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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.99 no.2 São Paulo ago. 2012  Epub 05-Jul-2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2012005000065 

Parâmetros ecocardiográficos como preditores de eventos cardiovasculares em pacientes em hemodiálise

 

 

Thayse Mayara Aragão SiqueiraI; Pedro Antônio Muniz FerreiraI, II; Francisco das Chagas Monteiro JúniorI; Natalino Salgado FilhoI, II; Adalgisa de Souza Paiva FerreiraI; Eugênio dos Santos NetoI; Francival Leite de SouzaI; Paulo de Tarso CardosoI

IUniversidade Federal do Maranhão, São Luís, MA - Brasil
IICentro de Nefrologia do Maranhão, São Luís, MA - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: Pacientes com doença renal crônica (DRC) em hemodiálise possuem altas taxas de morbidade e mortalidade cardiovascular. Apesar de alterações ecocardiográficas estruturais e funcionais em pacientes submetidos à hemodiálise terem sido objeto de diversos estudos de análise de sobrevida, o valor prognóstico destas alterações ainda não está bem estabelecido na literatura.
OBJETIVO: Determinar o valor prognóstico de parâmetros ecocardiográficos em pacientes com DRC em hemodiálise.
MÉTODOS: Sessenta pacientes consecutivos com DRC em tratamento hemodialítico foram avaliados clinicamente e submetidos ao ecodopplercardiograma, sendo acompanhados durante 19 ± 6 meses. Os desfechos avaliados foram eventos cardiovasculares fatais e não fatais e mortalidade geral. O valor preditivo das variáveis ecocardiográficas foi avaliado pelo modelo de regressão de Cox, as curvas de sobrevida foram construídas pelo método de Kaplan-Meier e o teste log rank foi utilizado para compará-las.
RESULTADOS: As taxas de sobrevida livre de eventos cardiovasculares, de mortalidade cardiovascular e de mortalidade global em dois anos foram de 79,4%, 88,5% e 83%, respectivamente. Diabetes, diagnóstico prévio de doença cardiovascular (DCV), fração de ejeção, fração de encurtamento, diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo e relação E/e' foram preditores de desfecho cardiovascular na análise univariada. Na análise multivariada, história prévia de DCV (HR = 6,17; IC 95% 1,7 - 22,2; p = 0,005) e disfunção diastólica moderada a grave (HR = 3,76; IC 95% 1,05 - 13,4; p = 0,042) foram fatores de risco independentes para eventos cardiovasculares.
CONCLUSÃO: Disfunção diastólica de moderada a grave é um preditor independente de eventos cardiovasculares em pacientes em hemodiálise.

Palavras-chave: Ecocardiografia doppler; insuficiência renal crônica; análise de sobrevida; diálise; prognóstico.


 

 

Introdução

As taxas de mortalidade anual em pacientes com doença renal crônica (DRC) em tratamento dialítico são elevadas. De acordo com o censo de diálise dos Estados Unidos1, a sobrevida de pacientes em hemodiálise no país foi de 77,4% em um ano e de 34,2% em cinco anos, no período de 1999 a 2003. No Brasil, em 2009, a taxa anual de mortalidade bruta foi de 17,1%2.

As doenças cardiovasculares (DCV) correspondem a cerca de metade dos óbitos ocorridos em pacientes submetidos à hemodiálise. Além disso, esses pacientes são frequentemente submetidos a internações hospitalares e as DCVs são responsáveis por aproximadamente um terço dessas internações3.

Alterações estruturais e funcionais detectadas através da ecocardiografia, como hipertrofia e disfunção sistólica e diastólica do ventrículo esquerdo (VE), são bastante prevalentes na população em hemodiálise. O diagnóstico ecodopplercardiográfico dessas anormalidades tem sido um importante passo para a caracterização de indivíduos com maior risco cardiovascular4,5.

Diversos estudos têm buscado determinar o valor prognóstico de alterações, como hipertrofia e disfunção sistólica em pacientes submetidos à hemodiálise6-8. Porém, estudos avaliando o valor preditivo da disfunção diastólica nessa população são escassos. Desse modo, o objetivo deste estudo foi determinar o valor prognóstico de parâmetros ecocardiográficos em pacientes com DRC em tratamento hemodialítico.

 

Métodos

Desenho do estudo e população

Trata-se de um estudo observacional, analítico, de coorte e prospectivo, conduzido no Serviço de Diálise do Centro de Nefrologia do Maranhão (CENEFRON). Foram avaliados consecutivamente 60 pacientes portadores de DRC submetidos à hemodiálise nesse serviço. As sessões de hemodiálise de todos os pacientes eram realizadas três vezes por semana, com duração de quatro horas, em máquinas volumétricas (Baxter Tina®, EUA; Fresenius 4008S® ou Fresenius 4008B®, Alemanha). Os filtros de diálise utilizados eram do tipo polissulfona, de baixo fluxo (Hemoflow, Fresenius®, Alemanha), escolhidos de acordo com o cálculo da superfície corporal do paciente.

Os critérios de inclusão foram idade igual ou superior a 18 anos e tratamento hemodialítico há pelo menos três meses. Foram considerados critérios de exclusão: história recente (inferior a seis meses) de infarto agudo do miocárdio (IAM), revascularização miocárdica cirúrgica ou percutânea, angina instável ou acidente vascular encefálico (AVE); insuficiência cardíaca congestiva (ICC) descompensada; doença valvular importante; hipertensão pulmonar; pressão arterial > 160/110 mmHg; fibrilação atrial não controlada ou arritmia cardíaca ventricular complexa (taquicardia ventricular não sustentada; extrassístoles polimórficas, frequentes, em salvas e aos pares); níveis glicêmicos não controlados; neoplasias malignas; infecção ativa; regime irregular de diálise; impossibilidade de se obter o consentimento informado do paciente e janela ecocardiográfica inadequada.

Os pacientes foram avaliados clinicamente e submetidos à realização de um ecodopplercardiograma durante o período de fevereiro a setembro de 2009, com um intervalo inferior a 30 dias entre os dois procedimentos. Em seguida, foram acompanhados regularmente até maio de 2011 ou até a ocorrência de desfecho.

O projeto foi aprovado pela Comissão de Pesquisa do CENEFRON e pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Maranhão. Foi obtida a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) de todos os pacientes incluídos no estudo.

Ecodopplercardiograma

Os ecocardiogramas transtorácicos foram realizados em aparelhos ecocardiógrafos do modelo Vivid 3 Cardiovascular Ultrasound System (GE Healthcare, General Electric Company, EUA), com transdutores de 3 a 7 mHz e com recursos para obtenção das modalidades de ecocardiograma modo M, bidimensional e Doppler (pulsátil, contínuo, colorido e tecidual). Os exames foram realizados no período interdialítico, em até 24 horas após a sessão de hemodiálise, por um único profissional médico, treinado e capacitado em ecocardiografia, com os pacientes em repouso e na posição de decúbito lateral esquerdo. As medidas ecocardiográficas seguiram as recomendações da Sociedade Americana de Ecocardiografia9-12 e, para cada variável, pelo menos três ciclos foram analisados.

A avaliação da geometria do VE foi obtida pela imagem bidimensional, sendo obtidas as seguintes variáveis: espessura diastólica final do septo (EDS), espessura diastólica final da parede posterior (EDP), diâmetro diastólico final do ventrículo esquerdo (DDVE) e diâmetro sistólico final do ventrículo esquerdo (DSVE).

A massa do ventrículo esquerdo (MVE) foi calculada através da fórmula proposta por Devereux e cols.13 e, então, indexada à área da superfície corporal (ASC), para obtenção do índice de massa do ventrículo esquerdo (IMVE = MVE/ASC). A espessura relativa da parede (ERP) foi obtida pela fórmula EDP + EDS/DDVE. A fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FE) foi calculada pelo método descrito por Teichholz e cols.14 e a fração de encurtamento sistólico do ventrículo esquerdo, pela fórmula (DDVE - DSVE) / DDVE. O volume do átrio esquerdo (VAE) foi determinado a partir da planimetria bidimensional, utilizando a técnica de Simpson biplanar15 e, então, indexado à ASC para obtenção do índice de volume do átrio esquerdo (IVAE = VAE/ASC).

O fluxo mitral foi avaliado em projeção apical de quatro câmaras pelo Doppler pulsátil. A amostra foi posicionada entre as extremidades distais dos folhetos da válvula mitral e, então, foram obtidas as seguintes variáveis: velocidades diastólicas precoce (E) e tardia (A) transmitral, relação E/A e intervalo de tempo de desaceleração da onda E (TDE). O Doppler tecidual foi realizado no corte apical de quatro câmaras para obtenção das velocidades do anel mitral. A amostra foi colocada na junção da parede lateral do VE com o anel mitral16, sendo, então, determinadas as velocidades diastólicas precoce (e') e tardia (a') do anel mitral, além das relações e'/a' e E/e'.

Hipertrofia de ventrículo esquerdo (HVE) foi diagnosticada quando o IMVE foi > 115 g/m2 para homens e > 95 g/m2 para mulheres. A geometria do VE foi classificada de acordo com os valores da ERP e do IMVE como: hipertrofia concêntrica (presença de HVE e ERP > 0,42), hipertrofia excêntrica (presença de HVE e ERP < 0,42), remodelamento concêntrico (ausência de HVE e ERP > 0,42) e geometria normal (ausência de HVE e ERP < 0,42). Definiu-se aumento do átrio esquerdo (AE) na presença de IVAE > 28 mL/m2, enquanto dilatação do VE foi definida quando o DDVE foi > 5,9 cm para homens e > 5,3 cm para mulheres15.

Disfunção sistólica foi admitida quando a FE foi menor que 55%15. A função diastólica do VE foi classificada em quatro padrões: normal, alteração do relaxamento (disfunção diastólica leve), pseudonormal (disfunção diastólica moderada) e restritivo (disfunção diastólica grave). Considerou-se alteração do relaxamento quando E/A < 1; padrão restritivo quando E/A > 2 e padrão pseudonormal quando E/A foi maior que 1 e menor que 2 em associação a E/e' > 1017.

Dados demográficos, clínicos e laboratoriais

Dados demográficos e clínicos, incluindo idade, sexo, história de tabagismo, comorbidades e tempo de diálise, foram obtidos a partir de rigorosa análise de prontuário, além de entrevista com o paciente e com o médico responsável, quando necessário. Evento cardiovascular prévio foi definido como história pregressa de angina típica ou IAM, AVE isquêmico ou hemorrágico e ICC com classe funcional > II.

Antes da realização de cada ecodopplercardiograma, efetuaram-se a aferição da pressão arterial e a obtenção de medidas e razões antropométricas (peso, altura, ASC, índice de massa corpórea), mensuradas conforme técnicas padronizadas e utilizando-se materiais adequados. O índice de massa corpórea (IMC) foi calculado pela divisão do peso (kg) pelo quadrado da altura (m), considerando-se desnutrição quando < 18,5 kg/m2. A ASC foi obtida pela fórmula de Dubois e Dubois18.

Todas as dosagens bioquímicas foram realizadas em um único laboratório, localizado no CENEFRON, e esses dados foram coletados a partir da análise dos prontuários dos pacientes.

Desfechos

O desfecho primário, ou desfecho cardiovascular, abrangeu ocorrência de eventos cardiovasculares fatais e não fatais. Os eventos cardiovasculares foram definidos por angina com estenose coronariana > 50% à cineangiocoronariografia, IAM não fatal, procedimento de revascularização miocárdica, AVE isquêmico ou hemorrágico não fatal, ICC requerendo internação hospitalar e morte de causa cardiovascular (incluindo morte súbita, IAM e AVE). O desfecho secundário incluiu mortalidade geral.

Os desfechos foram obtidos a partir de revisão mensal de documentação médica, incluindo registros em prontuários e atestados de óbito, além de contato com o médico e com familiares do paciente. Pacientes que realizaram transplante renal ou que mudaram de modalidade de diálise foram censurados no estudo.

Análise estatística

As análises estatísticas foram realizadas no programa Statistical Package for Social Sciences - SPSS 17.0® (SPSS Inc, EUA). As variáveis quantitativas foram expressas na forma de média com desvio padrão ou mediana e as variáveis categóricas, na forma de porcentagem. Para a comparação de proporções entre os grupos com e sem desfecho, foi utilizado o teste do qui-quadrado e para a comparação de variáveis quantitativas, o teste t de Student para amostras independentes. Para estimar as razões de risco (hazard ratios), realizou-se a análise univariada pelo modelo de risco proporcional de Cox e, em seguida, as variáveis com p < 0,10 foram incluídas na análise multivariada pelo mesmo modelo. As curvas de sobrevida foram construídas pelo método de Kaplan-Meier e o teste log rank foi utilizado para comparar curvas de sobrevida em análise univariada. O nível de significância foi definido como p < 0,05.

 

Resultados

A população estudada foi composta por 31 (51,7%) homens e 29 (49,3%) mulheres, com média de idade de 49,2 ± 13,7 anos, variando de 22 a 76 anos. As características demográficas, clínicas, bioquímicas e ecodopplercardiográficas da população estão listadas na Tabela 1.

 

 

A causa da DRC foi atribuída à nefroesclerose hipertensiva em 30% dos casos, à glomerulonefrite crônica em 30%, à nefropatia diabética em 16,7%, à doença renal policística em 5%, à pielonefrite crônica em 1,7% e a outras afecções em 16,7% dos casos.

Dentre os indivíduos incluídos no estudo, 25% apresentavam diagnóstico prévio de DCV: três pacientes com diagnóstico de ICC, seis com história de angina típica ou IAM e seis com história de AVE.

As principais alterações ecodopplercardiográficas diagnosticadas foram: aumento do AE (49,2%), dilatação do VE (20%), HVE (85%), disfunção sistólica (26,7%) e disfunção diastólica (83,6%).

De acordo com o grau de disfunção diastólica, 16,4% dos pacientes apresentaram fluxo restritivo; 20%, padrão pseudonormal e 47,3%, alteração do relaxamento. Em relação à geometria do VE, 68,3% dos pacientes apresentaram hipertrofia concêntrica; 16,7%, hipertrofia excêntrica; 8,3%, remodelamento concêntrico e 6,7%, geometria normal.

O seguimento médio foi de 19,6 ± 6 meses e, durante este período, ocorreram nove óbitos e cinco eventos cardiovasculares não fatais. As DCV foram responsáveis por 66,7% dos óbitos ocorridos (três por IAM e três por AVE), enquanto os outros três óbitos foram atribuídos a outras causas (um por choque hipovolêmico e dois por choque séptico). Os eventos cardiovasculares não fatais ocorridos foram: um episódio de AVE, duas internações hospitalares por ICC descompensada e dois episódios de angina com estenose coronariana superior a 50% à cineangiocoronariografia.

As taxas de sobrevida livre de eventos em um e dois anos, respectivamente, foram de 91,5% e de 79,4% para eventos cardiovasculares, de 96,5% e de 88,5% para mortalidade cardiovascular e de 96,5% e de 83% para mortalidade geral. As Figuras 1 e 2 representam as curvas de sobrevida livre de mortalidade cardiovascular e de eventos cardiovasculares fatais e não fatais, respectivamente.

A Tabela 2 demonstra a comparação das características demográficas, clínicas, bioquímicas e ecodopplercardiográficas entre os grupos com e sem evento cardiovascular. Os pacientes com desfecho cardiovascular apresentaram maior prevalência de diabetes e de evento cardiovascular prévio, maior DSVE e menores valores de FE e de fração de encurtamento sistólico.

O modelo univariado de Cox para eventos cardiovasculares está apresentado na Tabela 3. Na análise univariada, diabetes melito, história prévia de DCV, DSVE, FE e fração de encurtamento sistólico mostraram associação significativa com desfecho cardiovascular. A análise multivariada incluiu as variáveis: diabetes melito, evento cardiovascular prévio, FE, disfunção diastólica de moderada a grave e relação E/e'. As variáveis DSVE e fração de encurtamento sistólico não foram incluídas no modelo de regressão, pois são variáveis correlacionadas com a FE. No modelo final de regressão, o diagnóstico prévio de DCV e a disfunção diastólica de moderada a grave mostraram-se como fatores de risco independentes para eventos cardiovasculares fatais e não fatais (Tabela 4).

 

 

 

 

A Tabela 5 apresenta o modelo univariado de Cox para mortalidade cardiovascular. Apenas a história prévia de DCV mostrou associação significativa com mortalidade cardiovascular na análise univariada. A análise multivariada não foi realizada, pois, pelo critério de seleção de variáveis para o modelo multivariado (p < 0,1), somente DCV prévia e desnutrição estariam aptas a entrar no modelo final.

 

 

A taxa de sobrevida livre de eventos cardiovasculares no período de seguimento foi de 87,2% e de 55% nos grupos sem e com história de DCV prévia, respectivamente (p = 0,007). Enquanto a taxa de sobrevida livre de desfechos cardiovasculares foi de 66,4% no grupo com disfunção diastólica de moderada a grave, no grupo com alteração do relaxamento ou função diastólica normal foi de 87,3% (p = 0,075). A Figura 3 ilustra as curvas de sobrevida livre de desfecho cardiovascular de acordo com a presença ou ausência disfunção diastólica moderada a grave.

 

Discussão

Este estudo demonstrou taxas de sobrevida livre de mortalidade global de 96,5% em um ano e de 83% em dois anos. Essas taxas são comparáveis às encontradas por Silva e cols.19, que verificaram sobrevida de 91% e de 84% em um e dois anos, respectivamente, em estudo realizado no Brasil. Dados obtidos de censos de diálise mostram taxas de sobrevida de 88,6% em um ano e de 79,1% em dois anos na Europa20 e de 77,4% em um ano e de 63% em dois anos nos Estados Unidos1. As características dos pacientes incluídos nesta pesquisa poderiam explicar as diferenças encontradas. Foram estudados pacientes com médias de pressão arterial mais controladas, fato incomum nessa população. Além disso, a média da FE estava preservada nos indivíduos estudados, caracterizando uma população de pacientes mais estáveis do ponto de vista da função sistólica do VE.

As DCV foram responsáveis por 66,7% do total de óbitos ocorridos no período de seguimento. A proporção encontrada assemelha-se às relatadas em estudos que avaliaram mortalidade cardiovascular e global em pacientes em tratamento hemodialítico6,21. Porém estudos multicêntricos, tais como o HEMO e o AURORA, revelaram taxas inferiores a 50% de mortalidade por doenças cardíacas na população em diálise22,23. Esses resultados confirmam que as DCV permanecem como a mais importante causa de morbidade e mortalidade nos pacientes em hemodiálise. Pacientes em hemodiálise têm 10 a 20 vezes mais risco de mortalidade cardiovascular quando comparados com a população geral24 e isso se deve ao fato de serem indivíduos expostos tanto a fatores tradicionais quanto a fatores não tradicionais para complicações cardiovasculares25.

A análise univariada sugeriu que fatores de risco tradicionais como diabetes e história prévia de DCV estão relacionados com um risco mais elevado de eventos cardiovasculares. Por outro lado, idade, tabagismo e hipercolesterolemia não se mostraram como fatores de risco para a ocorrência de desfecho cardiovascular. Apesar de estudos mostrarem uma maior prevalência dos fatores de risco tradicionais na população com DRC que na população em geral26, as altas taxas de complicações cardiovasculares não têm sido totalmente explicadas por tais fatores de risco24,25. Adicionalmente, fatores conhecidos por não tradicionais, como anemia, má-nutrição, estado inflamatório, alterações no produto cálcio-fósforo, dentre outros, têm sido implicados como fatores independentes associados com complicações cardiovasculares nos pacientes em diálise27-30. Na presente pesquisa, no entanto, esses fatores não se relacionaram com um maior risco de morbimortalidade cardiovascular.

Evidências indicam que os parâmetros de disfunção sistólica do VE estão associados de modo independente com a ocorrência de eventos cardiovasculares fatais e não fatais em pacientes em tratamento dialítico, não havendo diferença no poder preditivo entre os métodos utilizados para avaliá-la7. Neste estudo, verificou-se na análise univariada que reduções na FE ou na fração de encurtamento sistólico estão relacionadas com o aumento do risco de eventos cardiovasculares.

A HVE é um forte preditor de morbidade e mortalidade cardiovascular nos pacientes em hemodiálise31. A HVE esteve presente em 85% dos pacientes desta pesquisa, taxa semelhante às reportadas por outros autores6,32. Zoccali e cols.31 revelaram que o aumento do IMVE em pacientes em hemodiálise foi um preditor independente de eventos cardiovasculares, independentemente dos valores basais da MVE. Neste estudo, o IMVE não se associou com morbidade e mortalidade cardiovascular. Esse resultado pode ser atribuído às características mais estáveis dos pacientes incluídos na amostra e ao período de seguimento deste estudo.

O VAE é um parâmetro potencialmente útil para avaliar disfunção diastólica, estando relacionado à gravidade e à duração da disfunção5. Em estudo com uma população em terapia renal substitutiva, Barberato e cols.33 mostraram que o IVAE foi um preditor de mortalidade. Na presente pesquisa, embora o IVAE estivesse discretamente elevado nos dois grupos, a variável não foi preditora independente de eventos cardiovasculares e de mortalidade cardiovascular. Possíveis explicações para a não associação poderiam ser: em pacientes anêmicos, esse índice não refletiria disfunção diastólica34; os pacientes avaliados não faziam parte de uma população de renais crônicos com importante comprometimento da função sistólica do VE; e o número de pacientes foi insuficiente para encontrar diferenças estatisticamente significantes.

Na análise multivariada, o diagnóstico prévio de DCV permaneceu como um fator de risco de eventos cardiovasculares fatais e não fatais. Zoccali e cols.7, em estudo com 254 pacientes em hemodiálise, Rakhit e cols.35, em pesquisa que incluiu 176 pacientes com DRC nos estágios 4 e 5 em tratamento conservador ou dialítico, e Cheung e cols.22, no estudo multicêntrico HEMO, descreveram resultado semelhante no modelo final da análise multivariada de Cox.

O presente estudo demonstrou uma elevada prevalência de disfunção diastólica entre pacientes portadores de DRC em hemodiálise, correspondendo a 83,6%, sendo que 36,4% do total de pacientes apresentaram disfunção diastólica de moderada a grave. Estudos realizados com pacientes em hemodiálise revelaram que a prevalência de disfunção diastólica nessa população pode variar de 63,5% a 87%, dependendo dos critérios utilizados para definição e dos pacientes incluídos na amostra36-38.

A disfunção diastólica caracteriza-se por alterações do relaxamento e da complacência ventricular5 e a sua alta prevalência pode ser explicada pelo fato de a DRC expor o coração à sobrecarga de pressão e volume e a fatores não hemodinâmicos associados que provocam alterações no miocárdio39. A fibrose miocárdica resultante desses processos é um dos principais determinantes da rigidez do VE e da elevação das pressões de enchimento, predispondo ao desenvolvimento de disfunção diastólica39.

A presença de disfunção diastólica de moderada a grave foi o único critério ecocardiográfico preditor independente de eventos cardiovasculares. Um estudo que empregou apenas parâmetros derivados do fluxo transvalvar mitral e do fluxo venoso pulmonar para a categorização da função diastólica demonstrou que a disfunção diastólica é um preditor independente de mortalidade em pacientes em terapia renal substitutiva por hemodiálise40.

Em um estudo publicado recentemente, que avaliou 129 pacientes em hemodiálise e utilizou critérios do Doppler convencional e do Doppler tecidual para classificar disfunção diastólica, Barberato e cols.37 evidenciaram que a mortalidade geral foi significativamente maior no grupo com disfunção diastólica com padrão pseudonormal e fluxo restritivo em comparação ao grupo com disfunção diastólica do tipo alteração do relaxamento ou com função diastólica normal. Nesse estudo, a disfunção diastólica avançada mostrou-se ainda um preditor independente de eventos cardiovasculares.

O presente estudo apresenta limitações: o número de pacientes estudados poderia influenciar o poder de algumas variáveis, como o IVAE; o tempo de seguimento, inferior a dois anos, pode ter influenciado na não associação dos parâmetros da função do ventrículo esquerdo com a mortalidade cardiovascular. Os pontos fortes são: o estudo é prospectivo e longitudinal; foram utilizadas técnicas factíveis para a análise da função diastólica de forma não invasiva, permitindo análises periódicas nos pacientes que apresentam altas taxas de eventos cardiovasculares.

 

Conclusões

Pacientes em hemodiálise apresentam altas taxas de morbidade e mortalidade cardiovascular. A presença de diabetes, o histórico prévio de DCV e uma FE mais baixa são fatores potencialmente relacionados com eventos cardiovasculares. A disfunção diastólica de moderada a grave foi um fator de risco independente de eventos cardiovasculares e, embora novos estudos sejam necessários para a validação deste achado, é recomendável que a avaliação da função diastólica, feita através de parâmetros do Doppler pulsado e do Doppler tecidual, seja incluída na avaliação dos pacientes em tratamento hemodialítico. Essa medida possibilitará a detecção precoce dos indivíduos em risco, visando redução de morbidade e mortalidade.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

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Correspondência:
Thayse Mayara Aragão Siqueira
Rua 39, quadra 40, casa 25, conj. Henrique de La Roque, Ipem São Cristóvão
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E-mail: thayse_siqueira@hotmail.com, thayse_siqueira@yahoo.com.br

Artigo recebido em 12/10/11
Revisado em 12/10/11
Aceito em 07/03/12

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