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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5  suppl.0 Rio de Janeiro July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701998000400017 


O álbum fotográfico de
Flávio de Barros: memória e representação
da guerra de Canudos

Flávio de Barros’ album of

photographs: memory and representation

of the battle of Canudos

"A fotografia só é laboriosa quando trapaceia."

Roland Barthes

 

Introdução

A capacidade discursiva da fotografia enquanto registro de uma dada realidade cap- turada pela câmera, num tempo e espaço definidos, alterou profundamente conceitos vigentes na segunda metade do século XIX acerca da representação da realidade e da natureza. Mathew Brady, que coordenou a equipe de fotógrafos que registrou a Guerra Civil americana, apenas duas décadas após o anúncio da invenção de Daguerre, chegou a afirmar que a câmera fotográfica era o "olho da história". A fotografia transformava-se, então, em mais uma conquista da ciência, um passaporte para a "civilização da imagem", e após sua popularização possibilitou a um maior número de indivíduos a oportunidade de perpetuar a própria representação, além de contribuir para o conhecimento de outras realidades que, até aquele momento, só poderiam ser transmitidas pela literatura ou pela ‘criação’ pictórica.

A difusão maciça da fotografia deveu-se, em grande parte, à sua natureza testemunhal, tanto servindo para a ‘recordação’ quanto para conferir autenticidade aos fatos retratados: "Toda fotografia é um certificado de presença. Esse certificado é o gene novo que sua invenção introduziu na família das imagens" (Barthes, 1984, p. 129). Difundida sua credibilidade como prova definitiva do tema registrado, a fotografia passou a representar a própria ‘realidade’, pretensamente capturada pelo olhar do fotógrafo, pois a interpretação do autor — inevitável nas demais formas de registro visual até então conhecidas (como a pintura) — estava agora eliminada definitivamente, graças à sua natureza química de fixação de imagens ‘reais’ num suporte sensível à luz. Conseqüentemente, a pintura de retratos e paisagens acabou perdendo espaço para afotografia, conforme verificamos através do depoimento do pintor e fotógrafo Henri Le Secq, no ano de 1863: "Sabemos que a fotografia tem prejudicado consideravelmente a pintura, e assassinado especialmente o gênero dos retratos, um dos gagne-pain dos artistas" (Scharf, 1974, p. 75).

No tocante à afirmação do caráter jornalístico da fotografia, tiveram fundamental importância os trabalhos de Roger Fenton, documentando a campanha da Criméia (1854-56), e do já citado Mathew Brady, registrando os horrores da guerra americana (1861-65), na medida em que superavam "a mais fidedigna descrição literária e a ambígua veracidade da pintura e da gravura" (op. cit., p. 84). A partir do uso da fotografia, a guerra e seus personagens passaram a ter incontestável realidade. A possibilidade de autenticação de imagens de eventos marcantes na vida social reforçou o sucesso da fotografia, e a popularização da imprensa aumentou consideravelmente sua demanda.

Assim é que a curiosidade em torno do tema Canudos, quando dos primeiros conflitos entre conselheiristas e forças policiais baianas, aguçada pelas precárias ou, por outro lado, não confiáveis fontes e relatos sobre sua realidade, levou Machado de Assis a sugerir em sua coluna em A Semana, de 31 de janeiro de 1897, que "um repórter paciente e sagaz, meio fotógrafo ou desenhista", fosse até Canudos "para trazer as feições do Conselheiro e dos principais subchefes, a fim de colher a verdade inteira sobre ela".

Machado de Assis entendia que somente um documento revestido de veracidade incontestável seria prova suficiente para que se pudesse conhecer a "verdade inteira" sobre Canudos, cuja realidade estava cercada de controvérsias. Por tratar-se de uma guerra em território nacional, suas motivações deveriam estar bem sedimentadas, para que a intervenção do Exército se justificasse, amparada pela Constituição no que tangia à manutenção da ordem interna.

O vaticínio machadiano cumpriu-se, pois foi Canudos o primeiro grande conflito interno no país registrado pelas lentes da câmera fotográfica. A documentação do ataque final contra a Belo Monte de Antônio Conselheiro e seus mais de dez mil seguidores, além de servir de recordação para oficiais e soldados em campanha, num período em que explodiam as fotografias carte-de-visite — que impulsionaram uma nova estética de representação e circulação de imagens —, também possibilitou a criação de uma determinada representação da guerra — protegida pelo "realismo fotográfico" —, que seria incorporada ao conjunto de elementos discursivos utilizados pelo Exército a respeito do episódio. Estas representações visavam a vinculação da imagem da corporação aos ideais de manutenção da ordem e da coesão internas e de consolidação do regime republicano diante da ameaça de uma ‘reação’ monarquista.

As fotografias de Flávio de Barros realizadas nos últimos dias da guerra de Canudos, cujos originais estão preservados no Arquivo Histórico do Museu da República, têm sido tratadas, até hoje, na perspectiva meramente iconográfica. Reproduzidas em dezenas de estudos sobre Canudos, as imagens de Flávio de Barros têm servido como ‘ilustrações’ às interpretações mais distintas, algumas até contraditórias. A análise destes documentos, na maioria dos casos, tem se restringido à sua ‘primeira realidade’, enquanto registro de uma cena passada, materializada iconograficamente (Kossoy, 1989). O presente es-tudo pretende analisar as fotografias de Flávio de Barros, publicadas em Canudos: imagens da guerra, como documentos com estatuto próprio, inseridos na perspectivada história da fotografia. A análise destas imagens não se restringirão, na medida do possível, à circunstância ou objeto retratado, como uma cena ‘congelada’ do passado, pronta e acabada. O caráter próprio do documento fotográfico será ressaltado, enquanto objeto gerado num contexto histórico específico, destacando o "entrelaçamento ideal do conjunto fotógrafo-câmara-assunto" (Kossoy, op. cit., p. 27), e que, no caso de Canudos, está indissoluvelmente associado à ‘fabricação’ pelo Exército de um determinado imaginário a respeito do conflito.

Flávio de Barros, codificador das glórias do Exército

Flávio de Barros, fotógrafo radicado na capital baiana, ainda era pouco conhecido em 1897. Somente a partir do início do século XX foram encontradas referências a respeito de seus serviços profissionais nos periódicos e almanaques publicados na Bahia. Auto-intitulando-se "fotógrafo expedicionário", Barros incorporou-se às tropas no momento em que partiram da capital baiana o ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, e o general Carlos Eugênio de Andrade Guimarães, em 30 de agosto de 1897, que acompanhavam os batalhões de reforço para o ataque final contra Canudos. O jornal A Notícia (RJ), de 22 de setembro de 1897, através de seu correspondente, registrou a presença de Barros em Monte Santo, ainda que não o citando diretamente: "O Canet e o obus ostentam-se na praça Marechal Floriano, tendo à retaguarda armadas barracas em que se acha acampada a sua guarnição composta por ilustres e distintos militares, que da Bahia vieram acompanhados por um fotógrafo, que tem a intenção de adquirir os retratos da oficialidade de todos os batalhões, como também diversos golpes de vista no percurso até Canudos."

O roteiro de Flávio de Barros incluiu Queimadas, onde permaneceu entre 31 de agosto e 4 de setembro, Cansanção, no dia 5, Monte Santo, base das operações militares (entre os dias 6 e 25) e, finalmente, Canudos, onde chegou no dia 26, permanecendo até o final dos combates.

A respeito da intenção do Exército no registro fotográfico dos conflitos, consta que acompanhava a quarta expedição Juan Gutierrez, fotógrafo espanhol, autor das imagens da Revolta da Armada (1893). Gutierrez teria falecido em meio aos combates, provavelmente no dia 28 de junho de 1897.

O próprio Euclides da Cunha, correspondente do Estado de S. Paulo, também se utilizou de uma máquina fotográfica para o registro do sertão baiano durante a guerra de Canudos, como podemos observar pelo relato do correspondente Alfredo Silva (A Notícia, 18.9.1897): "Fui hoje até a Igreja de Santa Cruz, depois de subir a pedregosa e íngreme ladeira. Nesse delicioso passeio fui acompanhado pelo distinto correspondente do Estado de S. Paulo, dr. Euclides da Cunha ... . Durante a nossa ascensão o dr. Euclides da Cunha conseguiu obter por meio de portátil máquina fotográfica alguns pontos de Monte Santo."1 Tanto as imagens produzidas por Gutierrez quanto por Euclides da Cunha ainda não foram localizadas, apesar de serem conhecidas fotografias avulsas tiradas durante os combates em Canudos, que registram a cidade de Monte Santo ocupada pelas tropas doExército, e que não fazem parte do acervo de Flávio de Barros.2 Vale ressaltar que, na primeira edição de Os sertões (1902), as únicas fotografias utilizadas por Euclides da Cunha faziam parte do conjunto produzido por Flávio de Barros.

É interessante observar que, quando o fotógrafo chegou a Canudos, o arraial já tinha sofrido sérias derrotas e o próprio Antônio Conselheiro já havia falecido — embora o Exército desconhecesse este fato —, situação que, aliada às perdas anteriores, contribuiu para a derrocada moral dos últimos combatentes. Apesar de todos os reveses e imprevistos que a guerra poderia ainda gerar, naquele momento não restavam mais dúvidas quanto ao desenrolar dos acontecimentos. Canudos já estava cercada, as estradas de acesso controladas pelo Exército, não havia água nem comida disponíveis para os conselheiristas e os pontos estratégicos já estavam totalmente dominados. Bastava registrar a vitória.

Imagem e contexto; as representações da guerra

No momento em que Flávio de Barros se deslocou até Canudos, o Exército estava mobilizando um grande contingente de homens e armas para reforçar o ataque final contra o arraial, ação militar tão grandiosa que poderia ser considerada como a quinta expedição militar, e que foi comandada pessoalmente pelo ministro da Guerra. Devemos recordar que o insucesso da terceira expedição, também conhecida como Expedição Moreira César, fragilizou a imagem do Exército, e que a quarta expedição já apresentava sinais de fadiga. Acelerar o fim dos conflitos, legitimar a intervenção armada contra os habitantes de Canudos e difundir uma imagem favorável da corporação, eram os principais objetivos do Exército em agosto de 1897, e a fotografia, uma poderosa aliada.

A derrota de Moreira César foi, sem dúvida, um dos eventos mais significativos para o desfecho da guerra, prenunciando o derramamento de sangue que se seguiria. Sobre essa derrota puderam ser produzidas diversas versões a respeito das circunstâncias do conflito, até então restrito ao âmbito regional. Se as expedições anteriores ainda estavam reduzidas às forças baianas, a comandada por Moreira César apresentava a chancela do Exército, o que fazia supor que seria vitoriosa apenas pela superioridade bélica. O desprezo do coronel pela resistência conselheirista, bem como pela pessoa de Antônio Conselheiro, estava traduzido em seu telegrama ao ministro da Guerra, de 8 de fevereiro de 1897, quando afirmava temer apenas que Conselheiro não estivesse em Canudos para esperá-lo, aludindo a uma possível fuga. No entanto, a expedição de Moreira César seguiu o destino das anteriores, e reforçou o mito da coragem e da bravura dos conselheiristas ou jagunços, apesar — ou mesmo por conseqüência — das adversidades da vida sertaneja. Se Antônio Conselheiro e seus seguidores já eram alvo de diversas forças contrariadas, como a Igreja e os grandes proprietários rurais, as derrotas militares desconcertaram o próprio Exército.

A 18 de março, chegava à Bahia o general Artur Oscar de Andrade Guimarães, que iria comandar a quarta expedição contra Canudos, com aproximadamente 6.500 soldados. Somado aos reforços enviados posteriormente, o efetivo total chegou a dez mil. Com o andamento dos combates, no entanto, a reputação desta expedição foi ameaçada e o perigo de mais uma derrota parecia iminente, o que se transformaria num pesadelo aindamaior do que o fora a Expedição Moreira César. A indisciplina dos soldados e a ineficiência do alto comando eram questões presentes nos comentários de correspondentes, como Manuel Benício (1997, p. 306 e ss.), do Jornal do Commercio:

O Estado-Maior ... não tivera na expedição uma organização à altura do valor daquela. Demais, o Chefe do Exército monopolizava para si, o que já sucedera na expedição de março (Moreira César), todas as responsabilidades técnicas, militares e políticas. ... Nesta hora próxima ao desmantelamento total de sua tropa, talvez ele pesasse a importância do seu cargo e curvava-se, por isto, à sorte, debaixo do peso de tantas culpas involuntariamente cometidas na boa fé de seu egoísmo.

Manuel Benício referia-se, principalmente, ao incidente ocorrido em 28 de junho, quando a 1a Coluna quase foi desbaratada pelos conselheiristas, pois o comandante precipitou-se em atacar sem o apoio acertado previamente da 2a Coluna: "Pela manhã do dia 28, uma brigada marchou com o fim — segundo correu — de tomar a estrada geral, e daí avançar sobre Canudos. A verdade, contudo, é que para tal investida nenhum plano assentado existia, e, nestas condições, ela poderia ser fatal à 1a Coluna" (Milton, 1902, p. 102). Após verificar a situação perigosa, Artur Oscar solicitou ao alferes honorário Henrique José Leite que fosse ao encontro do general Savaget, comandante da 2a Coluna, para solicitar auxílio. Ao recepcionar o general Savaget, ainda no dia 28 de junho, Artur Oscar ter-lhe-ia afirmado: "Você salvou-me de uma derrota" (Barreto, 1902). O próprio Manuel Benício, em correspondência publicada em 3 de agosto, afirmou ter ouvido do general Artur Oscar que "a segunda coluna salvara a primeira e que, caso houvesse um fracasso nesta expedição, a República seria abalada".

Preocupado com a imagem de seus principais comandantes e da própria corporação, o alto comando da quarta expedição impôs um sistema de controle sobre as informações acerca da guerra. Foi determinado que todas as mensagens telegráficas dos correspondentes partidas de Monte Santo (base das operações) e imediações deveriam ser lidas previamente por oficiais indicados pelo alto comando. A censura militar durante os cinco meses finais da guerra, especialmente após a publicação dos comentários do correspondente Manuel Benício sobre a desastrada operação coordenada por Artur Oscar, iria influenciar decisivamente os trabalhos de Flávio de Barros.

Alguns aspectos relativos à organização militar em Canudos também estavam longe das condições ideais: "Em tempo nenhum, em lugar nenhum, nunca um Exército viu-se tão abandonado e prestes a soçobrar, sem comida, sequioso, cansado e, especialmente, sem munição!" (Benício, 1997, p. 311). Uma das maiores dificuldades encontradas pelos oficiais e soldados do Exército foi a manutenção de refeições satisfatórias e regulares. Os comboios eram raros e incertos, e muitas vezes atacados por conselheiristas, o que tornava ainda mais difícil a situação das tropas. Era comum os soldados irem à caça de alimentos na vegetação local, cada vez mais escassos: "Catavam os umbuzeiros em roda, arrancando-lhes os tubérculos túmidos; catavam cocos dos ouricuris, ou talhavam os caules moles dos mandacarus, alimentando-se de cactos que a um tempo lhes disfarçavam ou iludiam a fome e a sede. ... Alguns morreram envenenados pela mandioca brava e outras raízes, que não conheciam" (Cunha, 1995, p. 397).

Uma das intenções do ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, quando se deslocou para Monte Santo, foi a de controlar pessoalmente o envio dealimentos às tropas, garantindo assim o sucesso do Exército em sua empreitada: "A necessidade da existência real de um Estado-Maior em exercício de funções independentes da do chefe era tão imprescindível que vimos depois da chegada do ministro, na Bahia, como melhorara a situação das tropas e como mais folgado ficara o chefe do Exército para agir como capitão, despreocupado de outros afazeres inerentes a profissionais" (Benício, 1997, p. 308).

Manuel Benício, em sua correspondência publicada em 8 de agosto de 1897 no Jornal do Commercio, relatava o drama da alimentação: "Comandante de batalhão já tenho visto pedir humildemente um punhado de farinha. Não exagero. Quando isto acabar, terão milhares que hão de afirmar tudo quanto daqui tenho descrito. Calculem que quando a fome entra pela barraca dos oficiais está dormindo nas dos soldados."

Favila Nunes, correspondente da Gazeta de Notícias (26.8.1897), a respeito da dificuldade do Exército em regularizar a alimentação durante os combates, chegou a afirmar que o principal inimigo das tropas era a fome: "quer oficiais, quer soldados recebem por dia um litro de farinha para sete homens com um pedacinho de carne e um pouco de sal, de maneira que não há uma só pessoa que não se ache mais ou menos incomodada". Ao registrar cenas de soldados e oficiais durante a refeição (p. 321), Flávio de Barros buscou minimizar a questão e apresentar uma realidade pouco comum no dia-a-dia das tropas.

Outra questão reconstruída pelo olhar de Flávio de Barros foi o falso caráter de solidariedade das tropas para com os inimigos. O mais expressivo exemplo desta representação pode ser visto na fotografia intitulada por Barros Corpo Sanitário e uma jagunça ferida (p. 321), onde se vê um grupo de médicos e acadêmicos de medicina em volta de uma maca onde está uma conselheirista deitada. Esta era uma questão importante para a imagem do Exército, em função dos relatos sobre os exageros cometidos pelas tropas em combate e sobre a degola indiscriminada de conselheiristas presos. Ao comentar o assassinato de uma criança e de um soldado por parte de um cabo do 14º Batalhão de Infantaria, sem motivo aparente, em que o general Artur Oscar, ciente do fato, não providenciou qualquer punição, Manuel Benício (1997, p. 310) registrou a banalização da morte em Canudos: "Tão barata é a vida em campanha, que não se procura sindicar por que se morre. O hábito de viver com a morte faz não temê-la tanto, nem pesquisar como ela exerce o seu ofício, se por vingança, se por necessidade, se em combate."

Sobre o tratamento dispensado aos conselheiristas, frei Pedro Sinzig (1925, p. 190), voluntário do Batalhão Patriótico da Bahia, registrou em seu diário, no dia 7 de outubro, uma conversa que tivera com um acadêmico de medicina: "Narrou-nos um oficial que haviam colocado alguns prisioneiros em frente às tropas, obrigando-os a darem vivas à República, e como se opuseram, tinham sido esquartejados. ... reprovei decididamente esta barbaridade, ao passo que o estudante Pinheiro declarou que, por ele, mandaria decapitar todos os jagunços, tanto homens como mulheres e crianças."

Em algumas imagens, filhos de conselheiristas mortos aparecem ao lado de oficiais e soldados, como que por estes protegidos. Apresentá-los junto às tropas consolidou uma estratégia que pretendia enfatizar a solidariedade do Exército com os órfãos da guerra. A adoção de crianças órfãs foi uma prática registrada no final dos conflitos, buscando atenuar o saldo trágico dos combates.

Outra reveladora imagem de Flávio de Barros foi a fotografia intitulada Prisão de jagunços pela cavalaria (p. 322). Nela, o fotógrafo ‘representou’ a prisão de conselheiristas,

claramente identificada pela expressão dos retratados, bem como pelo esquema estático da composição. Um simulacro que visava transmitir a idéia de eficiência e rapidez do Exército e desqualificar a agilidade e destreza dos habitantes de Canudos, situação que, de fato, ocorreu com pouca freqüência, pois estes dificilmente se entregavam com vida aos soldados do Exército, situação que levou o próprio general Artur Oscar a afirmar o desejo de "ver um jagunço vivo".

Como prova da rendição final de Canudos e da subjugação de seus moradores, em nome da ‘ordem republicana’, três imagens são exemplares: a prisão de um conse-lheirista por soldados do 28º Batalhão de Infantaria (foto abaixo); a rendição de centenas de conselheiristas em 2 de outubro de 1897; e o cadáver de Antônio Conselheiro, certamente a mais conhecida e divulgada imagem realizada por Flávio de Barros em Canudos (pp. 324-25). É interessante observar que os ‘inimigos’ conselheiristas estão representados somente


A importância de se fotografar um combatente rendido pelas tropas do Exército pode ser revelada pelas próprias palavras do comandante da quarta expedição, Artur Oscar, que manifestava o desejo "de ver um jagunço vivo", na medida em que estes não se rendiam.

na condição de derrotados, presos ou mortos. Do total de registros de Barros, 65% apresentam a oficialidade ou as tropas organizadas, nas trincheiras ou acampamentos.

O corpo de Antônio Conselheiro foi fotografado após ter sido reconhecido por alguns prisioneiros e por um oficial, sendo tam-bém lavrada uma ata, que foi remetida ao marechal Bittencourt em Monte Santo. O "Bom Jesus" Conselheiro havia falecido no dia 22 de setembro, aos 67 anos, e estava enterrado num com-partimento junto à parede do lado direito da igreja nova. Com a morte dos últimos resistentes que ali se encontravam, ao final da tarde de 5 de outubro, o general Artur Oscar soli-citou à Comissão de Enge-nheiros que removesse o entulho do templo, pois havia sido informado sobre o corpo de Conselheiro. Às 10 horas da manhã do dia 6, o cadáver foi encontrado, sendo, então, exumado pe-la equipe médica chefiada

pelo dr. Miranda Cúrio, que não conseguiu determinar a causa da morte. Consta que Conselheiro falecera em função de uma disenteria. Outra versão aponta sua morte como conseqüência de um ferimento causado por estilhaços de granada. Como um troféu de guerra, sua cabeça foi retirada para estudos e, posteriormente, levada para o laboratório de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Bahia, para exames, realizados pelo dr. Nina Rodrigues. Seu corpo voltou a ser enterrado no mesmo local onde havia sido encontrado. Em seu telegrama ao presidente da República, de 7 de outubro, logo após receber a comunicação do general Artur Oscar, o ministro da Guerra salientava que havia sido reconhecida a identidade de Antônio Conselheiro no cadáver encontrado da igreja nova. E acrescenta: "De tudo se lavrará um auto em Canudos, sendo o cadáver fotografado."

Para transmitir a idéia de que havia produzido instantâneos da guerra, conferindo maior legitimidade ao seu trabalho, Flávio de Barros intitulou uma de suas imagens 39º Batalhão de infantaria em fogo, no que seria, possivelmente, um exercício de tiro, pois o referido batalhão aparece em Monte Santo, onde não ocorreram conflitos. Uma das intenções deste tipo de exercício era a de preparar os soldados para a utilização dos armamentos Mauser, até então desconhecidos pelas tropas.

Os batalhões de infantaria que participaram do assalto final foram fotografados por Flávio de Barros seguindo praticamente um mesmo padrão, onde os comandantes e oficiais aparecem em primeiro plano, ao centro, e os soldados mais recuados, sendo que, em alguns casos, podemos notar as ruínas de Canudos ao fundo. As imagens de batalhões constituem a expressiva maioria do conjunto realizado por Barros. O alto comando da quarta expedição foi fotografado em várias ocasiões, com destaque para o general Carlos Eugênio, retratado em cinco momentos distintos, sempre em trajes civis.

24o Batalhão de Infantaria. Comandado inicialmente pelo coronel Rafael Tobias e, durante o ataque a Canudos, pelo major Henrique José de Magalhães, este batalhão era originário da capital federal e pertenceu também à Brigada Girard. Chegou a Canudos em 15 de agosto com 27 oficiais e 398 praças. Participou do assalto de 1o de outubro guarnecendo a trincheira avançada, a linha de retaguarda do comando geral e o hospital. Foto na trincheira em Canudos, após o final dos combates, tendo ao fundo as ruínas da igreja velha.

 

Alto comando da quarta expedição em Canudos. Em primeiro plano, da esquerda para a direita, os generais-de-brigada João da Silva Barbosa, comandante da primeira coluna, Artur Oscar de Andrade Guimarães, general-em-chefe da expedição, Carlos Eugênio de Andrade Guimarães, irmão de Artur Oscar e comandante da 2a Coluna, o major Salvador Pires de Carvalho Aragão, comandante do 5o Corpo de Polícia da Bahia, e dois oficiais do 1o regimento de Cavalaria. Registro após o assalto final de 1o de outubro.

Deve ser ressaltado que foram estrategicamente evitados registros dramáticos da guerra, como a degola dos prisioneiros, soldados feridos ou mortos, as instalações precárias dos hospitais de sangue, dentre outros. Uma única imagem revela cadáveres de conselheiristas, ainda que mal definida, onde podemos notar alguns corpos pelo chão, misturados às cinzas do madeiramento das casas queimadas durante o assalto final, cena marcante no panorama final da guerra, descrita enfaticamente pelos correspondentes. Favila Nunes, em sua última carta escrita de Canudos, em 8 de outubro, também expressou o horror da cena: "A permanência aqui é insuportável em vista da situação de Canudos, transformada em um vastíssimo cemitério, com milhares de cadáveres sepultados, outros milhares apenas mal cobertos com terra e, o pior de tudo, outros milhares completamente insepultos" (p. 314).

As fotografias de Flávio de Barros, revestidas do caráter de verdade enquanto representação ‘fiel’ do real, tornaram-se simulacros da guerra de Canudos, destinados à legitimação da intervenção armada e à afirmação da superioridade e organização do Exército, desfazendo a idéia de despreparo das tropas e atenuando os exageros cometidos contra combatentes e prisioneiros. As informações produzidas pelo olhar do fotógrafo expedicionário não estão isentas de subjetividade; devemos considerá-las pela suaintencionalidade e destinação, integradas ao contexto que as produziu. São representações que informam muito além das aparências, servindo hoje, paradoxalmente, para romper o silêncio imposto a Antônio Conselheiro e seus seguidores, que pretendeu torná-los personagens sem voz e, portanto, sem história.

 

Cícero Antônio F. de Almeida
Museólogo, chefe da divisão de Pesquisas do
Museu da República e professor da escola de
Museologia da Uni-Rio
Rua do Catete, 153
22220-000 - Rio de Janeiro - RJ Brasil

 

Cadáveres nas ruínas de Canudos. Consumado o assalto final, a cidadela foi incendiada e muitos de seus habitantes acabaram morrendo queimados sob os escombros de suas residências. Apesar de evitar as cenas mais dramáticas da guerra, Flávio de Barros nos legou esta impressionante imagem, ainda que mal definida, onde podemos notar alguns corpos pelo chão, misturados às cinzas do madeiramento das casas. A respeito da cena , Euclides da Cunha escreveu: "Tinha-se neste momento a impressão de uma entrada em velha necrópole que surgisse, desvendando-se de repente, à flor da terra. ... Dizia-os, mais expressiva, a nudez dos cadáveres. Estavam em todas as posições: estendidos, de supino, face para os céus; desnudos os peitos, onde se viam os bentinhos prediletos, inflexos no último crispar da agonia; mal vistos, às vezes, caídos sob madeiramentos, ou de bruços sobre as trincheiras improvisadas, na atitude de combate em que os colhera a morte."


Notas

1 Tratava-se, presumivelmente, de uma câmera portátil modelo Kodak, lançada por volta de 1888, que significou um grande avanço para a popularização da fotografia, pois permitiu a simplificação do trabalho do fotógrafo.

2 Três platinotipias de Monte Santo ocupada por tropas do Exército encontram-se também no Arquivo Histórico do Museu da República. Estas não fazem parte dos álbuns de Flávio de Barros, cujos trabalhos foram realizados em papel albuminado.

 
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