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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versão impressa ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.48 no.4 São Paulo ago. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-623420140000400022 

Original Article

Ambiente virtual: auxílio ao atendimento de enfermagem para surdos com base no protocolo de atenção básica*

Silvia Cristina Martini Rodrigues1 

Gardênia Costa Damião2 

RESUMO

Objetivo: Apresentar um Ambiente Virtual (AV), baseado no Protocolo de Tratamento da Hipertensão Arterial e do Diabetes Mellitus tipo 2, aplicado na Atenção Básica, em avaliação de hábitos alimentares na consulta de enfermagem. Método: Estudo experimental aplicado por dois enfermeiros e um gestor, em uma amostra de 30 pacientes surdos com idade entre 30 e 60 anos. Construído em Visual Basic Net, o ambiente ofereceu oito telas sobre alimentação contendo figuras alimentícias, vídeos em libras e áudio. A análise do AV foi feita em questionários aplicados aos pacientes e profissionais por meio do teste estatístico Poisson. Resultados: Apresenta o possível diagnóstico nas cores vermelha, amarela, verde e azul, dependendo do grau de necessidade do paciente. Conclusão: O ambiente obteve excelente aceitação pelos pacientes e enfermeiros, possibilitando ótima interação entre eles, mesmo sem intérprete. A consulta foi reduzida para 15 minutos, com a preservação da privacidade do paciente.






Palavras-Chave: Pessoas com deficiência auditiva; Linguagem de sinais; Cuidados de enfermagem; Diagnóstico de enfermagem; Informática em enfermagem

Introdução

A Constituição Federal de 1988 assegura a todos os brasileiros os direitos e as garantias fundamentais que os permitam viver em sociedade. No artigo 3º destacam-se os objetivos fundamentais de promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. O artigo 5º refere-se aos direitos e garantias fundamentais: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade e à propriedade.

A criação da Política Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, regulamentada pelo Decreto nº 3.298 de 20 de dezembro de 1999 e que normatiza um conjunto de orientações, objetivou assegurar o pleno exercício dos direitos individuais e sociais das pessoas portadoras de deficiência.

Observou-se, em um estudo(1), que o deficiente auditivo é quem se defronta com maior dificuldade de inclusão social, visto que a audição é um sentido fundamental para obtenção e uso da linguagem, interferindo pontualmente no acesso às informações por meio oral.

Estabelecer e manter a comunicação com estes indivíduos representa um grande desafio para os profissionais da saúde, pois o atendimento adequado de pessoas com deficiências é essencial para se alcançar a qualidade dos serviços de saúde, enquanto a falta de comunicação impede o atendimento humanizado. A tentativa de garantir a comunicação efetiva com pacientes surdos é primordial, uma vez que a falta da comunicação plena pode acarretar erros no diagnóstico e tratamento das doenças(2). Assim, considera-se que os grupos de deficientes auditivos precisam de instrumentos que lhes garantam meios de comunicação com as instituições de saúde(3), principalmente na Unidade de Pronto Atendimento.

A maneira com que os pacientes com deficiência auditiva utilizam o sistema de saúde é diferente dos outros pacientes e geralmente denota extrema dificuldade de comunicação no contato com os profissionais de saúde, razão pela qual buscam os serviços com uma frequência menor, quando comparados aos demais pacientes(4).

Um estudo(5) que analisou o encontro entre pacientes surdos que utilizavam a língua de sinais com os profissionais de saúde em Goiânia, observou que o problema mais sério é o adiamento da busca do atendimento médico, ocasionando um nível de sofrimento desnecessário e risco de agravamento da doença pela falta de comunicação entre o paciente, o médico e a enfermeira. Isto acontece pelo desconhecimento da língua de sinais por parte dos profissionais e o paciente não possui intérprete ou familiar para acompanhá-lo. A utilização da linguagem de sinais facilita o atendimento pelos profissionais de saúde, mas pode levar à falta de privacidade, porque alguns pacientes surdos temem que assuntos confidenciais sejam divulgados entre a comunidade surda, da qual os intérpretes costumam fazer parte, ocasionando também a falta de autonomia durante a consulta(5).

Foram identificadas algumas barreiras entre o profissional da saúde e o deficiente auditivo, tais como conflito sobre surdez e deficiência auditiva, percepções diferentes sobre o que se constitui comunicação eficaz (leitura labial, escrita, intérprete de língua de sinais), segurança dos medicamentos e outros riscos ocasionados pela comunicação inadequada, problemas de comunicação durante o exame físico e procedimentos, dificuldades de interação com a equipe (incluindo o pessoal administrativo) na sala de espera e problemas com a comunicação por telefone(6).

Para que a assistência de enfermagem seja plenamente efetiva é necessário que se mantenha uma comunicação consciente, exigindo muito empenho para decodificar, decifrar e perceber o significado da mensagem que os pacientes estão querendo transmitir, pois somente assim é possível identificar as necessidades destes pacientes para que o profissional de enfermagem possa ajudá-los(7).

Segundo a Legislação Brasileira, as línguas de sinais distinguem-se das línguas orais porque se utilizam de um meio ou canal visual-espacial e não oral auditivo. Os sinais são formados a partir da combinação da forma e do movimento das mãos e do ponto no corpo ou espaço onde esses sinais são feitos. Segundo a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, entende-se como Língua Brasileira de Sinais (Libras) a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil, sendo oficialmente reconhecida pelo Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005.

Ao chegar a uma instituição de saúde, o deficiente auditivo se depara com a falta de conhecimento da linguagem Libras por parte dos funcionários e a não existência de intérpretes no local, fazendo com que se sinta excluído(8).

Uma das ferramentas que o enfermeiro possui é o uso da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), que desenvolve o pensamento crítico na prática de enfermagem e gera autonomia técnica, gerenciamento, individualização, uniformização, continuidade e avaliação do cuidado prestado por meio da promoção do cuidado humanizado, além de possuir baixo custo, quando comparado com resultados aferidos, despertando nos enfermeiros o interesse contínuo de reavaliar suas atividades e decidir qual a melhor maneira de desempenhá-las(9). Algumas pesquisas mostram que o uso de inovações tecnológicas pode auxiliar de forma importante o serviço de enfermagem(10-12).

O objetivo deste estudo foi desenvolver um Ambiente Virtual (AV) em Libras, denominado de AVPASAB (Ambiente Virtual de Pronto Atendimento ao Surdo na Atenção Básica), tendo como parâmetro o Protocolo de Tratamento da Hipertensão Arterial e do Diabetes Mellitus tipo 2, utilizado na Atenção Básica para auxiliar os enfermeiros na consulta de enfermagem.

A escolha da criação de um Ambiente Virtual voltado para estas patologias se deu pelo fato de as doenças cardiovasculares (DC) representarem a principal causa de morte tanto na população brasileira como mundial, além de evidências epidemiológicas indicarem a alimentação como um dos fatores de risco para o desenvolvimento dessas enfermidades(13). O ambiente desenvolvido deve contemplar características de website(14-15) e a norma NBR ISSO/IEC 9126(16), como tamanho de fonte, localização de instruções semelhantes, pouco texto, cor de fundo das telas agradável e botões de ações nas mesmas posições.

Método

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da UMC, processo CEP: 121/2011 e CAAE – 0121.0.237.237-11. Todos os participantes assinaram um Termo Livre e Esclarecido antes de iniciarem a atividade.

O Ambiente Virtual desenvolvido teve como parâmetro o Protocolo de Tratamento da Hipertensão Arterial (HA) e do Diabetes Mellitus (DM) tipo 2, utilizado na Atenção Básica(17). O protocolo de Tratamento da HA e do DM tipo 2, na Atenção Básica, consiste em estabelecer uma alimentação saudável para diabéticos e hipertensos. Esse protocolo é composto de 18 critérios diagnósticos do diabetes tipo 2, dos quais cinco foram utilizados para o desenvolvimento do AV e estão diretamente relacionados com o indicativo do diagnóstico. São eles: fatores de risco em diabéticos e hipertensos; utilização do escore de risco de Framingham para avaliação do risco cardiovascular em hipertensos e diabéticos; pirâmide alimentar; grupos de alimentos; avaliação do consumo de alimentos.

No AV desenvolvido não estão presentes as diretrizes de acompanhamento para a rede de atenção primária, pois o objetivo principal foi dar indicativo da patologia (diabetes e hipertensão) para o posterior acompanhamento do paciente.

O presente estudo baseia-se no questionário de frequência alimentar(17), que consiste na avaliação de 82 itens, sendo oito questões estratégicas de frequência alimentar. O AV baseia-se nessas oito perguntas com as respostas possíveis e o escore para cada uma, conforme pode ser observado na Tabela 1.

Tabela 1 Tabela 1 - Perguntas, respostas e escores existentes no Protocolo e no Ambiente Virtual desenvolvido - São Paulo, 2011 

Perguntas Respostas Escore
1º) Utiliza com maior frequência: Manteiga 2
Margarina 4
Ambas 6
Não utiliza 1
2º) Se utiliza margarina, ela é light? Não 1
Sim 0.75
Não sei 0.75
Não utiliza 0.75
3º) Utiliza com maior frequência: Leite desnatado 2
Leite semidesnatado 3
Leite integral 4
Não utiliza 1
4º) Utiliza com maior frequência, queijo, requeijão ou iogurte: Diet/light 3
Normal 4
Ambos 7
Não utiliza 1
5º) Utiliza com maior frequência refrigerante: Diet/light 3
Normal 4
Ambos 7
Não utiliza 1
6º) Com que frequência coloca sal no prato de comida? Nunca 1
Prova e coloca se necessário 2
Quase sempre 4
7º) Com que frequência retira pele do frango ou gordura da carne? Nunca 4
Algumas vezes 3
Na maioria das vezes 2
Sempre 1
8º) Utiliza adoçante em café, chá, sucos, etc.? Nunca 4
Algumas vezes 3
Na maioria das vezes 2
Sempre 1

Cada pergunta apresenta um escore de resposta (com base nos riscos de Framingham para avaliação do risco cardiovascular em hipertensos e diabéticos) tabelado pelo protocolo e esses valores fazem parte do Ambiente Virtual. Pelas respostas dos pacientes, o Ambiente Virtual indicará em forma de imagem se a alimentação do usuário está adequada ou não. Para a construção do AV foi utilizada a linguagem de programação Visual Basic NET da Microsoft. A tela do AV foi composta na parte superior pelo componente do Windows Media Player que permite inserir vídeos e que possibilita total controle de execução (executar, parar, pausar, avançar, voltar, etc.). Na parte inferior da tela Ambiente Virtual, foram colocados os botões: Novo (iniciar novo questionário), Executar (executar o vídeo novamente), Anterior (retornar à pergunta anterior), Próxima (seguir para a próxima pergunta) e Salvar. A opção Salvar foi necessária para armazenamento dos dados do paciente, perguntas, respostas, pontuação e resultado em um arquivo formato pdf.

O cadastro do paciente deve ser feito na primeira tela do ambiente, preenchido pela enfermeira, onde constam: nome, idade, gênero, fumante (sim ou não) e o valor da pressão arterial, após aferição pela enfermeira.

Cada tela do ambiente foi composta por um vídeo (em Libras) com uma personagem fazendo uma pergunta (Quadro 1). As respostas possíveis são apresentadas na mesma tela em formato de figuras, na maioria já conhecida dos usuários. Há também um áudio simultâneo ao vídeo para que a enfermeira possa saber qual pergunta está sendo executada.

A amostra da pesquisa foi composta de 30 pessoas, ambos os sexos, com idade entre 30 e 60 anos, com surdez severa/profunda. Para aplicação do ambiente, o paciente foi levado junto à enfermeira a uma sala onde havia um computador portátil para que ele pudesse assistir aos vídeos e responder às perguntas solicitadas. O Ambiente Virtual foi disponibilizado para a instituição Associação Beneficente Canaã, localizada em São Paulo, à rua Mirasselva, 40 – Jardim Eliane.

O Ambiente Virtual foi aplicado por dois enfermeiros que normalmente realizavam a consulta de enfermagem e receberam treinamento para operacionalização do Ambiente Virtual. Na aplicação, inicialmente foram apresentadas as principais funcionalidades e usabilidade tanto para o paciente quanto para os enfermeiros. A utilização do Ambiente Virtual não foi supervisionada por nenhum familiar, permitindo maior privacidade ao paciente.

Assim que o paciente terminar de responder as oito perguntas, ele acionará o ícone SALVAR, presente na tela do micro. Em seguida, o ambiente produzirá um arquivo em formato pdf, contendo nome, respostas, escore obtido e o indicativo se a alimentação do paciente estava adequada ou não. Esse material acompanhará o prontuário do paciente.

A resposta (indicativo) do AV foi também mostrada ao paciente em forma de figuras (Figura 3) com cores apropriadas, para que pudessem sugerir um provável diagnóstico futuro. São elas:

  • Fundo Vermelho: prioridade zero – emergência, necessidade de atendimento imediato.


  • Fundo Amarelo: prioridade 1 – urgência, atendimento o mais rápido possível.


  • Fundo Verde: prioridade 2 – prioridade não urgente.


  • Fundo Azul: prioridade 3 – consultas de baixa complexidade.

Para a avaliação da usabilidade e funcionalidade do AV, foram desenvolvidos questionários baseados na NBRISO/IEC9126-1(16) e em Massaroni(17), os quais foram aplicados aos 30 pacientes, duas enfermeiras e um gestor de enfermagem (também enfermeiro). Essas respostas foram analisadas estatisticamente utilizando o software Bioestat 5.0 (18).

Resultados

A primeira tela que deve ser preenchida pela enfermeira pode ser observada na Figura 1.

Figura 1 Janela de entrada dos dados do paciente 

A primeira pergunta pode ser observada na Figura 2, onde aparecem o vídeo e as figuras relacionadas à manteiga, à margarina, ambas ou nenhuma. Após responder, o paciente pode avançar para a próxima pergunta.

Figura 2 Tela contendo a primeira pergunta: Se o paciente utiliza com que frequência: manteiga, margarina, ambas ou nenhuma 

Na Figura 3 é ilustrado, por exemplo, um dos resultados finais apresentado ao paciente, baseado nos escores e nas respostas de cada pergunta após serem respondidas as oito questões. Depois disso, é apresentado um símbolo do tipo (☺) e a cor do fundo da imagem representa o grau de prioridade com que o paciente deverá ser tratado. No caso da Figura 3, é apresentado ao paciente o símbolo com o fundo da figura na cor verde, prioridade 2 – prioridade não urgente, ou seja, o paciente não necessita de atendimentos com muita rapidez.

Figura 3 Resposta baseada nos escores, sendo a imagem de fundo com tonalidade verde: prioridade 2 – prioridade não urgente 

Após a aplicação do AV, os resultados (possíveis diagnósticos) obtidos pelos pacientes foram: o grau de risco na cor amarela é o que possuiu maior incidência, com 14 casos (46,67%), seguido com achados na cor verde, com nove casos (30%). Em terceiro lugar, os casos indicados pela cor vermelha, com seis casos (20%) e por último, o azul com apenas um caso (3,33%). Esses resultados são mostrados na Figura 4.

Figura 4 Distribuição dos pacientes pesquisados, segundo resultado e classificação de risco pela cor do achado - São Paulo, 2011 

Dos 20 pacientes que possuíam pressão arterial alta, verificou-se que o grau de risco dos pacientes tratados (7) corresponde a 35%, sendo dois casos (10%) na cor vermelha e cinco (25%) na cor amarela. Os achados em relação a pacientes não tratados (13) correspondem a 65% e demonstram que quatro casos (20%) encontram-se na avaliação de risco na cor vermelha, e nove casos (45%) na cor amarela, conforme apresentado no Figura 5.

Figura 5 Distribuição dos grupos de maior risco, cores vermelha e amarela, segundo tratados e não tratados - São Paulo, 2011 

Baseado em estatística do IBGE de que 29,9% da população sofrem de Hipertensão Arterial, pode-se observar através do Teste de Poisson(18) que não há significância estatística entre a proporção observada (sete indivíduos diagnosticados com indicativo de pressão arterial alta) e a esperada, com p = 0,20.

Analisando o nível de pressão arterial nos grupos de maiores riscos, ou seja, 20 pacientes (vermelho e amarelo), pode-se observar que, ao analisar o grupo dos pacientes tratados e que possuíam maiores riscos, os classificados na cor amarela tiveram maior incidência de pressão arterial alta com três casos, representando 42,8% dos casos no grupo e os pacientes com pressão arterial normal totalizando quatro casos, que representam 57,14% no total dos dois grupos (vermelho e amarelo). Os outros 10 pacientes não se enquadraram no grupo de risco.

Avaliação do AV

Após a utilização do AV, os enfermeiros e os pacientes responderam, com a ajuda de um intérprete, os questionários de avaliação. Na Tabela 2 são ilustradas as respostas dos dois enfermeiros e do gestor, considerando se houve evolução em termos de comunicação, facilidade da consulta, tempo gasto e utilização do Ambiente Virtual. Ressalta-se que apenas um dos profissionais considerou que o tempo gasto na consulta foi Bom e os outros dois consideraram Ótimo. Sendo assim, o ambiente foi avaliado positivamente.

Tabela 2 Tabela 2 - Distribuição da opinião dos Enfermeiros e do gestor, referente ao Ambiente Virtual - São Paulo, 2011 

Péssimo Ruim Regular Bom Ótimo Total
Opinião F % F % F % F % F % F %
Comunicação com o surdo 0 - 0 - 0 - 0 - 3 100 3 100
Facilidade na consulta de Enfermagem 0 - 0 - 0 - 0 - 3 100 3 100
Tempo gasto na consulta 0 - 0 - 0 - 1 33,3 2 66,7 3 100
Utilização do Ambiente Virtual 0 - 0 - 0 - 0 - 3 100 3 100

FontePesquisa aplicada junto a dois enfermeiros e um gestor. São Paulo, 2011

Na Tabela 3, observa-se a opinião da utilização do Ambiente Virtual feita pelos pacientes surdos. A comunicação com o enfermeiro foi considerada pela maioria como Bom (63,3%), sendo também considerada como Boa a satisfação com o ambiente (76,7%) e o uso do ambiente sem intérprete alcançou uma opinião de Ótimo (70%) pelos usuários.

Tabela 3 Tabela 3 - Distribuição da opinião dos pacientes surdos referente ao Ambiente Virtual - São Paulo, 2011 

Péssimo Ruim Regular Bom Ótimo Total
Opinião F % F % F % F % F % F %
Comunicação com o Enfermeiro 0 - 0 - 8 26,7 19 63,3 3 10 30 100
Satisfação com o Ambiente Virtual 0 - 0 - 3 10 23 76,7 4 13,3 30 100
Uso ambiente virtual sem Intérprete 0 - 0 - 5 16,7 4 13,3 21 70 30 100

FontePesquisa aplicada junto ao grupo de pacientes com deficiência auditiva. São Paulo, 2011

No final da pesquisa, os avaliadores puderam expressar suas opiniões e sugestões, as quais possivelmente serão implementadas nas futuras versões do ambiente.

Discussão

Para a análise da usabilidade do Ambiente Virtual, foram utilizados alguns itens propostos(14-16), como por exemplo, tamanho de letras sempre iguais, comandos nas mesmas posições, telas que preveem que o ambiente seja consistente em menus, comandos de entrada, exibições de informação e também que todas as funções de interface possuam a mesma apresentação visual e o mesmo padrão estabelecido. A apresentação visual levou em consideração a cor, possuindo uma estrutura visual clara, que garantiu boa aceitação dos pacientes e profissionais. Como o ambiente foi proposto para ser utilizado por pessoas surdas, o mesmo foi composto de imagens (de produtos alimentícios), animações, vídeos em Libras. Quanto à fonte usou-se o mesmo tamanho, não possibilitando alterações nem mesmo via browser.

Os resultados apresentados demonstraram que, em relação à utilização do Ambiente Virtual, os pacientes o consideraram de fácil utilização.

Com relação à opinião dos enfermeiros em relação à funcionabilidade, que é definida como a capacidade do software de prover funções que atendam às necessidades explícitas e implícitas, quando estiver sendo utilizado em condições específicas(16), pode-se apontar que o Ambiente Virtual foi considerado apropriado para garantir o apoio ao atendimento de pacientes surdos, visto que se obteve uma avaliação extremamente positiva nos quatro itens evidenciados no questionário, recebendo pela maioria das respostas conceitos entre Bom e Ótimo. Os enfermeiros fizeram ainda vários comentários em relação ao Ambiente Virtual, mencionando os benefícios, tais como redução do tempo de consulta, fácil comunicação, resultado do possível diagnóstico (amarelo, verde, vermelho e azul) a fim de facilitar intervenções e humanização no atendimento.

Sabendo-se que o tempo de consulta também é um fator muito importante para a avaliação, os dois enfermeiros consideraram o quesito como Ótimo e o gestor como Bom.

A comunicação com os pacientes(19) é outro fator importante, por isso, verificou-se com base na tabulação dos dados do Ambiente Virtual, que este realmente facilitou a comunicação entre os profissionais de saúde e os pacientes surdos; demonstrou também ser uma ferramenta que propiciou a interação entre eles, dispensando a presença de um intérprete, o que garante satisfação pessoal do paciente em conseguir se comunicar, preservando sua privacidade.

Em relação à opinião dos pacientes surdos sobre a utilização do Ambiente Virtual, ou seja, a usabilidade do sistema, que é definida como a capacidade do software de ser compreendido, aprendido, operado e atraente, quando usado em condições específicas(15), a pesquisa mostrou que a maioria deles considera o Ambiente Virtual Bom e Ótimo e os comentários extraídos no momento da pesquisa foram sobre inclusão social e privacidade.

O ambiente também favorece a preservação da individualidade do paciente, proporcionando a este a não exposição dos seus problemas, corroborando dados de pesquisa(8), que evidenciaram constrangimento que os surdos sentem ao falar o que lhes aflige diante de familiares ou de intérprete.

Em relação aos dados do IBGE, de que 29,9% da população sofrem de Hipertensão, pode-se observar através do Teste de Poisson que não há significância estatística entre a proporção observada e a esperada, com p = 0,20, ou seja, as proporções observadas concordam com as esperadas. A diferença detectada não é importante do ponto de vista epidemiológico, sendo considerada de natureza amostral.

A maior inovação que se produziu no AV desenvolvido foi a interação paciente surdo e enfermagem, tomando-se o cuidado de desenvolver telas com perguntas simples e objetivas para não dificultar a interpretação do usuário surdo, pois se sabe(20) que há dificuldade muito grande de compreensão da língua portuguesa escrita pela pessoa surda. Frases extensas diminuem a compreensão do usuário.

Outra vantagem do AV é a possibilidade de acréscimo de novas perguntas ao ambiente. Além disso, outras doenças também poderão ser incorporadas ao procedimento, bem como a inserção de material de prevenção aos cuidados especiais, dependendo do resultado do AV indicado ao paciente.

Conclusão

Com a implantação deste Ambiente Virtual, conseguiu-se avaliar os hábitos dos indivíduos surdos e determinar o grau de risco de serem acometidos por enfermidades crônicas como o Diabetes e a Hipertensão, oferecendo qualidade de vida melhor a esses pacientes.

Neste sentido, a implantação deste Ambiente Virtual nos diversos serviços de saúde poderá proporcionar uma ação proativa do paciente surdo frente aos riscos de adoecimento, conscientizando-o em como agir para minimizar os efeitos nocivos ou mesmo controlar o avanço destas patologias.

O Ambiente Virtual desenvolvido teve excelente aceitação tanto pelo grupo de pacientes como pela equipe de enfermagem. Possibilitou a interação entre eles sem a presença de um intérprete, reduzindo o tempo de consulta para 15 minutos, garantindo privacidade e satisfação pessoal ao paciente em conseguir se comunicar, sem a necessidade de uma terceira pessoa para que o mesmo fosse diagnosticado, tratado e curado. No estudo também se pode comprovar que o ambiente desenvolvido obteve respostas positivas pela equipe de enfermagem.

A privacidade entre profissional de saúde e paciente é essencial para que se obtenham todas as questões relativas aos aspectos de sua saúde, favorecendo que este tenha a chance de decidir por si próprio a continuidade de um tratamento. Deste modo, a não necessidade da presença do intérprete oferece ao paciente a oportunidade de condução do tratamento pautado em sigilo e confiança.

Outro ponto extremamente positivo do Ambiente Virtual é que este fornece uma mensagem com cores diferentes – azul, verde, amarelo e vermelho –, indicando um possível diagnóstico ao paciente. Comprovadamente este fator melhora a comunicação e interação paciente-enfermeiro.

Os diagnósticos classificados em vermelho e amarelo para paciente com hipertensão arterial com níveis tensionais normais foram dados que chamaram muita atenção nos resultados do Ambiente Virtual, pois tais pacientes, mesmo seguindo tratamento específico, ainda mantiveram a pressão arterial elevada, indicando alguma falha no seguimento do paciente ou aderência no tratamento indicado.

Um problema observado após a utilização do ambiente foi o desconhecimento de alguns pacientes sobre produtos light, diet e desnatados, pois se observou que nem todos têm o hábito de ler os rótulos desses alimentos. Isto mostra que o AV pode auxiliá-los visualmente sem a necessidade da leitura do rótulo, ressaltando mais um benefício do ambiente desenvolvido.

Portanto, conclui-se que o ambiente AVPASAB pode ser utilizado pelos profissionais da área de enfermagem, proporcionando melhor atendimento e comunicação entre o profissional e o paciente surdo.

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*Extraído da pesquisa “Ambiente Virtual: auxílio ao atendimento de enfermagem para surdos baseado no protocolo de atenção básica”, Engenharia Biomédica, Universidade de Mogi das Cruzes, 2011. 1 Professora Doutora, Programa de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica, Universidade de Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes, SP, Brasil. 2 Enfermeira, Mestre em Engenharia Biomédica, Universidade Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes, SP, Brasil

Agradecimentos

À Fundação de Amparo ao Ensino e Pesquisa (FAEP) e a Universidade de Mogi das Cruzes (UMC)

Recebido: 06 de Maio de 2013; Aceito: 03 de Junho de 2014

Correspondência: Silvia Cristina Martini Rodrigues
. Av. Dr. Cândido Xavier de Almeida Souza, 200 
CEP 08780-911 - Mogi das Cruzes, SP, Brasil
. E-mail: silviac@umc.br

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