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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.71 no.6 Brasília nov./dez. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2017-0494 

PESQUISA

Conhecimento sobre aleitamento materno e alimentação complementar dos profissionais de saúde

Ana Elisa RamosI 

Carmen Viana RamosI 

Marize Melo dos SantosII 

Camila Aparecida Pinheiro Landim AlmeidaI 

Maria do Carmo de Carvalho e MartinsII 

ICentro Universitário UNINOVAFAPI. Teresina-PI, Brasil.

IIUniversidade Federal do Piauí. Teresina-PI, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

Analisar o conhecimento sobre aleitamento materno (AM) e alimentação complementar (AC) de profissionais da atenção primária.

Método:

Estudo transversal, com 168 profissionais, realizado entre junho e setembro de 2016. Utilizou-se o teste de Kruskal Wallis para comparação entre as médias do percentual do conhecimento sobre AM e AC, por categoria profissional, e o teste de contingência, para associação entre as variáveis.

Resultados:

39,29% dos profissionais demonstraram bom conhecimento sobre AM e 2,38%, sobre AC; 74,4% dos entrevistados revelaram que não conheciam o programa Estratégia Amamenta e Alimenta. Houve associação positiva entre nível de conhecimento dos profissionais em AM e escolaridade (p = 0,04), profissão (p = 0,05) e assistência em AM (p = 0,04). Quanto ao nível de conhecimento em AC, houve associação com escolaridade (p < 0,01) e assistência em AC (p = 0,04).

Conclusão:

Os profissionais têm maior conhecimento sobre aleitamento materno quando comparado ao conhecimento em alimentação complementar.

Descritores: Aleitamento Materno; Dieta Saudável; Saúde da Criança; Conhecimento; Atenção Primária à Saúde

INTRODUÇÃO

A prática do aleitamento materno tem sido amplamente discutida no Brasil e no mundo. Do ponto de vista nutricional, o aleitamento materno exclusivo (AME) consiste no mais nutritivo e adequado alimento para a criança até os seis primeiros meses de vida, por ser rico em vitaminas, proteínas, carboidratos, gorduras, sais minerais e água. Esses nutrientes são essenciais para o crescimento e desenvolvimento infantil. Após esse período, para satisfazer as necessidades nutricionais dos lactentes, a alimentação complementar (AC) deve ser iniciada com a continuidade da amamentação até os dois anos de idade ou mais(1).

O AME até os seis meses e, após essa idade, o aleitamento materno (AM) até os dois anos ou mais, aliados à introdução oportuna da AC balanceada e equilibrada, são enfatizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como importantes medidas, com impacto efetivo na redução do risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), tais como obesidade, hipertensão e diabetes mellitus, além de promoverem a saúde física e psíquica do lactente e da mulher que amamenta(2).

Embora o Brasil tenha avançado no que concerne à melhoria dos indicadores de aleitamento(3), há muito o que evoluir, principalmente visando cumprir a recomendação proposta pela OMS de no mínimo 50% das crianças em aleitamento exclusivo. Para isso, fazem-se necessários esforços coletivos intersetoriais visando à implementação das ações de proteção e promoção do AM e de uma adequada AC, numa perspectiva de abordagem integral e humanizada(4).

Nesse sentido, o papel dos profissionais de saúde é indispensável no processo, por meio da atuação nos serviços com ações voltadas para a promoção, incentivo e apoio ao AM e à AC saudável. Para isso, o profissional deve estar qualificado e demonstrar segurança para a mãe em relação às dificuldades de amamentação, acolhendo-a em sua ansiedade e fornecendo-lhe informações consistentes(5).

No entanto, isso só será possível quando a atuação for baseada e instrumentalizada por conhecimentos técnico-científicos atualizados. Logo, é de suma importância que os profissionais tenham conhecimento satisfatório sobre o assunto. Acerca disso, pesquisas evidenciam déficit de conhecimento sobre o assunto por profissionais envolvidos na assistência às mães, destacando a necessidade de capacitação adequada e comprometimento na promoção da amamentação(6-7).

Com base na problemática exposta, deve-se investir na educação permanente em saúde (EPS) desses profissionais, a fim de que possam promover uma melhor comunicação com as mães e familiares, que dialoguem sobre as suas necessidades, expectativas, ansiedades e escolhas e efetivamente contribuam para a promoção do AM e da AC(8).

OBJETIVO

Analisar o conhecimento sobre AM e AC de profissionais da atenção primária que atuam nas equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) de um município.

MÉTODO

Aspectos éticos

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário UNINOVAFAPI, conforme a Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012(9), do Conselho Nacional do Ministério da Saúde, com data de aprovação em 11 de maio de 2016. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Desenho, local do estudo e período

Pesquisa descritiva, de delineamento transversal, feita com profissionais da equipe de atenção primária do município de Picos (PI), Brasil. Trata-se da terceira mais importante macrorregião do estado do Piauí, em termos populacionais e econômicos, sendo formada por 42 municípios. Apresenta uma população estimada de 368.877 habitantes para o ano de 2016(10).

População ou amostra, critérios de inclusão e exclusão

O estudo foi realizado com as equipes de atenção primária no período de junho a setembro de 2016. As equipes de atenção primária funcionam na zona urbana e rural e são vinculadas à Secretaria Municipal de Saúde de Picos-PI, que se constitui como operacionalizador do Sistema Único de Saúde (SUS). O município dispõe de 36 equipes de atenção primária, distribuídas entre 25 equipes na zona urbana e 11 na zona rural, com um total de 296 profissionais da saúde, dentre os quais 36 médicos, 36 enfermeiros, 36 técnicos de enfermagem e 188 agentes comunitários de saúde.

A amostra aleatória simples foi calculada tendo como base populacional os 296 profissionais cadastrados na prefeitura, totalizando uma amostra de 168 entrevistados, com erro amostral de 0,05, seguindo a fórmula de Levin(11). A distribuição dos profissionais, dentro da amostra, foi feita de acordo com a proporção em percentual do corpo das equipes de atenção primária do município de Picos-PI (64% agentes comunitários, 12% médicos, 12% enfermeiros, 12% técnicos de enfermagem) para abranger a realidade populacional. Não houve recusa nem desistência dos participantes.

Consideraram-se como critérios de inclusão para participar do estudo ser profissional das equipes de atenção primária do município com pelo menos um ano de atuação e trabalhar no acompanhamento das mulheres com crianças menores de dois anos. Foram excluídos do estudo os profissionais exercendo atividades voluntárias e estagiários, bem como aqueles que estavam afastados por motivo de férias ou licença.

Protocolo do estudo

A coleta de dados foi feita nos turnos da manhã e da tarde, por uma das pesquisadoras, em local reservado da instituição, guiada por um instrumento adaptado de estudos anteriores(12-13), sendo a nova versão avaliada por cinco peritos da área (validação face-conteúdo) e testada previamente em estudo piloto. O instrumento apresentava 44 questões, estruturado em duas partes: a primeira visava identificar o perfil dos profissionais de saúde e a segunda, avaliar seus conhecimentos em relação à promoção do AM e AC saudável. Ao final de cada entrevista, questionou-se ao participante sua vontade de permanecer na pesquisa ou mudar suas respostas; no entanto, não houve desistências nem mudanças. A coleta de dados ocorreu no período de junho a setembro de 2016.

Análise dos resultados e estatística

Para a análise, foi construído um banco de dados no software Microsoft Office Excel 2016; na etapa seguinte o banco foi importado e analisado com a utilização do software Action Stat, versão 3.0.2(14).

A análise dos dados considerou as médias e medianas do percentual de conhecimento sobre AM e AC por categoria profissional. Aplicou-se o teste de Shapiro-Wilk para avaliar a normalidade das variáveis quantitativas. Para a comparação entre as médias de percentual acerca do conhecimento sobre AM e AC por formação profissional, utilizou-se teste de Kruskal Wallis com post hoc de Tukey.

Quanto à análise dos acertos sobre os conhecimentos dos profissionais da ESF na promoção do AM e da AC, foram tomadas como parâmetro as recomendações do manual Saúde da criança: aleitamento materno e alimentação complementar, do Ministério da Saúde(15).

Para o estudo da dependência entre as proporções das variáveis quantitativas (idade e tempo de serviço), foi necessário torná-las bicategóricas, tendo como base a mediana dos resultados, pois é uma medida central que não é distorcida por altos e baixos valores, enquanto, para as variáveis categóricas independentes que apresentavam mais de uma categoria (escolaridade e profissão), a bicategorização ocorreu por meio do teste de Hosmer-Lemeshow, o qual é baseado na divisão da amostra em parâmetros estimados. Quanto à classificação sobre o nível de conhecimento dos profissionais da atenção primária, consideraram-se as frequências das respostas de todos os profissionais, a cada aspecto abordado das variáveis de conhecimentos em AM e AC. Foram utilizados como critérios para classificação: conhecimento bom, quando a porcentagem de acertos ficou entre 80% e 100%; regular, entre 50% e 79,9%; e ruim, abaixo de 50%(13).

Para a variável resposta nível de conhecimento, empregou-se o teste do Qui-quadrado ou o teste exato de Fisher (se necessário) para o estudo da dependência. As variáveis explanatórias analisadas foram categorizadas da seguinte forma: idade (≤ 40 anos e > 40 anos); sexo (masculino e feminino); tempo de serviço (< 15 anos e ≥ 15 anos); escolaridade (≤ Ensino Médio e > Ensino Médio); profissão (técnicos de enfermagem + agentes comunitários de saúde e médicos + enfermeiros); presta assistência em AM (sim e não); fez treinamento/capacitação em AM (sim e não); conhece a Estratégia Alimenta e Amamenta Brasil (EAAB) (sim e não). Os dados foram ainda analisados mediante o coeficiente de contingência (CC) para o estudo da associação entre o nível de conhecimento e as variáveis sociodemográficas e de formação profissional, conforme a natureza das questões (AM e AC). Assim, para todos os testes estatísticos, foi fixado α = 0,05 como nível para rejeição de nulidade entre as associações.

RESULTADOS

Participaram do estudo 168 profissionais da ESF, sendo 112 (66,67%) agentes comunitários de saúde (ACS), 19 (11,31%) técnicos de enfermagem, 20 (11,90%) enfermeiros e 17 (10,12%) médicos. Dos entrevistados, 87,50% são do sexo feminino e 12,50% do sexo masculino, e suas idades variam entre 23 e 63 anos. Em relação ao tempo total de serviço, observou-se um predomínio de profissionais com mais de 10 anos de profissão (71,43%). No que se refere à escolaridade dos pesquisados, 53,57% concluíram o Ensino Médio e 46,43% tinham nível superior (Tabela 1).

Tabela 1 Caracterização sociodemográfica e de atuação voltada à assistência ao aleitamento materno e à alimentação complementar entre profissionais da Estratégia Saúde da Família, Picos, Piauí, Brasil, 2016 

Variáveis n %
Idade
20 a 30 anos 24 14,29
31 a 40 anos 50 29,76
41 a 50 anos 64 38,10
≥ 51 anos 30 17,85
Sexo
Feminino 147 87,50
Masculino 21 12,50
Tempo de serviço
< 5 anos 28 16,67
5 a 9 anos 20 11,90
10 a 14 anos 36 21,43
15 a 19 anos 54 32,14
≥ 20 anos 30 17,86
Escolaridade
Ensino Médio 90 53,57
Graduação 28 16,67
Especialização 39 23,21
Mestrado 6 3,57
Doutorado 5 2,98
Profissão
Médico 17 10,12
Enfermeiro 20 11,90
Técnico de enfermagem 19 11,31
Agente comunitário de saúde 112 66,67
Presta assistência em aleitamento materno àsmães lactantes
Não 36 21,43
Sim 132 78,57
Presta assistência em alimentação complementar àsmães lactantes
Não 43 25,60
Sim 125 74,40
Fez treinamento/capacitação em aleitamento materno
Não 62 36,90
Sim 106 63,10
Fez treinamento/capacitação em alimentação complementar
Não 97 57,74
Sim 71 42,26
Conhece a Estratégia Alimenta e Amamenta Brasil
Não 125 74,40
Sim 43 25,60

Quando questionados sobre a assistência em AM e AC, 78,57% dos pesquisados informaram prestar assistência em AM e 74,40% prestam assistência em AC. Quanto à participação em algum treinamento ou capacitação sobre AM e AC, 63,10% informaram que participaram de treinamento ou capacitação em AM e 42,26% participaram de treinamento ou capacitação em AC. Em relação ao conhecimento sobre a EAAB, 74,40% afirmaram não ter conhecimento sobre esse programa (Tabela 1).

A Tabela 2 descreve as médias e medianas do percentual de acerto em relação ao conhecimento sobre AM e AC dos profissionais da ESF. No que diz respeito ao conhecimento sobre o aleitamento materno, houve diferença estatística entre as médias dos percentuais de acerto dos enfermeiros em comparação com os ACS (p = 0,01). Entre os enfermeiros, a proporção de acerto foi de 83%, superior aos ACS (71,8%). Em relação à alimentação complementar, observou-se uma diferença estatisticamente significativa entre as médias da proporção de acertos dos técnicos de enfermagem e os ACS (p < 0,01). Para os técnicos de enfermagem, a média de acertos foi de 64,4%; já para os ACS essa proporção foi de apenas 54,9%. No que tange às demais categorias, as médias das proporções de acertos foi semelhante. Salienta-se que, quando se comparou o conhecimento do AM em relação à AC para cada categoria profissional, observou-se que houve diferença estatisticamente significativa entre a média de acertos, pois todas as categorias tiveram média de acertos superior para AM em comparação com a AC (Tabela 2).

Tabela 2 Média e mediana do percentual do conhecimento em aleitamento materno e alimentação complementar de acordo com a formação entre os profissionais da Estratégia Saúde da Família, Picos, Piauí, Brasil, 2016 

Nível deConhecimento Formação Profissional Valor de p*
Médico (17) Enfermeiro (20) Técnico de enfermagem (19) Agente comunitário de saúde (112)
Aleitamento materno
Média (IC** 95%) 75,4 (68,1 – 82,7) 83,0 (77,8 – 88,2)# 76,9 (69,5 – 84,4) 71,8 (68,9 – 74,7)# 0,01
Mediana 77,8 83,3 83,3 74,2
Alimentação Complementar
Média (IC 95%) 61,4 (55,8 – 67,0) 61,2 (55,3 – 67,1) 64,4 (60,1 – 68,8)+ 54,9 (52,9 – 56,9)+ < 0,01
Mediana 62,5 62,5 62,5 56,2
Total (AM+AC)
Média (IC 95%) 68,7 (62,8 – 74,5) 72,6 (67,5 – 77,8)* 70,9 (65,9 – 75,8) 64,6 (62,4 – 66,7)* < 0,01
Mediana 70,6 73,5 73,5 66,2

Nota: valor da probabilidade do teste de Kruskal-Wallis. Valores de p para as diferenças de médias pelo teste de Tukey:

*0,02. +0,003. #0,012.

**IC 95%: Intervalo de confiança da média.

A Tabela 3 expõe os resultados da análise de associação entre o nível de conhecimento em aleitamento materno e as variáveis sociodemográficas e de formação dos profissionais. Destaca-se que houve associação estatística significante entre o nível de conhecimento dos profissionais e as variáveis: escolaridade (p = 0,04), ou seja, os profissionais que tinham escolaridade acima do Ensino Médio apresentaram maior nível de conhecimento; profissão (p = 0,05), médicos e enfermeiros tiveram melhor nível de conhecimento sobre AM do que os outros profissionais da equipe da atenção primária; e quem presta assistência em AM às mães lactantes tem melhor nível de conhecimento sobre AM (p = 0,04). De acordo com os valores de coeficiente de contingência C, essas três variáveis apresentaram associação moderada (0,1 a 0,3) com o desempenho dos participantes do estudo.

Tabela 3 Análise bivariada entre o nível de conhecimento em aleitamento materno e as variáveis sociodemográficas e de formação dos profissionais da Estratégia Saúde da Família, Picos, Piauí, Brasil, 2016 

Variáveis Bom Regular Ruim CC1 p2
n % n % n %
Idade
≤ 40 anos 31 18,5 38 22,6 5 2,98
> 40 anos 35 20,8 55 32,7 4 2,38 0,08 0,58
Sexo
Feminino 59 35,1 81 48,2 7 4,17
Masculino 7 4,17 12 7,14 2 1,19 0,07 0,6
Tempo de serviço
< 15 anos 38 22,6 44 26,2 2 1,19
≥ 15 anos 28 16,7 49 29,2 7 4,17 0,16 0,1
Escolaridade
≤ Ensino Médio 28 16,7 55 32,7 7 4,17
> Ensino Médio 38 22,6 38 22,6 2 1,19 0,19 0,04
Profissão*
Téc. de enfermagem e agente comunitário de saúde 46 35,11 76 58,02 9 6,87
Médicos e enfermeiros 20 54,05 17 45,95 0 0 0,18 0,05
Presta assistência em aleitamento materno àsmães lactantes
Não 13 7,74 18 10,7 5 2,98
Sim 53 31,5 75 44,6 4 2,38 0,19 0,04
Fez treinamento/capacitação em aleitamento materno
Não 20 11,9 38 22,6 4 2,38
Sim 46 27,4 55 32,7 5 2,98 0,11 0,35
Conhece a Estratégia Alimenta e Amamenta Brasil
Não 45 26,8 72 42,9 8 4,76
Sim 21 12,5 21 12,5 1 0,6 0,13 0,25

Nota:

1Medida de associação, com referencial de: n ≤ 0,1: associação fraca ou inexistente; n = 0,1 a 0,3: associação moderada; n ≥ 0,3: associação forte;

2Valores de p para o teste do qui-quadrado, com nível de significância α ≤ 0,05;

*O percentual dos profissionais foi calculado proporcionalmente ao total de entrevistados por categoria da tabela.

A Tabela 4 exibe a associação entre as variáveis sociodemográficas e de formação com o nível de conhecimento em AC dos 168 profissionais de saúde. Conforme o CC, a variável escolaridade apresentou forte associação (CC = 0,34) com alto nível de significância estatística (p < 0,01); os profissionais que tinham escolaridade acima do Ensino Médio apresentaram melhor nível de conhecimento e quem presta assistência em AC às mães lactantes tem melhor nível de conhecimento sobre AC. Essa variável expôs associação moderada (CC = 0,19) com p significativo (p = 0,04).

Tabela 4 Análise bivariada entre o nível de conhecimento em alimentação complementar e as variáveis sociodemográficas e de formação dos profissionais da Estratégia Saúde da Família, Picos, Piauí, Brasil, 2016 

Variáveis Bom Regular Ruim CC1 p2
n % N % N %
Idade
≤ 40 anos 1 0,6 57 33,9 16 9,52
> 40 anos 3 1,79 76 45,2 15 8,93 0,09 0,5
Sexo
Feminino 3 1,79 119 70,8 25 14,9
Masculino 1 0,6 14 8,33 6 3,57 0,12 0,3
Tempo de serviço
< 15 anos 2 1,19 69 41,1 13 7,74
≥ 15 anos 2 1,19 64 38,1 18 10,7 0,08 0,61
Escolaridade
≤ Ensino Médio 1 0,6 65 38,7 24 14,3
> Ensino Médio 3 1,79 68 40,5 7 4,17 0,34 <0,01
Profissão*
Téc. de enfermagem e agente comunitário de saúde 2 1,53 101 77,1 28 21,37
Médicos e enfermeiros 2 5,41 32 86,5 3 8,11 0,17 0,09
Presta assistência em aleitamento materno àsmães lactantes
Não 0 0 30 17,9 13 7,74
Sim 4 2,38 103 61,3 18 10,7 0,19 0,04
Fez treinamento/capacitação em aleitamento materno
Não 1 0,6 44 26,2 17 10,1
Sim 3 1,79 89 53 14 8,33 0,17 0,07
Conhece a Estratégia Alimenta e Amamenta Brasil
Não 4 2,38 96 57,1 25 14,9
Sim 0 0 37 22 6 3,57 0,12 0,31

Nota:

1Medida de associação, com referencial de: n ≤ 0,1: associação fraca ou inexistente; n = 0,1 a 0,3: associação moderada; n ≥ 0,3: associação forte;

2Valores de p para o teste do Qui-quadrado, com nível de significância α ≤ 0,05;

*O percentual dos profissionais foi calculado proporcionalmente ao total de entrevistados por categoria da tabela.

DISCUSSÃO

A análise do conhecimento sobre AM e AC dos profissionais que atuam na ESF evidenciou um melhor desempenho nas questões de AM em relação à AC. Esse achado é preocupante, uma vez que os profissionais de saúde devem estar preparados e capacitados para acompanhar o processo da amamentação e introdução de alimentos complementares, crescimento e desenvolvimento da criança, principalmente nos seus dois primeiros anos de vida, tanto em atendimentos individuais quanto em visitas domiciliares. Além disso, eles devem orientar as mulheres e seus familiares no que tange ao acesso a outros serviços e grupos de apoio relacionados à amamentação e à alimentação complementar.

Acrescenta-se que as mães necessitam de suporte ativo, inclusive emocional, além de informações precisas, para se sentirem confiantes. O profissional de saúde precisa entender que tipo de apoio, informação e interação as mães desejam, precisam ou esperam dele(16).

Nesse sentido, destaca-se a EAAB como uma importante ferramenta de auxílio na obtenção das metas referentes ao AM e à AC. Essa estratégia foi elaborada pelo Ministério da Saúde do Brasil, em 2012, e trata-se do principal programa voltado para capacitação dos profissionais da atenção primária em AM e AC. O programa foi lançado com o propósito de capacitar os profissionais de saúde a partir de atividades participativas e que permitam a troca de experiências e aquisição de conhecimento, levando-se em consideração a realidade local para influenciar diretamente nos indicadores de aleitamento(17). Acerca dessa estratégia, identificou-se conhecimento insuficiente dos profissionais, reforçando a necessidade de mais informações.

O conhecimento dos profissionais de saúde se mostrou associado a importantes variáveis de formação e atuação, dentre as quais maior nível de escolaridade. Assim, este estudo mostrou que quanto maior a escolaridade, maiores são as condições de o profissional incorporar novos conhecimentos e habilidades para assistir as famílias sob sua responsabilidade.

Esse resultado pode estar relacionado à grande quantidade de profissionais sem formação superior, como é o caso dos ACS, contidos na amostra do estudo. No surgimento da atenção primária, estabeleceu-se como critérios de escolaridade mínimos a habilidade de ler e escrever, sem a exigência de um conhecimento mais técnico e científico baseado na necessidade de pessoas mais próximas e oriundas da própria comunidade. No entanto, isso pode prejudicar a atuação da atenção primária, uma vez que pesquisa anterior já identificou que, em relação à nutrição e alimentação, os ACS têm conhecimentos insuficientes para o enfrentamento dos problemas com os quais deparam na sua rotina, apresentando dificuldades que vão desde a prática do aleitamento materno e a alimentação complementar até o conhecimento insuficiente sobre quais alimentos a criança pode consumir no primeiro ano de vida. Cabe destacar que essa mesma pesquisa evidenciou que ACS com formação superior apresentaram maior desembaraço na execução de suas funções(18).

Esse achado reforça a necessidade da educação permanente dos profissionais atuantes na atenção primária, independentemente do seu grau de instrução, de modo a possibilitar o embasamento teórico das suas ações, tornando-as mais efetivas e em prol do aleitamento materno. Acerca disso, pesquisa realizada no sul do Brasil identificou que a capacitação em AM aumentou os escores de acertos dos profissionais em comparação com aqueles que não fizeram capacitação(19).

A literatura cientifica é contundente ao afirmar que a educação permanente é uma estratégia para potencializar o conhecimento e as práticas dirigidas à gestão e à atenção nas ações de alimentação e nutrição, constituindo-se em uma oportunidade de contribuir com a reversão da lógica organizativa pautada somente na doença. A educação permanente em saúde pode orientar na transformação das práticas de promoção à saúde, de forma a mudar a concepção hegemônica do modelo biomédico para uma concepção construtivista e problematizadora, a qual favorece a participação do sujeito nas ações de saúde e de mobilização social(19-20).

Existe a necessidade de preparar melhor os profissionais de saúde para trabalhar as ações de alimentação e nutrição por meio de capacitações constantes e monitoramento contínuo dessas ações, identificando as dificuldades e fornecendo condições para superá-las, levando ao seu desenvolvimento pleno(21).

O planejamento das ações em equipe é importante porque influenciará diretamente o alcance dos objetivos e, por consequência, a melhoria da qualidade da prestação do serviço. Para tanto, faz-se necessário que o planejamento de educação em saúde não seja individualizado, pois é primordial a integração da gestão, profissionais da saúde e comunidade, usufruindo de ferramentas e recursos variados(22).

Para auxiliar a abordagem coletiva de práticas de promoção da alimentação adequada e saudável pelos profissionais de saúde, o governo brasileiro lançou recentemente um instrumento com o objetivo de apoiar o planejamento e o desenvolvimento dessas ações na atenção primária. O projeto contempla propostas de metodologias, além do suporte teórico e prático para o desenvolvimento destas, bem como a publicação de manuais e portarias que abordam os princípios e as recomendações sobre o AM e a AC(23).

Dessa forma, há necessidade de viabilizar cursos, treinamentos e capacitações sobre o AM e principalmente sobre a AC que qualifiquem esses profissionais. Para tal, sugerem-se ações de educação permanente em saúde, em um processo constante de promoção e desenvolvimento integral e contextualizado das equipes. A exemplo disso, aconselha-se a implementação da EAAB no município para a qualificação do processo de trabalho dos profissionais e para o fortalecimento das ações de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno e à alimentação complementar para crianças menores de dois anos no âmbito da atenção primária, bem como contribuir para a melhoria dos indicadores de aleitamento materno e alimentação complementar.

Limitações do estudo

Este estudo apresenta algumas limitações. A principal delas relaciona-se ao delineamento metodológico utilizado, de tipo transversal, o qual não permite avaliar relações causais, bem como exposição e desfecho relacionado ao conhecimento apreendido. Ainda, o fato de ter sido realizado em um único município restringe a generalização dos resultados. Destaca-se também a possibilidade de viés de informação, uma vez que, ao saberem da pesquisa, os participantes poderiam ter ido buscar as informações corretas para evitar julgamento negativo.

Contribuições para a área da enfermagem, saúde ou política pública

O enfermeiro deve estar sensível ao seu papel junto à mulher durante o ciclo gravídico-puerperal e, no pós-alta, auxiliá-la no processo de adaptação ao aleitamento, evitando assim dúvidas, equívocos e outras complicações. Como membro da equipe multidisciplinar em saúde, deve perceber deficiências e saná-las quando possível, colaborando para uma atuação baseada em conhecimento e habilidade voltada a mãe e filho(6-7).

CONCLUSÃO

Verificou-se que profissionais de saúde que atuam na ESF têm maior conhecimento sobre aleitamento materno quando comparado ao conhecimento em alimentação complementar, achado este que esteve associado a importantes variáveis de formação (grau de escolaridade) e de atuação (assistência em AM e AC prestada pelos profissionais às mães lactantes).

REFERENCES

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Recebido: 19 de Agosto de 2017; Aceito: 30 de Março de 2018

AUTOR CORRESPONDENTE: Ana Elisa Ramos. E-mail: anaelisa_alegrete@hotmail.com

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