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Arquivos de Gastroenterologia

Print version ISSN 0004-2803On-line version ISSN 1678-4219

Arq. Gastroenterol. vol.36 no.4 São Paulo Oct./Dec. 1999

https://doi.org/10.1590/S0004-28031999000400002 

IN MEMORIAM

 

JOSÉ VICENTE MARTINS CAMPOS

 

 

Fez-se médico atendendo forte vocação interior e também influência paterna. O pai, prestigioso farmacêutico e destacado líder político em sua tão amada Santa Cruz das Palmeiras, SP.

Desde cedo, também, sua vocação musical, cultivada até o fim da vida, com autêntica paixão.

Formado em 1948 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, começou a trabalhar na enfermaria do Prof. Cantídio de Moura Campos, em que já se destacava o Dr. José Fernandes Pontes, forte liderança enriquecida com bagagem trazida da Clínica Mayo e das Escolas Alemãs. Metodologia laboratorial e radiológica para os dois futuros grandes clínicos do aparelho digestivo e algo mais.

No começo dos anos 50, criam o IGESP - Instituto de Gastroenterologia de São Paulo, na rua Japurá, a primeira clínica integrada a desenvolver radiologia, laboratório clínico, endoscopia, laparoscopia, hepatologia, biopsia hepática e psicanálise, com raízes no Hospital das Clínicas e galhos frondosos na clínica privada, em pouco tempo um nome nacional.

Nos anos 60, fundam o IBEPEGE - Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas de Gastroenterologia, com um pequeno grupo de brilhantes colaboradores, instituição que viria a destacar-se como outro nome nacional.

Ali foram realizados, até os anos 80, dezenas de Cursos, Simpósios, Jornadas, Encontros, Seminários, Palestras. Completaram sua pós-graduação em nível de especialização quase duas centenas de médicos, muitos deles vindos de fora e hoje professores em suas paragens. Ali foram defendidas 70 teses de mestrado. E ali nasceram os Arquivos de Gastroenterologia, publicação regular do IBEPEGE, que teve em Martins Campos um de seus mais operosos editores, que se orgulhava de ter conquistado sua inclusão no Index Medicus.

Com a extinção do Departamento de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas, mais um dos incontáveis desacertos do que se convenciona chamar de Política Universitária, passou a trabalhar no Departamento de Pediatria, onde organizou o Laboratório de Investigações, e lá frutificou seu talento de clínico, investigador e homem de laboratório. Foi pioneiro nos estudos das síndromes de má absorção, da doença celíaca, da mucoviscidose com ênfase também pioneira na biopsia intestinal colhida por cápsula.

Quantos jovens certamente puderam desenvolver-se, viver e crescer e não morrer ou definhar, por seu feliz intervento. Com sua habilidade laboratorial, sua capacidade didática e sua personalidade convincente, despertou nos pediatras o gosto pela Gastroenterologia, ele, em origem, um médico de adultos.

Suas atividades na Johnson & Johnson do Brasil constituem outra face brilhante de sua vida. Bolsista e depois Chefe do Departamento Médico e Científico (1951-1971), Consultor, Diretor do Comitê Biomédico (1971-1986).

Pioneiro, nos anos 50, na introdução do soro caseiro contra a desidratação, foi também responsável pela formulação e divulgação de alguns medicamentos consagradíssimos, que salvaram milhares de vidas. Fez brilhantes campanhas de atualização da classe médica, com utilíssimas publicações.

Publicou mais de 150 trabalhos e orientou 60 teses de Mestrado e Doutorado.

Não menos notável, sua participação em Sociedades Médicas, Membro Emérito da Academia de Medicina de São Paulo, foi fundador da Sociedade Paulista de Gastroenterologia Pediátrica e da Sociedade Latino Americana de Pesquisas em Gastroenterologia, um dos poucos brasileiros membro da European Society of Pediatric Gastroenterology and Nutrition.

Exerceu a Medicina como obra de arte e como fruto de investigação científica, no que atendeu sua dupla vocação científica e artística. Medicina como Arte de corrigir os pecados da natureza, que necessita da precisão e da profundidade dos conhecimentos científicos para entender e resolver os problemas e seus pacientes, ou os pacientes com seus problemas, na infinita sutileza do jogo das individualidades.

Ato de amor a Deus e a sua Criação, mas que também implica em soma muito bem orquestrada de recursos, poderes, conhecimentos, desvelos, dedicação, sacrifícios que poucos conseguem elevar a nível de excelência. Martins Campos marcou forte presença e abriu amplos e claros espaços no cenário médico e cultural de São Paulo e do Brasil.

Médico, professor, homem de ciência, pesquisador, dirigente e consultor empresarial, fundador de sociedades, homem político, músico, memorialista inesgotável, escritor.

Inesquecível, sua charmosa sala do terceiro andar do IGESP, retrato íntimo de sua personalidade, onde milhares de pessoas ali encontraram um médico com estupenda visão clínica da própria. Cultor também da Psicanálise e de Freud, era Membro da Sociedade Freud de Viena e grande admirador também de Jung e de Campbell, mais recentemente falecido.

Tudo isto, integrado na bagagem cultural do clínico de adultos, crianças e de Família.

Ele mesmo, uma orquestra muito bem regida de paixões, valores e vocações humanas tão bem realizadas.

 

Cássio RAVAGLIA

 

 

Lido em homenagem prestada pela Sociedade Paulista de Gastroenterologia Pediátrica e Nutrição, na sede do IBEPEGE, sob a Presidência da Profa. Dorina Barbieri, em 17 de outubro de 1998.

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