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Revista Gaúcha de Enfermagem

versão On-line ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.36 no.1 Porto Alegre jan./mar. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2015.01.45636 

Artigos Originais

O cuidar de pessoas idosas institucionalizadas na percepção da equipe de enfermagem

Fabíola de Araújo Leite Medeiros a  

Jullyana Marion Medeiros Oliveira b  

Raquel Janyne de Lima c  

Maria Miriam Lima da Nóbrega d  

aEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Professora da Universidade Aberta à Maturidade (UAMA/UEPB). Campina Grande, Paraíba, Brasil

bEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora do Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Natal, Rio Grande do Norte, Brasil

cAcadêmica de Enfermagem na Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, Paraíba, Brasil

dEnfermeira. Professora Doutora Titular do Departamento de Enfermagem em Saúde Pública e Psiquiatria, da Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Pesquisadora do CNPq. João Pessoa, Paraíba, Brasil

RESUMO

Objetivou analisar a percepção da equipe de enfermagem sobre o cuidar de pessoas idosas institucionalizadas. Estudo qualitativo e exploratório, realizado nas seis instituições de Longa do município de João Pessoa (PB), Brasil, entre os meses de janeiro e junho de 2013. Participou 50% do universo de funcionários de enfermagem das instituições, totalizando 13 participantes, cujos dados foram coletados por meio de um questionário semiestruturado. Utilizou-se a análise do conteúdo, e foram construídas duas categorias temáticas: I) Percepções sobre a realização de cuidados pela equipe de enfermagem nas instituições; e II) Percepções sobre o ato de cuidar a ser desenvolvido pela equipe de enfermagem nas instituições. Conclui-se que há uma compreensão da necessidade de um cuidar individualizado e sistematizado pela equipe de enfermagem, que vise à prevenção dos agravos, à promoção da saúde e ao envelhecimento ativo nas instituições.

Palavras-Chave: Enfermagem; Instituição de longa permanência para idosos; Envelhecimento; Cuidados de enfermagem

INTRODUÇÃO

O aumento da população idosa e da expectativa de vida no Brasil têm determinado conquistas sociais significativas ao desenvolvimento humano, no entanto, estas serão consideradas como aquisições positivas quando associadas à qualidade de vida das pessoas idosas brasileiras. O cuidado dispensado, nesse contexto, exigirá execução de políticas públicas de saúde em prol da garantia dos direitos dessas pessoas, da atuação de gestores na inserção social e da produção de conhecimento nos centros de ensino e pesquisa, visando benefícios à população que envelhece( 1 ).

As modificações no padrão etário e epidemiológico no Brasil têm gerado preocupações de estudiosos e gestores da área da gerontologia em buscar caminhos viáveis para garantir a qualidade aos anos de vida das pessoas idosas, refletindo sobre vulnerabilidades da velhice e do processo de cuidado dessa população( 2 ).

Dentre as redes de apoio, encontram-se as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), que servem de residências aos que delas recorrem ou para aquelas pessoas desprovidas de cuidadores e/ou em condições precárias que necessitem de abrigo e da provisão de cuidados( 3 - 5 ).

Estudo aponta que, no cenário em que se encontram as ILPIs brasileiras, de um modo geral, há necessidade de contratação de mais profissionais que compunha a equipe multiprofissional como: médico, enfermeiro, fisioterapia, fonoaudiólogo, nutricionais, educador físico, assistente social, cuidador de idosos e técnicos de enfermagem. Dentre esses, a equipe de enfermagem é indispensável, por desenvolver atividades diretas ao processo de cuidar( 3 ).

Compete ao enfermeiro funções de ordem administrativa, assistencial, educativa, e de pesquisa. Por conseguinte, ressalta-se a importância da utilização do processo de enfermagem como ferramenta essencial de trabalho nas instituições a ser executado por toda a equipe de enfermagem( 3 - 5 ).

O processo de enfermagem, quando implementado nas instituições, possibilita a organização do cuidado por diminuir o risco de dependências físicas da pessoa idosa, por possibilitar determinantes de saúde através da avaliação contínua da capacidade funcional, e por estabelecer metas requeridas frente às necessidades da pessoa idosa, de forma individualizada( 3 - 5 ).

A institucionalização, como ambiente de moradia para a pessoa idosa, deveria ser considerada como uma resposta positiva para a pessoa. Estudos relatam que quando não há planejamento assistencial, a institucionalização poderá ser considerada como um processo de perdas na vida dos idosos, levando a fragilização da velhice( 3 - 5 ).

O Processo de Enfermagem nesses ambientes, na maioria das vezes e ao longo da própria história a qual se inscrevem as ILPIs no Brasil, esteve voltado ao cuidar por caridade e sem organização e planejamento. Fato, possivelmente, que pode ter comprometido o desenvolvimento do cuidado integral ao ser humano e com qualidade nessas instituições.

Este estudo se torna relevante por possibilitar a sensibilização sobre o processo de Enfermagem em ILPIs, visando buscar entendimentos para uma futura reestruturação de práticas de cuidados de enfermagem nas instituições e, dessa forma, atentar-se para a procura por melhorias assistenciais aos idosos institucionalizados.

O estudo se fundamentou na seguinte questão norteadora: quais são as percepções da equipe de enfermagem sobre o cuidar de pessoas idosas em ILPIs? E teve, por conseguinte, o objetivo principal de analisar as percepções da equipe de enfermagem sobre o cuidar de pessoas idosas em ILPIs.

METODOLOGIA

Tratou-se de uma pesquisa exploratória e qualitativa realizada em seis ILPIs do município de João Pessoa/PB, Brasil, entre os meses de janeiro a junho de 2013. Foram visitadas todas as ILPIs do município, de acordo com dados fornecidos pelo Conselho Regional de Enfermagem (COREN/PB). Ressalte-se que todas as ILPIs do município de João Pessoa/PB, Brasil, no período da coleta de dados, eram de caráter filantrópico, e albergavam em média de 20 a 100 pessoas idosas.

O universo de profissionais pertencentes à equipe de enfermagem nas seis ILPIs equivalia a 26, destes 13 (50%) participaram da amostra: (05 enfermeiros e 08 técnicos de enfermagem).

Critérios de inclusão: pertencer à equipe de enfermagem das ILPIs perante quadro funcional estável e sob-registro em carteira de trabalho, querer contribuir com o estudo, e não estar realizando atividade de cuidado no período da coleta. Critérios de exclusão: ser cuidador de idosos e estar cursando algum curso de enfermagem, não tendo vínculo de trabalhador de enfermagem na ILPI.

A coleta de dados foi realizada através de um questionário semiestruturado, aplicado através da técnica de entrevista individual. O instrumento continha questões sobre: aspectos socioeconômicos, trabalhistas, formação em enfermagem, grau de instrução e entendimentos sobre o processo de cuidar de pessoas idosas institucionalizadas e o processo de enfermagem. Para nortear a percepção da equipe de enfermagem, foram feitos os seguintes questionamentos: Como você percebe o processo de cuidar da enfermagem na instituição? Quais dificuldades enfrentadas pela equipe de Enfermagem? Quais sugestões de melhoria do cuidar de enfermagem?

Os dados foram analisados e categorizados seguindo a análise do conteúdo de acordo com Bardin( 6 ). As falas foram submetidas à análise temática, sendo classificadas a partir da pré-análise. Essas foram organizadas a partir do material coletado e da sistematização das ideias, sob leitura meticulosa das respostas obtidas pelo questionário, com base na revisão sistemática da literatura. Foi feito a categorização e quantificação das unidades temáticas de acordo com as respostas dadas.

O estudo possibilitou elencar duas categorias temáticas: I) Percepções sobre a realização de cuidados pela equipe de enfermagem nas instituições; e II) Percepções sobre o cuidar a ser desenvolvido pela equipe de enfermagem nas instituições. Ambas foram propostas pela própria informação de estudos brasileiros que há um processo sistemático, não escrito, do cuidar em ambientes institucionais e que precisa ser refletido junto ao conhecimento de Enfermagem e da Gerontogeriatria; e outra pela a sugestão de alguns artigos já publicados que discorrerem sobre a organização do processo de cuidar em instituição de longa permanência para idosos como meio viável a melhoria do padrão assistencial( 5 , 7 - 10 ).

A apresentação dos resultados foi organizada dentre as duas categorias temáticas, identificadas por códigos preestabelecidos pelos pesquisadores, os quais incluem a letra "E" e numerações específicas para procedimentos de catalogação dos resultados, os quais são controlados sob a garantia do anonimato previsto pelos procedimentos éticos. Diante da similaridade de respostas foram escolhidas duas falas para elucidação dos resultados encontrados do presente estudo.

Foram levados em consideração todos os aspectos éticos de pesquisas envolvendo seres humanos e protocolo aprovado sob registro CAEE de nº. 10895812.7.0000.5188, sendo apreciado através do Comitê de Ética da Universidade Federal da Paraíba. Foi garantida a voluntariedade e o anonimato com autorização registrada em Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), conforme recomenda as resoluções vigentes no território brasileiro para realização de pesquisa com seres humanos.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A equipe de enfermagem, das seis ILPIs visitadas, era composta por indivíduos do sexo feminino na sua totalidade, e com faixa etária entre 20 a 39 anos. Em relação às categorias de Enfermagem: cinco eram enfermeiros e oito atendiam como técnicos de enfermagem. Dos 13 participantes do estudo, seis afirmaram ter recebido alguma formação na área de cuidados às pessoas idosas ou alguma formação em gerontologia.

Estudos realizados em ILPIs brasileiras em diferentes regiões do território nacional apresentaram um enquadramento funcional de enfermagem similar à realidade encontrada no município de João Pessoa /PB, situado na Região Nordeste do Brasil. Pesquisas revelam que nas instituições brasileiras, a maioria mantém o profissional o enfermeiro, sendo esse em sua maioria do sexo feminino( 3 , 7 ).

Os resultados analisados apontaram para duas categorias temáticas relacionadas ao que a equipe de enfermagem percebia em relação ao que executavam e ao que poderiam executar para melhorarem sua lida diária dentre as práticas de cuidado a pessoa idosa, e como deveria ser a ação de cuidados pela equipe na instituição.

Categoria I: Percepções sobre a realização de cuidados pela equipe de enfermagem nas instituições

Os cuidados desenvolvidos pela equipe de enfermagem foram por unanimidade citados como atividades distintas: uma relacionada como as desenvolvidas pelas enfermeiras e, outra, como as atividades desenvolvidas pelos técnicos de enfermagem. Sendo os enfermeiros incumbidos da: consulta de enfermagem, realização de curativos mais complexos, avaliação da capacidade funcional, e organização da distribuição de medicamentos de acordo com a prescrição médica, necessidade de encaminhamentos a consultas médicas e educação em saúde. E os técnicos de enfermagem afirmavam executar as atividades relacionadas à administração de medicamentos, execução de curativos, prevenção de úlceras por pressão e aferição de sinais vitais.

As atividades, acima relatadas, eram desempenhadas, na maioria das vezes, em colaboração mútua de todos da equipe de enfermagem junto com os cuidadores de idosos que ajudavam com as atividades de vida diária, por exemplo: a deambulação, mudança de decúbito e higiene corporal. Em três das ILPIs visitadas houve a menção da existência de rotinas de cuidados de enfermagem e da consulta de enfermagem.

As práticas de assistência supracitadas estão em conformidade para o exercício da enfermagem no Brasil, condizentes ao decreto de nº 94.406/87 que regulamenta a Lei de nº 7.984/86 do Exercício de Enfermagem no território brasileiro e das outras providências às categorias de Enfermeiro e Técnico de Enfermagem( 11 ).

Os membros da equipe de enfermagem perceberam suas ações de cuidados nas instituições, compreendendo as atribuições específicas da profissão e da indispensabilidade do cuidar individualizado à pessoa idosa institucionalizada. Porém, foi citado por unanimidade, que muitas vezes, o cuidado sistematizado e individualizado é permeado por alguns obstáculos institucionais como diminuição de pessoal técnico capacitado em lidar com a pessoa idosa, impedido que as ações sejam efetivadas como planejadas.

As prestações dos serviços de saúde em ILPI deveriam intervir, em primeiro plano, nas necessidades individuais de cada residente, principalmente quando relacionadas às dificuldades de realização das atividades de vida diária. Muitas são as incapacidades advindas de doenças crônicas que determinam demanda de serviços de cuidados específicos às necessidades básicas do ser humano como: banhar-se, vestir-se, alimentar-se, ir ao sanitário, dentre outras que se correlacionam com serviços prestados ao processo de cuidar( 7 - 8 ).

As falas a seguir remetem a rotina de cuidado na instituição e as dificuldades percebidas pela equipe de enfermagem na execução das práticas de cuidado:

Meu cuidado principal está relacionado à situação de saúde dos idosos e dentre as atribuições e necessidades atuo encaminhando para o médico, fazendo curativos, preocupando-se com a distribuição dos medicamentos, pois são muitos medicamentos e idosos, e aí há necessidade de avaliação constante. Minhas funções se direcionam mais com as questões de controle dos problemas de saúde. (E.4)

Há pouco pessoal de enfermagem para muita demanda de serviço. Tento planejar um cuidado mais individual, mas fica difícil. Eu faço minha parte como enfermeira. São 110 idosos residentes, e aproximadamente mais da metade apresentam dependência física para alguma atividade de vida diária. Precisamos conferir a pressão arterial e estar atentos às úlceras por pressão. (E.6)

Verificou-se por parte da equipe de enfermagem que participou desse estudo, o clamor por aperfeiçoamento gerontogeriátrico para equipe de enfermagem. A necessidade de mais profissionais para atuarem nas instituições também foi referida como precisão imperativa para melhoria assistencial dos cuidados de enfermagem para os idosos institucionalizados. Já que, nesses ambientes os recursos humanos foram citados como limitados frente à demanda de serviços devido ao elevado grau de dependência física que os residentes apresentam, conforme também já foi ditado por outro estudo realizado em ILPIs em outros países, além do Brasil( 8 ).

O cuidado de enfermagem necessário para idosos residentes em ILPIs precisa de organização, tendo em vista a satisfação das múltiplas necessidades. Sejam essas necessidades dos idosos e/ou das reformulações estruturais e funcionais das próprias organizações de trabalho, que determinarão um perfil para as instituições como lares, com a finalidade de proporcionar aos seus residentes a possibilidade de vida comunitária e assistência integral de saúde( 3 ).

Compreendeu-se através da entrevista feita com a equipe de enfermagem, que há necessidade de se ter ações mais planejadas da equipe de enfermagem. Observou-se também que o cuidado, quando dito planejado por parte de três das ILPIs visitadas, acontecia aparado nos modelos biologizantes, de um cuidado medicalizado/curativista, ditado pelo o médico da instituição e pouco valorizado como um cuidado autônomo da enfermagem.

Ademais, estes dados coincidem com os dados de outros trabalhos publicados sobre institucionalização de pessoas idosas, os quais discorrem que os cuidados de enfermagem estavam relacionados à recuperação das doenças, principalmente voltados às ações biomédicas, e não dentre uma concepção mais humanística ou holística. A essa realidade, infere-se na busca por ações de cuidado embasadas em ideais de promoção da saúde e prevenção de agravos, no atendimento das necessidades humanas, relacionados à vida comunitária e a inserção social com qualidade de vida( 3 - 5 , 7 - 10 ).

Urge a necessidade de incentivar à mobilização de políticas públicas em relação provisão de apoio às instituições com a publicação de trabalhos que descrevam a realidade das instituições buscando meios que venham a solucionar os problemas estruturais e funcionais das que as mesmas enfrentam.

Constata-se no Brasil a necessidade de reestruturação das ILPIs como espaços de bem-estar, e provisão de cuidados necessários aos idosos que delas recorrem. É percebido que as ILPIs ainda são vistas como abrigos de idosos abandonados, e não é reconhecida como ambiente terapêutico e institucional.

O cuidado prestado aos idosos em ILPs no Brasil ainda é realizado na provisão de ações de cuidado na higiene, administração de medicamentos e provisão da alimentação. Deveria, sim, ser acrescentadas atividades de lazer e, sobretudo, na observação da evolução das condições que gerassem bem-estar aos idosos residentes( 10 ).

Ademais, observa-se ainda que o envelhecimento ativo ainda não é otimizado como práticas nas ILPIs. Os profissionais de saúde deveriam trabalhar com foco na promoção da saúde e qualidade de vida( 12 ).

As percepções dos profissionais de enfermagem ao cuidar do idoso institucionalizado estiveram focadas na necessidade de formação técnica-profissional e ampliação do quadro de funcionários, e foi mencionado também há necessidade do cuidado mais humanizado. As falas da equipe de enfermagem remetem também satisfação em cuidar da pessoa idosa nas ILPIs.

As falas citadas abaixo revelam a subjetividade apresentada em colaboração aos cuidados técnicos oferecidos pela equipe de enfermagem a pessoa idosa institucionalizada:

Acho meu trabalho gratificante, me sinto bem em poder dar atenção e carinho aos idosos, pois sei que um dia posso está no lugar deles. (E.6)

Uma das coisas mais importantes envolvidas no processo de cuidado nas instituições são amor, paciência e responsabilidade com os idosos, pois muitas vezes os idosos chegam tristes e abandonados. Seremos também idosos e precisamos nos sentir e nos envolver mais com os processos de cuidados nessas instituições. (E.10)

O idoso institucionalizado, na maioria das vezes, perde sua autonomia, pois compartilha sua vida com pessoas desconhecidas e sente-se, em algumas ILPIs, obrigado a adaptar seus hábitos, horários, dietas e atividades aos horários ditados pelas instituições. A enfermagem precisa apropriar-se de conhecimentos gerontogeriátricos, interdisciplinares e multidimensionais, que venham a dar suporte ao entendimento ao processo de trabalho complexo, como é o caso da ILPIs( 13 ).

A alta prevalência de dependência entre os idosos nas Instituições de Longa Permanência requer maior investimento em recursos humanos, de modo a garantir a atenção interdisciplinar e multiprofissional voltada para a promoção da saúde e prevenção da incapacidade funcional. Sendo assim, o envelhecimento populacional traz desafios para a sociedade, exigindo a implementação e a efetivação de políticas públicas sociais e de saúde condizentes com a realidade das ILPIs e com a promover a qualidade de vida dos residentes( 13 - 15 ).

Ao acompanhar a rotina da equipe de enfermagem, ao longo da coleta de dados desse estudo, verificou-se que em cinco das seis ILPIs visitadas, todas, essas, apresentavam posto de enfermagem, onde se encontrava os prontuários dos residentes. Com extrema organização de controle das medicações individuais distribuídos para horários diurnos e noturnos registrados por cores de canetas distintas (azul para turno diurno e vermelho para turno noturno), da mesma forma que acontece na instituição hospitalar. Observou-se que três das seis ILPIs, havia uma ala destinada a enfermaria de cuidados mais intensivos aos idosos acamados e com problemas mais sérios de saúde. Denotando que nas instituições havia a organização conforme as normas biomédicas estabelecidas para instituições de saúde no Brasil.

Percepções sobre o ato de cuidar a ser desenvolvido pela equipe de enfermagem nas instituições

Em relação às percepções sobre ações que poderiam ser desenvolvidas para melhorar o processo de cuidado pela equipe de enfermagem nas ILPIs, foram possíveis verificar que a utilização de um plano de cuidados poderia direcionar melhor os processos de saúde e se ter padrões melhores para avaliação do cuidado prestado. O que ficou evidente no seguinte discurso:

Ainda não consegui implantar uma sistematização da assistência de enfermagem (SAE) envolvendo um cuidado mais planejado, individualizando, e usando uma terminologia própria. Tive vontade, mas ainda não tive nem tempo e nem apoio. Porém, tenho executado minhas tarefas num planejamento mental e dentre os prontuários de alguns idosos que se encontram acamados, tenho descrito as ações de enfermagem perante duas etapas do processo, a prescrição e evolução de enfermagem aos idosos que necessitam de assistência mais direta da equipe de enfermagem. Aqui a enfermagem registra todas as ocorrências e faz todo o registro dos acometimentos com o idoso residente e passa tudo para o médico. É assim, fazemos o que podemos, mas com muita responsabilidade. (E.8)

Percebeu-se a necessidade da implantação de um prontuário de enfermagem que contemple a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) voltada à saúde do idoso, com atendimento às necessidades de vida diária, manutenção e recuperação das condições de saúde. Foram observadas perante a percepção da equipe de enfermagem que havia necessidade de desenvolvimento de um processo sistematizado de cuidar que proporcionasse melhoria as condições de saúde e qualidade de vida aos idosos institucionalizados.

A equipe de enfermagem, por unanimidade, referenciou que a sociedade e as famílias das pessoas que buscam a institucionalização precisam compreender que uma ILPI consiste em uma moradia especializada. Uma instituição de caráter residencial, cujas funções são proporcionar atendimento gerontogeriátrico, de acordo com as necessidades das pessoas residentes, que se integra a um sistema contínuo de cuidados. E não um abrigo para idosos abandonados. O atendimento precisa estar centrado na integralidade e não em aspectos apenas de ordem assistencialista, que inibe a promoção do envelhecimento ativo, e se volta apenas a ações focadas na demanda de atividades cotidianas e controle de doenças( 3 , 5 ).

É indispensável que haja envolvimento institucional, social e das políticas públicas voltadas às pessoas idosas institucionalizadas.

Torna-se necessário reconhecer que o processo de envelhecimento populacional tem gerenciado uma demanda por serviços cada vez mais especializados como é o caso das instituições( 3 ).

A formação em enfermagem também precisa estar apta a inserir dentro dos seus currículos conhecimentos voltados a pessoa idosa e o processo de envelhecimento humano, abrangendo o debate para os espaços de cuidado necessários para atuação da prática de enfermagem frente a saúde da pessoa idosa( 3 ).

Para realizar a SAE, é preciso conhecer as teorias de enfermagem, entender as etapas da vida, procurar os constructos teóricos que fundamentam a ciência dos cuidados para que possam saber escolher pela melhor maneira de atender às necessidades humanas( 3 ).

Um processo de enfermagem em uma ILPI possibilitaria a reflexão, por exemplo, de se compreender através da consulta de enfermagem, os motivos da institucionalização, a história de saúde, os problemas de saúde atual, o uso de medicamentos e identificar parâmetros importantes na avaliação da capacidade funcional. Os diagnósticos de enfermagem identificarão as prioridades dos focos de ação da enfermagem; o planejamento das atividades incluirá uma a ação em prol das prioridades traçadas dentro de um processo terapêutico que estará em constante avaliação no processo de trabalho( 14 - 15 ).

A fala a seguir demonstra a preocupação do profissional de enfermagem com a elucidação de uma proposta de cuidar que visa à promoção a saúde da pessoa idosa:

Pretendo esse ano, reavaliar todos os idosos, quanto à avaliação da capacidade funcional, para podermos ter parâmetros avaliativos de condutas de enfermagem em prol do envelhecimento ativo. (E.13)

Essa fala pondera mais uma vez de que há intenção da enfermagem em buscar o planejamento do processo de cuidar em enfermagem, facilitando intervenções do cuidado mais individualizado e com promoção de saúde, não apenas visualizada no modelo biologizante. Há muito que se buscar, e o que se entender para (re)construir um cuidado de enfermagem mais humano, mais digno e por que não dizer mais solidário, dentro dos princípios do conhecimento científico da profissão e do exercício profissional vigente no Brasil para a equipe de enfermagem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir desse estudo, pôde-se concluir que as equipes de enfermagem que desenvolviam seu papel de cuidar em ILPIS possuíam percepções voltadas à essencialidade de suas funções profissionais diante da assistência aos seus clientes e usuários de seus serviços, no caso da pessoa idosa institucionalizada.

Observou-se que os profissionais se percebiam como peças fundamentais relacionadas ao cuidado cotidiano. Eles exerciam suas competências profissionais, precisando sim, ter mais apoio institucional em relação à organização do serviço de enfermagem, capacitação em Enfermagem gerontogeriatrica e ampliação do número de funcionários no quadro funcional das instituições.

A equipe de enfermagem citou desenvolver atividades fundamentadas nas necessidades individuais de cada residente idoso, numa perspectiva ainda do modelo biologizante. Verificou-se, ao mesmo tempo, que há uma compreensão por parte da equipe da necessidade de capacitação técnica que ampare melhor a conduta da enfermagem nas instituições de longa permanência.

Dentre as limitações do estudo, foi considerado o número limitado de profissionais que compunha a equipe de enfermagem nas instituições, fato esse marcado pelo excesso de tarefas e rotinas observadas no período da coleta de dados. E outra, foi à inexistência do apoio institucional na compreensão das demandas da equipe de enfermagem em planejar o cuidado.

Conclui-se que é indispensável à ampliação de estudos sobre o cuidado de enfermagem nas ILPIs visando à melhoria de sua colaboração junto às pessoas idosas residentes. Há necessidade também de desmitificar as ILPIs como antigos abrigos de idosos abandonados. E por fim, precisa-se l utar por essas instituições como ambientes terapêuticos, como espaços que tragam dignidade, privacidade e bem-estar para todos que dela usufruem: os próprios idosos, funcionários e comunidade.

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Recebido: 14 de Março de 2014; Aceito: 03 de Março de 2015

Endereço do autor: Fabíola de Araújo Leite Medeiros Rua Baraúnas, 351, Bairro Universitário 58429-500, Campina Grande, PB E-mail: profabiola@bol.com.br

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