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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versão impressa ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.46 no.6 São Paulo dez. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342012000600011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Segurança alimentar e uso de alimentos regionais: validação de um álbum seriado*

 

Seguridad alimentaria e ingesta de alimentos regionales: validación de un álbum seriado

 

 

Mariana Cavalcante MartinsI; Joelna Eline G.L.F. VerasII; Janaiana Lemos UchoaIII; Patrícia Neyva da Costa PinheiroIV; Neiva Francenely da Cunha VieiraV; Lorena Barbosa XimenesVI

IEnfermeira. Doutora em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Bolsista CAPES. Integrante do Projeto de Pesquisa Promoção da Saúde da Criança e da Família da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, CE, Brasil. marianaenfermagem@hotmail.com
IIEnfermeira Assistencial do Hospital Distrital Evandro Ayres de Moura. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Integrante do Projeto de Pesquisa Promoção da Saúde da Criança e da Família da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, CE, Brasil. joelnaveras@ufc.br 
III
Enfermeira do Programa Saúde da Família de Pacatuba-CE. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Integrante do Projeto de Pesquisa Promoção da Saúde da Criança e da Família da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, CE, Brasil. janaiana@hotmail.com 
IV
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, CE, Brasil. neyva@ufc.br
VEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, CE, Brasil. nvieira@ufc.br
VIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Associada do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Coordenadora do Projeto de Pesquisa Promoção da Saúde da Criança e da Família da Universidade Federal do Ceará. Pesquisadora do CNPq. Fortaleza, CE, Brasil. lorena@ufc.br

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi validar o conteúdo e a aparência de um álbum seriado para a promoção da segurança alimentar por meio da utilização dos alimentos regionais. Trata-se de pesquisa metodológica, realizada com doze juízes no período de abril a junho de 2010, analisando figuras e fichas-roteiros do álbum seriado quanto à validade de aparência (clareza/compreensão) e de conteúdo (relevância). Em relação à validação de aparência das figuras, a clareza e a compreensibilidade variaram entre 83,3% e 100%; e, em relação às fichas-roteiros, 91,6% dos juízes julgaram ser compreensivas. O Índice de Validade de Conteúdo global das figuras foi 0,95 e o das fichas-roteiros foi de 0,98. Dessa maneira, o álbum seriado pode ser considerado uma nova ferramenta educativa e está validado para ser utilizado pelo profissional de enfermagem durante a consulta de puericultura para promoção da saúde infantil.

Descritores: Hábitos alimentares. Segurança alimentar e nutricional. Materiais de ensino. Cuidados de enfermagem. Estudos de validação.


RESUMEN

El objetivo de este estudio fue validar el contenido y la apariencia de un rotafolio para la promoción de la seguridad alimentaria mediante la utilización de alimentos regionales. Investigación metodológica, con doce evaluadores, realizada entre abril y junio de 2010, analizando figuras y fichas-guión del álbum seriado respecto a la validad de apariencia (claridad/comprensión) y de contenido (relevancia). En lo referente a la validación de apariencia de las figuras, la claridad y comprensibilidad varió entre 83,3% a 100%; y en relación a las fichas-guión, 91,6% de los evaluadores las calificaron como comprensibles. El Índice de Contenido Global de las figuras fue 0,95 y el de las fichas-guión de 0,98. De tal manera, el álbum seriado puede considerarse una nueva herramienta educativa, que está validada para ser utilizada por el profesional de enfermería durante la consulta de puericultura para la promoción de salud infantil.

Descriptores: Hábitos alimentícios. Seguridad alimentaria. Materiales de enseñanza. Atención de enfermeira. Estudios de validación.


 

 

INTRODUÇÃO

A segurança alimentar é definida como sendo a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis(1).

Frequentemente encontramos nas comunidades rurais vários tipos de alimentos, não apenas frutas; mas hortaliças, tubérculos, leguminosas, dentre outras, que podem ser implementadas na alimentação familiar, pois possuem como características primordiais o fácil acesso, o baixo custo e o alto valor nutritivo(2). Porém, tem-se percebido que a maioria dos alimentos comumente consumidos no passado (frutas, verduras, hortaliças dentre outros) está sendo substituída por produtos industrializados (doces e gordurosos), devido ao fácil acesso e mudanças nos hábitos alimentares podendo ter, como incentivador, a mídia.

A qualidade dos alimentos oferecidos ao pré-escolar tem repercussões ao longo de sua vida e é fundamental para a prevenção da anemia, sobrepeso ou baixo peso. Assim, orientar as famílias para uma ótima alimentação, a partir dos primeiros anos de vida da criança, respeitando-se as identidades culturais e alimentares das diversas regiões do país, torna-se essencial para garantir segurança alimentar e nutricional das populações(3).

Os enfermeiros da atenção básica, por atuarem dentro dos princípios de prevenção e promoção da saúde junto à comunidade, podem utilizar de tecnologias de ensino no processo de educação em saúde para sensibilizar e ajudar as famílias na adoção de comportamentos saudáveis em busca de qualidade de vida(3).

Sendo assim, elaborou-se um álbum seriado, intitulado de Alimentos regionais promovendo a segurança alimentar, com o intuito de contribuir para a promoção da reconstrução do saber das famílias de crianças pré-escolares (três a seis anos) da zona rural sobre alternativas alimentares.

A construção do álbum seriado decorreu da escassez, na literatura, de material educativo sobre a utilização de alimentos regionais, e pelo fato de ser considedo uma tecnologia de ensino que irá auxiliar o enfermeiro, enquanto no seu papel de educador, nas ações de educação em saúde junto às famílias de zona rural quanto à utilização correta destes alimentos no seu cotidiano.

Por ser composto basicamente de ilustrações e textos, o álbum seriado é um interessante recurso visual utilizado para auxiliar aulas, palestras, demonstrações, entre outros. As ilustrações devem ser simples, atraentes e reproduzir a realidade, podendo ser fotografias, figuras ou qualquer material relacionado a um tema. Já os textos devem empregar letras grandes nos títulos e conter palavras e orações simples, acessíveis ao público-alvo, e somente pontos-chaves do assunto a ser tratado. Para usá-lo da melhor maneira possível, recomenda-se não se ater somente ao que está representado, mas ir além, para fixar os pontos importantes(4).

O álbum seriado tem como finalidade nortear o diálogo do grupo a fim de favorecer a práxis ação-reflexão-ação, subsidiando intermediações de saberes e práticas incutidas nas vivências e experiências dos sujeitos, levando-os à construção de uma consciência crítica. Paulo Freire(5), em seu modelo de educação, enfatiza que as ilustrações/figuras devem ser codificadas de situações locais e, com a colaboração do facilitador, possibilitar a decodificação dos elementos pelo grupo, proporcionando análise de problemas que possam levar ao debate e à conscientização sobre a temática abordada.

Para tanto, neste estudo, optou-se por utilizar o método de educação para a prática da liberdade, proposto por Paulo Freire(5), quanto à elaboração do álbum seriado, no que diz respeito a sua estrutura, seguindo quatro das cinco fases do processo de alfabetização. A primeira fase trata do levantamento do universo vocabular que foi realizada em pesquisas anteriores. Na segunda fase é feita a escolha das palavras selecionadas do universo vocabular extraídas de percepções, crenças, sentimentos, dificuldades, dentre outros. A terceira fase compõe-se da criação de situações existenciais a partir de fotografias da realidade local com a junção de todas as representações gráficas, baseadas nas situações problemas emergidas, típicas do grupo da zona rural com os quais se trabalhou, favorecendo o processo educativo. Na quarta fase dá-se a elaboração de fichas-roteiros, que auxiliam o coordenador no debate com o público-alvo, sendo apenas norteadoras de discussão. A leitura de fichas com a decomposição das famílias fonêmicas correspondente aos vocábulos geradores, quinta fase do processo de Freire, não foi utilizado por não se adequar à proposta do álbum seriado.

No álbum seriado, conforme Quadro 1, evidenciam-se sete figuras, além das cinco fichas-roteiros existentes.

Apesar de ser bastante conhecida a eficácia da utilização de tecnologias de ensino em processos de educação em saúde, após a construção do álbum seriado, e antes de ser utilizado pelos profissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF), julgou-se necessário que se fizesse o processo de validação de aparência e de conteúdo de suas figuras e fichas-roteiros. Tal processo de testagem é conceituado como sendo uma validação de construto, que vai evidenciar cientificamente o grau de apropriação que o instrumento possui em relação ao propósito para o qual ele foi criado(6).

A realização desta pesquisa foi relevante, pois oportunizou o processo de validação do álbum seriado Alimentos regionais promovendo a segurança alimentar, possibilitando à Enfermagem uma nova tecnologia de ensino, onde o profissional poderá desenvolver estratégias de educação em saúde junto às famílias de crianças pré-escolares da zona rural, favorecendo uma melhor compreensão quanto à utilização de alimentos regionais, devido a facilidade de oferta e por serem economicamente mais acessíveis.

Além disso, o enfermeiro poderá utilizar desta ferramenta durante a consulta de enfermagem à criança na Estratégia Saúde da Família (ESF), pautada na perspectiva de que uma dieta com alimentos regionais poderá influenciar no aspecto nutricional de muitas crianças, proporcionando uma redução das carências nutricionais e a melhoria da segurança alimentar e nutricional de todos os integrantes da unidade familiar.

Sendo assim, o estudo teve como objetivo validar o conteúdo e a aparência do álbum seriado - Alimentos regionais promovendo a segurança alimentar, junto aos profissionais de saúde.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa metodológica, por enfocar a avaliação e aperfeiçoamento de um instrumento ou de uma estratégia que possa aprimorar uma metodologia, através da obtenção, organização e análise de dados, tratando a elaboração, validação e avaliação de instrumentos, técnicas de pesquisa ou recursos educativos(6). Dessa maneira, o estudo avalia, aperfeiçoa e valida um álbum seriado sobre a utilização dos alimentos regionais em prol da segurança alimentar, como uma tecnologia de ensino, para ser usada junto às famílias de crianças pré-escolar, da zona rural durante a consulta de puericultura realizada pela enfermagem no Programa de Saúde da Família.

Os referenciais teóricos que permearam a elaboração e construção do álbum intitulado Alimentos regionais promovendo a segurança alimentar, foram: o livro Educação como Prática da Liberdade, de Paulo Freire(4); o manual — Alimentos Regionais Brasileiros, elaborado pelo Ministério da Saúde(7); o relatório da FAO — The State of Food Insecurity in the World(8); bem como relatos de um estudo anterior decorrido na mesma comunidade, porém com populações diferentes, sobre alimentos regionais, desenvolvido por meio de uma entrevista sobre hábitos alimentares(9).

Para complementar, utilizou-se ainda um banco de fotografias da realidade local e visitas constantes à comunidade, a fim de retratar de forma fiel, no álbum seriado, o contexto no qual os participantes estavam inseridos. Assim, munido desse material, julgou-se necessário contratar um técnico especializado em elaboração de desenhos — designer, que utilizou como programa principal o Corel Draw, para edição das figuras.  Esse técnico nos forneceu apoio na elaboração das figuras, sendo necessários inúmeros encontros, a fim de deixar as figuras condizentes com a realidade em estudo, emergindo assim o álbum, estruturado da seguinte forma: cada folha contém uma figura, onde esta fica exposta para o grupo e a ficha-roteiro, no verso - voltada para o profissional.

Após construção do álbum seriado, fez-se necessário validá-lo, por meio da apreciação de um comitê composto por experts (juízes) com saberes diferenciados em níveis e contextos distintos, com a finalidade de comparar os objetivos do álbum/manual/instrumento com o seu conteúdo, bem como analisar sua abrangência e representatividade, e, com o resultado, se os mesmos poderiam ser mantidos, revisados ou eliminados(10).

Para a escolha do número de juízes, seguiu-se um estudo(11) onde sugere que os números devem variar de seis a vinte sujeitos, sendo composto por um mínimo de três indivíduos em cada grupo de profissionais selecionados.

No presente estudo, o painel de experts (juízes) que aceitaram participar da pesquisa foi divido em dois grupos distintos: Grupo 1: formado por 12 enfermeiros com experiência na atenção básica que atuam na Estratégia Saúde da Família no Município da zona rural do Ceará-Brasil, tendo como critério de inclusão ser graduado em Enfermagem e ter pelo menos um ano de experiência na área de Saúde da Família. Para este grupo pretendeu-se obter o maior número possível de participantes, por representarem aqueles que se utilizarão do instrumento(12); e Grupo 2: composto por 05 docentes de universidades da zona urbana de Fortaleza-Ceará-Brasil, experts na área de Educação em Saúde e Saúde da Criança, tendo que possuir conhecimento metodológico sobre construção de questionários ou escalas, entre mestres e doutores.

No entanto, para os dois grupos, a escolha dos participantes deu-se por amostragem não probabilística e intencional(12), quando os pesquisadores estão interessados na apreciação de um grupo determinado, no caso, docentes, ao invés de sua representatividade numérica. 

A coleta de dados foi realizada nos meses de abril a junho de 2010, seguindo estudo de validação, onde orienta a entrega dos seguintes documentos pelos especialistas(13): 1. Carta-convite; 2. Conceito de segurança alimentar e sua importância para o crescimento e desenvolvimento infantil de crianças pré-escolares de zona rural, bem como a importância da validação do álbum seriado para posterior divulgação e utilização junto à comunidade;  3. Check-list para validação de figuras e conteúdo acrescido de orientações para seu preenchimento referente à validação do instrumento; 4. Questionário para caracterização desses especialistas; 5. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Para compor o instrumento de validação do construto foram considerados três aspectos de interesse (clareza e compreensão, associação e relevância) e uma questão aberta para sugestão dos juízes, tendo sido avaliadas sete figuras (F - F1, F2, F3, F4, F5, F6 e F7) e cinco fichas roteiros (R -R1, R2, R3, R4 e R5).

A validação de aparência(14) ou de face consistiu no julgamento dos juízes quanto à clareza e compreensão das figuras, bem como, a compreensão do texto das fichas roteiros,  mediante as seguintes opções de respostas: confuso, pouco claro e claro. No que diz respeito à validade de conteúdo(6), tanto das figuras como das fichas roteiro, julgou-se o grau de relevância com opções de resposta: irrelevante, pouco relevante, realmente relevante e muito relevante. E ainda analisou-se a validação do conjunto das figuras e fichas roteiros avaliados em relação aos critérios de associação ao tema proposto e viabilidade de aplicação no exercício profissional (com opção de respostas sim/não). Por fim, acrescentou-se um espaço destinado às observações e sugestões de modificações pelos juízes, caso as figuras e fichas-roteiros não atendessem ao propósito para o qual foram construídas.

Para facilitar a análise redefiniram-se as opções da validade de aparência (clareza e compreensão) em: confuso, com escore equivalente a -1; pouco claro, escore equivalendo a 0; claro, com escore igual a +1. A resposta de cada juiz pode variar de -1 a +1, sendo quanto mais próximo de +1, maior o índice de concordância entre eles, o que representou pertinência e/ou aceitação do item avaliado. Para os itens com médias de escores inferiores a +1, o item foi adaptado e o conteúdo acatado, não havendo necessidade de reavaliação pelos juízes.

Para analisar a validade do álbum seriado, ilustrações e fichas-roteiros, foi utilizado o Índice de Validade de Conteúdo (IVC)/Content Validity Index (CVI)(6), mediante três equações matemáticas: a equação I-CVI — verifica a média dos valores dos itens calculados separadamente, isto é soma-se todos os IVC calculados separadamente e divide-se pelo número de itens considerados na avaliação;  a equação S-CVI/UA — que mede a proporção de itens de uma escala que atinge escores 3 (realmente relevante) e escore 4 (muito relevante) dividida pela quantidade de juizes; e, por fim, a equação S-CVI/Ave - que é a média dos índices de validação de conteúdo para todos os índices da escala, conhecido como IVC global.

Ressalta-se que um índice de concordância entre os juízes maior que 0,80 é o desejável(15) e que o IVC igual a 1 (numa variação entre -1 e +1) indica concordância plena entre os juízes e serve de critério de decisão de pertinência e/ou aceitação do item avaliado. No entanto, a concordância plena não quer dizer que todos os juízes responderam da mesma forma, mas significa uma relativa harmonia na escolha dos escores entre os especialistas.

Para tabulação e cálculo das médias do IVC utilizou-se programa estatístico SPSS versão 17.0, no qual a apresentação dos resultados se deu por meio de estatística descritiva, sob a forma de figuras/gráficos com números percentuais.

Esta pesquisa foi submetida à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará, para se analisar os aspectos éticos da mesma, pois envolvia seres humanos, de acordo com o preconizado pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(16), sendo, ao final, aprovada, através do Parecer nº 63/09.

 

RESULTADOS

Do total de 17 juízes que aceitaram participar da pesquisa, 12 devolveram o material respondido, sendo nove enfermeiras da ESF da zona rural e três docentes doutores universitários que participaram de todas as etapas da pesquisa. Todos os juízes eram do sexo feminino; a média de idade foi de 37 anos; tempo de formação de oito anos; e o tempo médio de atuação na ESF foi de quatro anos e de docência de seis anos. 

Após a devolução dos questionários devidamente preenchidos e realização da caracterização dos juízes, as respostas foram analisadas de forma quantitativa, seguindo os três aspectos estabelecidos previamente, existindo ainda a possibilidade dos juízes emitirem correções e anotações sobre o álbum.

Em relação à validação de aparência quanto à clareza das figuras (F), o percentual variou entre 83,3% a 100%. Em relação às fichas-roteiros (R), a maioria dos juízes, no total de 11, julgou ser compreensiva 100% (Figura 1). Ressalta-se que as F1 (capa) e F7 (encerramento) não possuem fichas-roteiros.

 

 

Em relação à validade de conteúdo, tanto das figuras como das fichas-roteiros, questionando-se sobre a relevância (sim ou não) e grau de relevância, os itens irrelevante e pouco relevante tiveram valor zero e os itens realmente relevante e muito relevante tiveram valor um, sendo explanados na figura 02 somente os itens que foram atribuídos o valor 1, tanto para as figuras como para as fichas roteiros.

 

 

Dentro desse contexto de realmente relevante ou muito relevante, a maioria das fichas (R3, R4, R5 e R6) obteve um percentual de 100%, bem como das figuras (F3, F4, F6 e F7). As figuras (F2 e F5) tiveram 91,7% e a (F1) 83,3% (Figura 2).

Para tanto, diante desse alto percentual de relevância, pode-se identificar que o IVC global das figuras foi 0,95 e o das fichas-roteiros foi de 0,98. O IVC maior que 0,80 é o desejável, caracterizado pelo alto índice de concordância entre os juízes, sendo, portanto, validado o presente álbum seriado(15).

Quanto à percepção geral dos juízes sobre o álbum seriado (Figura 3), pode-se verificar que foi julgado ótimo na opinião geral (66,7%), sendo que todos (100%) destacaram a facilidade e interesse em utilizar o álbum e ressaltaram o álbum como relevante para o exercício profissional.

 

 

 

DISCUSSÃO

A F1 refere-se à capa do álbum, representando uma mãe e seu filho com frutas e legumes, dispostos na mesa, caracterizando os alimentos regionais, no qual 11 juízes (83,3%) julgaram como sendo clara a figura, sendo que os dois juízes que não julgaram a F1 clara não sugeriram mudanças.

As F2 e R2 obtiveram o mesmo percentual de clareza e compreensão (91,7%), respectivamente. A F2 evidencia duas mulheres que foram às compras, levando uma mesma quantia de R$ 5,00 (cinco reais), iniciando a história que se pretende contar com auxílio do álbum. Para guiar os profissionais têm-se as fichas roteiros, sendo a R2 - Segurança alimentar e nutricional, a primeira ficha do álbum, que aborda de uma forma geral conceitos sobre a temática, dentre outros aspectos. O único juiz que não julgou como sendo clara e compreensiva, não mencionou possíveis mudanças.

A escolha do tema da primeira ficha (R2) ocorreu devido o mesmo ser discutido, atualmente, em diversos países, como Brasil, Venezuela, Estados Unidos, dentre outros. A Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), em 2009, lançou um manual, The Stat of Food Insecurity in the World, no qual descreve a segurança alimentar como o estado em que todas as pessoas, em todos os momentos, devem ter acesso físico, social e econômico a uma alimentação suficiente, segura e nutritiva que atenda às necessidades dietéticas e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável(8).

Para tanto, após dez anos da elaboração da Politica Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), torna-se fundamental a ampliação e aprimoramento das estratégias voltadas para o contexto da alimentação e nutrição com enfoque no Sistema Único de Saúde, tendo como finalidade o desafio de promover a Segurança Alimentar e Nutricional da população brasileira(17).

Em continuidade, na F3, que surge após a mãe ir às compras (F2), observaram-se duas situações comuns no cotidiano de muitas famílias: primeiro, a mãe que comprou alimentos como frutas, verduras, legumes, feijão, dentre outros; na outra situação, alimentos com baixo teor energético e nutritivo, como os refrigerantes, as bolachas, dentre outros. Esta figura apresentou o percentual de 83,3% de compreensão pelos juízes, ao passo que a ficha roteiro (R3), correspondente a F3, teve 100%, pois aborda aspectos para que o profissional possa instigar as participantes a possibilidade de uma alimentação saudável com uma quantia reduzida de dinheiro, R$5,00, podendo enfatizar que uma alimentação nutritiva não é sinônimo de alimentação de alto custo. 

Essa temática, exposta nas F3 e R3, deve ser clara e compreensiva, na medida que alimentos industrializados estão cada vez mais sendo consumidos, podendo estar relacionado à propaganda veiculada nos meios de comunicação, que modifica e influencia as ideias e opiniões do consumidor(18). Ainda pode-se verificar que figura e ficha-roteiro 3 obtiveram 100% de relevância por todos os juízes, ou seja, é oportuno que se incentive a utilização dos alimentos regionais sendo estes mais saudáveis e de baixo custo. Tal fato pode ser corroborado com um estudo realizado no Município de Maranguape, local onde foi desenvolvida a presente pesquisa, onde se detectou que a alimentação das crianças em alimentação complementar é caracterizada por baixo teor energético e nutritivo, bem como de alto custo, com a predominante utilização de alimentos industrializados (iogurte Danone, Miojo®, refrigerantes), em detrimento dos alimentos regionais, que eram utilizados somente para fazer sucos(19) .

As F4 e R4 (Hábitos de higiene), bem como as F5 e R5 (Alimentos regionais: o caju e a banana na alimentação diária), obtiveram um percentual de 91,7% de clareza e compreensão, isto é, somente um juiz não julgou estar claro e compreensivo. Para tanto, abordar hábitos de higiene, tanto para a pessoa, como para com os alimentos é fundamental, pois diversas patologias podem ser adquiridas por práticas inadequadas de higiene, comprometendo a segurança alimentar(20) e por saber que a forma como o indivíduo cuida dos alimentos é resultado da sua história, do que aprendeu com seus pais, familiares e amigos, na escola, no cotidiano do trabalho(21).

A F5, com sua respectiva ficha roteiro - R5, inicia o processo de esclarecimento sobre as diversas possibilidades de utilização dos alimentos regionais diariamente, ressaltando que se pode fazer a carne de hambúrguer de caju e farofa com banana. 

Por fim, as F6 e R6 (Alimentos regionais: jerimum/abóbora e siriguela na alimentação diária) e F7 (Segurança alimentar diária utilizando os alimentos regionais) obtiveram o percentual máximo de clareza e compreensão (100%). A F6, juntamente com a R6, explana que se pode preparar purê de jerimum bem como o suco da folha da siriguela, sendo este rica fonte de vitamina C(22), ressaltando ainda que pode ser encontrada em qualquer época do ano.

Assim, diante dessa diversidade, o Ministério da Saúde publicou um manual, Alimentos Regionais Brasileiros, onde enfatiza a necessidade de divulgação da imensa variedade de frutas, hortaliças, tubérculos e leguminosas brasileiras, onde poderá auxiliar na orientação das comunidades no sentido de uma alimentação acessível que utilize recursos locais, podendo contribuir com a segurança alimentar e nutricional das comunidades(7).

Corroborando com o presente álbum seriado, que evidenciou novas opções alimentares, alguns autores(23) ressaltam que (...) a culinária deve ser um espaço criativo para intervenções na alimentação, onde se deve  preservar o passado e inovar, quando se adapta uma receita com novos ingredientes e procedimentos; é uma expressão criativa por suas infinitas possibilidades de combinação e manuseio, por estar alocada na organização social, como uma prática social legítima, pode ser considerada como um espaço criativo do cotidiano.

A última Figura, F7, representa um contexto familiar utilizando uma variedade de alimentos regionais explanados no álbum seriado. A utilização desses alimentos é essencial, pois a PNAN(1) enfatiza a importância de

(...) resgatar hábitos e práticas alimentares regionais relacionadas ao consumo de alimentos locais de baixo custo e elevado valor nutritivo, bem como de padrões alimentares mais variados, desde os primeiros anos de vida até a idade adulta e a velhice.

Para tanto, todas as fichas-roteiros, bem como as figuras, obtiveram um percentual acima de 80%, tanto de clareza (Figuras) e compreensibilidade (Fichas-roteiros), quanto de relevância (realmente relevante e muito relevante), tornando-se evidente a importância da presença dessas fichas e figuras no álbum seriado.

Ainda julgou-se pertinente avaliar a facilidade e aplicabilidade do presente álbum no contexto da puericultura e importância para exercício profissional, obtendo os dois últimos itens 100% de aceitação e viabilidade. O IVC global das figuras foi 0,95 e o da ficha roteiro 0,98, atendendo aos critérios do autor.

Percebe-se, então, que a Enfermagem tem um papel relevante enquanto educadora em saúde para promoção do empoderamento das famílias da zona rural, pois desde 1986, com base, na Carta de Ottawa(24), enfatiza-se que, para se promover saúde, precisa-se capacitar a comunidade por meio de disseminação do conhecimento, no qual essa capacitação pode e deve ser realizada pelo profissional de saúde, sendo este co-responsável nesse processo de melhoria da qualidade de vida, favorecendo assim uma atitude e prática adequada.

 

CONCLUSÃO

O objetivo proposto, validar o álbum seriado Alimentos regionais promovendo a segurança alimentar, foi alcançado, na medida que todas as figuras e suas respectivas fichas-roteiros foram julgadas como relevante.

Os juízes julgaram que todas devem permanecer no álbum seriado, pois a história explanada, no presente álbum, é de fundamental importância para disseminação da utilização dos alimentos regionais, promovendo a segurança alimentar, bem como por retratar, de forma lúdica, o contexto local vivenciado pelo público alvo, que será de mães de pré-escolares que residem na zona rural.

Ressalta-se que os enfermeiros, munidos com tecnologias emancipatórias, como este álbum seriado, que expõe de maneira lúdica uma realidade que é descrita por meio de estória fictícia de uma família que utiliza os alimentos regionais, podem atuar de forma eficaz durante as consultas de puericultura objetivando uma mudança de comportamento alimentar e, consequentemente, atingir níveis ideais de crescimento e desenvolvimento infantil, por meio da segurança alimentar e nutricional. 

O álbum seriado, exposto no presente estudo, é o primeiro a abordar a utilização dos alimentos regionais com enfoque na segurança alimentar. Dessa maneira, tendo sido comprovada sua validade de conteúdo e aparência, como sendo uma nova ferramenta educativa, está apto a ser utilizado pelo profissional enfermeiro durante a consulta de puericultura.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Mariana Cavalcante Martins
Rua Capitão Américo Menezes, 387
CEP 60710-130 - Fortaleza, CE, Brasil

Recebido: 17/05/2011
Aprovado: 18/04/2012

 

 

* Extraído da tese "Intervenção educativa para utilização de alimentos regionais por famílias de pré-escolares", Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará, 2010.

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