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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.70 no.3 Brasília mai./jun. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0484 

REFLEXÃO

Educação permanente em saúde sob a perspectiva de Agostinho de Hipona

Fabíola Chaves FernandesI 

Elaine Antunes CortezI 

Daniel LaprovitaII 

Lidiane Peixoto de AlmeidaII 

Aline Figueiredo FerreiraII 

Marcos Paulo Fonseca CorvinoIII 

IUniversidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Niterói-RJ, Brasil.

IIUniversidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Mestrado Profissional em Enfermagem. Niterói-RJ, Brasil.

IIIUniversidade Federal Fluminense, Instituto de Saúde Coletiva, Departamento de Planejamento em Saúde. Niterói-RJ, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

Refletir sobre a educação permanente na perspectiva de Agostinho de Hipona e suas teorias pautadas na construção do conhecimento e no processo de aprendizagem.

Método:

Trata-se de uma reflexão teórica cujo intuito é propor dimensões de análise, enfatizando a história e os desafios da educação permanente. Tais dimensões analisam a produção do conhecimento na pedagogia agostiniana, seus aspectos históricos e sua relação próxima com a educação permanente em saúde.

Resultados:

Revela a dificuldade da educação permanente em ter sua dimensão alcançada noserviço de saúde, tal qual a da academia de apropriar-se do pensamento de filósofos renomados como Agostinho, fruto do desconhecimento da convergência desses pressupostos e de sua relevância.

Considerações Finais:

Considera-se que a educação permanente e a pedagogia agostiniana caminham juntas no cuidar, atendendo às necessidades advindas da prática e nela refletida, confrontando os saberes isolados e com eles operando em conjunto.

Descritores: Educação Continuada; Santos; Educação em Saúde; Educação; Políticas Públicas de Saúde

INTRODUÇÃO

Considerando que em cada época são desenvolvidas diferentes formas de se educar, em virtude das necessidades sociais, o problema a ser discutido neste artigo é a convergência dos pensamentos agostinianos, que datam do século V, e da política nacional de educação permanente em saúde, tema tão atual.

Justifica-se pela dificuldade tanto da educação permanente ter sua dimensão alcançada no serviço de saúde quanto do ensino de saúde apropriar-se do pensamento de filósofos renomados como Agostinho, por desconhecimento da convergência de seus pressupostos e de sua relevância. Assim, este estudo revela-se importante para a área da saúde por discutir outras abordagens pedagógicas que pensam em consonância com temas atuais e pertinentes.

Compreendendo que a educação visa sempre corresponder aos valores culturais, religiosos, econômicos e políticos de determinado período, cabe, neste artigo de reflexão, utilizar excertos da própria vida de Agostinho de Hipona e seu contexto histórico, a fim de estabelecer um paralelo com os aspectos pedagógicos da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde e buscar sua convergência. Dessa forma, pretende-se alcançar o objetivo proposto de refletir sobre a educação permanente na perspectiva do olhar agostiniano e de suas teorias pautadas na construção do conhecimento no processo de ensino-aprendizagem, tendo como questão norteadora: Sob quais aspectos a filosofia de Agostinho, que data do século V, se aproxima da política nacional de educação permanente em saúde?

MÉTODO

Trata-se de um trabalho de reflexão, cujos referenciais teóricos são Agostinho de Hipona e a política nacional de educação permanente em saúde, constituindo duas categorias de análise: Aspecto histórico da educação em Agostinho de Hipona e Aspecto histórico da política nacional de educação permanente em saúde.

A hipótese a ser explorada é: A produção do conhecimento na pedagogia agostiniana e sua relação próxima com a educação permanente em saúde podem contribuir para o ensino em saúde, dada a convergência de seus pensamentos.

Foram utilizadas, como fonte de dados, as obras de Agostinho "Confissões", "Sobre a potencialidade da alma" e "Sobre a vida feliz", além da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde e artigos da base de dados LILACs sobre o tema, publicados nos últimos cinco anos. Após a coleta, agruparam-se os dados em duas categorias, as quais foram descritas com base nos textos agostinianos, na legislação e em artigos científicos. A análise foi feita sob a luzde sua afluência ideológica e afinidade de ações, posturas ou pensamentos.

RESULTADOS

São apresentadas duas categorias, que emergiram da inexistência de produções científicas que aproximassem a educação agostiniana da política nacional de educação permanente em saúde. Assim, cumpre apresentar a filosofia agostiniana, inserida em seu contexto histórico, e a educação permanente, também em seu espaço estabelecido legalmente e vinculado à sua aplicação, como nos artigos em que se apresenta aplicada à prática, assim como vinculada à sua origem, ou seja, à própria lei de constituição da política.

Aspecto histórico da educação em Agostinho de Hipona

A filosofia de Agostinho nasce de sua inquietude, experienciada no curso de sua vida educacional. Filho do pagão Patrício e de Santa Mônica, viveu uma juventude desregrada, aderiu ao maneísmo, religião fundada por Mani e baseada no dualismo bem versus mal, e ao ceticismo, ambos incapazes de satisfazê-lo em suas dúvidas(1).

O conhecimento da vida de Agostinho de Hipona é relevante nesse aspecto, posto que exerceu influência direta sobre sua obra, haja vista a mais famosa delas e autobiográfica, "Confissões", na qual nos mostra que a aprendizagem das primeiras palavras ocorre quando, postas em frases e em seus lugares, são ouvidas e repetidas, até serem notadas como os objetos que significam. Esses são primeiramente memorizados e depois repetidos, para, em um segundo momento da educação, ganharem significado(1). No caso de Confissões, a conversão ou transformação já foi operada. Então, testemunha-se essa transformação com o intuito de afirmá-la para outros, e não para Deus e, com isso, utilizar a confissão de seus pecados como testemunho da transformação operada por Deus em seu ser e, assim, vir a ser um processo educativo de ganho de significado para os leitores(2).

Agostinho relata o processo de aprendizagem na infância dessa maneira: deduzido e natural. E, ao se repetir tantas vezes, as palavras adquirem significado e acabam, pouco a pouco, representando a realidade(1). Para ele, é pelo uso dos sinais comunicativos que a criança passa a fazer parte da sociedade, dependendo da autoridade de seus pais e de pessoas mais velhas(1).

Nessa época, estudar parecia-lhe um fardo, pois era obrigado, mesmo sabendo se tratar de algo bom. Mas ninguém faz bem algo contra sua vontade. Além disso, os que o obrigavam ao estudo não agiam corretamente e não tinham outro fim, a não ser incentivá-lo a brilhar nesse mundo, sobressaindo-se nas artes das línguas e logrando honras humanas e falsas riquezas. Chamava-os de comerciantes da gramática, pois fixavam o valor das letras do alfabeto por uma convenção¹. Para ele, deve-se exercitar mais o talento e a língua em outras coisas que não para o êxito escolar unicamente, visto que as habilidades devem estar direcionadas ao bem comum; assim como ninguém ri facilmente quando está só, ninguém ganha sozinho no processo educacional proposto(1).

Ao relatar seu processo de descoberta do conhecimento, acreditava ser correto crer mais nos que ensinam verdadeiramente do que nos que ditam regras e ordens, dignos de culto, perfil dos que detinham o saber na época. O ensinamento só faz sentido com o entendimento inerente a cada um, sem a necessidade de ser apresentado por ordem ou método, mas que faça sentido e seja capaz de se reter, rejeitar ou evitar, conforme discernimento próprio(3).

Sua experiência revela-nos que, primeiramente, ao ter contato com o livro de Cícero "Hortêncio " , lançou-se em alto mar, dedicando-se inteiramente à filosofia. Com o tempo, encontrou pessoas que considerou dignas de culto e permaneceu na calmaria e no invólucro confortável dos ensinamentos acadêmicos. Então, retomando o timão de seu barco, lutando com todos os ventos e retardado por desvios, precipitou-se ao seio da filosofia com toda força dos remos(3).

Deve-se destacar que Agostinho, ao conferir rumo ao seu barco, alerta para o poder da autonomia de se descobrir por si só, sem necessidade de ser contestado ou convencido, apenas lendo e estudando(1). Sua pedagogia conduz ao aprendizado pelo próprio raciocínio, desejando apenas instruir o entendimento, para que o aluno esteja bem preparado na formulação do raciocínio conclusivo(4). Denomina de alimentos para a alma, a inteligência das coisas e a ciência, nutrindo-as com seus cuidados e seus pensamentos, a fim de perceber alguma coisa, sem sofrer de jejum e de fome o espírito(3). Na teoria agostiniana, é necessário um intermediário entre o corpo e a fonte do conhecimento verdadeiro. É por meio da iluminação que o homem conhece a verdade, pois fora assim revelada no Evangelho, ao qual se converteu e pelo qual era motivado(4).

Motivado pela fé, ainda assim Agostinho rompe com o paradigma de que sua filosofia é intencionalmente religiosa e, por isso, de difícil aceitação no meio acadêmico laico, visto sua conversão ter ocorrido após sua formação acadêmica e profissional.

Aspecto histórico da política nacional de educação permanente em saúde

Primeiramente, faz-se necessário conceituar a Educação Permanente antes de inseri-la em seu contexto histórico. Sendo assim, a Educação Permanente estabelece-se como um conceito pedagógico no setor da saúde, que diz respeito às relações entre o ensino e as ações e serviços, e entre docência e atenção à saúde(5). Tendo sido ampliado, na Reforma Sanitária Brasileira, para as relações entre formação e gestão setorial, desenvolvimento institucional e controle social em saúde, faz sentido que sejam consideradas as especificidades regionais, a fim de fortalecer a descentralização e alcançar a integralidade da atenção à saúde(5).

Fruto da inconformidade de alguns pensadores políticos em saúde, nascia, assim, um produto da necessidade institucional de se abastecer permanentemente de um saber próprio, oriundo da multiplicidade de saberes, almejando a integralidade da atenção à saúde, como discutido desde a Lei 8080/90. A política de educação permanente em saúde trabalha a educação sob uma lógica participativa, com a criação e constituição das funções das comissões permanentes de integração entre os serviços de saúde e as instituições de ensino(5).

A ação integradora da educação permanente, no Sistema Único de Saúde, funciona como forma pedagógica de realizar atividades no setor de saúde. Foi a partir da Resolução 330/2003-NOB/RH-SUS, de 4 de novembro de 2003, que a educação permanente em Saúde foi implantada nos estados brasileiros. Assim, instituiu-se a Política Nacional de Educação permanente em saúde como estratégia do Sistema Único de saúde para a formação e o desenvolvimento de trabalhadores para esse setor(5). Expandiu-se sua abrangência na intenção de utilizar a educação permanente para reorganizar o processo de trabalho em diversos níveis de assistência, como no serviço de emergência(6).

Baseada no artigo 200 da Constituição Federal, que considera questões de educação em saúde competência do SUS, a política nacional de educação permanente em saúde tem, por finalidade, adequar a formação e a qualificação dos trabalhadores em saúde às reais necessidades do usuário(5). Tal política pretende melhorar a atuação dos profissionais no atendimento aos usuários, respeitando suas necessidades e conferindo-lhes autonomia, principalmente com o uso de metodologias diferenciadas, sempre com vistas à integralidade. Mas não há dúvidas que esse processo ainda apresenta lacunas de implantação(7).

A intenção da educação permanente em saúde é conectar as equipes. Foram demonstradas sua expansão e abrangência na atenção básica, embora os processos educativos permaneçam pontuais. As dificuldades encontradas pelas variações regionais e de acesso à tecnologia constituem problemas de infraestrutura e não de interesse ou adesão da equipe(8).

Na educação permanente, o esforço educativo tem como alvo aproximar a educação da vida cotidiana, explorando o potencial educativo da situação de trabalho. Intenciona-se transformar as situações laborativas em aprendizagem, por meio da análise reflexiva dos problemas da prática, valorizando o processo de trabalho, sem se limitar a qualquer categoria profissional(5). Quando se aproxima o ensino da prática, dirige-se o olhar a outros contextos educativos, onde sua utilização é capaz de promover a autonomia dos sujeitos e a aproximação à realidade, o que reduz o caráter extenuante, aflitivo e estressante do processo educativo(9).

A articulação entre os diversos setores de ensino e serviço com a comunidade, além da união entre teoria e prática e da utilização de metodologias ativas no processo ensino-aprendizagem, como a problematização de situações e contextos sociais, propicia, aos envolvidos, uma sensibilização diante das necessidades sociais e de saúde da população, que lhes garante a oportunidade de vivenciar a realidade dos usuários dos serviços de saúde e refletir criticamente sobre seu papel social, aspecto que facilita a aprendizagem e a torna interessante(10). Dessa maneira, o esforço educativo proposto só faz sentido se for disparador de planejamento em uma gestão que integre, qualifique e desperte para ações no Sistema único de Saúde subsidiando as tomadas de decisões transformadoras, reconhecendo no gestor essa autoridade(5).

As leis foram homologadas, e muitas ações executadas, mas ainda estamos distantes das condições ideais no que diz respeito ao atendimento do usuário e à condição de trabalho dos servidores. É necessário que as lutas continuem para garantir a universalização da saúde e a qualidade de seus serviços e, para isso, o estudo sugere utilizar a ferramenta da educação permanente aliada à metodologia de Agostinho, com o propósito de humanizar o momento educativo proposto.

DISCUSSÃO

Conforme prescrito no objetivo, a fim de refletir acerca da educação permanente sob o olhar de Agostinho de Hipona e suas teorias pautadas na construção do conhecimento e no processo de aprendizagem, traçou-se um paralelo entre suas teorias, para, assim, chegar a um ponto comum, que possa ser melhor compreendido no ensino em saúde e, consequentemente, mais utilizado.

A experiência de Agostinho revela-nos que acreditava mais nos que ensinavam verdadeiramente do que nos que ditavam ordens como verdades(3).

Nesse sentido, a política nacional de educação permanente em saúde define aprendizagem como o desenvolvimento de novas capacidades ou critérios para lidar com problemas, ou a revisão de capacidades e critérios existentes que estejam inibindo sua resolução(5).

No modelo escolar, foco da educação continuada, a aprendizagem está centralizada em disciplinas e parece haver articulação entre o que se faz e o que se diz nesse processo de capacitação, mas não necessariamente conecta os problemas práticos aos comportamentos que deverão ser mobilizados e modificados com a aprendizagem. O alcance da capacitação nem sempre é coletivo ou se traduz em aprendizagem organizacional(5).

Esse conflito não há em Agostinho, pois seu eu espera desfrutar a felicidade plena em uma vida tranquila em Deus. Não a felicidade menor, mas àquela desejada por sua melhor parte(4).

Assim também ocorre com a educação permanente: os saberes não são conflitantes, pois objetiva aproximá-los e reduzir as divergências em prol do atendimento integral, não se limitando a uma categoria profissional. Quando os profissionais envolvidos no atendimento são posicionados como atores e construtores do próprio conhecimento, o processo de trabalho pode ser analisado reflexivament ee espera-se alcançar a mudança institucional, tal como Agostinho almeja a felicidade derradeira(5).

Esse empoderamento, cerne da educação permanente, nos é revelado em Agostinho pela estreita relação que estabelece entre mestre e discípulo em seu diálogo com Evódio, que visa possibilitar ao aluno chegar ao domínio do que o autor proclama como verdade, criando condições para isso, pela condução afetuosa e socrática. Mesmo discordando de seus pontos de vista, e ele próprio o admite, o mestre entende o aprender como um processo de recordar, pelo fato de o verdadeiro conhecimento ser inato, depositado na alma por Deus(4).

Tomar o timão do seu barco e conduzi-lo ao porto do conhecimento elucida a necessidade de um mecanismo efetivo de educação permanente que desenvolva autonomia para se lançar ao mar(3).

O que se pretende com a educação permanente é o desenvolvimento de uma verdade própria, pelo argumento da razão, que leve ao convencimento, primeiramente individual, e depois coletivo, capaz de atingir o entendimento e, então, amadurecer como educação(4). Agostinho lembra ser necessário admitir que ainda não se está saciado enquanto há busca, e que a medida a se chegar é a nossa própria medida, enquanto grupo coeso(3).

Ao relatar sua aversão ao grego, revela-nos que a dificuldade da aprendizagem de algo totalmente desconhecido acaba por permear de amargura toda a doçura da aprendizagem. Foi assim que aprendeu latim: sem a pressão dos castigos, impelido por seu coração, não dos que ensinavam latim, mas dos que falavam(1). Tampouco a educação permanente pretende impor processos, mecanismos ou estratégias. Nem mesmo ser prescritiva ou oferecer modelos para a gestão da educação em saúde. Entende as autonomias, as especificidades, a capacidade e o trabalho já desenvolvido pelas esferas administrativas(5).

Eis a importância da utilização da aprendizagem significativa na educação permanente em saúde: partindo-se da existência de uma inter-relação entre a experiência profissional e a prática educativa, o processo ensino aprendizagem ocorre das trocas de experiências e de maneira contínua. Tal qual a educação permanente, a prática é elemento essencial à educação e vice-versa, pois o aprender e o ensinar estão incorporados ao cotidiano do processo de trabalho, em prol da transformação das práticas profissionais(5).

O método agostiniano é um método socrático, que desenvolve o tema por meio de comparações e perguntas, levando o interlocutor a deduzir por ele mesmo, de modo que é conduzido e orientado por uma progressão de ideias com uma finalidade bem planejada(4).

Da mesma forma, a atividade que se pretende transformar em prática com a educação permanente não é um novo hábito, que simplesmente se repete, mas sim, outra maneira de se pensar ou atuar. Por isso, não se instala ocasionalmente ou espontaneamente, mas necessita de uma intervenção educativa que conduza à discussão crítica, envolvendo todo o grupo, para, assim, incorporar o aprender e o ensinar ao cotidiano das organizações(5).

A educação agostiniana propõe um processo de interiorização, em que a alma, unidade dotada de razão, governa o corpo(4). Dessa maneira, só é possível aprender em seu interior, de modo que o conhecimento recebido por meio dos sentidos sofre um processo de iluminação e é compreendido através dele. O próprio educando, lendo, conhece a verdade(1). O conhecimento da verdade só é possível por meio de uma reflexão interior, por isso considera-se a educação de Agostinho de Hipona autoeducativa, pois é na própria alma que se encontra a verdade revelada, a verdadeira sabedoria(1). Na realidade, essa questão é sutil e requer olhares mais capazes: os da mente, para uma visão mais ampla, função do mestre no processo educativo(4).

Essa amplitude da visão a que se refere Agostinho é dada pela temperança, proveniente de boa proporcionalidade, e pela modéstia, proveniente da medida, que, juntas, atribuem sentido à plenitude. Agostinho entende a plenitude como a própria sabedoria, o que se busca pelo equilíbrio, para que não haja excesso e nem se reduza à inferioridade, algo potencialmente importante(3).

Ao ser questionado sobre a potencialidade da alma, Agostinho explica a necessidade de não inferiorizar o conhecimento e a capacidade do aluno em alcançá-lo. Quando se refere ao mito de Hércules, nos remete ao paradigma: pouca estatura e grande poder. Segundo ele, o crescimento corpóreo ocorrido com os anos não implica o crescimento da alma, ou a melhoria dela. Tampouco as virtudes ou qualidades morais não se referem ao espaço especificamente, mas à potência ou força da alma. Seu crescimento é medido não materialmente, mas em sua potencialidade(4).

Acerca da potencialidade, Agostinho nos fala a respeito daquilo que revela a qualidade e não a dimensão, ou tamanho. Por isso, sugere não atentar ao que é visível, posto ser superior à dimensão material, ou, no caso, curricular(4).

A educação permanente em saúde rompe com a tendência de reduzir a educação a um mero inventário de técnicas. Nela, não é possível modificar as partes, e sim as instituições, essas, sim, vinculadas a papéis e representações internalizadas de cada um dos envolvidos. Portanto, a mudança é comportamental, conceitual e prática(5).

Mudança que, sendo o indivíduo um ser mortal e passageiro, ocorre internamente, pois as impressões gravadas em cada uma das coisas perduram mesmo após a passagem dos fatos. Portanto, aprende-se dando crédito à inteligência de outros, mas depois às memórias, definidas por inúmeras imagens trazidas por percepções diversas, reconhecidas na alma e aproveitadas como verdadeiras, confiadas ao espírito, como a um depósito, por vezes tão escondidas e sepultadas que necessitam de alguém que as extraia dali com suas perguntas(1).

A política nacional de educação permanente em saúde é orientada ao desenvolvimento e à mudança institucional das equipes e dos grupos sociais, o que significa orientar para transformações na prática coletiva, atingindo uma diversidade de atores, que não valorizem apenas uma categoria profissional. Está voltada para a solução conjunta de problemas advindos da prática cotidiana, e nela se refletindo(5).

Assim, a efetividade do processo educativo proposto pela política nacional de educação permanente só ocorrerá pela conquista da autonomia, levando à construção do próprio caminho transformacional, o que requer posturas dignas e proativas que permitam relacionamento com pessoas de distintas culturas no processo laboral ao qual pertençam.

Limitações do estudo

Pouco tem sido produzido, na área de educação em saúde, acerca dos ensinamentos de Agostinho como possibilidade pedagógica aliada à educação permanente em saúde. A dificuldade de apropriação do pensar deste filósofo pela academia limitou o estudo e cerceou as possibilidades de uma sabedoria ímpar, baseada em conceitos atualmente utilizados pela educação permanente.

Contribuição para a área de saúde

O diálogo proposto entre os referenciais expostos visa agregar saberes à educação em saúde. Além disso, intenciona apresentar uma nova opção àqueles que estão dispostos a, seguindo orientação da política nacional de educação permanente em saúde, problematizar para construir um novo perfil de cuidado, tendo a integralidade como cerne, uma vez que seus objetivos tendem a se reunir em um lugar comum: a busca pela autonomia, alusão a Agostinho e à própria educação permanente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclui-se que a metodologia de Agostinho de Hipona caminha na mesma direção da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde, visto que ambas abordam o conhecimento como algo que não se transmite e tampouco pertence a alguém, tal como um objeto, mas que é permanentemente construído com base nas dúvidas e dificuldades encontradas na prática cotidiana. Diante do exposto, a prática em saúde deve ser edificada em um processo constante, norteada pelos diversos saberes, articulando teoria e prática, com a finalidade de oferecer uma melhor qualidade de atendimento e possibilitar a participação dos diversos atores envolvidos no cuidado.

REFERENCES

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8 Pinto HA, Ferla AA, Ceccim RB, Florêncio AR Barbosa MG, Stédile NLR et al. Primary Care and Continuing Health Education: scenario appointed by the National Program for Access and Quality Improvement in Primary Care PMAQ-AB. Rev Div Saúde Deb [Internet]. 2014 [cited 2016 Jun 13];(51):145-60. Available from: http://cebes.org.br/site/wp-content/uploads/2014/12/Divulgacao-51.pdfLinks ]

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Recebido: 25 de Agosto de 2016; Aceito: 18 de Janeiro de 2017

AUTOR CORRESPONDENTE: Fabíola Chaves Fernandes. E-mail: fabconsidera@bol.com.br

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