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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.67 no.3 Brasília mai./jun. 2014

http://dx.doi.org/10.5935/0034-7167.20140046 

PESQUISA

Associação entre assistência pré-natal e mortes neonatais, 2000-2009, Londrina-PR

Association between prenatal care and neonatal deaths, 2000-2009, Londrina-PR

Asociación entre asistencia prenatal y muertes neonatales, 2000-2009, Londrina-PR

Rosângela Aparecida Pimenta FerrariI 

Maria Rita BertolozziII 

José Carlos DalmasIII 

Edmarlon GirottoIV 

IUniversidade Estadual de Londrina, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Enfermagem. Londrina-PR, Brasil.

IIUniversidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva. São Paulo-SP, Brasil.

IIIUniversidade Estadual de Londrina, Centro de Ciências Exatas, Departamento de Estatística. Londrina-PR, Brasil.

IVUniversidade Estadual de Londrina, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Ciências Farmacêuticas. Londrina-PR, Brasil.

RESUMO

Analisou-se a assistência pré-natal de mães de recém-nascidos que evoluíram para óbito no período neonatal, por meio de pesquisa quantitativa tipo coorte retrospectiva, entre 2000 e 2009, Londrina-PR. Quase a totalidade das mulheres realizou o acompanhamento pré-natal (91,4%), sendo 55,1% até seis consultas. Nos dez anos, o baixo número de consultas (≤6) predominou. Houve relação estatisticamente significativa entre número de consultas pré-natais e variáveis sociodemográficas maternas (p<0,004) e características do parto e do recém-nascido (p<0,001). O parto cirúrgico predominou entre mulheres com ≥7 consultas (71,3%). Entre mulheres com ≤6 consultas pré-natais, 65,9% dos nascimentos ocorreram antes de 32 semanas de gestação, 79,8% dos recém-nascidos apresentaram Apgar ≤6 no 1º minuto e 51,7% peso ≤1.000 gramas. A maioria dos óbitos ocorreu no período neonatal precoce (72,6%). Para a redução de mortes neonatais, ressalta-se a necessária atenção pré-natal qualitativa e integral no município, considerando-se, além das condições biológicas, as condições socioeconômicas maternas.

Palavras-Chave: Gestação; Cuidado Pré-Natal; Mortalidade Neonatal; Condições Sociais

ABSTRACT

The study aimed to analyze the prenatal care for mothers of infants who died in the neonatal period, in Londrina-PR, through a quantitative retrospective cohort study, between 2000 and 2009. Almost all women held the prenatal care (91.4 %), with 55.1 % up to six consultations. In ten years, the low number of visits (≤ 6) predominated. There was a statistically significant relationship between the number of prenatal visits and maternal sociodemographic variables (p < 0.004) and characteristics of the labor and the newborn (p < 0.001). The surgical delivery was predominant among women with ≥ 7 queries (71.3 %). Among women with ≤ 6 prenatal visits, 65.9 % of births occurred before 32 weeks of gestation, 79.8 % of the newborns had Apgar scores ≤ 6 at 1 minute and 51.7 % weight ≤ 1000 grams. Most deaths occurred in the early neonatal period (72.6 %). We highlight the necessity of qualitative and integrative prenatal care in this city, considering beyond biological conditions but also maternal socio-economic conditions in order to reduce neonatal deaths.

Key words: Pregnancy; Prenatal Care; Neonatal Mortality; Social Conditions

RESUMEN

Se analizó la asistencia prenatal de madres de recién nacidos que fueron a óbito en el período neonatal, vía pesquisa cuantitativa del tipo cohorte retrospectiva, entre 2000 y 2009, Londrina-PR. Casi todas las mujeres realizaron atención prenatal (91,4%) siendo 55,1% hasta seis consultas. En diez años predominó el bajo número de consultas (≤6). Hubo una relación estadísticamente significativa entre consultas y variables sociodemográficas maternas (p < 0,004), características del parto y recién nacido (p<0,001). El parto quirúrgico prevaleció las mujeres con ≥7 consultas (71,3%). Entre las mujeres con ≤6 consultas, 65,9% nacimientos antes de las 32 semanas de gestación, 79,8% recién nacidos tuvieron Apgar ≤6 al primero minuto y 51,7% peso inferior a 1.000 gramos. La mayoría de las muertes produjeron en el período neonatal precoz (72,6%). Es notoria la necesidad del prenatal cualitativo e integral en el municipio, en que se consideren, además de la situación biológica, las condiciones socioeconómicas maternas, para reducción de las muertes neonatales.

Palabras-clave: Gestación; Cuidado Prenatal; Mortalidad Neonatal; Condiciones Sociales

INTRODUÇÃO

A formulação e a execução de políticas públicas para a saúde materno-infantil no Brasil instituiu-se a partir da década de 1970, com objetivo de reduzir a morbidade e mortalidade. Foram desenvolvidas iniciativas de suplementação alimentar, de cobertura vacinal, de assistência à gestante, parto e planejamento familiar e de atenção à saúde da criança e do adolescente. Vários programas continuaram, foram reformulados e ampliados e alguns vigoram até a atualidade.

Entre os principais programas, o Sistema de Informação do Programa de Humanização no Pré-Natal e no Nascimento (SIS-Pré-Natal), tem como intuito: melhorar o acesso, cobertura e qualidade do acompanhamento pré-natal, da assistência ao parto e puerpério e da assistência neonatal, subsidiando as unidades federativas (União, Estados e Municípios), com informações fundamentais para o planejamento, acompanhamento e avaliação das ações desenvolvidas. Estudos mostram que a partir da década de 1980, a relação entre as políticas e programas materno-infantis instituídas para reduzir os índices de mortalidade, apesar de seus limites, refletiram na melhoria dos indicadores de mortalidade neonatal. Entretanto, pouco se avançou para a efetivação de políticas públicas que favorecessem melhor atenção à saúde materna(1-2).

Muitos dos agravos relacionados à morte neonatal poderiam ser preveníveis, nos países em desenvolvimento, utilizando-se tecnologias simples e de baixo custo, beneficiando tanto a mulher como a criança. Algumas pesquisas mostraram que, entre as mortes neonatais, pouco mais da metade ocorreu no período neonatal precoce, decorrente de infecções urinárias e sexualmente transmissíveis, diabetes e hipertensão arterial materna não diagnosticada e tratada no momento ideal, provocando o nascimento de bebês de muito baixo peso e prematuros(1-4).

Outros estudos evidenciaram também que a mortalidade neonatal está fortemente ligada às disparidades socioeconômicas, condições de vida materna e de acesso aos serviços de saúde além das condições biológicas como: peso ao nascer, Apgar e idade gestacional, no Brasil e respectivas regiões(2,5-9). Ressalta-se que durante o pré-natal os cuidados são mais custo-efetivos, enquanto que, os investimentos na tentativa de sobrevida de crianças nascidas por agravos maternos são onerosos por, muitas vezes, necessitarem de serviços especializados e de alta complexidade(3-4). Para tanto, se torna necessário investimentos na área da saúde com ênfase nos programas antenatais e perinatais reestruturando as políticas de saúde municipais e regionais no intuito de qualificar o atendimento e respectivas intervenções que são potencializadoras para a redução do número elevado do óbito neonatal tais como: planejamento familiar, assistência pré-natal, acompanhamento do trabalho de parto e parto humanizado, assistência ao recém-nascido na sala de parto e na unidade neonatal, acompanhamento puerperal e rede de apoio dos serviços de referência e contrarreferência materno-infantil. Também, sem dúvida, investimentos na educação permanente dos profissionais que atuam nestes serviços(1,3,6,10-11). Pois, cabe ao sistema de saúde manter uma rede integrada de assistência para assumir o caráter da responsabilização e disponibilizar atendimento em todos os níveis de atenção do primário ao terciário, articulando-se aos demais setores, o socioeconômico e a infraestrutura, os quais têm interface estreita com a saúde da população e refletem diretamente nas condições de vida da mulher e criança(1-3,6-7).

Desta forma, considerando que a condição de vida materna e comorbidades durante o período gestacional afetam diretamente o recém-nascido, a presente pesquisa teve como objetivo analisar a assistência pré-natal de mães de recém-nascidos que evoluíram para óbito no período neonatal.

MÉTODO

Foi realizada uma pesquisa quantitativa do tipo coorte retrospectiva, no período de 2000 a 2009, utilizando-se dados da Declaração de Nascido Vivo (DN), da Declaração de Óbito (DO) e das Fichas de Investigação do Óbito Infantil do Comitê Municipal de Prevenção da Mortalidade Materna e Infantil (CMPMMI). O município de Londrina se localiza na região norte do Paraná, possui uma população de aproximadamente 511.000 habitantes e é constituída por um sistema de saúde que oferece atendimento em 54 Unidades Básicas de Saúde na área rural e urbana, serviço móvel de urgência e emergência, laboratórios e pronto atendimento ambulatorial.

Nos 10 anos (2000 a 2009), verificaram-se 793 óbitos de crianças menores de um ano de idade, sendo 783 investigados pelo CMPMMI e, destes, 537 (68,6%) ocorreram no período neonatal (0 a 27 dias), incluídas neste estudo. Excluíram-se os óbitos do componente pós-neonatal (≥28 dias) por não configurarem causas básicas de morte relacionadas a afecções maternas e perinatais.

As variáveis de estudo foram: acompanhamento pré-natal (número de consultas, início, classificação de risco ou não, exames de imagem e laboratorial, vacinação, local em que foi realizado, afecções gestacionais); características sociodemográficas maternas (faixa etária, escolaridade, renda familiar, ocupação e situação conjugal); características do parto e do recém-nascido (tipo de parto, idade gestacional, Apgar no 1º e 5º minuto, peso ao nascer e período do óbito); e causa básica do óbito, conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Entre as causas básicas de óbito, foram investigadas: Algumas afecções originadas no período perinatal (Capítulo XVI, P00-P96): feto e recém-nascidos afetados por outras afecções maternas (P08-P018); feto e recém-nascido afetados por fatores maternos e por complicações da gravidez, do trabalho de parto e do parto (P00-P04); infecções específicas do período perinatal (P35-P39) e transtornos respiratórios e cardiovasculares específicos do período perinatal (P20-P29).

A coleta de dados ocorreu entre os meses de março a julho de 2010. Os dados foram digitalizados em banco de dados no programa computacional Epi Info 2002(r) e analisados no Statistical Package for the Social Sciences(r), utilizando-se os testes Qui-quadrado e Exato de Fischer, para a análise univariada e bivariada, com o valor descritivo final de p <0,05.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo mediante a autorização da Diretoria de Atenção à Saúde da Autarquia Municipal, processo nº CAAE 0044.0.196.000-09/843/2009.

RESULTADOS

O acompanhamento no programa pré-natal foi realizado por 91,4% das mulheres. Quanto ao número de consultas, a variação foi elevada, entre uma e vinte consultas, sendo 296 (55,1%) entre uma e seis vezes e 195 (36,3%) sete ou mais vezes. Em sua maioria (71,7%), as mulheres iniciaram o acompanhamento no primeiro trimestre de gestação. Durante o pré-natal, 33,5% gestações foram diagnosticadas de risco e menos de 20,0% foram encaminhadas para o Ambulatório do Hospital das Clínicas (AHC), serviço especializado e de referência regional. Quanto aos exames de rotina, 14,3% das mulheres não realizaram o exame de ultrassonografia e 13,8% exames laboratoriais. A informação sobre a cobertura da vacina antitetânica foi registrada no caso de 47,7% mulheres, ressaltando-se que, para mais da metade (52,3%), este dado não foi informado (Tabela 1).

Verifica-se na Tabela 1 que o acompanhamento no programa pré-natal, ocorreu, em maior frequência, no serviço público do município (62,3%), sendo 41,3% exclusivamente na Unidade Básica de Saúde (UBS). Parte das mulheres que recorreram ao serviço privado (4,9%) também buscaram atendimento no serviço público (UBS e Ambulatório).

Tabela 1 Características do acompanhamento no programa de pré-natal, 2000-2009, Londrina-PR 

Acompanhamento no Programa de Pré-Natal n %
Nº de Consultas pré-natal    
    1 a 6 296 55,1
    7 195 36,3
    Não fez 45 8,4
Início do Pré-Natal (em trimestre)    
    Primeiro 385 71,7
    Segundo 101 18,8
    Terceiro 2 0,4
Diagnóstico no Pré-Natal    
    Risco 180 33,5
    Sem Risco 357 66,5
Exames realizados no Pré-Natal    
  Ultrassonografia (USG)    
    Sim 460 85,7
    Não 77 14,3
  Laboratoriais (sangue e urina)    
    Sim 463 86,2
    Não 74 13,8
  Atualização Vacinal Antitetânica    
    Sim 256 47,7
    Não 281 52,3
Local do Pré-Natal*    
    Unidade Básica de Saúde (UBS) 203 41,3
    Consultório convênio/particular 140 28,5
    UBS e Ambulatório público de alto risco 84 17,1
    UBS e convênio/particular 22 4,5
    Ambulatório público de alto risco 19 3,9
    Ambulatório público de alto risco e convênio/particular 2 0,4

Nota: Todos os percentuais excluem as informações ignoradas:

*Calculado total = 491.

Quanto ao acompanhamento no pré-natal, observa-se que, na quase totalidade dos anos, a maior porcentagem das mulheres realizou menos de sete consultas, exceto em 2008 (Figura 1). Ressalta-se que entre as mulheres que realizaram de uma a seis consultas pré-natal (55,1%), 19,1% fizeram de uma a três e 41,1% entre quatro e seis.

Figura 1 Distribuição das mulheres segundo número de consultas pré-natal, 2000-2009, Londrina-PR 

Na Tabela 2 observa-se que, entre as mulheres que realizaram até seis consultas no pré-natal, 27,0% eram adolescentes (12 a 19 anos), 36,5% tinham menos de sete anos de estudo, 18,6% renda inferior a um salário mínimo, 37,5% tinham ocupação remunerada e 17,2% não tinham companheiro. Ao contrário, verifica-se que, entre as mulheres que realizaram mais de sete consultas pré-natal, 12,3% eram adolescentes, 21,0% tinham escolaridade abaixo de sete anos, 8,2% renda inferior a um salário mínimo, cerca de 57,0% eram remuneradas e 8,7% não tinham companheiro.

Tabela 2 Número de consultas pré-natal segundo características sociodemográficas maternas, 2000-2009, Londrina-PR 

Características sociodemográficas maternas Nº de consultas pré-natal* Valor p =
6 7
n % n %
296 100,0 195 100,0
Faixa Etária (em anos)          
  12 a 19 80 27,0 24 12,3  
  20 a 27 110 37,2 76 39,0 ≤ 0,001
  28 a 35 77 26,0 59 30,2
  36 29 9,8 36 18,5  
Escolaridade (em anos)          
  3 32 10,8 8 4,1  
  4 a 7 76 25,7 33 16,9 ≤ 0,001
  8 a 11 154 52,0 92 47,2
  12 33 11,1 60 30,8  
Renda Familiar (em salários mínimos)          
  1 55 18,6 16 8,2  
  2 a 4 119 40,2 69 35,4 ≤ 0,001
  5 30 10,1 55 28,2  
Ocupação          
  Remunerada 111 37,5 111 56,9 ≤ 0,001
  Não remunerada 179 60,5 80 41,0
Situação Conjugal          
  Com companheiro 240 81,1 176 90,3 ≤ 0,004
  Sem companheiro 51 17,2 17 8,7

*Total = 491;

Nota: Todos os percentuais excluem as informações ignoradas.

Na Tabela 3 verifica-se que entre as mulheres que realizaram menos de seis consultas pré-natal, 79,4% na UBS, enquanto que, entre as que realizaram mais de sete consultas, 54,3% no consultório convênio/particular. Quanto ao diagnóstico de risco gestacional aproximadamente 50,0% foram acompanhadas em sete e/ou mais consultas pré-natais. A quase totalidade das mulheres que realizaram ≤6 consultas apresentaram algum tipo de afecção gestacional e, em contrapartida, 88,2% fizeram ≥ 7 consultas. Quanto ao tipo de afecção gestacional observa-se também que, entre as mulheres que realizaram menos de seis consultas, 15,9% apresentaram hipertensão arterial (HAS), 79,4% evoluíram para o trabalho de parto prematuro (TPP) e 36,1% desenvolveram doenças renais e de vias urinárias (ITU).

Tabela 3 Número de consultas pré-natal segundo características do acompanhamento no programa de pré-natal, 2000-2009, Londrina-PR 

Características do Acompanhamento no Programa de Pré-natal Nº de consultas pré-natal* Valor p=
6 7
n % n %
296 100,0 195 100,0
Local do Pré-Natal**          
  Unidade Básica de Saúde (UBS)          
    Sim 235 79,4 96 49,2 ≤ 0,001
    Não 61 20,6 99 50,8
  Ambulatório do Hospital de Clínicas (AHC)          
    Sim 59 19,9 44 22,6 ≥0,005
    Não 237 80,1 151 77,4
  Convênio/particular          
    Sim 57 19,3 106 54,3 ≤ 0,001
    Não 239 80,7 89 45,6
Diagnóstico no Pré-natal          
    Risco 83 28,0 97 49,7 ≤ 0,001
    Sem risco 213 72,0 98 50,2
Afecções Gestacionais          
    Sim 278 93,9 172 88,2 ≤ 0,020
    Não 18 6,1 23 11,8
Tipo de Afecções Gestacionais          
  Hipertensão arterial sistólica (HAS)          
    Sim 47 15,9 47 24,1 ≤ 0,006
    Não 249 84,1 148 75,9
  Trabalho de Parto Prematuro (TPP)          
    Sim 235 79,4 131 67,2 ≤ 0,030
    Não 61 20,6 64 32,8
  Doenças renais e vias urinárias (ITU)          
    Sim 107 36,1 68 34,9 ≥0,050
    Não 189 63,9 127 65,1  

*Total = 491;

**Múltipla opção;

Nota: Todos os percentuais excluem as informações ignoradas.

Com relação às características do parto, verifica-se na Tabela 4, que as mulheres que realizaram menos de sete consultas no pré-natal evoluíram para o parto vaginal (59,8%), enquanto que, as com mais de sete para o parto cirúrgico (71,3%). Também que 65,9% das mulheres que realizaram até seis consultas evoluíram para o parto prematuro extremo (≤31 semanas de gestação), 51,7% dos bebês nasceram com menos de 1.000 gramas e, aproximadamente 60,0%, em asfixia grave no 1º minuto de vida. Ao contrário, entre as mulheres que realizaram mais de sete consultas foi menos frequente o parto prematuro extremo, o baixo peso e asfixia grave. Mais de 70,0% dos recém-nascidos evoluíram para o óbito antes de completar sete dias de vida, tanto entre as mulheres que realizaram mais e menos de sete consultas.

Tabela 4 Número de consultas pré-natal segundo características do parto, do recém-nascido e do período do óbito, 2000-2009, Londrina-PR 

Características do Parto e do Recém-Nascido Nº de consultas pré-natal* Valor p =
6 7
n % n %
296 100,0 195 100,0
Tipo de Parto          
  Cirúrgico 119 40,2 139 71,3 ≤ 0,001
  Vaginal 177 59,8 56 28,7
Idade Gestacional (em semanas)          
  22 a 31 195 65,9 83 42,6  
  32 a 36 44 14,9 49 25,1 ≤ 0,001
  37 50 16,9 59 30,2  
Apgar 1º minuto          
  Asfixia grave (0 a 3) 177 59,8 73 37,4  
  Asfixia moderada (4 a 6) 59 20,0 49 25,1 ≤ 0,001
  Sem asfixia (7) 54 18,2 73 37,4  
Apgar 5º minuto          
  Asfixia grave (0 a 3) 77 26,0 30 15,4  
  Asfixia moderada (4 a 6) 68 23,0 39 20,0 ≤ 0,003
  Sem asfixia (7) 145 49,0 126 64,6  
Peso ao Nascer (em gramas)          
  <1.000 153 51,7 63 32,2  
  1.000 a 2.499 97 32,8 65 33,3 ≤ 0,001
  2.500 46 15,5 67 34,4  
Período do Óbito          
  Neonatal precoce (0-6 dias) 215 72,6 141 72,3 ≥ 0,508
  Neonatal tardio (7-27 dias) 81 27,4 54 27,7  

*Total = 491;

Nota: Todos os percentuais excluem as informações ignoradas.

Do total dos óbitos neonatal, 77,6% (417) ocorreram por algumas afecções originadas no período perinatal (Cap. XVI, P00-P090), sendo 33,6% por feto e recém-nascidos afetados por outras afecções maternas (P08-P018) e 23,5% por feto e recém-nascido afetados por fatores maternos e por complicações da gravidez, do trabalho de parto e do parto (P00-P04), seguidas por 21,1% infecções específicas no período perinatal (P35-P39) e 17,3% por transtornos respiratórios e cardiovasculares no período perinatal (P20-P29).

DISCUSSÃO

Quanto ao acesso à atenção pré-natal, nos serviços de saúde, estudos apontam que a partir da implantação do programa SIS Pré-Natal houve melhora significativa, mas ainda não atende a totalidade das mulheres das áreas de abrangência das unidades de atendimento(12-14). Autores afirmam que lacunas e desigualdades na atenção pré-natal, parto e pós-parto persistem devido à inadequada interlocução entre os serviços de atenção básica, ambulatorial e hospitalar, sendo necessário maior investimento na atenção básica, considerando-se imprescindível interferir, sobretudo, na forma como ocorre o relacionamento e o vínculo entre as UBS com os hospitais e serviços, para a prevenção e promoção da saúde materna e perinatal(7,14).

A baixa efetividade do programa pré-natal foi evidenciada em pesquisa realizada a partir de uma amostra de 2.422 gestantes em atendimento nos serviços de pré-natal de baixo risco da rede do Sistema Único de Saúde do Estado do Rio de Janeiro(14), bem como no registro no SISPRENATAL e cartão da gestante de 1.489 puérperas internadas para parto no Sistema Único de Saúde, no município de São Carlos, São Paulo(13). Outros estudos também verificaram que a cobertura pré-natal foi inferior ao preconizado pelo Ministério da Saúde, até sete consultas(4-5,12). Tais achados indicam a necessária implementação de estratégias para ampliar a captação precoce das gestantes e qualificar os registros dos profissionais de saúde no programa.

Embora quase a totalidade das mulheres tenha frequentado o serviço de saúde, os dados deste estudo mostrou que o número de consultas no pré-natal foi insuficiente, se comparada com a média estipulada pelo Ministério da Saúde. Por outro lado, ao longo dos anos de estudo aumentou gradativamente a porcentagem de mulheres que realizaram de sete e mais consultas. O aumento da cobertura de pré-natal também foi identificado nos indicadores de processo SISPRENATAL(4,12,14). Por outro lado, mesmo que as mulheres realizem número adequado de consultas, também podem apresentar problemas e ter desfecho desfavorável da gestação, visto que ações de rotina no programa apresentam fragilidades na identificação e no tratamento de doenças passíveis de detecção precoce e prevenção(9-11,14-15)

No presente estudo, também se observou que as gestantes que buscaram atendimento particular/convênio fizeram de sete e mais consultas pré-natal, ao contrário daquelas que frequentavam a rede básica de saúde, que fizeram até seis consultas. A maioria iniciou o atendimento no primeiro trimestre de gestação. Fato interessante observado nos resultados foi que a menor frequência nas consultas de pré-natal esteve associada com a menor idade materna, escolaridade e renda, bem como, com as variáveis não ter companheiro e ocupação não remunerada. Outros estudos encontraram a relação entre mortalidade neonatal com características maternas, baixo número de consultas no pré-natal, faixa etária entre 12 e 24 anos e piores condições socioeconômicas, como as do presente estudo, também que, a maioria das mortes, ocorreu no período neonatal precoce(5,8,11,16-17). Além destes condicionantes para a mortalidade neonatal, outros países, identificaram o maior índice entre populações com diferenças socioculturais e étnico-raciais(15-16). Ressalta-se que

não basta ter acesso aos serviços de saúde e aos exames, é preciso que os profissionais responsáveis pelo atendimento tenham e utilizem o conhecimento clínico, pois é ele que fornece os subsídios necessários para a intervenção nas situações adversas, contribuindo para a redução da mortalidade(9).

Ao contrário deste estudo, os resultados da pesquisa de coorte realizada em Pelotas-RS, de 1982 a 2004, evidenciaram que o número médio de consultas pré-natal aumentou de 6,7 para 8,1 e a proporção de gestantes que iniciaram o pré-natal no terceiro trimestre da gravidez diminuiu de 14,8% para 7,0%. Concluíram que esse aumento de cobertura foi maior entre mães e crianças de baixa renda(18).

A realização dos exames de imagem (ultrassonografia), laboratoriais e vacinação antitetânica, nos registros do presente estudo, não ocorreram na totalidade das fichas das mulheres que fizeram o acompanhamento pré-natal. Tais evidências foram identificadas em outras pesquisas, como também, o melhor acesso ao exame de imagem entre as mulheres com maior renda(12-14,16,18-19). Ressalta-se que a realização deste exame em número e qualidade possibilita melhor datação da gestação, evitando o pós-datismo e as induções desnecessárias, diagnostica gestações múltiplas com estabelecimento da corionicidade e malformações fetais fornecendo subsídios para intervenções precisas diminuindo os índices de mortalidade perinatal(10-11,14-17).

Outro dado relevante, encontrado na presente pesquisa, foi que a totalidade das mulheres que realizaram o pré-natal, desenvolveu algum tipo de afecção durante a gestação, predominantemente o trabalho de parto prematuro, seguido pelas infecções do trato urinário. Tais afecções são consideradas fatores determinantes para a prematuridade, o baixo peso ao nascer, a sepse neonatal e, consequentemente, para o óbito neonatal que pode ser reduzido por meio de um adequado controle durante o pré-natal(5,8-9,15,17). Ressalta-se que a antecedência do parto, pode também, estar relacionado com o baixo número de consultas no pré-natal encontrado nos resultados deste estudo. Vale referir que a qualidade da assistência pré-natal reduz os agravos maternos mediante a detecção precoce e, consequentemente, os índices de nascimentos prematuros por causas maternas evitáveis e mortes desnecessárias(5,8-11,15-17). Portanto, há necessidade da efetivação de programas antenatais para a redução de partos prematuros e risco de morte neonatal(1,3,10-11).

Os nascimentos prematuros, o extremo baixo peso e a asfixia neonatal foram observados nos resultados desta pesquisa e apresentaram relação estatística com o número de consultas no pré-natal. A maioria dos recém-nascidos evoluiu para o óbito no período neonatal precoce. Tais evidências se confirmam em outras pesquisas(8,17). Ao contrário, a tendência da mortalidade perinatal, em Belo Horizonte, reduziu se comparada à neonatal tardia, em especial entre as mulheres com gravidez do tipo única, ao parto vaginal, a idade materna entre 20 e 34 anos, e idade gestacional de 28 semanas e mais(20).

O parto pré-termo é um dos grandes problemas de saúde pública, que pouco evoluiu com o avanço da medicina, contribuindo com elevados números de óbitos neonatais comumente relacionados à baixa efetividade do pré-natal, problemas ginecológicos e sociais que afetam tanto a mulher como o concepto e, na maioria das vezes, dependem de um melhor funcionamento dos recursos disponíveis na rede de assistência à saúde da mulher(1-6,11,15-16).

CONCLUSÃO

Pode-se averiguar nos resultados da presente pesquisa que o número de consultas no pré-natal apresentou associação estatística com as condições socioeconômicas maternas, características do parto e de nascimento das crianças que foram a óbito no período neonatal, em sua maioria, com menos de sete dias de vida. Infere-se que tais resultados mostram a pouca efetividade da assistência pré-natal no município, aumentando o número de mortes neonatais, por causas que poderiam ser evitadas durante a concepção. Ressalta-se que outras pesquisas de cunho avaliativo são necessárias para identificar as possíveis lacunas nos serviços ginecológicos e obstétricos prestados às mulheres residentes no município que dificultam a execução de uma assistência equitativa e integral para que se reduzam as mortes neonatais consideradas evitáveis por medidas de prevenção e promoção à saúde materna. Tais medidas fundamentalmente executadas na rede de atenção primária pela equipe de saúde, em especial, pela equipe de enfermagem, maior contingente de profissionais para realizar o acompanhamento sistemático das gestantes, nas respectivas áreas de abrangência das Unidades Básica de Saúde.

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Recebido: 28 de Outubro de 2012; Aceito: 25 de Fevereiro de 2014

AUTOR CORRESPONDENTE: Rosângela Aparecida Pimenta Ferrari. E-mail: ropimentaferrari@uel.br

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