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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.3 Porto Alegre  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721999000300005 

A constituição do mundo psíquico na concepção winnicottiana: uma contribuição à clínica das psicoses

Manoel Antônio dos Santos 1, 2
Universidade de São Paulo

 

 


Resumo
A importância da obra de Winnicott para a psicanálise vem sendo reafirmada nos últimos anos, junto ao seu interesse crescente para o campo das psicoses. O propósito do presente estudo é apresentar as bases teóricas dessa que é uma das abordagens mais fecundas para a compreensão do fenômeno psíquico, não apenas em condições patológicas, como em condições normais de desenvolvimento. Trata-se de um arcabouço conceitual que nos permite pensar a problemática resultante das organizações não edipianas do aparelho psíquico, cujas incidências na clínica contemporânea são cada vez mais freqüentes. Enfoca-se, sobretudo, a gênese da organização psicótica, em suas relações com a constituição do mundo interno e o papel estruturante do objeto e da experiência ilusória no desenvolvimento psíquico.

Palavras-chave: Psicanálise; abordagem winnicottiana; objeto transicional; realidade psíquica; psicoses.

The constitution of the psychic world in winnicott’s conception: A contribution to the clinical treatment of psychosis

Abstract
Over the last few years, the importance of Winnicott’s work for psychoanalysis has been reaffirmed together with its growing interest to the field of psychosis. The purpose of the present study was to present the theoretical basis of this approach, which is one of the most fecund for the understanding of the psychic phenomenon, not only in pathological conditions but also in normal developmental conditions. This is a conceptual framework that allows us to reflect about problems resulting from non-oedipal organization of the psychic apparatus, which incidence in contemporary clinical practice is increasingly frequent. Major emphasis is placed on the genesis of psychotic organization, on its relations to the constitution of the inner world and the structuring role played by the object, and the illusory experience in the psychic development of the human being.

Keywords: Psychoanalysis, winnicottian approach; transitional object; psychic reality; psychosis.


 

 

As contribuições de Winnicott enriqueceram a concepção psicanalítica sobre as bases do desenvolvimento emocional precoce (Winnicott, 1945/1978), principalmente no que concerne ao conceito de fenômenos e objetos transicionais, produzidos em uma área intermediária situada entre o mundo interno e o mundo externo. Winnicott formulou uma concepção sobre a constituição do mundo interno bastante original, afastando-se da doutrina freudiana à medida que não recorre à teoria pulsional. Se para Freud o objeto é pensado como objeto da pulsão (Laplanche & Pontalis, 1967/1983), na vertente winnicottiana o objeto adquire outro estatuto, relacionado à experiência da transicionalidade e não mais à organização pulsional do sujeito.

A importância da obra de Winnicott para a psicanálise vem sendo reafirmada nos últimos anos. Seu interesse para o campo das psicoses, em particular para a investigação da esquizofrenia, tem sido cada vez mais valorizado, à medida que essa patologia é caracterizada essencialmente pelo transtorno do pensamento, e a preocupação com o desenvolvimento da capacidade de pensar por conta própria é um traço distintivo da psicanálise winnicottiana. Winnicott (1963c/1983) considera a esquizofrenia como resultado de certas falhas de construção da personalidade, decorrentes de um ambiente que não pôde ser suficientemente facilitador para ajudar o lactente a atingir várias metas, tais como a integração, a personalização e o desenvolvimento das relações objetais. A esquizofrenia faria parte do quadro das doenças mentais propriamente ditas, isto é, aquelas doenças que não são conseqüência secundária das patologias cerebrais ou de qualquer outra doença orgânica. O termo mental é aqui empregado em sua conotação tradicional, ou seja, excluindo-se as "doenças do cérebro" e as "doenças do corpo".

O presente artigo tem como propósito apresentar a concepção de mundo interno elaborada por Winnicott e sistematizar suas contribuições no que concerne à constituição dos fundamentos da organização psicótica. Tendo em vista esses objetivos, procuraremos ao longo de nossa exposição traçar um paralelo entre os processos normais de estruturação do psiquismo e as suas perturbações correlatas observadas na personalidade psicótica. Procuraremos explicitar, no decorrer de nossa argumentação, o vértice que privilegiamos em nossa leitura, segundo o qual a psicose está ligada à privação emocional em um estádio anterior àquele em que o bebê possa perceber essa privação. Isso acarreta uma interrupção no sentimento de continuidade do existir, que nem sequer é experimentada como tal, dada a indiferenciação em relação ao ambiente.

A teoria winnicottiana acentua o papel do ajustamento defeituoso do ambiente em relação às necessidades da criança, atribuindo um papel secundário à sua reação. Em nossa exposição, procuraremos demonstrar que essa contribuição introduz um pensamento original dentro do referencial psicanalítico, cujas conseqüências tanto conceituais como clínicas necessitam ainda ser pensadas.

 

Os Primórdios do Desenvolvimento Emocional

No quadro de sua teoria do desenvolvimento emocional, Winnicott (1945/1978) enfatiza que no princípio o bebê não constitui uma unidade em si mesmo. A unidade corresponde a uma organização entre o indivíduo e o meio ambiente. A base da saúde mental é estabelecida nos primórdios da infância pelo provimento de cuidados dispensados à criança por uma mãe suficientemente boa. O bebê depende da disponibilidade de um adulto genuinamente preocupado com os seus cuidados, isto é, que possa contribuir para uma adaptação ativa e sensível às necessidades da criança, que a princípio são absolutas. Portanto, a psique só pode ter origem dentro de um determinado enquadre, dentro do qual a criança pode gradualmente vir a criar um meio ambiente pessoal, que a capacitará, mais tarde, a se desembaraçar do mesmo. Para superar esse estado inicial de dependência e atingir a independência, o meio ambiente criado e subjetivado pela criança transforma-se em algo suficientemente semelhante ao ambiente percebido. Essa é uma etapa especialmente delicada do desenvolvimento e de seu sucesso depende o estabelecimento da saúde ou da psicose.

Winnicott (1952/1978) parte do ponto de vista de que a aquisição saudável da posição depressiva no desenvolvimento emocional pressupõe, além de um cuidadoso manejo do desmame, um desenvolvimento anterior adequado. Para compreender as psicoses, precisamos remeter a esses estádios mais primordiais da psique. A desilusão, para Winnicott (1952/1978), é um fenômeno mais amplo que antecede ao desmame. Enquanto o desmame implica uma alimentação bem-sucedida, a desilusão está relacionada ao fornecimento adequado de "oportunidades para ilusão". Ou seja, a mãe deve inicialmente fornecer ao bebê a ilusão de que o que ele cria está mesmo lá para ser encontrado.

O desenvolvimento saudável está relacionado ao estabelecimento de uma tendência à redução dos estados esquizóides nos momentos iniciais da vida, quando o bebê está sendo gradualmente introduzido à realidade externa. Para Klein (1946/1982), o amor e a compreensão materna são capazes de reduzir os estados de desintegração que a criança normalmente vivencia. Winnicott (1952/1978) avança por essa trilha, mostrando a necessidade de uma mãe-ambiente que exerça uma função altamente especializada no início do desenvolvimento. A dedicação materna, tanto do ponto de vista físico (através do holding) como psicológico (através da relação empática e da adaptação sensível às necessidades do bebê), funciona como uma espécie de membrana protetora que viabiliza o isolamento primário, fundamental para que se articule um espaço psíquico.

Em outras palavras, através de uma adaptação ativa às necessidades da criança, o meio ambiente a torna capaz de permanecer em um estado de isolamento imperturbado, ocupando um espaço em que ela possa desenvolver sua vida de fantasia – um mundo secreto sentido como só seu, onde mais tarde vai se alojar um aparelho psíquico e uma organização dos processos de pensamento. O bebê, que não tem consciência desse suprimento por parte do objeto, entrega-se à fruição de um movimento espontâneo. Se tudo correr bem, o meio ambiente é descoberto, sem que haja uma perda do sentido de self.

Quando, entretanto, ocorre uma adaptação falha às necessidades da criança, e isso a obriga a reagir a essa experiência – sentida como invasiva –, o sentido do self se perde. A criança se afunda no não-senso, isto é, na impossibilidade de atribuir significado, nomear e organizar as experiências sensoriais e o próprio corpo, devido à fenda profunda que o atravessa. Nesse caso, a criança reage a essa experiência traumática retornando ao estado inicial de isolamento.

À medida que se reitera a experiência de uma adaptação não suficientemente boa, começa a ser produzida uma distorção psicótica da organização meio ambiente-indivíduo. As relações com os objetos produzem, sucessivamente, a perda do sentido de integridade do self, de modo que, para recuperá-lo, o indivíduo é obrigado a recorrer cada vez mais ao retorno ao isolamento primário. Essa operação vai adquirindo um caráter crescente de organização defensiva como repúdio à invasão ambiental. O self pode ser esmagado no espaço da realidade que ele nunca alcança e da subjetividade que carece de sentido.

O fracasso ambiental nesse ponto do desenvolvimento acirra o potencial paranóide. O bebê se vê obrigado a se defender de intensas ansiedades paranóides, e para tanto organiza defesas igualmente vigorosas. Além disso, recolhe-se para seu próprio mundo interno (introversão patológica), um mundo que ainda não está bem organizado. Para se livrar da perseguição do ambiente, deixa de adquirir o status de unidade, "renunciando" ao compromisso de crescer e conquistar sua própria autonomia.

Essa é a versão pessoal que Winnicott (1952/1978) dá para o conceito de posição esquizoparanóide descrito por Klein (1946/1982). Nela introduz, contudo, uma diferença fundamental em relação ao pensamento kleiniano, que ele não deixa de acentuar: é o fracasso ambiental nos primórdios do desenvolvimento que leva à edificação dessa organização defensiva, e não um suposto impulso de auto-aniquilamento, um sadismo destrutivo inato ou qualquer tendência que possa ser atribuída à hereditariedade (loparic, 1996). Nesse ponto, podemos detectar a dissensão de Winnicott (1945/1978; 1952/1978) em relação à importância que Klein (1946/1982; 1957/1974) atribui à herança filogenética, aos precursores do ódio e aos prenúncios da inveja, como constituintes da matriz de impulsos, defesas e ansiedades primitivas. Segundo Loparic (1996), para Winnicott esses fenômenos não têm raízes em profundezas oceânicas, nem são tão inevitáveis assim na história dos seres humanos. Parafrasendo a famosa frase atribuída ao poeta francês Paul Valéry, também para Winnicott "o mais profundo é a pele".

 

Uma Teoria do Amadurecimento Humano

Winnicott (1963c/1983) considera que, para compreendermos as desordens do tipo da esquizofrenia, é necessário examinarmos os processos de maturação nos estágios iniciais do desenvolvimento emocional, uma época em que muito desse desenvolvimento está se iniciando e nenhum processo se completando. Nesse momento, as tendências básicas correspondem à maturação e à dependência.

A psicanálise winnicottiana implica uma teoria do amadurecimento humano. Como vimos, as bases da saúde mental do indivíduo são estabelecidas nos estádios iniciais do desenvolvimento, e envolvem basicamente os processos de maturação, que são tendências herdadas, e as condições ambientais necessárias para que eles se realizem (Winnicott, 1963b/1983). Mas não é o ambiente que faz o bebê crescer, nem determina o sentido desse crescimento, mas apenas facilita, quando for suficientemente bom, o processo de maturação.A única herança admitida por Winnicott é o potencial inato para o amadurecimento, que ocorre entre dois estados de não-vida 3. Toda a existência decorre nesse intervalo entre o não-ser e o ser, na luta do indivíduo para não sucumbir aos estados de dissolução e estender, ao longo do tempo, a continuidade do seu ser, mediante o funcionamento do processo maturacional.

Essa continuidade não pode ser assegurada pelo indivíduo por si só, mas depende de um meio ambiente facilitador. Por conseguinte, a falha da provisão básica inicial perturba os processos de maturação, barrando o crescimento emocional da criança. Nesse sentido, o que constitui a etiologia das psicoses, em particular da esquizofrenia, é uma falha do processo de maturação e integração. "Psicose é uma doença de deficiência do ambiente" (Winnicott, 1963b/1983, p. 231) 4. Isso não deve ser entendido como a presença de experiências traumáticas severas ou a ocorrência de eventos adversos durante a primeira infância 5. O ponto central é que essas falhas são imprevisíveis. Elas não podem ser consideradas pelo bebê como projeções, porque ele ainda não atingiu um estado tal em que a estrutura de ego torne possível atribuir ao ambiente a produção desses fracassos, já que não há uma oposição inicial entre o externo e o interno 6. O resultado mais marcante das falhas ambientais é um sentimento permanente de aniquilamento e pânico que toma conta do bebê. A continuidade de sua existência é subitamente interrompida Loparic, 1996).

Winnicott (1963c/1983) chama essas falhas da provisão básica de privação, opondo esse conceito ao de perda, já que, ao tratar das psicoses, ele não se refere àqueles casos intermediários, em que a provisão ambiental é boa de início (logo, há uma mãe que evita esse tipo de deficiência em um primeiro momento), e depois falha em um estádio em que a criança ainda não foi capaz de estabelecer um ambiente interno que lhe permita ficar independente. Isso é uma perda e não leva à psicose. O que mostra que a psicose não pode ser explicada no quadro da função sexual.

O complexo de Édipo é uma função do amadurecimento, e não o inverso (Loparic, 1996). E pode ocorrer de ele nem se formar, ou que os efeitos da situação edípica não incidam sobre o indivíduo, a tal ponto que o complexo possa ser sentido como tal. Por essa visão, o que especifica a condição humana não é o fato de sermos, desde o início, um Édipo em potencial (Loparic, 1996), mas de sermos seres frágeis, finitos, que precisam de um outro ser humano para continuar existindo. A sofisticada metapsicologia freudiana, apesar de todo o seu aparato dinâmico e estrutural, tem um poder limitado para explicar os transtornos nos quais incidem as angústias impensáveis, que cada vez mais têm se transformado no paradigma da demanda de tratamento na época contemporânea.

Essa afirmação não se baseia em dados de pesquisa, ainda não disponíveis nessa área, mas em observações não sistemáticas oriundas da experiência clínica de psicanalistas como Alvarez (1994) e Zimerman (1999), que têm constatado que "...a maioria das pessoas que hoje procura análise apresenta importantes problemas caracterológicos, de baixa auto-estima e de prejuízo do sentimento de identidade, derivados da permanência de um estado depressivo subjacente, muitas vezes resultantes das primitivas feridas narcisísticas" (Zimerman, 1999, p. 312). Como ressalta Loparic (1996), é preciso buscar novos modelos explicativos para lidar com esses casos que interrogam os limites da psicanálise, uma vez que a metapsicologia não é capaz de, por si só, elucidar a essência trágica do homem contemporâneo, com sua existência fraturada e descontínua.

Desse modo, investigando as particularidades dos fenômenos que têm origem nesses estádios mais elementares do existir humano, segundo Loparic (1996), Winnicott rejeita a idéia do conflito edípico como motor do desenvolvimento psíquico e fonte precoce das neuroses. O que move o bebê, segundo ele, é o próprio fato de estar vivo. O bebê não deseja incorporar a mãe, e muito menos castrar o pai (Winnicott, 1987/1990). Tudo o que ele anseia é a presença reasseguradora da mãe, que lhe inspire uma confiança básica em si mesmo e no mundo. Somente quando o seu contato com a mãe-ambiente for satisfatório, o bebê poderá adquirir a capacidade de usar os seus mecanismos mentais.

 

As Angústias Impensáveis

De acordo com Loparic (1996), Winnicott, em sua obra, reconheceu que nas psicoses e em outros distúrbios severos correlatos as angústias maciças não parecem se enquadrar no clássico modelo da regressão aos pontos de fixação pré-genitais, vinculadas ao conflito edípico mal resolvido (ver também Winnicott, 1955/1978). Nesses pacientes, não é possível identificar a origem da problemática em termos de dificuldades de resolução de um complexo de Édipo plenamente desenvolvido. Ainda que tenha acatado, inicialmente, as reformulações kleinianas em termos da posição depressiva, Winnicott acabou se convencendo da existência de problemas iniciais do desenvolvimento humano que desencadeiam o que ele denominou de angústias impensáveis, que não podem ser entendidas por meio da concepção edipiana 7.

Segundo Loparic (1996), são angústias relacionadas não à função sexual, mas às múltiplas ameaças ao sentimento de existir que assolam o bebê, tais como o temor do retorno a um estado de não-integração (levando ao aniquilamento e à ruptura da linha de continuidade do ser), o medo da perda de contato com a realidade e o temor da desorientação no espaço, o pânico do desalojamento do próprio corpo (o despencar no vazio) e de um ambiente físico imprevisível, etc. Essas angústias primárias são impensáveis porque não podem ser definidas em termos de relações pulsionais de objeto, baseadas no modelo representacional (isto é, relações mediadas por representações de objeto, ou seja, representações mentais). Ocorre que tais angústias não acedem à percepção, nem chegam a ter um estatuto de fantasia, e à medida que não ganham conteúdo representacional, são impedidas de alcançar a simbolização.

Essas angústias eclodem em uma etapa bastante precoce da vida, antes que tenha sido claramente configurado um sujeito capaz de experimentá-las como algo interno. Os estados que as originam precedem, portanto, ao início da atividade dos mecanismos mentais e das forças pulsionais, o que implica que essas angústias não possam ser compreendidas em termos do conflito gerado pela situação edípica. Pode-se, então, interrogar sobre sua verdadeira origem. Essas angústias assaltam a mente do bebê em um estágio do desenvolvimento primário quando há o encontro com um mundo sentido como incompreensível.

Ou seja, tudo começa com o nascimento, que é um problema fundamentalmente do bebê, não da mãe (Loparic, 1996). E o bebê, como tal, não existe no início, segundo a conhecida expressão de Winnicott (1971/1975). Há apenas uma configuração inicial e indissolúvel, formada pelo bebê e o ambiente, do qual a criança não se diferencia. Isso porque nenhuma distinção primordial entre o interno e o externo é pressuposta, como em Melanie Klein. O que para Klein constitui o bom objeto (seio bom), para Winnicott resume-se tão somente à maternagem acompanhada da amamentação. Em contrapartida, não existe algo semelhante a um mau objeto (seio mau), alvo de sucessivos ataques desferidos pela criança. E, à medida que não há noção de exterioridade, não se pode falar de mecanismos de projeção ou introjeção operando desde o nascimento. Só é possível projetar se há um continente para acolher a projeção. Em uma situação como essa, o bebê não pode sentir ódio pelo objeto, pois não sabe o que é possuir algo diferente de si mesmo. A própria capacidade de possuir e de usar o objeto (evolução da "relação de objeto" para o "uso do objeto") deve ser construída na relação satisfatória com a mãe-ambiente (Winnicott, 1969/1975a).

Para Klein (1946/1982), a ênfase está posta no interno, enquanto que para Freud (segundo Pereda, 1997) a angústia é sempre marcada pela carência dos primórdios e pela perda do objeto (ou nas fantasias de castração). Ou seja, se em Klein importa a pulsão de morte, em Freud contam as perdas. Já Winnicott (segundo Pereda, 1997) introduz a importância radical do outro no processo de estruturação da subjetividade, rompendo com a dicotomia interno-externo.

"O que ele descreve em sua transicionalidade é a perda do objeto para que surja o sujeito. Objeto que ‘demora’ em sua representação mais autônoma (disponibilidade da representação), que se encarna nele perdendo-se (metáfora a meio caminho, que é objeto transicional), mas que finalmente desaparece e marcará com isto a simbolização mais acabadamente realizada e a disponibilidade da fantasia" (Pereda, 1997, p. 85).

Talvez o que sobreviva não seja o objeto (que existe para ser "morto"), mas o sujeito marcado pela perda ou pela destruição do objeto, testemunhando o aparecimento da fantasia, como uma "metáfora viva" que dá acesso ao pensamento e à cultura. Winnicott destaca que no estabelecimento da alteridade algo se perde ao se adquirir essa conquista. Já as falhas e distorções do brincar (processo simbólico) levam à formação de formações e divisões que se estruturam em pseudo-identificações, na linha do falso self. As perturbações ou a detenção do brincar criam condições para o desenvolvimento de patologias infantis e a base para os transtornos do adulto.

 

A Experiência Ilusória e o Advento do Objeto Transicional

O êxito do desenvolvimento, que permite avançar no sentido do objeto percebido como exterior ao self, está intimamente ligado à capacidade da criança de se sentir real. Essa capacidade tem ainda que se harmonizar com a noção de se sentir real no mundo e de sentir que o próprio mundo é real. O esquizofrênico não pode alcançar um sentimento de realidade no mundo particular das relações que ele mantém com seus objetos subjetivos. Nesse sentido, os sentimentos de desrealização e a perda do contato com a realidade compartilhada representam o oposto da tendência maturativa.

No decorrer do desenvolvimento psíquico normal, a adaptação ativa que a mãe propicia, procurando atender às necessidades que variam de acordo com as diferentes etapas do desenvolvimento, nutre o potencial criativo da criança. Isso origina uma prontidão para a alucinação. O amor e a compreensão proporcionam a identificação da mãe às necessidades do bebê, a ponto de ela fornecer-lhe algo além do alimento, que é a possibilidade de usar criativamente seu potencial para alucinar o seio provedor. A repetição dessa experiência desencadeia a habilidade do bebê de usar o recurso da ilusão, sem a qual é impossível o contato entre a psique e o meio ambiente. Isso permite que o bebê construa, nesse espaço de ilusionamento propiciado pela mãe, um objeto que o console e lhe dê conforto: o objeto transicional (Winnicott, 1951/1978).

Esse objeto pode ser materializado em qualquer suporte da realidade, como o polegar, a ponta de uma manta, um urso de pelúcia ou uma boneca de pano, já que o que importa é a função que ele desempenha e não o objeto em si. Desse modo, entre a realidade externa e a realidade subjetiva, que de início são incomunicáveis e imissíveis, funda-se um campo intermediário de ilusão. Para o bebê, significa uma zona de compromisso que não é contestada quanto ao fato de pertencer ao mundo puramente subjetivo ou ao território da realidade compartilhada.

É nessa área constituída pelo jogo e pelo fantasiar que a criança pode colocar em uso o sonho e os seus impulsos de vida e, através desses recursos, começar a manipular a realidade externa, modelando-a de acordo com suas necessidades e possibilidades de assimilação8. O fato é que o adulto, porque intui essa verdade, concede ao bebê licença para que ele exercite à vontade "essa loucura". Só gradualmente exige que ele discrimine entre a realidade subjetiva e a realidade compartilhada. Essa indulgência dos pais, uma espécie de "moratória" do juízo crítico da realidade, prolonga-se na vida adulta, quando se manifesta no campo cultural sob a forma de arte e religião, por exemplo. Nessas áreas, de que todos necessitamos, também se observa esse "descanso do teste de realidade e da aceitação da necessidade" (Winnicott, 1951/1978, p. 382).

As manifestações geralmente reconhecidas como psicóticas nascem de uma tendência à clivagem básica na organização meio ambiente-indivíduo, desencadeada como uma reação a experiências de fracasso da adaptação ativa do ambiente inicial. A extrema clivagem faz com que a vida interior – o mundo particular de fantasias do indivíduo, contenha poucos elementos derivados da realidade externa. A vida secreta torna-se, assim, incomunicável. O indivíduo se deixa levar por uma vida falsa, e essa submissão a um ambiente sedutor acaba por produzir um falso self, em que as pulsões ficam do lado do meio ambiente sedutor, traindo a verdadeira natureza humana. Com isso, o indivíduo não consegue atingir uma autêntica maturidade, que é substituída por uma pseudomaturidade, em um meio ambiente psicótico.

A impossibilidade de configurar uma área segura para desenvolver o fantasiar impede o bebê de conviver com o segredo, necessário para que ele se sinta fortalecido o suficiente para deixar, em segurança, a proteção do isolamento primário. O campo transicional não se constitui como tal, impedindo que a criança flutue para dentro e para fora do seu mundo interno, de acordo com suas necessidades.

Winnicott (1952/1978) chama a atenção para o papel que os processos intelectuais assumem nessa época. Através deles, os fracassos do meio ambiente podem ser gradualmente levados em conta e tolerados. Eles funcionam como um elo de ligação entre a adaptação incompleta e a completa, permitindo ao indivíduo preencher a lacuna existente entre ambas e assim obter uma compensação para as falhas ambientais. Desse modo, através desse mecanismo propiciado pelos processos cognitivos que é o fantasiar, uma adaptação não suficientemente boa pode se transformar em uma adaptação suficientemente boa - o que nos remete à descrição de Freud (1920/1969) sobre o bebê que, através do jogo e da fantasia, encontra um meio de transformar uma experiência desagradável em uma atividade prazerosa. O brincar "verdadeiro" permite ampliar a compreensão do processo simbólico e de sua função, através da representação, conceito essencial também na formulação freudiana – basta pensar no jogo do carretel, que instala um fenômeno novo em que imagem e palavra se amalgamam.

Se o ambiente se comporta de modo uniforme, tanto mais fácil será essa tarefa que a criança tem de estruturar. Já uma adaptação variável (meio ambiente imprevisível e pouco sensível) tende a ser traumática, anulando o efeito positivo dos períodos de adaptação adequada. Winnicott (1952/1978) afirma que uma capacidade intelectual restrita induz maiores dificuldades nessa tarefa de transformação dos traumas resultantes da adaptação insuficiente às necessidades. Disso resultam as psicoses comuns nos deficientes mentais.

Por outro lado, também se observa que um indivíduo com uma elevada potencialidade cognitiva, que o capacita a lidar com sérios fracassos na adaptação à necessidade, pode desenvolver um tipo de distorção da personalidade que Winnicott (1960/1983) denomina falso self, juntamente com uma perversão da atividade mental, à medida que ela é utilizada contra a psique. A hipertrofia dos processos intelectuais, nesses casos, corresponderia a uma reação defensiva contra um colapso esquizofrênico potencial. A atividade de pensamento acaba por se tornar inimiga da psique.

 

O Verdadeiro e o Falso Self

Mannoni (1970, p. 90) mostra que falso e verdadeiro self não são "dois tipos de personalidades (...), mas uma bipolaridade em um mesmo indivíduo", sendo que a função primordial do falso self é precisamente ocultar e proteger o self verdadeiro. Assim, ambos permanecem como vicissitudes naturais de expressão da vida psíquica (Pereda, 1997).

Ao formular a questão da constituição do self verdadeiro e falso, Winnicott (1960/1983) evidencia que o elemento autêntico no self constrói-se sobre a identificação com o objeto, ali onde se constitui um campo relacional, de onde a criança vai emergir como sujeito caso se aceite o paradoxo de que o objeto está ali porque ela o criou magicamente, ao passo que o falso self se constrói sobre a base do submetimento, quando o gesto espontâneo não pôde ser acolhido.

Winnicott (1960/1983) inscreve na patologia do falso self um amplo leque de doenças, como as psicoses, os quadros borderline, a depressão e o suicídio. De um modo geral, nas enfermidades, incluindo-se aí as neuroses, encontram-se presentes os aspectos menos autênticos (mais falsos) da personalidade: "O autêntico fica do lado do verdadeiro: a saúde, a cultura, a criatividade", o que contrasta com a proposta freudiana de que as mais nobres qualidades humanas são feitas do mesmo estofo que os vícios" (Pereda, 1997, p. 81).

Por outro lado, o verdadeiro self não surge como resultado do conflito, mas previamente. É uma área não reativa, talvez primária e livre de conflitos, celeiro de possibilidades da evolução espontânea na fecunda tessitura da trama subjetiva. Pode-se fazer uma aproximação entre a noção winnicottiana de que o self encontra-se situado no corpo com a gênese do ego como um ego corporal, projeção mental da superfície do corpo, conforme a descrição de Freud (1923/1969). Mas nunca é demais lembrar que talvez não existam equivalências possíveis e que a maioria dos conceitos não se harmonizam e dificilmente podem ser enquadrados na metapsicologia habitual. A propósito, a elucidação de determinadas noções é lenta e complexa, devido às suas múltiplas conceituações e usos, e a distintas visões do aparelho psíquico, que não se harmonizam com as noções conhecidas, como as da metapsicologia tradicional. Além do que é necessário ter muita cautela quando se faz uma confrontação de modelos teóricos em psicanálise e respeitar as diferenças conceituais existentes entre os diversos autores e suas teorias inspiradas em bases epistemológicas distintas.

O encontro com o objeto é uma potencialidade, como vimos anteriormente, que dará um sentido ao gesto espontâneo do bebê e validará (ou não) o "ser verdadeiro em potência" (Winnicott, 1971/1975). A mãe, portanto, é vista sempre em sua dimensão potencial, "e esta mãe compreendida como entorno ou como semelhante se afasta dos objetos parciais" (Pereda, 1997, p. 82), marcando aí um novo contraste entre a teoria winnicottiana e o pensamento freudiano e kleiniano.

Assim, a fonte do gesto espontâneo – aquele que expressa um impulso genuíno, expresso através de um gesto, ato ou balbucio – , é o self verdadeiro potencial, mas também o ser espontâneo representa o ser verdadeiro em ação, que se dirige ao outro, o qual percebe e dá lugar a que o gesto se realize. Como diz Pereda (1997, p. 87): "Quase poderíamos dizer que o self verdadeiro é o resultado de um encontro simbolizado".

A mãe suficientemente boa como função materna, que responde à onipotência do bebê e de certo modo lhe dá sentido, como diz Winnicott (1971/1975c) em O brincar e a realidade, tem também uma função simbólica, à medida que outorga sentidos imaginários e, simultaneamente, tem de se fazer falhante na sua capacidade de dar resposta, embora deva introduzir a falha de modo gradual. É necessário que ela suporte profundamente e sustente por um bom tempo – o tempo suficiente – o gesto através do qual o desejo da criança tenta se escrever com o corpo.

Winnicott (1971/1975) descreve, em contrapartida, a mãe que não responde ao gesto espontâneo, mas que, em vez disso, coloca ali seu próprio gesto, levando à submissão do bebê. Em O Brincar e a Realidade lemos que o que cobra realidade é o gesto ou a alucinação do bebê e sua capacidade para utilizar um símbolo é o resultado desse processo. Se o anseio que esse gesto expressa não pode ser alcançado (alucinação não gratificada), ele é reiterado, ou aparece o grito, testemunhando uma ausência. O gesto retorna, então, como símbolo, resultado de uma perda que acontece no encontro materno. E ali está o paradoxo que existe em torno da criação do objeto e, por fim, na constituição do self, objeto que é encontrado para ser criado (Pereda, 1997).

A constituição do falso self surge também como uma defesa paradoxal, solução de continuidade que vem preservar a continuidade do ser no self verdadeiro ameaçado. Com a organização do falso self, o sujeito almeja proteger o self verdadeiro de novos ataques. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência baseada na resignação, na qual importa sobreviver em vez de viver. Proteção contra a regressão a estados de não-integração, testemunhando o esforço que demanda ao self esta tarefa de unificação, de manter separado o que é ego do que não é. É a função materna que garantirá a continuidade do sentimento de existir da criança e evitará a reação que resultará na dissociação, culminando com a organização de um falso self.

 

Fundação do Campo Transicional: Os Efeitos do Paradoxo Aceito

Com sua concepção do verdadeiro e falso self, Winnicott (1960/1983) afasta-se da perspectiva topológica. Contudo, embora a teoria winnicottiana não acate a noção freudiana de conflito como eixo do funcionamento psíquico, resgata a importância do papel do outro na constituição subjetiva. O outro como campo de possibilidade simbólica de organização psíquica.

Winnicott (1951/1978) soube reconhecer o papel necessário e estruturante da ilusão. O espaço transicional produz um tipo particular de objetos, que são modelados pelos desejos. Esse espaço obedece a um pensamento paradoxal, cuja característica essencial é escapar da dicotomia instaurada pela atribuição do juízo de existência, que opõe o ser e o não-ser sob a primazia do princípio de realidade. Esses objetos materializam os efeitos de uma suspensão de juízo em relação à realidade. Do ponto de vista da criança, esses objetos criados são e não são o que representam. Essa noção introduz algo de novo no conceito de equivalência que, por exemplo, está subjacente às teorias sobre a formação do símbolo e da capacidade representacional (por exemplo, a homologia entre um determinado aspecto da experiência corporal e um símbolo).

Green (1994) especula que esse conceito talvez acrescente um terceiro tipo de processo, que viria completar a clássica oposição entre processos primários e processos secundários, propondo designá-los como processos terciários. Esses processos serviriam de agentes de ligação entre os primários e os secundários, que estão sempre em perpétua interação. No campo cultural, por exemplo, o mito desempenha essa função de ligação social entre a realidade subjetiva, absolutamente singular e impermeável, e a realidade exterior, coletiva e compartilhada. Green propõe que pensemos o mito como um objeto transicional coletivo. Isso nos permite compreender melhor a noção de transicionalidade.

O mito, tal qual o brincar, coloca em jogo uma forma de lógica que não pode ser formulada nos termos da lógica da não-contradição, da linguagem binária dos filósofos. É uma lógica do equívoco e da ambigüidade, em vez da lógica do sim-ou-não. Um mito é e não é real, pertence à categoria da ilusão. Como todo objeto transicional, não deve ser interpretado ao pé da letra, mas como construções as quais não se concede a menor crença, uma vez que elas não a reivindicam para operarem sua eficácia simbólica e desempenharem sua função reguladora. Contudo, o consenso lhe concede uma existência inegável, reconhecendo seu valor intrínseco.

Desse modo, o mito se liga tanto à realidade psíquica, pelas relações que mantém com o sonho e a fantasia (ou seja, com um sentido inconsciente), como à realidade compartilhada por toda uma sociedade, modulada pelos desejos coletivos.

Assim, a contribuição que Winnicott (1952/1978; 1962/1983; 1963b/1983) trouxe à problemática da representação nas psicoses parte da apropriação que ele faz da noção freudiana de que as origens do mundo psíquico remetem à construção de um espaço para a fantasia. Não é sem razão que todo o seu trabalho é atravessado por uma preocupação que remonta às origens da criatividade. Para desenvolver suas pesquisas, ele construiu um aparato conceitual bastante engenhoso, que tem sua base na noção de espaço, objeto e fenômenos transicionais (Winnicott, 1951/1978).

O campo transicional é constituído, como vimos, no desdobramento entre o subjetivo e o objetivo. Os objetos e fenômenos transicionais pertencem ao domínio da ilusão, que está na base do início das experiências que marcam o desenvolvimento emocional precoce. É o campo da experimentação intensa e da ilusão por excelência, sustentado por um paradoxo que, ao longo do processo de desenvolvimento da criança, deve ser aceito e respeitado (Winnicott, 1951/1978). Trata-se da relação da criança com sua primeira possessão não-eu (objeto transicional), que está ligada tanto ao objeto externo (seio materno), quanto aos objetos internos (seio magicamente introjetado), porém é diferente de ambos. Daí seu paradoxo.

O objeto transicional sinaliza a transição do bebê desde um estado de fusão com a mãe até um estado em que ele está em relação com ela como um objeto externo e destacado. Mas, para que a criança evolua desse estado de dependência absoluta, essencial nos estádios mais primitivos, para uma condição de autonomia possível, é preciso que ela primeiro tenha se certificado de que pode existir algo que não faz parte dela – o que Winnicott (1951/1978) chama de primeira possessão não-eu, representada pelo objeto transicional.

Winnicott (1951/1978) diz que os fenômenos transicionais são permissíveis ao bebê porque os pais reconhecem intuitivamente a tensão inerente à percepção objetiva, e não contestam o bebê acerca da subjetividade ou da objetividade desses fenômenos, exatamente neste ponto onde está situado o objeto transicional. Esse primeiro estádio do desenvolvimento depende, assim, da capacidade especial da mãe de efetuar as adaptações às necessidades do bebê, sustentando a ilusão de que aquilo que ele cria realmente existe. Esse paradoxo não deve ser resolvido. Só assim o bebê estará capacitado a suportar as situações precoces de separação, de perda e privação, sem o que o desenvolvimento psíquico fica comprometido, dando margem para a instalação de algum núcleo patológico.

Assim, o paradoxo aceito pode ter um valor positivo, conduzindo ao desenvolvimento de uma organização defensiva do Eu (um self verdadeiro). O adulto psiquicamente saudável seria aquele capaz de extrair prazer desta área pessoal intermediária, sem reivindicar do outro a aceitação da objetividade de seus fenômenos subjetivos. Isso porque ele sabe que essa área, de fato, faz parte de um jogo, o jogo possível com a realidade (Chabert, 1993). Assim, ele favorece na criança o reconhecimento gradual de suas próprias áreas intermediárias de experiência. Reconhecimento que exige, a princípio, que elas não sejam contestadas quanto a pertencer à realidade interna ou externa (realidade compartilhada), para que a vida imaginativa possa ser fortalecida o suficiente, antes de começar a ser proporcionado à criança o "desilusionamento".

Desse modo, na presença de condições favoráveis, à medida que se desenvolvem os interesses culturais, o objeto transicional do bebê vai sendo gradualmente desinvestido, embora uma parte desta área intermediária de experimentação seja conservada na vida adulta no plano das artes, da religião, das ciências e de todas as manifestações criativas do ser humano (Green, 1978/1988).

 

A Capacidade para Estar Só e o Jogo Possível com a Realidade

Segundo Winnicott (1958/1983), a capacidade para estar só depende da criação de um espaço de solidão na presença da mãe, porém como se ela não estivesse realmente lá. Entretanto, é preciso que ela esteja lá de fato, para que a criança possa experienciar o sentimento do ausentar-se. É necessário guardar uma distância ótima da figura materna, o que significa que ela deve estar suficientemente próxima e suficientemente distante. A criação de um espaço de solidão torna possível a elaboração fantasmática. Portanto, o fracasso na constituição dessa área de solidão, seja por excesso de ausência ou por presença em demasia do objeto materno, produziria uma paralisia na atividade de pensar. Sabemos que a paralisia do pensamento é uma característica muito comum dos pacientes psicóticos. Essa estagnação tem sua origem na falência precoce da organização de um espaço de intimidade psíquica, que serviria de continente que abrigaria os pensamentos e a própria atividade do pensar.

A situação do brincar - da qual a situação analítica pode ser vista como uma variante -, solicita o arranjo de um espaço de solidão, isto é, apela para esta possibilidade de uma "meditação associativa em presença do outro" - no caso da situação clínica, o psicólogo ou o psicoterapeuta (Chabert, 1993). Aí se constitui um campo de experiência, em que podemos observar a capacidade do sujeito para situar-se em uma área transicional, o que permite apreciar a qualidade da distância que ele assume em relação ao objeto. Dessa distância depende, fundamentalmente, a capacidade do sujeito de jogar com o real, isto é, de manejá-lo de maneira eficiente, através de representações que são construídas de acordo com as necessidades de seu mundo interno.

As eventuais falhas no uso desse campo transicional nos permitem estimar as potencialidades do indivíduo, em termos de saber qual é, para ele, o jogo possível com a realidade, e se esse jogo lhe permite alcançar, ou não, o pensamento verdadeiramente criativo. O nível de eficácia do funcionamento psíquico dependeria da medida em que o paciente se mostra capaz de utilizar esse espaço transicional, no qual possa, simultaneamente, se auto-representar e representar o objeto. É justamente a perda da possibilidade de pensar secretamente que está no fundamento da psicose, e é contra suas conseqüências que o delírio se insurge e tenta lutar.

O equilíbrio psíquico depende da possibilidade de se preservar um prazer em pensar que derive, primariamente, do puro prazer de criar esse pensamento. A impossibilidade de constituição segura de um espaço de solidão e de um espaço transicional, precursores do continente psíquico que abrigaria os elementos oníricos, tem conseqüências decisivas para o destino do sujeito. Devido às falhas na capacidade de simbolização decorrentes, o sujeito não consegue constituir um objeto da realidade psíquica vinculada ao corpo, nem limitar um espaço pessoal interno que o contenha. Os sonhos passam a ter apenas uma função evacuatória (Green, 1975/1988). As fantasias são produtos de uma atividade compulsiva, destinada apenas a preencher maniacamente um vazio insuportável, decorrente da falta de linearidade do espaço e do tempo (Winnicott, 1971/1975). Os afetos não adquirem uma função representativa (Green, 1973). As ações já não mais têm a capacidade de transformar a realidade, e freqüentemente servem apenas para aliviar o aparelho psíquico de um quantum intolerável de estímulos e excitações, gerado pela impossibilidade de reduzir a quantidade maciça de afetos, que não puderam ser elaborados pelo pensamento.

 

Implicações para uma Intervenção Psicanalítica nas Psicoses

Discutimos, anteriormente, o desenvolvimento de uma organização defensiva como repúdio à invasão do meio. Esse tipo de perturbação vai exigir um tipo de psicoterapia que forneça uma adaptação ativa ao indivíduo, e que respeite a noção de processo, isto é, que procure atender à necessidade de construção gradual das diferentes etapas do desenvolvimento. Os psicóticos precisam ser alimentados em seu potencial criativo, que se origina do contato com a realidade psíquica e suas necessidades de suprimento.

Com vistas ao tratamento desses casos, Winnicott (1955/1978; 1963/1983a; 1963/1983b) apregoa uma aplicação mais ampla da técnica psicanalítica, desde que o analista aceite a mudança na teoria da etiologia dos distúrbios, que por sua vez implica a necessidade de modificação da técnica clássica. O tratamento pode ter êxito, mas somente se a atuação do analista não ficar confinada à relação transferencial. A técnica analítica clássica continua sendo válida, mas sua aplicação deve ser limitada aos casos para os quais ela foi concebida, "de modo que a interpretação possa ser feita, se o paciente está preparado para interpretações desse tipo" (Winnicott, 1963/1983b, p. 210). Em contrapartida, o psicanalista que deseja trabalhar no campo das psicoses deve saber que sua técnica terapêutica tende a ser inócua nesses casos, a menos que ele aceite sair de seu papel em momentos apropriados. O analista deveria efetuar um tal manejo da situação analítica de modo a procurar suprir aquelas falhas do ambiente que comprometeram o desenvolvimento psíquico, fornecendo a provisão necessária para a evolução do self e, conseqüentemente, diminuindo a necessidade do paciente recorrer às defesas primitivas.

O significado do conceito de regressão na metapsicologia mudou desde Freud (Winnicott, 1959-64/1983). Ele já não implica um retorno a fases mais precoces da vida pulsional e a determinados pontos de fixação. Essa visão corresponde a uma ênfase excessiva que era dada aos elementos pulsionais da criança, ignorando-se os cuidados ambientais. A partir da observação de crianças em situação natural, isto é, de uma criança concreta, deve-se incluir a consideração do ambiente e da dependência. Winnicott propõe restringir o termo regressão a uma aplicação clínica, em termos de regressão à dependência. Há uma tendência ao restabelecimento da dependência, e por isso a natureza e o comportamento do meio devem ser necessariamente examinados. Mantém-se, por outro lado, a idéia de regressão ao processo primário.

A tendência à regressão, nesse sentido, deve ser vista como a expressão de parte da capacidade do paciente de se curar, à medida que funciona como uma comunicação da parte sadia do indivíduo, que proporciona ao analista a indicação de como deve se conduzir no processo (conduzir-se no sentido de criar um ambiente propício à criação de novos significados, mais do que interpretar, isto é, decodificar sentidos que já estariam presentes ali). Cremos que é nesse sentido que Winnicott (1959 [1964] /1983), ressalta que "a regressão representa a esperança do indivíduo psicótico de que certos aspectos do ambiente que falharam originalmente possam ser revividos, com o ambiente dessa vez tendo êxito ao invés de falhar na sua função de favorecer a tendência herdada do indivíduo de se desenvolver e amadurecer." (p. 117)

Assim, Winnicott (1959 [1964]/1983) deduz que não se deve partir do modelo da neurose para compreender a psicose, como uma espécie de negativo da neurose (até porque Freud, 1905/1969, já evidenciara que o negativo da neurose é a perversão). A psicose não é uma espécie de neurose às avessas, ou uma neurose que ficou a meio caminho e não completou todos os seus estágios. A neurose pressupõe que o paciente, durante a infância, atingiu um determinado estágio de desenvolvimento emocional, em que as várias etapas do complexo edípico foram superadas e organizadas sob a primazia da genitalidade, de modo que certas defesas contra a ansiedade de castração puderam ser estabelecidas. A personalidade do indivíduo está intacta, o que, em termos evolutivos, significa que ela pôde ser construída e mantida, conservando sua capacidade para as relações objetais.

Quando, pelo contrário, predomina a ansiedade de aniquilamento, então tendemos a considerar que o quadro se inclina mais para uma psicose. A questão parece ser a de saber se a ameaça é em termos de parte do objeto, ou do objeto total. Em todo caso, há pouca semelhança com a neurose, uma vez que o indivíduo não atingiu ainda o complexo de Édipo, de modo que a ansiedade de castração ainda não representa uma ameaça maior para a personalidade. Mas raramente há um movimento irreversível no sentido contrário ao crescimento pessoal, ou seja, rumo à fragmentação. Se o trabalho com a neurose leva até o inconsciente reprimido, a psicose leva até os estádios mais primitivos do desenvolvimento e da organização da mente, quando ainda não se fixou uma diferença nítida entre o self e o não-self. Ou seja, conduz à relação de dependência materna, durante a fase de identificação primária, prévia ao estabelecimento dos mecanismos de projeção e de introjeção.

A psicose está ligada à privação emocional em um estádio anterior àquele em que o bebê possa perceber essa privação. Além da falha ambiental em si, a provisão necessária está completamente fora da percepção e da compreensão do bebê. Nesse caso, não chegou a existir uma provisão sentida como suficientemente boa e que, em determinado momento, cessou. Em vez de uma interrupção no sentimento de continuidade da existência, que fazia parte do ambiente suficientemente bom, o bebê é surpreendido por uma interrupção de seu existir que não pôde ser atribuída a ninguém e a nada, e que nem sequer é experimentada como tal, já que ele se encontrava em um estágio evolutivo que ainda não o capacitava a se diferenciar minimamente do ambiente. Assim, o ponto de origem da privação é mais precoce e totalmente indeterminado, ocasionando não propriamente uma perda, total ou parcial, mas uma incapacidade absoluta de se relacionar com objetos (Loparic, 1996).

Essa é uma visão completamente nova e revolucionária, e não uma mera rearticulação de conceitos já conhecidos, que aparecem reciclados sob uma nova roupagem. A ênfase é posta no ajustamento defeituoso do ambiente, e só secundariamente na reação da criança, o que contrasta vivamente com a tradição kleiniana, que coloca a fantasia inconsciente como eixo da organização psíquica, minimizando o papel exercido pelo objeto externo no processo de constituição dos pilares da subjetividade.

Por outro lado, Winnicott (1959 [1964]/1983) lembra que os mecanismos primitivos que atuam no psicótico não são privilégio das psicoses. Portanto, o que tipifica a psicose, na visão winnicottiana, não são os mecanismos psíquicos, nem o tipo de ansiedade em jogo, mas as defesas primitivas, que não teriam de ser organizadas nos estágios subseqüentes do desenvolvimento caso houvesse, nas etapas mais precoces de dependência quase absoluta, a provisão suficientemente boa. As falhas do ambiente favorável levam a esse comprometimento da evolução da personalidade e do self do indivíduo, cujo "resultado é chamado esquizofrenia" (Winnicott (1959-64/1983b, p. 124).

Loparic (1996) sublinha que Winnicott (1951/1978; 1955/1978; 1963/1983c; 1971/1973c; entre outros), trabalha a questão da falta, da ausência, da expectativa não correspondida, do encontro frustrado, do desejo não contemplado, o que fica evidente quando ele diferencia o no-thing (ausência de coisa) do nothing (coisa alguma, ou sua inexistência), que caracteriza a organização psicótica.

Winnicott é um analista do vazio, para usarmos uma expressão de Green (1975/1988). Ele aponta para a valorização da dimensão do negativo, isto é, a necessidade, em primeiro lugar, da análise daquilo que não pôde ser construído ao longo do processo de desenvolvimento mental, evidenciando-o nas organizações narcísicas, e, em seguida, na organização psicótica.

A análise nesses casos tem de se dedicar à tarefa de criação de significados – mais do que de desvendamento e interpretação de sentidos latentes e, portanto, existentes embora cifrados – , visando levar o indivíduo à simbolização, que irá permitir que o psiquismo supere suas fraturas e entre em conexão com o corpo e suas moções pulsionais. À medida que estimulamos o mundo interno, facultamos ao paciente a possibilidade de desenhar os contornos de sua subjetividade, através de um processo de amadurecimento progressivo. A partir daí, a psicanálise pode se defrontar com alguns fenômenos mais arcaicos, como as angústias impensadas (Winnicott), que nos permitem meditar sobre a solidão essencial do homem contemporâneo, com sua natureza essencialmente trágica (Loparic, 1996).

A psicanálise tradicional não comporta o desafio das psicoses e toda uma ampla gama de patologias que, paradoxalmente, constituem parte significativa do universo da demanda contemporânea de tratamento (Alvarez, 1994). Nesse sentido, o pensamento winnicottiano traz um alento para aqueles que trabalham com situações limítrofes, com os chamados casos borderlines, os transtornos de caráter e as psicoses em suas diferentes configurações.

 

 

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1 Texto apresentado no Grupo de Trabalho "Psicanálise Contemporânea: Convergências e Divergências". VII Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da ANPEPP, Gramado, maio de 1998. Artigo baseado na Tese de Doutorado (Santos, 1996). Projeto de pesquisa financiado pela CAPES/PICD.

2 Endereço para correspondência: Av. Bandeirantes, 3900, 14040-901, Ribeirão Preto, SP. Fone: (16) 602-3645 Fax: (16) 602 3632. E-mail: masantos@ffclrp.usp.br

3 Essa capacidade para o crescimento não é, contudo, biológica, e tampouco um mecanismo mental, mas uma função a ser desenvolvida. Não se baseia em uma herança filogenética, constituída ao longo da história da espécie humana. Isso porque "o homem winnicottiano não faz parte da natureza física, ele é uma pessoa, não uma coisa, ele não é efeito de um processo natural, mas de um acontecer resultante da temporalização da natureza humana, concebida sem qualquer recurso ao momento biológico do homem" (Loparic, 1996, p. 13). Portanto, não há na teoria winnicottiana qualquer paralelismo com as protofantasias de Melanie Klein, nem com as preconcepções inatas de Bion.

4 "...na psicose há defesas muito primitivas que são trazidas à ação e organizadas, por causa de anormalidades ambientais" (Winnicott, 1959 [1964]/1983).

5 Por vezes, o fator ambiental não é um trauma específico e isolado, mas um padrão de influências distorcidas, que se mantêm por um período de tempo suficientemente prolongado, forçando o estabelecimento de defesas primitivas para a proteção do self, antes que a realidade psíquica pudesse ser localizada em seu interior. Isto é o oposto do que Winnicott denomina de ambiente favorável, isto é, aquele que permite a maturação da criança.

6 A noção de externalidade é uma construção posterior do bebê, quando ele aprende a usar o objeto. Por esse prisma, o bebê de início não internaliza, nem projeta o objeto; não o ama, nem o odeia, nem lhe é indiferente, mas sobretudo depende do objeto (Loparic, 1996). Nessa etapa da vida, o amor é uma mera questão de dependência física; nesse sentido, a mãe inicialmente não seria um objeto libidinal, mas uma mãe-ambiente da qual ele necessita de maneira absoluta para não despencar no vazio. Se a mãe falhar, ele entra em colapso, porque é sensível a algo em algum lugar, mas esse lugar não é nem dentro, nem fora. Não é um objeto interno, e tampouco um objeto externo.

7 Além disso, Winnicott (1962) reputa como "contribuições duvidosas" de Melanie Klein a manutenção do uso da teoria da pulsão de vida e da pulsão de morte, formulada por Freud, bem como sua tentativa de considerar a destrutividade do bebê como um aspecto hereditário ou como produto da inveja (Loparic, 1996). Em sua opinião, o conceito de pulsão de morte não é necessário, já que a agressividade é vista mais como uma evidência de vida, à medida que expressa a tentativa de separação e individuação em relação ao objeto (Winnicott, 1959 [1964]/1983).

8 Talvez o dramaturgo irlandês Bernard Shaw (1856-1950) tivesse essa idéia em mente ao escrever que: "O homem razoável se adapta ao mundo. Aquele que não é razoável persiste em querer adaptar o mundo a si próprio. Por isso, qualquer progresso depende do homem não razoável."

 

Referências

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Recebido em 15.01.99
Revisado em 12.06.99
Aceito em 15.06.99

 

 

Sobre o autor:

Manoel Antônio dos Santos é psicólogo, Doutor em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da USP e Professor do Curso de Pós-Graduação em Psicologia do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Coordena o Núcleo de Ensino e Psicologia Clínica (NEPP).