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Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia

Print version ISSN 0004-2730

Arq Bras Endocrinol Metab vol.42 no.4 São Paulo Aug. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27301998000400003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Incidentalomas da tireóide

 

 

Rosalinda Y. A. de Camargo; Eduardo Kiyoshi Tomimori

Unidade de Tireóide, Disciplina de Endocrinologia Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Endereço para correspondência

 

 

A PREVALÊNCIA DOS INCIDENTALOMAS DA TIREÓIDE varia muito dependendo do país onde foi realizado o estudo. Sabemos que os nódulos tireóideos são mais comuns em mulheres, em pacientes idosos, em áreas de carência de iodo e também em pacientes submetidos à radiação (1). Em quase todos os grandes centros, o método diagnóstico mais empregado atualmente para se diferenciar os nódulos benignos dos malignos é a punção aspirativa por agulha fina (2–11).

Nos últimos anos, com a introdução dos modernos métodos diagnósticos por imagem como a ultra–sonografia, tem sido identificado um número cada vez maior de lesões nodulares não palpáveis da tireóide, denominados de incidentalomas. A recomendação existente até então, de se biopsiar todos os nódulos tireóideos, tem criado um problema sério na avaliação destes incidentalomas, quer seja pela sua alta prevalência ou pela dificuldade de se puncionar tais lesões pela palpação. A necessidade de se utilizar novas técnicas de punção, utilizando–se a ultra–sonografia para dirigir a biópsia, tem elevado o custo da avaliação de todos esses nódulos, além de exigir um profissional mais habilitado para realizar tais punções. As controvérsias existentes quanto à avaliação e conduta aumentaram. Os modelos existentes até o momento são inadequados para se avaliar e determinar a conduta adequada frente aos incidentalomas.

Em nossa opinião, é recomendável uma nova análise na abordagem e na conduta diante de tais lesões.

 

PREVALÊNCIA

Nos estudos realizados sobre a prevalência dos incidentalomas diagnosticados pelo ultra–som, diversos fatores devem ser levados em consideração, tais como: região geográfica, ingestão de iodo pela população, influência genética e falta de padronização na caracterização dos nódulos tireóideos ao exame ultra–sonográfico. Sabemos que o ultra–som é um exame dinâmico e sua eficácia depende diretamente da habilidade do examinador. Portanto, a avaliação das lesões nodulares da tireóide pelo exame ultra–sonográfico varia enormemente. Pseudo nódulos como, por exemplo, imagens nodulares hipoecóicas observadas na tireodite de Hashimoto, que correspondem às áreas de maior infiltrado linfocitário, ao exame histológico, contribuem para aumentar a prevalência dos incidentalomas. Apesar disso, o número de nódulos tireóideos não palpáveis diagnosticados pelo ultra–som tem aumentado significativamente (tabela 1)(12).

 

 

ULTRA–SONOGRAFIA DA TIREÓIDE

Em um estudo comparativo entre o exame clínico e o exame ultra–sonográfico da tireóide, Brander demonstrou que a palpação da tireóide não é eficaz para o diagnóstico dos nódulos e para classificá–los em solitário ou múltiplos, e que o exame ultra–sonográfíco freqüentemente altera a avaliação clínica inicial da tireóide (13). Em estudo comparativo entre a palpação e o exame ultra–sonográfico da tireóide, Tan concluiu que 50% dos pacientes com nódulos solitários diagnosticados pela palpação apresentavam vários nódulos quando examinados pelo ultra–som. Esse autor sugere que a palpação é menos sensível que o ultra–som na avaliação da tireóide multinodular e que a palpação é confiável somente se o nódulo tiver mais de 1 cm de diâmetro (14).

A capacidade do exame ultra–sonográfico diferenciar nódulos tireóideos benignos de malignos é controverso. Na avaliação dos nódulos tireóideos realizado por Takashima, os nódulos hiperecóicos são geralmente benignos, os isoecóicos têm somente uma pequena probabilidade de serem malignos enquanto que os nódulos hipoecóicos têm maior probabilidade de malignidade (15). Müller, em um excelente trabalho, demonstrou que se um nódulo tireóideo apresentar um padrão homogêneo e isoecóico, pode–se afastar a hipótese de malignidade (16). Klima afirma que a probabilidade de um nódulo anecóico, hiperecóico ou isoecóico ser maligno é da ordem de 1/1000 (17). Portanto, o ultra–som pode ser utilizado na avaliação inicial dos nódulos tireóideos e o encontro de nódulos isoecóicos ou hiperecóicos, na prática, afasta a possibilidade de malignidade. Isto é um dado importante pois podemos selecionar os nódulos que serão submetidos à PAAF daqueles que simplesmente serão acompanhados clinicamente.

 

RISCO DE MALIGNIDADE DOS INCIDENTALOMAS DA TIREÓIDE

Os microcarcinomas da tireóide são definidos no Japão e em alguns países europeus como carcinomas com menos de 11 mm de diâmetro e na América do Norte como carcinomas com menos de 15 mm de diâmetro (18). A prevalência dos microcarcinomas na população é influenciada pelas diferenças geográficas, genéticas, sociais e culturais e varia de 2,3 % a 35,6% conforme o estudo realizado (tabela 2)(19).

 

 

Os carcinomas papilíferos da tireóide são geralmente pouco agressivos, apresentam uma longa evolução e um bom prognóstico. Apesar da alta incidência de microcarcinoma da tireóide no Japão, a mortalidade pelo câncer da tireóide é baixa (12). Em um estudo realizado por Noguchi, de 867 pacientes operados por carcinomas de tireóide menores de 10 mm de diâmetro, somente 2 pacientes faleceram por causa da doença. Uma paciente faleceu 6 anos e meio após a cirurgia inicial e uma outra paciente faleceu 11 anos após a primeira cirurgia (18).

Considerando–se a alta prevalência dos incidentalomas da tireóide e a baixa freqüência de malignidade destas lesões, recomendamos uma abordagem bastante conservadora. A recomendação é válida também para todos os nódulos da tireóide. É necessário uma avaliação inicial que selecione os nódulos com maior probabilidade de serem malignos, através da anamnese cuidadosa e de uma avaliação ultra–sonográfica criteriosa e encaminhar estes pacientes para uma punção aspirativa por agulha fina (PAAF) dirigida ou não pelo ultra–som. Vale lembrar que todos os nódulos, biopsiados ou não, devem ser cuidadosamente observados em intervalos variados, para se determinar a evolução dos mesmos.

 

REFERÊNCIAS

1. Rojeski MT, Gharib H. Nodular thyroid disease. Evaluation and management. N Engl J Med 1985;313:428–36         [ Links ]

2. Singer PA, Cooper DS, Daniels GH, Ladenson PW, Greenspan FS, Levy EG, et al. Treatment guidelines for patients with thyroid nodules and well–differentiated thyroid cancer. Arch Intern Med 1996;156:2165–72         [ Links ]

3. Burch HB, Burman KD, Reed HL, Buckner L, Raber T, Ownbey JL.Fine needle aspiration of thyroid nodules. Determinants of insufficiency rate and malignancy yield at thyroidectomy. Acta Cytologica 1996;40:1176–83         [ Links ]

4. Haber RS. Thyroid nodules and the detection of thyroid cancer. The Mount Sinai Journal of Medicine 1996;63:10–5         [ Links ]

5. Woeber KA. Cost–effective evaluation of the patient with a thyroid nodule. Surgical Clinics of North America 1995;75:357–63         [ Links ]

6. Belfiore A, Rosa GL, Giuffrida D, Regalbuto C, Lupo L, Fiumara A, et al. The management of thyroid nodules. J Endocrinol Invest 1995;18:155–8         [ Links ]

7. Hamburger JI. Extensive personal experience. Diagnosis of thyroid nodules by fine needle biopsy: use and abuse. JCE & M1994;79:335–9         [ Links ]

8. Rifat SF, Ruffin MT. Management of thyroid nodules. American Family Physician 1994;15:785–90        [ Links ]

9. Mazzaferri EL, Santos ET, Keyhani SR. Solitary thyroid nodule: diagnosis and management.         [ Links ] Medical Clinics of North America;72:1177–202

10. Campbell JP, Pillsbury HC. Management of the thyroid nodule. Head & Neck 1989 September/October:414–23         [ Links ]

11. Ross DS. Evaluation of the thyroid nodule. J Nucl Med 1991;32:2181–92         [ Links ]

12. Tan GH, Gharib H. Thyroid incidentalomas:management approaches to nonpalpable nodules discovered incidentally on thyroid imaging. Ann Intern Med. 1997;126:226–31         [ Links ]

13. Brander A, Viikinkoski P, Tuuhea J, Voutilainen L, Kivisaari L. Clinical versus ultrasound examination of the thyroid gland in common clinical practice. J Clin Ultrasound 1992;20:37–42         [ Links ]

14. Tan GH, Gharib H. Solitary thyroid nodule. Comparison between palpation and ultrasonography. Arch Intern Med 1995;155:2418–23         [ Links ]

15. Takashima S, Matsuzuka F, Nagareda T, Tomiyama N, Kozuka T. Thyroid nodules associated with Hashimoto thyroiditis:assessment with US. Radiology 1992;185:125–30         [ Links ]

16. Müller HW, Schroder S, Schneider D, Seifert G. Sonographic tissue characterisation in thyroid gland diagnosis. Klin Wochenscher 1985;63:706–10         [ Links ]

17. Klima G. L'echographie de la thyroide. Urban & Schwarzenberg. Munich – Vienne – Baltimore 1995         [ Links ]

18. Noguchi S, Yamashita H, Murakami N, Nakayama I, Toda M, Kawamoto H. Small carcinomas of the thyroid. A long term follow–up of 867 patients. Arch Surg 1996;131:187–91         [ Links ]

19. Bisi H, Fernandes VSO, Camargo RYA, Koch L, Abdo AH, Brito T. The prevalence of unsuspected thyroid pathology in 300 sequential autopsies, with special reference to the incidental carcinoma. Cancer 1989;64:1888–93        [ Links ]

 

 

Recebido em 25/6/98;
Revisado em 24/7/98;
Aceito em 28/7/98.

 

 

Endereço para correspondência:
Unidade de Tireóide, Disciplina de Endocrinologia
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
Caixa Postal 3671
01060–970 São Paulo
Fone: 282–8522
Fax: 211–3367
E–mail: tireóide@uol.com.br / uspaaf@uol.com.br