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COVID-19 e a política

Hoje o mundo vive um dos mais sérios problemas de saúde pública internacional dos últimos 100 anos, desde a grande pandemia da pneumónica (gripe espanhola) de 1918-1919. Em finais de dezembro de 2019, o Dr. Li Wenliang, oftalmologista no Hospital Central de Wuhan na China, através das redes sociais, relatou a possibilidade de estar a surgir um novo surto de infeção por coronavírus.(11 Green A. Obituary: Li Wenliang. Lancet. 2020;395(10225):682.) As autoridades chinesas, depois de uma tentativa infrutífera de descredibilização do médico, impuseram rapidamente uma quarentena obrigatória a 60 milhões de chineses. O surto provocado pelo coronavírus SARS-CoV-2 que, no seu início, estava confinado apenas aos mercados locais da cidade de Wuhan, depressa se alastrou pela cidade e por toda a província de Hubei. Em pouco mais de 3 meses, o vírus propagou-se, passando as fronteiras da China para todo o mundo, obrigando a Organização Mundial de Saúde (OMS) a decretar o estado de pandemia. Agora, os seus epicentros estão na Europa e nos Estados Unidos. A maioria dos países encerra fronteiras e entra em lockdown.

Em 2015, o multimilionário Bill Gates alertou para o excesso de gastos em armamento e planos de contingência militar em detrimento da saúde.(22 TED 2015. The next outbreak? We're not read? Conference by Bill Gates, 2015. [cited 2020 Apr 29]. Available from: www.ted.com/talks/bill_gates_the_next_outbreak_we_re_not_ready?
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) Anteviu que o mundo não estaria preparado para enfrentar uma pandemia. A profecia tornou-se agora realidade! A atual crise de saúde pública internacional está a ser um desafio colossal para os Países, ao nível político, económico e dos respetivos sistemas nacionais de saúde. Lívidos, assistimos diariamente à monstruosa carência de camas, ventiladores e equipamentos de proteção individual, nomeadamente material simples como batas, máscaras e luvas. E os Países mais ricos não são exceção. Já há evidência de escassez de recursos humanos entre os profissionais de saúde que estão na linha da frente no tratamento de doentes infetados, devido ao facto de uns estarem contaminados, mais de 6.400(33 Itália tem 6,4 mil profissionais de saúde infectados por coronavírus [Internet]. Jornal Exame Online. 2020 Mar 30. 30. [citado 2020 Apr 29]. Disponível em: Disponível em: exame.abril.com.br/mundo/italia-tem-64-mil-profissionais-de-saude-infectados-por-coronavirus/
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) em Itália e 3.400 na China,(44 The Lancet Editorial Board. COVID-19: protecting health-care workers. Lancet. 2020;395(10225);922.) outros em quarentena profilática e, muito em breve, vários em exaustão. Lamentavelmente, dezenas de mortes de médicos foram já notificadas em Espanha e em Itália.

Desde o início da pandemia na província de Hubei até ao surgimento dos primeiros casos na Europa, houve um intervalo de cerca de 2 meses. Devido aos efeitos da globalização e da massificação das viagens aéreas, a China já não está assim tão longe. Era, por conseguinte, absolutamente espectável que o SARS-CoV-2 chegasse, mais tarde ou mais cedo, ao resto do mundo. Faltou a vontade política em acreditar logo de início que a catástrofe vírica também iria chegar até nós, faltou a vontade política em esquecer por momentos os preciosos orçamentos de estado e produtos internos brutos e faltou a vontade política para encerrar escolas, comércio e empresas não essenciais de uma forma rápida e eficaz. Mais ainda, imperdoavelmente, faltou a coragem política de cumprir os conselhos dos especialistas da OMS, das autoridades nacionais de saúde e das múltiplas sociedades científicas. O resto do mundo não aprendeu com alguns bons exemplos de combate ao vírus que vieram da Coreia do Sul, de Taiwan e de Macau. A primeira reação dos estados e dos seus governantes foi descurar levianamente a crise de saúde pública que se adivinhava e, por conseguinte, não conceberam medidas exequíveis de antecipação para travar a crise sanitária, uma verdadeira guerra “invisível e desleal”. O mundo ocidental reagiu tarde, de forma atabalhoada, sem plano, sem estratégia, deixando a nu várias carências de meios e de organização. Não acatou de imediato os conselhos da OMS de testar o maior número de indivíduos, não está a rastrear de forma sistemática, isola pouco, não adquiriu equipamento suficiente, não preparou devidamente os hospitais e demorou muito tempo a sensibilizar as populações. Reagiram em vez de agirem! Simplesmente improvisaram. Não há um plano de contingência convergente, mas sim múltiplos planos nacionais, todos díspares uns dos outros, sem uma linha estratégica internacional bem definida. Também as próprias autoridades de saúde não geram consensos, como se verifica no caso das máscaras, com entidades a aconselharem o seu uso permanente por toda a população e outras a sugerir que apenas as pessoas infetadas o devem fazer. Há países em que a classe política toma caminhos diametralmente opostos, com uns a obrigar ao encerramento de tudo que não é essencial e ao isolamento social, e outros a proporem a manutenção da vida laboral e pública para se conseguir a imunidade de grupo. Uma verdadeira bagunça!

Em relação à economia mundial, a desgraça está anunciada: estados, empresas e famílias falidas, desemprego em subida vertiginosa! Devido ao lockdown para salvar vidas e, segundo os matemáticos, para achatar a curva epidemiológica, a paralisação da economia deverá resultar numa quebra do PIB maior do que a verificada na crise financeira de 2008. A economia prepara-se para entrar nos cuidados intensivos e precisa de atenção urgente. Os governantes vão ter que tomar medidas enérgicas agora. Não vão poder protelar, tal e qual como o tratamento dos doentes infetados pelo coronavírus não pode ser adiado para daqui a um mês. Em primeiro lugar, é imperativo investir vigorosamente nos sistemas nacionais de saúde para aquisição de todo o tipo de material, construção de hospitais, contratação de mais profissionais de saúde e na valorização das suas carreiras. Depois investir nas famílias e nas empresas, com disposição de dinheiro sem contrapartidas como, aliás, a Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos já estão a fazer. É necessário envolver o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional pois um choque global determina uma resposta global. Obviamente, nunca podemos esquecer que após uma qualquer crise as economias têm capacidade para se erguerem, mas as vidas humanas não!

No momento em que escrevo as últimas linhas deste editorial há, em todo o mundo, praticamente 2.4 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e cerca de 158.000 mortes.(55 World Health Organization (WHO). Coronavirus disease 2019 (COVID-19). 2020; Situation report 91 [Internet]. Genève: WHO; 2020. [cited 2020 Apr 29]. Available from: https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/situation-reports
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) São números reveladores da brutalidade da situação que vivemos e que, infelizmente, irão aumentar de forma exponencial nos próximos meses. Não é mais o “vírus chinês”, mas sim o vírus do mundo! É preciso que todos os países, num esforço comum, disponibilizem e troquem todas as informações sobre CoVid-19 até agora obtidas. Só com uma colaboração internacional se conseguirá encontrar a solução para esta grave pandemia. É primordial aprender com os erros do presente! Factos sobre a propagação do vírus, diagnóstico, tratamento e prevenção são atos médicos de saúde pública, não são atos políticos.

Tudo será diferente a partir de agora. Iremos assistir, provavelmente, ao aumento do teletrabalho, onde se incluem as consultas médicas não-presenciais, e que será facilitado em muito pelo progresso da digitalização. Fortes regras de higienização a todos os níveis, público, empresarial, familiar e individual como também novos conceitos de comportamento social terão que ser criados. Será fundamental consciencializar as populações para que estas não saiam à rua e não se desloquem para o trabalho em caso de doença, como também crianças doentes não deverão frequentar creches e escolas. Um pequeno resfriado num individuo pode ser uma pneumonia fatal em outro. Espero que o mundo permita as alterações necessárias ao atual paradigma laboral em favor da saúde comunitária.

Para memória futura ficam as palavras de esperança e a inimaginável bênção Urbi et Orbi do Papa Francisco na Praça de São Pedro completamente vazia, num dia chuvoso e muito triste. O meu profundo reconhecimento e admiração a todos os profissionais de saúde que por este mundo fora, apesar de exaustos e sem recursos, salvam todos os dias vidas humanas.

Ficará o mundo mais bem preparado para enfrentar a próxima pandemia?

Referências

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Set 2020
  • Data do Fascículo
    Jul-Aug 2020
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