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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

versão impressa ISSN 0004-282X

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.51 no.1 São Paulo mar. 1993

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X1993000100024 

In memorian

 

 

 

É com profundo pesar que registramos o falecimento do Professor Alexandre Alberto de Alencar, ocorrido em 9-julho-1991. no Rio de Janeiro, na fase da vida que atingira o acme de sua brilhante carreira de médico, pesquisador, cientista e professor, dominando com maestria os meandros da difícil e apaixonante área da Neuropatologia. Priva-se a Medicina pátria e especialmente a Patologia de um dos seus mais entusiastas e expressivos cultores.

Alexandre Alencar era assim: aparência e atitude moderadas e simples, que falava apenas o necessário, mas o suficiente para não deixar de ser explícito; calmo e elegante. Educado e sóbrio, pautava a sua vida nos moldes dos dons recebidos da herança familiar, ar de respeitosa admiração e dedicado amor aos progenitores. Esse Alexandre Alencar simples, embora sempre irrepreensível, sabia rir com naturalidade e graça nos momentos oportunos, como transbordava na ênfase o entusiasmo que suas lições magistrais proporcionavam. Sabia também, e como!, ajudar, orientar e dirigir os colegas mais moços ou os veteranos que a ele recorressem. Durante mais de 3 décadas de sua curta e profícua existência, como patologista, pesquisador e professor no Instituto de Neurologia Deolindo Couto e como Pesquisador e Patologista do Instituto Oswaldo Cruz, praticamente, todos os trabalhos e publicações dessas fontes, tinham a sua chancela como autor, co-autor ou orientador.

Alexandre Alberto de Alencar nasceu em 1-novembro-1929, em Manaus AM. Ali fez os cursos primário e secundário. No Rio de Janeiro cursou a então Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, pela qual se diplomou em 1955. Em 1956 ingressou no Instituto de Neurologia da mesma Universidade, sob a chefia de Mário Vianna Dias. Na mesma instituição recebeu, a seguir, a sábia orientação de Paulo Elejalde em Neuropatologia, que cedo vaticinou que Alexandre seria não apenas seu discípulo dileto, mas seu seguidor e, eventualmente, o seu substituto. Iluminado por seus ensinamentos e conduzido pela disciplina e amor ao trabalho, Alexandre Alencar, de degrau em degrau, foi se firmando e impondo, embrenhando-se nos difíceis terrenos das lesões à procura da informação correta sobre sua natureza, causa e mecanismo. No Instituto de Neurologia da antiga Universidade do Brasil, plasmou sua formação de especialista, sem demora atingindo o cargo de Chefe da Divisão de Neuropatologia.

Em 1962 ingresou, por concurso, no Instituto Oswaldo Cruz (IOC), oportunidade na qual passou a dividir com aquela renomada instituição, suas múltiplas tarefas. Ao tempo em que não diminuia nem decrescia em qualidade sua produção no Instituto de Neurologia, avultavam, a cada passo, seus trabalhos em Manguinhos, numa invejável carreira na qual também, como na Universidade, pesquisava e ensinava. Assim foi que ascendeu, brilhantemente, aos postos de Chefe de Seção de Fisiopatologia da Divisão de Patologia do IOC em 1964, logo depois chefe da Seçção de Anatomia Patológica (1965) e, a seguir, substituto eventual do Chefe da Divisão de Patologia. Paralelamente, foi designado Professor do Curso de Aplicação do IOC, no qual lecionou os típicos Patologia e Micologia, além de outras atividades didáticas durante o tempo em que ali laborou, ou seja, até o fim de sua vida. No magistério da UFRJ (Instituto de Neurologia e Faculdade de Medicina) foi incessante e extensa sua participação docente sem prejuízo das outras funções. Regeu, anualmente, o capítulo de Neuropatologia na Clínica Neurológica até a transferência da Disciplina para o Hospital Universitário e, enquanto viveu, ministrou anualmente cursos de Neuropatologia para Médicos Residentes e Estagiários. Era também Professor Titular dos Cursos de Pós-Graduação para Mestrado e Doutorado no Instituto de Neurologia desde a sua instituição e, ainda, da mesma Disciplina e dos mesmos cursos no Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Tão marcante e abrangente foi o exercício da função docente que, só no Instituto de Neurologia, de parte as aulas, foi o Orientador de 11 teses de Mestrado, 2 de Doutorado e ainda participou de 8 bancas examinadoras de outras. Alexandre Alencar, todavia, fazia mais no ensino: detinha e com especial carinho e dedicação o cargo de Professor Titular (Fundador) da Faculdade de Medicina de Vassouras, onde comparecia com invejável assiduidade e entusiasmo.

A produção científica de Alencar é excepcionalmente valiosa, sendo divulgada em congressos e conclaves nacionais e destes, principalmente nos brasileiros de Neurologia, patrocinados pela Academia Brasileira de Neurologia, Jornadas Científicas da Fundação Oswaldo Cruz. além de tantos outros expressivos, internacionais, tais como os Pan-Americanos. Ascendem a mais de 100 os trabalhos de sua autoria, só ou em colaboração, publicados em periódicos especializados ou de grande circulação, vários dos quais em órgãos estrangeiros. Quem consulta as Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, o Jornal Brasileiro de Neurologia (Revista Brasileira de Neurologia), os Arquivos de Neuro-Psiquiatria. O Hospital, dentre outros, editados nas 3 últimas décadas, encontra ali, invariavelmente, publicações de Alexandre Alencar. Citem-se também os livros nos quais escreveu capítulos especializados: Pathology of the Nervous System, vol. III, Ed. Jeff Minckler, (Mc Graw Hill. New York) em que é o autor do capítulo Schistomiasis (1972) e, no vol. VIII do mesmo Tratado, do capítulo Chagas's Disease. Outros capítulos merecem ser enumerados. Em 1976 colaborou na obra Pneumologia, de A.B. Tarantino (Guanabara Rio de Janeiro); em 1987, Anatomia Patológica, in Tumores do Tronco Cerebral, de Silvia R. Costa Leite. (Ed. Pirâmide Novos Tempos); em 1980. Anatomia Patológica da Paralisia Cerebral, in Paralisia Cerebral de Araújo Leitão. (Ed. Artenova); em 1982, Tumores do Tecido Nervoso, in Dermatologia Prática, de Izamar Malidiu e Sérgio Silva; em 1984, Neurinomas, in Dermatopatologia, de Izamar Malidiu (Atheneo). As teses defendidas nos concursos para Biologista do Instituto Oswaldo Cruz em 1963 (Contribuição ao estudo da neuro-secreção nos vertebrados: estudo sobre o sistema neuro-secretor do oligoqueta Pheretima hawayana e suas analogias com outros sistemas neuro-secretores do reino animal) e a para concorrer à Docência Livre de Neuro-Patologia da Faculdade de Medicina da UFRJ em 1970 (Alterações nucleares em algumas neuro-viroses humanas) constituíram importantes subsídios ao estudo e conhecimento desses discutíveis temas. Tão grande é a messe de contribuições de Alencar, que é difícil, senão impossível, enumerá-las. Não se pode omitir, todavia, a referência a algumas de suas pesquisas, de grande repercussão, como as sobre neuro-secreção, doença de Chagas (1. Comprometimento do sistema nervoso central na doença de Chagas, formas aguda e crônica: 2. Estudos in vivo e in vitro do comportamento biológico de populações de tripomastigotas sanguíneos finos e largos de uma cepa de Trypanosoma cruzi; 3. Parasitismo do aparelho genital masculino na doença de Chagas experimental; 4. Imunomodulação na doença de Chagas experimental), alterações anátomo-patológicas no alcoolismo crônico (em col.), esclerose lateral amiotrófica (estudos clínicos, anátomo-patológicos e epidemiológicos, numa longa linha de pesquisas com José Braz de Lima) e, ainda, sobre a etiopatogenia das panencefalites esclerosantes sub-agudas.

Como Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia, expoente da Fundação Oswaldo Cruz e das Sociedades especializadas sábias do país, brindava a elas com trabalhos com sua chancela, garantia de seriedade e valor. A obra de Alexandre Alencar transpôs fronteiras e não pode ser apreciada aqui senão nas referências essenciais. Ele estudou, trabalhou, pesquisou, produziu, ensinou. Conquistou láureas e prêmios acadêmicos. Sua falta é imensa e o vazio deixado com a sua partida priva nossa Medicina de um dos seus mais autênticos e apaixonados cultivadores.

À sua dedicada esposa e inceitvadora incansável, nossa colega Laura Sucena de Alencar e aos filhos Carlos Adriano e João Paulo, também médicos, e Luiz Eduardo, estudante, que herdaram a boa seiva das virtudes que o Pai soube cultivar e em comunhão de sentimentos nobres que, partilhando com a Mãe, lhes transmitiram, a expressão de nossa incontida tristeza e a prece a Deus para que, como um bom, ele descanse em paz.

 

Clóvis Oliveira

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