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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.71  supl.4 Brasília  2018

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2017-0462 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Efeito pororoca na educação permanente em saúde: sobre a interação pesquisa-trabalho

Eluana Borges Leitão de FigueiredoI 

Ana Paula de Andrade SilvaI 

Ana Lúcia AbrahãoI 

Benedito Carlos CordeiroI 

Isabel de Almeida FonsecaI 

Mônica Villela GouvêaI 

IUniversidade Federal Fluminense. Niterói-RJ, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

construir responsabilidade municipal com a política de educação permanente na saúde a partir da interação entre práticas de pesquisa e inovação no trabalho.

Método:

relato de experiência com estruturação de encontros dialógicos que possibilitaram o diagnóstico participativo e a gestão estratégica articulada à pesquisa em ensino da saúde.

Resultados:

com as atividades e a interação identificamos forças ativas na reinvenção da formação de trabalhadores inseridos na rede de serviços sanitários na esfera municipal, em que foi possível compreender três fluxos: “interações dentro e fora”, “movimentos de encontros” e “arranjos coletivos estratégicos”.

Considerações finais:

a pesquisa-ação colaborativo-crítica possibilitou a construção de movimentos coletivos que apontaram caminhos para produção de novos sentidos na formação em saúde e oportunizaram a criação estratégica do Núcleo de Educação Permanente em Saúde, como tarefa de gestão municipal não dependente da política de governo federal.

Descritores: Educação Continuada; Pessoal de Saúde; Enfermeiros; Políticas de Saúde; Inovação

INTRODUÇÃO

Este estudo empregou na sua construção o efeito pororoca para tratar do encontro entre três pesquisas que apresentam foco no processo de trabalho e no cuidar em saúde. A aproximação entre tais práticas de pesquisa e o cotidiano do trabalho culminou em um movimento de Educação Permanente em Saúde (EPS) no município de Resende, interior do estado do Rio de Janeiro. A palavra pororoca tem origem tupi (poro + roka) e revela um estrondo produzido pelo encontro de águas de rios e do mar. Ao tratar dos encontros entre sujeitos, Abrahão (2004) reconhece o processo de subjetivação que se estabelece a partir das forças intensas e extensas dos diferentes elementos heterogêneos que transitam, durante o encontro, pelos novos territórios existenciais produzidos. Nesse sentido, a autora adota o efeito pororoca como uma dobra que se forma na contramão das forças, produzindo em si mesma uma outra dobra(1). Encontros em que a força subjetiva se estabelece e opera sobre os sujeitos no ato do encontro, provocando singularidades e constituindo novos processos subjetivos que, nesse movimento, produzem novos territórios institucionais.

Nesse sentido, empregamos o efeito pororoca para relatar a experiência de cruzamentos de pesquisas, de vidas, de saberes, de afetos que, ao se dobrarem sobre si, produziram outro movimento na formação dos trabalhadores de saúde no município de Resende, possibilitando, dessa forma, a construção de responsabilidade municipal com a política de EPS. O entrecruzamento de pesquisas que resultaram nesta experiência se deu a partir da parceria das autoras na construção de encontros de EPS para trabalhadores de Resende com diversas formações. Esses encontros partiram da compreensão de que a EPS é um fenômeno social, multiprofissional, colaborativo e coletivo, portanto, necessário para o desenvolvimento do trabalho em saúde. A EPS é considerada, em diversos estudos, um importante processo para fortalecer os sujeitos e para torná-los capazes de interagir e contribuir com o meio social em que vivem(2) – um processo educativo dialógico que permite aos trabalhadores serem protagonistas de sua própria formação(3). Nessa direção, o estudo tem como objetivo construir responsabilidade municipal com a política de EPS a partir da interação entre práticas de pesquisa e inovação no trabalho.

Aproximação das pesquisas no município de Resende, estado do Rio de Janeiro

A experiência relatada foi vivenciada por duas enfermeiras pesquisadoras e servidoras da Secretaria Municipal de Saúde do município de Resende na construção de encontros de EPS nos anos de 2014 a 2017. Destaca-se que Resende, município localizado na região do Médio Paraíba, interior do estado do Rio de Janeiro, foi cenário do encontro que produziu o efeito pororoca na saúde, a partir das pesquisas intituladas Educação permanente em saúde: inventando desformações, de Eluana Borges Leitão de Figueiredo, e Educação permanente: uma estratégia para redução dos incidentes no preparo e administração dos medicamentos intravenosos na terapia intensiva, de Ana Paula de Andrade Silva, ambas desenvolvidas no âmbito do mestrado profissional, e do estudo em andamento No labirinto das experiências: encontros coletivos como territórios de afetos, conhecimentos e cuidado em saúde, também de Figueiredo, no âmbito do doutorado(4-5).

Ressalta-se que o encontro entre as pesquisas culminou num processo único e ético de interferência sobre o trabalho em saúde no município, com a produção de novos processos subjetivos que deu origem a este relato de experiência. Dessa maneira, os diferentes objetos de pesquisa foram se permeando e desafiando, o que resultou num movimento de constituição de territórios institucionais que se mostraram capazes de suportar processos instituintes relativos à EPS. Assim, as pesquisas produziram correspondências e intersecções entre a universidade e o serviço, entre o ensino/pesquisa e o trabalho, entre a teoria e a prática cotidiana.

Materialização da experiência

O relato foi construído em três partes/fluxos relacionados ao efeito pororoca. O primeiro desvela a percepção inicial dos processos de formação desenvolvidos no município de Resende, a partir das “interações dentro-fora” das pesquisadoras/servidoras. O segundo revela os “movimentos de encontro” no município. Por fim, o terceiro trata dos “arranjos coletivos estratégicos” que viabilizaram espaços institucionais de encontro/formação.

Fluxo “interações dentro-fora”: Educação Permanente em Saúde no Município de Resende

No efeito pororoca perfazem-se movimentos que são distintos e simultâneos: o dentro e o fora. Esse efeito foi o mesmo vivenciado pelas autoras, que eram ao mesmo tempo o dentro (por serem servidoras do município) e o fora (por serem pesquisadoras da temática EPS no município). O dentro/fora exigiu o que Abrahão chama de pesquisador in-mundo, ou seja, um investigador que “emaranha-se, mistura-se, se afeta com o processo de pesquisa, diluindo o próprio objeto, uma vez que se deixa contaminar com esse processo, e se sujando de mundo”(6). Evocou também alguns pressupostos da pesquisa-ação colaborativo-crítica, cujo compromisso com a produção de conhecimentos reconhece tanto situações desafiadoras, que carecem de pesquisas, reflexões e análises, quanto a necessidade de se envolver na vida cotidiana com uma postura propositiva(7).

Um ponto fundamental para o processo de intervenção na formação dos trabalhadores de saúde do município foi partir para uma investigação sobre a EPS considerando a visão dos trabalhadores da gestão e da assistência. A partir desse conhecimento, as enfermeiras pesquisadoras/servidoras, aliadas aos trabalhadores, começaram a focar na construção de espaços de encontro. O levantamento das informações se deu através da entrevista/escuta de dezesseis trabalhadores no município de Resende, depois de atendidas todas as exigências relativas aos aspectos éticos e legais.

Com o levantamento foi possível ouvir os trabalhadores acerca da necessidade de educação permanente em suas práticas cotidianas e do tipo de formação que aspiravam. Os participantes foram questionados, entre outros aspectos, sobre como se expressa a EPS no município e sobre como gostariam que fossem os processos educativos voltados para o seu trabalho. Os trabalhadores revelaram processos educativos promovidos pela Secretaria de Saúde no formato de capacitações, palestras e cursos baseados em atualização técnica e em métodos pedagógicos pautados na transmissão de conhecimentos. Esses processos foram considerados pontuais e incapazes de produzir confronto entre diferenças ou de colocar o trabalho em análise. Havia neles pouco espaço para trocas intersubjetivas ou para a descoberta de práticas colaborativas no trabalho, encontros afetivos e encontros de saberes e experiências(4). Com o levantamento de percepções, necessidades e pedidos dos trabalhadores do município foi possível verificar que a formação que queriam era da ordem do encontro, da ordem dos afetos e da produção eminentemente coletiva. Assim foi desvelado o pedido de mudanças nos processos formativos em nível municipal.

Fluxo “movimentos de encontro”: pesquisadoras e trabalhadores de saúde

A partir do conhecimento de que a formação para o trabalho seguia o formato de transmissão tradicional com foco em capacitações, as pesquisadoras/servidoras se aliaram aos demais trabalhadores, gestores de diversos setores, docentes e usuários para pensar coletivamente maneiras de iniciar encontros capazes de ancorar a política de EPS no município. A intenção era refletir sobre novos significados da formação, e, à medida que os encontros periódicos foram sendo produzidos, o envolvimento dos participantes foi aumentando e as discussões, se aprofundando. Constituiu-se então um espaço de produção coletiva de conhecimento, sobretudo um espaço intercessor de afetos e saberes, a ponto de se tornar uma roda interinstitucional e multiprofissional de EPS, o EPensando Resende, que aconteceu de setembro de 2014 a janeiro de 2017. A interinstitucionalidade da proposta se expressou na diversidade da composição ao promover conversas entre diferentes segmentos, como trabalhadores, gestores, usuários e docentes, em um movimento de construção de um novo território institucional(8).

As enfermeiras/pesquisadoras perceberam um dispositivo potente na criação de rodas de EPS, pela perspectiva de dar voz aos sujeitos da rede de saúde e escutar seus fluxos e necessidades, sobretudo para aproximar processos de formação da prática cotidiana, em um movimento de dobrar-se sobre si mesmo, como na pororoca. Essa construção coletiva foi impulsionada pelas dobras das três pesquisas científicas citadas e propiciou a criação de um Núcleo de Educação Permanente em Saúde (Neps), com a intenção de multiplicar os encontros como um movimento de transformação de toda uma rede de saúde.

Assim, o Neps de Resende foi criado com objetivo de viabilizar apoio pedagógico permanente e dar suporte aos setores da saúde e à gestão no desenvolvimento de atividades ligadas à formação profissional à luz da EPS(5). O movimento de EPS advindo do coletivo EPensando, pela participação dos profissionais de saúde e pela criação do Neps, desdobrou-se em outros movimentos de construção de espaços de encontro no município, como as rodas de EPS no âmbito da rede de urgência e emergência – Hospital de Emergência, Hospital Santa Casa de Misericórdia, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Unidades de Pronto Atendimento e Maternidade –, no Centro de Fonoaudiologia e na Unidade de Terapia Intensiva do município. Destaca-se que a capilarização das rodas de EPS na terapia intensiva constituiu um segundo importante movimento na construção de encontros de EPS no município, pois conduziu os trabalhadores dos serviços da rede hospitalar para a reflexão acerca de uma assistência segura, tendo a educação permanente como estratégia para redução dos incidentes no preparo e administração dos medicamentos intravenosos na terapia intensiva(5).

A partir da construção dos espaços de encontro-formação, inicialmente concretizados no EPensando e nas rodas da Terapia Intensiva, outras aproximações foram acontecendo. Diferentes trabalhadores foram se envolvendo no processo e passaram a se reunir mensalmente com o objetivo de problematizar temáticas e situações diversas vivenciadas em seus espaços de trabalho, identificando, assim, suas necessidades de formação e de aprimoramento dos serviços, além do desenvolvimento de planos de ação. As diferentes rodas de EPS se caracterizavam pela imprevisibilidade do encontro entre pessoas e se ancoravam na metodologia de problematização e nos pressupostos da pesquisa-ação colaborativo-crítica, especialmente pela intenção de realizar os arranjos coletivos com os trabalhadores e não uma ação formativa sobre eles, como propõe Pimenta(9). Assim, as rodas de educação permanente se capilarizaram e provocaram outros trabalhadores a pensar e construir seus processos formativos.

Cabe destacar que as pesquisadoras/servidoras conseguiram garantir que os encontros fossem reportados em livros/arquivos considerados portfólios, com o registro de participantes e a descrição de atividades, além de fotografias. Tais documentos representam a memória do movimento que compreendeu 56 rodas de EPS nos diferentes espaços do município, tanto em unidades de saúde quanto em espaços de integração da rede, totalizando 772 participações, conforme o Quadro 1.

Quadro 1 Quantitativo de encontros de Educação Permanente em Saúde nos anos 2015 e 2016 

Participações nas rodas EPS Temas
Roda de EPS EPensando 284 participações Práticas integrativas no SUS,
Tecendo elos com o serviço social da rede SUS de Resende,
Cuidado ao usuário psiquiátrico em crise: 1º e 2º momentos,
Entre verso e prosa: EPensando o controle social no SUS
EPensando em movimento de cultura
EPensandoe saúde mental: refletindo a Reforma Psiquiátrica
Reforma Sanitária
Modelos de saúde e o SUS hoje
Engravidando palavras
O caso Margarida
O cuidado e suas relações com os modos de ser do humano: discutindo a humanização
O trágico na produção do cuidado
#oSUSsouEU
Territorialização
Rodas avaliação
Rodas de EPS Centro de Terapia Intensiva 358 participações Captação de órgãos
Higiene corporal
Cuidados com cateter vesical de demora
A importância dos sinais vitais no contexto da terapia intensiva
O indivíduo no cenário da terapia intensiva
Relacionamento interpessoal e interdisciplinar
Assepsia e antissepsia no ambiente hospitalar
Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono
Pneumonia associada à ventilação mecânica
Curativo
Planejamento da assistência com as enfermeiras
Semana de Enfermagem
Processo de doação e transplante de córneas
Simulado do atendimento a cliente vítima de acidente nuclear
Legitimidade às avessas: construindo a esfera de intervenção do Serviço Social no cotidiano do HME
Rodas de EPS Centro Municipal de Fonoaudiologia 49 participações Discussões focadas no processo de trabalho cotidiano, não em temas.
Roda de EPS Rede de Urgência e Emergência 81 participações Registro de enfermagem: implicações éticas e jurídicas para profissionais de enfermagem da rede de urgência e emergência
Atendimento ao usuário psiquiátrico em crise I e II
Workshop emergências cardiológicas e eletrocardiograma
Hipertensão arterial e riscos cardiovasculares
Cuidado humanizado
Edema Agudo de Pulmão
Técnicas de imobilização de membros

Fonte: registros dos encontros de Educação Permanente em Saúde no município de Resende, Rio de Janeiro, Brasil.

Nota: EPS: Educação Permanente em Saúde; SUS: Sistema Único de Saúde; HME: Hospital Municipal de Emergência.

Fluxo “arranjos coletivos estratégicos”: efeitos de agenciamento e resultados

Nos dois anos em que vivenciamos no território municipal a experiência viva dos encontros entre diferentes vertentes da pesquisa científica, foi possível notar que a lógica circular do aprendizado inventivo também sofreu o efeito pororoca, revolvendo e desterritorializando pesquisas, pesquisadores, formadores, trabalhadores da atenção, gestores, usuários dos serviços, tudo que entrou em contato com o movimento das rodas em Resende, a partir dos encontros. Nota-se que na pororoca, à medida que rio e mar se encontram, novos agenciamentos são produzidos, novos processos são apreendidos, margens são refeitas, e nada fica ileso diante da intensidade e força dos encontros. O movimento que emerge produz forças plurais e instaura algo novo(10). No efeito pororoca o devir da educação no trabalho é então reivindicado por meio do compartilhamento de experiências, da composição de coletivos e da escuta pedagógica que interroga e pede passagem para mudanças nos processos de trabalho(11).

A invenção de processos educativos provocados pelo encontro de diferentes pesquisas deixou de ser atribuída aos sujeitos pesquisadores e passou a compor efeitos juntamente com os demais movimentos. Na experiência da pororoca da educação permanente já não sabíamos quem era quem, se pesquisávamos ou se estávamos sendo pesquisadas, nem de que pesquisa o movimento era fruto. A experiência de implantação da EPS com os atores do serviço/prática produziu uma aprendizagem inovadora, resultado de efeitos de agenciamento como acontecimentos multidimensionais e produção de afetos coletivos, instituindo-se, assim, a educação para a potência.

O apoio da gestão do município constituiu um fator fundamental para a construção dos espaços de encontro-formação. A gestão, mesmo sem compreender em profundidade tais encontros e seus efeitos na prática, garantiu um lugar institucional para a EPS, devolvendo à formação o direito ao inacabamento e apostando nesse modo de pesquisar como processo de aprendizagem (in) mundo, ou seja, uma aprendizagem movediça que muda e se transforma a cada encontro(6).

Cabe destacar que, para todos os envolvidos, o primeiro grande aprendizado na construção desses espaços coletivos e solidários foi a experiência de estar à deriva, sem certezas ou garantias. Por mais planejados e organizados que fossem, os encontros sempre nos levavam a outros lugares, não antevistos, portanto desconhecidos, que sempre nos colocavam no lugar de problematização, já que os sujeitos em relação e em estado de encontro produziam trincas nas certezas advindas da vida e da profissão.

Esse movimento exigiu uma ruptura com o tradicional caráter transmissivo da aprendizagem. Inicialmente muitos dos que chegavam para os encontros buscavam respostas prontas e esperavam encontrar a figura de um mestre capaz de dizer sobre o certo e o errado. Nesse sentido, esperava-se que as representações das profissões falassem por si mesmas, deixando o sujeito e o humano escondido, encoberto e silenciado em seus inacabamentos. Essa foi uma fase difícil de transição. O fato de nos colocarmos em uma posição de passividade enquanto sujeitos de aprendizagem e a inflexão para o lugar de construtores de saberes exigiu esforço e perseverança de todos. Levou tempo para que todos entendessem que o tom desse lugar de encontro-formação não era profissional-centrado. O interesse residia em pessoas, em suas marcas e inacabamentos, em uma formação desformadora, cujo saber se produziria a partir do saber-se inacabado e da visão crítica sobre si e sobre o outro como sujeito imperfeito e falível(12).

Aos poucos a aprendizagem foi se colocando de forma diferente. Ela emergiu como um lugar de processos instituintes, como um espaço em que os sujeitos inventavam a si mesmos e criavam maneiras inéditas de ensinar e aprender. Pesquisadores e trabalhadores da saúde passaram a produzir juntos formas de se encontrar com o fluido, com o sensível. Especialmente a permanente abertura à arte mobilizou a aprendizagem de modo sensível e intenso: as rodas eram atravessadas pela poesia, pela música, pelos afetos. Esse movimento dotou de potência a EPS de Resende, sendo fortalecido por movimentos de repetição e enraizamento.

A repetição refere-se ao ritmo impresso aos encontros. Ou seja, eles aconteciam frequentemente e de forma permanente, com data, local e horário pactuados. Eram encontros regulares, sendo, portanto, fundamentais para construção de vínculos entre os participantes. Inevitavelmente a repetição produziu o que chamamos de enraizamento – a intensidade e a extensividade do efeito pororoca. O enraizamento foi produto dos afetos gerados. O afeto era a liga; produziu não só experiências afetivas como também marcas na vida das pessoas. Isso nos tornava mais porosos à aprendizagem e gerava a vontade espontânea de afirmar e co-criar esse lugar de encontros com o outro. E não importava se esse outro tinha ou não nível superior, se era trabalhador ou gestor da saúde, se era professor ou usuário dos serviços, importava a intensidade dos encontros.

O movimento coletivo passou a despertar o interesse espontâneo dos participantes, que, por desejarem o espaço de encontro-formação, dedicavam tempo para mantê-lo vivo. A experiência, tal como afluente de um rio, provocou aproximações e outros fluxos que deram força à pororoca, exacerbando o caráter participativo no processo de interferência na formação. Tais afluentes foram representados pelas parcerias colaborativas e solidárias instituídas entre atores da Universidade Estácio de Sá, da Universidade Federal Fluminense, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da Comissão de Integração Ensino-Serviço da região do Médio Paraíba, da Comissão de Gerenciamento de Risco Sanitário, do Grupo Técnico de Farmacovigilância, da ouvidoria e do Conselho Municipal de Saúde do município.

Os espaços institucionais de encontro-formação representaram locais de produção de conhecimento e promoveram a co-criação a partir da intersecção entre diferentes atores e instituições. A EPS tornou-se, assim, um dispositivo analisador para o cenário do trabalho em saúde no município. Nesse sentido, falamos de uma instituição que não abrange apenas o mundo material, mas sobretudo o imaterial. Cabe ressaltar que a produção imaterial do trabalho (conhecimentos, afetos, relações, formas de vida) se vislumbra também como a construção de um bem comum e coletivo(13). Falamos, então, da instituição que é produzida nas relações e que tem o mundo do trabalho como espaço favorável para o processo de aprendizagem do trabalhador, ligando-o ao seu próprio agir produtivo, colocando o fazer em análise(14).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A potência dos espaços em que coletivos (re) pensam o processo de trabalho, o cuidado e a vida a partir do encontro como um fenômeno fundamental para formação em saúde foi o principal resultado desta experiência. Encontros provocadores, mobilizadores de pessoas, que mantêm as diferenças, exaltam o afeto e não findam ao término das pesquisas, são movimentos que tornam sempre inédita e viva a relação pesquisador-pesquisa-objeto. Os entrecruzamentos de pesquisas, saberes e fazeres em EPS confluíram no município de Resende para a promoção de espaços colaborativos que propiciaram o encontro e produziram novos protagonistas, na intenção de fortalecer o Sistema Único de Saúde.

Com a experiência dos fluxos aprendeu-se que: repetição, deriva, enraizamento e afetos são fundamentais para manter viva e permanente a formação em saúde. Com a interação entre pesquisa e trabalho foi possível notar que tanto pesquisadores quanto trabalhadores da saúde construíram conhecimentos sobre ensinar, aprender e sobre o ato político de pensar criticamente a vida e o trabalho em um só movimento de pororoca. Além disso, constatou-se que a construção de uma política municipal de EPS com características locais pode acontecer sem depender necessariamente de financiamentos, tutelas e regramentos federais. Por fim, percebeu-se que o SUS pode ser reconhecido como cenário-escola, tendo a gestão do trabalho como espaço educativo favorável às relações de aprendizagem, participação e inovação.

Espera-se que esse relato de experiência, na possibilidade de incentivar movimentos coletivos, aponte caminhos para produção de novos sentidos na formação em saúde. A contribuição das pesquisas foi só uma das vertentes apresentadas a partir da aproximação com o campo da prática, entretanto, novas interações continuam em acontecimento no município.

1A Pororoca é um macaréu que ocorre no rio Amazonas, no Brasil, resultado do encontro das águas do rio com o oceano Atlântico.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 25 de Junho de 2017; Aceito: 06 de Agosto de 2017

AUTOR CORRESPONDENTE: Isabel de Almeida Fonseca E-mail: isabelfonseca@outlook.com

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