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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.18 no.50 São Paulo Jan./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142004000100021 

CULTURA

 

Negras memórias, O imaginário luso-afro-brasileiro e a herança da escravidão*

 

 

Emanoel Araújo

 

 

 

memórias de negros

REVER A QUESTÃO da memória é o que se propõe nesta exposição. A memória negra no Brasil, a memória do negro no Brasil. Negras memórias, em primeiro lugar, memórias do estigma que alimenta o preconceito, tendo como principal motivo o legado do cativeiro. Do estigma que é motivo de longos e permanentes discursos de bem intencionada denúncia e de tantos estudos acadêmicos sobre a escravidão, por certo importantes achegas a essa arqueologia que, aos poucos, vai descortinando um passado duro, sofrido, dolorido, que deixou chagas ainda não de todo fechadas, no confronto com a impunidade de tanta barbárie perpetrada contra uma raça humana.

 

 

Se o Brasil conseguiu ser indiferente aos danos causados a seus filhos negros, os próprios negros deste país, os que vieram da África e os que aqui nasceram, de pais e avós brasileiros, deram talvez a mais generosa contribuição para a construção do Novo Mundo, alimentando o poder e o luxo dos escravocratas locais e extraindo o ouro e o diamante que faziam a riqueza do Velho Mundo. O mesmo ouro que expandia a prosperidade e o luxo que reluziam nos tempos de Dom João V e Pombal e transformavam Lisboa em sua fisionomia física e econômica, como antes o fizera o açúcar, desde o começo da colonização e, antes ainda, o comércio do pau-brasil, sob o peso da escravidão indígena. (Esta, porém, ainda que a mesma, é já uma outra história...)

Por isso é que não podemos nos dar ao luxo de esquecer, perder de vista a nossa memória, por mais pequenina ou insignificante que seja, pois nossa memória será sempre uma forma de costurar nossa história. E sabem por quê? Porque destituíram os negros de sua própria identidade, torturaram o seu corpo e aniquilaram o patrimônio de sua cultura sagrada nos templos da Bahia, Pernambuco, Alagoas, Rio de Janeiro. Esse enorme acervo religioso foi parar nos museus de polícia, onde deveriam ser objeto de estudos para provar, à luz da antropologia, a nossa inferioridade, medindo-se tamanhos de crânios e tipos faciais para comparar diferentes etnias entre si...

E não foi só aqui que essas chagas foram abertas para marcar definitivamente o lugar do negro. A Europa propagou, no século XIX, uma imagem perversa da África, dividida ao sabor da política neo-colonial, criando museus como verdadeiros depósitos de exotismo estabelecido pela mentalidade colonialista. Era seguramente a melhor forma de ver o outro fixado em sua diferença e, assim, anular a apreensão de sua humanidade. Mesmo na África, muitos desses museus tinham o sentido de congelar as relações tribais e étnicas dos próprios grupos pertencentes aos países coloniais, perpetuando a diferença no interior desses grupos, desta vez sob a ótica da hierarquia social.

 

 

Como se pode entender uma relação dessa natureza, que envolve muita irracionalidade, um grau extraordinário de ódio e também de sedução, às vezes de pura inocência, mas sobretudo de muita perversidade? Como se esquivar de olhar para essa história e se sentir perplexo, diante de uma agonia que insiste em persistir?

Juana Elbein dos Santos, antropóloga e mulher de Mestre Didi, escultor e sacerdote da ancestralidade africana na Bahia, angustia-se com a reiteração desse estigma e adverte para a necessidade de se livrar dele de uma vez por todas, pensando no universo do negro a partir da inegável e imensa contribuição africana para a construção de uma civilização afro-brasileira. Por certo que procede a sua observação. Contudo, isso não elimina o outro lado da história do negro no Brasil, aquela que faz a diferença, a que enfatiza o estigma. Seria como se quiséssemos, cortando a memória do negro pela metade, demarcar um mundo utópico, onde a diferença não seria obstáculo para a sua integração à sociedade nacional, para o simples e complexo exercício da cidadania por parte desses cidadãos negros nascidos no Brasil, cidadãos que buscam o seu reconhecimento de fato e de direito por esta civilização mestiça, sincrética e original que eles ajudaram a criar e que é capaz de incorporar a todos, negros, brancos e mestiços, em meio a esse grande mele nacional. Por isso essa civilização é capaz de ser tão sedutora.

 

 

Entendo que, quando se fala em sedução, é por se reconhecer que, no Brasil, essas vidas cruzadas de negros e brancos são mesmo muito instigantes. Tão admiravelmente instigantes que o país guardou no seu imaginário, no seu inconsciente coletivo, muitas figuras de negros como criaturas lendárias. Algumas, personagens históricos que marcaram um lugar definitivo na construção da sociedade nacional, outras tantas, personagens que figuram como registros menores, de uma memória local. Quem não conhece a história de Chica da Silva, escrava e amante de um contratador de diamantes de Diamantina, nas Minas Gerais do século XVIII? E Chico Rei que, com a riqueza de sua mina de ouro, comprava a liberdade dos escravos na antiga Vila Rica? E nosso maior herói da resistência negra, Zumbi dos Palmares, hoje reconhecido inclusive pela história oficial? Outros personagens históricos são também envoltos em lenda, como é o caso de Henrique Dias que, com seu pelotão de negros, combateu na luta final para assegurar a expulsão dos holandeses de Pernambuco, tendo por seu feito recebido de Dom Pedro II a Ordem de Cristo, a maior comenda de Portugal no século XVII.

Outras figuras lendárias são, porém, menos conhecidas, como Thebas, o escravo responsável pela construção da antiga igreja da Sé de São Paulo e cujo nome está inscrito na pedra de fundação do mosteiro de São Bento. Ou a extraordinária mulata Rita Cebola, que ganhou seu nome da profissão de seu amante, um português da Bahia, negociante envolvido no comércio do rico tempero. Rita, vestida como uma rainha, envolta em intenso perfume, costumava visitar a Igreja do Bonfim às sextas-feiras acompanhada por um séquito de escravos negros e brancos, para escândalo da sociedade local, e seu poder era tamanho que o trâmite dos negócios de seu amante era avalizado por ela. Daí o seu prestígio, conforme descreve Dona Ana de Góes Bitencourt, que ouviu esse e outros relatos sobre o tempo antigo de seu pai, Pedro Ribeiro de Araújo, estórias depois recontadas em um interessante artigo de Godofredo Filho.

Todos esses personagens negros foram transformados em verdadeiras lendas. Mas por que lendas, como se se tratasse apenas de estórias, se esses personagens e muitos outros foram mesmo figuras verdadeiras, de pessoas que viveram, amaram, sofreram e cujas vidas deixaram marcas na memória de seu tempo? O que explica o fato de estes e muitos outros negros e mestiços, que afinal também são parte real desta nossa história meio louca, serem, todos eles, transformados em lenda?

Será lenda a nossa participação na construção da história deste país e da identidade de seu povo? Ou será que, ao contribuir para a formação de uma identidade nacional que dá cara nova às velhas tradições de uma cultura européia, precisamente por sua contribuição, o establishment transforma esses negros em brancos? Ou a cor não importa? Mas, se não importa, por que será que os negros não têm acesso às principais instituições que garantem reconhecimento, prestígio e poder no Brasil? Por que será que as universidades têm tão poucos negros nos seus quadros? E por que será que as cadeias e os presídios e as ruas estão povoados desses cidadãos de segunda classe, todos pobres, todos pretos? São muitos os que branquearam na história do Brasil... E não se pense que suscito aqui uma nova forma de preconceito, ao levantar essa questão. Mas é certo que, no Brasil, quando se reconhece o prestígio social ou econômico de um negro, seu branqueamento parece inevitável...

Por outro lado, no reverso da medalha, é preciso também expressar um pleito de gratidão à coragem de todos aqueles que, sendo brancos, de algum modo se tornaram negros na forma de expressar suas paixões, sonhos e angústias e que, dessa maneira, contribuíram para inscrever definitivamente em nossa memória a imagem desses negros, inclusive perpetuando a contribuição daqueles que, em plena vigência da escravatura, e apesar dela, conseguiram alcançar alguma visibilidade histórica. Foi assim que Manuel Araújo Porto Alegre fixou para sempre a imagem da Escola Fluminense de pintura e do Mestre Valentim para que ele chegasse até os nossos dias. Foi assim que Nuto Santana conservou a memória de Thebas, o escravo alforriado construtor da Sé e de muitas obras públicas na São Paulo do século XIX. Foi também assim que se eternizou José do Nascimento, o Dragão do Mar.

E pouco importa que a cumplicidade para com seu tema de eleição e paixão leve esses brancos, de alguma forma, até mesmo a mitificá-lo, em seu registro. Pois foi assim que Cacá Diegues deixou para sempre em nossa memória a imagem de uma Chica da Silva magistralmente vivida por Zezé Mota. Foi também ele quem nos brindou com a imagem de um Zumbi dos Palmares, a dar suporte à memória do herói negro que hoje aqui comemoramos. Seu exemplo não é o único e tem atrás de si uma larga tradição. Pois foi assim também que, graças ao pintor português Manuel da Costa Athayde, a história conservou uma surpreendente imagem do século XVIII, a revelar um imaginário de intensa paixão onde o negro encontra seu lugar. Pois não foi Athayde quem teve a coragem de representar no céu do teto da igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, como Nossa Senhora da Porciúncula, a imagem de sua mulher, uma mulata forra? E não foi ele até mesmo além, ao representar, na imagem dos anjos que a rodeiam, seus próprios filhos mestiços, fruto de uma união claramente marcada pela paixão? E como não ser grato ao pintor por essa deslumbrante representação?

Poderíamos aqui, à medida que a arqueologia da memória traz à tona outras surpreendentes e inesperadas descobertas, preencher mesmo páginas e páginas desses registros. Como não ser grato a Pierre Verger, Jorge Amado, Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Roger Bastide, Gautherot, Donald Pierson, que salvaram do olvido tantos negros, ilustres ou anônimos, e trouxeram à luz a contribuição de todos esses emparedados por nossa história oficial, para que hoje pudéssemos ter registros em nossa maltratada memória que nos obrigam a repensar uma outra e definitiva história do povo brasileiro?

O que queremos, ao resgatar negras memórias de nossa história e essas outras tantas memórias de negros que esta exposição nos traz? Queremos resgatar entre os negros uma certa auto-estima e uma imagem que nos sirva de padrão de orgulho por nossos heróis, que pretendemos nos sejam devolvidos em carne e osso, em sangue e espírito, como pessoas reais que puderam até alçar-se à condição de mito, mas não mais como lendas perdidas numa nebulosa história. Precisamos ter orgulho dos feitos de nossos homens e mulheres que, a despeito do estigma herdado da escravidão, marcaram seu lugar na nossa história, como cientistas, engenheiros, poetas, escritores, doutores, escultores, pintores, historiadores. Queremos que os nossos sejam reconhecidos. Homens como o historiador, lingüista, engenheiro e administrador Teodoro Sampaio, os poetas Luís Gama e Cruz e Souza, o primeiro editor brasileiro e também poeta, Paula Brito, o escultor Mestre Valentim, o imenso Francisco Antônio Lisboa, os médicos Luís Anselmo e Juliano Moreira, os pintores Teófilo de Jesus, Estevão Silva, Firmino Monteiro, Rafael Pinto Bandeira, os irmãos João e Artur Timóteo da Costa, Emanuel Zammor. Queremos o reconhecimento como negro para Manuel da Cunha, o pintor escravo que comprou sua alforria da família do cônego Barbosa da Cunha e foi para Portugal aprender o ofício de pintor, deixando-nos uma obra admirável como a que ainda se pode ver na Igreja de São Francisco de Paula no Rio de Janeiro.

 

 

Queremos o reconhecimento como negro para a figura do músico da corte imperial Padre Maurício Nunes Garcia, e para o músico baiano do início do século XIX, Damião Barbosa de Araújo, autor da Missa do Bonfim. E mais, queremos o reconhecimento da contribuição do negro, de todos os negros, em toda a nossa música, esta definitiva arte que traz sua marca desde os tempos coloniais. Curt Lange, historiador e musicólogo, nos fala do orgulho que experimentavam negros e mulatos de Ouro Preto quando eram chamados pelas ordens religiosas brancas para tocar em suas cerimônias e celebrações festivas: eles eram os únicos da cidade! É essencial que se reconheça essa contribuição negra à nossa música, que foi o laço que permeou nossa civilização desde o lundu até a bossa nova, desde a música colonial sagrada ou profana até a criação da música popular brasileira, do registro pioneiro do Pelo Telefone até Pixinguinha e aqueles Batutas que deram forma e ritmo à música popular do Brasil, conferindo-lhe a cara negra do samba.

E há tantos outros a exigir o resgate em nossa memória! Penso no panteão dos deuses africanos e naquelas extraordinárias mulheres cuja memória permitiu que eles sobrevivessem no Brasil. Penso em Dona Pulquéria, Dona Aninha, Mãe Senhora, Dona Menininha do Gantois, Ia Nassô da Casa Branca, Dona Olga do Alaketo. Penso na festa dos afoxés da Bahia, do Bumba-meu-boi do Maranhão, dos Maracatus de Pernambuco. Penso sobretudo em Dona Santa, a rainha do Maracatu Elefante do Recife. Penso nas mulheres da Casa da Mina de São Luís. Penso em Dona Clementina de Jesus, na divina Elisete Cardoso, no canto de Elsie Huston.

Penso em guerreiros no campo aberto da luta desportiva, no futebol de Friedenreich, Ademir da Guia, Barbosa, no gingado de Mané Garrincha, na força calma de Djalma Santos, na perícia de Didi-folha-seca, e em tantos atletas como Ademar Ferreira da Silva ou João do Pulo, glórias negras do esporte nacional. Penso ainda em Machado de Assis e em Lima Barreto, em Manoel Querino e João Cândido, o Almirante Negro, e no jangadeiro Dragão do Mar. E quem jamais poderá esquecer a figura de Zé do Pato, o grande José do Patrocínio, principal articulador do abolicionismo? Mas penso também nos negros que combateram nas batalhas da Independência da Bahia, naqueles que morreram na Guerra do Paraguai, depois de tantos outros terem já morrido, consumidos na lida dos canaviais, das minas de ouro e de diamantes, do litoral brasileiro aos sertões das Gerais.

Penso na comida de cada dia, na doçura, no dengo e no afago incorporados ao alimento por nossas cozinheiras negras, na sua risada larga, tão larga como o seu sofrimento. Penso também nas amas-de-leite que não se pode esquecer. Será que foi a memória do gosto morno do seu leite e do seu aconchego o que sensibilizou para a poesia um Jorge de Lima? Foi seu martírio o que comoveu a poesia de um Castro Alves, de um Raul Bopp? Será que foi a sua doação e o seu desprendimento, a sua expoliação e a sua extraordinária força o que se incorporou na obra de pintores como Di Cavalcanti, Portinari, Tarsila do Amaral, Pancetti? E o que dizer de um Lasar Segall que, não tendo se alimentado do leite das amas negras, entendeu, no entanto, no seu próprio sangue, o significado da diferença, afirmando a céu aberto esse voluntário esquecimento do negro no Brasil? Penso no diminutivo dos nomes, dos apelidos, na subserviência a ioiô e iaiá aprendida no chicote, na paciência infinita que sempre se recusou à revolta. Mas penso também na rebelião dos negros muçulmanos da Bahia.

Penso, por fim, na ambigüidade desta nossa história de que são vítimas os negros, numa sociedade que os exclui dos benefícios da vida social, mas que, no entanto, consome os deuses do candomblé, a música, a dança, a comida, a festa, todas as festas de negros, esquecida de suas origens. E penso também em como, em vez de registrar simplesmente o fracasso dos negros frente às tantas e inumeráveis injustiças sofridas, esta história termina por registrar a sua vitória e a sua vingança, em tudo o que eles foram capazes de fazer para incorporar-se à cultura brasileira. Uma cultura que guarda, através de sua história, um rastro profundo de negros africanos e brasileiros, mulatos e cafuzos, construtores silenciosos de nossa identidade. E não se pode dizer que não houve afetividade ou cumplicidade nessa relação. A mestiçagem é a maior prova dessa história de pura sedução, da sedução suscitada pela diferença, que ameaça e atrai, mas acaba sendo incorporada como convívio tenso e sedutor, em todos os momentos da nossa vida. Tudo isso é memória. Tudo isso faz parte da nossa história. Uma história escamoteada que já não poderá mais ficar esquecida pela história oficial.

 

 

Texto recebido e aceito para publicação em 18 de novembro de 2003

 

 

Emanoel Araujo começou a trabalhar na década de 1960 como entalhador, gravurista e cenógrafo. Na década seguinte escolheu a escultura como forma de expressão e, em 1977, rendeu-se à influência da arte africana no seu trabalho. Em 1981, assumiu a diretoria do Museu de Arte da Bahia, onde, em dezoito meses, comandou sua transferência para um novo local. Em seguida, retomou suas esculturas e, em 1992, assumiu, em São Paulo, a Pinacoteca do Estado, permanecendo por oito anos.
* Título da exposição apresentada pelo SESI-SP (Serviço Social da Indústria), em sua Galeria de Arte (Av. Paulista, 1313, São Paulo, Capital), no período de 25 de fevereiro a 29 de junho de 2003, com curadoria e texto de Emanoel Araújo.