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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Print version ISSN 0004-282X

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.29 no.3 São Paulo Sept. 1971

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X1971000300012 

In memoriam

 

 

 

Professor Raymond Garcin (1897-1971)

Com o falecimento do Prof. Raymond Garcin, em 27 de fevereiro de 1971, desapareceu uma das grandes figuras da semiologia neurológica. Dotado de atilado espírito observador, dispendia, por vezes, várias horas no exame clínico e neurológico de seus pacientes, analisando e criticando seus achados, cotejando-os com os elementos anamnésticos para, com peculiar clarividência, constituir as bases para o diagnóstico. Sempre contrariando tendências hoje bastante difundidas no sentido de fundamentar o diagnóstico em exames paraclínicos precocemente solicitados, Raymond Garcin só recorria aos exames complementares quando todos os elementos semiológicos tivessem sido colhidos e ponderadas todas as alternativas diagnósticas. Entretanto, esse semiologista por excelência admirava e reconhecia o valor dos métodos laboratoriais e instrumentais a tal ponto que, após sua aposentadoria, passou a dedicar-se à microscopia eletrônica.

Seus discípulos jamais esquecerão o processo peculiar de desenvolver em voz alta as diversas etapas do raciocínio diagnóstico, apresentando objeções que êle mesmo opunha às próprias hipóteses, até chegar às conclusões. Cada discussão de caso constituía uma lição para os neurologistas que dele se acercavam. Dotado de inata capacidade didática, sempre tinha a seu lado médicos e estudantes, não só de seu país mas das mais diversas nacionalidades, todos imantados por sua simpatia pessoal, pela paternal acolhida e pelo vigor de seus ensinamentos. Para os brasileiros que mais intimamente o conheceram era comovente o amor e simpatia que Raymond Garcin dedicava ao Brasil, onde esteve por várias vezes.

Raymond Garcin nasceu em 21 de setembro de 1897, na Martinica, onde passou sua infância e cursou seus estudos secundários. Formou-se em Medicina em Paris, tornando-se sucessivamente Interno dos Hospitais (1923), Doutor em Medicina (1927), Médico dos Hospitais (1930), Professor de Patologia e Terapêutica Gerais (1953) e, por fim, Professor de Clínica Neurológica, cátedra criada especialmente para êle, em 1959. Aliada a excepcional capacidade de trabalho, a curiosidade científica de Raymond Garcin incursionou praticamente em todos os setores da Neurologia, marcando-os com trabalhos aos quais soube imprimir novas facetas, oriundas da originalidade de seu pensamento e do rigor de seu espírito científico. Sua obra neurológica se traduz por cerca de 300 contribuições, além das numerosas teses por êle inspiradas. A preocupação pela semiologia, secundada pelas explicações fisio-patológicas e pelas correlações anátomo-clínicas, caracterizou a essência de sua contribuição à literatura neurológica. Com sua tese de 1927 — "Syndrome paralytique unilatéral global des nerfs crâniens" — Raymond Garcin descreveu um quadro oriundo habitualmente de neoplasmas do rinofaringe ou de sarcomas da base do crânio. Diversos trabalhos semiológicos compõem sua obra, dentre os quais destacamos aqueles em colaboração com Rademaker, destinados à adaptação estática (1932 e 1933), ao reflexo do piscamento à ameaça (1932, 1934) e, principalmente, ao sinal da mão escavada encontrável em atetoses frustas ou em paresias por lesão piramidal. Em colaboração com Marcel Kipfer, demonstrou, clínica e experimentalmente, a existência de uma síndrome de Claude Bernard-Horner em determinadas lesões do tálamo óptico o que foi amplamente confirmado com o advento da cirurgia estereotátixa para o tratamento da doença de Parkinson. Em outros trabalhos, a patologia do tálamo foi objeto de sua atenção, culminando com a descrição de uma forma talâmica da doença de Creutzfeld-Jakob (1963). Com a cooperação de seu neuro-oftalmologista, H. X. Man, Garcin incursionou em vários aspectos da patologia neuro-ocular, descrevendo aspectos inéditos, sobretudo no que se refere à patologia de nervos óculo-motores. Em sua ampla visão, teve o mérito de chamar a atenção para os aspectos neurológicos de doenças sistêmicas (porfirias, colagenoses, diabete, disgamaglobulinemias), sobretudo quando eles precediam à identificação da afecção fundamental. Várias monografias e livros de consulta obrigatória, pontilham sua obra científica. Dentre eles, merecem destaque, "Thrombophlebites cérébrales" (1949) com Marcel Pestel, "Les aspects neurologiques des malformations congénitales de la charnière crânio-rachidienne" (1959), em colaboração com Oeconomos e "Étude clinique des médullopathies d'origine vasculaire" (1962), corn Godlewski e Rondot.

Seus méritos de neurologista, universalmente reconhecidos, lhe valeram numerosos títulos honoríficos, dentre os quais o de Membro Honorário da Academia Brasileira de Neurologia. Vários neurologistas brasileiros dele herdaram o amor à especialidade, a crítica ao próprio raciocínio, o rigor da investigação e, sobretudo, seu respeito ao doente. A êste cabiam suas prioridades. Seu exemplo e sua obra jamais perecerão entre os que, com êle tendo convivido, souberam amá-lo.

Roberto Melaragno Filho

 

 

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