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Arquivos Brasileiros de Oftalmologia

Print version ISSN 0004-2749

Arq. Bras. Oftalmol. vol.73 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27492010000600003 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Influência da correção cirúrgica da catarata na percepção laborativa

 

Influence of cataract surgical correction on working perception

 

 

Newton Kara-JuniorI; Marcony Rodrigues SanthiagoII; Tais Renata Ribeiro ParedeI; Rodrigo França EspindolaI; Maysa Godoy Gomes MazurekI; Renato GermanoIII; Newton Kara-JoseI

IMédico, Departamento de Oftalmologia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo - USP - São Paulo (SP), Brasil
IIMédico, Setor de Cirurgia Refrativa, Cleveland Clinic, Cleveland, OH - EUA
IIIEstudante de medicina, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo - USP - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Objetivo: Analisar o benefício gerado nas atividades profissionais após a cirurgia de catarata. Métodos: Foi realizado um estudo prospectivo, randomizado, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Os pacientes foram submetidos à facoemulsificação (FACO) e à extração extracapsular (EECP).
Resultados: A amostra foi composta de 205 pacientes, destes, 101 realizaram cirurgia pela técnica de facoemulsificação. A média de idade no grupo da facoemulsificação foi de 68,3 anos ± 9 anos e de 69,1 anos ± 8,5 anos no grupo da extração extracapsular (p=0,70). A porcentagem de pacientes empregados no grupo facoemulsificação foi de 16,83%, e no outro grupo de 13,46%. A maioria dos pacientes que não remunerados formalmente sentiu-se motivada a procurar trabalho. A maioria dos analisados relatou aumento da produtividade no trabalho após a cirurgia, 82,50% no grupo facoemulsificação e 78,60% no grupo extração extracapsular (p=0,20).
Conclusão: A cirurgia de catarata por ambas as técnicas proporcionou melhora da produtividade no trabalho, e estimulou indivíduos economicamente inativos a procurar trabalho remunerado.

Descritores: Extração de catarata; Facoemulsificação; Catarata/complicações; Cegueira/prevenção & controle; Conduta na prática dos médicos; Lentes intraoculares; Acuidade visual; Percepção


ABSTRACT

Purpose: To analyze the benefits after cataract surgery in professional activities.
Methods:
A prospective, randomized study was conducted at the Clinical Hospital of the University of São Paulo. The patients had cataract surgery by phacoemulsification (PHACO) and by extracapsular extraction (EECP).
Results:
The sample consisted of 205 patients, 101 of these, submitted to phacoemulsification. The mean age in phacoemulsification group was 68.3 years ± 9 years and 69.1 years ± 8.5 years in extracapsular extraction group (p=0.70). The percentage of patients employed in phacoemulsification group was 16.83%, and in the extracapsular extraction group of 13.46%. Most patients who were not employed felt motivated to seek work. Most of the patients increased their productivity at work after surgery, 82.50% in the phacoemulsification group, and 78.60% in the other group (p=0.20).
Conclusion:
Cataract surgery of both techniques has improved the productivity at work and encouraged economically inactive individuals to seek employment.

Keywords: Cataract extraction; Phacoemulsification; Cataract/complications; Blindness/prevention & control; Physician´s practice patterns; Lenses, intraocular; Vision acuity; Perception


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente a cirurgia de catarata com implante de lente intraocular é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados no mundo(1-3). As técnicas mais utilizadas para a cirurgia de catarata são a extração extracapsular manual do cristalino (EECP) e a facoemulsificação (FACO). Avanços no tratamento têm exigido recursos cada vez maiores. Assim sendo, decisões em saúde pública devem ser baseadas na avaliação da eficiência de cada novo procedimento. Nos últimos anos, em todos os países desenvolvidos, tem ocorrido rápida mudança na técnica utilizada para a cirurgia de catarata, com aumento progressivo do número de cirurgia por facoemulsificação(4).

A utilização dessa técnica no Sistema Público de Saúde de países em desenvolvimento, apesar de evidências na literatura quanto a seus benefícios clínicos, tem sido desestimulada pela comunidade internacional, devido aos altos custos(5-7). Embora o Sistema Único de Saúde brasileiro (SUS) financie a cirurgia de catarata por FACO, existem questionamentos em relação às vantagens e desvantagens socioeconômicas na realização des-se procedimento(8-10).

Diante da escassez de informações na literatura, em relação aos aspectos socioeconômicos da cirurgia de catarata no Sistema Público de Saúde de países em desenvolvimento, foi realizado um estudo com objetivo de avaliar os benefícios gerados com a facectomia nas atividades profissionais.

 

MÉTODOS

Foi realizado estudo clínico analítico, prospectivo, randomizado, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), em pacientes atendidos em campanhas comunitárias (Projeto Catarata).

Para compor a amostra, foram seguidos os seguintes critérios de inclusão: pessoas de ambos os sexos, entre 41 e 80 anos, portadores de catarata senil, com baixa acuidade visual (AV) bilateral (AV corrigida inferior a 20/40 - Snellen ou 0,3 logMAR, no olho de melhor visão); distância da moradia menor do que 100 km do HC-FMUSP; pressão intraocular inferior a 21 mmHg (sem tratamento) na avaliação inicial; e capacidade de compreender e responder ao questionário a ser aplicado. O questionário, que foi validado previamente, foi aplicado por investigador mascarado quanto ao objetivo do trabalho.

Os critérios de exclusão utilizados foram: restrições físicas ou clínicas, além do problema visual, capazes de limitar o desempenho do indivíduo para as atividades da vida diária e profissional; alterações oculares, além da catarata, que contribuíssem para a diminuição da acuidade visual; cirurgias oculares prévias; história clínica sugestiva de ambliopia; recusa em participar do estudo e assinatura do Termo de Consentimento; e não comparecimento à cirurgia ou aos retornos agendados.

Os pacientes foram divididos, por sorteio, em dois grupos: Grupo 1 (n=101): pacientes submetidos à cirurgia de catarata pela técnica de FACO com implante de lente intraocular (LIO) dobrável acrílica Acrysof MA30AC (Alcon Laboratórios); e Grupo 2 (n=104): pacientes submetidos à cirurgia de catarata pela técnica de EECP, com implante de LIO rígida de polimetilmetacrilato (PMMA), modelo Cristal Tipo 02 (Alcon Laboratórios). Cada paciente recebeu um número de acordo com a sequência de seleção. A seguir, utilizando-se sorteio aleatório, foi realizada a alocação de cada número a um determinado grupo, a fim de evitar qualquer direcionamento de paciente para algum grupo específico. Os médicos envolvidos no estudo não participaram do sorteio, e tiveram conhecimento da modalidade cirúrgica a ser realizados momentos antes da cirurgia.

Todas as cirurgias foram feitas por três cirurgiões adequadamente treinados, utilizando-se a tecnologia disponível no HC-FMUSP naquele momento. Apenas um olho de cada paciente foi operado.

Todos os testes estatísticos foram realizados com auxílio do programa de computador SPSS (Statistical Package for Social Sciences) 10.0 para WindowsTM (SPSS Inc, Chicago, IL, EUA). Os testes Chi-Quadrado e Mann-Whitney foram utilizados para a análise. O valor de p<0,05 foi considerado estatisticamente significativo em todos os testes.

 

RESULTADOS

Foram submetidos a cirurgia de catarata 205 pacientes, destes, 101 pela técnica de FACO e 104 pela técnica de EECP. A média de idade no grupo da FACO foi de 68,3 anos ± 9 anos e de 69,1 anos ± 8,5 anos no grupo da EECP (p=0,70). Quanto ao sexo, 35,3% e 44,1% dos pacientes eram do sexo masculino no grupo da FACO e EECP, respectivamente (p=0,40). A tabela 1 apresenta a distribuição ocupacional, por tipo de cirurgia. A porcentagem de pacientes empregados no grupo FACO foi de 16,83%, e no grupo EECP de 13,46%.

 

 

A maioria dos sujeitos não empregados, em ambos os grupos, referiu que a dificuldade visual associada à catarata interferiu na sua situação ocupacional (Tabela 2). Na ocasião da alta pós-operatória, a maioria dos pacientes que não tinha remuneração formal, sentiu-se motivada a procurar trabalho (Tabela 3). A maioria dos pacientes relatou aumento da produtividade no trabalho após 180 dias da cirurgia (Tabela 4). Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p=0,20).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Na presente pesquisa, os dois grupos estudados eram homogêneos, quanto a idade, sexo e tipo de ocupação (Tabela 1). Outros estudos nacionais também observaram características semelhantes de pacientes selecionados para cirurgia de catarata em hospitais públicos(11-12).

A maior proporção dos indivíduos analisados não exercia atividade profissional remunerada, 83,17% no grupo FACO e 86,54% no grupo EECP (Tabela 1), proporção semelhante à constatada por outros estudos(13-14). Estes pacientes relatavam que a atual situação de desemprego era influenciada pela dificuldade visual (Tabela 2). Após a realização da cirurgia, a maioria dos indivíduos não empregados, em ambos os grupos, declarou-se motivada a procurar trabalho, devido à melhora da condição visual (Tabela 3), resultado semelhante a outro estudo nacional(12).

Segundo dados do IBGE em 2002, 36,0% da população brasileira acima de 50 anos eram economicamente ativa(12). Embora a média de idade dos indivíduos da amostra deste estudo fosse superior a 60 anos, é possível que a proporção dos sujeitos economicamente ativos (média de 15,21%, em ambos os grupos), seja inferior ao padrão nacional para aquela faixa etária.

Esses indivíduos, apesar da melhora da condição visual após a cirurgia, poderão encontrar dificuldade em conseguir emprego, pelo fato de já terem sido excluídos do mercado de trabalho. Segundo alguns trabalhos(12,14-15), a cirurgia de catarata deve ser realizada antes que o paciente esteja visualmente incapacitado, pois a reintegração ao mercado de trabalho passa a ser um grande obstáculo. A cirurgia realizada antes que as dificuldades resultantes da baixa visão afastem o indivíduo do trabalho significa, também, uma ação preventiva da "cegueira econômica".

Convém enfatizar que em ambos os grupos, a maioria dos indivíduos que estavam trabalhando referiram melhora na produtividade após a cirurgia (Tabela 4). A recuperação visual após a cirurgia de catarata aumenta a produtividade do trabalhador e estimulam outros que não trabalhavam a procurar trabalho. Esse fato, já pode indicar o retorno ao Estado do investimento com a cirurgia, além de propiciar melhora na qualidade de vida dos pacientes.

Assim, considerando a proporção reduzida de indivíduos que trabalhavam mediante remuneração, pode-se inferir que muitos sujeitos que poderiam ser economicamente ativos, já se incluíam na denominada "cegueira econômica", ocasionando prejuízos para o país, sociedade, para o próprio indivíduo e sua família.

Importante salientar que a amostra estudada foi composta por pacientes selecionados em projetos comunitários (Projeto-Catarata) realizados pelo HC-FMUSP, que visam minimizar as dificuldades de acesso ao tratamento de pacientes com dificuldade visual por catarata. Assim, é possível que, na rotina do atendimento público, existam barreiras adicionais para acesso à cirurgia, retardando ainda mais o tratamento.

 

CONCLUSÃO

Nas condições desta pesquisa, a cirurgia de catarata por ambas as técnicas, proporcionou melhora do desempenho no trabalho, e estimulou indivíduos economicamente inativos a procurar trabalho remunerado.

 

REFERÊNCIAS

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4. Schwab L. Eye care delivery in developing nations: paradigms, paradoxes, and progress. Ophthalmic Epidemiol. 1994;1(3):149-54.         [ Links ]

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Endereço para correspondência:
Marcony Rodrigues Santhiago
1700 13th st - 44114
Cleveland, OH, USA
E-mail: marconysanthiago@hotmail.com

Recebido para publicação em 29.05.2009
Última versão recebida em 31.10.2010
Aprovação em 02.11.2010

 

 

Trabalho realizado no Setor de Catarata do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - USP.

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