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Revista de Saúde Pública

Print version ISSN 0034-8910On-line version ISSN 1518-8787

Rev. Saúde Pública vol.39 no.4 São Paulo Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102005000400011 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Álcool e alcoolismo entre adolescentes da rede estadual de ensino de Cuiabá, Mato Grosso

 

 

Delma P Oliveira de SouzaI; Kelsy N ArecoII; Dartiu Xavier da Silveira FilhoI

IPrograma de Pós-Graduação. Departamento de Psiquiatria. Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). São Paulo, SP, Brasil
IIDepartamento de Medicina Preventiva. Unifesp. São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar a prevalência de consumo de álcool e do alcoolismo entre estudantes adolescentes trabalhadores e não trabalhadores.
MÉTODOS: Estudo transversal, realizado por amostragem estratificada sistemática, composta por 993 adolescentes trabalhadores e 1.725 não-trabalhadores. Foram incluídos os estudantes matriculados em 1998, na rede estadual de ensino de Cuiabá, MT. Aplicou-se, em sala de aula, um questionário de auto-preenchimento anônimo. Utilizou-se as análises univariada, bivariada e regressão logística.
RESULTADOS: Verificaram-se prevalências de 71,3% para o consumo de álcool e 13,4% para alcoolismo na amostra total, sendo maior entre os estudantes trabalhadores (81,0% e 14,9%) comparativamente aos não-trabalhadores (65,8% e 12,6%). Além da associação do uso de álcool com o trabalho, observou-se tanto semelhanças quanto diferenças entre os dois grupos. O alcoolismo não está associado ao trabalho, mas ao sexo masculino (RO=1,61; IC 95%: 1,18-2,19) e história de álcool na família tanto entre os não-trabalhadores (RO=2,19; IC 95%: 1,60-2,99) quanto entre trabalhadores (RO=2,10; IC 95%: 1,42-3,12).
CONCLUSÕES: Os resultados indicam alta prevalência de consumo de álcool e alcoolismo, sendo maior entre os adolescentes trabalhadores. Os fatores sociodemográficos, familiares e relacionados a trabalho devem ser considerados na implementação de ações educativas nessa população, visando a mudanças de comportamento relacionadas ao consumo de álcool.

Descritores: Alcoolismo. Adolescente. Trabalho de menores. Comportamento do adolescente. Estudantes.


 

 

INTRODUÇÃO

O uso indevido de bebidas alcoólicas é considerado um grave problema de saúde pública. Além da sua prevalência na população adulta, esse comportamento está presente igualmente entre adolescentes, repercutindo na sua saúde física e mental. O consumo de álcool pode ser advindo do estilo de vida atual, dos elevados níveis de estresse, de ansiedade, de baixa auto-estima, sentimentos depressivos, susceptibilidade à pressão dos pares e problemas relacionados à escola.3,8

Diversos campos do saber científico adotam diferentes definições dos termos "uso", "abuso" e "dependência de álcool". A Classificação Internacional de Doenças (CID-10) define "uso" como qualquer consumo, independente da freqüência; "abuso", um consumo associado a conseqüências adversas recorrentes, porém não caracterizando "dependência". Esta última manifesta-se quando o uso de uma substância passa a caracterizar um estado disfuncional.

A ingestão excessiva de álcool configura uma questão problemática. No Brasil, estudos têm mostrado que a taxa de prevalência de alcoolismo varia entre 3,0% e 6,0% na população geral. É considerado o terceiro motivo para o absenteísmo no trabalho, com elevadas taxas de aposentadorias precoces, acidentes de trabalho e de trânsito, responsável por proporção considerável de ocupação leitos hospitalares.1,2

A Organização Mundial de Saúde (OMS), há décadas, já definia o alcoolismo como uma doença de natureza complexa. O álcool atua como fator determinante sobre causas psicossomáticas preexistentes no indivíduo e para cujo tratamento faz-se necessário recorrer a processos profiláticos e terapêuticos de grande amplitude.

Há ampla literatura científica sobre o consumo de substâncias psicoativas, entre elas o álcool, com metodologias e abordagens diversas tanto na população geral como em grupos específicos.1,2,15 Em se tratando do adolescente trabalhador, os estudos têm identificado como chance para o consumo de álcool, além do gênero masculino, a idade, relações com a família, religião, as horas de trabalho do adolescente. Aqueles que trabalham meio ou período integral apresentam as taxas mais altas de uso de álcool em relação aos não-trabalhadores.8,11,12,18,20

Entretanto, as investigações sobre uso de álcool com estudantes adolescentes trabalhadores e não-trabalhadores são limitadas, no contexto nacional. Há mais de duas décadas, o álcool ocupa o primeiro lugar de consumo entre os estudantes da rede estadual de ensino, seguido, à distância, por outras substâncias. Constatou-se, no último estudo* realizado em 10 capitais brasileiras, discreto predomínio do uso de álcool pelo sexo masculino, com início precoce (10-12 anos de idade).

O conhecimento da relação entre trabalho e uso de álcool no período da adolescência é de grande importância, pois marca a entrada no mundo adulto. A adoção de ambos nessa fase do desenvolvimento humano pode ser considerada problemática, pelo consumo de álcool ser um comportamento potencialmente prejudicial à saúde, com possibilidades de ser mantido na maturidade. Por outro lado, existe a crença de que o trabalho seria bom para os adolescentes de idade escolar se manterem ocupados, fora da rua, além de contribuir na socialização, por meio de valores positivos do adulto. Porém, há estudos que divulgam a existência de associação entre trabalho e comportamentos disfuncionais, como, por exemplo, o uso indevido de álcool.8,10-12

Nesse sentido, o presente estudo teve como objetivo estimar a prevalência do consumo de álcool e alcoolismo entre estudantes adolescentes trabalhadores e não-trabalhadores e os fatores associados ao consumo desta substância.

 

MÉTODOS

Trata-se de estudo transversal. A população foi constituída por estudantes adolescentes da rede estadual de ensino fundamental médio do município de Cuiabá, MT, no ano de 1998. Foram definidos como elegíveis para inclusão no grupo, todos os estudantes matriculados na rede de ensino, na faixa etária de 10 a 20 anos de idade.11 Os estudantes trabalhadores e não-trabalhadores foram identificados na amostra conforme Souza et al**(2000), com base em critérios de classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Adotou-se o método de amostragem estratificada sistemática, com sorteio em dois estágios: no primeiro, sortearam-se os estratos (ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos). No segundo estágio, realizou-se sorteio com probabilidade proporcional ao tamanho de cada conglomerado (turma), o qual foi estimado de acordo com dados fornecidos pela Secretaria da Educação do Estado de Mato Grosso.

Para o cálculo do tamanho da amostra foram considerados os seguintes parâmetros: a existência de uma prevalência de consumo de drogas na população, em 1995 (25,2%),16 proporção estimada de adolescentes trabalhadores (25%); prevalência de uso de drogas na vida entre os que não trabalham (15%); prevalência mínima a ser detectada entre os que trabalham (20%). Considerou-se poder estatístico de 80% e nível de significância de 5%. Com esses procedimentos, a amostra mínima requerida para compor o grupo de estudantes adolescentes trabalhadores seria de 643 estudantes e de 1.929 para o grupo de não-trabalhadores.

O instrumento adotado para caracterização do consumo de substâncias psicoativas de Smart et al14 foi adaptado à realidade brasileira* e já testado no contexto cuiabano.16 Ao mesmo foram acrescentadas questões sobre alcoolismo, trabalho e família. A aplicação do questionário anônimo foi realizada coletivamente em sala de aula, sem a presença do professor, por universitários criteriosamente treinados. As variáveis dependentes – evento resposta – foram representadas pelo uso de álcool (sim, não) e alcoolismo (positivo, negativo). Para se avaliar o "uso de álcool na vida", adotou-se a classificação utilizada nos levantamentos realizados no contexto nacional,* que considera como sendo o uso de qualquer droga psicotrópica pelo menos uma vez na vida.

Para detecção do alcoolismo, utilizou-se o teste CAGE, com ponto de corte de duas ou mais respostas afirmativas, o que sugere "rastreamento positivo" para abuso ou dependência de álcool.5,8,9 Trata-se de escala composta de quatro perguntas sobre o uso de bebidas alcoólicas, que são: 1) Alguma vez você sentiu que deveria diminuir a quantidade de bebida ou parar de beber? 2) As pessoas o incomodam porque reclamam do seu modo de beber? 3) Você já se sentiu culpado pela maneira com que costuma beber? 4) Você bebe pela manhã para diminuir a ressaca ou o nervosismo? As questões do CAGE foram incluídas no instrumento entre outras perguntas, levando o entrevistado a respondê-las de modo casual, tendo em vista a tendência do alcoolista a negar sua condição.8

As variáveis independentes explicativas foram trabalho (sim/não), sexo (feminino/masculino), idade (15-20/10-14), raça (branca/não-branca), religião (católica/outras), com quem mora (pais/outros), uso de álcool na família (sim/não); e nível socioeconômico da família do estudante (A+B+C/D+E). O nível socioeconômico foi analisado por meio da somatória da mensuração da escolaridade dos pais e da posse de determinados bens de consumo duráveis, conforme metodologia da Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercado (Abipeme). A variável raça/cor foi categorizada em "branca e outros", bem como a religião, categorizado em "católica e outras".

Inicialmente foram realizadas tabulações, para se estimar a prevalência do consumo de álcool e alcoolismo. Foi medida a associação, bruta e ajustada, entre as variáveis sociodemográficas e familiares com o consumo de álcool e alcoolismo entre os adolescentes trabalhadores e não-trabalhadores pela razão de odds (RO) e de seu intervalo de confiança de 95%. As associações cujos intervalos de confiança da razão de odds não incluíram a unidade foram consideradas significativas. O controle de variáveis de confusão e de interações (modificação de efeito) foram realizadas por regressão logística.6

Nesse modelo entraram todas as variáveis que, na análise bruta, apresentaram valor de p (significância) igual ou menor que 0,25. Iniciou-se por modelo saturado – com a variável de exposição e todas as possíveis variáveis de confusão e termos de interação. A presença de interação foi avaliada comparando-se o modelo saturado sem cada um dos termos de interação, por meio do teste de razão de verossimilhança. A presença de confusão foi analisada, retirando-se as co-variáveis, uma a uma, pelo critério de p>0,05 e verificando se sua saída não provocava mudanças superiores a 10,0% nos coeficientes das demais variáveis e, em seguida, comparando-se a nova RO, sem cada co-variável, com aqueles obtidos no modelo saturado.

A entrada e validação dos dados foram objetivadas pelo software Epi Info, versão 6.02, em dupla entrada, em arquivos separados, os quais foram comparados e as diferenças identificadas ajustadas. A fase da análise crítica dos dados foi realizada conforme a adotada nos levantamentos efetuados nacionalmente.* O programa SPSS 9.0 foi utilizado para a análise estatística.

O presente estudo teve a aprovação da Comissão de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso e do Comitê em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina.

 

RESULTADOS

Foram aplicados 3.479 questionários. Não houve recusa alguma; 24 (0,06%) questionários foram anulados por resposta positiva à questão fictícia, referente a substância não psicoativa, 31 (0,89%) por não terem respondido à questão sobre trabalho, 706 (20,3%) por estarem com idade acima de 20 anos. Da amostra mínima requerida (2.572), obteve-se a informação de 2.718 estudantes adolescentes, dos quais 993 foram de trabalhadores e 1.725 para não-trabalhadores, representando 89,4% do previsto. A estimativa oficial do total de estudantes matriculados, com cadastro fornecido pela Secretaria de Estado da Educação de Mato Grosso no ano de 1997, na época, apontava para cerca de 61.889 estudantes. Assim, a amostra estudada contém, aproximadamente, 4,39% do total de estudantes. As informações não obtidas para cada variável não ultrapassaram 3,8% das respostas esperadas.

A Tabela 1 apresenta as características da amostra total dos adolescentes trabalhadores e não-trabalhadores, segundo variáveis sociodemográficas e familiares. Observa-se a predominância de adolescentes do sexo feminino (56,1%), faixa etária de 15-20 anos (55,9%), da religião católica (60,9%), da raça/cor não-branca (64,5%), de nível socioeconômico alto (72,2%), que moram com os pais (62,2%), sem histórico de uso de álcool na família (52,3%). Entre os trabalhadores, observa-se maior proporção de homens (52,8%), na faixa etária de 15-20 anos (75,8%,) enquanto que o grupo de não-trabalhadores compõe-se na sua maioria de mulheres (61,2%) na faixa etária de 10-14 anos (55,7%).

Dos participantes, 1.928 (71,3%) afirmaram fazer o uso de bebidas alcoólicas (Figura 1). A cerveja ou chopp foi à bebida mais consumida, sendo citada pela maioria dos adolescentes. A média de idade de início do uso de bebidas alcoólicas foi aproximadamente aos 13,09 anos (DP=2,66) entre os adolescentes trabalhadores e aos 12,43 anos (DP=2,62) entre os não-trabalhadores.

 

 

A prevalência de consumidores de bebidas alcoólicas na amostra apresenta tendência linear de crescimento segundo o aumento da faixa etária (Figura 2).

 

 

A Figura 1 mostra que a prevalência do uso de álcool entre os trabalhadores (81,0%) foi maior do que entre os não-trabalhadores (65,8), com diferença estatisticamente significante (p<0,001). Tanto entre trabalhadores quanto entre não-trabalhadores, o álcool mostrou-se associado à idade (faixa etária de 15-20 anos), nível socioeconômico alto (A+B+C), não morar com os pais e possuir história de álcool na família (Tabela 2).

Na análise multivariada por regressão logística (RO ajustada), mantiveram-se associados a uso de álcool: maior faixa etária, melhor nível socioeconômico, não morar com os pais e ter história de álcool na família. O sexo deixou de estar associado a consumo de álcool entre os trabalhadores e, entre os não-trabalhadores a religião, sendo esta associada aos adolescentes trabalhadores.

Com relação ao alcoolismo, 365 estudantes responderam positivamente a duas ou mais questões do teste CAGE. Os dados revelaram prevalência de alcoolismo de 13,4% na amostra total, 14,9% entre os trabalhadores e 12,6% entre os não-trabalhadores (Figura 1). Essa diferença não foi estatisticamente significante. Ao contrário do observado para o consumo de álcool, houve predominância de alcoolismo entre os trabalhadores do sexo masculino (16,5%), não adeptos da religião católica (16,4%) e, entre os não-trabalhadores de nível socioeconômico inferior (classes D+E).

Pelo estudo da RO bruta, entre os adolescentes trabalhadores, o nível socioeconômico e história de álcool na família mostraram-se associados ao alcoolismo. Entre os adolescentes não-trabalhadores, o alcoolismo se mostrou associado ao sexo masculino e história de álcool na família. Nas RO ajustadas por regressão logística, a associação com nível socioeconômico privilegiado (classes A+B+C) entre os trabalhadores perdeu a significância estatística. Entre os adolescentes não-trabalhadores, permaneceram associados o sexo masculino e história de álcool na família (Tabela 3).

 

DISCUSSÃO

O delineamento transversal apresenta algumas limitações no que se refere às inferências causais, pois as informações sobre exposição e desfecho são coletadas num mesmo momento. Outras limitações do presente estudo merecem ainda menção. A primeira se relaciona ao problema da comparabilidade com outros estudos, já que são poucas as investigações que têm como objeto o uso de álcool e alcoolismo entre estudantes adolescentes trabalhadores e não-trabalhadores. A segunda diz respeito à utilização do teste CAGE como critério de detecção de alcoolismo, uma vez que se trata de questionário de "rastreamento" e não de diagnóstico.1 A terceira se refere aos possíveis viéses de informação. Mesmo garantindo o anonimato, é possível que alguns alunos não tenham revelado o uso de álcool por desconfiança ou por engano de memória. Embora o questionário aplicado investigue o relato de uso de drogas e não o consumo em si, ele tem sido amplamente utilizado no contexto nacional com bons níveis de concordância. Trata-se de instrumento não validado, por não existir um padrão-ouro para mensurar tais comportamentos entre adolescentes. A perda amostral de 10,5% no grupo de não-trabalhadores, pode ser atribuída a vários fatores, tais como falta do estudante à aula no dia da aplicação do instrumento, evasão escolar e transferências para outra localidade (o que poderia eventualmente estar relacionado ao uso de álcool). Entretanto, o índice de perda amostral não compromete os resultados.

O consumo abusivo de álcool entre adolescentes configura uma questão relevante de saúde pública ao ocasionar freqüentes agravos à saúde do usuário. As prevalências encontradas de uso de bebidas alcoólicas na vida entre os estudantes adolescentes de Cuiabá são elevadas e precoces tanto entre trabalhadores (81,0%) como entre não-trabalhadores (65,8%). Esses dados estão coerentes com os encontrados nos quatro levantamentos realizados no Brasil nos anos de 87, 89 e 97,* acima de 65%. Outro estudo20 encontrou, em população de adolescentes de 12 a 17 anos, prevalência de uso de álcool no último ano de 32,7%.

Com relação ao alcoolismo, estudo realizado no Rio Grande do Sul17 encontrou 8,3% de questionários com CAGE positivos, freqüência menor que a encontrada em Cuiabá na amostra total (13,4%) e entre os adolescentes trabalhadores (14,9%) e não-trabalhadores (12,6%). Esses dados sugerem maior precocidade do consumo de álcool entre os adolescentes aqui estudados.

A situação comportamental de consumo de bebidas alcoólicas provavelmente contribui para o surgimento de estresse e de outros problemas nesse grupo de jovens, sugerindo várias possíveis interpretações, já amplamente discutidas em outros estudos.7,10,12,20 Entre elas, destaca-se a independência econômica que facilitaria o acesso à compra da substância; a necessidade de ser aceito pelo grupo de colegas adultos do trabalho que usam álcool; as atividades laborativas podem ser estressantes aos adolescentes, e eles tentarem aliviar a tensão bebendo; a necessidade do ingresso precoce no trabalho e as extensas horas de trabalho que podem levá-los a ter baixo compromisso para com as atividades escolares; a transição prematura para os papéis de adulto aliada à perda de controle dos pais.

Nos levantamentos e estudos nacionais17,* há um discreto predomínio do consumo de bebidas alcoólicas entre os indivíduos do sexo masculino. Isso não ocorreu com os adolescentes de Cuiabá, onde se observou maior proporção de consumo entre o sexo feminino. O padrão de consumo, segundo o sexo, vem sendo objeto de discussão em estudos envolvendo a epidemiologia do alcoolismo.1 Há de se salientar as conquistas femininas nas últimas décadas, entre elas, além da independência financeira, as adolescentes passaram a ter mais liberdade de freqüentar locais onde se consomem bebidas alcoólicas antes restritas aos homens, comportamentos estes que se acompanham do aumento da prevalência de doenças, anteriormente associadas ao sexo masculino.

Em relação ao alcoolismo, ao contrário dos consumidores de álcool, os homens apresentaram maiores prevalências de positividade para CAGE.

Entre os adolescentes trabalhadores e não-trabalhadores não foram observadas associações significantes entre uso de álcool e grupo racial, embora haja maior proporção de não-brancos, que relataram consumo de álcool.

Com relação a nível socioeconômico, afirma-se que "ao contrário do que se poderia supor, o uso de drogas não é apanágio de nenhuma classe social específica de estudantes".* Na presente investigação, exceto para os adolescentes não-trabalhadores com positividade para CAGE, observou-se associação de alcoolismo e uso de álcool nos níveis socioeconômicos mais elevados (A+B+C). Resultado semelhante foi observado em estudo2 realizado com a população estudantil, onde verificou-se nos níveis socioeconômicos menos favorecidos (C+D) uma redução do uso de álcool comparativamente aos níveis mais altos. Da mesma maneira, dados de outro estudo1 realizado com a população em geral, relata associação entre abstinência e níveis de renda inferiores.

As investigações sobre o uso de álcool, alcoolismo e religião em adolescentes são raras no Brasil. No presente estudo, verificou-se que os estudantes adolescentes católicos trabalhadores e não-trabalhadores apresentaram maiores chances de consumo de álcool. Resultado similar foi encontrado em estudo realizado em Porto Alegre,17 que evidenciou maior proporção de estudantes católicos afirmando terem experimentado bebida alcoólica.

Quanto ao alcoolismo, os dados encontrados indicam que a maior prevalência de positividade para CAGE ocorreu entre adolescentes trabalhadores, não-trabalhadores adeptos de outras religiões, embora sem associação significativa. Da mesma forma, observou-se maior positividade para CAGE entre os estudantes que eram adeptos de outras religiões entre adolescentes de Porto Alegre.17 Esses resultados sugerem a necessidade do conhecimento sobre a forma como as normas de consumo de álcool e abstinência são veiculadas pelas diferentes religiões existentes na sociedade.

Outra questão relacionada ao uso de álcool e ao alcoolismo, destacada por estudiosos da área, é a dos fatores familiares.4,13,19 No presente estudo, não morar com os pais aumentou a chance de consumo de bebidas alcoólicas, tanto entre adolescentes trabalhadores como entre não-trabalhadores. Embora não se trate de usuários de bebidas alcoólicas, mas de tabaco e maconha, estudos com escolares,2 igualmente, verificaram que o risco de uso de ambas as substâncias na vida foi maior para os estudantes que residem com outras pessoas, quando comparadas aos que moram com os próprios pais.

Também se observou maior consumo de álcool e alcoolismo entre os adolescentes com histórico familiar de uso de álcool. Situação semelhante, embora com outros objetivos, foi encontrada em estudos sobre família,13,19 onde filhos de pais alcoólatras apresentam maiores problemas de comportamento quando comparados com os filhos de pais abstinentes do álcool. Isso sugere que o consumo de álcool dos pais poderia ser um fator de risco para o desenvolvimento de dependência nos filhos.

Os dados sobre consumo de bebidas alcoólicas, evidenciados entre os estudantes adolescentes de Cuiabá podem, em grande medida, estar apenas refletindo o status social e cultural do consumo recreacional do álcool. Mesmo assim, o beber excessivo, ainda que não se enquadre na concepção de alcoolismo, sobretudo se precoce, pode direcionar os jovens para esse problema.

Embora o álcool seja uma droga legalizada na sociedade brasileira e seu consumo social seja aceito, não se pode esquecer da existência de leis vigentes, que proíbem a venda de álcool para menores. Essas leis não estão sendo cumpridas e direta ou indiretamente, tem havido estímulo ao consumo por parte das propagandas sobre bebidas alcoólicas. Há necessidade de revisão da legislação sobre a propaganda desses produtos.*

Com referência à variável trabalho, ela se mostrou associada ao uso de álcool, evidenciando a possibilidade de se constituir um fator de chance entre os estudantes. Embora as diferenças não sejam significantes para o alcoolismo, os dados sugerem que o trabalho precoce não "previne" o uso de álcool nessa população. Ao contrário, muitas situações relacionadas a atividades laborativas estimulam o acesso e o consumo, vindo a constituir assim um fator de exposição.

Estudos com diferentes delineamentos devem ser realizados de forma a possibilitar análises mais específicas sobre trabalho, pois além de encontrar altas prevalências de uso de álcool e ocorrência de alcoolismo, observou-se semelhanças e diferenças entre os estudantes adolescentes trabalhadores e não-trabalhadores. Ações de saúde e educação para a população estudantil adolescente devem ser planejadas a fim de diminuir a prevalência e o início precoce do consumo de bebidas alcoólicas.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Delma P. Oliveira de Souza
Rua Safira, 71 Bosque da Saúde
78008-300 Cuiabá, MT, Brasil
E-mail: souzadpo@terra.com.br

Recebido em 21/11/2003. Reapresentado em 31/1/2005. Aprovado em 15/3/2005.
Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT - Processo n. 064/CAP/98).

 

 

* Galduróz JCF, Nodo AR, Carlini EA. IV levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1º e 2º graus em 10 capitais brasileiras, 1997. São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo; 1997. p. 130.
** Souza DPO, Câmara VM, Martins DTO, Valente JG. Confiabilidade do instrumento: construção de questões sobre o trabalho para identificar estudantes adolescentes trabalhadores da rede estadual de ensino de Cuiabá. In: VI Congresso de Saúde Coletiva: O sujeito na Saúde Coletiva 2000. Disponível em URL: http://www.Isc.ufba.br/saúde2000 [12/10/2004]

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