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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. bras. enferm. v.59 n.2 Brasília mar./abr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672006000200006 

PESQUISA

 

O perfil do aluno ingressante em uma universidade particular da cidade de São Paulo

 

Profile of new students in a private university of the São Paulo city

 

El perfil del alumno ingresante en una universidade particular de la cuidad de São Paulo

 

 

Carlos Eduardo dos SantosI; Maria Madalena Januário LeiteII

IDoutor. Coordenador do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade São Marcos, São Paulo
IIProfessora Doutora Associada do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da USP

 

 


RESUMO

Para investigar, junto aos alunos ingressantes em Enfermagem de uma universidade particular da Cidade de São Paulo, como se dava sua inserção neste curso, realizou-se um estudo exploratório descritivo. As respostas de 33 alunos indicaram serem adultos jovens, do gênero feminino, casados, sem filhos e na sua maioria trabalhadores. Muitos moram na região da universidade e têm sua formação no nível médio em escola pública, sua inserção no ensino superior se deu na sua grande maioria após dois semestres ou mais da conclusão do ensino médio, conheceram o curso através de pessoas e pelos meios de comunicação.

Descritores: Estudantes de enfermagem; Educação em Enfermagem; Enfermagem.


ABSTRACT

To investigate close to the new students in Nursing of a particular university of the São Paulo City, how was their insertion in this course, a exploratory descriptive study was achieved. The answers of 33 students had indicated that they were young adults, female, married, without children and in their majority they were workers. Many of them live in the region of the university, they have education in the intermediate level in public school, their insertion in higher education occur in the majority of cases after two semesters or more of the conclusion of intermediate education and they had known the course through people and for the medias.

Descriptors: Students, nursing; Education, nursing; Nursing.


RESUMEN

Para investigar como se ejecutaba su inserción en el curso de enfermeria, se realizó un estudio exploratorio descriptivo centralizado en los alumnos ingresantes de una Universidad particular de la Ciudad de Sao Paulo. Las respuestas de 33 alumnos indicaron ser adultos jóvenes, del sexo femenino, casados, sin hijos, estudiaron el nivel secundario en la escuela pública; la mayoría son trabajadores y viven en la jurisdicción de la universidad. Su inserción en la enseñanza superior se dio en su gran mayoría después de dos semestres o más de la conclusión de la enseñanza secundaria y conocieron el curso a través de personas y por los medios de comunicación.

Descriptores: Estudiantes de enfermería; Educación en enfermería; Enfermería.


 

 

1. INTRODUÇÃO

A grandeza de um país e sua afirmação no cenário internacional vincula-se à educação de seu povo. Promover a cidadania, oferecendo os meios básicos para que as pessoas se agarrem à passagem do tempo sem perder o fio da história, deveria estar no bojo de qualquer realização governamental. Mas, ao longo dos anos, o Brasil relegou a educação a um plano secundário. De um lado, o despreparo, espelhado nos índices altíssimos de analfabetismo e, de outro, o baixo nível de escolaridade.

Assim, a qualidade da educação sempre foi um dos problemas no Brasil e a situação é agravada pelo processo de globalização e desenvolvimento tecnológico não democratizado.

Uma educação que procura desenvolver a tomada de consciência e a atitude crítica, graças a qual o homem escolhe e decide, liberta-o em lugar de submetê-lo, de domesticá-lo, de adaptá-lo, como faz com muita freqüência a educação em vigor num grande número de países no mundo, educação que tende a ajustar o indivíduo a sociedade, em lugar de promovê-lo em sua própria linha(1).

Entretanto, em uma sociedade de classes como a nossa, a chamada classe dominante tende a submeter as demais aos seus interesses básicos. E como as escolas são instituições que nascem de necessidades sociais concretas e que, como ocorre com os aparelhos institucionais, desenvolveram uma necessidade intrínseca de se preservarem, e de permanecerem.

Para tanto, não é difícil entender que muitos e profundos pactos acabem sendo celebrados entre o intuito de sobrevivência da sociedade como um todo e a mencionada necessidade de permanência das escolas. Trata-se dos chamados pactos de reprodução, que influenciam e impactam em propostas pedagógicas que não se preocupam na formação de profissionais éticos e políticos.

Assim, o ensino superior não é uma prática independente, é sim influenciado pelas condições sócio econômica e políticas, bem como das legislações gerais e as específicas a cada área do saber estabelecido pelo Ministério da Educação.

A principal legislação da educação superior é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, com os Cursos de Enfermagem estabelecidos no seu artigo 44(2).

Evidencia-se nas diretrizes que na construção do projeto político pedagógico dos Cursos de graduação entre muitas interfaces uma das primeiras fases é identificar que profissional que se quer formar, para que e como vai se formar.

A preocupação com o perfil do ingressante, não é novo na Enfermagem(3), estudaram os ingressantes na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto e na Escola de Enfermagem, ambas da Universidade de São Paulo. Neste estudo a população foi de 312 alunos, sendo 182 da capital e 130 de Ribeirão Preto. Em sua grande maioria jovens do sexo feminino, procedente em geral da cidade onde estava a Escola e o seu ingresso no Curso era imediato após a conclusão do Colegial.

Outros autores(4) investigaram os fatores que influenciaram alunos ingressantes na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo em 1981, em um estudo quantitativo, na escolha da enfermagem como opção profissional mostrou que em sua grande maioria eram jovens entre 18 e 22 anos, do sexo feminino, procedentes da capital paulista e dependente economicamente dos pais.

Em relação à opção pelo curso, metade destes alunos apontou a enfermagem como primeira opção profissional e a outra metade pretendia fazer outro Curso além da Graduação em Enfermagem. Os fatores que influenciaram na escolha da profissão foram interesse pelas ciências biológicas; desejo de ajudar pessoas; preocupação com o nível de saúde da população; desenvolvimento da personalidade com o objetivo de compreender melhor a pessoa; incentivo da família; interesse financeiro; experiência de trabalho hospitalar ou comunitário; experiências com hospitalização; ingresso mais fácil na área das ciências biológicas; status profissional e enfermeiras na família.

Em um estudo qualitativo(5) evidenciou-se sentimentos contraditórios, de importância, superioridade, decepção e liberdade do aluno ingressante. A época da realização do estudo a autora apontava que já havia poucos estudos correlatos sobre o assunto, doze anos após, ainda temos pouca produção nesta temática.

No ano de 1995 temos três artigos publicados, um deles, "Acompanhamento da vida escolar dos alunos ingressantes no curso de graduação em enfermagem numa escola brasileira: período 1984 a 1988"(6), as autoras analisaram 336 alunos, em um estudo quantitativo, no que concerne a forma de inserção, evidenciou-se que nos anos de 1984 a 1986 todas as vagas foram preenchidas e nos anos de 1987 e 1988, cinqüenta por cento das vagas foram preenchidas. O quantitativo de evasão do Curso nos quatro anos foi de 137 desligamentos principalmente no segundo terceiro e quarto semestres, 15 alunos trancaram a matrícula e concluíram o Curso 166. As autoras consideraram o grave problema social, econômico e educacional, à época, como possíveis fatores de evasão.

Em outro artigo(7), as autoras realizaram um levantamento em escolas de enfermagem do país e os resultados mostraram que algumas possuem uma programação voltada para as necessidades do aluno, entretanto a grande maioria atende os alunos de maneira formal, geral e impessoal.

Temos, também na publicação de 1995 que os autores(8), levantaram dados de ingressantes de 28 escolas de enfermagem do Estado de São Paulo. Apontou a prevalência do sexo feminino, jovem, que realizaram curso preparatório para o vestibular e entre outros resultados, ter ingressado pela afinidade com a profissão e com a perspectiva de inserção no mercado de trabalho e a remuneração.

Na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto(9), realizou-se um estudo sobre a disciplina "Integração do aluno de Enfermagem na escola e na profissão", tendo como sujeitos os alunos no primeiro dia de aula. Foi solicitado a eles que descrevessem livremente "Como você se sente aqui hoje?". Ficaram evidenciados dois sentimentos predominantes: de realização e de insegurança. Os de realização foram sub agrupados em três sentimentos no sentido de vitória por ter ultrapassado a barreira do vestibular, de valorização por estar numa universidade e de esperança num futuro melhor. Os de insegurança foram sub agrupados em no sentido de insegurança por enfrentar uma situação nova, medo referente às incertezas quanto ao curso e ao futuro e o de solidão por sentirem-se só entre novos conhecidos e longe dos amigos.

A partir desses estudos evidencia-se que os ingressantes nos Cursos de Enfermagem são predominantemente jovens do sexo feminino, que demonstram muitos sentimentos, às vezes contraditórios e que a forma como se dá à recepção a estes e a execução do Projeto Pedagógico de um Curso é fundamental para sua fixação ou não no mesmo.

O aluno de uma forma geral quer seja ingressante ou não, adquire no decorrer do Curso competências e habilidades específicas para exercer a profissão de enfermagem, mas no transcurso dessa vivência ele deve encontrar no docente um profissional que seja um mediador e facilitador do processo educacional.

Em um estudo sobre a compreensão dos alunos quanto a disciplina Administração aplicada à Enfermagem do Curso de Graduação em Enfermagem da USP(10) evidenciou que ser aluno é voltar-se para o seu mundo vivido, que deve-se estar atenta para o que dizem e como dizem e para tanto o professor deve refletir na forma como falam, como se expressam corporalmente, como se sentem e pensam nas varias situações de ensino.

Assim, os objetivos deste estudo são:

- Caracterizar os ingressantes de um curso de graduação em enfermagem quanto a dados demográficos e formação anterior a graduação;

- Analisar as formas pela quais obtiveram informações sobre o curso;

- Verificar se os alunos são trabalhadores e em que área atuam e em que tipo de instituição.

 

2. METODOLOGIA

Esse estudo é de natureza descritivo-exploratória, tendo objeto a inserção dos acadêmicos no ano de 2004, ano em que iniciou-se o curso de graduação.

A população do estudo é constituída dos ingressantes da universidade no ano de 2004 que foram 50 sujeitos, sendo que 33 responderam o questionário.

Os dados foram colhidos por meio de um questionário no qual continha também o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Constou de perguntas abertas e fechadas e questões de múltiplas escolhas que foram analisadas numa planilha Excel com a freqüência simples e relativa dos resultados.

Os dados foram coletadas até o segundo mês de inserção do aluno no Curso.

 

3. RESULTADOS

Os alunos que enviaram os questionários de volta ao pesquisador, responderam quase todas as perguntas. As respostas foram categorizadas nos termos definidos nos objetivos propostos para o presente trabalho, como será apresentado a seguir.

Dados demográficos

A maioria do alunos é do sexo feminino (92,0%), tinha entre 21 e 30 anos (64,0%), casado (52.0%) e sem filhos (60,0%).

A presença significativa de adultos jovens e casados é um indicativo de que uma boa parte dos ingressantes é trabalhador ou já possui obrigações familiares. Sobre os alunos trabalhadores vale registrar ainda que 64,0% informaram possuírem renda pessoal (64%), apesar de (56%) referirem trabalharem.

Mais da metade dos alunos (52,0%) moram na zona sul onde se localiza a atual sede da faculdade. (32,0%) moram na zona leste e (4%) moram na zona oeste da cidade. 12%moram nas cidades vizinhas do grande ABC. Essa distribuição indica a forte inserção da faculdade na comunidade a que pertence, complementada pela rede de transporte que servem à localidade.

Instituição de origem e tempo de inserção no ensino superior

Do total de alunos que responderam ao questionário, 56% provêm de escolas públicas, 8% de escolas privadas, 24% fizeram o supletivo e 12% estudaram em escolas publicas e privadas.

O tempo de inserção no ensino superior para 40 % dos alunos se deu após quatro meses ou mais após a conclusão do segundo grau, 32% imediatamente após, 16% após dois semestres, 4% após um semestre e 8% não responderam a questão.

Quanto ao local de trabalho

Dos 56% que referiram trabalhar cerca de 40% trabalha na zona sul, 8% na região do Grande ABC, 4% na zona sul e 4% na zona leste da cidade de São Paulo. Constata-se que a grande maioria dos alunos esta atuando na cidade sede da instituição e grande parte esta na região onde esta instalada a universidade.

Na questão que abordava o número de empregos que possuía todos os alunos responderam terem somente um emprego, cerca de 44% trabalham em tempo parcial e 12% em tempo integral, o que é um indicador que apesar de serem trabalhadores tem tempo para estudar e conciliar o emprego com os horários da universidade.

Quanto ao tipo de instituição em que atuam 20% caracteriza a instituição como privada não filantrópica, 16% em privada filantrópica, 12% referem ser autônomos e 8% atuam em cooperativas.

Conhecimento do curso

Quando indagados como conheceram a existência do curso. 36% afirmaram ter tomado conhecimento do curso por pessoas conhecidas, 32% referiram outros meios mas não apontaram quais, 16% por meios de comunicação e 16% pelo site da universidade, 8% por panfletos e 4% por divulgação em cursinho.

 

4. CONCLUSÕES

A caracterização demográfica dos ingressantes do curso em análise, no ano de inserção de 2004, indicou que a população é constituída por adultos jovens, predominantemente do sexo feminino, casados e sem filhos.

A grande maioria é aluno trabalhador e uma minoria trabalhador na área da saúde, todos atuantes na região do entorno da universidade e tendo um emprego somente e na sua maioria atuam em instituições privadas ou não filantrópicas.

Uma boa parte dos ingressantes fizeram seu ensino médio em escola pública e sua inserção em instituição de ensino superior se deu na grande maioria acima de dois a quatro semestres após a conclusão.

O seu conhecimento pelo curso foi através dos meios de comunicação. E principalmente por pessoas, o que é um dado relevante já que o curso é novo e a indicação deve ter partido de outros alunos de outros cursos que acreditam no potencial da universidade, para indicarem a mesma para seus conhecidos.

O estudo indica que a inserção deste curso de enfermagem se deu em uma região da cidade de São Paulo e esta atendendo a comunidade a que pertence, em posições relativamente favoráveis. A atitude do Ingressante em relação ao seu desenvolvimento demonstra possibilidades de crescimento, sendo desejável o prosseguimento do estudo para acompanhamento do fenômeno a médio e longo prazo.

 

REFERÊNCIAS

1. Freire P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro (RJ): Paz e Terra; 1987.         [ Links ]

2. Brasil. Lei n. 9.394 de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação. Lei de Diretrizes e Bases da educação LDB [online] Brasília (DF); 1996. [citado em: 10 jun 2005]. Disponível em: URL: http://prolei.cinec.inep.gov.br         [ Links ]

3. Manzolli MC, Motteleone Z Caracterização do estudante de enfermagem. Enferm Novas Dimen 1977; 3(4): 206-14.         [ Links ]

4. Arcuri EAM, Araújo TL, Oliveira MAC. Fatores que influenciaram alunos ingressantes na Escola de Enfermagem da USP, em 1981, na escolha da enfermagem como opção profissional. Rev Esc Enferm USP 1983; 17(1): 5-19.         [ Links ]

5. Jorge MSB. O aluno ingressante na Universidade: uma perspectiva de compreensão [dissertação]. Ribeirão Preto (SP) Escola Enfermagem de Ribeirão Preto/USP; 1992.         [ Links ]

6. Gomes DLS, Angerami ELS, Mendes IJM. Acompanhamento da vida escolar dos alunos ingressantes no curso de graduação em enfermagem numa escola brasileira período de 1984 a 1988. Rev Lat-am Enfermagem 1995; 3(1): 95-107.         [ Links ]

7. Jorge MSB, Rodrigues ARF. Serviços de apoio ao estudante oferecidos pelas escolas de enfermagem no Brasil. Rev Lat-am Enfermagem 1995; 3(2): 59-68.         [ Links ]

8. Tavares MSG, Rolin EJ, Franco LHRO, Oliveira FL. O perfil do aluno ingressante nos cursos superiores de enfermagem do Estado de São Paulo 1993. Rev Paul Enferm 1995; 14(2/3): 55-65.         [ Links ]

9. Rodrigues ARF, Scatena MCM, Labate RC. O aluno ingressante na enfermagem. Rev Enferm UERJ 1997; 5(1): 331-09.         [ Links ]

10. Leite MMJ. O ensino da disciplina administração aplicada à enfermagem: compreensão das graduandas [tese]. São Paulo (SP): Escola de Enfermagem da USP; 1994.         [ Links ]

 

 

Submissão: 10/10/2005
Aprovação: 10/02/2006

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