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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.35 no.1 Porto Alegre Mar. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2014.01.42870 

Artigos Originais

Percepção de estudantes de enfermagem sobre o processo de aprendizagem em ambiente hospitalar

Elcilene Andreíne Terra Durgante ALVES a  

Ana Luísa Petersen COGO b  

aEnfermeira, Mestre em Enfermagem. Enfermeira Hospital de Pronto-Socorro de Porto Alegre. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

bEnfermeira, Doutora em Enfermagem, Professora do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Enfermagem, Educação e Tecnologias (GEPEETec). Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

RESUMO

O estudo teve como objetivo identificar como estudantes de enfermagem perceberam e vivenciaram o processo de aprendizagem durante práticas curriculares realizadas em ambiente hospitalar. Tratou-se de pesquisa documental retrospectiva qualitativa, desenvolvida em Curso de Graduação em Enfermagem. Compuseram os dados 162 registros realizados por 34 estudantes em fórum no ambiente virtual Moodle, no primeiro semestre de 2011. Da análise de conteúdo temática emergiram os temas: 'a compreensão dos estudantes de enfermagem sobre a prática profissional' e 'o processo de ensino e de aprendizagem sob a ótica dos estudantes de enfermagem'. O estudo demonstrou que o fórum foi um espaço de relato das vivências, como a descrição da área física, a realização de procedimentos, a percepção das atividades assistenciais do enfermeiro, os conflitos com colegas, o enfrentamento da morte e a avaliação da aprendizagem. O fórum necessita ser utilizado pelos professores como um espaço de interação, contribuindo para a formação profissional.

Palavras-Chave: Enfermagem; Educação em enfermagem; Estudantes de enfermagem; Tecnologia educacional

INTRODUÇÃO

O enfermeiro exerce suas funções nas áreas da assistência, da educação, da pesquisa e da gestão, sendo que todas estas atividades possuem como cerne o cuidar do ser humano. O desenvolvimento das habilidades necessárias para atuar neste campo de conhecimento devem iniciar durante o período da graduação, sendo aprimoradas ao longo dos anos de exercício da profissão, capacitando o enfermeiro a exercer um papel ativo e crítico, contribuindo de forma efetiva na tomada de decisões, nas questões sociais e institucionais, refletindo diretamente na qualidade do serviço prestado à sociedade( 1 - 3 ). A integração entre as atividades teóricas e práticas, apoiadas por diferentes métodos de ensino, devem promover a inserção do estudante de enfermagem no contexto das práticas de saúde( 4 ).

No período de formação profissional os estudantes de enfermagem vivenciam as primeiras práticas curriculares tanto na atenção básica como na área hospitalar, entrando em contato com a realidade da saúde brasileira. Durante essas práticas eles devem utilizar o conhecimento técnico-científico abordado anteriormente de forma teórica no curso, exercer atividades técnicas inerentes à profissão e estabelecer relações interpessoais com os colegas e os professores, o paciente e seus familiares e os profissionais de saúde interagindo e atuando de forma crítica-reflexiva. Com esta diversidade de habilidades e atitudes a serem desenvolvidas é compreensível que os estudantes vivenciem um elevado grau de estresse( 5 ). Este é ocasionado, segundo alguns estudos, por um desconhecimento do vocabulário que está sendo utilizado pelos profissionais, pela falta de maturidade dos estudantes ou por terem tido uma formação deficitária nas disciplinas básicas( 6 - 7 ).Assim faz-se necessário que os professores utilizem estratégias que permitam conhecer e abordar as sensações vivenciadas pelos estudantes, oportunizando o dialogar, refletir, revisar, significar e modificar sua forma de vivenciar as situações enfrentadas minimizando os danos causados pelo estresse, ou seja, atendendo as necessidades do estudante e colaborando para o desenvolvimento do mesmo( 8 - 9 ).

Dentre os recursos pedagógicos possíveis de serem utilizadas para este fim pode-se citar as tecnologias educacionais digitais (TICs), destacando-se entre elas o chat, a lista de discussão e o fórum de discussão( 8 - 11 ). É necessário ter clareza de que o uso da informática no contexto educacional não é a solução para os problemas da área, no entanto é uma das opções metodológicas que tem como características positivas possibilitar que os estudantes desenvolvam a dialogicidade, interação e autonomia, além da flexibilização dos horários e do ritmo de estudo, contribuindo para a qualificação dos processos educativos( 9 - 10 ). No contexto da graduação e do exercício da enfermagem, entende-se que o diálogo está diretamente relacionado à capacidade de refletir sobre conhecimentos e o processo de cuidar, ou seja, no momento dialógico entre os participantes, incentivando o estudante a agir com responsabilidade, avaliando e modificando sua prática, capacitando-o dessa forma a exercer a sua profissão com maior qualificação e respeito ao usuário.

Dentro deste contexto o fórum online é um espaço no qual os participantes podem discutir temas previamente propostos. Esse recurso permite a apresentação de suas opiniões, de seus sentimentos, proporcionando a troca entre os participantes reestruturando seus saberes( 8 - 9 ). Devido as suas características, trata-se de uma ferramenta que possibilita aos estudantes de enfermagem a reflexão, interação e discussão sobre os temas oriundos do processo de ensino e de aprendizagem.

Por interação entende-se o processo desenvolvido nas trocas entre os participantes, possibilitando a revisão de conceitos, a discussão de pontos de vista e a construção de um novo saber: o coletivo( 12 ). Dentro de um fórum online, a interação entre os participantes quando constante e multidirecionada contribui para estimular o pensamento crítico e o aprofundamento dos temas propostos( 8 ).

Cabe ressaltar que o uso desse recurso somente será válido se os estudantes e os professores envolvidos no processo assumirem uma postura ativa, demonstrando interesse sobre os temas discutidos, posicionando-se frente às opiniões apresentadas, interagindo, dialogando, resignificando a si e ao mundo( 13 ). O conhecimento da utilização do fórum virtual, como ferramenta mediadora do diálogo durante o processo de ensino e de aprendizagem de práticas curriculares na Enfermagem, contribuirá na construção de intervenções mais efetivas e individualizadas no ensino de graduação. Desta forma questiona-se no presente estudo quais tem sido as vivências e as percepções de estudantes de enfermagem relatadas em fórum online ao realizarem práticas curriculares na área hospitalar?

Diante do exposto, este estudo teve como objetivo identificar como estudantes de enfermagem perceberam e vivenciaram o processo de aprendizagem durante práticas curriculares realizadas em ambiente hospitalar.

METODOLOGIA

A presente investigação foi documental retrospectiva com abordagem qualitativa( 14 ), orientada pela teoria ético-crítico-político da educação de Freire( 13 ), desenvolvida em Curso de Graduação de Enfermagem de uma universidade pública. A disciplina que os estudantes realizaram as práticas curriculares em ambiente hospitalar ocorre na 4ª etapa do referido curso de graduação, tendo carga horária de 225 horas, o que corresponde a 15 créditos semanais. A mesma dividia-se em atividades teóricas, práticas em laboratório de ensino e de quatro semanas de prática curricular desenvolvida no Hospital Escola da Universidade.

Os dados analisados foram provenientes das 162 postagens registradas em fórum de discussão do ambiente virtual de aprendizagem Moodle Institucional, produzidas por 34 estudantes de enfermagem da quarta etapa do Curso durante a realização de disciplina que desenvolveu conteúdos de semiotécnica e semiologia durante o primeiro semestre do ano de 2011. Cabe destacar que estavam matriculados 36 estudantes, no entanto dois não efetuaram nenhum registro no fórum. Nesta disciplina foram desenvolvidas atividades teóricas e práticas, muitas dessas ocorrendo em ambiente hospitalar. Os estudantes elaboraram relatos semanais livres registrando-os no fórum do Moodle em horário fora do período de realização da prática curricular.

As postagens do fórum do Moodle foram obtidos por download realizados pelas pesquisadoras, após a obtenção da aprovação do Comitê de Ética da Instituição. Para garantir o anonimato dos participantes os registros foram codificados com a letra "E" seguido da numeração 1 a 36, quando por ocasião do download das postagens do Moodle. Utilizou-se o software Nvivo 9(r) como apoio no gerenciamento das informações, os quais foram submetidos à análise de conteúdo temática( 12 ). Esta técnica de análise compreendeu três etapas: a pré-análise; a exploração do material e o tratamento dos resultados, da inferência e da interpretação: fase em que se dá o tratamento do material( 15 ).

O estudo foi aprovado pela Comissão de Pesquisa da Instituição (09/2012) e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade sob o número CAAE 02007812.6.0000.5347, o mesmo constitui-se nos resultados da dissertação de mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul( 16 ). A confidencialidade da identificação dos participantes foi garantida através da assinatura do Termo de Utilização de Dados pelas pesquisadoras. Os dados serão arquivados pelo período de cinco anos, de forma que serão destruídos quando decorrido esse prazo.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Dos 34(100%) estudantes de enfermagem que realizaram os registros no fórum do Moodle, 28 (82,35%) realizaram a atividade de forma integral com quatro relatos, ou seja, realizaram um relato para cada semana de prática curricular, e 24 (70,58%) estudantes realizaram o registro dentro do prazo solicitado, o qual era dentro da semana na qual havia ocorrido a atividade. Não era pré-estabelecido um formato para os registros, apenas solicitava-se que descrevessem suas impressões, seus sentimentos e compartilhassem com os colegas e professores suas vivências.

Da análise dos dados emergiram dois temas: a compreensão dos estudantes sobre a prática profissional e o processo de ensino e de aprendizagem sob a ótica dos estudantes de enfermagem, os quais serão apresentados a seguir.

A compreensão dos estudantes de enfermagem sobre a prática profissional

Para alguns estudantes a primeira semana da prática curricular coincidiu com o primeiro contato com o ambiente hospitalar, momento em que estes passaram a presenciar e a vivenciar o trabalho do profissional enfermeiro, conhecer o ambiente de trabalho, a rotina do serviço.

Ao analisar as postagens iniciais dos estudantes pode-se observar como eles registraram este primeiro contato:

Esta unidade é caracterizada como uma área clínica [...] possui 45 leitos e 9 enfermarias para procedimentos rápidos [...]. (E 18)

Fiquei entusiasmada ao conhecer o andar e seu funcionamento, pois percebi que nos próximos dias eu faria parte daquele "esquema". (E 24)

Na primeira semana de estágio além de muita expectativa, carregava muitas dúvidas: como seria o meu andar? Como seria minha professora de estágio, já que havíamos tido pouquíssimo contato? Como seria trabalhar com uma equipe de colegas todos técnicos já com experiência? (E 6)

Enquanto alguns estudantes limitaram suas postagens à descrição física e estrutural das unidades, nas quais foram realizadas as práticas curriculares da disciplina, outros manifestaram os sentimentos que vivenciados neste primeiro contato. Sabe-se que o início do estudante no ambiente hospitalar envolve questões complexas como as tecnologias duras, o processo saúde e adoecimento, as políticas de saúde e, principalmente, a interação com os demais participantes desse processo, associado à insegurança, a incerteza e a ansiedadedo estudantes frente a uma experiência desconhecida, fatores que muitas vezes geram estresse( 5 ).

Os conflitos advindos das relações humanas acompanham o profissional ao longo de sua trajetória e também apareceram nas postagens dos fóruns, nas quais foram relatadas divergências entre os estudantes, entre estes e os pacientes, ou os professores, ou até mesmo com os profissionais da saúde. Essas situações conflituosas ficaram evidenciadas pelo discurso do estudante a seguir:

Na quarta-feira, trazendo uma cadeira para conduzir meu paciente ao banheiro, fiz um comentário muito infeliz [...]. Ao entrar no quarto para buscá-lo ouvi o seguinte comentário: "acho que o E 04 está na profissão errada". De forma errônea eu estava descontando todas as minhas frustrações e problemas naquele senhor, mas enganam-se aqueles que acreditam que nunca cometerão o mesmo erro que cometi. Enganam-se aqueles que acreditam que conseguirão proporcionar um cuidado humanizado em todas as situações, que conseguirão entrar todos os dias em uma unidade sorrindo e de lá sairão mais felizes ainda. Eu sou um jovem de 21 anos que tem muito a aprender, seja observando os demais acertando ou refletindo sobre os meus erros e acho que minha capacidade de exercer essa profissão não é questionável. Serei um ótimo profissional e nem eu nem ninguém deve colocar isso em dúvida. Essa é a profissão que escolhi para a mim e, cometendo meus erros, estou disposto a seguir até o fim. (E4)

Nesta passagem observaram-se os conflitos vivenciados pelos estudantes durante a prática curricular hospitalar, que requerem a atenção do professor. Primeiro existiu o conflito interno do estudante, gerado pelo contato com o paciente. Embora reconheça a premissa do cuidado de enfermagem, no qual as necessidades do indivíduo cuidado devem ser atendidas pelo cuidador, de forma a estimular a individualidade e a autossuficiência do paciente( 17 - 18 ), o estudante questionou a aplicação desses princípios na prática e demonstrou questionamentos eticamente inadequados.

Num segundo momento surgiu o conflito com os colegas, representado pela crítica, que embora procedente considerando que estavam em uma enfermaria hospitalar com profissionais, pacientes e familiares próximos, gerou no estudante um sentimento de indignação. Nessa passagem, houve o relato da ambivalência do cotidiano, na qual o futuro profissional da saúde divide-se entre prestar uma assistência voltada para a preservação do potencial de independência do paciente ou prestar cuidados que facilitassem e agilizassem o desenvolvimento de seu trabalho, e a ironia foi por ele utilizada como forma de manifestar sua insegurança. Além do que manifestou com veemência seu determinismo em tornar-se enfermeiro.

É importante perceber, que quando há a possibilidade dos estudantes expressarem o seu ponto de vista, os mesmos o fazem revelando seus valores e crenças, sinalizando a responsabilidade do professor em escutar e promover um processo crítico-reflexivo com os mesmos. A prática do cuidado ocorre entre indivíduos, envolvendo os sentimentos e as vivências de todos que dele participam, por isso devem ser consideradas de forma global( 1 ). Ao ingressar na vida acadêmica, os estudantes são movidos pela concepção de que a enfermagem é uma profissão voltada para o cuidado do próximo, sendo sua única função o caráter assistencialista do processo( 19 ).

Embora no transcorrer da prática curricular os estudantes conviveram nas unidades de internação com o enfermeiro, vivenciando sua rotina e conhecendo a enfermagem, suas observações mantiveram o mesmo foco, ou seja, eles observaram e descreveram somente o papel assistencial desses profissionais:

Fiquei um pouco nervosa ao ver uma mudança tão brusca na sua aparência, mas logo a professora providenciou os cuidados necessários em situações como essa. Com isso pude ver a importância do conhecimento da Enfermeira e a capacidade que esta tem de intervir perante o paciente. (E 14)

Percebi como cuidador a importância de uma comunicação adequada para cada usuário e que a técnica é apenas uma parcela no processo de cuidar, pois encontramos sempre pessoas fragilizadas pela doença que as debilita lhes causando mais do que apenas desconforto físico uma incerteza quanto ao futuro. (E7)

No discurso de E14 houve o enfoque no papel assistencial do enfermeiro, mas deve-se considerar que nesta fase do curso de graduação, os estudantes valorizam o saber do enfermeiro voltado para a assistência aos pacientes, essa visão limitada sobre a atuação do enfermeiro será revista ao longo do período de formação e nos anos finais da graduação os acadêmicos serão capazes de manifestar uma real compreensão de todas as responsabilidades do enfermeiro( 18 ). A percepção de E7 sobre a importância da habilidade de comunicação no cuidado reforçou o enfoque exclusivo na execução de procedimentos que foi referido por alguns estudantes. Isto reforça a importância da realização pelos estudantes de enfermagem do cuidado integral nas práticas curriculares das disciplinas introdutórias do curso.

Outro momento marcante relatado pelos estudantes foi o acompanhamento de pacientes que estavam falecendo. A vivência da morte e a fragilidade humana faz com que os estudantes manifestam sentimentos de tristeza, empatia e impotência( 20 ). Esses sentimentos surgiram, pois embora a morte seja parte integrante da vida, durante a graduação e durante a prática profissional, ela não foi trabalhada, os currículos abordam questões relacionadas à vida, à terapêutica, à cura, não preparando os acadêmicos para lidar com a finitude humana.

Ao terminar a atividade a paciente examinada foi a óbito, foi bem difícil estar ali no momento. Foi algo que mexeu comigo e com minhas colegas. (E 31)

[...] Acredito que jamais me esquecerei daquele rosto, me olhando e dizendo: "Eu quero comida." Isso mexeu muito comigo, pois além de ver alguém entre a vida e a morte, pude contemplar todo aquele sofrimento que ele demonstrava, pelo fato de estar naquela situação e não poder comer nada. (E 22)

Esses relatos mostram a vulnerabilidade do profissional da saúde enquanto ser humano, também exposto a riscos, a doenças, ao sofrimento e a morte, de modo que tais sentimentos induzem os estudantes a vivenciarem reações ambivalentes, com alguns distanciando-se dos pacientes como forma de defesa, enquanto outros se aproximam e fazem o luto( 20 ). Esses enfrentamentos levaram os mesmos a entenderem que a prática profissional é muito mais do que estudar patologias, medicamentos ou procedimentos. Trata-se, na verdade, de entender e respeitar as fragilidades humanas.

Diversos são os sentimentos vivenciados dentro do ambiente hospitalar e, pouco é o tempo disponível, entre a realização das tarefas cotidianas, para se estabelecer um momento dialógico capaz de abordar de forma reflexiva estas questões e, esses componentes, quando ignorados, podem levar os estudantes ao sofrimento exacerbado, interferindo negativamente no processo de construção do conhecimento( 5 ). Estes fatores devem ser do conhecimento do professor, possibilitando que o mesmo elabore um plano de ação que vise minimizar o sofrimento dos estudantes contribuindo para o processo de amadurecimento dos mesmos. Acredita-se que a ferramenta fórum do ambiente virtual pode ser usada como um espaço para que os estudantes descrevam seus sentimentos, expectativas e dificuldades, complementando o diálogo ocorrido presencialmente durante a prática curricular.

O processo de ensino e de aprendizagem sob a ótica dos estudantes de enfermagem

Conforme já visto anteriormente, os estudantes dos primeiros anos da graduação perceberam a enfermagem como uma profissão essencialmente de cuidado, por isso consideram que a prática curricular inicia-se com a realização dos procedimentos técnicos, conforme destacado a seguir:

No dia 30/05 iniciamos nosso primeiro dia de estágio [...] conhecemos a unidade, alguns funcionários e conversamos com a Professora [...]. Já no dia 31/05 iniciamos realmente nosso estágio. [...], Verificamos seus SV, auxiliamos no banho de chuveiro, realizamos um curativo no MID com SF 0,9% (2º pododactilo direito). Administramos medicações VO, SC e IV. Foi uma manhã bastante proveitosa! (E 23)

A realização de procedimentos tem uma relevância significativa para os estudantes, uma vez que para eles o aprimoramento da habilidade técnica é a principal preocupação no início da prática curricular( 17 ). Esse aspecto foi observado nos relatos do fórum, ao longo das semanas, perfazendo um total de 582 referências no diário de campo. A maioria das postagens dos estudantes referia-se aos relatos da realização dos procedimentos observados ou realizados, além das sensações produzidas por esses:

Passei abocath 24 no paciente L. com onze anos. Realizei troca de curativo no monolúmen. Adorei realizar todas as tarefas. (E 21)

No momento da verificação dos sinais vitais, por causa do nervosismo, só não consegui realizar a aferição da pressão arterial. Sendo este meu primeiro contato com um paciente hospitalizado como acadêmica de enfermagem, achei que poderia ter me soltado mais. A pressão para realizar de maneira correta as tarefas em um ambiente novo foi grande, mesmo tendo o auxílio da Professora e da monitora, a tensão prevaleceu. (E 13)

Nesses trechos ficou evidenciada a ansiedade dos estudantes frente à realização dos procedimentos junto aos pacientes. Eles relataram como o sentimento atrapalhou a realização da técnica e, em alguns casos, gerou estresse e sofrimento aos acadêmicos, dificultando sua aprendizagem. Estudo mostrou que além do preparo prévio dos estudantes para a realização dos procedimentos, por meio da teorização da técnica e da simulação em laboratórios de enfermagem, é necessário estimular a discussão dos sentimentos vivenciados nas situações, refletindo e trocando informações com seus pares, construindo formas de enfrentamento das dificuldades( 17 ).

Diversas são as maneiras de proporcionar aos estudantes momentos de reflexão e troca, uma delas é a utilização de ambientes virtuais de aprendizagem, como o fórum de discussão, que, por sua característica, permite que os estudantes exponham seus sentimentos e percepções e que estes sejam lidos e discutidos entre os integrantes do grupo. Ressalta-se que são estes momentos de reflexão que promovem mudanças após análise e avaliação do contexto no qual estão inseridos( 19 ) .

No fórum os estudantes também expressaram seus sentimentos e as dificuldades vivenciadas, como no trecho:

Foi muito difícil para mim! Eu não soube muito bem que postura tomar, fiquei indignada e não consegui contornar bem a situação. (E 12)

Em suma esse estágio me proporcionou conhecimentos desde o primeiro até o último dia, incluindo as aulas no laboratório e o dia da avaliação, com certeza contribuirão para a minha construção e desenvolvimento profissional; as experiências e dicas mencionadas pela Professora levarei por toda a vida profissional e pessoal. (E 21)

Apresentamos nossos casos e fizemos avaliação. Gostei muito do momento de avaliação com a professora, pois havíamos feito às mesmas observações. Me senti a vontade em ser muito franca com ela sobre as minhas observações e sentimentos no estágio. Acho que assim conseguimos nos ver como futuros profissionais e crescer com as sugestões recebidas. (E 39)

Nos relatos acima os estudantes realizaram uma autoavaliação e referiram sentimentos de tristeza, indignação, impotência, como também satisfação e sentimento de terem concluído uma primeira fase da sua formação profissional. Eles utilizaram o espaço do diário de campo para abordar as dificuldades e as descobertas que encontraram ao iniciar suas atividades na unidade hospitalar e os professores poderiam utilizar este espaço de interação estabelecendo uma relação dialógica.

A preocupação com o conceito final e a aprovação surgiu nas falas dos estudantes, no entanto muitos reforçaram as aprendizagens e os exemplos de profissionais com os quais conviveram nesta etapa do Curso. Esta foi uma manifestação de amadurecimento e de comprometimento com a sua qualificação como profissional e cidadão. Dentro desse contexto, avaliar é criar oportunidades para o diálogo entre o estudante e o professor, proporcionando que ambos revejam seus atos e conceitos, modificando a si e aos outros. É ver o estudante como um ser de conhecimento, capaz de aprender e ensinar, pois somente assim serão formados profissionais capazes de se perceberem e assim poderão respeitar o outro( 21 ).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo apresentou a percepção de estudantes de enfermagem sobre a prática hospitalar que realizaram reforçando a importância de serem proporcionados espaços que promovam o diálogo. Os primeiros relatos, logo que chegaram ao ambiente hospitalar, referiram-se à descrição do espaço físico, desconhecido para a maioria dos estudantes. O trabalho do enfermeiro, segundo os mesmos, está vinculado ao cuidado direto não havendo uma percepção de uma dimensão maior. A identificação com a profissão e a crítica entre colegas demonstrou a importância de serem trabalhadas as questões éticas entre os estudantes, também refletindo com situações de tristeza e perplexidade frente à fragilidade humana e a morte.

O processo de ensino e de aprendizagem foi avaliado em vários momentos, sinalizando que o fórum oportunizou externarem suas percepções e suas críticas, sendo que alguns destes compreendem a formação como um processo que está apenas iniciando, na qual não somente conhecimentos técnicos são essenciais, mas também os exemplos a serem seguidos como as atitudes de um professor. Cabe ressaltar que nas falas dos participantes foi utilizada a expressão 'estágio' como sinônimo de prática curricular, demonstrando que os estudantes ainda não incorporaram a denominação presente nas Diretrizes Curriculares vigentes.

As tecnologias educacionais digitais têm colaborado significativamente para o ensino de enfermagem, e a ferramenta fórum demonstrou ser um recurso de apoio, mas que necessita ser utilizado pelos professores como um espaço de interação, não somente de escuta. Desta forma, recomenda-se que outros estudos sejam desenvolvidos visando integrar a utilização de recursos tecnológicos com a orientação pedagógica, de forma a contribuir com a formação profissional. A limitação deste estudo refere-se à utilização de dados produzidos pelos estudantes de forma livre sem sistematização, o que pode ter acarretado a omissão de vivências e percepções que oportunizariam uma análise mais profunda do tema.

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Recebido: 29 de Setembro de 2013; Aceito: 03 de Dezembro de 2013

Endereço do autor / Dirección del autor / Author's address Ana Luísa Petersen Cogo Rua São Manoel, 963, Rio Branco 90620-110, Porto Alegre, RS E-mail: analuisa@enf.ufrgs.br

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