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Revista Latino-Americana de Enfermagem

versão On-line ISSN 1518-8345

Rev. Latino-Am. Enfermagem v.16 n.3 Ribeirão Preto maio/jun. 2008

https://doi.org/10.1590/S0104-11692008000300008 

ARTIGO ORIGINAL

 

A sexualidade das mulheres atendidas no programa saúde da família: uma produção sociopoética

 

 

Maria Elidiana Araújo GomesI; Lia Carneiro SilveiraII; Sandra Haydeé PetitIII; Georgia Maria Viana BrasileiroIV; Arisa Nara Saldanha de AlmeidaIV

IEnfermeira, Mestre em Enfermagem, e-mail: mariaelidiana@uol.com.br
IIEnfermeira, Doutor em Enfermagem, Docente, e-mail: silveiralia@gmail.com
IIIDoutor em Educação, Docente, e-mail: sandra.haydee@terra.com.br
IVAluna do curso de Graduação em Enfermagem, e- mail: georgiamvb@hotmail.com, arisinha2003@yahoo.com.br. Universidade Estadual do Ceará, Brasil

 

 


RESUMO

O conceito de promoção da saúde é um dos eixos centrais das atuais políticas de saúde no Brasil. A adoção desse marco conceitual implica em reversão do modelo assistencial, envolvendo a valorização de maior autonomia dos sujeitos para atuarem na melhoria de suas condições de vida. A partir dessa perspectiva, diversos elementos das práticas de saúde precisam ser revistos, entre eles o da sexualidade. Sendo assim, objetivou-se, aqui, produzir conceitos de sexualidade a partir dos saberes das mulheres atendidas numa unidade de saúde. O estudo é qualitativo, utilizando a abordagem sociopoética. Os resultados apontam para a diversidade de afetos que envolvem o conceito de sexualidade, que vão além do aspecto biológico. Entende-se que este estudo pode trazer contribuições para o profissional que atende mulheres em unidade de saúde, à medida que amplia o conceito de sexualidade, permitindo reflexão acerca da prática desenvolvida pela enfermagem na saúde comunitária.

Descritores: sexualidade; métodos; enfermagem em saúde comunitária


 

 

INTRODUÇÃO

A conjuntura social atual propõe discussões sobre o rompimento do modelo assistencial biomédico, centrado na cura e na medicalização, para medidas de promoção da saúde(1). Esta reversão de modelo implica transformações na forma de conceber/ lidar com diversas linhas que perpassam a experiência humana(2). Dentre elas ressaltamos aquela que envolve a experiência da sexualidade como um dos importantes aspectos a serem re-discutidos a partir da ótica da promoção da saúde.

Ao abordarmos o tema sexualidade, nos reportamos a vários aspectos que estão presentes na complexidade que influência nossas vidas, não se restringindo apenas a uma visão biológica. A sexualidade "reflete toda a expressão emocional de nossa vivência", ao mesmo tempo em que incorpora a influência do momento histórico vivenciado. Esta "expressão emocional" também pode se manifestar pelo silêncio verbal, muitas vezes construído devido às imposições do meio social, que carrega consigo atitudes seculares normativas e regulamentadoras dos aspectos da sexualidade, principalmente referentes ao sexo feminino(3).

Nossa preocupação acerca dessa temática nasceu principalmente das experiências que vivenciamos como membros de uma equipe de saúde da família, no atendimento a mulheres no programa de planejamento familiar. Enquanto que os manuais e rotinas desenvolvidos nessa área pelo Ministério da Saúde estão prioritariamente voltados para questões técnicas acerca da utilização de métodos contraceptivos, a demanda da clientela que atendemos tem trazido freqüentemente à nossa clínica questões afetivas, relacionadas à vivência da sexualidade.

Muito mais do que distribuir métodos contraceptivos fomos confrontadas diariamente com questões sobre a sexualidade, não em seu sentido estritamente biológico e reprodutivo, mas em seu aspecto mais amplo e existencial. As manifestações e expressões de tristeza, baixa auto-estima e solidão nas mulheres que atendíamos na unidade eram constantes. Desde então começaram a surgir vários questionamentos acerca da prática: como abrir um espaço de escuta que contemple as inquietações dessas mulheres? Como desenvolver uma prática que favoreça a autonomia e a participação dessas pessoas nas questões de saúde que elas vivenciam, especialmente em relação à sua sexualidade?

Diante destes questionamentos, desenvolvemos este estudo com o objetivo de possibilitar a construção do conceito de sexualidade a partir das próprias usuárias atendidas numa unidade de saúde da família, ampliando assim as possibilidades de discussão acerca dessa temática e favorecendo a autonomia dessas mulheres.

 

CAMINHO METODOLÓGICO

Trata-se de uma pesquisa qualitativa que se desenvolve a partir de uma linha epistemológica desconstrutiva. Esta linha de produção do conhecimento questiona de maneira radical as formas de conhecer centralizadas no saber científico e de seus estatutos de verdade. Tenta assim reconstruir o saber abrindo possibilidades de relações autonomizantes do humano com suas instituições sociais(4).

Dentre as abordagens consideradas nessa linha epistemológica adotamos a abordagem da sociopoética que pretende articular esses princípios de forma a desencadear um processo criativo de produção do conhecimento e de produção de vida, acreditando que é possível fazer desse processo um acontecimento poiético. Ela tem como objetivo proporcionar aos coletivos a realização de uma análise crítica da realidade social e dos desejos e poderes que a perpassam(5).

A sociopoética vai buscar suas raízes epistemológicas na pedagogia de Paulo Freire, na Análise Institucional, na esquizoanálise, entre outras. Na pedagogia do oprimido de Paulo Freire a sociopoética inspira-se na valorização da igualdade dos saberes, sugerindo a colaboração entre eles e lutando contra a imposição de um determinado tipo de saber. Além disso, o referencial "freireano" também inspira a criação do método do grupo-pesquisador onde o saber é produzido coletivamente(5).

Da Análise Institucional de Lourau a sociopoética herdou a noção de dispositivo entendido como montagens ou artifícios que propiciam o surgimento de inovações, de diferenças, de singularidades. Com a Esquizoanálise, proposta por Deleuze e Guatarri, a sociopoética traz a dimensão da produção de singularidade, heterogênea, em contraposição aos tipos de padronização do indivíduo existentes nas sociedades modernas(6).

Por fim, apresentamos a discussão dos dados apresentados através da análise filosófica conforme proposta pela sociopoética. Inicialmente são identificados na análise transversal os "confetos" produzidos pelo grupo. O termo "confeto" faz referência aos conceitos produzidos pelo grupo-pesquisador os quais se distinguem do senso comum por dar-se na composição de um plano de consistência onde conceitos e afetos se misturam, traçando linhas de desterritorialização e configurando a realidade de novos desejos(7). Em seguida, os confetos do grupo são correlacionados com os conceitos e discussões presentes na literatura filosófico-científica consagrada, estabelecendo uma comunicação que nos permita perceber suas convergências, complementaridades ou oposições. A seguir, apresentamos as etapas propostas pela sociopoética e como realizamos cada uma delas em nosso estudo(5-6).

 

ETAPAS DA PESQUISA

Negociação: resolvemos desenvolver esta pesquisa numa Unidade de Saúde da Família, situada na Barra do Ceará, um bairro popular pertencente à Regional I do município de Fortaleza. Os sujeitos da pesquisa foram as mulheres atendidas no programa de planejamento familiar da referida unidade de saúde. Para fins de seleção dos sujeitos, delimitamos como critério de inclusão o fato de ser mulher e cadastrada no programa de planejamento familiar nos últimos dois anos; ficando excluídas as mulheres cadastradas em anos anteriores. As mulheres foram convidadas a participar da reunião de negociação, que foi realizada no dia nove de agosto de 2006, quando foi exposto o tema da pesquisa: a sexualidade. Essa etapa destina-se a discutir com as pessoas convidadas o seu interesse em participar da pesquisa acerca do tema proposto e compor aquilo que chamamos de "grupo-pesquisador", ou seja, o grupo que juntamente com a pesquisadora oficial irá produzir os dados da pesquisa. Após essa etapa, 12 mulheres aceitaram nossa proposta.

Produção dos dados: a segunda etapa da pesquisa é chamada de "produção de dados" pois na pesquisa sociopoética procura-se a produção de saberes e não meramente a coleta de dados através de discursos pré-estabelecidos. Esta produção se dá através de oficinas onde o grupo-pesquisador discute o tema em questão. Na pesquisa realizamos quatro oficinas com diversos dispositivos de pesquisa, ou seja, técnicas artísticas e criativas que estimulavam os sentidos, buscando resgatar conhecimentos oriundos da razão, intuição e emoção; gerando novos saberes. Na primeira oficina foi utilizada uma técnica de produção através do sentido do tato(4). As participantes tiveram os olhos vendados e, em seguida, recebiam em contato com o corpo objetos de várias texturas, pesos e formatos. À medida que iam despertando as sensações, solicitamos que as associassem ao tema da sexualidade. A segunda oficina teve como técnica a "construção do corpo coletivo". Nessa oficina distribuímos uma variedade de material artístico (papel, cola, tinta, pincéis, canetas, etc.) e solicitamos às co-pesquisadoras que escolhessem a parte de seu corpo que mais estivesse associada à sexualidade e que a construíssem através do material disponibilizado. Na terceira oficina, utilizamos a técnica do "bicho da sexualidade" na qual cada co-pesquisadora escolhe um animal que, na sua compreensão, esteja mais associado à sexualidade. Em seguida, cada uma constrói o seu animal através da argila. A última oficina de produção foi inspirada no conto "A Mulher Lobo"(8), onde cada co-pesquisadora foi convidada a imaginar sua escultura da sexualidade e desenhá-la com tintas. Após cada produção, as co-pesquisadoras apresentaram suas produções verbalmente. As falas foram gravadas e transcritas com a autorização dos participantes.

Análise dos dados: na sociopoética, o processo de análise dos dados também conta com a participação ativa dos sujeitos que compõem o grupo-pesquisador. O material produzido foi analisado pelo grupo em uma oficina dedicada a essa etapa. O grupo realizou a análise comentando os dados produzidos, trazendo à tona os elementos de seus saberes e que então passaram a ser utilizados como referencial de análise. Além da análise do grupo, a sociopoética propõe ainda três etapas de análise realizadas pelo pesquisador oficial: análise classificatória, transversal e filosófica.

Contra-análise: essa etapa consiste na devolução das análises realizadas pelo pesquisador oficial ao grupo-pesquisador. Esse momento teve como finalidade proporcionar ao grupo a sua manifestação através de sugestões, críticas, alterações ou mesmo concordância com elas.

Quanto aos aspectos éticos do estudo, ressaltamos que foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Ceará, tendo como protocolo N° 06126774-0, também foram consideradas as recomendações da Resolução 196/96, que trata das pesquisas envolvendo seres humanos(9).

 

APRESENTAÇÃO DAS CATEGORIAS DE CADA OFICINA

Apresentamos a seguir um quadro com as categorias que emergiram das falas do grupo em cada oficina. Trata-se da análise classificatória onde as falas do grupo são divididas em categorias por unidades de sentido. Depois disso, observamos, em cada uma delas, as falas que convergiram, as que divergiram, as oposições, ambigüidades e os paradoxos presentes. São as falas envolvidas nessas categorias que irão compor em seguida o texto da análise transversal.

 

 

No tópico a seguir optamos por expor um exemplo de análise transversal elaborada pelo pesquisador a partir das falas do grupo. Lembramos que nesse momento a apresentação dos dados é mais livre, aproximando-se de um texto literário. O exemplo aqui apresentado trata-se da construção da história fictícia de um personagem conceitual, ou seja, uma criação onde o grupo deixa de falar de si mesmo para falar a partir de um agente de enunciação, para se ver e se desenvolver através de um plano que o atravessa em vários lugares(10). Foi assim que, através da técnica do corpo coletivo, nasceu a "Marciana", alguém cujo corpo era muito diferente das mulheres da terra e que, devido à sua diferença, era infeliz. Essa construção do grupo abriu espaço para várias discussões acerca do ideal do corpo perfeito exigido em nossa sociedade e pela marca do preconceito que acompanha quem foge à regra.

Análise transversal da segunda oficina: tentando produzir os sentidos da sexualidade, cada um buscou encontrá-la em cada parte de seu corpo. Foi assim que encontramos seio, bumbum, cintura, mãos, barriga, vagina, ombros e cabelos. São partes do corpo que produzem sensações ao serem tocadas. As mãos também remetem à sexualidade quando possibilitam o cuidado com o corpo, como no auto-exame das mamas. Podem ser também as mãos do outro, que tocava o corpo produzindo prazer. A valorização do corpo é necessária à felicidade da pessoa, mesmo com a importância atribuída a certas partes do corpo. No meio da discussão, nasceu a Marciana (também conhecida como andróide). Ela é uma mulher de 25 anos que veio de Marte para o nosso planeta em busca de um outro, que seria seu complemento e o motivo de sua felicidade. Ao chegar à Terra, ela percebeu que era um pouco estranha, pois seu corpo era diferente, com várias partes repetidas. Entretanto, ela lembra que existem muitas pessoas diferentes, que não possuem todas as partes do corpo, no entanto, sabem aproveitar e viver com esta situação. Marciana encontrou alguém para amar, mesmo sendo diferente dele. Os dois conseguiram se relacionar, pois existia o amor entre ambos. Tiveram um filho, mas Marciana, mesmo se conhecendo fisicamente através do toque e sensações, não era completamente feliz, pois não aceitava que seu corpo fosse diferente. Ela também precisava de sentimentos como amor e carinho para superar, ou não, o fato de ser "diferente fisicamente". Uma possível saída para o problema de Marciana seria levar seu companheiro para viver com ela em Marte, pois quando a pessoa ama, vai para qualquer lugar. Apesar das dificuldades que Marciana teve que enfrentar para viver com seu companheiro, não podemos esquecer que ela também poderia vir a ser feliz sozinha, desde que se sinta bem. Mas será que ela pode ser feliz e se aceitar sendo diferente? Existe gente que acha que sim, existe gente que acha que não.

 

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS - ANÁLISE FILOSÓFICA

Dentre os vários significados produzidos pelo grupo-pesquisador acerca da sexualidade, percebemos num primeiro momento que a associação do tema com a "genitalidade" e com a questão da relação sexual homem/mulher apareceu como um dos elementos mais presentes nos discursos. Tal pensamento que atrela a vivência da sexualidade à "genitalidade" e à relação heterossexual faz parte do pensamento hegemônico acerca do tema, levando a uma dificuldade em conseguir multiplicar esse sentido e abrir espaço para novas produções.

Essa visão da sexualidade como estritamente relacionada ao encontro genital tem perpassado os processos de subjetivação contemporâneos. Essa linha de subjetivação foi modelada por discursos pertencentes a uma ordem disciplinar ortopédica. Essa ordem tem como pretensão "formar", "ordenar" e "individualizar os corpos" para regulamentá-los, torná-los "dóceis" para exercer o poder sobre eles(11). Na saúde, essa visão estereotipada da sexualidade serviu como instrumento para exercer um controle acerca da subjetividade, através da sexologia, da educação sexual, das práticas de cuidado com o corpo(12).

Percebendo a dificuldade de romper com este paradigma dominante, elaboramos a segunda oficina procurando criar um dispositivo que proporcionasse a emergência do novo. Foi assim que durante a segunda oficina esse sentido começou a se diferenciar e outras produções foram se construindo. A seguir, apresentaremos os diversos confetos de sexualidade produzidos pelo grupo. Entretanto, lembramos que essas produções, embora tensionem o conceito de sexualidade em outras direções, nem sempre estão completamente afastadas da visão hegemônica da sexualidade/ "genitalidade". Antes, configuram um campo heterogêneo, perpassado por linhas muito diversas e, algumas vezes, até contraditórias.

Um dos confetos que foi muito discutido é o da sexualidade/corpo com muitas partes. Esse confeto tem uma personagem conceitual que se chama Marciana. Ela veio de Marte, com um corpo irregular, com algumas partes do corpo duplicadas, e por esse motivo, não conseguia ser feliz. Segundo o grupo, apesar de não ser alguém que provoca insatisfação, a Marciana só poderia ser feliz se tivesse uma aparência "normal". Nossa personagem conseguiu manter um relacionamento com alguém, diferente fisicamente dela. No entanto, não conseguiu permanecer em nossa sociedade, que contempla a aparência, retornando ela e seu companheiro ao planeta de origem. Essa exigência de normalidade do corpo permitiu ao grupo problematizar a padronização do corpo característica da sociedade de consumo. Vivemos numa sociedade marcada pela "exterioridade" e "performance" dos corpos onde, muitas vezes, as pessoas não conseguem adequar-se ao protótipo de beleza lançado e exigido(11).

Ainda com relação à sexualidade/corpo foi interessante ter surgido no grupo a delimitação de seios e mãos como elementos da sexualidade. Esse fato nos chamou atenção, pois rompe com o percurso histórico construído sobre a sexualidade feminina que, ao mesmo tempo em que a controla, também a reduz ao campo da biologia e da reprodução da espécie. Entretanto, explorando um pouco mais essa linha, encontramos ainda uma vertente onde ela encontra o discurso do saber do médico, pois surge no grupo a noção do auto-exame das mamas como parte da sexualidade. É uma maneira de cuidar do corpo, mas também proporciona o conhecimento das sensações advindas com o toque.

Outras partes do corpo foram enfatizadas pelo grupo configurando uma linha que remete a estereótipos da mídia considerados emblemas da sexualidade: bumbum, cintura e barriga. Essa significação pertence à ordem de fetichismo do corpo que se mantém através de invenções proporcionadas pela tecnologia, indústrias farmacêuticas e terapias alternativas(12).

Outra linha da produção do grupo remete a uma sexualidade/bolinhas onde estão presentes vários simbolismos atribuídos à sexualidade. Esse grupo de simbolismos está relacionado ao órgão genital considerado metaforicamente como: "bolinhas", "ovinhos" e "negócios". Percebemos que a inibição de se referir a esse órgão acabou provocando a produção de outros significantes, pois é através do que não é revelado explicitamente, que encontramos os significantes, ou seja, o efeito da cultura e do social conduzindo às formas singulares de cada pessoa(13). Outro simbolismo que identificamos na produção do grupo foi o do ritual preparatório, relacionado aos jogos sexuais. Esse ritual começa com o momento de tomar banho, ficar cheirosa, bonita. Depois vem aquele momento do carinho que precede a relação.

Outro confeto produzido no grupo foi o da sexualidade/eu mesmo. Esse confeto é um momento em que a representação da sexualidade atrelada à genitalidade é rompida. Isso acontece com a elaboração do confeto de "eu mesmo". Nessa produção, a sexualidade passa a ser percebida como uma vivência subjetiva própria.

Seguindo com a produção do grupo, entramos agora no conceito de sexualidade/prazer. Esse conceito envolve siginificados de caráter prazeroso atribuídos à sexualidade. É uma experiência de ir para as nuvens, uma sensação boa, quase inexplicável e que significa o prazer. Essa energia que promove excitação é denominada libido. Freud a diferencia das demais energias psíquicas, pois seu efeito consegue atingir, de forma prazerosa, todas as partes do corpo(14).

A sexualidade/companheirismo também é abordada pelo grupo. Nesta perspectiva a sexualidade está presente em todo o convívio do casal, envolve o diálogo, a necessidade de compreensão mútua, o cotidiano, o amor, o respeito, o companheirismo. Desta forma, podemos referir que estas representações da sexualidade seriam exemplos do processo de singularização, ou um descarte dos modelos normativos. Entretanto, o grupo reconhece que nem sempre existe essa compreensão mútua, pois muitas vezes os relacionamentos são apenas de aparências.

Outra produção provocada pelos dispositivos utilizados foi a sexualidade/cobra; urso; gato. Esse conceito mostra uma oposição: de um lado o bicho carinhoso, mimoso e manhoso (geralmente um gatinho). Do outro, um bicho feroz, que machuca, mata e enfrenta os desafios (a cobra ou o urso). Essa dualidade remete ao estereótipo de gênero onde o papel de passivo, que espera a iniciativa do outro, indefeso, obediente, que cuida do lar e da família é ofertado à mulher. Por outro lado, o homem é entregue à virilidade, ao personagem do guerreiro que enfrenta os desafios, é corajoso, ativo, desbravador, voltado para as atividades externas, é aquele que deve tomar a iniciativa e vai atrás dos seus objetivos. Desta forma, as funções de cada sexo são inseridas no cotidiano e surgem nos discursos, no comportamento de cada um, na própria maneira de viver.

Entretanto, por ocasião da oficina de contra-análise, o grupo deixou claro que as coisas não acontecem necessariamente assim e que as mulheres, muitas vezes, preferem ser a cobra... A mulher tem a flexibilidade em ser "boa" ou "ruim", de acordo com o momento em que se está vivendo. Isto também foi associado ao lado "cobra" da mulher. Ou seja, foi atribuída a ela uma característica de versatilidade necessária aos dias atuais. Essa mulher-cobra sabe se defender e, em situações de violência, recorre à Lei "Maria da Penha". Ela foi sancionada pelo presidente do Brasil em 2006, sendo um dos mecanismos de combate à violência contra a mulher. A lei possibilita que o agressor seja preso em flagrante ou tenha decretada a prisão preventiva, como também, sua punição não poderá ser substituída por penas alternativas(15).

Por outro lado, lembra o grupo, os bichos considerados ferozes e violentos também têm necessidade de afetividade e agrupamento. Ou seja, a cobra cascavel encontrou outra e desenvolveu uma relação de amizade, enquanto o urso apaixonado passou a conviver com a ursa. Observamos nesses trechos que, apesar dos papéis de agressividade e passividade assumidos distintamente pelos sexos, os mesmos não são fixos e podem variar de acordo com a situação.

Outro conceito apresentado é o de sexualidade/Bercia. Segundo o grupo, a Bercia é a junção de bacia (parte anatômica do corpo da mulher) com berço, e este serve para embalar bebês. Neste aspecto, encontramos na literatura freudiana que a realização da natureza feminina está relacionada à maternidade(16). Entretanto, algum tempo depois, esse pressuposto foi criticado por Lacan, ao afirmar que a sexualidade feminina não se reduz à maternidade e que seu desejo escapa à questão fálica(17).

Contudo, apesar de toda a discussão acerca da dimensão do desejo da mulher, percebemos na fala do grupo um traço persistente da sexualidade/necessidade. Nessa linha está a necessidade de ser amada, respeitada, satisfeita em seus desejos. Esta situação nos reporta ao fato de que, historicamente, a mulher ocidental (mãe, esposa, filha, irmã, tia, amante, avó) sustenta uma posição reivindicatória pela via do amor. Entretanto, percebemos a necessidade da criação de espaços onde a mulher possa falar e se apropriar de sua responsabilidade frente aos seus desejos e à sua subjetivação, saindo dessa posição reivindicatória para um papel mais ativo(18).

Após todo esse percurso, percebemos que através dos dispositivos instaurados, houve uma rachadura no discurso hegemônico, favorecendo uma fuga da compreensão da sexualidade como somente ligada aos aspectos orgânicos. O grupo multiplica esse significado mostrando que a sexualidade também abrange o corpo, o simbólico, a afetividade, a descoberta individual, o prazer, a maternidade e, até mesmo, uma sexualidade animal. Essas passagens nos reportam ao fato de que o conceito de sexualidade foi ampliado, levado para uma dimensão mais complexa.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O grupo-pesquisador foi perpassado por muitos "afetos" inesperados. Percebemos o quanto tal prática foi necessária para o questionamento de conceitos cristalizados sobre sexualidade, trazidos previamente pelas co-pesquisadoras.

Fazendo uma breve retrospectiva desse processo, observamos que, inicialmente, o grupo apresentou um conceito modelizado sobre a sexualidade. Este conceito era vinculado à genitalidade e à relação sexual. Percebemos também que, durante a primeira oficina, houve uma tímida tentativa em romper com esta idéia homogênea quando o grupo referiu que às vezes a sexualidade também envolve o esquecimento do companheiro para encontrar o prazer de brincar. Outro ponto destacado como estando relacionado diretamente à sexualidade foi a importância da compreensão no relacionamento do casal e a infelicidade trazida para ambos quando eles tentam manter as "aparências" e não resolvem os conflitos existentes.

Observamos que, nas oficinas posteriores, cresceu a inquietação quanto às possibilidades de conceituação da sexualidade numa perspectiva diversificada. Assim, o grupo começou a correlacionar a sexualidade com sua própria imagem física e referiu a importância de sentirem-se bem com ela. Entendemos que esta forma física não é somente ligada aos aspectos perceptíveis do corpo/matéria, mas também ao corpo-psíquico.

Com relação ao aspecto do corpo psíquico, foi colocada a importância de falar sobre si mesmo. Foi mencionado também o fato de que as oficinas estavam proporcionando este repensar de si, e como estes momentos estavam ajudando-as no seu cotidiano. É interessante mencionarmos que o grupo relembrou que guardamos nossos defeitos e estes, não se encontram presentes no corpo físico, e sim, "velados" em algum lugar do corpo-psíquico.

Diante destas reflexões surgidas no grupo, foi nos proposta a continuação dessas atividades grupais, pois seu efeito estava sendo considerado "terapêutico". Naquele momento, notamos o quanto é importante para nós, profissionais de saúde, nos sensibilizarmos para percebermos aspectos diversificados e não cristalizados da experiência de cuidar, abrindo espaço para a produção de novas práticas.

Resta-nos ainda garantir que espaços sejam abertos, prioritariamente, para a escuta sensível dos desejos, angústias, repressões, criações, alegrias, vitórias e afetos que influenciam as relações humanas.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 20.5.2007
Aprovado em: 26.2.2008

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