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Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia

Print version ISSN 0004-2730

Arq Bras Endocrinol Metab vol.51 no.5 São Paulo July 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302007000500018 

REVISÃO

 

Uso do TSH humano recombinante no câncer diferenciado de tireóide

 

Recombinant human TSH use in differentiated thyroid cancer

 

 

Hans Graf; Gilberto Paz-Filho

SEMPR, Serviço de Endocrinologia e Metabologia da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O seguimento imediato após tireoidectomia total (TT), em pacientes com câncer diferenciado de tireóide (CDT), tradicionalmente é feito com a ablação de remanescentes tireoidianos (RT) com 131I, na vigência de hipotireoidismo. O seguimento tardio do CDT inclui o uso de doses supressivas de T4, dosagem seriada da tireoglobulina (Tg), pesquisa de corpo inteiro (PCI) com 131I e ultra-sonografia (US) cervical. Nos últimos anos, tem-se mostrado que a ablação de RT com a ajuda do TSH recombinante humano (rhTSH) tem a mesma eficácia que a ablação de RT observada com a elevação endógena do TSH, mas sem os sintomas e piora de qualidade de vida descritos no hipotireoidismo. A dosagem da Tg estimulada com TSH endógeno ou exógeno, 9 a 12 meses após o tratamento inicial do CDT, associado à US cervical, pode identificar pacientes de baixo risco potencialmente curados de sua doença e nos quais a supressão do TSH não necessita ser tão intensa, evitando as complicações cardíacas e ósseas da tireotoxicose exógena prolongada. Finalmente, apesar de não existirem estudos randomizados que avaliem o papel do rhTSH no tratamento do CDT metastático, os resultados do tratamento combinado do rhTSH e 131I mostram um benefício clínico na maioria dos pacientes tratados.

Descritores: Tireóide; Câncer; TSH recombinante


ABSTRACT

Traditionally, the immediate treatment of patients with differentiated thyroid carcinoma (DTC) after total thyroidectomy (TT) is thyroid remnant ablation (TRA) with 131I, during hypothyroidism. Late follow-up of DCT includes suppressive doses of T4, serial measurements of thyroglobulin (Tg), whole body scan (WBS) with 131I and cervical ultrasound (US). In the last years, TRA with the aid of recombinant human TSH (rhTSH) has shown not only to avoid symptoms of hypothyroidism and a lower quality of life, but also to have the same efficacy as TRA during endogenous TSH elevation. Stimulated Tg with endogenous or exogenous TSH, 9 to 12 months after the initial treatment of DTC, associated with cervical US, is able to identify low-risk patients virtually cured of their disease, in whom TSH suppression does not need to be so strict, avoiding the heart and bone complications of prolonged exogenous thyrotoxicosis. Finally, in spite of the absence of randomized studies designed to evaluate the role of rhTSH in metastatic DTC disease, results of the combined treatment of rhTSH and 131I show a clinical benefit in the majority of treated patients.

Keywords: Thyroid; Cancer; Recombinant human TSH


 

 

O CÂNCER DE TIREÓIDE é a lesão endócrina maligna mais comum, sendo responsável por cerca de 90% das malignidades endócrinas. A incidência de nódulos tireoidianos também é bastante significativa na população geral, detectados em 19% a 67% de indivíduos selecionados randomicamente, através de US de alta resolução (1). Apesar da elevada incidência de nódulos tireoidianos, o câncer de tireóide ocorre em apenas 5 a 10% dos pacientes, dependendo da população avaliada (2). A grande maioria das lesões tireoidianas malignas tem origem nas células foliculares, cujo tipo histológico mais comum é o carcinoma papilífero de tireóide (CPT), sendo a variante folicular um subtipo, seguido pelo carcinoma folicular de tireóide (CFT). O CPT e o CFT são classificados como carcinomas diferenciados da tireóide (CDT) e têm abordagem terapêutica distinta da dos carcinomas pouco diferenciados e indiferenciados (ou anaplásicos) e dos carcinomas medulares (originados das células para-foliculares da tireóide).

O manejo dos pacientes portadores de CDT tem mudado substancialmente nos últimos anos, levando a uma redução na taxa de mortalidade em 20% nos Estados Unidos, a despeito do aumento das taxas de incidência da neoplasia em torno de 40% (3). Tal redução na mortalidade deve-se não somente a uma mudança na abordagem de nódulos tireoidianos não-palpáveis (diagnosticados como CPT na punção aspirativa com agulha fina — PAAF) como também às novas estratégias de seguimento do CDT (1,2). Entre as últimas estão incluídas a dosagem da tireoglobulina (Tg), estimulada ou sob supressão com T4, o uso da US cervical com aparelhos muito sensíveis e a introdução do rhTSH (4). O rhTSH é capaz de fornecer as mesmas informações diagnósticas e prognósticas no CDT do que as obtidas com a suspensão do T4, com a vantagem de evitar os sintomas do hipotireoidismo (4,5).

 

TRATAMENTO INICIAL CONVENCIONAL DO CDT

O tratamento do CDT continua sendo alvo de debate, com muitos pontos ainda não consensuais. Apesar de algumas dúvidas acerca do enfoque inicial ideal do CDT, a maioria dos endocrinologistas concorda que o tratamento consiste na tireoidectomia total (TT) associada à ablação dos remanescentes tireoidianos (ART) com 131I, com subseqüente supressão do TSH com levotiroxina (T4) (4,5).

A opção da TT facilita o tratamento pós-operatório com 131I (6), reduz a recorrência tumoral no lobo contralateral (7), reduz o risco de disseminação metastática (8) e possibilita a adoção de um protocolo de seguimento baseado na dosagem de Tg e PCI (9). A lobectomia pode estar indicada raramente em casos muito bem selecionados, de baixo risco. Entretanto, com este procedimento, a ART e o seguimento do CDT baseado na dosagem de Tg e PCI ficam prejudicados, devido à presença de grande quantidade de tecido tireoidiano normal.

Após a TT, os pacientes devem ser submetidos a ART com o objetivo de eliminar qualquer remanescente de células tireoidianas normais ou neoplásicas no leito cervical, permitindo melhor sensibilidade dos exames de seguimento (Tg e PCI). O benefício da ART quanto à redução das taxas de recorrência e de mortalidade é mais evidente em pacientes de maior risco, porém ainda é controverso em pacientes de baixo risco (10). A atividade de 131I administrada também é motivo de discussão, porém atividades em torno de 100 a 150 mCi parecem ser mais eficazes para esta finalidade. A ART deve ser realizada na presença de níveis elevados de TSH (hormônio estimulante da tireóide), idealmente superiores a 30 mUI/L. Tal elevação do TSH é necessária para a captação eficaz do 131I, uma vez que o transporte do iodo para o meio intracelular depende da ativação da proteína NIS (co-transportadora de sódio-iodo), a qual é ativada pela ligação do TSH com seu receptor de membrana. Tradicionalmente, a ART é realizada com a elevação do TSH na vigência de hipotireoidismo, ou seja, sem uso de T4 por 4 a 6 semanas.

Entretanto, o hipotireoidismo pode causar diversas alterações físicas e desconforto ao paciente, com significativa morbidade. Podem ocorrer letargia, fadiga, problemas cognitivos, incapacidade de concentração, constipação e depressão em jovens. No idoso, ataxia, problemas de deambulação, quedas e alterações cardíacas e renais são as possíveis conseqüências do hipotireoidismo. Todos estes sintomas podem ser severos, com freqüente incapacidade dos pacientes na realização normal de suas atividades domésticas e laborais, com uma diminuição da qualidade de vida (11-13). Em pacientes que possuem co-morbidades, há o risco de complicações cardíacas, neurológicas, pulmonares e cérebro-vasculares (14). Sob estímulo prolongado do TSH, existe ainda o risco de aumento do volume tumoral por proliferação de células neoplásicas (14). Em algumas situações, o paciente com CDT não apresenta uma elevação suficiente dos níveis de TSH para uma adequada ART, como em pacientes com hipopituitarismo, pacientes com RT com capacidade de produção de hormônio tireoidiano, e em alguns pacientes idosos (14). Uma alternativa para o hipotireoidismo é o uso do TSH recombinante humano (rhTSH, tireotropina alfa; Genzyme Corp., Cambridge, MA) para a ART.

 

TRATAMENTO INICIAL DO CDT COM TSH RECOMBINANTE HUMANO

O TSH é produzido pela hipófise sob estímulo do TRH e consiste numa glicoproteína heterodimérica composta pelas sub-unidades alfa e beta, ligadas de forma não-covalente. O TSH é constituído por 92 aminoácidos na sub-unidade alfa, com duas cadeias oligossacarídeas e 112 aminoácidos na sub-unidade beta, com uma cadeia oligossacarídea (15). Estruturalmente, a seqüência de aminoácidos no rhTSH é a mesma da molécula do TSH. Entretanto, o TSH hipofisário contém ácido siálico e N-acetilgalactosamina nos seus resíduos glicoprotéicos, ao passo que o rhTSH apresenta apenas ácido siálico nos mesmos (16).

A radioablação de RT com a ajuda do rhTSH permite ao paciente ser mantido com T4, preservando qualidade de vida (11-13) e evitando as eventuais complicações decorrentes do hipotireoidismo já citadas. Os efeitos adversos mais comuns decorrentes da administração do rhTSH são náusea e cefaléia. Outros eventos descritos são astenia, tontura, parestesias, tremor, febre e sintomas gripais (17,18). Há também descrições de reações alérgicas necessitando de tratamento. Em caso de metástases próximas a estruturas vitais, um aumento tumoral por edema e sangramento induzido pelo rhTSH pode levar à compressão de tais estruturas (19).

O protocolo de tratamento consiste na administração de duas doses intra-musculares de 0,9 mg de rhTSH, com intervalo de 24 horas. No terceiro dia, 24 horas após a última aplicação do rhTSH, o paciente recebe a dose terapêutica de 131I. Entre o sétimo e o décimo dias (quatro a sete dias após a administração do 131I) é realizada a PCI (figura 1). Caso se observe captação de 131I fora do leito tireoidiano na PCI, deve ser instituído tratamento direcionado à eliminação da metástase.

A ART no CDT, com ajuda do rhTSH, tem se mostrado eficaz, nos relatos de casos ou em estudos previamente desenhados. A maioria das publicações tem um seguimento curto de 3 a 6 meses, mas algumas apresentam dados referentes a alguns anos de acompanhamento. Pacini e col. (20) avaliaram a ART com rhTSH e 30 mCi de 131I em três grupos de pacientes com CDT após TT: pacientes submetidos a hipotireoidismo, pacientes submetidos a hipotireoidismo e rhTSH e pacientes submetidos a rhTSH sem interrupção do T4. A taxa de sucesso, definida por ausência de captação na PCI realizada 6 a 10 meses depois, foi de 84%, 79% e 54% respectivamente. Neste estudo, a taxa de sucesso foi menor no grupo submetido ao rhTSH sem interrupção da levotiroxina. Entretanto, neste protocolo, a atividade administrada de 131I pode ser considerada baixa, além de ter sido dada tardiamente, de 48 a 72 horas após o rhTSH, o que pode ter comprometido os resultados.

Robbins e col. (21) fizeram uma avaliação retrospectiva de um grupo de pacientes submetidos a ART usando atividade média de 131I maior que 100 mCi, com rhTSH ou hipotireoidismo. Foi relatada uma taxa de sucesso semelhante (84,4% vs. 80,9%) nos dois grupos, de acordo com a ausência de captação na PCI subseqüente. Barbaro e col. (22) administraram uma atividade fixa de 30 mCi a um pequeno grupo de pacientes com CDT após TT em hipotireoidismo, comparando-o com um grupo que recebeu rhTSH e interrompeu o uso de T4 nos quatro dias anteriores à administração da mesma dose de 131I. De acordo com a PCI, a taxa de sucesso foi de 75% no primeiro grupo e de 88% no segundo.

Apesar de esses estudos e relatos de casos serem úteis na avaliação da ART com rhTSH, eles apresentam alguns vieses e falta de poder estatístico. O trabalho que finalmente definiu de forma clara o papel do rhTSH na ART foi um estudo prospectivo, multicêntrico, randomizado e controlado (23), no qual 63 pacientes com CDT de baixo risco receberam uma atividade fixa de 100 mCi de 131I, durante hipotireoidismo (n= 30) ou rhTSH (n= 33). Na análise final, três pacientes foram excluídos do estudo: dois do grupo com hipotireoidismo (um por apresentar metástases pulmonares na PCI pós-DT e um por erro de posicionamento do paciente, impedindo a interpretação da cintilografia) e um do grupo do rhTSH (por erro na reconstituição do rhTSH). Após 8 meses, os pacientes foram submetidos a nova PCI. Quando o sucesso da ART foi definido como "captação menor que 0,1% em leito tireoidiano", todos os pacientes em ambos os grupos preencheram esse critério. Quando o sucesso da ART foi definido como "ausência completa de captação em leito cervical" na PCI, a taxa foi de 86% no grupo sob hipotireoidismo e de 75% no grupo que recebeu rhTSH (p= 0,3). Avaliou-se também o nível de Tg estimulada pelo rhTSH, 8 meses após a ART. Neste caso, 86% dos pacientes que haviam sido submetidos ao hipotireoidismo apresentaram Tg menor que 2,0 ng/ml, estatisticamente semelhante ao percentual de pacientes que haviam recebido rhTSH (96%) (23). Este estudo mostrou que a ART com rhTSH é tão eficaz quanto a ART sob hipotireoidismo em pacientes com CDT de baixo risco e que receberam 100 mCi de 131I. O uso do rhTSH se acompanha de escores de qualidade de vida significativamente mais favoráveis (24), além de haver menor exposição corporal a radiação extra-tireoidiana (25). Esse último achado sugere que a ART com rhTSH pode reduzir os potenciais riscos de malignidade induzidos pela radiação. O custo-benefício do uso do rhTSH para a ART é semelhante ao do hipotireoidismo prévio à ablação (26).

Segundo as diretrizes de manejo do CDT, publicadas pela Associação Americana de Tireóide (ATA) (4), Associação Européia de Tireóide (ETA) (5) e pelo Departamento de Tireóide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) (27), a ART pode ser realizada tanto sob hipotireoidismo quanto com o uso do rhTSH em pacientes de baixo risco e em pacientes com alto risco com co-morbidades que contra-indiquem o hipotireoidismo ou em pacientes com incapacidade de elevação suficiente do TSH endógeno (nível B de recomendação, ou seja, recomendado com base em boas evidências de que a intervenção possa trazer benefícios à saúde; porém, o poder das evidências é limitado pelo número, qualidade ou consistência dos estudos). Em 2005, o órgão regulador europeu EMEA (European Medicines Agency, <http:// www.ema.europa.eu>) liberou o uso do rhTSH para a ablação de RT no CDT (4), e em 2006, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou o rhTSH no Brasil para o mesmo propósito (28)

 

SEGUIMENTO DO CDT COM rhTSH

Apesar de a mortalidade ser baixa no CDT, a taxa de recorrência é relativamente alta, em torno de 20% a 40% (29). Por isso, é necessária a adoção de um protocolo de seguimento prático e sensível. A dosagem da tireoglobulina sérica (Tg) se estabeleceu como um marcador valioso no CDT, sendo o teste mais sensível para a detecção de doença recorrente ou metastática. Seus níveis devem ser indetectáveis no paciente submetido a TT e ART subseqüente (30). A dosagem deve ser feita através de um método sensível (mais comumente realizada por métodos imunométricos), baseada no padrão internacional CRM-457, com sensibilidade funcional de pelo menos 1,0 ng/ml. Preferencialmente, a dosagem deve ser realizada sempre pelo mesmo laboratório, e sempre com dosagem simultânea dos títulos de anticorpos antitireoglobulina (AATG). Quando positivos, a avaliação da Tg é invalidada pois os AATG podem induzir a resultados falsamente negativos em métodos imunométricos. A sensibilidade da Tg para a detecção de doença durante uso de T4 em doses supressivas é da ordem de 50% a 80%. A sensibilidade da Tg é maior quando estimulada pelo hipotireoidismo ou pelo rhTSH (79% a 100%), não havendo diferença entre as duas abordagens. Quando indetectável em qualquer uma dessas situações, a evidência de cura é muito grande (31). O protocolo de seguimento com rhTSH consiste na dosagem estimulada de Tg 9 a 12 meses após a cirurgia e ART, em pacientes de baixo-risco, livres de evidência clínica de tumor e com Tg indetectável (< 1,0 ng/ml) na vigência de TSH suprimido. O rhTSH é administrado em duas doses de 0,9 mg, 4 e 3 dias antes (D1 e D2) da dosagem da Tg (D5), cujo ponto de corte é de 1,0 ng/ml. Uma atividade traçadora de 2 mCi de 131I é administrada no 3º dia (D3) e a PCI é realizada no 5º dia (D5) (figura 2). Nos serviços onde a terapia com 131I pode ser disponibilizada em 3–5 dias, pode ser utilizada a dose traçadora de 5 mCi de 131I (32).

 

 

Se a Tg se eleva para valores > 1,0 ng/ml após o estímulo do TSH, deve ser feita uma investigação de imagem, com US cervical e TC de tórax no sentido de detectar metástases, eventualmente tratáveis cirurgicamente ou com nova atividade empírica de 131I. Se esta avaliação é negativa, recomenda-se uma conduta expectante se os níveis não forem superiores a 5,0 ng/ml após o rhTSH (4,27,33), pois a maioria evolui com queda espontânea da Tg a longo prazo. Pacientes com Tg estimulada acima de 5,0 ng/ml devem ser avaliados precocemente com TC de tórax, PCI pós-dose terapêutica de 131I, cintilografia com sestamibi ou escaneamento com tomografia por emissão de pósitrons com uso da fluorodeoxiglicose (FDG-PET) (4,27). A FDG é captada pela célula tumoral para participar do metabolismo da glicose, e é mais avidamente captada por tumores indiferenciados (ou seja, que não captam o 131I). Quando associado ao rhTSH, a sensibilidade do FDG-PET é maior (34,35), sendo um instrumento útil para o acompanhamento de pacientes com Tg estimulada positiva e PCI negativa.

Recentemente, o papel da PCI em pacientes de baixo-risco tem sido questionado por ter sensibilidade diminuída devido à baixa atividade de 131I que é administrada. Tem sido mostrado que a dosagem da Tg estimulada pelo rhTSH combinada com a ultra-sonografia cervical possui eficácia superior à PCI estimulada pelo rhTSH, em pacientes com CDT de baixo-risco (36). De fato, níveis de Tg < 1,0 ng/ml (estimulada pelo rhTSH) associados a US cervical sem evidências de doença e AATG negativos, significam risco praticamente nulo de recorrência em 5 anos (37). O algoritmo de seguimento não se aplica a pacientes submetidos a cirurgia e ART incompletas (para os quais haverá níveis basais elevados de Tg), pacientes com títulos de AATG positivos (cujo seguimento deve ser baseado na queda dos títulos dos anticorpos), pacientes com carcinoma de alto-risco e pacientes cuja PCI evidencie metástases logo após a ART.

 

TRATAMENTO DO CDT RECORRENTE OU METASTÁTICO COM rhTSH

Pacientes com CDT com metástases a distância apresentam mortalidade e morbidades aumentadas (38). O impacto sobre a morbi-mortalidade depende do número, localização e tamanho das metástases, bem como da idade do paciente (39). Sempre que a metástase é cirurgicamente ressecável, este é o procedimento de escolha, com um cirurgião com experiência em grandes intervenções e reintervenções. O procedimento deve ser agressivo, mas deve tentar preservar as funções orgânicas do paciente. Deve ser excisado o maior volume possível da massa tumoral, a fim de aumentar a eficácia do tratamento adjuvante com 131I. Se uma intervenção cirúrgica específica agressiva compromete o estado geral do paciente, sem objetivar a cura, ou na presença de metástases múltiplas adicionais, a mesma deve ser questionada (40). A radioiodoterapia pode ter função curativa ou apenas paliativa em casos de tumores irressecáveis. A atividade de 131I pode ser administrada empiricamente ou calculada por dosimetria, não havendo dados que permitam avaliar a superioridade de um método sobre o outro.

O uso do rhTSH na doença metastática ainda não está aprovado, embora existam evidências clínicas de boa resposta da radioioterapia pós-rhTSH, especialmente em crianças (24,41). Não há estudos randomizados que avaliem o papel do rhTSH no tratamento do CDT recorrente ou metastático, tampouco há uma padronização dos parâmetros de resposta descritos na literatura. Uma compilação de 214 pacientes tratados com rhTSH e 131I, cuja maioria era idosa e tinha doença avançada com metástases, mostrou que a maioria (75%) dos tumores recorrentes ou metastáticos ainda capta 131I, tornando viável o tratamento com rhTSH e 131I (24). Dos relatos que descrevem os resultados dos tratamentos, houve algum benefício clínico em 65% dos casos. A melhora clínica obtida com o tratamento inclui melhora da capacidade de deambulação, diminuição na intensidade da dor, maior socialização e aumento da capacidade de trabalho. Além disso, pacientes com metástases ósseas apresentaram dores menos intensas e mais breves, em comparação com pacientes submetidos ao tratamento sob hipotireoidismo (24). O papel do rhTSH como preparo para a terapia com 131I foi avaliado em 115 pacientes dos EUA e Canadá com CDT metastático (42). Os pacientes selecionados não apresentaram elevação do TSH após a suspensão do T4 ou apresentavam contra-indicações médicas para a suspensão do T4 e foram incluídos no programa de uso compassivo do uso do rhTSH. Em todos os pacientes nos quais o TSH foi dosado (112/115), o mesmo se elevou para > 25 mU/L. Após o rhTSH, as complicações do hipotireoidismo foram evitadas em 22 de 25 pacientes, que as relataram no passado, e em 47 de 51 pacientes com risco de desenvolver complicações com o hipotireoidismo. Em 105/115 pacientes se observou captação de 131I na PCI. Em 18/40 nos quais se pode avaliar a PCI no seguimento houve melhora das imagens. Os níveis de Tg estavam mais baixos em 73% dos pacientes avaliados após 12 meses. Sintomas relacionados ao câncer foram melhorados em cerca de 25% dos pacientes. Dois pacientes apresentaram efeitos colaterais severos provavelmente relacionados ao uso do rhTSH. Os autores concluem que o rhTSH eleva os níveis de TSH sérico e facilita a captação de 131I em pacientes que não produzem TSH endógeno ou que não podem tolerar o hipotireoidismo, com benefício para muitos pacientes (42). Uma das vantagens teóricas do tratamento com rhTSH seria a diminuição da chance de crescimento tumoral, em virtude do menor período de exposição ao TSH. Entretanto, esse risco ainda existe, mas não por proliferação celular (já que o período de estímulo pelo rhTSH é muito curto), mas sim por edema e sangramento (19). O risco de aumento tumoral pode ser minimizado com a administração prévia de corticoesteróides. De qualquer forma, o tratamento de pacientes com metástases deve ser feito com cautela, devido ao risco de complicações neurológicas (em casos de tumores em sistema nervoso central), de insuficiência respiratória aguda (nos pacientes com tumores peritraqueais ou laríngeos) e de tireotoxicose (na presença de tumores funcionantes) (42). Em resumo, o rhTSH tem eficácia ablativa semelhante ao hipotireoidismo no preparo para a ART e um papel bem definido no seguimento do CDT (o rhTSH não tem papel nos carcinomas pouco-diferenciados, indiferenciados e medulares), permitindo a detecção precoce de recorrência ou metástases. A abordagem mais aceita é a dosagem de Tg estimulada, associada à US cervical, com ou sem PCI. No tratamento do tumor metastático, os relatos sugerem que o uso do rhTSH é tão eficaz quanto o tratamento sob hipotireoidismo, podendo ser usado em casos selecionados. Em todos os casos, a administração do rhTSH evita a morbidade causada pelo hipotireoidismo.

 

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Endereço para correspondência:
Hans Graf
SEMPR — Serviço de Endocrinologia e Metabologia
Universidade Federal do Paraná
Rua Agostinho Leão Junior 285
80000-000 Curitiba, PR
Fax: (41) 3335-9394
E-mail: hansgraf@bighost.com.br

Recebido em 17/01/07
Aceito em 21/01/07