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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versão impressa ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.48 no.2 São Paulo abr. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-6234201400002000020 

Artigos de Revisão

Revisão integrativa: conceitos e métodos utilizados na enfermagem

Cassia Baldini Soares1 

Luiza Akiko Komura Hoga2 

Marina Peduzzi3 

Carine Sangaleti4 

Tatiana Yonekura5 

Deborah Rachel Audebert Delage Silva6 


RESUMO

A revisão integrativa (RI) apresenta reputação internacional na pesquisa em enfermagem e na prática baseada em evidências. Esta RI objetivou identificar e analisar conceitos e métodos indicados para desenvolver uma RI na enfermagem. Nove recursos informacionais bibliográficos, incluindo fontes de literatura cinzenta, foram consultados. Dezessete estudos foram incluídos. Os resultados indicam que os estudos foram desenvolvidos majoritariamente nos EUA; é possível ter várias questões de pesquisa ou hipóteses e incluir investigações desenvolvidas através de diferentes referenciais teóricos e metodológicos; trata-se de um tipo de revisão que permite realizar análises que extrapolam a síntese dos resultados dos estudos primários, abrangendo outras dimensões da pesquisa e que apresenta potencialidade para o desenvolvimento de novas teorias e problemas de pesquisa. Em conclusão, a RI é compreendida como um tipo de revisão de natureza complexa, que demanda métodos normatizados e sistemáticos para garantir o necessário rigor requerido na pesquisa científica e a legitimidade das evidências estabelecidas.


Palavras-Chave: Revisão; Medidas, métodos e teorias
; Cuidados de enfermagem 
; Prática clínica baseada em evidências
; Pesquisa em enfermagem


ABSTRACT


Integrative review (IR) has an international reputation in nursing research and evidence-based practice. This IR aimed at identifying and analyzing the concepts and methods recommended to undertaking IR in nursing. Nine information resources,including electronic databases and grey literature were searched. Seventeen studies were included. The results indicate that: primary studies were mostly from USA; it is possible to have several research questions or hypotheses and include primary studies in the review from different theoretical and methodological approaches; it is a type of review that can go beyond the analysis and synthesis of findings from primary studies allowing exploiting other research dimensions, and that presents potentialities for the development of new theories and new problems for research. Conclusion: IR is understood as a very complex type of review and it is expected to be developed using standardized and systematic methods to ensure the required rigor of scientific research and therefore the legitimacy of the established evidence.


Key words: Review; Measurements, methods and theories; Nursing care; Evidence-based practice; Nursing research

RESUMEN

Resumen


La Revisión Integradora (RI) tiene una reputación internacional en la investigación en enfermería y en la práctica basada en la evidencia. Esta RI tuvo como objetivo identificar y analizar los conceptos y los métodos indicados para la realización de una RI en enfermería. Fueron consultados nueve recursos de información y fuentes de literatura gris. Se incluyeron diecisiete estudios de RI. Los resultados indican que: la mayoría de los estudios primarios fueron realizados en EE.UU.; es posible tener varias preguntas de investigación o hipótesis e incluir estudios primarios de diferentes perspectivas teóricas y metodologías; es un tipo de análisis que puede ir más allá de la síntesis de las conclusiones de los estudios primarios, permitiendo abarcar otras dimensiones de la investigación y finalmente presenta potencial para el desarrollo de nuevas teorías y problemas de investigación. En conclusión, la RI es comprendida como un tipo de revisión de naturaleza compleja que demanda métodos normalizados y sistemáticos para garantizar el rigor requerido en la investigación científica y por lo tanto la legitimidad de las evidencias establecidas.

Palabras-clave: Revisión
; Mediciones, métodos y teorías
; Atención de enfermería
; Práctica clínica basada en la videncia
; Investigación en enfermería


Introdução

Dentre as pesquisas que sintetizam achados sobre um determinado fenômeno investigado em estudos primários, vários termos vêm sendo empregados: revisão integrativa (RI), revisão tradicional, revisão narrativa, revisão sistemática, meta-análise, metassíntese, metassumarização, entre outros. Nesse sentido, 14 denominações reunidas em um trabalho remetem a diferentes conceitos e estratégias de revisão da literatura(1). Esta se refere de forma genérica a busca, seleção e análise de publicações sobre um tópico.


A RI apresentou notável penetração na área da enfermagem na última década. Essa condição parece estar associada à tendência de compreender o cuidado em saúde, nos âmbitos individual ou coletivo, como um trabalho complexo que requer colaboração e integração de conhecimentos de diversas disciplinas(2). Essa tendência também é observada na área de cuidado à saúde baseado em evidência ou prática baseada em evidência, que vem reconhecendo que a combinação de métodos de pesquisa, ainda que sob diferentes matrizes epistemológicas, pode fornecer resultados que beneficiem o cuidado de enfermagem(3-4).


Para responder às necessidades de cuidado, individual ou coletivo, a produção de conhecimentos em enfermagem precisa ser ampla e plural. Diferentes paradigmas que orientam a pesquisa em enfermagem são capazes de produzir conhecimentos sobre diferentes ângulos do cuidado de enfermagem. Integrar esta diversidade de conhecimentos requer o emprego de métodos rigorosos(5).


Acompanhando essa tendência, discute-se também que revisões da literatura teriam potência para sintetizar achados provenientes de pesquisa que utiliza métodos combinados no mesmo estudo ou para sintetizar achados de diferentes pesquisas sobre uma mesma temática, que utilizam métodos quantitativos ou qualitativos separadamente. No entanto, parece não haver consenso sobre como fazer a integração dos resultados e como responder ao desafio teórico-metodológico de integrar resultados de estudos estruturados de maneiras diversas e fundamentados em diferentes paradigmas(1).


Revisão da literatura sobre a temática realizada em 2010 nas bases de dados MEDLINE e LILACS identificou cinco artigos científicos que apresentaram conceituação de RI e que definiram as fases para desenvolvê-la. Os autores concluíram que a RI é uma estratégia que possibilita sintetizar achados provenientes de estudos primários desenvolvidos mediante desenhos de pesquisa diversos e requer análise de dados realizada de forma rigorosa(6).


A RI configura-se, portanto, como um tipo de revisão da literatura que reúne achados de estudos desenvolvidos mediante diferentes metodologias, permitindo aos revisores sintetizar resultados sem ferir a filiação epistemológica dos estudos empíricos incluídos. Para que esse processo concretize-se de maneira lógica, isenta de desatinos epistemológicos, a RI requer que os revisores procedam à análise e à síntese dos dados primários de forma sistemática e rigorosa.


Considerando tais pressupostos, esta pesquisa foi realizada com a finalidade de obter respostas ao seguinte questionamento: como a literatura científica de enfermagem conceitua RI e quais são os métodos recomendados para o seu desenvolvimento? Assim, o objetivo desta investigação foi identificar e analisar os conceitos atribuídos à RI e os métodos recomendados para seu desenvolvimento na área de enfermagem.


Método

Trata-se de estudo de RI desenvolvido conforme a proposição de duas autoras americanas(7), cujo texto foi incluído entre os estudos primários desta revisão. Restringiu-se a estudos sobre teorias e metodologias de RI (conceito, critérios de rigor, etapas e instrumentos) utilizadas no âmbito da enfermagem. Foram incluídos estudos teórico-metodológicos, quantitativos ou qualitativos, que analisavam ou propunham uma teoria e/ou uma metodologia de RI. Foram excluídos os estudos primários que utilizavam RI como metodologia para revisar um objeto de pesquisa. Não foram estabelecidos limites quanto à data de publicação ou ao idioma dos estudos primários. 


Na estratégia de busca, utilizaram-se nove recursos informacionais, sendo cinco bases de dados eletrônicas (BDEnf, CINAHL, LILACS, SCOPUS e WEB OF SCIENCES), o portal PubMed, que engloba o MEDLINE, duas bibliotecas digitais (Banco de Teses da CAPES e SciELO) e um buscador acadêmico (Google Acadêmico). Assim, além das bases de dados de publicações científicas indexadas, explorou-se a literatura cinzenta, que veicula literatura não publicada como resumos de congresso e documentos técnicos. Buscou-se complementar o levantamento com busca manual nas citações dos estudos primários identificados. Utilizou-se a expressão Integrative Review em suas versões em inglês ou português para verificar o título, o resumo ou o assunto, a depender da base de dados. A busca foi realizada em março de 2013.

Após a identificação, realizou-se a seleção dos estudos primários, de acordo com a questão norteadora e os critérios de inclusão previamente definidos. Todos os estudos identificados por meio da estratégia de busca foram inicialmente avaliados por meio da análise dos títulos e resumos. Nos casos em que os títulos e os resumos não se mostraram suficientes para definir a seleção inicial, procedeu-se à leitura da íntegra da publicação.


O instrumento, elaborado com a finalidade de extrair e analisar os dados dos estudos incluídos, era composto dos seguintes itens: (1) O texto diferencia RI de outros tipos de revisão? Se sim, como diferencia? (2) Qual o conceito utilizado? Definição (discriminar os elementos); (3) Critérios de rigor no desenvolvimento da RI (estruturação metodológica); (4) Etapas para desenvolver RI e (5) Indicação de critérios para o check-list da RI. As etapas de extração e análise dos resultados dos estudos primários foram realizadas por dois grupos de revisores, que desenvolveram este trabalho de forma independente.


Resultados

Foram identificadas 3.994 referências, sendo 3.978 nas bases de dados, portal e bibliotecas digitais e 16 por meio da exploração da literatura cinzenta e da busca manual. A seleção por título e resumo resultou em 47 referências, das quais foram removidas 22 publicações que estavam duplicadas. Após a avaliação de 25 referências na íntegra, foram excluídas oito. Assim, no total foram incluídas 17 referências nesta RI. No Quadro 1 são apresentadas as bases consultadas e respectivas estratégias de busca, o total de referências recuperadas e a quantidade selecionada após analisar o título e o resumo de cada referência.


No Quadro 2 são apresentadas as referências excluídas e respectivos motivos de exclusão.


Quadro 1 Recursos informacionais consultados (excluído o buscador), estratégias de busca, referências recuperadas e selecionadas - São Paulo, 2013 

Quadro 2 Referências excluídas e motivos da exclusão - São Paulo, 2013 

Dessa forma, foram incluídas 17 publicações nesta revisão. No Quadro 3 são apresentados dados sobre o(s) autor(es), o ano de publicação, o país de origem do primeiro autor, a área de conhecimento dos autores e a base da qual a publicação foi recuperada. 


Em relação à análise das datas de publicação, notou-se que os estudos foram publicados a partir da década de 1980, sendo sete (41,2%) a partir de 2000. O país predominante de origem do autor principal foi os EUA, com 12 referências (70,5%), e a área do conhecimento predominante do primeiro autor foi a enfermagem (64,7%).


Síntese dos dados: conceitos de RI


Nos estudos analisados, nota-se expressiva similaridade conceitual de RI, especialmente no que se refere aos conceitos que foram inicialmente tomados por base pela Enfermagem. Porém, à medida que a Enfermagem assumiu a RI como estratégia útil para responder às necessidades de pesquisa na área, observou-se a ocorrência de refinamento nos conceitos, principalmente para aumentar a abrangência da revisão e explicitar a complexidade de suas finalidades. No Quadro 4 estão sintetizados os conceitos e as finalidades da RI, segundo os autores e os referenciais teóricos por eles adotados.


Quadro 3 Autores, ano de publicação, país de origem do primeiro autor, área de conhecimento dos autores e base de onde a publicação foi recuperada - São Paulo, 2013 

Quadro 4 Autores, ano de publicação, país de origem do primeiro autor, área de conhecimento dos autores e base de onde a publicação foi recuperada - São Paulo, 2013 

Os conceitos de meta-análise, revisão sistemática e revisões qualitativas foram diferenciados de RI. A meta-análise foi definida como um método de revisão que combina evidências de múltiplos estudos primários mediante emprego de métodos estatísticos, que garantem a objetividade e a validade dos resultados(18). A revisão sistemática, fundamentada em conceito da Colaboração Cochrane, foi definida como método de escolha para a prática baseada na evidência, como a que combina evidências de múltiplos estudos que focalizam um problema específico(18). A revisão de estudos qualitativos é apresentada como um tipo de revisão com diferentes abordagens que diferem entre si pelas formas de análise e interpretação, sendo citadas diversas abordagens para exemplificar as diferenças(26-30)(26-30). Os metassumários seriam descritivos e produziriam sínteses a partir de estudos qualitativos primários. Já a metassíntese, o metaestudo e a metaetnografia seriam as revisões que propõem analisar criticamente estudos primários qualitativos e sintetizar os achados em uma nova teoria ou em um quadro geral sobre o tópico de interesse.


Espera-se que um autor de RI seja capaz de identificar um assunto ou tópico adequado para ser revisado, justificar porque ela consiste em método apropriado para abordar o assunto de interesse, pesquisar e recuperar a literatura pertinente, analisar e criticar a literatura, e criar novos entendimentos sobre o assunto revisado, através de uma ou mais formas de síntese(19).

Três tipos de RI são descritos: metodológica (revisão crítica e análises de desenhos e metodologias de diversos estudos), teórica (revisão crítica de teorias sobre um tema particular) e empírica (revisão crítica de estudos empíricos quantitativos e/ou qualitativos sobre um tema particular e com análise de resultados e relação entre variáveis)(7).


O rigor no desenvolvimento da RI


Uma RI requer um padrão de excelência quanto ao rigor metodológico para que seu produto possa trazer contribuições significativas para a ciência e para a prática clínica. A preservação deste padrão requer o uso de métodos que garantam a análise precisa, objetiva e completa do tema revisado; o suporte teórico para analisar resultados, métodos, sujeitos e variáveis dos estudos primários; a provisão de todas as informações contidas nos estudos revisados e não apenas os principais resultados, de modo a informar o leitor sem o sobrecarregar com informações desnecessárias.


O acompanhamento dos seguintes procedimentos, que devem ser desenvolvidos de forma crítica pelo revisor, foi sugerido(11): definir a questão ou o assunto da RI de forma clara; indicar hipóteses, que devem ser complementares à questão norteadora da revisão; descrever, de forma detalhada, os critérios de seleção dos estudos a serem incluídos na revisão; definir e descrever as características dos artigos analisados, etapa considerada núcleo da RI.


Os seguintes aspectos devem ser considerados na elaboração da pergunta de uma RI: como o conceito é definido pelos autores e quais são as diferentes perspectivas teóricas que têm sido utilizadas para descrevê-lo? Estudos de que naturezas têm sido desenvolvidos focalizando o tema e como este escopo pode ser expandido? Quais são as relações que têm sido desvendadas entre o conceito estudado e os outros fenômenos relacionados? Quais abordagens metodológicas têm sido empregadas para estudar e compreender o conceito enfocado?(13) 


Outros quatro critérios são mencionados para analisar questões de pesquisa numa RI: a teoria que suporta a questão de pesquisa; a busca de revisões anteriores sobre o mesmo assunto (em caso de identificação, o pesquisador deve analisá-las e criticá-las criteriosamente); a revisão dos estudos primários, para obter a questão de pesquisa mais adequada; a intuição, a ingenuidade e os insights do pesquisador também se configuram em fonte da questão ou hipóteses de pesquisa da RI(8).


O rigor metodológico deve permear todas as etapas de uma RI. Por exemplo, em relação à questão de pesquisa, o revisor deve garantir a adequação entre as palavras ou os conceitos-chave e a metodologia empregada, para verificar se os estudos selecionados respondem a questão de pesquisa. Quanto à etapa de codificação dos dados, é necessário o envolvimento de dois avaliadores, que devem estar devidamente preparados para desenvolver trabalhos dessa natureza(13).


O rigor de uma RI deve ser garantido mediante apresentação de uma estrutura conceitual coerente sobre o fenômeno. Isto implica a necessidade de adotar uma teoria para servir de base para debater o conjunto de modelos concorrentes ou pontos de vista existentes a respeito do tema focalizado na revisão(8,19).

Descrição detalhada dos seguintes itens, essenciais para garantir o rigor de cada uma das etapas de uma RI, foi recomendada(19).


  • Identificação de palavras-chave, base de dados, ano das publicações, gerenciador de referências e uso de matriz conceitual, para delinear os conceitos-chave sobre o tópico.


  • Estratégias de análise, síntese e apresentação dos resultados, conceitos principais baseados na matriz teórica, identificação e categorização das principais ideias e temas e verificação de sua validade e autenticidade. 


  • Atitude crítica durante o conjunto do processo, para elucidar pontos fortes e deficientes da literatura, mediante exame cuidadoso das principais ideias e suas relações com o tópico estudado, a origem e a historicidade do assunto, seus principais conceitos, interação entre estes, métodos de pesquisa e aplicações do assunto estudado.


A transparência nos procedimentos de identificação, inclusão e classificação dos artigos a serem revisados representa uma garantia para o rigor de uma RI efetiva. Os procedimentos que requerem tal transparência são enumerados(23): delineamento do problema que motivou a revisão; revisão de literatura realizada mediante metodologia explícita quanto às palavras-chave, critérios de busca, base de dados, checagem manual das referências, dados selecionados e suas razões, quantidade de artigos localizados, critérios de seleção e exclusão dos artigos, procedimentos de classificação da literatura e síntese da revisão; descrição das conclusões, limitações e sugestões para pesquisas futuras.


O montante de dados identificados na revisão deve ser sintetizado mediante um critério explícito, de modo a elaborar taxonomias ou outra classificação conceitual de constructos, por meio da utilização de modelos ou de estruturas conceituais alternativas ou metateoria(23). 


A RI requer uma descrição detalhada da metodologia empregada em seu desenvolvimento e todo o processo deve ser realizado por meio de atitude reflexiva, para que o resultado produzido possa trazer contribuições significativas para a construção do conhecimento e a prática assistencial(8-20)
.

A estratégia de busca deve ser formulada, para recuperar o número máximo de estudos elegíveis, com a utilização de duas a três estratégias de busca, no mínimo(18). Buscas restritas devem ser justificadas. Pequenas inadequações metodológicas não inviabilizam a consideração dos resultados dos estudos primários, mas devem estar explicitadas claramente, bem como as justificativas para sua inclusão(8).


Cinco atributos desejáveis e seis indesejáveis no desenvolvimento de uma RI foram relatados(15):


Atributos desejáveis: (a) Existência de um grupo de revisores para rever e sintetizar os resultados; (b) Clareza e consistência na indicação da qualidade do estudo e no uso de definições para especificar o nível de evidência; (c) Existência de estrutura conceitual baseada em um modelo de utilização de pesquisa; (d) Inclusão de tabelas contendo informações claras, consistentes e críticas a respeito das informações relativas à aplicabilidade dos resultados; e (e) Representação dos estudos na forma de tabelas, de modo a possibilitar distinguir aspectos distintos dos resultados, separados, de modo coerente, para possibilitar a sua aplicação prática e a comunicação com pesquisadores reconhecidos na área sob revisão(15).


Atributos indesejáveis: (a) Conclusões prematuras com suporte frágil na evidência; (b) Ausência de um foco consistente, tanto na qualidade quanto na força da evidência dos estudos incluídos; (c) Falta de apresentação das implicações para a prática; (d) Ausência de tabelas para apresentar a síntese de dados extraídos de cada estudo; (e) Falta de coesão na organização dos resultados em torno de aspectos aplicáveis, mas distintamente separados de um conceito; e (f) Repetição de dados em mais de uma seção da revisão(15).


A falta de rigor pode gerar resultados similares, mas inválidos. Os vieses estão relacionados geralmente a inconsistências na seleção de sujeitos, no tratamento das variáveis, nos locais de estudo ou contextos e qualidade do método de pesquisa(8). O seguimento sistematizado de todas as etapas é essencial para garantir o rigor metodológico de uma RI(7,13).


Padrões de rigor metodológico devem ser seguidos e deve haver clareza na apresentação dos resultados. O respeito destes pressupostos é fundamental para que o leitor possa identificar as características dos estudos incluídos na revisão(21).


Etapas e método da RI



Existem similaridades nas etapas de desenvolvimento de uma RI propostas pelos diferentes autores. Assim como ocorre com os conceitos de RI, as primeiras propostas feitas serviram de base para as subsequentes. Autores diferentes ressaltam a importância ou apresentam detalhamento para etapas específicas da revisão, que eles desejam enfatizar.


Um modelo, composto de cinco etapas, serviu de matriz para as publicações subsequentes sobre as etapas de desenvolvimento da RI: formulação do problema; coleta de dados; avaliação dos dados; análise e interpretação dos dados; divulgação dos dados(9). No método de desenvolvimento da RI, há a ênfase na necessidade de definição e explicitação de conceitos operacionais(9). Outro autor também propõe cinco etapas: formulação do problema, busca na literatura, avaliação dos dados, análise dos dados (para categorizar os dados) e apresentação dos resultados(18).


Considerando que uma definição operacional tem potência de atribuir um significado comunicável a um conceito através da especificação de como é aplicado, pode oferecer ao revisor liberdade na busca e na análise da literatura sobre o tópico de interesse. Isto implica domínio do tema de estudo e capacidade de integrar os achados da pesquisa por meio desses conceitos operacionais.


A diversidade operacional pode afetar os resultados da revisão de duas maneiras. Em primeiro lugar, é necessário considerar que as definições operacionais escolhidas pelos revisores podem variar. Dois revisores, utilizando uma mesma definição em termos conceituais, podem empregar definições operacionais ou níveis de abstração diferentes. Cada definição pode conter operações que foram excluídas pelo outro, ou a definição elaborada por um revisor pode conter a elaborada pelo outro. Um avaliador pode também no decorrer da pesquisa se deparar com conceitos relevantes, que não tinham sido inicialmente considerados. O revisor pode definir o mesmo conceito de diferentes maneiras e este fenômeno pode ocorrer com certa frequência. Em segundo lugar, deve-se considerar a diversidade entre estudos que focalizam o mesmo conceito, o que significa que os revisores podem apresentar variações em relação ao tratamento dos dados depois que estes tenham sido explorados(9). 


Outro modelo apresenta seis etapas para análise dos artigos: seleção da questão de pesquisa e hipóteses; seleção dos estudos primários; apresentação das características dos estudos primários; análise dos estudos primários; interpretação dos resultados; e escrita ou relato da revisão(8). Um modelo com sete etapas para direcionar a RI também foi sugerido: (a) introdução, justificativa e hipótese; (b) procedimentos de amostragem; (c) medidas e operações; (d) procedimentos gerais; (e) análise dos dados e resultados; (f) interpretações, limitações e implicações; e (g) apresentação da revisão(12).


As características apropriadas para a equipe responsável por uma RI são evidenciadas(15): seus membros devem estar suficientemente interessados e ter conhecimento suficiente para desenvolver uma RI. Nesse aspecto, Whittemore(18) recomenda a inserção de enfermeiras com grau de mestre, que podem se responsabilizar pela extração e tradução dos dados para os demais membros do grupo cujo preparo seja mais limitado com relação ao tema ou à utilização da pesquisa. Esta autora salienta, ainda, a importância da composição interdisciplinar da equipe de revisores.

A avaliação dos estudos incluídos pode ser direcionada a partir de alguns questionamentos. Estes devem considerar a questão de pesquisa, a razão e a finalidade da obtenção de respostas aos questionamentos feitos; as questões já feitas a respeito do tema; a adequação metodológica; a inclusão dos sujeitos, os resultados desejados, a correspondência entre a questão da revisão e os dados coletados; e a indicação de novas revisões(22). 


Não há um padrão-ouro para análise dos dados, que, em geral, avalia a metodologia dos estudos primários(18). Os elementos essenciais do processo de análise de dados em uma RI são: observar padrões e temas, verificar sua plausibilidade, fazer comparações e contrastes, discernir padrões comuns e incomuns, desconsiderar as particulares em geral, observar relações na variabilidade de dados, identificar fatores intervenientes e construir evidência segundo uma cadeia lógica(7). Os dados de um estudo devem ser analisados dentro de um estrato que considere as diferentes características dos sujeitos, os tratamentos das variáveis, as variáveis contextuais e os efeitos das interações entre tais variáveis(8).


Em relação à apresentação dos resultados, três formas são sugeridas: como sumário, por meio da descrição dos achados expressos em categorias ou temas; como análise que, além da descrição, contenha a análise crítica de métodos, resultados e/ou aplicabilidade na prática; e como síntese que inclui a criação de novos modelos e estrutura organizacional para o problema de pesquisa(18).


A síntese de uma RI pode ser desenvolvida por meio do direcionamento para novas pesquisas, pela elaboração de uma taxonomia ou atribuição de outra classificação conceitual para os constructos, pelo desenvolvimento de modelos alternativos ou abordagens conceituais para embasar o processo de síntese e até mesmo mediante a elaboração de uma metateoria(19). No Quadro 5 estão indicadas as etapas do desenvolvimento de uma RI e os autores que recomendaram a realização de cada item.


Quadro 5 Etapas de desenvolvimento da RI e autores que recomendaram a realização dos itens - São Paulo, 2013 

Aspectos que devem ser avaliados na RI


A necessidade de avaliar a RI de forma sistematizada é ressaltada pelos diferentes autores. Alguns apenas mencionam os tópicos mais relevantes, que devem ser sujeitos à avaliação, e outros elaboram critérios específicos para proceder à avaliação de uma RI.


Uma RI deve ser avaliada por meio da demonstração ou da descrição minuciosa da coleta de dados, assim como das variáveis consideradas, que devem ser registradas em um caderno de códigos(13).


Um check-list foi elaborado especificamente para verificar se as etapas desenvolvidas na RI estão adequadas(11). Seus itens compreendem: propósito da revisão, métodos de amostragem, critérios de inclusão dos estudos, características da pesquisa primária, citação dos comentários dos autores, crítica de comentários anteriores, apresentação dos resultados de pesquisa primária, método de análise dos resultados, discussão dos problemas metodológicos, busca de influências sistemáticas, interpretação dos resultados e utilização de tabelas.


Três check-lists distintos foram elaborados: 1) para avaliar o rigor metodológico das meta-análises(15); 2) para avaliar a RI(15); e 3) para servir como guia ao desenvolvimento de uma RI(19).


Discussão

Estudou-se o tema RI na área de enfermagem com base em uma RI, que resultou na seleção de 17 publicações, as quais permitiram identificar e analisar os conceitos, a necessidade de rigor metodológico e as etapas de realização da RI que configuram o seu método específico. 


Os conceitos de RI referem-se a generalizar inferências(8,11-12), sumarizar e sintetizar conhecimentos acumulados(9-10,15,20) e inter-relacionar resultados de estudos anteriores, de forma crítica, para produzir novo conhecimento integrado(7,13-14,18-19). Assim, observa-se que a literatura selecionada avança cronologicamente para uma compreensão mais abrangente em dois sentidos, tanto no que se refere aos estudos anteriores abarcados pela RI, quanto ao alcance dos resultados da RI.


Este último aspecto diz respeito aos desdobramentos e efeitos que a RI pode produzir no avanço do conhecimento e, daí, sua expressiva aplicação à enfermagem, que se encontra em fase de consolidação como área de conhecimento, disciplina científica e como prática baseada em evidências(14). 


O outro aspecto da abrangência da RI mostra uma característica marcante desse tipo de revisão, que se refere à inclusão de estudos primários desenvolvidos mediante diversas metodologias, tanto quantitativas como qualitativas, em suas diferentes modalidades, bem como estudos teóricos(7,14,18,21-22). Esta última é uma característica que não consta nas publicações pioneiras da década de 1980(8-11), mas aparece de forma significativa na Enfermagem, para analisar as contribuições que a RI pode trazer à construção de conhecimento próprio da área(14).


Outra característica da RI que a análise permitiu identificar diz respeito à definição da(s) pergunta(s) de pesquisa, que configura(m) a primeira etapa, e deve(m) ser explicitada(s) de forma objetiva, com base em referencial teórico e respectivos conceitos claros, pois orientará(ão) todas as etapas da revisão. Assim sendo, a RI pode incluir várias perguntas ou hipóteses de estudo em uma única revisão.


Entende-se que tanto a inclusão de estudos de diferentes abordagens metodológicas, quanto diversas perguntas ou hipóteses de pesquisa tornam o desenho da RI complexo e de difícil operacionalização. No entanto, os resultados produzidos pela RI contemplam amplo leque de produtos: produção de conhecimento novo a partir da síntese dos estudos selecionados, tanto evidências empíricas como elaborações conceituais e teóricas; identificação de conexões entre diferentes áreas do conhecimento e temas centrais de uma determinada área; identificação de abordagens teóricas e metodológicas de maior potencial explicativo e compressivo; bem como de falhas dos estudos e necessidade de pesquisas futuras. 


A quase totalidade dos autores destaca a necessidade de rigor metodológico na condução de RI, de modo que os resultados possam representar efetivas contribuições para a prática do cuidado baseado em evidências e para a construção e a consolidação de teoria. O rigor refere-se a: definição clara de problemas e hipóteses; critérios de seleção dos estudos; análise dos estudos selecionados, envolvendo dois revisores independentes; e apresentação detalhada dos resultados da análise, se possível em tabelas e quadros-síntese.


A necessidade de rigor metodológico na condução da RI é contemplada nas publicações selecionadas de duas formas que se inter-relacionam: descrição e análise das etapas que devem ser seguidas, que abarcam desde os primeiros passos ou a formulação inicial da revisão até a divulgação dos resultados(8-9,12,18); e método da revisão, que está incluído nas etapas, mas contempla aquelas afeitas diretamente à metodologia de pesquisa adotada: amostra, estratégias de busca, critérios de inclusão e exclusão, avaliação das publicações selecionadas, análise das publicações incluídas na revisão para produção de resultados originais.


Conclusão

Os achados deste estudo levam a concluir que a Enfermagem define RI como um tipo de revisão que contempla o rigor do método característico da pesquisa científica. Também se conclui que a RI: 


  • Consiste em método de reunião e síntese de resultados de investigações, originalmente construído a partir das áreas de educação e psicologia;


  • Permite a inclusão de várias perguntas ou hipóteses de pesquisa na mesma revisão;


  • Absorve as preocupações da área com as teorias que fundamentam as práticas do cuidado de enfermagem e, nesse sentido, agrega revisão de teorias à já conhecida e tradicional revisão de estudos empíricos;


  • Aceita integrar delineamentos de pesquisa, inclusive provenientes de diferentes paradigmas da produção do conhecimento, em nome de concretizar a complexidade do cuidado de enfermagem, que envolve integração entre questões individuais e contextuais;


  • Exige que os revisores sejam especialistas na área, capazes de sintetizar criticamente teoria e empiria, dentro de um mesmo quadro epistemológico, para discriminar a potência de cada contribuição ao cuidado em saúde.


Para finalizar, sugere-se que as organizações internacionais que produzem conhecimentos e diretrizes em cuidado à saúde baseado em evidências construam um guia de recomendações, diferenciando e definindo os vários tipos de revisão da literatura em saúde para que revisores possam usar adequadamente as terminologias em revisão de acordo com os objetivos de suas investigações. Tal iniciativa poderia trazer maior consistência às revisões para sua mais ampla e segura aplicação no cuidado em saúde, e particularmente na Enfermagem.


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Recebido: 13 de Janeiro de 2013; Aceito: 15 de Janeiro de 2014

Correspondência: Cássia Baldini Soares
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 - Cerqueira César
CEP 05403-000 – São Paulo, SP, Brasil

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