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Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia

Print version ISSN 0004-2730

Arq Bras Endocrinol Metab vol.51 no.5 São Paulo July 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302007000500005 

REVISÃO

 

TGFb, activina e sinalização SMAD em câncer de tiróide

 

TGFb, activin and SMAD signalling in thyroid cancer

 

 

Edna T. Kimura; Sílvia E. Matsuo; Júlio Cézar Ricarte-Filho

Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento, Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade de São Paulo, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

TGFb e activina são membros da superfamília TGFb e desempenham um amplo papel no desenvolvimento, proliferação e apoptose. Estes fatores de crescimento exercem seus efeitos biológicos ligando-se a receptores de membrana do tipo I e do tipo II que transduzem a sinalização até o núcleo através da fosforilação das proteínas R-SMADs (SMAD 2/3) e co-SMADs (SMAD4). O controle apropriado da via de TGFb/activina ainda depende da regulação negativa exercida pelo SMAD inibitório (SMAD7) e pelas enzimas E3 de ubiquitinação (Smurfs). Fisiologicamente, TGFb e activina atuam como potentes inibidores da proliferação na célula folicular tiroidiana. Desta forma, alterações de receptores e componentes da via de sinalização SMAD estão associadas a diferentes tipos de tumores. Desde que TGFb e activina geram sua sinalização intracelular utilizando os mesmos componentes da via SMAD, o desequilíbrio desta via prejudica dois processos anti-mitogênicos da célula. Nesta revisão, enfocamos aspectos que indicam o mecanismo de resistência ao efeito inibitório de TGFb e activina ocasionado pelo desequilíbrio da via de sinalização SMAD nas neoplasias da tiróide.

Descritores: TGFb; Activina; Câncer de tiróide; Sinalização SMAD; Smurf; Progressão tumoral


ABSTRACT

TGFb and activin are members of the TGFb superfamily and play a wide role in development, proliferation and apoptosis. These growth factors exert their biological effects by binding to the type I and II membrane receptors to transduce their signalling through the nucleus by phosphorylation of R-SMADs (SMAD 2/3) and co-SMADs (Smad 4). The proper control of TGFb/activin pathway is negatively regulated by inhibitory SMAD (SMAD7) and by E3 ubiquitination enzymes (Smurfs). Physiologically, TGFb and activin act as potent growth inhibitors in thyroid follicular cell. Thus, alterations in the receptors and components of SMAD signalling pathway are associated with several types of tumors. Since TGFb and activin generate their intracellular signalling through the same components of the SMAD pathway, the unbalance of this pathway impairs both of anti-mitogenic signals in the cell. This review addresses aspects of the molecular mechanisms in the understanding of resistance to the growth inhibitory effects of TGFb and activin due to the disequilibrium in the SMAD inhibitory pathway in thyroid neoplasia.

Keywords: TGFb; Activin; Thyroid cancer; SMAD signalling; Smurf; Tumor progression


 

 

OS MEMBROS DA SUPERFAMÍLIA TGFb (do inglês transforming growth factor b), que incluem TGFb e activina, são fatores de crescimento que promovem diferentes respostas biológicas ligando-se a dois pares de receptores de membranas do tipo I e do tipo II e ativando uma sinalização intracelular mediada pelas proteínas SMADs. Cada ligante tem afinidade a receptores específicos dos tipos I e II, que propagam a sinalização através da fosforilação de um conjunto de proteínas SMADs no citoplasma. Uma vez fosforiladas, essas proteínas são levadas ao núcleo, onde ativam ou reprimem a transcrição de diferentes genes-alvos (1). Essa via de sinalização ainda é modulada negativamente por um complexo mecanismo que inclui o SMAD inibitório e as enzimas E3 da via de proteólise mediada por ubiquitina (2,3). A sinalização TGFb, além de estar envolvida em diferentes processos biológicos durante o desenvolvimento embrionário, exerce diversas funções na homeostase tecidual do organismo adulto. Na célula normal existe um delicado equilíbrio na regulação negativa e positiva de proliferação determinando um ciclo celular normal. No câncer, essa homeostase fica alterada pelo aumento do sinal estimulátorio (oncogene e agentes mitogênicos), ou pela diminuição dos sinais inibitórios (supressor tumoral e indutores de apoptose) (4). Em geral, nas células de origem epitelial, TGFb e activina agem como "supressores tumorais", impedindo a progressão do ciclo celular. Alterações dos componentes da via da sinalização TGFb são observadas em uma ampla gama de tumores humanos.

 

MEMBROS DA SUPER FAMÍLIA TGFb: TGFb E ACTIVINA

TGFb é o protótipo da superfamília de TGFb e foi descoberto em 1982, como uma fração adicional ao TGFa secretado por fibroblastos transfectados com oncogenes, e que isoladamente era capaz de conferir "transformação" de colônias de fibroblastos renais de rato (5). No entanto, a principal característica de TGFb, como um potente fator inibitório em diferentes tipos celulares, mais predominantemente em célula de origem epitelial, foi observada posteriormente (6). Nos mamíferos existem três isoformas de TGFb: TGFb1, TGFb2 e TGFb3. Apesar de compartilharem homologia de cerca de 70% na seqüência de aminoácidos, os genes de TGFb1, TGFb2 e TGFb3 estão localizados em regiões distintas dos cromossomos humanos 19q13, 1q41 e 14q24, respectivamente. TGFb1 é secretada sob a forma de um complexo latente, o qual é incapaz de interagir com seu receptor, portanto é biologicamente inativo. Ao ser clivado, esse complexo libera TGFb1 como uma proteína homodimérica ativa de 25 kDa, com sub-unidades de 112 aminoácidos (7).

Diversas proteínas que se assemelham estruturalmente a TGFb, com presença de 7 resíduos de cisteínas altamente conservados, passaram a integrar a superfamília de TGFb, entre elas activinas, bone morphogenetic protein (BMP), growth differentiation factor (GDF), glial cell line-derived neurotrophic factor (GDNF), müllerian inhibiting substance (MIS) e inibinas (1). As activinas são os membros desta superfamília que possuem características mais próximas às dos peptídeos TGFb. Foram originalmente isoladas de ovário de porco e identificadas pela sua habilidade em estimular a secreção do hormônio folículo estimulante (FSH) em cultura de células hipofisárias (8,9). As activinas são proteínas diméricas de 28 kDa, constituídas por 2 sub-unidades b de 116 aminoácidos conectadas por ponte dissulfídrica. Até o momento, foram descritas 5 sub-unidades b das activinas (bA, bB, bC, bD e bE). Todas as sub-unidades, com exceção da bD, foram isoladas em mamíferos, sendo as sub-unidades bA, bB e bC identificadas em humanos. A combinação homo ou heterodimérica forma as diferentes isoformas das activinas: activina A (bAbA), activina B (bBbB), activina AB (bAbB) etc. As sub-unidades bA e bB de activinas apresentam 85% de homologia entre si, contudo o gene bA está localizado no cromossomo 7 humano, enquanto o gene de bB está localizado próximo ao centrômero do braço curto do cromossomo 2 (10).

 

SINALIZAÇÃO DE TGFb/ACTIVINA PELA VIA DE PROTEÍNAS SMADS

A ação tanto de TGFb como de activina se inicia com a ligação de cada um destes fatores a uma combinação de receptores de membrana específicos dos tipos I e II com atividade serina-treonina quinase. TGFb liga-se ao seu receptor tipo II específico, TbRII, o qual fosforila e ativa o receptor tipo I, TbRI. O receptor tipo I propaga a sinalização através da ativação e fosforilação de proteínas citoplasmáticas da família de SMADs conhecidas como receptor-regulated SMADs (R-SMADs), SMAD2 e SMAD3. A fosforilação de R-SMADs permite a sua interação com common-mediator SMAD (co-SMAD), SMAD4, formando um complexo capaz de atingir o núcleo, onde irão modular a transcrição de genes-alvos (1) (figura 1). A activina, por sua vez, liga-se ao receptor tipo II (ActRII ou ActRIIB) e este recruta o receptor tipo I. Dentre as isoformas de ActRI, o receptor ActRIB propaga a sinalização intracelular de activina pela ativação de SMADs 2/3 e 4 da mesma forma como ocorre na sinalização de TGFb (10) (figura 1). A sinalização SMAD é atenuada por SMAD7, uma SMAD inibitória (I-Smad) que previne a fosforilação de R-SMAD e interfere na formação do complexo R-SMAD com Co-SMAD (2). BMP, outro membro da superfamília de TGFb, é bem conhecido pelos seus efeitos na formação óssea. De modo similar à sinalização de TGFb e activina, BMP atua através de seus receptores específicos e induz sinalização intracelular via R-SMADs, SMAD1, SMAD5 e SMAD8, as quais se associam à co-SMAD, SMAD4. Esse complexo se move ao núcleo para modular a transcrição de genes-alvos de BMP. SMAD6 é a SMAD inibitória para sinalização de BMP. Assim, SMAD4 além de participar da sinalização TGFb e activina, é uma mediadora comum para outros membros da superfamília de TGFb. Por outro lado, SMAD2 e SMAD3 são exclusivas da sinalização de TGFb e activina (1).

 

 

As SMADs são constituídas por domínios conservados, amino-terminal (MH1) e carboxi-terminal (MH2), e um domínio central pouco conservado que conecta domínios MH1 e MH2 (figura 2). O domínio MH1 confere às SMADs capacidade de associação com o DNA e interação com fatores de transcrição, enquanto MH2 é importante para formação do complexo SMAD-receptor e confere atividade transcricional (11). Embora SMAD2 e SMAD3 compartilhem alta homologia e ambas sejam capazes de responder ao estímulo gerado pelo complexo TGFb/receptor ou activina/receptor, existem diferenças funcionais entre as R-SMADs, que poderiam ser explicadas em parte pela capacidade de a SMAD3 se ligar ao DNA, enquanto a SMAD2 apresenta um inserto em seu domínio MH1 que impede sua interação com o DNA (1,11).

 

 

AÇÃO BIOLÓGICA DE TGFb E ACTIVINA

Uma diversidade de processos biológicos tem sido atribuída a TGFb e activina, incluindo controle da proliferação e diferenciação celular, apoptose, desenvolvimento embrionário, função endócrina e reparo tecidual. Muitos desses conhecimentos foram adquiridos pelos estudos de TGFb1 e activina A, as isoformas mais exploradas de cada família. Embora TGFb e activinas desencadeiem sinalização através de mediadores intracelulares comuns, representadas pelas SMADs 2/3 e 4, essas proteínas podem induzir respostas biológicas específicas. No desenvolvimento embrionário, fica evidente o papel distinto exercido por cada membro da superfamília com a geração de camundongos knockout de TGFb1 e de activina A. Esses estudos revelam que a maioria dos camundongos homozigotos para TGFb1 morre durante a embriogênese, e os que sobrevivem desenvolvem infiltrado inflamatório em múltiplos órgãos. Camundongos knockout para activina A, por sua vez, apresentam defeitos craniofaciais e morrem no período perinatal por dificuldade de sucção (12). Esses modelos de knockout sugerem que a ausência de um dos membros da superfamília não é compensada por outro, mesmo que a via comum de sinalização por SMADs esteja íntegra, reforçando a especificidade e a independência dos efeitos desencadeados por cada fator de crescimento.

Apesar da sua definição original "transformante", TGFb1 é mais conhecido como um potente inibidor da proliferação de células epiteliais, incluindo hepatócitos, células pulmonares, intestinais, prostáticas e mamárias (6). TGFb promove a interrupção da progressão do ciclo celular, na fase G1, pela indução de p15 e p21, proteínas conhecidas como inibidoras de CDKs (do inglês cyclin-dependent kinases), prevenindo a hiperfosforilação da proteína do retinoblastoma (pRB) e pela supressão de c-MYC (13,14). Por outro lado, na matriz extra-celular TGFb estimula a angiogênese, inibe o sistema imune e propicia um ambiente favorável para a migração da célula tumoral e metástase (15).

A activina estimula a proliferação de células ovarianas e testiculares (16,17), mas exerce efeito inibitório em diversas outras células de origem epitelial, tais como hepáticas, prostáticas, mamárias, hipofisárias e adrenais (18). Os mecanismos pelos quais a activina exerce seus efeitos inibitórios são menos conhecidos, mas reconhece-se um aumento de p15 e p21, redução dos níveis de CDK4 e hipofosforilação de Rb em diferentes tipos celulares de maneira semelhante ao observado na ação anti-proliferativa de TGFb (19,20). Por outro lado, ao contrário de TGFb que estimula a angiogênese, a activina reduz a neovascularização (18).

 

TGFb E ACTIVINA NO CÂNCER

Embora, o papel proliferativo de activinas ainda permaneça controverso em alguns sistemas, o efeito inibitório exercido por TGFb e pelas activinas e a integridade da sinalização por eles gerada parece ter um papel muito importante na manutenção da homeostase celular. Alterações na sinalização de TGFb/ activinas que bloqueiam o efeito inibitório exercido por esses fatores podem contribuir na evolução tumoral (21). Existem relatos de que, durante a progressão tumoral, o TGFb deixa de exercer um papel anti-proliferativo e inverteria o seu papel estimulando a proliferação da célula tumoral, como observado no estadio avançado de câncer de mama e de câncer de cabeça e pescoço (15,22,23).

Inativação de receptores I e/ou II de TGFb ou de activinas e de SMADs foi associada a tumores de diversos tecidos, tais como tumores pancreáticos, gástricos, de mama e cólon (24). Embora o mecanismo não esteja estabelecido, estudos epidemiológicos indicam que o polimorfismo TGFBR1*6A no gene do receptor tipo I de TGFb possa atuar como alelo de susceptibilidade tumoral em câncer de mama e ovário (25). Em metástase de carcinoma de cólon ocorre uma alta freqüência de polimorfismo TGFBR1*6 adquirido somaticamente (26).

Os genes de SMAD2 e SMAD4 estão localizados no cromossomo 18q21 humano, uma região com alta freqüência de mutações, enquanto o gene de SMAD3 está localizado no cromossomo 15q21-22. SMAD4 foi originalmente descrito como deleted in pancreatic cancer locus 4 (DPC4), pela alta incidência desta deleção em câncer pancreático (27) e, posteriormente, observou-se que mutação de Smad4 também estava presente em tumores coloretais, gástricos, hepáticos e de pulmão (24,28). Em tiróide, alterações genéticas que incluem deleções e alterações de splicing no gene de SMAD4 foram observadas em 27% dos tumores benignos e malignos (29). Mutações no gene que codifica SMAD2 são encontradas em tumores de fígado, colo-retal e pulmão (24). Curiosamente, a mutação do gene de SMAD3 está pouco associada ao desenvolvimento de tumores humanos, embora camundongo knockout para o gene de SMAD3 desenvolva um câncer colo-retal agressivo (30).

 

TGFb E ACTIVINA NA TIRÓIDE

Desde a sua caracterização, há cerca de duas décadas, o papel de TGFb na célula folicular tem sido estudado extensivamente. A célula tiroidiana não-neoplásica responde à adição de TGFb exibindo um efeito duplo, inibindo a proliferação celular e a função tiroidiana (31-33). TGFb promove a diminuição da expressão dos genes de diferenciação tiroidiana tireoglobulina, NIS e TPO (34,35). Há mais de meio século, reconhece-se o papel inibitório do iodo na tiróide, conhecido como efeito auto-regulatório do iodo. O TGFb teria um papel importante na ação antimitogênica do iodo, desde que o iodo induz a expressão de TGFb na célula folicular (36,37). Em células tiroidianas neoplásicas, a resposta ao TGFb em linhagem celular tem sido consistentemente anti-proliferativa, como observado em diferentes linhagens de carcinoma papilífero (NPA, BHP, FTC133 e de PTC-UC3) (38-40). No entanto, em cultura primária oriunda de bócios ou de carcinoma, a resposta ao TGFb1 é extremamente variável, indicando uma refratariedade destas células ao TGFb (33).

O papel da activina na proliferação da célula folicular é ambíguo. Enquanto uns atribuem um efeito inibitório desta molécula, outros indicam que ele seja estimulatório em células neoplásicas e não-neoplásicas da tiróide (41,42). Em cultura primária de carcinoma papilífero de tiróide, a adição de activina A não alterou a proliferação em 3 de 4 carcinomas estudados, enquanto induziu aumento da proliferação em um carcinoma (43). Utilizando método de RNA de interferência mostramos recentemente que o bloqueio do gene de activina em linhagem de carcinoma papilífero TPC-1 de tiróide promove aumento da proliferação, de forma semelhante ao observado com o bloqueio do gene de TGFb, indicando que ambos exercem ação anti-proliferativa nesta linhagem de carcinoma tiróide (44).

Pelo fato de TGFb ser um fator inibitório para a proliferação de células epiteliais, com característica de supressor tumoral, esperava-se observar uma falência na expressão desta proteína no câncer em geral. No entanto, a expressão gênica e/ou protéica de TGFb está geralmente aumentada em cânceres derivados de células epiteliais, tais como câncer de pâncreas, cólon, estômago e de mama, sugerindo escape das células tumorais ao efeito antimitogênico de TGFb (21). Em tecido tiroidiano normal, a expressão de TGFb na célula folicular é tênue, no entanto as células foliculares de lesões tumorais da tiróide apresentam expressão marcante das diferentes isoformas de TGFb, TGFb1, TGFb2 e TGFb3, tanto em nódulos benignos quanto em carcinomas (45). Um padrão de expressão de activinas bA e bB semelhante à expressão de TGFb é observado em tumores tiroidianos (46). A expressão de receptores tipos I e II de TGFb e de activina está presente em tumores de tiróide, indicando que TGFbs e activinas atuam de forma autócrina/parácrina nesta glândula; assim como a expressão de SMAD2/3 e SMAD4 está presente em lesões benignas e malignas de tiróide (41,47,48).

 

REGULAÇÃO NEGATIVA DA VIA DE SINALIZAÇÃO SMAD E IMPLICAÇÃO NO CÂNCER DE TIRÓIDE

SMAD Inibitório

Além dos SMADs envolvidos na transdução da sinalização intracelular dos ligantes da família TGFb ao núcleo, denominados SMADs regulatórios, a via de sinalização de TGFb/activina é regulada pelo SMAD7, classificado como SMAD inibitório (I-SMAD) (2). O SMAD7 bloqueia a fosforilação dos R-SMADs, interferindo na fosforilação de SMAD2/3 pelo receptor tipo I e na formação do complexo R-SMAD/Co-SMAD (49) (figura 1).

A transcrição de SMAD7 é induzida por TGFb e mediada pela ligação de SMAD3 e SMAD4 na região promotora do SMAD7, representando um mecanismo auto-regulatório da via de sinalização TGFb (50). O bloqueio da expressão gênica de activina A ocasiona diminuição dos níveis de mRNA de SMAD7 em linhagem de carcinoma papilífero TPC-1, indicando que a expressão de SMAD7 é regulada não somente por TGFb, mas também pela activina (44). Na linhagem de carcinoma anaplásico de tiróide ARO, há um aumento na expressão SMAD7 que sugere uma relação da agressividade tumoral com a atenuação da via TGFb/activina neste tipo histológico de câncer de tiróide (48).

Enzimas da via de ubiquitinação

Recentemente, foram identificadas enzimas que regulam a degradação de componentes da via de sinalização de TGFb pelo sistema de proteólise dependente de ubiquitinação (51). A ubiquitinação das proteínas vem sendo reconhecida como um importante processo de regulação celular (52). Um crescente número de proteínas relacionadas ao desenvolvimento de câncer participa da via de ubiquitinação, como alvo de degradação proteolítica ou como um dos componentes desta via. A ligação da proteína-alvo à ubiquitina requer a ação seqüencial das enzimas E1, E2 e E3 ligases, sendo que a capacidade de E3 reconhecer a proteína-alvo confere uma alta especificidade ao sistema ubiquitina-proteossoma (53). A identificação das proteínas Smurf1 e Smurf2 (do inglês SMAD ubiquitination regulatory factor) e, mais recentemente Arkadia, como E3 ubiquitina-ligases associadas à degradação específica de componentes da via sinalização de TGFb, ampliou o conhecimento do mecanismo de controle intracelular desta via (3). Os Smurfs estão envolvidos na proteólise de SMAD2, SMAD4, SMAD7 e do receptor tipo I, seriam reguladores negativos da sinalização intracelular de SMAD (54,55). Por outro lado, Arkadia, identificada como uma E3 ligante de SMAD7, participa da proteólise de SMAD7, o que leva à sustentação da sinalização TGFb/activina na célula (56). A expressão desregulada de E3 ligases, em geral, foi associada ao desenvolvimento de patologias humanas incluindo câncer. Nos tumores de tiróide ocorre uma acentuada expressão de Smurf2 principalmente em carcinoma papilífero (57). O desequilíbrio da via de ubiquinação poderia estar associado à perda de responsividade ao efeito anti-proliferativo de TGFb (3), comumente observado em diversos tipos de câncer.

 

PERSPECTIVAS

Um importante avanço no entendimento da sinalização TGFb/activina foi observado principalmente na última década. Nesta revisão, enfocamos o papel inibitório de TGFb/activina no processo proliferativo e neoplásico da tiróide, atuando pela via de sinalização dependente de SMAD. Uma questão importante a ser entendida no câncer é como as células epiteliais tornam-se refratárias à sinalização antiproliferativa dos fatores inibitórios. No carcinoma de tiróide, as evidências de alterações genéticas como mutações e deleções nos componentes desta via de sinalização são raras. Por outro lado, o envolvimento dos reguladores negativos da via SMAD, o SMAD inibitório e as enzimas E3 de proteólise, começam a ser elucidados e poderão esclarecer a refratariedade à ação inibitória de TGFb/ activina nos tumores de tiróide. Apesar de a via SMAD ser a melhor caracterizada e reconhecida como a principal via de transdução da sinalização da família TGFb, são crescentes as evidências de que TGFb/ activina exercem seus efeitos biológicos utilizando outras vias, não-dependentes de SMAD (58). A expansão destes conhecimentos ampliará a complexidade de atuação de TGFb e de activina na homeostase celular e na oncogênese da tiróide.

 

 

AGRADECIMENTOS

À FAPESP, CAPES e CNPq, pelo auxílio financeiro aos projetos de pesquisa que geraram dados apresentados neste trabalho e pelas bolsas de produtividade em pesquisa (ETK) e de doutorado (SEM. e JCR-F).

 

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Endereço para correspondência:
Edna T. Kimura
Instituto de Ciências Biomédicas
Av. Prof. Lineu Prestes 1524
05508-900 São Paulo, SP
E-mail: etkimura@usp.br

Recebido em 29/05/07
Aceito em 29/05/07