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Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.1 Rio de Janeiro jan. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232014201.20342013 

Artigo

Representações Sociais de adolescentes sobre qualidade de vida: um estudo de base estrutural

Ramon Missias Moreira 1  

Eduardo Nagib Boery 1  

Denize Cristina de Oliveira 2  

Zenilda Nogueira Sales 3  

Rita Narriman Silva de Oliveira Boery 1  

Jules Ramon Brito Teixeira 1  

Ícaro José Santos Ribeiro 4  

Fernanda Carneiro Mussi 5  

1Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Saúde, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Av. José Moreira Sobrinho s/n, Jequiezinho. 45200-000 Jequié BA Brasil. ramonefisica@hotmail.com

2Faculdade de Enfermagem, Universidade Estadual do Rio de Janeiro

3Departamento de Saúde, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

4Centro de Pesquisa Gonçalo Muniz - BA, Fiocruz

5Programa de Pós- Graduação em Enfermagem, Universidade Federal da Bahia

RESUMO

Este estudo objetivou descrever os conteúdos e analisar comparativamente a estrutura das representações sociais de adolescentes sobre qualidade de vida. Trata-se de uma pesquisa descritiva, quantitativa, com referencial na abordagem estrutural das Representações Sociais. Foram informantes 316 adolescentes de 3 escolas públicas de Jequié (BA), sendo utilizada para coleta de dados a Técnica de Evocação Livre de Palavras, através do termo indutor "Qualidade de Vida". As evocações foram processadas pelo Evoc 2003, gerando o Quadro de Quatro Casas. Os resultados revelam no núcleo central os termos, alimentação saudável, atividade física, dinheiro e sexo; na 1ª periferia as palavras, ausência de doença, camisinha, liberdade, maconha, moradia, trabalho e viver bem; na 2ª periferia as evocações, dificuldade, família, paz e poder; e os elementos de contraste foram bem-estar e futebol. Compreendeu-se que os adolescentes associam qualidade de vida à prática desportiva e outros comportamentos saudáveis, estando influenciados pelos desejos e curiosidades da adolescência.

Palavras-Chave: Percepção social; Adolescente; Qualidade de vida

Introdução

A fase da adolescência é caracterizada por diversas alterações no corpo, no modo de ser, pensar e agir do adolescente. Sendo marcada por mudanças biológicas, sociais e de comportamento, as quais afetam de forma significativa os hábitos alimentares, as relações sociais, familiares, culturais e espirituais, e, de certa maneira, de (des)entendimento com o seu próprio eu1.

Trata de uma fase de aquisição de comportamentos de vida saudáveis e também de exposição a diversas situações de risco, das quais podem advir sérias consequências para o seu futuro e que podem interferir negativamente em sua qualidade de vida2. Nessa perspectiva, considerando que a qualidade de vida das populações é um tema amplamente discutido na atualidade, devido à exiguidade de investigações científicas direcionadas aos adolescentes3, surgiu a necessidade de realizar este estudo.

A qualidade de vida perpassa por diversas áreas do conhecimento e, apesar de não existir um único conceito, foi definida pelo The WHOQOL Group4 como a percepção do individuo de sua posição na vida, no contexto de cultura e sistema de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. Torna-se, dessa forma, um conceito subjetivo e multimodal, incorporando aspectos relacionados às diversas dimensões que compõem o ser humano, tais como aspectos físicos, psicológicos, sociais, ambientais e afetivos5.

Considerando os pressupostos descritos anteriormente, este estudo teve como objetivos descrever os conteúdos e analisar comparativamente a estrutura das representações sociais dos adolescentes sobre sua qualidade de vida.

Método

Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem quantitativa6 que teve como referencial o Núcleo Central7 da Teoria das Representações Sociais8. Essa abordagem estrutural, ou Teoria do Núcleo Central, enfatiza a dimensão cognitivo-estrutural das representações sociais, visto que esta se organiza em torno de um núcleo central que determina, ao mesmo tempo, sua significação e organização interna configurando solidez e sustentação à representação7 , 8.

O estudo foi realizado em 3 escolas públicas estaduais do município de Jequié (BA) e o cálculo amostral, foi feito através do software Epi Info, versão 3.5.3.0., sendo determinado 272 informantes, a partir da população de 1.161 adolescentes. Por conseguinte, considerou-se a adição de um reajuste amostral de 20% em decorrência da eventual perda, totalizando a amostra em 327 informantes.

Participaram adolescentes, na faixa etária entre 13 e 19 anos, cursando o ensino médio nos turnos matutino e vespertino. Neste estudo, obteve-se 3,4% de perda amostral (n = 11), devido a 3 recusas de participação e a 8 sujeitos que estiveram ausentes nas 2 tentativas de busca, totalizando a amostra em 316 participantes.

A pesquisa foi realizada no período de setembro de 2011 a julho de 2012. Para a coleta de dados foi utilizada a Técnica de Evocação de Palavras7, a partir do termo indutor: "qualidade de vida". Dessa forma, os informantes foram orientados a evocar as 5 primeiras palavras que lhes viessem imediatamente à mente, após dado o estímulo indutor9. Os dados produzidos foram processados através do software EVOC10, versão 2003, sendo organizados de acordo com a técnica de distribuição dos termos produzidos num Quadro de Quatro Casas10, o qual expressa o conteúdo e a estrutura central das representações sociais sobre o objeto em questão.

O Quadro de Quatro Casas corresponde ao esquema figurativo similar a um sistema cartesiano, composto por quatro quadrantes separados a partir dos valores de Frequência Média de Evocações e Média das Ordens Médias de Evocação. O eixo das abscissas (x) é representado por valores de Média das Ordens Médias de Evocação enquanto que o eixo das ordenadas (y) é composto por valores de frequência de aparição de termos evocados10.

Este estudo é originário de Dissertação de Mestrado, cujo projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (CEP/UESB). Os informantes menores de idade só participaram após a apresentação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) assinado pelos pais e/ou responsáveis11.

Resultados

De acordo com a caracterização dos participantes deste estudo (Tabela 1), observou-se que a maioria é do sexo feminino, correspondendo a 56,3% da amostra. A idade dos púberes variou entre 13 e 19 anos, sendo que a faixa etária com maior incidência foi de 16 a 17 anos (46,2%). Quanto à raça autorreferida dos participantes, houve um maior número de afrodescendentes (negros e pardos) totalizando 77,8% dos sujeitos. A maioria dos adolescentes está matriculada no 1º ano do ensino médio, correspondendo a 55,7% dos participantes. Ainda, no que diz respeito ao turno de estudo, a maioria dos adolescentes (59,2%) estuda no turno matutino.

Tabela 1. Características sociodemográficas dos adolescentes do estudo "Qualidade de vida e saúde de adolescentes: um estudo de Representações Sociais". Jequié-BA, 2012. 

Frequência
Variável N %
Sexo
Masculino 138 43,7
Feminino 178 56,3
Idade
13-15 131 41,5
16-17 146 46,2
18-19 39 12,3
Raça
Branca 70 22,2
Negra 105 33,2
Parda 141 44,6
Escolaridade
1º ano do ensino médio 176 55,7
2º ano do ensino médio 85 26,9
3º ano do ensino médio 55 17,4
Turno de Estudo
Matutino 187 59,2
Vespertino 129 40,8

A síntese dos resultados apresentada pela Tabela 2 foi elaborada a partir da análise do corpus formado pelas evocações dos 316 sujeitos sociais pesquisados. Percebeu-se que no processo de aplicação da Técnica de Evocação de Palavras foram elaboradas 1549 evocações que, após aproximação por semelhança semântica, resultou em 66 palavras ou expressões diferentes, apresentando média das ordens médias de evocação igual a 3, numa escala de 1 a 5.

Tabela 2. Síntese dos resultados da análise do corpus formado pelas evocações dos participantes no estudo "Qualidade de vida e saúde de adolescentes: um estudo de Representações Sociais". Jequié-BA, 2012. 

Técnica de evocação livre de palavras
Síntese
Número de informantes 316
Número total de palavras evocadas 1.549
Número de palavras diferentes 66
Frequência mínima / Ponto de corte 34
Frequência média de evocações 52
Média das ordens médias de evocações 3
Número de evocações desprezadas 672
Número total de evocações analisadas 17

Apresenta-se nesse mesmo Quadro, o número total de palavras evocadas que foi de 1549, dessas foram desprezadas da análise 672 palavras por terem sido evocadas com frequência mínima abaixo do ponto de corte, que foi igual a 34, restando 877 palavras. Tiveram 66 expressões distintas, sendo analisadas 17 evocações; a frequência média de evocações foi de 52.

Destarte, através do segmento RANGMOT do EVOC 2003, que classifica as palavras em afluên cias léxicas e de acordo com a ocorrência das evocações, com base no cálculo das frequências simples e acumuladas, foi possível elaborar a Tabela 3, a qual dispõe as 17 palavras evocadas com maior frequência, na ordem da 1ª à 5ª evocação. Os resultados apresentados permitiram uma avaliação estatística dos dados referentes à frequência (importância de contribuição das modalidades na construção dos fatores) e representam graficamente as variações semânticas na organização do campo espacial das evocações.

Tabela 3. Ordem da 1ª à 5ª evocação das palavras evocadas com maior frequência, do estudo "Qualidade de vida e saúde de adolescentes: um estudo de Representações Sociais". Jequié/BA/BR, 2012. 

Ordem da evocação
Palavras evocadas Frequência de evocação OME
Alimentação saudável 39 35 - - - 74 1,47
Atividade física 40 27 - - 2 69 1,51
Dinheiro 46 13 - - 4 63 1,46
Trabalho 2 4 25 15 16 62 3,61
Moradia 3 9 17 20 12 61 3,48
Liberdade 9 15 11 12 11 58 3,02
Maconha 1 1 41 12 3 58 3,26
Sexo 42 16 - - - 58 1,28
Ausência de doença 1 6 23 13 13 56 3,55
Viver bem - 10 12 19 15 56 3,70
Camisinha 5 10 12 14 14 55 3,40
Paz 2 4 16 9 5 36 3,31
Futebol 10 8 3 8 6 35 2,77
Bem-estar 6 16 3 9 - 34 2,44
Dificuldade 8 5 3 5 13 34 3,29
Família 4 1 7 7 15 34 3,82
Poder 7 5 6 4 12 34 3,27
Total 225 185 179 147 141 877 3,0

Estabelecida a categorização, por intermédio da agregação semântica, e com a supressão dos termos insignificantes, o corpus teve como total 877 palavras, equivalendo a 56,6% dos termos evocados. Ainda como se observa na Tabela 2, a frequência total dos termos varia da zona de 1 a 5, decrescendo de 225 para 141.

De posse desses dados, e considerando o relatório TABRGFR emitido no processamento do EVOC 2003, foi elaborado o Quadro de Quatro Casas10(Tabela 4), o qual expressa o conteúdo e a estrutura das representações sociais do fenômeno estudado. Para a construção desse quadro foram considerados como critérios a frequência média das evocações; e a frequência ponderada da ordem das evocações12. A média das ordens médias de evocação foi 3; a frequência mínima foi apresentada pelo valor 34, com uma frequência média registrada em 52.

Tabela 4. Quadro de Quatro Casas expressando o conteúdo e a estrutura das representações sociais do estudo "Qualidade de vida e saúde de adolescentes: um estudo de Representações Sociais". Jequié/BA/BR, 2012". 

Núcleo central Primeira periferia
Frequência Média ≥ 52 OME < 3 Frequência Média ≥ 52 OME ≥ 3
Freq. OME Freq. OME
Alimentação saudável 74 1,47 Ausência de doença 56 3,55
Atividade física 69 1,51 Camisinha 55 3,40
Dinheiro 63 1,46 Liberdade 58 3,02
Sexo 58 1,28 Maconha 58 3,26
Moradia 61 3,48
Trabalho 62 3,63
Viver bem 56 3,70
Zona de contraste Segunda periferia
Frequência Média < 52 OME < 3 Frequência Média < 52 OME 3
Freq. OME Freq. OME
Bem-estar 34 2,44 Dificuldade 34 3,29
Futebol 35 2,77 Família 34 3,82
Paz 36 3,31
Poder 34 3,27

Para a interpretação dos resultados adotou-se a abordagem proposta por Abric7, pela qual os termos que atendessem, ao mesmo tempo, aos critérios de evocação com maior frequência e nos primeiros lugares, ou seja, em ordem hierarquizada, supostamente teriam uma maior importância no esquema cognitivo do sujeito. Assim, se configurariam como hipótese de núcleo central da representação social.

Na Tabela 4, se distinguem quatro importantes elementos para a apreensão das representações sociais dos adolescentes sobre sua qualidade de vida. Nesse sentido, é constituído pelo núcleo central (quadrante superior esquerdo); pelos elementos da 1ª periferia (quadrante superior direito) e 2ª periferia (quadrante inferior direito); e pelos elementos de contraste da representação (quadrante inferior esquerdo)12.

Para efeito deste estudo, a Tabela 4 foi analisada descritivamente, estabelecendo a correlação dos termos evocados com a Abordagem Estrutural das Representações Sociais, permitindo a compreensão da organização da representação7. As evocações que aparecem no quadrante superior esquerdo são aquelas mais significativas para o sujeito, compondo o núcleo central, a saber: alimentação saudável, atividade física, dinheiro e sexo. No presente estudo, as palavras que compuseram o primeiro sistema periférico foram: ausência de doença, camisinha, liberdade, maconha, moradia, trabalho e viver bem. Estes léxicos reforçam os elementos centrais e são considerados como elementos periféricos, flexíveis e tangíveis, com maior frequência e menor importância10 , 12 atribuída pelos adolescentes entrevistados.

No que concerne à segunda periferia, quadrante inferior direito, compreendida pelas palavras, dificuldade, família, paz e poder, observou-se que esses elementos são mais claramente periféricos, vez que são menos frequentes e menos importantes10 , 12 para os adolescentes em suas representações.

Ainda nessa perspectiva da abordagem estrutural, observou-se que as palavras bem-estar e futebol são elementos de menor frequência e maior importância, compondo os elementos de contraste da representação10 e sustentando a solidez do núcleo central12.

Discussão

Apreender as representações sociais dos adolescentes sobre sua qualidade de vida requer a compreensão dos múltiplos fatores aos quais está relacionada à sua pertença, atentando-se não apenas aos aspectos biológicos desse período de transição, assim como, também, seus papéis, valores, crenças e atitudes.

A partir da análise da estrutura das representações sociais de adolescentes sobre qualidade de vida observa-se que para tal consecução é necessária uma alimentação saudável, que pode ser caracterizada por práticas alimentares com a ingestão de verduras, legumes, frutas e outros alimentos e excluindo-se frituras, sanduíches, refrigerantes e demais alimentos que, de alguma forma, podem prejudicar o processo de saúde/doença13.

As evocações que emergiram na estrutura da representação deste estudo reforçaram os resultados encontrados numa pesquisa14 sobre as representações sociais de 753 adolescentes sobre saúde, os quais representaram a saúde como forma de manter comportamentos de vida saudáveis, numa dimensão biomédica e no sentido de melhoria da qualidade de vida. Além disso, houve modificações da localização de alguns elementos referidos, alternando entre o núcleo central e o sistema periférico14.

A prática da atividade física em conjunto com a alimentação saudável tem efeitos e benefícios para a saúde, pois, pode reduzir os níveis de ansiedade, estresse e depressão, aumentar o humor, o bem-estar físico e psicológico, a autoestima, o rendimento nos estudos e nas demais atividades da sua vida diária, influenciando positivamente na qualidade de vida15.

As palavras bem-estar, viver bem, alimentação, trabalhar, atividade, esporte e doença no estudo de Reis et al.14 sugerem que as representações dos adolescentes sobre saúde assemelham-se com a estrutura figurativa destes sobre qualidade de vida. As dimensões dos hábitos de vida estão atreladas a comportamentos que resultam numa condição de saúde, estando esta relacionada a uma dimensão biomédica, interpretada como a ausência de doença (termo evocado neste estudo) e considerando que para se ter saúde e qualidade de vida é necessária a adoção de hábitos saudáveis, sendo aqui sustentadas pelas evocações alimentação saudável e atividade física.

O Ministério da Saúde, no intuito de promover hábitos saudáveis, visando a prevenção de doenças crônicas e a consequente melhoria da qualidade de vida dos brasileiros, dentre eles os adolescentes, implementou estratégias que direcionam atenção a este público, tais como o Programa Academia da Saúde, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), o Programa Saúde do Adolescente (PROSAD) e o Programa Saúde na Escola (PSE), que são iniciativas voltadas para incentivar o aumento da prática da atividade física, educação em saúde e de cuidados à saúde16.

Ações como estas podem reduzir a incidência e a prevalência de doenças e agravos transmissíveis, não transmissíveis e crônicos da fase adulta, visto que os adolescentes podem atuar como multiplicadores das ações de educação em saúde e, a partir da sua sensibilização, tornarem-se adultos saudáveis.

Ainda de posse dos elementos estruturais analisados neste estudo, compreendeu-se, por intermédio dos léxicos sexo e camisinha, que as representações da qualidade de vida na pertença dos adolescentes estão associadas à iniciação e prática sexual. Esse achado coaduna com o estudo de Cromack et al.17, os quais evidenciaram que o adolescente relaciona sua saúde com seu corpo em transição e o início de sua vida sexual. Esse pensamento é característico dessa fase de desenvolvimento, seja pelo motivo do corpo assumir novas funções sexuais, pelo desenvolvimento mental, pelas questões hormonais na puberdade, pelas relações afetivas, pelo ato de desafiar, pela curiosidade, pelo prazer exacerbado ou pela constante sensação de onipotência, de superar obstáculos e de provar o desconhecido. Ao estabelecer um paralelo com o estudo de Oliveira et al.18 com 746 adolescentes de escolas públicas do Rio de Janeiro, que evocaram um total de 2.956 palavras associadas ao termo sexualidade, sendo que destas 253 eram diferentes, observou-se que os termos camisinha e transar aparecem no núcleo central, demonstrando que a prática sexual não está dissociada da prevenção.

Entretanto, para os adolescentes pesquisados, o sexo lhes confere qualidade de vida, porém, o uso do preservativo está localizado na primeira periferia do seu pensamento, assim, muitas vezes, o uso deste pode estar sendo negligenciado, reforçando a ideia de que a camisinha não está sendo utilizada rotineiramente nas suas práticas sexuais e, consequentemente, eles estão se expondo a diversas situações de risco.

Contudo, apreendeu-se, também, que as evocações dos adolescentes sobre qualidade de vida apontam para um processo de transição entre os elementos da estrutura da organização das suas representações sociais sobre esse fenômeno, ultrapassando as barreiras da dimensão biológica, tornando-se um conteúdo mais atualizado, multidisciplinar, multidimensional e polissêmico.

A modificação da estrutura representacional e a migração dos elementos periféricos possui grande participação nesse processo de transformação das representações sociais, uma vez que seus componentes são mais acessíveis, vivos, concretos e relacionados à realidade imediata do sujeito, sendo assim, estão suscetíveis a um intercâmbio com a dinâmica social, indicando a forma como as práticas de educação em saúde interferem nessas representações, modificando a percepção e o comportamentos de risco dos adolescentes7.

Ganha grande notoriedade a evocação da palavra maconha, representado neste estudo na primeira periferia. Trata-se de uma droga potencialmente estimulante19 e a adolescência compreende um período de desafios, descobertas, de inserção social e autoafirmação de poder e popularidade entre os pares. Na concepção dos adolescentes, o uso da maconha supriria ilusoriamente os seus desejos e anseios, tornando-os invulneráveis a quaisquer riscos e sofrimentos, imunizando-os contra o perigo, o que segundo Lionel e Abric19 constitui um problema de saúde pública no cenário internacional. Em outro estudo20 realizado com estudantes franceses, verificou-se grande uso dessa droga pelos adolescentes, o que impacta negativamente na qualidade de vida dos mesmos.

Dessa forma, os adolescentes veem no consumo dessa droga ilícita uma possibilidade de fuga da realidade e dos conflitos, internos e externos, que vivenciam, tais como a experimentação sexual precoce, a impulsividade, o comportamento às vezes antissocial, a baixa autoestima, os conflitos intrafamiliares, a busca da independência e identidade, a liberdade de expressão, a tendência à indisciplina, desorganização, a busca por aventuras, dentre outras19 , 20.

Ao observar a estrutura representacional dos adolescentes, compreende-se que o desejo de independência financeira e o anseio de liberdade e de ir-vir-fazer-satisfazer suas necessidades pessoais, como sendo os próprios donos da razão e da decisão, foi expresso pelo termo dinheiro no núcleo central, e reforçado pelas evocações liberdade e trabalho na primeira periferia, tendo sido a família evocada na segunda periferia.

A representação de trabalho associada à qualidade de vida pode ser explicada por ser a maneira que eles têm de adquirir sua independência e, consequentemente, financiarem seu sustento e, até mesmo, da sua família, além da sensação de liberdade e autonomia que o dinheiro pode lhe oferecer, e da sensação de poder que isso pode lhe conferir. Proporcionando a esses adolescentes status social e representatividade no ambiente familiar e no grupo social nos quais estão inseridos21.

Por conseguinte, os elementos de contraste apreendidos, apresentam estreita ligação com os elementos do núcleo central, à medida que o futebol é considerado uma modalidade de atividade física, ou uma possibilidade de trabalho, de predileção da maioria dos jovens e essa prática, aliada à alimentação saudável e da posse de recursos financeiros suficientes para manutenção das suas necessidades, pode garantir o seu bem-estar físico e mental, influenciando positivamente na sua qualidade de vida.

A evocação bem-estar, que também aparece como importante elemento de contraste, torna-se um componente cognitivo conhecido como a percepção sobre a satisfação com a vida. Nesse mesmo sentido, este estudo entende o bem-estar como uma área de investigação que busca apreender as avaliações que as pessoas realizam sobre suas vidas22.

Com relação à segunda periferia, aqui constituída pelos léxicos, dificuldade, família, paz e poder, compreendeu-se que os adolescentes anseiam por mudanças nos seus hábitos e estilos de vida para melhoria da sua qualidade de vida, entretanto, nota-se que é um desejo individual, próprio dessa fase, na qual a família está localizada na periferia distante da sua representação social, coadunando com o estudo de Oliveira et al.23. Comparativamente, neste estudo com os adolescentes de Jequié, na Bahia, esses participantes também estabeleceram uma dicotomia no seu pensamento, tendo às vezes dimensões positivas, neutras e negativas, equilibrando assim esses elementos periféricos distantes.

Nesse sentido, ao passo que o termo dificuldade remete a aspectos sociais vivenciados (tais como, o desemprego, a falta de recursos financeiros, etc.), há uma necessidade, como no estudo de Oliveira et al.23, de sua identificação com o adulto através do termo poder (conferindo-lhe representatividade), sendo a família o suporte para suprir as necessidades desses adolescentes e capaz de lhe proporcionar paz e melhoria da qualidade de vida.

Isto posto, é notória a importância atribuí da por eles à dificuldade para adquirir hábitos de vida saudáveis e de ter dinheiro, assim como a paz e a sensação de poder que esses elementos podem proporcionar à sua vida e a importância que o sexo e a família têm na promoção da saúde sexual24 e na concretude de sua qualidade de vida25. Apesar de terem a função de proteger o núcleo central e estarem mais prontamente associadas ao contexto imediato desses atores sociais, podendo configurar-se como a verdadeira periferia dessas representações.

Conclusão

Percebe-se que os adolescentes associam a qualidade de vida à prática desportiva e outros hábitos de vida saudáveis, estando influenciados pelos desejos, curiosidades e prazeres da adolescência, como o sexo, o futebol, o uso da maconha. Referem, ainda, dificuldade para conquistar os meios capazes de lhes proporcionar o bem-estar, contudo, veem no trabalho uma maneira de prover os recursos necessários para viver bem e em paz com sua família, além de lhes dar representatividade no meio social no qual estão inseridos.

Portanto, acredita-se que a partir da análise psicossocial dos indivíduos em relação com o objeto de estudo pode-se contribuir para a reflexão e o direcionamento das ações e estratégias que culminem em intervenções de prevenção de doenças, promoção e manutenção da qualidade de vida, além de subsidiar os próprios adolescentes, os gestores e as equipes formuladoras das políticas públicas em saúde e educação.

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Recebido: 22 de Agosto de 2013; Revisado: 15 de Outubro de 2013; Aceito: 22 de Outubro de 2013

Colaboradores RM Moreira, IJS Ribeiro, RNSO Boery, EN Boe ry, DC Oliveira, ZN Sales, JRB Teixeira e FC Mussi participaram igualmente de todas as etapas de elaboração do artigo.

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