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Organizações & Sociedade

On-line version ISSN 1984-9230

Organ. Soc. vol.19 no.63 Salvador Oct./Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1984-92302012000400010 

IDEIAS EM DEBATE

 

Juventude, gerações e trabalho: ampliando o debate

 

 

Ana Heloísa da Costa Lemos

Doutora em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro da Universidade Candido Mendes - IUPERJ/UCAM. Professora do Programa de Pós-Graduação em Administração da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, Rio de Janeiro/RJ/Brasil. Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea. CEP: 22451-900. E-mail:aheloisa@iag.puc-rio.br

 

 

Apesar do interesse em compreender a questão das gerações não ser uma novidade - o estudo de Manheim (1993 [1928]) pode ser apontando como um marco importante desse debate -, na última década, proliferaram estudos, predominantemente norte-americanos, buscando compreender as expectativas dos jovens contemporâneos, notadamente no que tange à sua inserção no mercado de trabalho. A literatura acadêmica no campo da Administração e, principalmente, a mídia de negócios têm produzido descrições da geração que mais recentemente ingressou no mercado de trabalho, os indivíduos nascidos entre 1980 e 2001, a denominada Geração Y (ALSOP, 2008). Em tais trabalhos, os integrantes dessa Geração são caracterizados como hedonistas, individualistas, ansiosos, capazes de lidar com tecnologia digital e com uma quantidade grande de informação. No campo profissional, são descritos como indivíduos que esperam ter o reconhecimento de seus pares e superiores, anseiam por rápida ascensão na carreira, além de desejarem ter autonomia e flexibilidade no trabalho. Também são vistos como menos leais às organizações do que seus antecessores (TULGAN, 2009; EISNER, 2005; ALSOP, 2008; ERICKSON, 2008; LIPKIN; PERRYMORE, 2010; TAPSCOTT, 2010).

No Brasil, na área de Administração, o interesse em melhor compreender a denominada Geração Y é mais recente. Estudos buscando retratar a referida geração começaram a surgir no início de década passada (COIMBRA, 2001) e a se avolumar nos últimos anos (VELOSO; DUTRA; NAKATA, 2008; VASCONCELOS et al., 2010; VALE; LIMA; QUEIROZ, 2011; CAVAZOTTE, LEMOS; VIANA, 2012; LEMOS; COSTA; VIANA, 2012). Em sua maioria, esses trabalhos procuram entender as aspirações profissionais dos jovens ingressantes no mercado de trabalho e que, aparentemente, têm expectativas diferentes das gerações anteriores. Todavia, conforme ressaltam Oliveira, Piccinini e Bittencourt (2012), a caracterização dessa geração é passível de críticas por seu caráter às vezes generalizante, que retrata um grupo geracional como um bloco homogêneo, sem levar em conta diferenças sociais, econômicas, culturais, de gênero e etnia.

Uma possível explicação para essa homogeneização pode ser encontrada na origem das produções que sobressaem no debate sobre a dita Geração Y, no campo da Administração: sensíveis à demanda do setor produtivo, cada vez mais preocupado em reter essa nova força de trabalho, os estudos findam por focar um grupo específico desses jovens, constituído por indivíduos com formação superior ou em vias de obtê-la, oriundos das camadas médias, candidatos naturais às posições de gerência e quadros técnicos superiores das organizações. A atração e, principalmente, retenção de jovens formados em boas universidades têm sido motivos de preocupação dos gestores e dos profissionais de recursos humanos, que convivem com o turnover elevado desse estrato da força de trabalho. A necessidade de atrair quadros qualificados, de um lado, e a baixa qualificação da força de trabalho brasileira, de outro, têm levado as empresas a se ressentirem da pouca lealdade organizacional dos jovens profissionais. Nesse sentido, ao problema do turnover tem sido atribuída uma suposta causa "geracional", isto é, acredita-se que os jovens não se fixariam às empresas devido a seus valores e expectativas peculiares, o que justificaria a necessidade de realização de estudos capazes de dar conta dessas peculiaridades.

Cabe ressaltar que não apenas a produção nacional, mas, sobretudo, a internacional, tem buscado responder às indagações dos gestores acerca dos motivos da baixa lealdade dos jovens, que não hesitam em trocar de emprego diante de ofertas que julgam mais atraentes. Trabalhos como os de Eisner (2005), Tulgan (2009) e Lipkin e Perrymore (2010), dentre outros, visam justamente explicar como motivar esses profissionais. Assim, a caracterização dos jovens que predomina na literatura estrangeira produzida no campo da Administração acaba tratando um grupo particular de jovens, bem nascidos e bem educados, como representantes de toda uma geração. Em linha com essa preocupação, que também se manifesta no contexto empresarial brasileiro, a produção nacional acaba focalizando o mesmo subgrupo geracional refletindo a descrição homogeneizadora presente nos estudos estrangeiros.

Todavia, apesar de parte da produção nacional sobre os jovens contemporâneos tratá-los como um bloco homogêneo, trabalhos recentes chamam atenção para os equívocos dessa generalização (VELOSO; BARBOSA, 2012). Como destacam as autoras, a sociologia não tem ignorado as diferenças que atravessam o conceito de geração. Ainda que este conceito seja válido, indivíduos nascidos em um mesmo período são integrantes de um grupo geracional por compartilharem vivências históricas comuns, no entanto, as caracterizações que generalizam os valores, expectativas e sentimentos desses indivíduos são duvidosas. Por esse motivo, pesquisas no campo da sociologia e da antropologia tendem a utilizar o conceito de "juventudes", por entender o caráter multifacetado desse grupo geracional. Nesse sentido, pesquisadores brasileiros das referidas áreas têm enfatizado mais as peculiaridades dos subgrupos que conformam esse grupo geracional do que suas semelhanças, buscando construir múltiplos retratos, capazes de dar conta das diferenças econômicas, sociais, culturais, étnicas e de gênero que caracterizam seus integrantes (ABRAMO; BRANCO, 2005; KLIKSBERG, 2006).

Dessa forma, em resposta às ponderações de Oliveira, Piccinini e Bittencourt, publicadas na seção Ideias em Debate desta publicação (O&S n.62, jul./set. 2012), é realmente questionável tratar os jovens brasileiros como um grupo homogêneo, integrantes de uma suposta Geração Y ocidental, tendo em vista as diferenças que marcam essa juventude. Ao questionamento dos autores, pode-se acrescentar que, mesmo em sociedades economicamente mais afluentes, onde as desigualdades econômicas tendem a ser menores, a referida caracterização homogeneizadora também é duvidosa. Não se pode ignorar que, mesmo nos Estados Unidos, onde parte expressiva da literatura sobre a Geração Y tem sido produzida, há diferenças econômicas, sociais, étnicas e culturais consideráveis que, certamente, influenciam as expectativas e aspirações de sua juventude.

No que diz respeito às relações entre origem social, valores e aspirações individuais, pode-se inquirir se os jovens integrantes dos estratos econômicos menos favorecidos se aproximam mais, no que diz respeito a esses valores e aspirações, de seus antecessores oriundos do mesmo estrato social ou de seus contemporâneos, pertencentes a outros estratos. Levando em conta as considerações de Bourdieu (1998) acerca da reprodução da estratificação social da sociedade contemporânea, a maior proximidade estaria associada à origem social comum. Ao ressaltar a existência de condições estruturais que reproduzem as desigualdades sociais, Bourdieu (1998) argumenta que a origem social dos indivíduos condiciona, em grande medida, suas aspirações, refletindo, em suas trajetórias individuais, trajetórias de classe. Nesse sentido, os filhos das elites detentoras de elevado capital econômico tenderiam a reproduzir as "vocações" de seus pais, na mesma medida que os filhos dos possuidores de menor capital seguiriam as trajetórias dos seus. Bourdieu (1998) considera que, mesmo as eventuais exceções, isto é, os casos dos indivíduos que, não obstante a origem social menos favorecida, logram romper com esses condicionantes e ascender na escala social, não contradizem a tendência estrutural delineadora das trajetórias coletivas. Aqueles que rompem com o destino inscrito em sua origem acabam por seguir, em certos aspectos, os hábitos de sua classe. Introduzindo ao debate o conceito de habitus - central à sua obra - Bourdieu (1998) revela a dinâmica reproduzida e consubstanciada nos hábitos, nos gostos e estilos de vida, que fazem da estratificação social um fenômeno de forte condicionamento estrutural. A análise do autor permite reforçar o questionamento das supostas semelhanças geracionais: sem a ponderação das diferentes origens sociais dos jovens, a caracterização da Geração Y corre o risco de tomar o todo, pela parte. As considerações do referido autor, apesar de terem como referência a sociedade francesa da década de setenta do século passado, permitem tanto refletir sobre a realidade francesa contemporânea, marcada por protestos de jovens filhos de imigrantes que reivindicam maior inclusão naquela sociedade, quanto pensar o caso brasileiro, introduzindo no debate sobre a nossa juventude a necessidade de estudar os diferentes grupos sociais que conformam essa geração.

No caso específico do Brasil, a necessidade de aprofundar o impacto das diferenças sociais nas aspirações e trajetórias geracionais é mais evidente quando se observa os resultados de pesquisa recente (CARDOSO, 2012) que mapeou a educação formal e inserção no mercado de trabalho de jovens brasileiros. Ao revelar que 5,3 milhões de jovens entre 18 e 25 anos não trabalham, não estudam e não estão procurando emprego, o estudo chama atenção para uma parcela nada desprezível de jovens (19,5% do total) que está inativa e sem perspectivas de inserção tanto no mercado de trabalho, quanto no sistema de ensino. Se forem somados a esse contingente os jovens que estão buscando, mas não encontram emprego, o total de excluídos do mercado de trabalho sobe para 7,2 milhões. Denominada "geração perdida" em matéria de jornal (RIBEIRO, 2012), esse contingente de jovens reforça a importância de se olhar com cuidado as generalizações feitas acerca das aspirações da denominada Geração Y, principalmente quando o assunto é a inserção no mundo do trabalho, pois, em linha com os argumentos de Bourdieu (1998), há nítidas clivagens sociais que sinalizam a provável existência de aspirações e valores distintos, entre indivíduos desse grupo geracional.

A constatação da existência de um número expressivo de jovens brasileiros inativos e com poucas perspectivas de inserção no mercado de trabalho põe em xeque descrições que caracterizam os integrantes da Geração Y como ambiciosos, focados em suas carreiras, preocupados com o aperfeiçoamento profissional e pouco leais às organizações. Dessa forma, as diferenças econômicas, sociais e culturais, sem mencionar as de gênero e etnia, devem ser levadas em conta, também, pelos pesquisadores no campo da Administração, com vistas a ampliar o entendimento das expectativas e aspirações dos jovens que vêm ingressando no mercado do trabalho. Nesse sentido, o campo de pesquisa na área de Administração, voltado para compreender as gerações, pode se ampliar e incluir estudos que explorem subgrupos e particularidades que têm sido pouco contempladas nos trabalhos existentes.

Cabe ressaltar, finalmente, que, apesar das limitações dos trabalhos recentes no campo da Administração, quando o assunto é caracterizar toda uma Geração, não se pode ignorar a sua contribuição para o entendimento das expectativas do grupo que tem sido alvo dos estudos: jovens com formação superior. Conforme anteriormente ressaltado, esses trabalhos surgem em resposta à preocupação das empresas com a alta rotatividade desse estrato da força de trabalho que tem se mostrado pouco leal às organizações. Nesses estudos, caberia, apenas, evidenciar a natureza circunscrita dos achados, capazes de retratar em boa medida os valores do grupo de jovens investigados, mas questionável como tentativa de caracterizar toda uma geração. Vale destacar, ainda que, apesar da maioria dos referidos estudos tratar apenas de um estrato de um grupo geracional muito maior, não se pode desprezar a importância de conhecer, também, as expectativas dessa elite de profissionais. Integrantes dos quadros gerenciais e técnicos superiores das organizações, muitos desses jovens têm se frustrado em suas experiências profissionais, abandonado seus empregos e, em vários casos, desistindo de fazer carreira em empresas privadas. Socializados em um mundo marcado pela transitoriedade e precariedade dos vínculos de trabalho, o jovem com formação superior tem sido pouco tolerante a condições de trabalho que consideram frustrantes, caracterizadas por jornadas extensas, com pressões desmesuradas e promessas não cumpridas. Abrir o próprio negócio, prestar concurso público e buscar a carreira acadêmica têm sido alternativas seguidas por muitos que, preparados para trilhar bem sucedidas carreiras corporativas, decidem mudar suas trajetórias profissionais. Mesmo não sendo este seu propósito inicial, acredita-se que estes estudos, ao buscarem entender as expectativas e aspirações de um grupo específico de indivíduos - jovens com formação superior - ao mesmo tempo em que auxiliam as empresas a reter esses profissionais, podem, também, trazer à tona aspectos da dinâmica das relações de trabalho das organizações contemporâneas que vêm desagradando trabalhadores, de todas as gerações.

 

Referências

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