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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versão impressa ISSN 0080-6234versão On-line ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.50 no.3 São Paulo mai./jun. 2016

https://doi.org/10.1590/S0080-623420160000400017 

ARTIGO ORIGINAL

A enfermagem portuguesa: história de vida e militância de Maria Augusta Sousa

Deybson Borba de Almeida1  * 

Gilberto Tadeu Reis da Silva2 

Paulo Joaquim Pina Queirós3 

Genival Fernandes de Freitas4 

Aline Di Carla Laitano2 

Sirléia de Sousa Almeida2 

Victor Porfirio Ferreira Almeida Santos2 

1Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, BA, Brasil.

2Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil.

3Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Coimbra, Portugal.

4Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, Departamento de Orientação Profissional, São Paulo, SP, Brasil.


Resumo

OBJETIVO

Analisar a história de vida e militância da enfermeira Maria Augusta Sousa.

MÉTODO

História de vida, tendo como fonte oral a entrevista semiestruturada. Na análise de dados utilizou-se do software de pesquisa qualitativa Nvivo, e a análise de conteúdo com foco na análise temática e com base teórico-filosófica de Michel Foucault, em especial, o poder e as técnicas de si.

RESULTADOS

Evidenciaram-se a alienação e a participação política comoquestões pertinentes. Nas técnicas de produção de sujeitos militantes destacam-se a importânciada revisão da educação formal, dos atos de implicação com o mundo, a sociedade e a profissão, e por fim, as técnicas de si, técnicas de constituição de sujeitos militantes, a identidade profissional e o modo de ser.

CONCLUSÃO

A constituição da enfermeira Maria Augusta Sousa como militante acontece por questões do modo de ser, da educação familiar e do seu engajamento político na Juventude Católica, que repercutiu em uma trajetória de contribuição para enfermagem portuguesa, expressa nas seguintes conquistas: a integração do Ensino de Enfermagem no Ensino Superior, a criação do Regulamento do Exercício Profissional de Enfermagem e a implantação da Ordem dos Enfermeiros.

Descritores História da Enfermagem; Educação em Enfermagem; Política

Abstract

OBJECTIVE

To analyze the history of the life and activism of Portuguese nurse Maria Augusta Sousa.

METHOD

Sousa's life story was obtained by means of semi-structured interview swith Sousa as the oral source of data. NVivo qualitative research software was used for data analysis. Content analysis focused on thematic analysis based on the theoretical and philosophical ideas of Michel Foucault, in particular, power and techniques of the self.

RESULTS

Alienation and political participation were revealed as pertinent issues. In techniques of production of activist subjects, the following were highlighted: the importance of the review of formal education; actions of involvement with the world, society and the profession; and finally, techniques of the self, techniques of constitution of activist subjects, professional identity and way of being.

CONCLUSION

The constitution of the nurse Maria Augusta Sousa as an activist came about through questioning of how to be, education in the context of her family, and political engagement in Catholic Youth. This impacted her trajectory of contributions to Portuguese nursing, as expressed in the following achievements: the integration of nursing training into higher education; the creation of the Regulation of Nurses Professional Practice; and implementation of the Order of Nurses.

Descriptors History of Nursing; Education, Nursing; Politcs

Resumen

OBJETIVO

Analizar la historia de vida y militancia de la enfermera Maria Augusta Sousa.

MÉTODO

Historia de vida, teniendo como fuente oral la entrevista semiestructurada. En el análisis de datos, se utilizó el software de investigación cualitativa Nvivo, y el análisis de contenido con enfoque en el análisis temático y con base teórico-filosófica de Michel Foucalt, en especial, el poder y las técnicas de sí.

RESULTADOS

Se evidenciaron la enajenación y la participación política como cuestiones pertinentes. En las técnicas de producción de sujetos militantes, se destacan la importancia de la revisión de la educación formal, los actos de implicación con el mundo, la sociedad y la profesión y, por fin, las técnicas de sí, técnicas de constitución de sujetos militantes, la identidad profesional y el modo de ser.

CONCLUSIÓN

La constitución de la enfermera Maria Augusta Sousa como militante sucede por temas del modo de ser, la educación familiar y su involucración política en la Juventud Católica, que repercutió en una trayectoria de contribución para la enfermería portuguesa, expresada en las siguientes conquistas: la integración de la Enseñanza de Enfermería en la Enseñanza Superior, la creación del Reglamento del Ejercicio Profesional de Enfermería y la implantación de la Orden de los Enfermeros.

Descriptores História de la Enfermería; Educación en Enfermería; Política

Introdução

Desde a década de 1970, devido à sua crescente complexidade,a Enfermagem em Portugal passa porgrandes transformações com o objetivode reconhecer e qualificar a atividade profissional para, assim, melhorar a qualidade dos cuidados1.Dentre elas, destacamos: formação profissional configurada em um só nível, final da formação de auxiliares de enfermagem (1975), unificação da carreira (1981), integração do ensino de Enfermagem no sistema nacional de ensino (1988), criação do Regulamento do Exercício Profissional de Enfermagem (1996), implantação da Ordem dos Enfermeiros (OE) (1998), e licenciatura como a formação inicial (1999).

Tais transformações foram viabilizadas pela organização política das enfermeiras, através dos Sindicatos, em especial, o Sindicato dos Enfermeiros da Zona Sul e Região Autônoma dos Açores. Mais tarde, em 1988, por causa de sua centralidade e ativismo abrangendo o nível nacional, passou a se chamar Sindicato dos Enfermeiros Portugueses.

Aenfermeira Maria Augusta Sousa coordenou este sindicato e fez parte da equipe de implantação da OE. Na primeira gestão, de 1999 a 2003,foi vice-presidente, e, na sequência, exerceu dois mandatos consecutivos como Bastonária(2004/2007 e 2008/2011). Assim, a enfermeira conduziu 12 dos 17 anos de funcionamento da Ordem.

No artigo em questão, abordaremos a história de vida desta personalidade central, pelo menos nas últimas duas décadas, da Enfermagem portuguesa, bem como o seu protagonismo frente às lutas políticas e embates da profissão, tendo como análise secundada a dimensão política de enfermeiras.

Em termos comparativos, no que concerne à produção de conhecimento sobre a história de vida de personalidades da Enfermagem quecontribuíram com a reconfiguração da profissão, temos o estudo realizado sobre a enfermeira brasileira Maria Rosa Sousa Pinheiro. O seu percurso de vida consolidou uma nova representação do feminino na esfera social e do trabalho2.

Dada a escassez de trabalhosna temática em questão ‒ encontramos apenas dois estudos relacionados à OE na Biblioteca Virtual de Saúde ‒e levando em conta a atual precarização das condições de trabalho no país, faz-se relevante o exame dacontribuição da enfermeiraMaria Augusta Sousa ao assunto.

Nesta perspectiva, é percebido no cotidiano das enfermeiras portuguesas sobrecarga de trabalho, baixos salários, conflitos com o poder médico hegemônico, conflitos com o pessoal de apoio nas instituições hospitalares. O Estado Português é o maior empregador da categoria profissional, mas se constata precarização do trabalho, falta de possibilidades de emprego, forçando muitos profissionais a buscar trabalho em outros países europeus.

Estudo recente, que buscou compreender a imigração qualificada, centrada na medicina e na Enfermagem, apontou o alto fluxo imigratório, motivado por oportunidade de emprego e melhores condições de trabalho. Destacou, ainda, a importância dos pápeis institucionais, da Ordens Profissionais e Sindicatos, e a fragilidade das políticas direcionadas a este problema3.

Neste sentido, é compreensível a importância de uma discussão que articule a história de vida desta enfermeira com a militância política, no sentido de gerar perspectivas na formação de enfermeiras, bem como para o futuro da profissão. Estudos históricos são uma possibilidade de tomada de consciência/ação para as necessidades da profissão, pois implicam um saber mais crítico e reflexivo, neste caso, acerca de uma politicidade do cuidado que possa produzir um cuidado mais humano e ético em várias frentes.

Inicialmente,com base nas técnicas foucaultianas de constituição de sujeitos, partimos de alguns questionamentos: Como as enfermeiras transitam nos caminhos de alienação e participação? Como se constitui a militante e enfermeira Maria Augusta Sousa?Houve contribuições de quais campos formativos? Quais são as técnicas de produção de sujeitos existente nesta história de vida? Assim, o objetivo é a análiseda constituição da enfermeira Maria Augusta Sousa como militante na Enfermagem.

Método

Trata-se de uma pesquisa histórica, do tipo história de vida com enfoque biográfico que se caracteriza pelo seu movimento criativo, o qual produz sentido ao ser traçado como fonte de novos saberes. Desde logo, ela oferece à análise a dimensão do estatuto do sujeito narrado, estatuto este que se transforma em função de quem escuta.

É importante destacar que o referencial filosófico que respaldou a análise da constituição de sujeitos foi o foucaltiano. No que concerne aos aspectos teóricos das técnicas de si, estas são divididas em quatro grupos principais: (1) técnicas deprodução, que permitem produzir, transformar ou manipular as coisas; (2) técnicas dos sistemas de signos, que permitem utilizar signos, sentidos, símbolos ou significação; (3) técnicas de poder, que determinam a conduta dos indivíduos e os submetem a certos fins ou dominação, objetivando o sujeito; (4) técnicas de si, que permitem aos indivíduos efetuar, com seus próprios meios ou com a ajuda de outros, um certo número de operações em seus próprios corpos, almas, pensamentos, conduta e modo de ser, de modo a transformá-los com o objetivo de alcançar um certo estado de felicidade, pureza, sabedoria, perfeição ou imortalidade4.

Maria Augusta Sousa nasceu em 1947, participou do movimento da Juventude Operária Católica (JOC) e da Juventude Operária Cristâ Internacional. Formou-se em enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem Artur Ravara em 1968, e especializou-se em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria em 1992. Atuou como enfermeira nos Hospitais de São José e Santo António dos Capuchos e teve participação decisiva na elaboração do Estatuto dos Enfermeiros, e na criação e implantação da Ordem dos Enfermeiros. Foibastonária da OE por 8 anos, e vice-presidente por 4 anos. Foi membro do ComitêExecutivo do European Forum of National Nursing and Midwifery Associations(EFNNMA), e do Conselho Diretivo do International Council of Nurses (ICN).

A pesquisa,financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), foi realizada com a enfermeira Maria Augusta Sousa, objeto deste estudo, em Coimbra-Portugal, na ocasião do estágio doutoral. Os dados foram coletados no mês de outubro de 2015, e foi aplicada a técnica de entrevista semiestruturada. A entrevista foi gravada, após autorização da entrevistada e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e da carta de autorização do uso da entrevista.

A duração do relato foi de 2 horas e 42 minutos, posteriormente transcrito e transcriado. A análise foi realizada no período de 28 de outubro a 04 de novembro de 2015. Para organização e tabulação da história oral, vertida do oral para o escrito, foi utilizado o software Nvivo 10. Este programa possibilita a exploração das entrevistas em profundidade, bem como organiza e analisa as entrevistas semiestruturadas.

Para análise de dados optou-se pelo método de análise de conteúdo, por compreender um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens5. A análise de dados contemplou as seguintes etapas: recorte das unidades de registro, enumeração com base na frequência, no tratamento dos resultados e nas interpretações.

A categorização dos dados sustentou-se nas unidades de registro e no conteúdo manifesto, possibilitanto identificar, ao longo da vida da entrevistada, atos que se conectam e se inter-relacionam.

Quanto às categorias de análise, estas se desdobraram em categorias e subcategorias, que no software são denominadas de nós e nós internos, respectivamente. Na categoria de técnicas de poder, obtivemos as subcategorias técnicas de participação e alienação. Já na categoria técnicas de produção, obtivemos as subcategorias educação formal e os atos de implicação com o mundo, sociedade e profissão. Por fim, na categoria técnicas de si, obtivemos a identidade profissional e modos como subcategorias.

A investigação científica respeitou os preceitos éticos da pesquisa, propostos pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 466/2012. O estudo foi submetido à Plataforma Brasil, tendo aprovação em Comitê de Ética e Pesquisa (CAAE: 28775614.2.0000.5531), através do parecer número 663.359.

Resultados

Os resultados do estudo convergiram para a resposta da questão central da pesquisa, dado que queríamos analisar a constituição de sujeitos militantes, ancorados no referencial teórico-filosófico foucaultiano e no software de análise qualitativa.

No plano de análise deste estudo, a partir do software de pesquisa Nvivo, encontramos as categorias (denominadas pelo programa como nós) e subcategorias de análise (denominadas pelo programa como subnós).

Compondo a primeira categoria analítica, ou nó, emergiram as técnicas ou os dispositivos de poder, presentes no fenômeno pesquisado, a história de vida de Maria Augusta de Sousa e sua constituição como sujeito militante da enfermagem portuguesa.

Subnó: a alienação e as implicações para o trabalho em enfermagem

(...) (fala da enfermagem) trabalha por todo mundo, um trabalho desorganizado, ainda mais com essa dificuldade. A dificuldade objetiva da afirmação política, participação científico-política (fala da tripla jornada de trabalho da mulher)a desorganização do tempo é uma coisa brutal e, portanto, é o motivo da não participação, e quem não participa não pode ter, não pode ganhar força política, força política se ganha quando participa (...).

(...) que temos uns dos problemas mais sérios. Como é que somos capazes de possibilitar a enfermagem portuguesa, acreditar no seu valor, acreditar no seu poder? (...).

(...) Então, a enfermagem tem muita dificuldade de ir para fora dos muros (a carga horária de trabalho das enfermeiras aumentou para 40h por decreto governamental), temos 40 horas de trabalho semanal. Os enfermeiros precisam lutar, levantar a bandeira e conseguir chegar lá. Estamos vivendo um tempo de retirada dos direitos sociais, é um problema sério da sociedade portuguesa, não é problema do enfermeiro, é da sociedade portuguesa, agora como é que se consegue alterar isto se os enfermeiros não participam, não estão, normalmente, nas áreas de debate, estão à partedisto? (...).

(...) (fala da enfermagem) nós temos uma lógica de fechamento (refere ao não reconhecimento da enfermagem aos problemas globais), uma lógica de fechamento no quadro global, as coisas só se resolvem no global, não se resolvem perante o grupo (específico da enfermagem).

(...) (fala sobre a delegação de atividades de cuidado aos técnicos operacionais) que os enfermeiros não tenham noção exata do que são suas tarefas (privativas), as responsabilidades do cuidado, algo falhou na nossa discussão (referente à discussão promovida pelos sindicatos sobre o papel da enfermeira).

(...) O estatuto profissional era uma coisa que vinha desde a década de 1970. Fizemos várias assembleias para discutir o que tinha que conter no estatuto, o que era necessário, com a participação coletiva. O que é que o estatuto precisaria conter. Isto porque havia desde quem quisesse pôr no estatuto se vai pôr a aparadeira ou não pôr a aparadeira (...).

(...) O estatuto diz que as intervenções dos enfermeiros são autônomas e interdependentes. Mas essa foi a questão mais difícil de todas, alguns queriam que as intervenções do enfermeiro fossem autônomas, interdependentes e dependentes. E a guerra foi essa. Eu estou falando da nata da enfermagem, alguns pensavam assim (...).

Nas falas acima, percebemos que a Enfermagem, como campo de trabalho, tem dificuldades no campo da afirmação política devido àprecarização das condições de trabalho, ao descrédito da categoria em seu poder reivindicatório, àfalta, por parte dessas profissionais, de sepensar o mundo de modo integral e àfragilidade na compreensão dos enfermeiros sobre o seu papel nas organizações de saúde.

Subnó: A participação política, produção e repercussão

(...) força política se ganha quando participa. Não se ganha apenas por ter um partido, ganha porque participa ativamente das coisas. Nesse bojo, se conhecem as pessoas, as pessoas contam conosco e nós contamos com os outros (...).

(...) (fala da formação de auxiliares de enfermagem para adquirir o grau de enfermeiros) entre 1976 e 1981, praticamente todos auxiliares de enfermagem tiveram formação, não é brincadeira, um dispositivo nacional espetacular, entre sindicatos, instituições, centro de formação, escolas, mesmo com todas as divergências que não se apegaram, as coisas continuam, seja como for, o movimento gerou isso (...).

(...) (fala sobre o Congresso de Enfermagem em 73) organizado pelos sindicatos e pela associação de enfermeiros, associação portuguesa e associação católica. (onde foi discutido um projeto político para profissão) quatro aspectos fundamentais: carreira única, formação do ensino superior, estatuto e a ordem. Isoofoi tudo que se fizeram nessas duas décadas. A década de 1980 é toda marcada por essas etapas (...).

(...) faz parte da função do sindicato discutir com os enfermeiros para pautar as coisas, isso fizemos ou procuramos fazer(...).

(...) (sobre as discussões do estatuto) fizemos várias assembleias de norte a sul do país para discutir estes assuntos, em todos os distritos, começávamos dizendo cada um vai dizer o que é que acha que tem de pôr no estatuto, se vai pôr a aparadeira, saía de tudo, no início de cada reunião saía de tudo. Se formavam os grupos de trabalho, enfermeiros participavam e ao final saía uma direção mais coerente do que se devia ter no estatuto, deveria ter princípios (...).

(...) (fala do sindicato mais atuante para a criação da ordem dos Enfermeiros) Foi o meu (o que ela presidia) (...).

(...) era a maneira de se fazer adiscussão com os colegas daquilo que era importante. Normalmente íamos ao serviço, depois fazíamos reunião com todos os que quisessem ir... Discutíamos com uma segurança mesmo em termos do poder e contrapoder (contudo, nas discussões com o governo) não podíamos ceder facilmente. Para ceder tínhamos que consultar os colegas. Isso às vezes fazia uma grande confusão aos nossos colegas do sindicato (...).

(sobre a primeira edição do Programa Liderança para Mudança, promovido pela OE e pelo ICN) (...) os colegas que participaram tiveram um projeto coordenado por uma coordenação americana. Stefani fazia a ligação com um colega nosso que era responsável aqui pelo programa. Esse grupo de 20 colegas participou de um grupo e estudavam por meios próprios, um programa que é de 2 anos, iam definindo projetos de intervenção na realidade local, para depois avaliar o que estavam fazendo (...) eu acho que foi muito interessante, tivemos a participação das entidades dos quais os colegas faziam parte, que representavam as instituições, elaboravam protocolos para pôr em prática os projetos. E foi interessante para o reconhecimento da própria profissão e da própria ordem. A própria ordem vai ser reconhecida (...).

Já na segunda categoria encontrada, técnicas de produção de sujeitos militantes, foram apontados os seguintes subnós:

Sub-nó: Atos de implicação com o mundo, sociedade e profissão

(...) antes de chegar na enfermagem eu já estava no movimento de jovens, da juventude da igreja católica, estava no período do fascismo, movimento contra o governo da movimentação da igreja católica (...).

(...)A juventude católica tinha uma metodologia, tinha e acho que ainda tem, chamava de visão, que era muito importante. A gente tinha esse joguinho de pingue-pongue, mas tínhamos temas que surgiam na discussão do grupo, que a gente levava pra casa para refletir e trazer na próxima semana. Procurávamos discutir vários temas, as injustiças sociais, tínhamos que fazer toda semana(...).

(...) Estava na parte final do curso, já na parte de terminar o curso. E houve um problema sério, umas cheias, uma coisa brutal. Cheias com muitos desabrigados. Eu estava a fazer psiquiatria, no estágio, lembro perfeitamente. E vieram ter comigo gente que me conhecia da JOC, vieram ter comigo, eu tava na escola. E vieram ter comigo, por causa da historia das cheias, se eu me importava de entrar num grupo, para ir a um bairro ajudar, a fazer a gestão do que estava a se passar. Eu disse, então, se é pra isso, eu vou (...).

(fala dos projetos capitaneados pela OE) (...) A mesma coisa no projeto das bibliotecas móveis, que não faço ideia como é que está (...) nada mais do que isso, um baú com uma série de documentação da enfermagem, para circulação nos países de língua oficial portuguesa, como: Angola, Moçambique, Guiné, São Tomé e Cabo Verde e, mais tarde, Timor. Uma atualização, que pode andar de um lado para o outro, portanto, pode estar um tempo num sítio e um tempo no outro. Aqui também permite um crescimento dessa vertente, nas áreas de difícil acesso, poder facilitar um instrumento de conhecimento para a enfermagem(...).

Subnó: a educação formal e sua contribuição na constituição de sujeitos militantes

(...) Eu acho que a formação em enfermagem não ajudou para isso (refere-se à militância política,) pelo contrário, era uma formação fortemente orientada para uma submissão, para podermos garantir tudo em ordem, para todo mundo se manter em ordem,então, vejo que a enfermagem não deu para aumentar a minha militância. Foi a minha trajetória anterior, no aspecto da ciência social, o que deu a essa militância o nível de ciência social a que cheguei, isso permitiu enfrentar alguns aspectos que normalmente não eram enfrentados pelas colegas. O tipo de comportamento, que todos os professores tinham, era muito autoritário, apenas um ou dois eram diferentes. A enfermagem sempre foi ligada à ordem religiosa, influenciada pelo movimento católico, nessa fase, que teve um papel muito importante na formação, ficava por aqui, ou seja, na formação mesma (se refere às técnicas e aos procedimentos de enfermagem), não se fazia ações para fora dos conjuntos, que não faziam aenfermagem evoluir (...).

(...) No momento, dizia que pela minha dimensão política eu não podia ser enfermeira, que era muito agitada, até ameaças seriam feitas, tudo para que eu não concluísse o curso (...).

(...) tudo deveria ficar no oculto, não deveria haver confronto (se refere às perspectivas das outras pessoas), vários colegas diziam que não podíamos brigar, que não deveríamos nos confrontar(...).

Por fim, a terceira categoria encontrada, denominada técnicas de si, tendo como subnós a identidade profissional e o modo de ser da militante em estudo, revela um desconhecimento inicial da profissão, contudo, com o desenvolver do curso, há o encontro com uma vocação e a consequente satisfação profissional. Evidencia, ainda, os valores familiares da valorização do trabalho, de uma educação dialogada, com abertura para discutir os dilemas da sociedade e implicada com a justiça social. Há registros de enfrentamentos nas questões da tradição e de atos de libertação com o que era imposto.

Subnó: a identidade profissional com a Enfermagem

(...) Eu acho que fui para a enfermagem porque não queria trabalhar no escritório. Não queria ir para nada disso. Eu fui para enfermagem mais por aquilo que não queria do que pelo que queria. Eu já tinha na minha cabeça que não queria uma profissão para ficar no escritório, pra mim isso era recuar. Queria uma profissão ligada ao social, mas não queria ser professora, não dava para mim (...).

(...) eu gosto de ser enfermeira, gosto da profissão, e acho que a profissão tem um papel social importantíssimo, que infelizmentenão é reconhecido. (...).

(...) Eu entrei no sindicato não foi em vão, não, eu entrei no sindicato porque adorava o sindicato. (...).

Subnó: modos de ser de uma militante na Enfermagem

(fala dos seus valores, da educação familiar) (...) era importante ter alguma vivência de trabalho, era uma questão essencial, importante. Então há uma noção da minha mãe e do meu pai, sobretudo, que o trabalho é uma questão central(...).

(fala dos seus valores, da educação familiar) (...) não se camuflava coisas, não, se não havia dinheiro, não havia, pronto, mas nunca sentimos isso como uma infelicidade, sabia?(...).

(...) minha mãe tinha uma noção de justiça muito fiel, muito presente, meu pai também (...).

(...) decidir quem iria prosseguir os estudos, pois não havia condições de que todos prosseguissem. (fala das três irmãs) Como não tínhamos condições para as quatro estudar, minha irmã mais velha não queria estudar, eu queria, a outra também não quis,pronto, então era eu, ela só podia suportar duas, não mais que duas (...).

(fala sobre a estratégia para os pais aceitarem que ela fizesse o curso de enfermagem) (...) arranjei uma artimanha, pedi que as escolas mandassem os convites para estudar enfermagem para a minha casa. Mandaram as missionárias de Maria, minha mãe questionou porque tanto convite estava a receber. Eu disse, deve ser porque mandaram para todos. Aquilo andou, andou, andou. Meu pai me disse que eu não ia estudar. Eu disse a ele que não discutia mais isso em casa, quando eu completasse a maioridade, eu iria fazer. Eu acho que ele levou aquilo a sério(...).

(...) (sobre uma injustiça feita contra a colega na escola)eu defendi a colega, isto é equivocado, até ameaças (fizeram contra mim), seria feito de tudo para que eu não concluísse o curso, eu lembro que desafiei (...).

(fala sobre o convite feito pelo gestor para a turma de enfermeiras recém-formadas sobre qual área elas queriam atuar, se na gestão ou na prestação de cuidados) (...)Eu estava nesse grupo das cinco, nesse grupo de cinco (que optaram pelo cuidado), foi, no fundo, romper com o estabelecido (...).

Discussão

Inicialmente, percebemos que, em uma perspectiva hermenêutica e dialética, as categorias de análise se contrapõem dentro dos eixos destacados, e esse aspecto conforma a confiabilidade interna do estudo.A alienação como o inverso da participação política, a educação formal configurada como aspecto, de modo preponderante, limitante do fenômeno, enquanto a implicação com as questões sociais se conformou como algo que revelou e formou o sujeito militante.

A história de vida também possibilitou a conformação de categorias analíticas que versam sobre a identidade profissional e modos de ser da entrevistada, na direção foucaultiana do que constitui um militante.

Na primeira dimensão dos resultados, podemos marcar a fragilidade política da enfermagem, marcada pelas questões de uma formação tecnicista, com forte influência religiosa, que guarda relação com a discussão de gênero, ou seja, com o papel social da mulher e com a sua construção social.

A alienação do trabalhador é compreendida, no seu produto, como algo vinculado àfalta de conhecimento do profissional frente àquilo que se é, se faz e o poder que se tem, e isto implica não só que o trabalho se transforma em objeto e assume uma existência externa, mas que existe independentemente, fora do sujeito, é estranho a ele, e por isso se torna um poder autônomo, uma força hostil e antagônica6..

Desse modo, percebemos um círculovicioso e inter-relacionado: quanto mais se precariza as condições de trabalho -o que acontece em Portugal, com o aumento da jornada de trabalho semanal, a redução dos salários e das gratificações, mais se observa alienação, pois a ocupação dos indivíduos passa a ser pela sobrevivência, não encontrando espaços para a participação política.

Com precárias condições de trabalho, o tempo do trabalhador enfermeiro é exíguo, dificultando, assim, a tomada de consciência do mundo e a percepção dos jogos de poder e expropriação existentes na teia social. E isto, do ponto de vista do pensamento social contemporâneo, está alicerçado na assertiva de que o tempo é um elemento que torna possível o conhecimento e exercício da razão7.

Essa fragilidade política também está relacionada, num sentido mais global, com os aspectos históricos de Portugal, poishouve um longo período entre a revolução militar de 1926, Estado Novo, e a Revolução de 25 de abril de 1974, denominada Revolução dos Cravos, caracterizado pela onipresença constante da repressão política e policial (Polícia Internacional e de Defesa do Estado-PIDE), ou seja, meio século de censura àmídia e aos espectáculos, supressão rigorosa das liberdades fundamentais, tribunais especiais e prisões cujo vértice principal era a polícia política e a sistemática violação dos direitos dos cidadãos8.

Contudo, há perspectivas de mudanças a partir da mobilização das trabalhadoras junto às entidades representativas, a implicação das Escolas de Enfermagem para possibilitar uma formação mais engajadacom os aspectos éticos e políticos do campo profissional e com as questões dos movimentos sociais de modo global.

Ainda, no que tange àstécnicas de poder, a participação é aqui entendida como um dispositivo de militância e poder. A participação política da Maria Augusta Sousa para a Enfermagem portuguesa foi relevante, tanto na coordenação do Sindicato como idealizadora dos Estatutos e da Ordem dos Enfermeiros. A enfermeira declara que foi um dos momentos em que a categoria profissional acreditou na mudança e a construiu, e que a militância política se faz em ato, ou seja, quanto mais se participa dos movimentos de classe mais se engajaopoliticamente.

Dentre estes processos de mudança, podemos destacar: a delimitação de um único nível de formação para Enfermagem, a carreira única, a inserção da formação no ensino superior, o Estatuto e a Ordem. O sindicato que a militante coordenava teve papel preponderante nestas transformações, que depois se transformou, devido à sua capacidade representativa, no Sindicato dos Enfermeiros portugueses.

Importantes, também,na época em que Maria Augusta Sousa foi bastonária da OE,são os projetos implementados, pois eram implicados com a mudança e o desenvolvimento científico e político das enfermeiras, bem como com a internacionalização da Enfermagem portuguesa.

Nesta direção, a literatura aponta que a militância surge na vida das pessoas como uma via possível de exercer-se como sujeito, de ser o que se é. Histórias de pessoas que desenvolveram uma militância política mostram que a grande motivação deste exercício é o sentimento de justiça social, que se busca no movimento social e profissional um território onde a mudança seja possível9.

Fica evidenciada na trajetória de vida da enfermeira a militância política, aqui entendida como uma atividade que se constitui em uma forma política, engajada e crítica, na qual são desenvolvidas ações voltadas para a conscientização política da população, buscando desenvolver novos valores que possibilitem às pessoas se organizar e lutar para a construção de uma sociedade justa e digna10.

A formação política da Maria Augusta de Sousa ocorreu fora dos espaços formais de ensino, nas escolas, especificamente. Sua formação como cidadã ocorreu no movimento católico, permeado por práticas reflexivas sobre o mundo e as coisas que o cercavam, repercutindonas ações por ela apontadas, no fato de abdicar temporariamente das questões profissionais para ajudar as vítimas de uma catástrofe natural.

No campo da formação profissional, são descritos momentos marcados pela perseguição epelo silêncio. Tudo deveria estar sempre em ordem, aspectos da organização religiosa e militar.

Cabe destacar, portanto, que os aspectos disciplinares da Enfermagem eram fortemente influenciados pela instituição religiosa e suas implicações com a militância política. Acreditamos que o pensamento centradona manutenção da ordem, em estrito senso, é frágil do ponto de vista crítico e em sua dimensão política, pois é centrado na hierarquia e no cumprimento de regras que, muitas vezes, não possuem uma fundamentação teórico-filosófica.Em Portugal, muitas das escolas eram geridas por ordens religiosas ou fundações privadas, com formação centrada no domínio da prática, na primeira parte do curso. Eram enfatizadas a destreza e a perícia manuais, e a enfermeira seria um misto de bondade, habilidade e obediência2.

Assinalamos que a identidade profissionalocorre no processo mesmo de formação, achado que está em consonância com os estudos acerca destatemática, os quaisdemonstram que socialmente a imagem da enfermeira perpassa dois campos imaginários: um mítico, de relação com a medicina, e um imaginário feminino de submissão e inferioridade11.

Por fim, as questões constitutivas da pessoa Maria Augusta Sousa passam por práticas de participação, contestação, libertação, verdade e justiça. Uma trajetória marcada por dificuldades financeiras e de valorização do trabalho como processo de superação dos entraves econômicos.

Os resultados deste estudo corroboram a literatura, tantonacional10como internacional12acerca da dimensão política na profissão, pois só em 2008, no plano internacional, é que estadimensão foi entendida como saber transversal do conhecimento na Enfermagem. O estudodiverge da revisão de literatura, ao explicitar a força política da categoria de enfermeiras através de suas entidades de classe eas estratégias que aumentaram a adesão da categoria, validando seu poder como classe trabalhadora1.

Este estudo aponta para a necessidade de revisão dos currículos e do processo de formação das enfermeiras, bem como para a necessidade de promover estratégias de fortalecimento das entidades representativas da categoria, além de ações que congreguem estas entidadesno plano nacional e mundial.

Conclusão

A classe trabalhadora de enfermeiras transita entre oscaminhos de alienação, devido aomodelo hegemônico de ensino na Enfermageme de participação política, pelas questões que emergem do capital, como o trabalho precarizado.

A constituição da enfermeira Maria Augusta Sousa como militante ocorreupor questões do modo de ser, da educação familiar e do seu engajamento político na Juventude Católica, que repercutiu em uma trajetória de contribuição para Enfermagem portuguesa, expressa nas seguintes conquistas: a integração do Ensino de Enfermagem no Ensino Superior, a criação do Regulamento do Exercício Profissional de Enfermagem e a implantação da Ordem dos Enfermeiros.

Por fim, os espaços de ensino foram motivadores do exercício da militância, embora o ensino muitas vezes limitasse a expressão e a participação política. Mas, no geral, se configurou num dispositivo que se autoproduz, provocando, frequentemente, a mudança no percurso histórico das coisas e das pessoas.

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Recebido: 15 de Dezembro de 2015; Aceito: 03 de Maio de 2016

Autor correspondente: Deybson Borba de Almeida. Campus Universitário do Canela. Av. Dr. Augusto Viana, s/n. CEP 40110-060 - Salvador, BA, Brasil. deybsonborba@yahoo.com.br

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