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Revista Brasileira de Terapia Intensiva

versão impressa ISSN 0103-507Xversão On-line ISSN 1982-4335

Rev. bras. ter. intensiva vol.30 no.4 São Paulo out./dez. 2018  Epub 13-Dez-2018

http://dx.doi.org/10.5935/0103-507x.20180061 

COMENTÁRIO

A sepse é um grave problema de saúde na América Latina: uma chamada à ação!

Luciano Cesar Pontes Azevedo1 

Alexandre Biasi Cavalcanti1 

Thiago Lisboa1 

Felipe Dal Pizzol1 

Flavia Ribeiro Machado1 

Grupo do Instituto Latino Americano de Sepse

1Instituto Latino Americano de Sepse - São Paulo (SP), Brasil.

A sepse é uma disfunção de órgãos ameaçadora à vida, sendo causada por uma resposta desregulada do hospedeiro a uma infecção. Sua incidência precisa é desconhecida, e faltam estudos populacionais sobre esta condição, especialmente nos países com baixa e média rendas. Contudo, extrapolações de dados populacionais de países de alta renda sugerem 30 milhões de casos de sepse, com cerca de 6 milhões de óbitos em todo o mundo a cada ano.(1) Nos países latino-americanos (LATAM), os poucos estudos disponíveis também sugerem que a sepse representa importante problema de saúde. Estudo previamente realizado no Brasil demonstrou que, no ano de 2010, disfunções de órgãos associadas a infecção estavam relacionadas a até 22% de todos os óbitos no país.(2) Nas unidades de terapia intensiva (UTIs) brasileiras, a prevalência de sepse é de 30%, e a taxa de mortalidade hospitalar para pacientes de UTI é de 55%.(3) Estudos conduzidos na Colômbia e na Argentina também relataram taxas de mortalidade por choque séptico entre 45,6% e 51%.(4,5) As razões para tamanho ônus da sepse podem incluir áreas com fornecimento inadequado de água limpa, e condições sanitárias, nutricionais e vacinação igualmente inadequadas, assim como baixa conscientização sobre a sepse entre pessoas leigas e profissionais de saúde, acesso restrito a serviços de terapia intensiva e incidência elevada de infecções associadas aos cuidados de saúde.(6)

Com o objetivo de reduzir o ônus da sepse em todo o mundo, em 2012 a Global Sepsis Alliance (GSA) criou o primeiro Dia Mundial da Sepse (DMS), para ser uma plataforma de lançamento para a Declaração Mundial da Sepse. As finalidades do DMS são aumentar a percepção sobre a importância da sepse em meio ao público leigo, profissionais de saúde e formuladores de políticas; e encorajar programas de melhoria da qualidade para identificação e tratamento precoce da sepse. Desde então, têm crescido em todo o mundo as iniciativas para melhorar a conscientização sobre sepse, com eventos direcionados ao público leigo, equipes de profissionais de saúde e formuladores de políticas. Tais iniciativas culminaram, em 26 de maio de 2017, com a aprovação, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de uma resolução sobre a sepse (WHA70.7).(7) Esta resolução da OMS reconhece a sepse como importante ameaça à segurança do paciente e à saúde global, e insta os Estados-membros a desenvolverem iniciativas voltadas à melhora da prevenção, ao reconhecimento e ao tratamento da sepse. Esta resolução tem o potencial de salvar milhões de vidas, mas, para que isto aconteça, são necessários esforços coordenados de políticos, formuladores de políticas, gestores de saúde, pesquisadores e médicos, que trabalham em todos os ambientes de saúde.(8)

Igualmente, alianças regionais podem ser importantes na agenda da sepse, para incentivar a colaboração entre países com similaridades e melhorar a advocacia regional coordenada, em vez de cada país isoladamente. Assim, em 30 de maio de 2018, o Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS) organizou uma reunião de representantes dos países latino-americanos, a qual teve o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e cujos propósitos foram identificar problemas comuns e discutir possíveis abordagens para a agenda da sepse nos países da América Latina, em conformidade com a resolução da OMS. Estiveram presentes representantes da GSA e da OPAS, assim como delegados da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e Uruguai. Esteve também presente um representante do Consorcio Centroamericano y Del Caribe de Terapia Intensiva (COCECATI), representando os seguintes países: Belize, Guatemala, El Salvador, Costa Rica, Nicarágua, Panamá, República Dominicana, Porto Rico e Cuba. Nessa reunião, aprovou-se a Declaração de São Paulo (Apêndice 1), que contém os principais requisitos do grupo a autoridades governamentais, formuladores de políticas, gestores e profissionais de saúde, além das sociedades associadas, para dar suporte a compromissos nacionais e internacionais voltados à melhoria da prevenção, diagnóstico e tratamento da sepse, e dedicar recursos humanos e financeiros para estas finalidades. O documento está disponível para download no site da ILAS (www.ilas.org.br). Solicitamos aos leitores que assinem e divulguem a Declaração de São Paulo, de tal modo que a missão do ILAS possa ser plenamente cumprida: "Um continente sem mortes evitáveis por sepse."

Apêndice 1

Declaração de São Paulo.

São Paulo Declaration

Sepsis - the Major Cause of Preventable Death and Disability in Latin America

A Call for Action to Reduce the Burden of Sepsis

Sepsis is a major cause of preventable deaths in Latin America (LATAM) countries and is the most common cause of death from infection.

During the Latin-American Sepsis Institute meeting in São Paulo, Brazil, on the 30th of May 2018, delegates representing 16 LATAM countries called for urgent action by governments, healthcare workers and the community to support national and international commitments to improve the prevention, diagnosis, and treatment of sepsis and to dedicate human and financial resources to these goals. The delegates supported the following declaration:

Noting that sepsis is recognized as a global health priority by WHO Resolution WHA A70/13 of 2017 and that member nations are urged to adopt national policies to improve the prevention, recognition and treatment of sepsis;

Recognizing that despite the unacceptable number of deaths and disabilities caused by sepsis, awareness of sepsis among healthcare providers and lay public in LATAM countries is very low;

Stressing that there is wide variation among LATAM settings regarding healthcare services to treat sepsis;

Identifying that hospital-acquired infections and antimicrobial resistance are a major healthcare issue in LATAM countries;

We urge government authorities, policy makers, healthcare managers, professionals, universities and associated societies to:

  • endorse the WHO Resolution on Sepsis and establish national action plans to prevent sepsis, to enhance early recognition and management in a continuous effort to improve access to care and adequate resources and to reduce ineqality,

  • focus on sepsis prevention by providing adequate sanitation, vaccination to at-risk groups and adequate nutrition, as well as reducing maternal and pediatric deaths,

  • cooperate in partnership to ensure adequate sepsis treatment in all nations, through undergraduate and post graduate training of healthcare professionals focused on improving outcomes in both patients and survivors, recognizing that the establishment of adequate national policies to treat sepsis in one country will clearly benefit other nations,

  • promote sepsis awareness among lay people and healthcare workers including recognizing World Sepsis Day (September 13th) as a national date,

  • implement measures aimed at minimizing the risk of the development and spread of antimicrobial resistance and hospital-acquired infections,

  • promote collaborative research to further understand the burden of sepsis as well as to identify local perspectives and priorities for adequate recognition and treatment of sepsis.

São Paulo, May 30th, 2018.

REFERÊNCIAS

1 Kissoon N, Reinhart K, Daniels R, Machado MF, Schachter RD, Finfer S. Sepsis in children: global implications of the World Health Assembly Resolution on Sepsis. Pediatr Crit Care Med. 2017;18(12):e625-7. [ Links ]

2 Taniguchi LU, Bierrenbach AL, Toscano CM, Schettino GP, Azevedo LC. Sepsis-related deaths in Brazil: an analysis of the national mortality registry from 2002 to 2010. Crit Care. 2014;18(6):608. [ Links ]

3 Machado FR, Cavalcanti AB, Bozza FA, Ferreira EM, Angotti Carrara FS, Sousa JL, Caixeta N, Salomao R, Angus DC, Pontes Azevedo LC; SPREAD Investigators; Latin American Sepsis Institute Network. The epidemiology of sepsis in Brazilian intensive care units (the Sepsis PREvalence Assessment Database, SPREAD): an observational study. Lancet Infect Dis. 2017;17(11):1180-9. [ Links ]

4 Rodríguez F, Barrera L, De La Rosa G, Dennis R, Dueñas C, Granados M, et al. The epidemiology of sepsis in Colombia: a prospective multicenter cohort study in ten university hospitals. Crit Care Med. 2011;39(7):1675-82. [ Links ]

5 Estenssoro E, Kanoore Edul VS, Loudet CI, Osatnik J, Ríos FG, Vázquez DN, Pozo MO, Lattanzio B, Pálizas F, Klein F, Piezny D, Rubatto Birri PN, Tuhay G, Díaz A, Santamaría A, Zakalik G, Dubin A; SATISEPSIS Investigators. Predictive validity of Sepsis-3 definitions and sepsis outcomes in critically ill patients: a cohort study in 49 ICUs in Argentina. Crit Care Med. 2018;46(8):1276-83. [ Links ]

6 Machado FR, Azevedo LC. Sepsis: a threat that needs a global solution. Crit Care Med. 2018;46(3):454-9. [ Links ]

7 World Health Organization (WHO). Sepsis. Improving the prevention, diagnosis and clinical managment of sepsis [Internet]. Geneve:WHO; c2018.[cited 2018 Nov 6]. Available from: http://who.int/sepsis/en/Links ]

8 Reinhart K, Daniels R, Kissoon N, Machado FR, Schachter RD, Finfer S. Recognizing sepsis as a global health priority - A WHO resolution. N Engl J Med. 2017;377(5):414-7. [ Links ]

Recebido: 07 de Novembro de 2018; Aceito: 08 de Novembro de 2018

Autor correspondente: Luciano Cesar Pontes Azevedo, Instituto Latino Americano de Sepse, Rua Pedro de Toledo, 980 - Vila Clementino, CEP: 04029-002 - São Paulo (SP), Brasil, E-mail: lucianoazevedo@uol.com.br

Conflitos de interesse: Nenhum.

Editor responsável: Jorge Ibrain Figueira Salluh

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