveis de uma renovação permanente através da arte da palavra. O argumento é válido, sem dúvida - enquanto essa retomada se revelar suficientemente dinâmica para impulsionar a criatividade artística viva. No caso da literatura escrita em língua alemã no Brasil, porém, isso nem sempre se verifica, sendo muito frequentes os momentos em que a expressão poética se apresenta estagnada, quando não se exaure em pretensões estetizantes, decalcadas sobre moldes pseudo-românticos.

Considerações dessa natureza facilmente dão ensejo a generalizações apressadas; estas, entretanto, viriam a prejudicar a avaliação justa de diversas manifestações literárias, superiores em termos de maturidade e adequação artística, que se destacam da média das produções. (Fleischer 1981: 21-22).

Refere-se a estudiosa, muito bem, à tendência da crítica literária à época, regida quase estritamente pelo formalismo russo e pelo estruturalismo, em que o conceito "literaturidade" validava o que era e o que não era literatura. Volta a citar Werner Aulich, atrás mencionado, traz à baila a contribuição de Karl Fouquet no livro O imigrante alemão para contextualizar essa literatura, cita o ensaio de Egon Schaden "O teuto-brasileiro - um problema", que explica o isolamento das famílias e mesmo das comunidades de fala alemã, não só em relação à Alemanha mas também em relação ao Brasil, a partir de duas observações: os imigrantes de fala alemã foram assentados em regiões de florestas, há pouco desbravadas, enquanto os luso-brasileiros viviam no planalto ou no litoral, o que os obrigou a desenvolver valores próprios durante os mais de 130 anos (na cultura, no uso da língua, na técnica agrícola, nas instituições sociais). Também favoreceu esse isolamento o fato de terem as autoridades brasileiras, no intuito de apressar a aculturação, tomado medidas consideradas exageradamente severas, que levaram a sentimentos xenófobos, traduzindo atitudes defensivas. A aceitação plena de todos os cidadãos no Brasil, explica Fleischer, só ocorreu em 1946, quando se suprimiram em grande parte as diferenças entre brasileiros natos e naturalizados. Cita Martin Fischer no ensaio "O problema da conservação da cultura alemã" para explicar a hibridização dessa cultura isolada: "Assim, a isolação dos imigrantes alemães ensejou aquela cultura sui generis, de cujo húmus se originou a literatura teuto-brasileira" (Apud Fleischer 1981: 26). Menciona a crítica o papel dos Kalender na veiculação dessa literatura, não desprezando os jornais e as poucas brochuras.

Em 1993, vem a lume o livro de Valburga Huber (1948- ), Saudade e esperança. O dualismo do imigrante alemão refletido em sua literatura, produto de seu Mestrado, defendido em 1979 na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a orientação de Afrânio Coutinho. O corpus recorta dentro da literatura da imigração de língua alemã no Brasil, segundo a autora, os escritores e as obras mais representativas do Vale do Itajaí em Santa Catarina, dos primórdios à Segunda Grande Guerra. São, assim, estudados romances de Gertrud Gross-Hering e de Emma Deeke e contos de Therese Stutzer e José Deeke. Valburga Huber desenvolve um trabalho também a partir das teses de Fausel e Aulich, retoma Marion Fleischer, para, depois de opor esta literatura tanto à alemã quanto à brasileira, concluir igualmente que se trata de um fenômeno cultural isolado, anacrônico e epigonal, de uma literatura menor a representar um homem dividido entre passado e presente, entre Europa e América, entre a saudade e a esperança. Diz a estudiosa:

O distanciamento desta literatura da alemã é ditado, pois, pelo "pathos" da emigração - experiência existencial única e insubstituível, que dá conteúdo e forma a esta literatura. Ela só pode ser compreendida e avaliada adequadamente pelos que passam por esta experiência, que estão direta ou indiretamente ligados a ela e ainda pelos que possuem uma sensibilidade capaz de captar o universal no regional e sentir nos acontecimentos de determinada época e espaço, problemas filosóficos essenciais do ser humano.

A função principal da literatura escrita é a perpetuação da cultura do grupo. (Huber 1993: 155).

Tal conclusão equivale a uma sentença de morte, de vez que o grupo com o correr dos anos há de se abrir mais e mais para a cultura brasileira. Não restarão críticos capazes de recuperar essa literatura, como se ela por si só não fosse capaz de despertar no seu leitor, qualquer que ele seja, justamente as experiências da emigração, num movimento reverso. Não é para isso preciso um leitor de singular sensibilidade, capaz de captar o universal no regional, até porque grande parte das produções literárias produzidas pelos imigrantes de fala alemã e seus descendentes não possui estatura de universalidade. Resta-lhe o valor histórico.

Em 1995, surge publicado o livro de Ingrid Assmann (de Freitas), A máscara cai. Wolfgang Ammon no contexto da literatura teuto-brasileira, também um produto de seu Mestrado, defendido em 1989, na Universidade Estadual Paulista - Campus de Assis, com a orientação Mário Mascherpe. É este livro uma monografia a respeito da obra de Wolfgang Ammon, escolhido como expoente da literatura teuto-brasileira, a qual leva os estudos críticos desta matéria a um outro nível de aprofundamento. À apresentação de sua biobibliografia e à reapresentação das teses de Marion Fleischer extraídas de Kuder e Fausel, e mais uma vez à contextualização do autor no seio das colônias, segue-se a análise de textos selecionados, a saber: o romance Hansel Glückspilz [Joãozinho felizardo]11 e os contos da antologia Die ersten Jahren als Kolonist [Os primeiros anos como colono]. Da análise, sobressaem dois temas: considerações sobre a linguagem, que se afasta do alemão europeu e incorpora palavras do português, e a questão racial, incluindo as relações com o negro e o índio. Diz a autora, depois de resumir a obra,

que Hansel Glückspilz [é] uma narrativa de aventuras e que o motivo que sustenta todo o texto é a procura da felicidade e da boa sorte. [...] A narrativa está envolvida por uma paisagem real e suave. Aí, as peripécias vivenciadas pelo herói aproximam a terra natal dos filhos de imigrantes alemães, apresentam-lhes as belezas e características do sul brasileiro, não de maneira acadêmica, mas através de uma narrativa cativante. (Freitas 1995: 83).

Em Die ersten Jahren als Kolonist, Ammon contesta, conforme a autora, "a emigração irrefletida, leviana. Através da narrativa, tenta fazer com que as pessoas que querem emigrar reflitam intensamente, pesem os prós e contras [desse] ano decisivo para suas vidas e a vida futura de seus filhos." (Freitas 1995: 93).

A respeito do conto Familie Rottorf im Urwalde [A família Rottorf na floresta], por exemplo, após o resumo da narrativa, conclui a investigadora que

os polos se opõem ou se completam, pois todos os valores são muito relativos, e que o romantismo e as ilusões dão colorido e alegria à vida. [...] a liberdade tão desejada pode se concretizar desde que se acatem seus preceitos e que se saiba, antes de tudo, interpretá-la e respeitá-la. (Freitas 1995: 101).

Na conclusão geral, há muitos pontos retomados da conclusão de Huber, como por exemplo, há elementos poéticos nas narrativas produzidas; não se pode comparar esta literatura à alemã, embora ela possa fazer lembrar o Romantismo e o Realismo; os heróis são seres divididos entre o passado e o futuro, a saudade e a esperança. Num esquema final de oposições na obra de Ammon, há uma seta que aponta para o desmascaramento de ilusões e imagens preconcebidas - daí o título A máscara cai.

Embora não publicado, o Doutorado de Assmann de Freitas, A (Re) construção do retrato do Brasil: estudo das imagens na literatura dos imigrantes alemães, defendido em 1997, também na UNESP de Assis, retoma o mesmo assunto, mas agora numa abrangência bem maior, e dando prosseguimento a um outro olhar, apresentado como tese de Doutorado, em 1988, e publicado em 1996 como Retratos do Brasil: heteroimagens literárias alemãs, de Celeste Ribeiro de Sousa. O avanço é pequeno.

Em 1991, Imgard Grützmann (Bonow), desenvolve na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, com orientação de Maria Eunice Moreira, um Mestrado, não publicado, na trilha de Marion Fleischer sobre literatura teuto-brasileira com o título Onde o sabiá canta e a palmeira farfalha: a poesia em língua alemã nos anuários sul-rio-grandenses (1874-1941) , e, em 1999, realizou na mesma universidade com a mesma orientadora um Doutorado, também não publicado, a que deu o título A mágica flor azul: a canção em língua alemã e o germanismo no Rio Grande do Sul. Nessa investigação, a autora elege certas realizações literárias que dão formam ao conceito de "germanismo" e examina-lhes a construção.

Em 2000, Gerson Roberto Neumann (1972 - ) defende sua dissertação de Mestrado, ainda não publicada, sobre a obra de dois imigrantes de língua alemã: Wilhelm Rotermund e Balduino Rambo. Seu título A Muttersprache (língua materna) na obra de Wilhelm Rotermund und Balduino Rambo e a construcão de uma identidade cultural híbrida no Brasil já aponta para o assunto em discussão: a manutenção de uma identidade nacional e também cultural fora do seu meio, através da preservação da Muttersprache (língua materna).

Em 2009, surge no mercado outro livro de Valburga Huber, A ponte edênica. Da literatura dos imigrantes de língua alemã a Raul Bopp e Augusto Meyer, produto de seu Doutorado, defendido em 2000, na Universidade de São Paulo com a orientação de Celeste Ribeiro de Sousa. Como o título indica, Valburga Huber persegue o fio da literatura teuto-brasileira para mostrar como ele deságua na literatura brasileira canônica com Raul Bopp e Augusto Meyer, cujas obras são analisadas dessa perspectiva, isto é, mostrando como as imagens do Brasil tecidas por alemães no século XVI, herdadas e cultivadas pelos imigrantes e por seus primeiros descendentes no Brasil, são perceptíveis nos textos dos descendentes, que já escrevem em português, e contam como escritores brasileiros canônicos. Uma linha de pesquisa que dá o seu pontapé inicial e merece mais investigações, pois dentro desse grupo podem ser nomeados outros autores, alguns premiados, como Adolf Boos, Ana Rüsche, Charles Kiefer, Ivan Seibel, Lausimar Laus, Lya Luft, Rui Nedel, Sigrid Renaux, Urda Klüger.

A partir de 2006, quando o e-book Alfred Reitz: autor e obra é colocado on line em <http://www.martiusstaden.org.br/conteudo/detalhe/81/alfred-reitz-1886-1951>, começa a ser montado sobre o assunto em pauta um grande projeto interuniversitário de pesquisa coletiva, tendo como objetivo precípuo o levantamento exaustivo da produção literária dos imigrantes de língua alemã no Brasil e seus descendentes (bem como as produções de exilados e viajantes de língua alemã). Em outras palavras, dá-se início à formação de um banco de dados, sob a coordenação de Celeste Ribeiro de Sousa, com o título "Literatura brasileira de expressão alemã", disponível em <http://martiusstaden.org.br/conteudo/detalhe/69/rellibra> (acesso em: 11 abr. 2016). Já se encontram prontos e on line alguns e-books que compõem a coleção "Literatura brasileira de expressão alemã": Anna Brockes: vida e obra; Hilda Siri: vida e obra; Juanita Schmalenberg Bezner: vida e obra; Robert Weber: vida e obra; Charlotte Wollermann Fischer: vida e obra; Matthaeus Braun: vida e obra; Alfred Reitz: vida e obra; Gertrud Grimm: vida e obra; Elly Herkenhoff: vida e obra. O trabalho a respeito de vários outros autores está em processo, mas também pode ser acessado no mesmo endereço; trata-se de autores como Carlos Fouquet, Georg Knoll, (Karl) Luiz Kuchenbecker, Karl Naschold, Karl von Koseritz, Liti Belinha Rheinheimer, Margret Kuhlmann, Otto Fenselau, Otto Grellert, Wilhelm Rotermund, Wilhelm Wustrow, Wolfgang Ammon. No caso dos exilados estão em processo on line: José Antonio Benton, Julia Engell-Günther, Richard Katz, Ulrich Becher, Willy Keller. No caso dos viajantes, Friedrich Gerstäcker, Heinrich Eduard Jakob, Maria Kahle.

4 Arremate

De Oscar Canstatt (1902) aos dias de hoje, a apreciação crítica da literatura stricto sensu da imigração de língua alemã no Brasil não conseguiu ultrapassar as barreiras do cânone literário, tanto do alemão quanto do brasileiro, ora porque é considerada uma literatura localista (Fittbogen, Kuder), ora porque suas produções não passam do nível estético mediano (Fausel), ora porque é uma literatura incompatível com o cânone alemão, apesar de sua força criativa (Schneider), ora porque seus escritores não formaram uma escola e não conseguiram editoras para suas publicações (Aulich), ora porque é mesmo irrelevante (Willems). Todos os críticos que vieram depois tomaram embalo nessas afirmações, repetindo nomes, subtraindo alguns e acrescentando outros, porque o tempo foi avançando e a produção também. Contudo, o universo dessa produção literária, se a princípio estava claro, com o tempo, deixou de ser tangível e, nos dias de hoje, é absolutamente desconhecido.

O projeto "Literatura brasileira de expressão alemã", iniciado em 2006, convida a um trabalho conjunto, justamente para que a produção literária da imigração de língua alemã no Brasil in totum possa ser delineada e para que os limites avaliativos possam ser contornados e abertos a novos horizontes, os quais ofereçam espaço para essa literatura se mostrar em toda a sua extensão. Faço minhas as já famosas palavras de Tzvetan Todorov (1988: 11): "Quem ousaria hoje decidir entre o que é literatura e o que não é, diante da irredutível variedade de escritos que se lhe costuma incorporar, sob perspectivas infinitivamente diferentes? ".

Retomando o que foi dito no começo, animam-nos as palavras de Boris Fausto, de Wander de Melo Miranda e os horizontes abertos pelos estudos culturais. Se Ezra Pound declarou que "great literature is simply language charged with meaning to the utmost possible degree", e Roland Barthes criou o conceito "grau zero da escritura", a construção de uma escala valorativa entre as duas posições viabiliza posicionar poeticamente os textos da literatura produzidos, sobretudo, pela nação de imigrantes de língua alemã e seus descendentes em alguns lugares dessa escala. Também se reputa a premissa de que os movimentos da contra-cultura e dos estudos culturais abriram espaço para a apreciação dessa produção poética, a partir de outras concepções. Trata-se, nesse caso, de uma literatura produzida por imigrantes e seus descendentes (ou por exilados e viajantes), uma literatura de minorias, que pode ser considerada como um novo objeto (ramo, vertente) da Literatura Comparada. Assim, torna-se passível de ser examinada, para além da abordagem estritamente poética, à luz das teorias contemporâneas da cultura, explorando conceitos como "pós-colonialismo", "diáspora", "multi, trans e crossculturalism", "multidisciplinaridade", "hibridismo", "alteridade", "formações identitárias", "memorialismo", "imagologia".

Particularizando: que textos poéticos da literatura brasileira de expressão alemã mereceriam entrar no cânone brasileiro? Quantos e quais autores e obras da literatura brasileira foram traduzidos e publicados em alemão para as colônias? O que está envolvido nesse fenômeno? Como foram vistas as guerras e revoluções brasileiras pelos olhos dos alemães e seus descendentes no Brasil? Que companhias teatrais alemãs e que peças foram representadas no seio das colônias? Como isso se pode relacionar com o teatro brasileiro? Sabe-se que Willy Keller, por exemplo, foi muito atuante junto ao teatro do negro. Como se compunham as bibliotecas dos imigrantes e seus descendentes mencionadas nos textos literários? Que obras da literatura alemã eram veiculadas nas colônias e o que isso representava? Comparando os textos literários publicados e veiculados nas colônias, antes da 1ª Guerra Mundial, antes da 2ª Guerra Mundial e depois de 1945, o que se poderia observar? Quando se escreverá uma história da literatura brasileira de expressão alemã?

Tecer juízos de valor sobre esta literatura exige mais estudos críticos, que iluminem ângulos recônditos dessa produção. É preciso trabalhar no assunto de modo sistematizado.

Referências bibliográficas

Aulich, W. Vom Pathos der Auswanderer. In: Staden Jahrbuch São Paulo, 1966. [ Links ]

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1A trilogia O campanário do tempo encontra-se disponível em: <http://www.martiusstaden.org.br/conteudo/detalhe/86/liti-belinha-1941. Acesso em 11 abr. 2016.

2 Trad. de Celeste Ribeiro de Sousa. "Der Austausch von brasilianischen und deutschen Kulturgütern lag keinem mehr denn ihm am Herzen, aber wer fragte schon in den hassgeschwängerten Nachkriegsjahren nach den Werken des Geistes und des Friedens?" (BEZNER 1964: 89).

3 A autora do artigo fundou e coordena o grupo de pesquisa RELLIBRA (Relações linguísticas e literárias Brasil - Países de língua alemã).

4 Trad. Celeste Ribeiro de Sousa. "Zur vollen Kenntnis des Daseins unserer Volksgenossen im Ausland gehört auch die Beachtung der Dichtung, die sie hervorgebracht haben, als des reinsten Ausdrucks ihres geistigen Lebens. Doch dürfen wir an sie nicht allein und nicht in erster Linie den ästhetischen Maßstab anlegen, sondern wir müssen uns zunächst des biologischen bedienen: sie ist uns eine Kundgebung des dort vorhandenen Seins. Absolut genommen hat die Dichtung der verschiedenen auslanddeutschen Gruppen keine andere Stellung als die Dichtung entsprechender binnendeutscher Gruppen, die wir Stammes- oder Landschaftsdichtung nennen. Sie gehört zum Unterholz der großen deutschen Dichtung und hat in der Literaturgeschichte der gesamtdeutschen Dichtung seine Stelle oder doch nur ausnahmsweise, wenn einmal der Wuchs eines ihrer Dichter sich über das Unterholz erhebt. Infolge der peripherischen Lage dieser Gruppen kommt ihr jedoch eine erhöhte Bedeutung zu: als Äußerung des bodenstämmigen Volkstums (Stammestums) und im Dienst der Selbsterhaltung." (Fittbogen 1929: 826).

4 Trad. Celeste Ribeiro de Sousa. "Dieses Buch verdankt sein Entstehen einer Wandlung der öffentlichen Meinung über das Auslanddeutschtum, die durch den Weltkrieg vorbereitet wurde, in der Nachkriegszeit sich immer kraftvoller und deutlicher vollzog und im nationalsozialistischen Deutschland fast eine Volksbewegung hervorgebracht hat. [... ] Die staatliche Auffassung des Auslanddeutschtums begann, einem überstaatlichen Volksbewußtsein zu weichen. Auf den Zusammenbruch folgte eine Selbstbesinnung des deutschen Volkes, und man erkannte als die wahren Maßstäbe für die Beurteilung der Zusammengehörigkeit eines Volkes das gleiche Blut, die gleiche Sprache, Religion, Sitte, das gleiche Brauchtum und die gleiche Kunst. [... ] Das Nationalgefühl erstarkte, weil es durch die Friedensverträge mißhandelt worden war, und für das neue Volksbewußtsein, das an den politischen Grenzen nicht Halt machte, wurden die Auslanddeutschen hilfsbedürftige Brüder, die man freudig und pflichteifrig betreute und deren hohen Wert für das Mutterland man erkannte und anerkannte". (Schneider 1936: 5-6).

5 Trad. de Celeste Ribeiro de Sousa. "Weder früher noch heute dürfen wir die Erzeugnisse dieses Schrifttums mit streng literarischen oder ästhetischen Masstäben messen, über das bescheidene Mittelmass hausbackener Unterhaltungsliteratur sind sie nie hinausgekommen". (Fausel 1957: 83).

6 Trad. de Celeste Ribeiro de Sousa. "Die ganze Einwanderung und Kolonisierung verlief chaotisch, individualistisch, und die Masse der Eingewanderten brachte keine grossen Kulturansprüche mit. Der Mangel eigener höherer Schulen hemmte geistige Höherentwicklung, der harte Lebenskampf sog viele Kräfte restlos auf, der spiessbürgerliche und kolonistische Geselligkeitsstil liessen keinen starken Eigenwuchs aufkommen." (Fausel 1957: 88).

7 Trad. de Luana de Camargo. "Wer heute seine schriftstellerische Arbeit gedruckt sehen will (und welcher Schreibende möchte das nicht?), muss das schreiben, was die Herren Verleger oder die das Deutschtum pflegenden Institutionen gerade von ihm wünschen. Am leichtesten sind noch die "bodenständigen Gedichte und Geschichten", die sich auf die Einwanderung und die Einwanderer-Schicksale beziehen, unterzubringen. Das Wort bodenständig verfolgt mich in meine Träume und verursacht mir auch bei nüchternem Magen Albdruck. Es ist m. E. ein Wort, das geprägt wurde, um die wahre dichterische Eingebung zu verkrampfen und zu ersticken. Was aber versteht die Allgemeinheit unter Bodenständigkeit? Sie versteht darunter eine fast dreissig Jahre zurückliegende Vergangenheit, eine Zeit, in der das Deutschtum hier in höchster Blüte stand und manchmal sogar einen illusorischen Zustand, der weder dieser Vergangenheit entspricht noch irgendeine Gegenwärtlichkeit besitzt. Für viele ist Bodenständigkeit der Sammelbegriff für den Kampf der ersten Einwanderer gegen die Widerwärtigkeiten des Urwaldes, die Schicksalsergebenheit der Einwandererfrau, das Streben der Jugend nach intellektuellen Berufen, Musterreiterabenteuer, kurzum: Wildwest als Heldenepos. Dass trotzdem noch gute Gedichte und Erzählungen, ja selbst Romane entstanden sind, wirkt wie ein Wunder. [... ] In den Arbeitsfächern meiner Kolleginnen und Kollegen werden verschiedene Mappen liegen mit folgenden Aufschriften: Zeitungsgeschichten und Artikel, Gedichte zum 25. Juli, zum Muttertag, für Weihnachten und Ostern, Kalendergeschichten und -gedichte, Uebersetzungen [sic] usw. Ganz zu unterst liegt eine saubere Mappe ohne Aufschrift. Darin sind die Gedichte, Erzählungen und Romane verwahrt, für die keine Aussicht zur Veröffentlichung besteht. Es sind oftmals wertvolle kleinere und grössere Arbeiten, für die sich kein Verleger findet und für die im Eigenverlag drucken zu lassen das Geld nicht reicht. Sucht jemand in Brasilien wahre brasilianische Literatur in deutscher Sprache, so wird er sie nicht in den Zeitungen und Kalender finden, sondern eben in diesen unbeschrifteten Mappen". (Siri 1959: 1).

8 Texto integral e tradução disponíveis em: <http://www.martiusstaden.org.br/files/conteudos/0000001-0000500/82/f2366599ba38104bd7cb4340a0906f48.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2016.

9 Original e tradução disponíveis em <http://www.martiusstaden.org.br/conteudo/detalhe/98/matthaeus-braun-1872-1954>. Acesso em: 11 abr. 2016

10 Original e tradução disponíveis em <http://www.martiusstaden.org.br/conteudo/detalhe/102/hilda-siri-1918-2007>. Acesso em: 11 abr. 2016

Recebido: 19 de Maio de 2016; Aceito: 18 de Julho de 2016

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