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Arquivos Brasileiros de Oftalmologia

Print version ISSN 0004-2749On-line version ISSN 1678-2925

Arq. Bras. Oftalmol. vol.69 no.3 São Paulo May/June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27492006000300014 

ARTIGO ORIGINAL

 

Incisões relaxantes limbares durante a cirurgia de catarata: resultados após seguimento de um ano

 

Limbal relaxing incisions during cataract surgery: one-year follow-up

 

 

João Carlos ArraesI; Fernando CunhaII; Tatiana Azevedo ArraesI; Ronald CavalvantiIII; Marcelo VenturaIV

IMédico Residente do Curso de Residência Médica em Oftalmologia da Fundação Altino Ventura - Recife (PE) - Brasil
IIOftalmologista do Departamento de Córnea da Fundação Altino Ventura - Recife (PE) - Brasil
IIIMédico, Oftalmologista, Chefe do Departamento de Córnea da Fundação Altino Ventura - Recife (PE) - Brasil
IVMédico, Oftalmologista, Chefe do Departamento de Retina da Fundação Altino Ventura - Recife (PE) - Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a variação do astigmatismo entre o pré-operatório, 1º mês e 12º mês pós-operatórios dos pacientes submetidos à cirurgia de catarata, com realização de incisões relaxantes limbares para redução do astigmatismo pré-operatório.
MÉTODOS:
Foram avaliados 16 pacientes submetidos a cirurgia de catarata pela técnica de facoemulsificação através de incisão escleral tunelizada de 5,5 mm, na Fundação Altino Ventura, no período entre abril e julho de 2002, na qual foram realizados incisões relaxantes no limbo (IRL), seguindo o nomograma modificado de Gills (1D – 1 IRL de 6 mm; 1-2D – 2 IRL de 6 mm; 2-3D – 2 IRL de 8 mm), nos meridianos corneanos mais curvos determinados por topografia corneana pré-operatória.
RESULTADOS: Ocorreu redução significante do astigmatismo pré-operatório no 1º mês pós-operatório, no grupo de 2 incisões relaxantes no limbo de 6 mm (57% do astigmatismo topográfico e 87% do refracional) e o de 2 incisões relaxantes no limbo de 8 mm (50% do astigmatismo topográfico e 65% do refracional), mantendo-se sem alteração significante este astigmatismo até o 12º mês pós-operatório. O grupo de 1 incisão relaxante no limbo de 6 mm não alcançou redução significante do astigmatismo, no entanto, não houve alteração significante até o 12º mês pós-operatório. Não foram observadas, ainda, complicações pós-operatórias como "glare", aniseiconia, diplopia, desconforto, infecção da ferida e afinamento ou ectasia corneana.
CONCLUSÃO:
A realização de 2 incisões relaxantes no limbo de 8 e 6 mm, para correção de astigmatismo pré-operatório de 2 a 3 e 1 a 2 dioptrias, respectivamente, mostraram-se eficazes, seguras e com efeito estável ao longo do primeiro ano de acompanhamento pós-operatório. A realização de 1 incisão relaxante no limbo de 6 mm para redução de 1 dioptria de astigmatismo pré-operatório não se mostrou eficaz, no entanto, não levou a complicações pós-operatórias significativas.

Descritores: Astigmatismo/cirurgia; Extração de catarata; Limbo da córnea/cirurgia; Topografia da córnea; Cuidados pré-operatórios; Cuidados pós-operatórios; Estudo comparativo; Seguimentos


ABSTRACT

PURPOSE: To evaluate astigmatism variation between preoperative, 1st and 12th postoperative month of patients who underwent cataract surgery with limbal relaxing incisions (LRI) aiming to reduce the preoperative astigmatism.
METHODS:
Sixteen patients who underwent cataract surgery by the phacoemulsification technique with a 5.5 mm escleral incision, at the Altino Ventura Foudation, between April and July of 2002. The limbal relaxing incisions were performed according to Gills' modified nomogram (1D – 1 LRI of 6 mm; 1-2D – 2 LRI of 6 mm; 2-3D – 2 LRI of 8 mm). They were done in the most curved meridians, determined by preoperative corneal topography.
RESULTS: Significant reduction in preoperative astigmatism was observed in the 1st postoperative month in 2 limbal relaxing incisions of the 6 mm group (57% topographic astigmatism and 87% refractional) and in 2 limbal relaxing incisions of the 8 mm group (50% topographic astigmatism and 65% refractional), maintaining the reduction with no significant alteration until the 12th postoperative month. The 1 limbal relaxing incision of the 6 mm group did not yield significant astigmatism reduction, but there was no significant alteration until de 12th postoperative month. There were also no complications such as postoperative discomfort, glare, aniseiconia, diplopia, incision infection and corneal thinning or ectasia.
CONCLUSION: Two limbal relaxing incisions of 8 and 6 mm aiming to correct preoperative astigmatism of 2 to 3D and 1 to 2D, respectively, were safe and effective with a stable effect in the first postoperative follow-up year. The 1 limbal relaxing incision of 6 mm aiming to reduce 1 diopter of preoperative astigmatism was not effective, but it did not induce any significant postoperative complications.

Keywords: Astigmatism/surgery; Cataract extraction; Limbus corneae/surgery; Corneal topography; Preoperative care; Postoperative care; Comparative study; Follow-up studies


 

 

INTRODUÇÃO

A freqüência significante de astigmatismo na população, fez necessário o surgimento de métodos para sua correção durante a cirurgia da catarata, melhorando, assim, a acuidade visual pós-operatória não-corrigida(1-5). Esses métodos devem, no entanto, preservar a asfericidade da córnea(6).

As incisões relaxantes limbares mostram-se eficazes na redução do astigmatismo pré-operatório entre 1 e 3 dioptrias, não apresentam complicações durante a sua realização e no pós-operatório precoce(7-10).

O efeito de incisões relaxantes arqueadas e radiais na córnea podem variar com o tempo(11). Estas quando realizadas no limbo, por serem mais distantes do centro óptico da córnea, podem ser mais estáveis com o tempo e apresentarem menos complicações(7).

O objetivo do presente estudo foi, portanto, avaliar a variação do astigmatismo refracional e topográfico entre o pré-operatório, 1º mês pós-operatório e 12º mês pós-operatório dos pacientes submetidos a facoemulsificação e implante de lente intra-ocular, com realização de incisões relaxantes limbares para redução do astigmatismo pré-operatório no período entre abril e julho de 2002.

 

MÉTODOS

Após aprovação pelo comitê de ética e pesquisa da Fundação Altino Ventura e assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, foram incluídos no estudo 16 pacientes.

Foram avaliados os pacientes submetidos a facoemulsificação e implante de lente intra-ocular com realização de incisões relaxantes limbares para redução do astigmatismo pré-operatório entre abril e julho de 2002. Foram realizados, nestes pacientes, consulta oftalmológica completa e topografia corneana computadorizada. Foram analisados os dados referentes ao momento pré-operatório, 1º e 12º mês pós-operatório do astigmatismo refracional e topográfico, da alteração dos vetores ceratométricos e refratométricos utilizando a fórmula de Holladay, da acuidade visual pós-operatória e dos sinais e sintomas de complicações pós-operatórias, como diplopia, aniseiconia, afinamentos e ectasias corneanas, desconforto e ofuscamento.

Os resultados de variáveis contínuas foram expressos por suas médias aritméticas e respectivos desvios-padrão, ou valores medianos e respectivas distâncias inter-quartil. Foi utilizado o teste t-Student para amostras pareadas na avaliação de possíveis diferenças entre médias. O teste de Wilcoxon foi usado para verificar possíveis diferenças entre medianas. p<0,05 foi utilizado para rejeitar a hipótese de nulidade.

 

RESULTADOS

O valor mediano da acuidade visual corrigida pré-operatória foi de 0,05 (movimento de mãos a 0,2), atingindo 0,8 (0,25 a 1) no 12º mês pós-operatório (p<0,0001). Os dados do astigmatismo refracional e topográfico do pré-operatório, 1º mês e 12º mês pós-operatórios estão descritos na tabela 1.

 

 

As incisões relaxantes limbares levaram a uma redução significante do valor médio do astigmatismo pré-operatório tanto refracional (64%) quanto topográfico (45%) já no primeiro mês pós-operatório. Esta redução manteve-se, sem apresentar diferença significante dos valores dos astigmatismos entre o 1º e 12º mês pós-operatório (Gráfico 1).

 

 

Redução significante foi observada no 1º mês pós-operatório, nos grupos onde foram realizadas 2 incisões relaxantes de 8 mm (50% do astigmatismo topográfico e 65% do refracional) e 2 incisões de 6 mm (57% do astigmatismo topográfico e 87% do refracional), mantendo-se sem alteração significante até o 12º mês pós-operatório. No grupo de 1 incisão relaxante de 6 mm, não foi alcançado redução significante do astigmatismo pré-operatório topográfico e refracional no 1º mês pós-operatório. No entanto, estes astigmatismos não apresentaram alteração significante também em relação ao 12º mês pós-operatório (Tabela 2).

Não foi observado diferença significante dos valores médios, entre o pré-operatório e 12º mês pós-operatório, dos eixos topográficos (97° para 91°, respectivamente; p=0,29) e refracionais (111° para 109°, respectivamente; p=0,64) do astigmatismo. Não foi evidenciado, ainda, complicações pós-operatórias como "glare", aniseiconia, diplopia, desconforto, infecção da ferida e afinamentos ou ectasia corneana.

 

DISCUSSÃO

A busca da correção do astigmatismo, concomitante com a redução do grau esférico, durante a cirurgia de catarata, tem feito surgir várias técnicas(12-16). Estas, no entanto, devem visar à diminuição do erro refrativo sem alterar as qualidades ópticas da córnea(6), não levar ao surgimento de complicações e, ainda, alcançarem um efeito estável e duradouro.

As incisões relaxantes corneanas apresentam grande oscilação de seus resultados e flutuação pós-operatória freqüente na refração(16), podendo levar ao aparecimento de complicações como diplopia, aniseiconia e alteração do senso espacial(12).

As incisões relaxantes feitas no limbo durante a cirurgia de catarata, propostas por Gills, para correção de astigmatismo pré-operatório de até 3 dioptrias, têm-se mostrado eficazes na redução desta ametropia, com complicações pós-operatórias não-significantes(7,9).

No presente estudo, foi alcançado uma redução significante do astigmatismo nos grupos 2x6 mm (pacientes com 1 a 2 dioptrias de astigmatismo pré-operatório) e 2x8 mm (pacientes com 2 a 3 dioptrias de astigmatismo pré-operatório) e esta redução manteve-se estável até o 12º mês pós-operatório. Não foi observada a ocorrência de complicações pós-operatórias.

No grupo 1x6 mm (pacientes com 1 dioptria de astigmatismo pré-operatório), não houve redução significante do astigmatismo, no entanto, também não foi observado flutuação significante deste astigmatismo ao longo de 12 meses, mostrando que, mesmo que o objetivo não tenha sido atingindo, as IRL não levaram ao aumento desta ametropia, ectasia corneana ou outras complicações.

 

CONCLUSÃO

A realização de 2 incisões relaxantes de 6 e 8 mm, para correção de astigmatismo pré-operatório de 1,1 a 2 dioptrias e 2,1 a 3 dioptrias, respectivamente, mostraram-se eficazes, seguras e com efeito estável ao longo do primeiro ano de acompanhamento. A realização de 1 incisão de 6 mm para redução de 1 dioptria de astigmatismo pré-operatório não se mostrou eficaz, no entanto, não levou a complicações pós-operatórias significativas.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
João Carlos Diniz Arraes
Av. Boa Viagem, 6.500 - Apto. 1502
Recife (PE) - CEP 51130-000
E-mail: joaocarlosarraes@yahoo.com.br

Recebido para publicação em 19.08.2004
Versão revisada recebida em 15.10.2005
Aprovação em 05.01.2006

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